Alice#5

Já está online o quinto número da revista Alice (Janeiro/Fevereiro). Tão boa como as anteriores. Isto é, excelente.

Prémio Jerusalém para Ian McEwan

O Jerusalem Prize for the Freedom of the Individual in Society – um prestigiado prémio bianual que já distinguiu escritores como Bertrand Russell (1963), Jorge Luis Borges (1971), Eugène Ionesco (1973), Isaiah Berlin (1979), Graham Greene (1981), Milan Kundera (1985), Mario Vargas Llosa (1995), Don DeLillo (1999), António Lobo Antunes (2005) ou Haruki Murakami (2009) – foi hoje atribuído a Ian McEwan.
Eis um excerto da declaração do júri:

«McEwan’s protagonists struggle for their right to give personal expression to their ideas, and to live according to those ideas in an environment of political and social turmoil. His obvious affection for them, and the compelling manner in which he describes their struggle, make him one of the most important writers of our time. His books have been translated into many languages and have enjoyed world-wide success – particularly in Israel, where he is one of the most widely-read of foreign authors.»

O que aí vem (Bizâncio)

O Meu Nome é Victoria – uma criança raptada pela Ditadura argentina, de Victoria Donda; O Meu Testemunho Perante o Mundo, de Jan Karski; Nobreza de Espírito – Um Ideal Esquecido, de Rob Riemen; O Indesejado, de Sarah Waters; A Nova Europa, de Michael Palin; A Física do Futuro, de Michio Kaku; Como Funciona a Música, de John Powell; Maya, de Alastair Campbell.

Jeff Buckley lê um poema de Edgar Allan Poe

No dia do aniversário de Poe, eis um dos seus poemas, Ulalume (escrito em 1847), lido pelo autor de Grace:

O novo Kindle, segundo Miguel Esteves Cardoso

Excerto da crónica de MEC, hoje no Público:

«O Kindle é sumptuosamente cinzento e preto. Não há grafismo, não há ilustrações – vai tudo a direito, como num livro. Parece uma máquina muito antiquada para ler textos. Não é para quem não gosta de ler.
Um iPad é um computador de colo colorido e brilhante. Um Kindle é como um livro de capa dura, com páginas pequenas e letras grandes. Lê-se ao sol e não reflecte nem emite luz nenhuma, descansando os olhos e a cabeça.
(…) A grande vantagem deste novo Kindle sobre o anterior é ser fácil carregá-lo de pdfs e lê-los com maior nitidez do que outros leitores de e-books. O meu velho BeBook, lamento dizer, morreu de vez.»

Dia 24 de Fevereiro, com a ‘Visão’

f&v

Na segunda série ‘Frente e Verso’, vou ser o penúltimo autor a chegar às bancas.

Disfarçar a mentira

«Perverter a realidade através da linguagem, conseguir que a linguagem diga o que a realidade nega, é uma das maiores conquistas do poder. A política transforma-se, assim, na arte de disfarçar a mentira.
(…) Ninguém como o político perverteu tanto o sentido das palavras, de todas as palavras; nem sequer o mais recalcitrante fideísta. E se, como pretendia Heraclito, a alma humana se parece com uma aranha que acorre velozmente a qualquer lugar da sua teia quando sente uma das suas partes danificada, o político é uma aranha que acorre velozmente ao depósito comum da linguagem cada vez que se sente atacado por algum dos seus adversários.
(…) Somos repetidamente ludibriados, despojados da nossa honra, compelidos a comungar essa hóstia cheia de náusea a que eles chamam democracia, justiça ou liberdade. Todas estas palavras, na realidade tão profundas que deveriam queimar a língua de quem as pronuncia sem respeito, perderam o seu significado, a ponto de soarem aos nossos ouvidos como a música de Verão, ou como uma prece aprendida na catequese quando éramos crianças.»

[in O Revisor, de Ricardo Menéndez Salmón, trad. de Helena Pitta, Porto Editora, nas livrarias a partir do dia 27 de Janeiro]

Este ofício de poeta

É um novo blogue, borgesiano no nome. Por isso, mas não só por isso, que seja muito bem-vindo.

Apelo democrático

cavaco-silva

Um candidato que faz demagogia primária e chantagem política da mais rasteira, evocando os custos económicos de uma segunda volta em contexto de crise, é uma vergonha para a democracia. Henry Ford propunha-se vender carros de qualquer cor, desde que essa cor fosse o preto. Eu apelo a que votemos todos em qualquer um dos candidatos à Presidência, desde que esse candidato não seja Aníbal Cavaco Silva.

[Imagem pedida de empréstimo a oblogouavida]

Poems from the Portuguese

Poemas portugueses do século XXI, escritos por uma lista de autores que vai crescendo à medida que o último escolhido sugere a escolha seguinte (e a justifica num curto parágrafo). As traduções para o inglês são feitas por Ana Hudson, gestora do site, que tem o apoio do Centro Nacional de Cultura.
Para já, estão disponíveis textos dos seguintes poetas: Alberto Pimenta, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Marques Gastão, António Franco Alexandre, Armando Silva Carvalho, Bénédicte Houart, Bernardo Pinto de Almeida, Daniel Jonas, David Teles Pereira, Diogo Vaz Pinto, Fernando Pinto do Amaral, João Luís Barreto Guimarães, Luís Filipe Parrado, Luis Quintais, Manuel de Freitas, Margarida Vale de Gato, Maria Andresen, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Pedro Sena-Lino, Pedro Tamen, Rui Miguel Ribeiro, Sérgio Godinho, Vasco Graça Moura, Vítor Nogueira e Yvette K. Centeno.

Em torno do quadrado negro

A Arte como Linguagem
Autor: José Gil
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 58
ISBN: 978-989-641-202-9
Ano de publicação: 2010

No dia 10 de Março de 2010, o filósofo e ensaísta José Gil, um dos mais brilhantes pensadores portugueses da actualidade, concluiu a sua trajectória académica com uma «última lição», proferida na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Habituado a falar para 12 ou 15 alunos nos seus seminários, o professor deparou-se com um auditório a rebentar pelas costuras e, ainda perplexo com tamanha plateia, explicou logo a abrir que o ofício de pensar e de escrever é daqueles «que não acaba mais», pelo que a derradeira aula – transcrita integralmente neste volume – nunca poderia representar um fim, antes a oportunidade de um novo começo.
Como é que se forma uma linguagem artística se na obra de arte não se pode «isolar uma unidade discreta» e articulá-la com outras unidades autónomas (que é o que acontece na linguagem verbal)? Eis o ponto de partida para a conferência, na qual Gil analisa em detalhe um exemplo concreto: a criação da linguagem suprematista de Kazimir Malevich. Até 1915, o pintor russo afastara-se progressivamente das formas tradicionais de mimetismo, mas é naquele ano que se dá a crise definitiva, quando pinta o célebre Quadrado Negro sobre Fundo Branco, que representa apenas o que o título indica: um quadrado negro sobre fundo branco. Diz a lenda que Malevich ficou num estado de perturbação total: durante uma semana, não conseguiu comer, beber ou dormir. O pintor acreditava que a representação figurativa trazia para o quadro «qualquer coisa do referente», pelo que o acto de «apagar a representação» implicava «apagar também o referente». Se o quadrado preto nega a possibilidade de representação, fica em causa a própria possibilidade da pintura. A não ser que esta se transforme noutra coisa. E foi isso o que Malevich fez, ao criar uma nova linguagem «a partir deste quadrado que começa por ser uma espécie de buraco negro que engole e absorve todas as formas da natureza».
A nova linguagem surge por um processo de reversão: «ao vir à tona, ao vir à superfície, o quadrado negro reverte-se, há uma reversão de superfícies, como uma luva que se volta ao contrário e o seu avesso passa a direito e o preto passa a branco». O branco do «nada libertado», abismo plano onde as figuras se dissolvem, transformadas já não em representações de objectos da realidade concreta mas em abstractas «sensações picturais», a que correspondem forças em vez de formas.
Para explicar este processo de desaparecimento ontológico das formas num «Nada» que é o «Mundo do Sem-Objecto», Gil recorre a conceitos como o de «plano fractal de imanência», o deleuziano «corpo-sem-órgãos» ou a «modulação do tom» a que Kant se refere ao falar da música, chegando por fim à noção de uma «gramática intervalar». A exposição é densa, difícil e quase impenetrável para leigos em filosofia, mas quem conseguir sobreviver às primeiras 50 páginas é recompensado, no fim, com uma secção em que Gil explica detalhadamente os passos que seguiu na sua análise da formação da linguagem suprematista, partindo de uma abordagem fenomenológica inicial (macro) para uma «cartografia das formas intensivas» na escala molecular (micro), até ao ponto em que «a confusão dos dois planos cria um só plano que engloba todas as escalas – o plano da imanência da filosofia».
Na conclusão, Gil não fecha nada, antes aponta alguns problemas que o pensamento filosófico ainda pode trabalhar. O tal novo começo, que implica a consciência de que «não é possível pensar sem pensar livremente e sem risco». Fica o alerta: «Possam os filósofos neste campo ser um exemplo, mesmo quando tantas vezes submetem o seu pensamento às regras da doxa estabelecida.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

John Banville sobre Franz Kafka

Uma abordagem a O Processo, no The Guardian.

O que aí vem (Dom Quixote)

A Ignorância, de Milan Kundera; Diário – volumes IX a XII e Diário – volumes XIII a XVI, de Miguel Torga; Anatomia de um Instante, de Javier Cercas; O Complexo de Sagitário, de Nuno Júdice; Os Pretos de Pousaflores, de Aida Gomes; O Filho de Campo de Ourique e outras histórias, de António Figueira; Um Teatro às Escuras, de Pedro Tamen; Desobediência, de Eduardo Pitta; O Livro dos Homens Sem Luz, de João Tordo (reedição).

Sete ‘bagatelas’ de José Emílio-Nelson

I

Um rapazinho de Istambul (Mevlevi?) com traje gracioso. Faz guloseimas
Manuseando em espiral a espátula,
Rodopiando-a num limão tocado pelas gomas tingidas.
Algo que nos enverniza,
Sem sabermos.

II

No harém otomano [Murat III], tive visões:
As aparecidas a colherem o dia
No recorte das grinaldas
Delicadamente pintadas à mão e pelos pés.
Os gatos negros
E os eunucos pretos
Descuidadamente castrados
Que faziam a todos perder
No labirinto aonde os encerravam.

V

Casquilhos, pó e tapeçarias,
No Grande Bazar, e o chá
Da cor das lamparinas, servido
Em tampo de mesa sem pernas
Por meninos, sem proveito, que lhas cedem.

XII

Alinhados contra as montras,
Na poeira das lojas antigas,
Numa viela com o seu público a barafustar.
Os manequins refastelados
Enfadam quem os cobiça.

XIV

Como se olhasse por dentro duma pedra
A nudez dos transeuntes.
Que coisa é, suspenso, imaculado impulso,
Ver os outros tão descalços?

XVII

Os Otomanos esculpem as pedras tumulares para o jardim dos defuntos.
Debaixo do turbante que encimava a coluna marmórea. Caligrafia lenta e ciprestes.
Mapa que hoje nos conduz [ao kahve] aonde se fuma água acesa por brasas.
Narguilé serpenteado de tubagens.

XXV

Da varanda do Hotel, agigantando véus, enrodilhando-os, o vento espalha o entardecer sobre as almas pias.

[in Consejos, Coplas, Apuntes a Guia American Express Istambul, inédito]

Surrealismo no Botequim

Na próxima sexta-feira, às 18h30, será apresentado no Botequim da Graça o ensaio Teixeira de Pascoaes nas Palavras do Surrealismo Português, de António Cândido Franco (Editora Licorne), com a presença do autor, acompanhado por Carlos Cabral Nunes, Délio Vargas, Manuel Silva e Rui Lopo. Serão ainda exibidos dois documentários: um sobre Mário Cesariny, outro sobre Cruzeiro Seixas (que estará presente), ambos produzidos pela Perve Galeria.

Then we drank to Saramago

Um tributo a José Saramago, escrito à sua maneira (com «long, elegant sentences») por Dionne Brand, na revista Brick.

Coisas que se derretem

Hilariante estudo de Sean Adams, no site da McSweeney’s.

‘O Arenque Fumado’ (booktrailer)

Um livro de Charles Cros, ilustrado por André da Loba. Edição Bruaá.

Atlântico-Sul

Os textos que Alexandra Lucas Coelho vai escrevendo no Brasil moram aqui (um lugar precioso). Por estes dias, leio e vejo, incrédulo, a reportagem arrepiante das enxurradas que espalharam a morte em Nova Friburgo e Teresópolis.

Uma editora muito boa

Eis o novíssimo blogue da Cotovia. O blogue de «uma editora muito boa». E muito boa porquê? Fernanda Mira Barros explica:

«Porque é pequena. O que não significa que não haja editoras grandes muito boas. Mas as editoras grandes muito boas são muito boas porque funcionam como pequenas editoras muito boas. Então: a Cotovia é uma editora muito boa porque, sendo pequena, funciona como uma editora pequena. Lemos e discutimos tudo o que publicamos; podemos demorar horas a perorar sobre a pertinência ou impertinência de uma palavra. Tentamos não o fazer, não é bom do ponto de vista da gestão pecuniária e do tempo, os dias não estão para excentricidades dessas, mas sabermos que, se quisermos, podemos discutir até ao fim dos tempos a pertinência do ponto e vírgula é qualquer coisa que define a Cotovia como uma editora muito boa.»

Nem mais.

Margaridas no ‘Poesia em Vinyl’

A próxima sessão de ‘Poesia em Vinyl’ (quinta-feira, dia 20, às 21h30), junta duas Margaridas que lançaram um primeiro livro de poesia em 2010: Margarida Vale de Gato e Margarida Ferra. Como sempre, as convidadas estarão à conversa com a dupla Raquel Marinho/Luís Filipe Cristóvão. Haverá ainda leitura de poemas por Mafalda Lopes da Costa e música com os Minta & The Brook Trout. Entrada livre.

Mais uma ameaça para as editoras

Esta engenhoca é um Book Saver: digitaliza 200 páginas em 15 minutos e custa apenas 150 dólares. Porta aberta à pirataria?

Três poemas de João Miguel Fernandes Jorge

MAR DE SETEMBRO / OSTINATO RIGORE

Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria

um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha

a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago

«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.

***

CASTELO DE AGROMONTE

À distância da alta janela
era uma mulher sem idade. Estou em crer
era ainda rapariga
sob a trovoada e a chuva
seguia por entre os jazigos – góticas
capelas imperfeitas –
ia pelo caminho de saibro
ao encontro dos amados mortos. Abriu a torneira, a água
correu, lavou a jarra,
água para amarelos crisântemos. Água
límpida para os seus amados mortos
em véspera de todos-os-santos (amanhã é feriado,
reclamam-na os vivos
bem menos amados – dos vivos não pode dizer “seus” não
pode pousar
sobre a pedra branda dos leitos
a jarra, roxos crisântemos amarelos)

– Como se chama o cemitério, além
– Agromonte, senhor

***

OS DIAS DE BRUEGEL

Os campos estão lavrados, mesmo sob a
neve do inverno permanecem
estendem o horizonte de terra fértil e a ave
marinha voa sobre o íris amarelo

estão armados os cavaleiros d’áustria e de
filipe segundo, rei espanhol,
massacram os inocentes, o sentido das vidas
a história de imaginada Flandres

dão o passo sobre a branca paisagem os
caçadores, desliza na água do degelo
uma barca de improviso, mas logo

desce de novo a luz do outono sobre a aldeia e o
silêncio, cor do inverno. (Acontece,
há caminhos mais longos do que
outros. O destino a que

é suposto chegarmos está desenhado à
partida. Desculpa ser tão bruto – o destino,
triunfo da morte.)

[in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, 2010; por motivos de formatação, os itálicos destes poemas, em vez de passarem a redondo, foram substituídos por aspas]

McBook

Anúncio criado por uma agência de publicidade húngara para a McDonald’s.

[via Book Patrol]

O que aí vem (Sextante)

Principais novidades a publicar até Julho: Uma vida à sua frente, de Roman Gary; Do Longe e do Perto – Quase Diário, de Yvette Centeno; Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca; Três vidas de Santos, de Eduardo Mendoza; A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão; Ponto Ómega, de Don DeLillo; Iberiana, de João Lopes Marques; Histórias Vindas A Conto, de Filomena Marona Beja; Apocalipse Bebé, de Virginie Despentes; Vieram como as andorinhas, de William Maxwell; A Filha Do Coveiro, de Joyce Carol Oates.

Um milhão e meio de pageviews

And counting.

Café Trystero

trystero

Inspirado no romance O Leilão do Lote 49, eis o mais pynchoniano dos cafés, a servir «paranoid conspiracy theorists since 2009».
Sai um pacote de Papua New Guinea Kimel para o senhor ali do fundo.

Uma rede livreira em crise

A norte-americana Borders, que em tempos levou à falência muitas livrarias independentes por praticar preços muito agressivos, está ela própria em grandes dificuldades, porque uma outra livraria (a Amazon) pratica preços ainda mais agressivos.

Sonhos

«Vamos de táxi a casa de Bioy e de Silvina, um apartamento espaçoso que proporciona a vista de um parque. Há décadas que Borges passa várias tardes por semana neste apartamento. A comida é horrível (hortaliça cozida e, à sobremesa, algumas colheradas de doce de leite), mas Borges não se dá conta. Esta noite, cada um deles, Bioy, Silvina Ocampo e Borges, conta aos outros os seus sonhos. Com a sua voz àspera e grave, Silvina diz que sonhou que se afogava, mas que o sonho não foi um pesadelo: não houve dor, não teve medo, sentiu simplesmente que estava a dissolver-se, a tornar-se água. Depois Bioy refere que no seu sonho se encontrava diante de duas portas. Sabia, com essa certeza que muitas vezes possuímos em sonhos, que a porta da direita o levaria a um pesadelo; resolveu transpor a da esquerda e teve um sonho sem incidentes. Borges observa que ambos os sonhos, o de Silvina e o de Bioy, são em certo sentido idênticos, uma vez que os dois sonhadores esquivaram-se ao pesadelo com êxito, um rendendo-se-lhe, outro negando-se a penetrar nele. Conta a seguir um sonho descrito por Boécio, no século V. Nele, Boécio assiste a uma corrida de cavalos: vê os cavalos, a linha de partida e os diferentes e sucessivos momentos da corrida até que um dos cavalos cruza a meta. Então, Boécio vê um outro sonhador: alguém que o observa a ele, observa os cavalos, a corrida, tudo ao mesmo tempo, num só instante. Para esse sonhador, que é Deus, o resultado da corrida depende dos cavaleiros, mas esse resultado é já conhecido pelo Sonhador. Para Deus, diz Borges, o sonho de Silvina seria ao mesmo tempo agradável e digno de um pesadelo, enquanto, no sonho de Bioy, o protagonista teria atravessado ao mesmo tempo as duas portas. “Para esse sonhador colossal, todo o sonho equivale à eternidade, em que estão contidos cada sonho e cada sonhador.”»

[in Com Borges, de Alberto Manguel, Ambar, 2006]

Maravilhas da paternidade

Desta vez é um desenho do Pedro, feito há pouco, no restaurante:

Autoretrato, com pai do lado esquerdo e um pouco atrás (2011), Bic Cristal sobre toalha de papel

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Arte como Linguagem, de José Gil (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Gene, Célula, Ciência, Homem, de Manuel Sobrinho Simões (Verbo), por Luís M. Faria
Uma Antologia de Poesia Chinesa, org. de Gil de Carvalho (Assírio & Alvim), por Hugo Pinto Santos
Diário de Viagem em Lisboa – Sete Colinas, Sete Desenhadores, Vários Autores (Quimera), por Sara Figueiredo Costa
EN2, de João Catarino (Livraria Fernando Machado), por Alexandre Costa
Poesia, de Umberto Saba (Assírio & Alvim), por António Guerreiro

Micro-histórias exemplares

Doutor Avalanche
Autor: Rui Manuel Amaral
Editora: Angelus Novus
N.º de páginas: 110
ISBN: 978-972-8827-74-8
Ano de publicação: 2010

Em 2008, Rui Manuel Amaral irrompeu nas letras portuguesas com algum estrondo. Caravana, o seu livro de estreia, era uma colectânea de micro-contos que sabotavam de várias formas as convenções ficcionais, quase sempre recorrendo à ironia, ao sarcasmo e ao absurdo, através de pequenos jogos narrativos cheios de paradoxos e brincadeiras meta-literárias. A escrita revelava uma precisão cirúrgica: efeito máximo com o mínimo de palavras; o rigor verbal do poeta aliado à capacidade de síntese do aforista.
Já sem o efeito de surpresa, pode dizer-se que o segundo livro do escritor portuense, Doutor Avalanche, vem ocupar precisamente o mesmo território de Caravana. Não se detectam quaisquer sinais de evolução ou ruptura, apenas uma continuidade de processos e efeitos. As histórias são igualmente boas, a linguagem não perdeu vigor nem engenho, mas fica a sensação de que RMA se limita a explorar um formato que já domina bastante bem, arriscando menos do que seria talvez exigível a quem elevou tanto as expectativas com a qualidade do primeiro livro. Dito isto, Doutor Avalanche não deixa de ser uma obra sólida, que nos oferece uma boa dezena de micro-histórias exemplares e prova a vitalidade de um género infelizmente ainda minoritário no nosso país.
No final do conto Skila Krivonóssovitch, o fabricante de olhos de vidro, o meticuloso artífice «que emprestava uma centelha da sua própria visão a cada olho que saía da sua oficina», e por isso mergulhara numa «negra e deplorável cegueira», corta as orelhas, substitui-as por réplicas em vidro e passa «a ver com os ouvidos». Estamos no campo do mais puro nonsense e o texto fecha com o seguinte parágrafo: «Sem dúvida que o leitor não esperava este desenlace, que não tem qualquer relação com a lógica mais elementar. E a própria sintaxe é um tanto discutível. Mas nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita.»
É justamente nesta negação da lógica comum que os contos de Doutor Avalanche se instalam, com as suas personagens que se evaporam («puff!, assim, sem mais»), descobrem ter o coração armadilhado, prendem Deus dentro de um tubo de ensaio, resolvem atacar os colegas de repartição à dentada, acordam dentro de uma garrafa ou vêem a sua casa invadida por uma árvore que renasce todas as manhãs, dando depois origem a um «bosque interminável». Há ainda ideias ostensivamente levadas à letra («– Raios me partam! –, rugiu Wippich. Então, num abrir e fechar de olhos, os raios partiram-no»), um sem número de prodígios anatómicos, notas de rodapé a propósito e a despropósito (outra forma de desconversar) e muitas narrativas que acabam de repente ou não acabam sequer, deixando esse trabalho inglório para o leitor: «Ora, não há nada de muito invulgar ou particularmente extraordinário no facto de alguém se encontrar em tal dia e a tal hora numa estação de caminho-de-ferro. Mas, por um momento, por um momento apenas, imagine-se a quantidade de coisas que podiam ter acontecido enquanto Dubrolubov esperava o comboio.» As minúsculas histórias de RMA são mesmo assim: instalam-se na cabeça do leitor e assumem as dimensões que este lhes quiser dar.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 96 da revista Ler]

Boas práticas

Às vezes, os exemplos a seguir vêm de fora – e não me refiro, claro está, ao FMI. Vejam só o que a equipa editorial da brasileira Companhia das Letras fez no seu blogue: respostas directas às perguntas dos leitores. Uma ideia tão simples quanto eficaz (basta ver as reacções dos destinatários).
E deste lado do Atlântico, quando é que teremos direito a iniciativas do mesmo género?

‘O Coração e a Garrafa’ (booktrailer)

Uma bela animação de Catarina Sobral, a partir do livro infantil de Oliver Jeffers (Orfeu Mini).

Dos comentários

Quando passei a moderar as caixas de comentários deste blogue, defini um critério para a aceitação de mensagens relativamente amplo: desde que as opiniões não fossem difamatórias ou ofensivas para terceiros, aceitaria tudo. E fui aceitando tudo, incluindo as provocações parvas, as bocas foleiras, as picardias malevolentes de quem não tem mais nada para fazer. Acontece que a paciência tem limites e uma pessoa não anda aqui nem para levar pancada todos os dias, nem para aturar enxovalhos cobardolas de anónimos sem espinha dorsal.
Por isso, deixo o aviso: a partir de agora, só aceitarei comentários que se relacionem directamente com os posts em causa, que façam críticas construtivas e que revelem, no fundo, aquilo que se devia exigir de todos os comentários: o mínimo de decência. Todos os outros serão apagados.

O que aí vem (Ahab)

Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro (Março); Contos Carnívoros, de Bernard Quiriny (Abril); Carpenter’s Gothic, William Gaddis (Maio); A Visita do Médico Real, Per Olov Enquist (Junho); Uma Vasta e Deserta Paisagem, de Kjell Askildsen (Junho).

Livros à prova de bala

Ou nem por isso:

‘Jantares’ inéditos

Versos novos e actualíssimos de Carlos Mota de Oliveira. Para ouvir no blogue da Poesia Incompleta.

Primeiros parágrafos

«Dumas afirma que o romance é tão antigo como a Humanidade. É possível. Constitui a metáfora da vida. Se olharmos para o reverso de uma moeda falsa, podemos ouvir a canção ociosa de um dia que não teve a pretensão de gerar no mundo maior agitação que qualquer outro e se revelarmos a poesia que nele jaz adormecida, temos o romance.»

[in O Génio Vazio, de Mihai Eminescu, Alfabeto, 2011]

Histórias de Nova Iorque

No The Guardian, Edmund White escolhe os seus dez livros preferidos sobre Nova Iorque (com Kafka Was the Rage, de Anatole Broyard, à cabeça), enquanto na revista New York o crítico literário Sam Anderson defende que o maior romance alguma vez escrito sobre a cidade é A Idade da Inocência, de Edith Wharton.

« Página anteriorPágina seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges