Slam Poetry no MusicBox


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Um e-mail enviado de Figueiró dos Vinhos

Sérgio Mangas, bibliotecário responsável pela Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos, pediu-me que divulgasse a seguinte notícia:

«No sentido de dar a conhecer a história, cultura e tradições do concelho de Figueiró dos Vinhos, a Biblioteca Municipal deste município acaba de lançar mais um serviço digital, utilizando o YouTube, conhecido site de referência em matéria de partilha de vídeos na Internet.
Além de terem de constituir um fundo documental pertinente e actual, tematicamente diversificado e ecléctico, que vá ao encontro das necessidades de informação da comunidade, as bibliotecas públicas devem também ter como objectivo prioritário a constituição de colecções de interesse local, designadas de Fundo Local. Este fundo é decisivo para a conservação da memória colectiva local.
O Fundo Local é um dos aspectos essenciais das colecções das bibliotecas públicas. Estes recursos documentais de interesse local são muito específicos, reflectem a actividade de uma determinada comunidade e as características do concelho e da região em questão. O seu valor está exactamente no seu carácter único e no papel vital que desempenha para o conhecimento da memória colectiva da comunidade e, por conseguinte, da sua identidade. Sendo esta uma colecção irrepetível em outras bibliotecas, torna-se o bem informativo mais precioso que as bibliotecas públicas podem oferecer ao mundo globalizado da Internet.
Com uma forte presença na Internet e apostando no Fundo Local como elemento diferenciador e de atracção de novos utilizadores, a Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos é provavelmente caso único no panorama bibliotecário português ao nível dos múltiplos serviços que tem desenvolvido com base no seu Fundo Local. Actualmente, à distância de um clique e em qualquer parte do mundo, é possível aceder a um sem número de recursos informativos sobre Figueiró dos Vinhos através dos seguintes canais: site da Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos; Europeana; Flickr; YouTube; e delicious

Conversa sobre poesia, a três

É já na próxima terça-feira à tardinha, na livraria Bulhosa, em Campo de Ourique.

Heróis sem filhos

«É ao reler Cem Anos de Solidão que me ocorre uma ideia estranha: os protagonistas dos grandes romances não têm filhos. Só um por cento da população não tem filhos, mas pelo menos cinquenta por cento das grandes personagens romanescas chegam ao fim do romance sem se terem reproduzido. Nem Pantagruel, nem Panurgo, nem Dom Quixote têm progenitura. Nem Valmont, nem a marquesa de Merteuil, nem a virtuosa Presidenta das Ligações Perigosas. Nem Tom Jones, o mais célebre herói de Fielding. Nem Werther. Nenhum dos protagonistas de Stendhal tem filhos; acontece o mesmo com muitos dos de Balzac; e de Dostoievski; e, no século que recentemente chegou ao fim, Marcel, o narrador de Em Busca do Tempo Perdido, e, como é óbvio, todas as grandes personagens de Musil, Ulrich e a irmã, Agathe, Walter e a mulher, Clarisse, e Diotime; e Chveik; e os protagonistas de Kafka, com excepção do muito jovem Karl Rossmann, que engravidou uma criada, mas é precisamente por isso, a fim de esquecer o filho da sua vida, que foge para a América, e que o romance pode desenvolver-se. Esta infertilidade não resulta de uma intenção consciente dos romancistas; é o espírito da arte do romance (ou o subconsciente dessa arte) que abomina a procriação.»

[in Um Encontro, de Milan Kundera, trad. de Isabel St. Aubyn, Dom Quixote, 2011]

Kundera na Pléiade

Em breve, Milan Kundera vai tornar-se o único escritor vivo a constar na colecção La Pléiade, da Gallimard. Mais do que o Nobel, isto sim é a glória literária.

Ateus

No blogue do maradona encontrei uma lista de ateus cujos apelidos começam por R e S. Já verifiquei que o nome de José Saramago consta (vá lá), mas previsivelmente esqueceram-se de mim.

O que aí vem (Casa das Letras)

Raposas de Fogo, de Joyce Carol Oates; Generosidade, de Richard Powers; Contagem Decrescente, de Ken Follett; A Pior das Guerras, de D. J. Goldhagen; No Rasto dos Desaparecidos, de Susannah Charleson; A Noite de Todas as Almas, de Deborah Harkness.

Todos os livros, o Livro


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José Marmelo e Silva dá nome a biblioteca de Espinho

A Câmara Municipal de Espinho decidiu em Fevereiro, por unanimidade, atribuir o nome do escritor José Marmelo e Silva ao novo edifício da Biblioteca Municipal da cidade, desenhado pelo arquitecto Rui Lacerda. No parque circundante, será ainda colocado um memorial, a inaugurar no dia 7 de Maio e integrado nas comemorações do centenário do nascimento de Marmelo e Silva.

Festival dos livros que se comem (2)

Já depois de ter publicado o post anterior, apercebi-me de que o meu bolo de aniversário deste ano até poderia candidatar-se a uma visita a Winnipeg:

Festival dos livros que se comem

Em inglês: International Edible Book Festival. Em francês: Festival International du Livre Mangeable. O próximo decorre a 9 de Abril, na Biblioteca Pública de Winnipeg (Canadá).

A verdadeira verdade

O Duelo
Autor: Anton Tchékhov
Título original: Дуэль
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 114
ISBN: 978-989-641-225-8
Ano de publicação: 2011

Funcionário público ainda na casa dos vinte anos, Ivan Andréitch Laévski é o típico aristocrata boémio, dado à bebida, ao jogo e às dívidas, mas com uma certa aura de intelectual, daqueles que estão sempre a citar os grandes romancistas do seu tempo. Na pequena cidade balnear do Cáucaso onde se instalou com a amante, Nadejda Fiódorovna, isso parece suficiente para ser bem visto junto da elite local.
Acontece que Laévski está a atravessar uma crise que se materializa num dilema. Por um lado, deixou de amar Nadejda, uma mulher bonita e culta que roubara dois anos antes a legítimo marido. Por outro, não sabe como deixá-la sem passar por cobarde e egoísta. O idílio junto ao mar cedo se transformou numa prisão em que tudo lhe parece insuportável, do clima abafado ao tédio quotidiano. Para piorar as coisas, recebeu a notícia da morte do esposo traído, o que traz a ameaça de uma prisão ainda maior: o casamento que ela decerto lhe exigirá. Confuso, junta dinheiro para o sonhado regresso a Petersburgo e coragem para abandonar, sem honra, uma mulher incapaz de viver por si mesma. Tolhido pela indecisão, ele considera-se um “miserável neurótico”. Ou melhor, um Hamlet de trazer por casa, mais venal do que metafísico.
Escrita em 1891, esta é a mais longa das novelas de Anton Tchékhov, mas partilha com os seus celebrados contos a leveza quase imaterial do estilo. Uma a uma, as cenas sucedem-se com um ritmo perfeito e a descrição das personagens – tanto a física como a psicológica – é um primor de subtileza e minúcia. Apresentado o casal, vemos desfilar figuras memoráveis: o obeso Samóilenko, médico generoso mas péssimo conciliador; o zoólogo Von Koren, que desce ao Mar Negro no verão para estudar a embriologia das medusas e se esconde atrás da sua carapaça de cientista com feitio duro, a tender para o despótico; o diácono Pobédov, um seminarista que pouco sabe de Teologia e se ri sem como nem porquê; o comissário da polícia Kirilin, que há-de assediar com sucesso a desamparada Nadejda; Mária Konstantínovna, o exemplo acabado da hipocrisia social dos meios pequenos; etc. Toda esta gente passa o tempo em conversas, flirts e intrigas, no brando sossego das paisagens burguesas. Um corrupio de jantares, banhos de mar, festas galantes, piqueniques.
Não demoramos, porém, a discernir o eixo principal da história. Entre o volátil Laévski e o rígido Von Koren cresce um antagonismo radical. O ódio que Von Koren nutre por Laévski é tão grande, tão absoluto, que deixa de ser ódio para se tornar um exercício de estilo. São páginas e páginas de ataques ad hominem. Um massacre. O zoólogo não se limita a apelidá-lo de mentiroso, depravado, abusador, medíocre, preguiçoso, mole e inútil, como põe em causa toda a sua «ossatura moral», chegando ao ponto de o considerar tão nocivo para a sociedade como o micróbio da cólera. As suas teses, em que mistura perigosamente Darwin com Nietzsche, levam-no depois a um corolário lógico: pessoas com os defeitos e fraquezas de Ivan Andréitch devem simplesmente ser exterminadas. E é quase isso que acontece, no duelo que dá título ao livro.
Como noutras obras de Tchékhov, a acção está reduzida ao mínimo. Neste caso, consiste apenas num avolumar de energias e tensões que convergem para o dia do duelo, anunciado por uma tempestade romântica, com relâmpagos e tudo. Sem surpresa, o encontro de morte é um anti-clímax, assinalando o momento em que Laévski sai da letargia, se liberta dos seus impasses e encontra uma via para a redenção. No epílogo, Von Koren admitirá o seu engano: «Ninguém conhece a verdadeira verdade.» Mas caberá a Laévski, ao ver o seu rival enfrentar o «mar escuro e inquieto» num pequeno barco, dando duas guinadas para a frente e uma para trás, a última palavra: «Na vida também é assim… Na procura da verdade, as pessoas dão dois passos em frente e um atrás. Os sofrimentos, os erros e o tédio da vida lançam-nos para trás, mas a sede da verdade e a vontade teimosa impelem-nos sempre em frente.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Inscrições abertas para a 7.ª edição do Prémio José Saramago

O regulamento pode ser consultado no blogue da revista Ler. E aceitam-se apostas quanto ao nome do sucessor de João Tordo.

Como é que se faz um bom booktrailer?

Algumas respostas, aqui.

Twitter & Poesia

Assinalando a coincidência de o aniversário do Twitter (o quinto) coincidir com o Dia Mundial da Poesia, a jornalista Catarina Santos, da Rádio Renascença, fez uma pequena reportagem sobre esta rede social e o perfil dos seus utilizadores. Eu digo umas coisas, justamente sobre poesia no Twitter, a partir de 1’58”.

Um poema inédito de José Luiz Tavares

EPÍSTOLA AOS POETAS DO MEU PAÍS
(Antimanifesto para um tempo sem poesia)

Oram e laboram nas catacumbas
do mistério, os poetas do meu país.
Têm pactos com a metafísica.
São fiéis assalariados da tristeza.
Carpem a desfortuna da história,
o glorioso incêndio de roma,
e até mesmo o primeiro uivo divino.
Cobrem-se de tantas imaginárias
dores, como se lhes não bastasse
as veras que lhes dá o mundo.

Ó altos atletas da mágoa,
de lacrimais talentos possuidores,
o paraíso ou o inferno não são mesteres
de um só dia. Canção de embalo
ou acorde perfeito não erguem cidades.
À bulha com as pedras, até que derribada
a última quimera, sufocada a harmonia,
não sobre alento para canto ou choro.

E no entanto o mundo se revida?
Pobres versos não movem guerras;
sorriem antes ou desembestam caretas,
porquanto nem piedade ou cólera
defendem da humilhação e o progresso
lá vai fazendo as suas vítimas.

Ó crentes nas ideias que não defenderam
atenas do soçobro, a posteridade vale
bem menos que a gratidão do sol
esparramada por sobre esses fêveros
pardos campos. Soltar gases, armar
escarcéu, é bem mais poético e mais
humano, que o silêncio foi sempre
uma forma de morte distraída.

Ó tribunícios companheiros no altar
do verbo, se o tempo é chaga e o dom
impuro, fazei antes estalar o chicote,
ou desatai aos pinotes num desmedido
arroubo de danados.

Livros de poesia com 50% de desconto, hoje, na Assírio

Uma oferta válida apenas nas livrarias da Assírio & Alvim: a original (Rua Passos Manuel, 67-b, Lisboa); a do Pátio Siza, no Chiado (entrada pela Rua Garrett, n.º 10, e pela Rua do Carmo, n.º 29); e, mais recente de todas, a Livraria do Armazém (Travessa do Calado, 26-b, na Penha de França), que abre as portas hoje.

O poema

I

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
— Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

[in Ofício Cantante — poesia completa, de Herberto Helder, pág. 28, Assírio & Alvim, 2009]

Poesia no CCB (2)

Talvez tenha havido menos público do que noutros anos, mas mesmo assim as salas do primeiro piso do Centro Cultural de Belém encheram-se para ouvir poetas a ler os seus poemas, para assistir ao cruzamento de palavras com música (Social Smokers) e a uma homenagem à máquina lírica de Herberto Helder, além dos habituais workshops para crianças, desta vez assegurados pela editora Planeta Tangerina.


O actor Pedro Lamares lê um poema longo de Herberto


Workshop da Planeta Tangerina



Dois poemas mais ou menos dadaístas, criados durante o workshop


Feira do Livro de Poesia

Poesia no CCB

Hoje, a partir das 11h00, o Centro Cultural de Belém vai ser palco de dezenas de iniciativas para assinalar o Dia Mundial da Poesia. A programação completa pode ser consultada aqui. Destaco a maratona de leitura poemas de Herberto Helder, apresentada e coordenada pelo actor Pedro Lamares, na Sala Fernando Pessoa (Piso 2). Entre os leitores, estarão António Mega Ferreira, Paula Morão, a ministra da Cultura Gabriela Canavilhas, Paulo da Costa Domingos, Lídia Jorge, Maria João Seixas, Inês Fonseca Santos, Filipa Leal e Diogo Dória.

O nascimento de uma palavra

Eu já sabia, por testemunho directo do que se passou recentemente com os meus filhos, até que ponto o processo de aquisição da linguagem é uma espécie de miraculoso desabrochar, feito de milhões de pequenos passos e avanços invisíveis. Mas este vídeo mostra-nos como esses milhões de pequenos passos e avanços invisíveis se acumulam, do esboço de um som até à formação de uma palavra completa, projectados no tempo e no espaço. Vejam, vejam. É assombroso. No fim, como Deb Roy replicando o espanto do filho, também eu disse «uau».

Inauguração oficial da Casa José Saramago em Lanzarote

Isabel Coutinho esteve presente e conta o que se passou na cerimónia.

Quatro poemas de Mia Couto

O BAIRRO DA MINHA INFÂNCIA

Não são as criaturas que morrem.

É o inverso:
só morrem as coisas.

As criaturas não morrem
porque a si mesmas se fazem.

E quem de si nasce
à eternidade se condena.

Uma poeira de túmulo
me sufoca o passado
sempre que visito o meu velho bairro.

A casa morreu
no lugar onde nasci:
a minha infância
não tem mais onde dormir.

Mas eis que,
de um qualquer pátio,
me chegam silvestres risos
de meninos brincando.

Riem e soletram
as mesmas folias
com que já fui soberano
de castelos e quimeras.

Volto a tocar a parede fria
e sinto em mim o pulso
de quem para sempre vive.

A morte
é o impossível abraço da água.

***

FRUTOS

A bondade da mangueira
não é o fruto.

É a sombra.

A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.

Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.

Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.

A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.

O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore

A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.

Para o homem
vale a polpa.

Para a terra
só a semente conta.

***

NÚMEROS

Desiguais as contas:
para cada anjo, dois demónios.

Para um só Sol, quatro Luas.

Para a tua boca, todas as vidas.

Dar vida aos mortos
é obra para infinitos deuses.

Ressuscitar um vivo:
um só amor cumpre o milagre.

***

TRISTEZA

A minha tristeza
não é a do lavrador sem terra.

A minha tristeza
é a do astrónomo cego.

[in Tradutor de Chuvas, Caminho, 2011]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

O Duelo, de Anton Tchékhov (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Comer Animais, de Jonathan Safran Foer (Bertrand), por Luís M. Faria
A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen, de Raquel Vaz-Pinto (Tinta da China), por Luísa Meireles
Gente Comum – Uma História na PIDE, de Aurora Rodrigues (100 Luz), por António Loja Neves
Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca (Sextante), por Pedro Mexia
O Arenque Fumado, de Charles Cros e André da Loba (Bruaá), por Sara Figueiredo Costa
Indignai-vos, de Stéphane Hessel (Objectiva), por Rosa Pedroso Lima

3.ª Convenção de Bookcrossing

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Primeiros parágrafos

«Uma estranha loucura possui as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Esta loucura arrasta atrás de si misérias individuais e sociais que, há dois séculos, atormentam a triste humanidade. Esta loucura consiste no amor ao trabalho, na paixão moribunda pelo trabalho, levada até à exaustão das forças vitais do indivíduo e da sua prole. Em vez de reagirem contra esta aberração mental, os padres, os economistas, os moralistas, sacrossantificaram o trabalho. Homens cegos e tacanhos, pretenderam ser mais sábios que o seu Deus; homens fracos e desprezíveis, pretenderam reabilitar aquilo que o seu Deus amaldiçoara. Eu, que não sou cristão, nem ecónomo, nem moral, comparo o seu juízo com o juízo do seu Deus e as pregações da sua moral religiosa, económica e livre-pensadora com as terríveis consequências do trabalho na sociedade capitalista.»

[in O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue, tradução de António José Massano, Teorema, 2011]

Festival Literário da Madeira

Nem só de Correntes d’Escritas (Póvoa de Varzim) e de Literatura em Viagem (Matosinhos) vive o circuito dos encontros literários em Portugal. Enquanto não chega, lá para Novembro, o prometido “franchising” de Paraty nos arredores de Lisboa – a FLIS (Festa Literária Internacional de Sintra), dirigida por Gonçalo Bulhosa e Manuel Alberto Valente -, há um novo acontecimento no mapa, com estreia marcada já para o início do próximo mês.
Refiro-me ao Festival Literário da Madeira, organizado pelos Booktailors e pela editora Nova Delphi. Entre 1 e 3 de Abril, a primeira edição terá como sede o Hotel Meliã Madeira Mare, onde decorrerão as cinco mesas, com três a quatro escritores por sessão discutindo os seguintes temas: «Os escritores que fogem da fama»; «Os escritores malditos»; «Os escritores inconstantes»; «Os escritores esquecidos»; e «Os escritores maltratados».
Para já, confirma-se a presença de Afonso Cruz, Antonio Scurati, David Machado, Eduardo Pitta, Graça Alves, Inês Pedrosa, Isabela Figueiredo, Mário Zambujal, Patrícia Portela, Pedro Vieira, Raquel Ochoa, Rui Zink, Sandro William Junqueira, Viale Moutinho, Violante Saramago, valter hugo mãe e do autor deste blogue. Tal como na Póvoa de Varzim, haverá visitas de alguns dos escritores convidados a escolas (Machico, S. Vicente e Ponta do Sol).
O festival já tem página no Facebook, com novidades e informações úteis, aqui. E conta no Twitter, aqui.

Anunciada a longlist do Orange Prize 2011

Entre as 20 candidatas está a irlandesa Emma Donoghue, com Room, um magnífico romance que foi finalista do Man Booker Prize 2010 e será publicado pela Porto Editora ainda este ano. Lista completa, aqui. Anúncio da shortlist: 12 de Abril. Data da cerimónia final: 8 de Junho.

Os lodaçais celestes

Ameaçado Vivendo – Obra Poética II [2005-2009]
Autor: José Emílio-Nelson
Editora: Afrontamento
N.º de páginas: 184
ISBN: 978-972-36-1087-1
Ano de publicação: 2010

A obra de José Emílio-Nelson ocupa um lugar à parte na poesia portuguesa contemporânea, não porque o autor seja demasiado esquivo, ou intransigentemente marginal, mas porque esta é uma escrita que nada tem a ver com os discursos estéticos dominantes. Onde outros se entregam a prosaísmos quase planos e angústias bem-comportadas, como que em surdina, José Emílio-Nelson vai buscar a «tuba canora e belicosa» de Camões, fazendo com ela um tremendo estardalhaço. Ouvimo-la — magnífica, obscena, excessiva — em A Alegria do Mal (Quasi, 2004). Voltamos agora a escutá-la neste segundo volume da Obra Poética, reunião dos livros escritos no período 2005-2009.
Entre o sublime e o grotesco (mas sempre mais perto deste), José Emílio-Nelson faz de cada sequência, sempre pensada como bloco coeso, um denso palimpsesto de referências literárias, pictóricas ou musicais. O estilo é barroco, mas com apontamentos de um expressionismo bárbaro, agreste, violento. Por estes «versos que encandeiam e se distorcem», território de um «narciso em espelho empenado», circulam musas cobertas de fuligem, visões apocalípticas, exercícios de escatologia para «devassos que apreciam os requintes da indecência», simbologias católicas, «lodaçais celestes» e «uivos esplendorosos», rapsódias e sátiras, caricaturas e glosas, cães e cavalos, lilás e púrpura.
A mão que escreve talvez pretenda «desossar a alma ossada», consciente de que «a Beleza é a infâmia». Ao puxar-nos para dentro do turbilhão verbal, porém, obriga-nos a beber o «vinho amargo» da sua lucidez até à última gota. E não nos deixa quaisquer ilusões: «Todo o amor profana o coração, o sepulta/ Em lástima e éter».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Efeitos secundários (benéficos) da World Book Night

As vendas dos 25 títulos oferecidos durante a World Book Night aumentaram para o dobro desde o dia da grande oferta.

Amanhã, dia 16, às 18h30


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Três poemas de António Cabrita

ANTERIOR À CARNE

Eis o passe-vite: um Deus trabalha em ti,
ilegalmente. Não se deslinda o que o atrai
às junções, a ideia fixa, mas o teu corpo
é o seu placebo, o seu sistema de radares.
Que guerra o move, exterior ao monte de feno
onde dormitas? Que afago atraiu o abelhão
que flamejou num intenso negrume a mão?
E porquê esta, inocente, que nunca depenou
perdiz? Fala-se do Tempo, um crânio
que se locomove a vapor
contra a evidência galopante das imagens.
O abismo alça-se, dentro,
anterior à carne. Fuck!

***

SOPRA AS TUAS VELAS

O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo.

***

AUTO-RETRATO NUM CAMPO DE RÂGUEBI

Intercepta-me o espelho, o mais eficaz placador de râguebi. Eis-me inteiro na carne
amassada que a prata me devolve. Salva-me o olhar, surrado mas nada merencório
pois amanhã colherá sol – e chuva – e pernas morenas.
O que o tempo dispensa é a conversa fiada, a crença de que um seio
possa erguer um amor de alvenaria, ao abrigo de aguaceiros,
enquanto nos confia a paciência e a calva luz do humor
que vai desanuviando em nós a falta de Deus.

[in Não se Emenda, a Chuva, Livros de Horas, 2010]

Alice in iPadland (2)

Quase um ano após a sua primeira aventura no iPad, a Alice de Lewis Carroll vai a Nova Iorque dentro da segunda versão do gadget da Apple:

[via eBook Portugal]

Conheçam os ‘assisterati’

Que é como quem diz: os assistentes do mundo editorial.

Novo site do Grupo Bertrand/Círculo

Aqui.

‘A Phala’ de Março

Veio com a chuva.

Que não trema o trema da ‘Trëma’ (decerto à venda na Trama)

É uma nova revista literária, apontada a um género ainda com poucos seguidores em Portugal: a ficção especulativa. Talvez agora passem a ser mais.

Lançamento de ‘Como o Ar que Respiras’

O primeiro romance de Maria João Martins, jornalista do JL, é lançado esta tarde, a partir das 18h30, na FNAC do Chiado. A apresentação do livro será feita por Helena Vasconcelos.

Primeiros parágrafos

«Every whole person has ambitions, objectives, initiatives, goals. This one particular boy’s goal was to be able to press his lips to every square inch of his own body.»

[Início do conto Backbone, de David Foster Wallace, publicado num número recente da The New Yorker]

Obra bufa

A Arte de Dar Peidos
Autor: Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut
Ilustrações: José María Lema
Título original: L’Art de Péter
Tradução: Jorge Lima Alves
Editora: Orfeu Negro
N.º de páginas: 108
ISBN: 978-989-832-709-3
Ano de publicação: 2010

Publicado anonimamente em 1751, A Arte de Dar Peidos, «ensaio teórico-físico e metódico» do francês Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut (em boa hora editado pela Orfeu Negro, na tradução competente de Jorge Lima Alves), é um clássico airoso sobre um tema nada airoso: a flatulência. Animado pelo espírito das Luzes, este contemporâneo da Encyclopédie de Diderot e D’Alembert decidiu analisar «com toda a exactidão possível» um tema que nunca fora tratado cientificamente, mais por preconceito do que por ignorância. «É vergonhoso, leitor, que, depois de tantos anos a dar peidos, ainda não saibais como o fazeis e como deveis fazê-lo», insurge-se o especialista escatológico, para quem «dar peidos é uma arte e, por conseguinte, algo útil à vida».
Como qualquer bom investigador, Hurtaut começa por definir o objecto dos seus estudos, mas não se fica pela noção limitada de que um peido resulta das ventosidades libertadas pelo ânus «com ou sem estardalhaço». O assunto é complexo e Hurtaut não se poupa a esforços de inventariação e nomenclatura, recorrendo a um palavreado anatómico patusco e a descrições tão exaustivas como involuntariamente humorísticas. À falta de rigor científico, convocam-se filósofos e poetas que abordaram o tema, de Cícero a Horácio, com amplas citações em Latim e referências eruditas que conferem aos «peidinhos» e «bufas» uma inesperada nobreza. O autor não esconde os efeitos perniciosos (dos «odores mais infectos» aos danos no vestuário) mas considera-os «apenas acidentais». Muito pior é conter tais eflúvios dentro do corpo, porque ao não acharem saída, «atacam o cérebro» e «corrompem a imaginação», tornando a pessoa «melancólica e frenética».
Resumindo: sejam secos ou molhados, pestilentos ou inodoros, tonitruantes ou silenciosos, «mais vale largá-los do que expor-se a sofrer os seus incómodos». E se ao alívio (e até prazer) de quem se solta se juntar uma sensibilidade artística, melhor. Hurtaut acredita que há música nos peidos («o baixo-ventre é uma espécie de órgão polifónico») e espera que um dia surja o compositor que saiba dar uso àquela vasta panóplia de sons (62, garante, «quem quiser que os conte»).
A acompanhar o divertidíssimo texto, dezenas de magníficas (e não menos divertidas) ilustrações de José María Lema.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 98 da revista Ler]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges