Romances sobre o fracasso

«This category is, of necessity, a crowded one. Novelists are drawn to failure», explica Howard Jacobson, ao sugerir cinco títulos essenciais sobre o tema. E Jacobson sabe do que fala: The Finkler Question, o seu último livro, com o qual ganhou o Man Booker Prize 2010, é também um romance sobre o fracasso.

Um bom exemplo da nobre arte do pastiche

Este divertimento de José António Abreu, à maneira de Gonçalo M. Tavares.

Prémio Jean-Carrière para Enrique Vila-Matas

Por Dublinesca, editado em França pela Christian Bourgois e em Portugal, espera-se que brevemente, pela Teorema.

O abismo da solidão

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Um Repentino Pensamento Libertador
Autor: Kjell Askildsen
Título original: En plutselig frigjørende tanke
Tradução: Mário Semião
Editora: Ahab
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-989-96340-6-0
Ano de publicação: 2010

Depois de nos ter revelado Dag Solstad, mais a sua história do colapso de um professor de liceu em Oslo, com Ibsen ao fundo (Pudor e Dignidade), a editora Ahab dá a conhecer aos leitores portugueses alguns dos melhores contos de Kjell Askildsen, numa belíssima antologia intitulada Um Repentino Pensamento Libertador. Uma pergunta impõe-se desde logo: como é que ninguém publicou antes em Portugal um autor desta magnitude, sem dúvida um dos maiores escritores vivos da Noruega (e de toda a Escandinávia), enquanto pululam pelas livrarias toda a sorte de policiais suecos, muitos deles meros sucedâneos de Stieg Larsson? A pergunta é retórica, claro.
Logo no primeiro conto, Crias de gaivota, estabelece-se um tom que há-de perdurar nas histórias que se seguem. Durante um passeio de barco à vela, dois amantes desmontam a estranheza da sua oblíqua relação amorosa e o pânico de um dia sentirem que não «viveram verdadeiramente», enquanto a paisagem da ilha onde atracam se incendeia, materializando em chamas a violência das emoções que afloram no diálogo mas nunca chegam a ser ditas.
As personagens de Askildsen são figuras à beira do abismo da solidão, mais cínicas do que desesperadas, mais niilistas («Não acredito que haja um propósito em seja o que for», diz uma delas) do que sentimentais. A incomunicabilidade entre homens e mulheres, entre pais e filhos, entre velhos desiludidos e o mundo, atravessa todas as narrativas e torna-as quase irrespiráveis. Por vezes, a tensão resolve-se em conflito aberto (veja-se Ingrid Langbakke, uma obra-prima que merecia ser filmada por Ingmar Bergman); outras vezes, fica a pairar num silêncio cortante; outras ainda, desfaz-se numa melancolia que magoa.
À edição da Ahab, muito cuidada como sempre, faltou apenas datar os 13 textos, escritos em diferentes fases da obra de Askildsen, e precisar a sua origem – o que permitiria perceber melhor de que forma foi evoluindo, no tempo, o estilo rigoroso e a mestria narrativa deste autor.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 95 da revista Ler]

Rio vs. Rio

Pelos vistos, é mais fácil dar o nome de José Saramago a uma rua no Rio de Janeiro do que no Porto de Rui Rio.

Carlos da Veiga Ferreira sai da Teorema

Por não concordar com as alterações ao seu contrato propostas pela LeYa (no sentido de um corte significativo de funções e de vencimento), Carlos da Veiga Ferreira, um dos decanos da edição portuguesa, abandonou no final de Novembro o projecto da sua vida: a Teorema (e o extraordinário catálogo que ali foi construindo ao longo de mais de 20 anos: Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Vladimir Nabokov, Primo Levi, W. G. Sebald, Raymond Carver, Martin Amis, Vila-Matas, etc., etc.).
Com todos os seus defeitos, que passaram por traduções descuidadas, revisões catastróficas e manchas gráficas próximas da ilegibilidade, a Teorema foi um oásis de qualidade literária numa paisagem em que os oásis de qualidade literária escasseiam. E isso deveu-se ao critério e exigência de um homem: Carlos da Veiga Ferreira.
Agora, fechado a bem ou a mal este capítulo (mais a mal do que a bem, parece), espero reencontrá-lo à frente de outros projectos editoriais a que se dedicará, estou certo, com igual paixão. A nuvem do charuto do Carlos, prenúncio da sua voz grave e de uma presença carismática, não se pode dissipar assim tão facilmente.

David Sedaris e as sessões de autógrafos

«I know that a lot of authors complain about their book tours: “Oh, it’s exhausting.” But I really like it.»

Para cá dos montes

Eis uma daquelas pequenas felicidades que ajudam a seguir caminho: sermos admirados por quem admiramos.

Luz sobre papel

«Nos crimes: vê esta fotografia? É este homem? Sim, dizem 10 testemunhas.
A fotografia prova; a fotografia como o processo racional por excelência; a imagem substituiu o 2+ 2 = 4. Imagem: luz sobre papel. O verdadeiro iluminismo não é, pois, o da enciclopédia ou o do grande raciocínio do cientista, a principal luz é a que forma a imagem, a fotografia, o filme; tudo isto é o topo do iluminismo, o grande destino do homem: a luz finalmente chegou, a luz que tudo prova. É este o homem? Sim, é este: o da fotografia.
É este também o criminoso (e apontamos agora para quem mostra a fotografia) pois é ele que põe no lugar da inteligência, da dedução, indução e outros processos, é ele que substitui estes métodos, de uma vez e para melhor, por uma imagem. É este o criminoso, dirá quem ainda viver noutro século, e quem ainda julgar que ser racional é pensar. Mas nada disso, pois claro. No século XXI: ser racional é ver.»

[in Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares, Porto Editora, 2010]

O que aí vem (Google eBooks)

[via BlogTailors]

Digital writer’s block

Há uns dias, coloquei na minha conta de Twitter estas perguntas:

Alguém já sofreu a angústia do tweet ou do post em branco? Haverá writer’s block nos writers blogs? E nas redes sociais?

No seu blogue, Martyn Daniels, mesmo sem ter lido o tweet, avança com uma resposta que contém outras perguntas:

«We have always read about writers block and of stories where even the best of authors have found themselves ‘frozen at the typewriter’ and have become literally, lost for words. Writers block could last for days, weeks and even months.
In today’s permanently on line world of web sites, blogs, tweeter, SMS and Facebook the demand for a constant engagement and contribution questions whether writer’s block is now acceptable. Any slow down or lack of contribution no matter small can now often result in the new online readers simply moving elsewhere for their instant fix. Will authors find themselves now under increased pressure not just to write the book, contribute to the web site, answer fan mail, but also tweet and blog?
After writing close on 2000 articles we stopped this week. (…) Given it was a Saturday we thought it safe to drop our guard and write about our current blockage. Of course it doesn’t really matter if we write or not as we do it to understand and galvanise our thinking and share it with others. However we wonder how authors will manage in the world that demands instant and constant feeds and will the Stephen Fry multi threaded model prevail for all?»

Philip Pullman lê Anton Tchekov

Num podcast disponibilizado pelo The Guardian, Pullman lê o conto The Beauties, de Tchekov, «a masterpiece of minimalism».

A verdade oblíqua

Cem Poemas
Autora: Emily Dickinson
Tradução: Ana Luísa Amaral
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 272
ISBN: 978-989-641-173-2
Ano de publicação: 2010

O caso de Emily Dickinson (1830-1886) é um dos mais singulares de toda a história da literatura. Nascida em Amherst, no Massachusetts, ela viveu grande parte da vida numa reclusão voluntária, raramente abandonando a casa da família e, nos últimos anos, quase não saindo do quarto. Se o confinamento doméstico nunca lhe tolheu a criatividade, funcionando antes como um casulo dentro do qual foi tecendo uma obra absolutamente original (e em evidente ruptura com os códigos dominantes na época), o certo é que Dickinson tinha provavelmente consciência de que aqueles poemas difíceis – com inúmeros travessões, de sintaxe áspera, muito densos e por vezes crípticos – teriam que esperar algumas décadas para serem devidamente apreciados.
Quando morreu, aos 55 anos, publicara cerca de uma dezena de textos em jornais e revistas. Foi a irmã, Lavinia, a quem pedira para destruir correspondência após o seu desaparecimento, que descobriu espantada um espólio com mais de mil poemas, os quais viriam a formar, reunidos aos seiscentos em posse de Susan Gilbert (mulher de Austin Dickinson, irmão de Emily), o extraordinário corpus que projectou esta poeta para o cânone da literatura norte-americana, como brilhantíssima precursora de um modernismo que só explodiria em pleno século XX.
Desta obra imensa, Ana Luísa Amaral acaba de seleccionar e traduzir Cem Poemas, juntando-se a outros notáveis tradutores portugueses: Jorge de Sena (que traduziu 80 poemas), Maria Gabriela Llansol (39), Cecília Rego Pinheiro (26) e Nuno Júdice (65). Se algumas opções são discutíveis, é preciso ter em conta dois aspectos: 1) a extrema dificuldade de verter para outra língua certas suspensões sintácticas e a estranha música destes versos; 2) a dupla autoridade de Ana Luísa Amaral para realizar este trabalho, enquanto poeta ela mesma e enquanto especialista na autora em causa (a sua dissertação de doutoramento, defendida em 1995, intitulava-se Emily Dickinson: Uma Poética de Excesso).
A solidez da perspectiva académica de ALA torna-se evidente no magnífico posfácio, em que a tradutora, para além de contextualizar a importância desta poesia, traça o emaranhado percurso da sua fixação e publicação, ainda hoje problemática devido ao carácter aberto de muitos poemas (de que se conhecem vários manuscritos, com variantes), uma «pluralidade textual» que «continua a revelar fracturas e desvios». De resto, um estado de coisas que a própria autora antecipou num dos seus versos mais conhecidos: «Diz toda a Verdade mas di-la oblíqua –».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 95 da revista Ler]

Efeméride

Ontem, passaram 180 anos sobre o nascimento de Emily Dickinson, a extraordinária poeta que abalou os alicerces da literatura norte-americana, fechada num quarto em Amherst. A quase totalidade dos seus poemas pode ser lida aqui e os «arquivos electrónicos» estão abertos para consulta aqui.

Emily

A borgesiana Biblioteca de Babel, ao virar da esquina

«Hace más de 70 años que Borges presentó el universo como biblioteca sin límites, con escaleras de caracol infinitas y miles de pasillos entrecruzados. En una peculiar e involuntaria analogía, los expertos actuales hablan de sistema de nodos interconectados, centros en red y acceso a todo el saber del mundo desde la soledad de la pantalla del computador.
“La meta es que el universo cultural entero pueda aparecer en la pantalla de consulta, hacer real el concepto totalizador de la biblioteca de Babel de Borges”, explica Gubern, quien la pasada semana participó en Santiago de Compostela en un encuentro sobre el pasado, presente y futuro de las bibliotecas.»

Ler mais neste artigo do El País.

Luta dos homens

luta

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Matteo Perdeu o Emprego (Porto Editora) e O Senhor Eliot e as conferências (Caminho), de Gonçalo M. Tavares, por José Mário Silva
Quando Lisboa Tremeu, de Domingos Amaral (Casa das Letras), por Luísa Mellid-Franco
História do Século XX, de Martin Gilbert (D. Quixote), por Luís M. Faria
Apanhar Ar, de Adília Lopes (Assírio & Alvim), por Manuel de Freitas
– Revista Criatura, n.º 5, por Hugo Pinto Santos
Pequeno-almoço com Sócrates, de Robert Rowland Smith (Lua de Papel), por Ana Cristina Leonardo

Vida subterrânea

No início da década de 90, eu era aluno da Faculdade de Ciências de Lisboa e cumpria quase diariamente um percurso de vinte minutos no metropolitano, entre o Rossio e a Cidade Universitária. Quando não tinha a sorte de encontrar um lugar sentado, que me permitisse um prolongamento da sessão de leitura iniciada no barco que me trazia da outra margem do Tejo, entretinha-me a observar os outros passageiros, olhando para eles como um escritor olha para as suas personagens. Na forma como se sentavam, como inclinavam a cabeça, como bocejavam ou sacudiam uma mosca, via sinais do que poderiam ser as suas vidas, as suas tristezas e alegrias, as suas personalidades. E imaginava histórias para aqueles corpos, tantas vezes ligeiramente encolhidos (por se sentirem observados?). Os outros passageiros eram páginas em branco, portas de entrada para ficções à espera de serem escritas, mas os seus rostos esfumavam-se mal saía da carruagem e subia em passo rápido as escadas, procurando lá fora, por trás da Aula Magna, o perfil do edifício C2.

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Uma das grandes virtudes dos desenhos de António Jorge Gonçalves, reunidos no volume Subway Life (edição Assírio & Alvim), é esta: os rostos dos passageiros não se esfumam. Muito pelo contrário. O pequeno jogo que eu fazia (e que provavelmente toda a gente faz nas mesmas circunstâncias) foi elevado pelo co-criador de Filipe Seems a uma forma de arte súbita. Quando vivia em Londres, estes retratos instantâneos da primeira pessoa que se sentasse à sua frente no metro, feitos nos poucos minutos dos trajectos entre estações, funcionavam como um exercício de rapidez e acaso, com o qual se obrigava «a desenhar aquilo que não podia escolher». Mas depois a coisa foi ficando séria, à medida que o projecto se estendeu a outras cidades, em vários continentes, e o respectivo site se tornou um lugar de referência na Internet, com mais de cinco milhões de visitas desde 2002.

Dos cerca de 3000 desenhos que enchem os seus cadernos, Gonçalves revela-nos agora cerca de 400, divididos cronologicamente pelas nove cidades em que foram feitos: Londres, Lisboa, Berlim, Estocolmo, Nova Iorque, São Paulo, Tóquio, Atenas, Moscovo e Cairo. Os modelos involuntários (a quem nunca foi pedida autorização) aparecem literalmente arrancados da carruagem em que seguiam. Não há bancos nem portas nem argolas penduradas do tecto. Só corpos (estranhamente suspensos no vazio) e o modo como se expõem. Dá ideia que o objectivo é encontrar, para cada um deles, o punctum barthesiano: uma inclinação das pernas, o ângulo do cotovelo, os objectos pousados sobre os joelhos, um pé em cima do outro, certa expressão facial melancólica ou galhofeira.

Em tempo de globalização, constatamos sem surpresa que são mais as semelhanças do que as diferenças entre os passageiros das várias cidades. Mas ainda assim as diferenças existem, mesmo se a escassez da amostra aleatória não permita fazer extrapolações estatísticas. Por exemplo: a cidade com mais pessoas adormecidas é Londres (7); aquela em que mais se lê é Moscovo (17); o maior número de passageiros com óculos está em Atenas (22); o maior número de crianças transportadas ao colo junta Estocolmo e São Paulo (2); enquanto a única máscara anti-germes surge, previsivelmente, em Tóquio; e a única sósia de Zita Seabra surge, também previsivelmente, em Lisboa.
Gonçalves nunca explica nem contextualiza. Limita-se a mostrar-nos, em bruto, a humanidade dispersa por vários continentes. E a resumir as suas experiências em breves linhas, com a concisão de um haiku: «tudo chega, tudo parte. como podemos ter fé no meio de tanto trânsito» (Atenas); «os meus modelos ignoram-me, mas às vezes é como se sentisse as cócegas que lhes faço com a minha caneta sobre o papel» (Londres).

[Texto publicado no n.º 95 da revista Ler]

Loulé homenageia Lídia Jorge

O pretexto é o trigésimo aniversário da publicação de O Dia dos Prodígios, romance de estreia da escritora algarvia.

Poemas para a aldeia olímpica

«Which poem will you choose to inspire the athletes of the London 2012 Olympic Games and Paralympic Games? What message of respect, excellence and friendship will you leave for future generations? This is your chance to decide.
Winning Words puts poetry at the centre of London 2012. We want to know what lines of poetry reflecting the values of the Olympic Games and Paralympic Games you would most like to see installed on the prominent wall in the Athletes’ Village, seen by athletes and officials, living and working in the Village. After the 2012 Games, the Village will be converted into new homes for east London and the wall will be part of the lasting legacy for local communities and residents.»

As nomeações podem ser feitas, até 6 de Janeiro, aqui.

Logo à tarde (3)

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Logo à tarde (2)

Às 18h30, a Fundação José Saramago organiza, na Biblioteca Municipal Palácio Galveias (Lisboa), uma sessão comemorativa dos 12 anos da atribuição do Prémio Nobel ao seu patrono. Participam Carlos Reis, Viriato Soromenho Marques, Carlos Vaz Marques, Jorge Couto, Zeferino Coelho e Pilar del Río.
Serão ainda celebrados os 62 anos da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Logo à tarde

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Mais informações aqui.

Três poemas de José Miguel Silva

SAN MINIATO AL MONTE

Em San Miniato caminhamos sobre mortos,
epitáfios, tristes portas a que batemos, sem
saber, com um descuido de volúveis, ociosos
tacões, enquanto farejamos, de nariz no ar,
a gostosa patranha da Ressurreição. Como se
não estivesse em nossas mãos, em nossos olhos,
operar o milagre possível: ceder uma fatia
do nosso juízo a estes apelos que de baixo
nos lançam os desapossados, os que já nada
têm a perder excepto o olhar de quem passa.
A esmola duma pausa para articular o nome
de Luigi Nardi, Angela Ferraresi, Anunzziata
de Fabris, Alamanno Biagi, Teresa Puggi…

***

5.

Há quem olhe para as coisas e veja formas,
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.

***

AGORA A SÉRIO

Nem cínicos nem tontos
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.

Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.

Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.

No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas

de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,

com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:

piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.

Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço

(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça

triunfante da fiúza,
vendo o mundo p’lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.

[in Erros Individuais, Relógio d’Água, 2010]

Excerto do discurso de Estocolmo (com lágrimas e risos)

Mario Vargas Llosa fala sobre a sua mulher, Patricia, e comove-se ao explicar como ela lhe organiza a vida e «põe ordem no caos».

Paixão, vício e maravilha

Ao ler o seu discurso do Nobel, terça-feira, Mario Vargas Llosa comoveu-se e chorou. Aparentemente, nunca tal acontecera na cerimónia protocolar de aceitação, em Estocolmo, como o secretário perpétuo da Academia Sueca, Peter Englund, confirmou ao El País. Mais importante do que as lágrimas de Llosa, porém, foi o discurso propriamente dito. Um vasto panorama da sua vida, da sua paixão pela literatura, do seu percurso político, do seu lugar no mundo. Um texto muito bem construído, alternando generalizações sobre as posições éticas e estéticas que defende com momentos de pura emoção, ao recordar a infância, os lugares que o formaram como homem (do Peru a Paris e Barcelona), a relação com a família e com a sua mulher, Patrícia.
É um belo discurso, que vale a pena ler de fio a pavio, para apreciar os requintes, as sinuosidades e os requebros da prosa empolgante do Nobel 2010.
Pela minha parte, destaco a seguir as partes que mais me impressionaram (justamente as que melhor cumprem o título: Elogio da leitura e da ficção).

«Aprendí a leer a los cinco años, en la clase del hermano Justiniano, en el Colegio de la Salle, en Cochabamba (Bolivia). Es la cosa más importante que me ha pasado en la vida. Casi setenta años después recuerdo con nitidez cómo esa magia, traducir las palabras de los libros en imágenes, enriqueció mi vida, rompiendo las barreras del tiempo y del espacio y permitiéndome viajar con el capitán Nemo veinte mil leguas de viaje submarino, luchar junto a d’Artagnan, Athos, Portos y Aramís contra las intrigas que amenazan a la Reina en los tiempos del sinuoso Richelieu, o arrastrarme por las entrañas de París, convertido en Jean Valjean, con el cuerpo inerte de Marius a cuestas.
La lectura convertía el sueño en vida y la vida en sueño y ponía al alcance del pedacito de hombre que era yo el universo de la literatura. Mi madre me contó que las primeras cosas que escribí fueron continuaciones de las historias que leía pues me apenaba que se terminaran o quería enmendarles el final. Y acaso sea eso lo que me he pasado la vida haciendo sin saberlo: prolongando en el tiempo, mientras crecía, maduraba y envejecía, las historias que llenaron mi infancia de exaltación y de aventuras.
(…) Toda la vida he tenido a mi lado gentes así, que me querían y alentaban, y me contagiaban su fe cuando dudaba. Gracias a ellos y, sin duda, también, a mi terquedad y algo de suerte, he podido dedicar buena parte de mi tiempo a esta pasión, vicio y maravilla que es escribir, crear una vida paralela donde refugiarnos contra la adversidad, que vuelve natural lo extraordinario y extraordinario lo natural, disipa el caos, embellece lo feo, eterniza el instante y torna la muerte un espectáculo pasajero.
(…) gracias a la literatura, a las conciencias que formó, a los deseos y anhelos que inspiró, al desencanto de lo real con que volvemos del viaje a una bella fantasía, la civilización es ahora menos cruel que cuando los contadores de cuentos comenzaron a humanizar la vida con sus fábulas. Seríamos peores de lo que somos sin los buenos libros que leímos, más conformistas, menos inquietos e insumisos y el espíritu crítico, motor del progreso, ni siquiera existiría. Igual que escribir, leer es protestar contra las insuficiencias de la vida. Quien busca en la ficción lo que no tiene, dice, sin necesidad de decirlo, ni siquiera saberlo, que la vida tal como es no nos basta para colmar nuestra sed de absoluto, fundamento de la condición humana, y que debería ser mejor. Inventamos las ficciones para poder vivir de alguna manera las muchas vidas que quisiéramos tener cuando apenas disponemos de una sola.
(…) La literatura crea una fraternidad dentro de la diversidad humana y eclipsa las fronteras que erigen entre hombres y mujeres la ignorancia, las ideologías, las religiones, los idiomas y la estupidez.
(…) Al Perú yo lo llevo en las entrañas porque en él nací, crecí, me formé, y viví aquellas experiencias de niñez y juventud que modelaron mi personalidad, fraguaron mi vocación, y porque allí amé, odié, gocé, sufrí y soñé. Lo que en él ocurre me afecta más, me conmueve y exaspera más que lo que sucede en otras partes. No lo he buscado ni me lo he impuesto, simplemente es así. (…) El Perú es para mí una Arequipa donde nací pero nunca viví, una ciudad que mi madre, mis abuelos y mis tíos me enseñaron a conocer a través de sus recuerdos y añoranzas, porque toda mi tribu familiar, como suelen hacer los arequipeños, se llevó siempre a la Ciudad Blanca con ella en su andariega existencia. Es la Piura del desierto, el algarrobo y el sufrido burrito, al que los piuranos de mi juventud llamaban “el pie ajeno” –lindo y triste apelativo–, donde descubrí que no eran las cigüeñas las que traían los bebes al mundo sino que los fabricaban las parejas haciendo unas barbaridades que eran pecado mortal.
(…) El Perú es Patricia, la prima de naricita respingada y carácter indomable con la que tuve la fortuna de casarme hace 45 años y que todavía soporta las manías, neurosis y rabietas que me ayudan a escribir. Sin ella mi vida se hubiera disuelto hace tiempo en un torbellino caótico y no hubieran nacido Álvaro, Gonzalo, Morgana ni los seis nietos que nos prolongan y alegran la existencia. Ella hace todo y todo lo hace bien. Resuelve los problemas, administra la economía, pone orden en el caos, mantiene a raya a los periodistas y a los intrusos, defiende mi tiempo, decide las citas y los viajes, hace y deshace las maletas, y es tan generosa que, hasta cuando cree que me riñe, me hace el mejor de los elogios: “Mario, para lo único que tú sirves es para escribir”.
(…) “Escribir es una manera de vivir”, dijo Flaubert. Sí, muy cierto, una manera de vivir con ilusión y alegría y un fuego chisporroteante en la cabeza, peleando con las palabras díscolas hasta amaestrarlas, explorando el ancho mundo como un cazador en pos de presas codiciables para alimentar la ficción en ciernes y aplacar ese apetito voraz de toda historia que al crecer quisiera tragarse todas las historias. Llegar a sentir el vértigo al que nos conduce una novela en gestación, cuando toma forma y parece empezar a vivir por cuenta propia, con personajes que se mueven, actúan, piensan, sienten y exigen respeto y consideración, a los que ya no es posible imponer arbitrariamente una conducta, ni privarlos de su libre albedrío sin matarlos, sin que la historia pierda poder de persuasión, es una experiencia que me sigue hechizando como la primera vez, tan plena y vertiginosa como hacer el amor con la mujer amada días, semanas y meses, sin cesar.
(…) La literatura es una representación falaz de la vida que, sin embargo, nos ayuda a entenderla mejor, a orientarnos por el laberinto en el que nacimos, transcurrimos y morimos. Ella nos desagravia de los reveses y frustraciones que nos inflige la vida verdadera y gracias a ella desciframos, al menos parcialmente, el jeroglífico que suele ser la existencia para la gran mayoría de los seres humanos, principalmente aquellos que alentamos más dudas que certezas, y confesamos nuestra perplejidad ante temas como la trascendencia, el destino individual y colectivo, el alma, el sentido o el sinsentido de la historia, el más acá y el más allá del conocimiento racional.»

Um abraço azul ao Teatro Azul

Do Teatro Municipal de Almada, dirigido por Joaquim Benite (homem de cultura cujo trabalho acompanho e admiro há várias décadas), recebi este apelo:

«No Sábado, 11 de Dezembro, às 16h00, a população de Almada, o Clube de Amigos do TMA, e muitos artistas e intelectuais que admiram a actividade desenvolvida pelo Teatro Municipal de Almada vão manifestar publicamente o seu repúdio pelo corte no financiamento por parte do Ministério da Cultura, que vai afectar este verdadeiro Centro Cultural que se tornou não só num emblema de Almada, mas também num ponto de referência nacional e internacional.
Os manifestantes – que deverão trazer uma qualquer peça de vestuário de cor azul – vão, nestes tempos cinzentos, dar um Abraço Azul ao Teatro Azul.
O director do TMA, encenador Joaquim Benite, e outros oradores farão intervenções públicas sobre a situação que se vive.
Os actores interpretarão canções da peça A Mãe, de Brecht, um dos grandes êxitos recentes da Companhia Teatro de Almada.
Fernando Tordo solidariza-se com a Manifestação, fechando a sessão com um concerto especialmente preparado.
De todo o País e de vários pontos do Globo estão a receber-se mensagens de protesto, de apoio e de estímulo.»

Sábado à tarde, lá estarei.

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33 anos sem Clarice

Clarice Lispector morreu a 9 de Dezembro de 1977. Em dia de efeméride, Benjamin Moser, autor de uma excelente biografia da autora de A Paixão segundo G. H., confessa, no blogue da Cosac Naify, ter saudades dessa experiência de imersão absoluta na vida de uma mulher extraordinária.

Logo à noite

Hoje, o convidado do ‘Poesia em Vinyl‘ é Hugo Machado Milhanas. No restaurante Vinyl (edifício da Orquestra Metropolitana de Lisboa, em Alcântara), a partir das 21h30.

Furtiva alegria

Coisas Que Nunca
Autora: Inês Lourenço
Editora: &Etc
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-989-8150-25-7
Ano de publicação: 2010

Autora de uma obra razoavelmente extensa mas insuficientemente conhecida, Inês Lourenço vem construindo desde os anos 80 uma poética da discrição, capaz de resgatar a beleza das coisas ameaçadas pelo tempo (objectos, memórias, cidades, animais domésticos, a própria linguagem) mas também de criticar, com sarcasmo e ironia, os rumos tortos que leva este nosso mundo.
É uma poesia que não se põe em bicos dos pés, uma poesia feita com «palavras / de todas as horas», sem alarde, longe de «hemorragias órficas» e outras pretensões ao sublime – qualidades que reencontramos em Coisas que Nunca, o seu nono livro. Ao círculo perfeitinho, Inês Lourenço prefere o ângulo agudo, consciente de que o ar que respiramos tanto «invade docemente as altas / narinas» como «desce democraticamente / às saídas menos nobres».
Esta ideia de contiguidade entre o que é suposto ser elevado e o que é suposto ser grosseiro aparece de forma ainda mais explícita, sublinhada pelo tom satírico, no poema que compara dois tipos de mulheres que não usam cuecas: de um lado, as que noutros tempos, de canastra à cabeça e pernas afastadas, «mijavam de pé»; do outro, uma sofisticada modelo da Vogue e seu «profundo decote dorsal». São as «coincidências / da baixa plebe / e da alta-costura», remata a poeta, que estende o olhar sociológico – não isento de uma certa melancolia – ao desaparecimento do canto na vida quotidiana, à hereditariedade dos insultos, ao declínio da renda de bilros ou à imposição das lógicas sazonais («Era tudo “de verão”: / as roupas, as casas, os livros, / as canções, os amores, os raios / ultra-violeta, / o cancro de pele»).
Como se sugere em Recado a um Jovem Poeta, para enfrentar a realidade actual é talvez necessário ter a «lucidez / do (…) desconforto» (o novo Castelo de Duíno, se existir nesta época pouco rilkeana, fica num «terceiro andar, sem ascensor»). Ainda assim, Inês Lourenço consegue intuir a «furtiva alegria», que surge quando menos se espera, ou lembrar o que merece ser lembrado: um rio em S. Petersburgo, uma gata preta e branca, livros (esses «audazes amigos»), a vontade infantil de «morder com justa causa / tanta gente». Quanto à escrita, ela é um corpo em aberto, sempre sujeito à violência do corte e da depuração. Veja-se a arte poética da página 19:

Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa dos adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 95 da revista Ler]

Eles, &Etc

Maior surpresa deste final de ano: a &Etc, editora magnífica e fora do mundo com muito gosto (escondida lá em baixo, no seu subterrâneo da R. da Emenda), chegou à blogosfera. Conferir aqui, com direito a catálogo em pdf e tudo. Do post ‘Nós, &Etc’, resgato uma espécie de súmula da identidade editorial da coisa:

«Dezembro, 73: sai o 1.º livro &etc, de seu título Coisas. Todo um programa, aqui para nós fielmente mantido até ao momento:
– originalidade gráfica (o tal formato de 15,5 x 17,5 cm. com um quadrado lá dentro forçando ao cânone);
– tiragens magrinhas;
– preços a condizer;
– materiais pobres-mas-honrados;
– recusa total de subsídios estatais ou outros;
– política editorial tresmalhada mas com sentidos a piscar-o-olho;
– nada de reedições;
– nada de retribuições tipo copigaitas;
– nada de subserviências face às “imposições” (ditaduras) de indústria e de “mercado”.»

Foram, até agora, quase «38 aninhos de misérias materiais e luxos daqueles de só fazermos o que nos dá no gôto». Para prazer deles, que fazem os livros com tanto esmero. E para nosso prazer, que os lemos. Não lhes falte o ânimo, digo eu. Não lhes falte a resiliência.

Três poemas de Muhammad Abdur Rashid Ashraf (também conhecido por António Barahona)

PULSAÇÃO

Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d’árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sôpro do seu sangue num coágulo.

***

ORIENTAÇÃO

Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas
sêcas de flores mortas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.

***

ARTE POÉTICA

Por cada verso feito quantas noites
desfeitas e mulheres transfiguradas,
madrugadas, cidades, auto-estradas,
montes de cartas, mortos e ausentes.

Por cada verso feito me despeço
deste mundo, em pedaços repartido,
pois só consigo reunir-me quando fundo
império de poema nunca escrito.

[in revista Criatura, n.º 5, Outubro de 2010]

Manuseados no Clube Ferroviário

MANUSEADOS700

Livros Cotovia a preços baixos, no próximo sábado. É aproveitar.

António Lobo Antunes em França (2)

A ‘Saison avec António Lobo Antunes’ no MC93 de Bobigny, nos arredores de Paris, começa em Janeiro. Uma série de leituras, instalações, espectáculos e concertos que se prolongarão até Junho.

António Lobo Antunes em França (1)

Capa da tradução francesa de O Meu Nome É Legião (feita por Dominique Nédellec), a lançar pela editora Christian Bourgois a 13 de Janeiro de 2011.

World Book Night

Eis uma grande ideia (grande sobretudo na escala): numa só noite, 20 mil apaixonados por livros vão oferecer um milhão de exemplares das suas obras preferidas. Vai acontecer a 5 de Março de 2011, no Reino Unido e Irlanda. Os pormenores da iniciativa são explicados aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Os Três Imperadores, de Miranda Carter (Texto), por Luís M. Faria
NewBorn – 10 Dias no Kosovo, de Ricardo Cabral (ASA), por Sara Figueiredo Costa
Bibliotecas Cheias de Fantasmas, de Jacques Bonnet (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
Quando Fui Outro, de Fernando Pessoa, antologia de Luiz Ruffato (Alfaguara), por Vítor Quelhas
Eléctrico 28 – Uma Viagem na História, de Clara Azevedo e Nysse Arruda (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por Rui Cardoso

Maravilhas da paternidade

so_isso

11 aforismos de Marcello Duarte Mathias

Enaltecem-lhe o silêncio e esquecem-se de que ele é mudo…

***

É próprio da filosofia dos cobardes julgar que todos têm medo.

***

A diagonal é a linha recta dos Portugueses.

***

Ler – criação passiva.

***

Gasta-se uma vida inteira a corrigir um erro de trajectória.

***

Ser excessivo é a minha maneira de ser sincero.

***

Da frustração nasce a vingança, que é outra frustração.

***

Para o verdadeiro aristocrata, a nobreza não estará na guilhotina?

***

Já não há profetas. Há futurólogos que se enganam.

***

Morreu amnésico. Cego no meio da escuridão.

***

A aprendizagem da morte é uma convalescença ao contrário.

[in Brevíssimo Inventário, D. Quixote, 2010]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges