Correntes d’Escritas 2011

O programa da 12.ª edição do encontro Correntes d’Escritas (23 a 26 de Fevereiro, na Póvoa de Varzim), vai ser apresentado na próxima sexta-feira, dia 4. Como sempre, haverá diversos debates e posso desde já anunciar que voltarei a moderar um deles: o da mesa 6, dia 25, às 15h00. Tema: «Espalho sobre a página a tinta do passado», a partir de um verso do último livro de Nuno Júdice (Guia de Conceitos Básicos, Dom Quixote). Participam Alberto Torres Blandina, António Figueira, Francisco José Viegas, Inês Pedrosa, Maria Manuel Viana e Paulo Ferreira.

Prémio Jorge de Sena para Vítor Aguiar e Silva

O livro Jorge de Sena e Camões. Trinta Anos de Amor e Melancolia, de Vítor Aguiar e Silva (Angelus Novus), acaba de ganhar por unanimidade o Prémio Jorge de Sena, atribuído pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com apoio de um mecenas anónimo. Esta obra já fora distinguida, em 2010, com o Prémio Nacional de Ensaio Literário Eduardo Prado Coelho, atribuído pela Câmara Municipal de Famalicão.

O que aí vem (colecção BIS da LeYa)

Tanta Gente, Mariana, de Maria Judite de Carvalho; Jogos de Azar, de José Cardoso Pires; O Falador, de Mario Vargas Llosa; e A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.

A camisola de Schlee

schlee

Os fios do acaso que levam duas pessoas a encontrar-se num dado lugar, num dado momento, são insondáveis. Quando me sentei numa esplanada em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no recinto da maior feira do livro a céu aberto do continente americano, não imaginei que aquele escritor septuagenário de sorriso aberto e longo cabelo grisalho pelos ombros – Aldyr Garcia Schlee, apresentado ali mesmo pelo nosso editor comum (Alfredo Aquino, da ARdoTEmpo) – se converteria, poucos dias depois, num velho amigo. Mas foi isso que aconteceu.
Logo naquela primeira tarde, à sombra dos jacarandás e ipês floridos, a dois passos das barraquinhas com livros pendurados por cordéis, não falámos de literatura mas de futebol. Acompanhado pela mulher, Marlene, tão fanática pelo jogo quanto ele e capaz de recordar, com minúcia, factos ou lugares perdidos no tempo, Aldyr apresentou-me enciclopedicamente o mundo das grandes equipas brasileiras, sem esquecer as mais antigas, algumas das quais relegadas para divisões secundárias, como o time de que é torcedor: o Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas, já perto da fronteira com o Uruguai.
Estava dado o mote. Primeiro em Porto Alegre, depois nos três dias que passámos juntos em São Paulo, falámos bastante dos seus «contos gardelianos» (Os limites do impossível) e do imponente romance, com mais de 500 páginas, que escreveu sobre a vida extraordinária do General Fructuoso Rivera (Don Frutos), mas os olhos deste homem que tem exactamente o dobro da minha idade, embora não se note (conversou sempre tu cá tu lá, com aquela intimidade dos colegas de liceu que se reencontram muitos anos depois), os olhos deste homem ganhavam outro brilho ao resgatar da memória certos estádios, os nomes dos craques e o que eles faziam dentro de campo, o clamor das arquibancadas.
Por trás desta paixão, esconde-se uma história incrível que logo veio à tona. Além de escritor, Schlee já foi muitas coisas: desenhista, homem da imprensa, professor universitário. O primeiro momento de glória, porém, aconteceu quando tinha apenas 19 anos. Em 1953, para apagar de vez o trauma provocado pela derrota na final do Campeonato do Mundo de 1950, frente ao Uruguai, no Maracanã, um jornal carioca decidiu lançar um concurso para mudar o equipamento da selecção nacional brasileira, uma vez que o branco parecia ser funesto. Das centenas de candidaturas recebidas, a escolha recaiu na proposta de um tal Aldyr Garcia Schlee. Ou seja, a célebre canarinha (camisola amarela e calção azul), um dos maiores ícones do desporto mundial, é nem mais nem menos do que uma criação do meu companheiro de tournée literária.
Já em São Paulo, antes de visitarmos o MASP (com os seus Van Gogh, Renoir, Modigliani, Velázquez, Turner e outras maravilhas da pintura europeia), fomos ao Museu do Futebol, instalado por baixo do Estádio Pacaembu. Logo à entrada, uma imagem de Barbosa ainda desperta comentários ressentidos nos visitantes. Ele é o mais odiado dos guarda-redes (no Brasil diz-se goleiro), o bode expiatório da Copa perdida no Maracanã. Aldyr ri-se deste ódio que persiste há mais de meio século. Até porque ele, ó ironia, torce desde sempre pelo Uruguai (país que quase vê das janelas da sua casa-biblioteca e cujos principais escritores vem traduzindo para português). Quando Ghiggia marcou o 2-1 fatal, ele estava num cinema em Montevideu. Lembra-se de o filme ser interrompido e de ouvir, emocionado, o hino uruguaio. Como se lembra de quase tudo o que as fotografias, filmes e hologramas do museu documentam. A história do Brasil reflectida no verde da relva.
Talvez para selar uma viagem feliz e uma amizade inesperada, o nosso editor encontrou uma camisola da canarinha, em algodão, modelo de 1954 (sem as modernices estéticas e têxteis da Nike, que Schlee detesta). É para ela que olho agora, já deste lado do Atlântico. A gola verde, o emblema grandão, junto ao qual a firme caligrafia de Aldyr evoca «Pelé & cia». Depois arrumo-a no saco e vou ler Don Frutos.

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]

Antologia

Das várias dezenas de ‘tragédias em cinco palavras’ que os leitores deste blogue foram deixando numa caixa de comentários, seleccionei 20 das que me pareceram melhores. Ei-las:

«Havia mais alguém na sala.» (Miguel)

«Banqueiros por todos os lados.» (Rui Almeida)

«Debaixo do meteorito, uma cidade.» (Rui Almeida)

«O berço vazio ainda boiava.» (Rui Almeida)

«No dia seguinte ninguém morreu.» (José Saramago/Rui Almeida)

«O açucareiro continha soda cáustica.» (fábricailu)

«Amanhã nunca será outro dia.» (Kátia Weber)

«Que idade é que tens?» (Tito Couto)

«Nascer Três, Duas foi Ele.» (Artur Portela)

«Bateu no fundo. Havia vidros.» (Francisco Agarez)

«Bolas, fiquei sem pára-quedas suplente.» (ZCV)

«Sentiu um formigueiro no braço.» (José Veiga de Almeida)

«A namorada lia avidamente Céline.» (José Veiga de Almeida)

«Eu açaimei o cão, juro!» (José Veiga de Almeida)

«Estático olhou a jaula… vazia» (marialeitora)

Revista ‘Ler’, n.º 99

Terça-feira, dia 1 de Fevereiro, nas bancas.

‘Clube da Palavra’ no São Luiz

Mais logo, a partir das 23h30, o Clube da Palavra regressa ao Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, com Chullage, Ivan Lins, Mitó (A Naifa) e Silva o Sentinela, entre outros. António Jorge Gonçalves fará desenhos em tempo real.

Fusão da DGLB com a Biblioteca Nacional reequacionada

Pelos vistos, os protestos nem sempre caem em saco roto.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Confissão, de Lev Tolstói (Alfabeto), por José Mário Silva
A Nuvem Púrpura, de M. P. Shiel (Ulisseia), por José Guardado Moreira
Os Melhores Contos do Padre Brown, de G. K. Chesterton (Assírio & Alvim), por Hugo Pinto Santos
A Ideia de Justiça, de Amartya Sen (Almedina), por Luís M. Faria
Tratado Político, de Espinosa (Temas e Debates), por Ana Cristina Leonardo
Património de Origem Portuguesa no Mundo, coordenação de José Mattoso (Fundação Calouste Gulbenkian), por Alexandra Carita
A Cidade do Homem, de Amadeu Lopes Sabino (Sextante), por Luísa Mellid-Franco

Hemeroteca

A Google disponibiliza, aqui, cerca de 3000 publicações periódicas dos séculos XIX e XX.

Três poemas de Henrique Segurado

«POST SCRIPTUM»

Por baixo das tílias
Há sombras, raízes.
Se escavarmos mais:
Palácios e casas
E lá mais no fundo:
Cidades, países,
Reis, imperatrizes
E formigas de asas…

Debaixo das tílias
Crescem os jacintos,
Os bicos de lacre
Mais os flamingos.
Debaixo das tílias
Mandam os instintos.
Debaixo das tílias
É sempre domingo!

Lisboa, 22 de Setembro de 1978

***

MINA DE SAL

Meu Pai no grande silêncio
O que ouve desta vez?
Os cedros no meio do vento
E quem sabe? o mar talvez…

Se ele serve de semente,
A quatro palmos do chão,
Quem sabe lá se não sente
O direito à criação…

Mas não sente a Primavera
— Equinócio pontual —
É planta que não gera
Canteiro em mina de sal.

Meu Pai no grande silêncio
Tanta coisa que me diz:
Meu caule de pensamento
O que foi minha raiz!

Lisboa, 11 de Janeiro de 1979

***

ROLETA RUSSA

Nem sequer a explosão
Só um tiro murmurado…
É um espasmo de colchão
No fim dum quarto alugado.

Casino de ocasião
Sem porteiro ou empregado,
Poente de saguão
De suor todo alagado.

A espingarda de pressão,
Que guardamos do passado,
A furar o coração
Dum presente recusado…

Tiro seco: é frustração
De assistente enregelado,
Palpite de ocasião
Por vezes mal apostado…

Uma bala é um senão
Dalgum baralho marcado…
Todo o homem é um leão
A fugir como um veado.

Lisboa, 13 de Novembro de 1979

[in Almocreve das Palavras (Poesia 1969-1989), com desenhos de Rui Sanches, edição do autor, 2011]

‘Sarau Instável’

sarau instável

Amanhã, sexta-feira, a partir das 21h00, participarei no Sarau Instável, uma «tertúlia à volta de autores, livros e outros vícios». Tema da noite: o balanço editorial de 2010, com discussão acesa sobre os melhores (e os piores) títulos do ano. Com moderação de Paulo Pires, a conversa decorrerá na sala António Lobo Antunes da Biblioteca Municipal de Silves (Algarve).
Se estiverem pelo Sul, apareçam.

Thought Leader

Segundo o Klout, um site que mede a influência dos internautas, pertenço à categoria dos thought leaders:

«You are a thought leader in your industry. Your followers rely on you, not only to share the relevant news, but to give your opinion on the issues. People look to you to help them understand the day’s developments. You understand what’s important and what your audience values.»

Se thought leader for o equivalente do francês maître à penser, parece-me um exagero. Mas esforço-me todos os dias para que a frase «Your followers rely on you, not only to share the relevant news, but to give your opinion on the issues» corresponda à verdade.

Sai Amis, entra Tóibín

Colm Tóibín vai substituir Martin Amis no posto de professor de Escrita Criativa na Universidade de Manchester, noticia o The Guardian.

Dois dias para Sophia

coloquio_Sophia

Começa hoje, termina amanhã. Programação completa aqui.

Tragédias em cinco palavras

Na sua conta de Twitter, o pessoal da Granta Magazine desafiou os internautas a criarem micro-tragédias em cinco palavras.
Exemplo:

«They let the baby drive.»

Pela minha parte, fiz logo estes:

«Unfortunately, the window was open.»

«– When? – Now. – Why? – Don’t ask.»

«Look! Mushrooms on the horizon.»

Ficaram em inglês porque os tuitei (será assim que se escreve?), mas é óbvio que o conceito também funciona em português. Quem quiser, pode usar a caixa de comentários. Força.

O ponto de vista do fantasma

A Outra
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 68
ISBN: 978-989-641-187-9
Ano de publicação: 2010

Em 2004, numa das suas crónicas no Público, Ana Teresa Pereira escreveu o seguinte: «No conto O Desenho no Tapete (…), Henry James fala do ‘segredo’ que o autor vai tecendo no próprio corpo do texto, o fio no qual estão enfiadas as pérolas, enfim, a verdadeira história que, se o romance ou conto tiver vida, está em todas as partes, e é contada por cada palavra, por cada sinal de pontuação. Claro que se existe um inconsciente do texto, e eu não tenho dúvidas de que existe, o autor pode ser o último a saber ou até nunca saber. Em A Volta no Parafuso, James deixou falar livremente o seu desejo e o seu medo. Mas é o nosso desejo e o nosso medo que vamos encontrar na novela.» Foi a partir desta projecção da escritora madeirense numa história alheia que nasceu o seu livro mais recente: A Outra, um conto perfeito, daqueles que apetece ler em voz alta, várias vezes – pecando apenas por ser demasiado breve e por apresentar uma estrutura narrativa tão elíptica, tão reduzida ao mínimo dos mínimos, que se torna opaca para quem não conheça a novela de James.
Publicada em 1898, A Volta no Parafuso é uma ghost story em que uma preceptora chega a um casarão na província para cuidar de duas crianças (Miles e Flora), cujos pais morreram e de quem o tio não se pode ocupar. Um dia, ela começa a ver o que aparentemente mais ninguém vê: um homem e uma mulher que correspondem às descrições de Miss Jessel, a anterior preceptora, e Peter Quint, o seu amante, ambos mortos. A narradora convence-se de que os meninos também reconhecem os fantasmas e que estes querem levar as crianças. O desenlace é trágico. Ainda hoje há controvérsia entre os leitores da novela sobre se os fantasmas eram reais ou apenas alucinações, fruto de um estado psicótico da protagonista. Depois de Freud, a história fantástica de James até pode ser reduzida a um caso clínico, mas não perde a sua capacidade de nos perturbar.
O que Ana Teresa Pereira faz não é apenas contar de novo esta história. É olhá-la de outra perspectiva. É virá-la do avesso, para nos mostrar o ponto de vista de Miss Jessel, o fantasma. É, no fundo, invadir o território de James com a sua própria linguagem. E onde um se demora, construindo lentamente a tempestade, a outra espalha relâmpagos, fragmentos curtos, súbitos clarões. Como sempre nos livros de ATP, há insistências, simetrias, circularidades, imagens que se repetem vindas de obras anteriores: as charnecas batidas pelo vento, as flores, ou o lago «assombrado», com uma «leve neblina» a nascer das águas.
No princípio, vemos como Miss Jessel se predispõe a desempenhar o papel principal, semelhante ao das heroínas dos romances que lia às escondidas do pai (Jane Eyre e O Monte dos Vendavais, com um Heathcliff capaz de lhe tirar o sono). Ela é bonita e tem consciência da sua beleza: cabelo cor de cobre pela cintura, olhos azuis, uma aura como a das mulheres etéreas e carnais pintadas por Dante Gabriel Rossetti. Já Quint parece uma «versão áspera e brutal» do seu patrão, o senhor de Bly, de cujas roupas e pose se apropria. Ele é o homem omnipresente, à janela ou no cimo da torre, o que tem «todo o conhecimento das coisas selvagens», o actor («quase como alguém», mas «só quase») que representará com Miss Jessel uma «peça diabólica», em que no limite usurpam as próprias crianças: «E Miles e Flora caminhavam num mundo criado por nós. E sentiam-se protegidos, e felizes.» Até que a morte os relega para o lugar de quem não encontra «o caminho para o Céu ou para o Inferno».
Quando por fim se reconhecem e enfrentam, as duas preceptoras tocam no tal «segredo» mais fundo do texto: «Por quem está apaixonada a preceptora de cabelo castanho?» A resposta óbvia seria Quint, mas Ana Teresa Pereira, na crónica de 2004, insinua que pode ser Miles. Na verdade, tanto faz. Porque «os fantasmas de Bly são os nossos» e, tal como em relação à história original de James, «é o nosso desejo e o nosso medo que vamos encontrar».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

De Z(ahir) a A(leph)

Depois de O Zahir, Paulo Coelho prepara-se para lançar O Aleph.
Jorge Luis Borges, coitado, lá vai dando voltas e mais voltas na tumba.

Prémio de Fotografia ‘Retratar um Livro’

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Mais informações aqui.

Alice em pontas

A Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, já foi adaptada ao cinema, ao teatro, à BD, à pintura e a quase todas as formas artísticas imagináveis. Agora vai também ser um ballet.

O que aí vem ou talvez até já cá esteja (Assírio & Alvim)

Salomé, de Oscar Wilde; Os Folgazões, de Robert Louis Stevenson; A Felicidade no Crime, de Barbey D’Aurevilly; O Coronel Chabert, de Honoré de Balzac; Seta de Fogo – 22 poemas, de Santa Teresa de Ávila; A Forma Informe – leituras de poesia, de Rosa Maria Martelo; Tatuagem & Palimpsesto – da poesia em alguns poetas e poemas, de Manuel Gusmão.

Votação aberta nos Prémios de Edição LER/Booktailors

Até 15 de Fevereiro, aqui. A votação do público vale 20%. Os resultados finais serão apresentados na 12.ª edição das Correntes D’Escritas, na Póvoa de Varzim, a 25 de Fevereiro.

“E em volta os bairros, como matéria bíblica”

Uma extraordinária crónica de Alexandra Lucas Coelho sobre a catástrofe das enxurradas no Brasil, publicada ontem no jornal O Globo.

Algumas infâncias

O Tempo das Crianças
Organizadores: Richard Zimler e Raša Sekulović
Título original: The Children’s Hours
Tradução: Helena Marujo, Lúcia Liba Mucznik e José Lima
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 189
ISBN: 978-972-20-4350-2
Ano de publicação: 2010

Organizada por Raša Sekulović e por Richard Zimler, a antologia O Tempo das Crianças nasce de uma boa ideia: juntar histórias de autores contemporâneos sobre a infância (nalguns casos, contos inéditos) e entregar os respectivos direitos à organização Save the Children. Infelizmente, o resultado final é desequilibrado, ficando aquém do que seria de esperar dos 16 ficcionistas escolhidos. Já para não falar no facto de várias narrativas incidirem muito mais sobre a adolescência das personagens do que propriamente sobre a sua primeira década de vida.
Se os nomes sonantes (Margaret Atwood, André Brink, Nadine Gordimer, Alberto Manguel, Ali Smith, Katherine Vaz, Richard Zimler) cumprem a aproximação ao tema sem particular brilho, mas também sem desiludir, o mesmo não se pode dizer do contingente lusófono. A história de Lídia Jorge, sobre uma rapariga de 15 anos (!) que trabalha numa loja de animais com excesso de mortalidade entre a bicharada, é frouxa. Ondjaki faz uma evocação insípida do primeiro dia na escola e da fuga ao giz amarelo com que a «camarada professora» enchia o quadro. Já Mia Couto assina uma narrativa tão absurda quanto pirosa (A Escama), indigna de constar na bibliografia de quem escreveu Terra Sunâmbula. Salva-se Dulce Maria Cardoso, com a descrição cuidadosamente construída de um milagre oblíquo (Os Anjos por Dentro).
Ainda assim, o livro vale por dois contos: Invierno, de Junot Díaz; e Partir o porquinho, do israelita Etgar Keret. No primeiro, o autor de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao acompanha a difícil integração de uma família dominicana nos subúrbios hostis de Nova Iorque. É uma história quase perfeita sobre o desenraizamento dos imigrantes latinos, consumidos pela tristeza, sob a neve. Quanto à miniatura de Keret (três páginas), é o texto que melhor se aproxima da experiência de ser criança, fixando o momento em que a lógica infantil e respectiva percepção do mundo estão prestes a ser estilhaçadas pelo pragmatismo involuntariamente cruel dos adultos.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]

Rescaldo

No resultado das eleições presidenciais de hoje, o que me entristece mais não é o triunfo esmagador da abstenção, nem o triunfo tangencial do candidato que se recusa a explicar os seus negócios nebulosos. O que me entristece é a falta de nível de quem vence e não saúda os adversários, de quem vence e pensa que os votos lhe dão imunidade face ao escrutínio público, de quem vence e se reclama senhor da Verdade, em luta contra supostas infâmias que eram apenas perguntas legítimas. O discurso do vencedor foi o discurso de um homem acossado, inseguro, raivoso e frágil. Não era certamente disto que o país precisava.

O medo do desconhecido

Fear of the Unknown é um documentário de hora e meia sobre o escritor H. P. Lovecraft. Pode ser visto, gratuitamente, aqui.

Dia de reflexão (2)

reflexo2

‘Pensar hoje’

Excerto de um artigo de Emilio Lledó, no Babelia de hoje:

«Por lo que me dicen, a principios del nuevo siglo, hay que pensar en él; en lo que nos traerá, en lo que nos quitará. Al intentar una respuesta a tan interesante pretensión, surge una primera dificultad. ¿Pensar lo que va a ser una época que se presenta, según se predica, como sociedad tecnológica, sociedad de la información, y otros retumbantes pronósticos? La respuesta podría dejarse a los profetas, augureros, pitonisos, magos, oscurividentes, clérigos o hechiceros de distintas sectas, que vaticinan sin cesar sobre nuestro futuro y hasta nos acosan con sus vaticinios. Pero, a lo mejor, eso no es pensar aunque tales personajes utilizan el lenguaje -el instrumento esencial de la comunicación humana- para crear formas de comunidad, identificaciones y diferencias, casi siempre con muy concretas y nada mágicas intenciones.
Pensar debe ser una forma mental que analiza lo que experimentamos en el curso de cada vida
Habría que saber primero lo que significa ese verbo “pensar”, esa palabra. No es un sustantivo: algo hasta
cierto punto firme, estable, duradero, como la mesa, la silla o incluso manejable como la pluma con la que escribo; o como mi amigo, o esa pareja que pasea ante mi balcón. Hay, sin embargo, una diferencia entre la pluma, la mesa y, sobre todo, mi amigo, o esa pareja que pasa ante mi balcón. La diferencia, así a primera vista, es que esos seres, esas personas, son también “sustantivos”, seres reales, que caminan, que respiran y sobre todo -por eso son personas- que tienen dentro de sí algo más etéreo, más inasible, que fluye por las neuronas y que sustantivamos llamándole pensamiento, aunque no lo veamos, aunque no lo podamos tomar en nuestras manos, ni siquiera cuando lo expresamos ni, casi, cuando lo escribimos.
Un objeto delicado, misterioso, porque está lleno de grumos mentales, de opiniones que se van formando y que, muchas veces, no podemos controlar, ni siquiera saber cómo han venido, por qué las tenemos. Desconocemos incluso si son verdaderamente nuestras o nos las han puesto en el cerebro, nos las han impuesto para cultivar nuestra ignorancia; para degenerarnos, desquiciarnos, hacernos agresivos e irracionales.
(…) La oposición entre los poderosos y los inermes, los “pudientes” y los que casi nada pueden, los farsantes y los inocentes, ha recorrido la historia de la humanidad. Pero hoy, precisamente, por el imperio de esas nuevas divinidades que llaman “mercados”, y con todas las excepciones que queramos, de sus indecentes mercachifles domina, como la “cólera de las imbéciles”, el mundo. La forma más indigna de dominio es la corrupción de la inteligencia, de la capacidad de discernir, de amar, de “contemplar el cielo estrellado fuera de mí, y la ley moral dentro de mí”. Y la corrupción de los “poderosos” fomenta la degeneración de sus lacayunos vasallos e incluso, en el colmo de su estulticia, la imitación. Sorprende que corruptos reconocidos, incluso condenados, sean votados, elegidos, por entontecidos ciudadanos -¿corrompidos también por su propia avaricia?
A lo largo de la historia siempre hubo semejantes deformaciones, pero en los comienzos del nuevo siglo mereceríamos que no fueran ya posibles las monstruosidades que nos trasmiten los medios de información y que parecen increíbles. Pero las sabemos y eso ya es importante, aunque nos las disuelvan en papillas ideológicas. Es, efectivamente, arriesgado estar en el mundo. “Es difícil ser bueno en un mundo malo”, decía la portada de una revista alemana no hace muchos años. Es verdad que la vida como tensión y camino, la “lucha por la vida”, parece caracterizar a los seres humanos. Pero todo ello, en nuestro convulso y cruel territorio, en la dura historia que día a día vivimos, produce un lamentable e indeseable fenómeno social: estamos tan asfixiados por la “sociedad de la información” -¿del conocimiento?- que acabamos por acostumbrarnos e insensibilizarnos.»

Dia de reflexão

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Número 1000

O suplemento Babelia, do El País, chegou este sábado à milésima edição. Mil semanas de cultura, como eles dizem. Mil semanas de altíssima cultura, acrescento eu. Ángel S. Harguindey resume particularmente bem o que foram estas duas décadas de trabalho: «Éxitos y errores, intuiciones acertadas y torpezas, de todo un poco, pero con el ansia de ser honestos, flexibles, rigurosos y veraces.»

O conselho óbvio

No dia de reflexão, reflicta. Não faltam livros de filósofos nas livrarias.

‘Livros Vivos’

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Uma exposição de Alexandra Mesquita, na livraria Babel.

Saldos na Presença

A Editorial Presença está a fazer descontos até 70% nalguns dos livros que vende através do seu site. Na categoria dos livros mais baratos (três euros), encontramos uma biografia de Aristides de Sousa Mendes (Um Herói Português, de José-Alain Fralon) e Despeço-me da Terra da Alegria, de Ruy Belo.

Um blogue, um endereço de e-mail

Até hoje, eram dois os endereços de e-mail para onde os leitores deste blogue podiam enviar «mensagens, sugestões, contributos e notícias». A partir de hoje, peço que o façam apenas para josemariosilva@bibliotecariodebabel.com.
Obrigado.

Quatro micronarrativas de Tonino Guerra

A QUINTA JANELA NO ALTO

Dirigiu, de repente, o olhar para uma das muitas janelas de um prédio. Como se alguém o chamasse. A quinta janela no alto, aberta e vazia. Parou alguns momentos para a contemplar, atraído nem sabia por quê. Nunca ali estivera, nunca frequentara aquelas escadas, com seus estreitos pátios internos.
No dia seguinte, no jornal, leu que uma mulher se havia lançado daquela janela e descobriu que a suicida fora o seu primeiro amor, no tempo em que habitara para os lados de Montesacro.

A FOTOGRAFIA

Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhes sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.

O PAVIMENTO DE NEVE

Quando visitaram a casa, no velho quarteirão da cidade, encontraram Shirikawa já morto de fome, no seu quarto de dormir. O apartamento tinha ainda dois outros aposentos. Ambos sem mobília. No primeiro, estavam apenas três cadeiras negras, de tipo europeu, encostadas à janela, como se alguém estivesse disposto a contar, pela janela, as mil folhas do plátano. Depois percebeu-se que as cadeiras eram dos três magríssimos gatos, companheiros do velho. Na terceira sala, o pavimento apresentava-se coberto por um manto de arroz muito branco. Shirikawa nascera em Chichibu, uma aldeia do Norte do Japão. Desde jovem, durante a procissão para a queda das primeiras neves, tocava um pequeno ko-daiko*.
Porque será que Shirikawa, possuindo todo aquele arroz, se deixara morrer de fome?
Quando o levaram com a liteira, alguém experimentou deitar-se na cama, até assumir a posição exacta do morto. Com a cabeça pousada sobre o travesseiro, para além do corredor, viu o quarto com o pavimento de arroz. Saboreou a doce contemplação da neve pousada, e até a cor de cinza da parede do fundo parecia inverter-se para formar um céu frio e invernal.
Depois de longa investigação no quarteirão, descobriu-se que Shirikawa, desde há alguns anos, sofria com saudades da neve. Aquele era um lugar onde nunca nevava.

* Pequeno instrumento de percussão muito usado no Japão

O ESPELHO

Comprou aquele espelho em Porta Portese. Era oval e a moldura, de madeira clara, tinha uma grinalda de rosas. Colocou-o em cima da cómoda do quarto de dormir. Mas, a primeira vez que o olhou, não viu o seu rosto. Dois senhores apareceram, com vestes do início do século, sorrindo, depois uma mão com um pente e, em seguida, uma parte do quarto de dormir e um rosto de criada. Um raio de sol, e no sol, uma borboleta. Logo depois, enfaixada, uma criança que a senhora segurava para se ver ao espelho. Agora seu marido, trajando de militar. O rosto da mulher que, pouco a pouco, se enche de rugas e seus cabelos que embranquecem. Depois, o filho já crescido, também ele vestido de militar. De novo a mulher sozinha, chorando. Por último, um leito, circundado por candeias, e a mulher morta, com a cabeça segura pelo travesseiro. Quando o espelho acabou de reproduzir aquelas imagens, retidas por tantos anos, apareceu, finalmente, o rosto do homem que o tinha adquirido. Era aquele jovem que víramos enfaixado e depois como jovem militar que agora envelhecera.

[in Histórias para uma Noite de Calmaria, trad. de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2002]

Capa do primeiro romance de Pedro Vieira

Em primeiríssima mão, eis a capa do romance de estreia deste rapaz:

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Uma edição Queztal, dia 25 de Fevereiro nas livrarias.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Ao Cair da Noite, de Michael Cunningham (Gradiva), por Luciana Leiderfarb
A Ignorância, de Milan Kundera (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
A Primavera Há-de Chegar, Bandini, de John Fante (Ahab), por José Guardado Moreira
A Outra, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por José Mário Silva
A Recompensa do Soldado, de William Faulkner (Casa das Letras), por Luís M. Faria
Sangue Vermelho em Campo de Neve, de Mons Kallentoft (Dom Quixote), por Paulo Nogueira
Âmago. Antologia, de Fiama Hasse Pais Brandão (Assírio & Alvim), por António Guerreiro

Literatura vs. Internet

Por que é que os livros de ficção têm tanta dificuldade em lidar com o mundo online e as paisagens da Web 2.0? Laura Miller, no The Guardian, tenta responder.

O carrossel da memória

Adeus, Até Amanhã
Autor: William Maxwell
Título original: So long, see you tomorrow
Tradução: Miguel Castro Caldas
Editora: Sextante
N.º de páginas: 140
ISBN: 978-989-676-028-1
Ano de publicação: 2010

Mais vale tarde do que nunca. Inexplicavelmente inédito no nosso país, William Maxwell (1908-2000) chega agora aos leitores portugueses com a edição do último – e talvez o melhor – dos seus seis romances: Adeus, Até Amanhã. Maxwell foi o editor de ficção da The New Yorker durante quatro décadas, o que lhe permitiu trabalhar com Vladimir Nabokov, J. D. Salinger, John Updike, Frank O’Connor, Isaac Bashevis Singer, entre outros. Profundo conhecedor dos mecanismos da ficção alheia, ele usou o crivo qualitativo da revista nova-iorquina para a sua própria prosa, cuja beleza, contenção e rigor estilístico saltam à vista desde as primeiras páginas.
Adeus, Até Amanhã parte de um crime de sangue cometido em Lincoln (Illinois) no início dos anos 20. Clarence Smith, rendeiro nos arredores da cidade, mata um vizinho, Lloyd Wilson, que se envolvera amorosamente com a sua mulher. O narrador começa por alternar esta história, cujos detalhes desenterra em recortes dos jornais da época, com a evocação da sua vida na altura, marcada pela morte da mãe – ainda um trauma por resolver no momento em que escreve, meio século mais tarde – e pela relação difícil com o pai, que volta a casar. Mas a razão para pôr o «carrossel» da memória em movimento é outra: a tentativa de emendar um acto errado. Filho do assassino, o melhor amigo, Cletus, abandona a cidade sob o peso do opróbrio que lhe caiu em cima e o narrador, ao reencontrá-lo numa escola de Chicago, anos depois de terem sido «separados por aquele tiro», não o cumprimenta.
Esta cobardia causa-lhe remorsos que só são mitigados com a tentativa de reconstituir o «testemunho que ele [Cletus] nunca foi chamado a fazer». Regressamos então à história do triângulo amoroso fatal, mas contada com os instrumentos da ficção. O narrador imagina-se na pele dos vários intervenientes, incluindo a cadela da família Smith. E traz à luz o que a suposta objectividade dos factos por vezes omite. Isto é, o facto de «as pessoas muitas vezes não terem escolha».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]

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Margarida Vale de Gato e Margarida Ferra no ‘Poesia em Vinyl‘, logo à noite, a partir das 21h30.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges