Centenário de José Marmelo e Silva


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As comemorações começam no dia 6 de Maio, com um colóquio na Faculdade de Letras do Porto. Tudo sobre o escritor, aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Snu e a vida privada com Sá Carneiro, de Cândida Pinto (Livros d’Hoje), por Micael Pereira
Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro (Ahab), por José Mário Silva
O Último Comboio de Hiroxima, de Charles Pellegrino (Guerra & Paz), por Filipe Santos Costa
A Nossa Última Esperança, de Rei Abdullah II da Jordânia (Civilização), por Luísa Meireles
Banda Sonora para um Regresso a Casa, de Joel Neto (Porto Editora), por Pedro Mexia
A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão (Sextante), por António Guerreiro
Contos Carnívoros, de Bernard Quiriny (Ahab), por Ana Cristina Leonardo

Sete booktrailers muito, muito bons

São sete escolhas de Kirstin Butler, do site Brain Pickings. O sétimo booktrailer é quase uma versão animada de um livro sobre o qual escrevi aqui.

Das vantagens de escrever na cama

Robert McCrum, do The Guardian, explica quais são.

Gestos

Não é a primeira vez que acontece.
Primeiro, sinto uma misteriosa empatia com um determinado autor. Depois, à medida que o leio, passo o tempo a dizer: «quem me dera ter escrito isto». Há ali um comprimento de onda qualquer que partilhamos. Finalmente, vem o mais estranho de tudo: eu não só gostava de ter escrito aquilo, como na verdade já escrevi aquilo (ou algo muito próximo daquilo; para pior, claro). É como se já houvesse da parte dele uma influência sobre mim (ou uma contaminação, uma simbiose, uma confluência, não sei bem), mesmo antes da primeira leitura.
Um exemplo.
Ao descobrir esta semana as Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro (Ahab), deparei com o fragmento 188:

«As palavras que calámos eram as que devíamos ter dito. Os gestos que refreámos por pudor eram os que devíamos ter feito. Os actos que nos pareciam triviais eram os que se esperavam de nós. Outros fizeram-nos em nosso lugar. Paguemos agora as consequências.»

Espera lá, disse para comigo. Eu escrevi algures uma coisa muito parecida com esta. Fui à estante, para confirmar. E na segunda parte do livro Luz Indecisa, lá estava o poema explicatio:

O gesto mais simples,
capaz de ordenar tudo,
foi o que não fizemos.

Estreias

Vão ser lançados em breve três primeiros livros que me estão a suscitar muita curiosidade: Histórias Amorais para Crianças e Animais, de João Diogo Zagalo (Angelus Novus); A Manhã do Mundo, de Pedro Guilherme-Moreira (Dom Quixote); e Alçapão, de João Leal (Quetzal).

Lembrete

Logo à tarde, a partir das 18h00, vou moderar na Feira do Livro de Lisboa um debate sobre como “Inventar espaços para a poesia”, com a participação de Paulo Tavares (poeta e editor), Rui Almeida (poeta e blogger divulgador de poesia), Catarina Barros (livreira da Trama) e Sandra Silva (editora da 101 Noites e co-organizadora do Festival Silêncio!). Local: Praça Amarela.
Apareçam (e façam figas para que não chova).

PS – As figas, se as fizeram, não serviram de nada. Neste momento, Lisboa está sob um verdadeiro dilúvio, que nalgumas partes da cidade assume a forma de bátegas de granizo. Por isso, o debate foi transferido da Praça Amarela para o auditório da Feira. Se aparecerem, ensopados mas disponíveis, podem contar com a minha gratidão eterna.

O meu novo quiosque

Zite, Flipboard, Hitpad, News.me.

Cinco poemas de Pedro Mexia

NÚMERO 5

Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.

***

A MINHA ALTURA

Era a minha altura. Um livro
em cima da cabeça marcava
o lugar que um lápis semestralmente
riscava na parede da cozinha.
A única sabedoria dos ossos, crescerem
como a teia sólida de um propósito
e a anatomia mais transparente.
Centímetro a centímetro
espigava o corpo imaginário, essa contabilidade
que era assim, íntima, pictórica,
como uma cena burguesa.

Traço a traço a parede da cozinha
tornou-se rupestre,
a infância uma ternura assustadora.
Esta era a minha altura.
Agora sou tão mais alto e mais pequeno.

***

PARÁFRASE

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

***

FERRO-VELHO

Terraços inúteis, varandas
das traseiras, arrecadações,
escadas de caracol, marquises
desbotadas, antigas estufas,
barracas, vasos partidos,
paredes abertas, telhas,
ferro-velho, andares vazios,
degraus sem uso, o fosso
do elevador, fechaduras
de portões, gatos, cadeiras,
um sol sem préstimo,
ervas daninhas, um triciclo,
humidade, silêncio, azulejos,
sábado à tarde e o meu corpo.

***

AUTO-RETRATO COM VERSOS DE CAMÕES

Foi-me tão cedo a luz do dia escura
enquanto me enganava a esperança
que naquilo em que pus tamanho amor
errei todo o discurso de meus anos.

[in Menos por Menos – Poemas Escolhidos, Dom Quixote, 2011]

Antevisão da Feira do Livro

Em vídeo, no site do Expresso.

Livros digitais: a próxima geração

Uma droga benigna

Na fotografia, eu e o meu irmão estamos encostados a uma grande janela, olhando directamente para a câmara, com um livro aberto nas mãos (consigo perceber que o meu é um clássico qualquer da literatura inglesa, em edição de bolso; o do Manel um exemplar da colecção ‘Ficções’, da Estampa; mas é impossível discernir os respectivos títulos e autores). Lembro-me bem das circunstâncias em que a foto se fez. Num corredor do Conservatório Nacional de Música, minutos antes de uma aula a que o meu irmão tinha de assistir, o João Francisco Vilhena a dizer «isso, isso, encostem-se ao vidro e agora olhem para mim». Aconteceu em 1996, há quase década e meia. Examino a imagem e de repente aquele rapaz de 24 anos que eu fui está a olhar-me nos olhos, lá do momento parado em que o João Francisco o aprisionou.
É sempre cruel, este exercício. Porque eu sei muito mais do que ele. Eu sei tudo o que se passou de lá para cá: as voltas da vida, as grandes catástrofes e prodígios, os descaminhos do mundo. Ele ficou em 1996, segurando uma edição barata de um clássico qualquer da literatura inglesa, exibindo um meio sorriso junto à janela cheia de luz. Dirão que quinze anos não é assim tanto tempo. Mas aquele José Mário parece-me agora infinitamente distante. Aquele José Mário estava casado com outra mulher, ainda não tinha filhos, vivia em Santo António da Caparica, num quinto andar por onde deambulava uma gatinha persa (foi antes da alergia o afastar dos felinos) e de onde se via uma nesga de oceano, conduzia um Renault 5 GTL de cor cinza, assistia aos jogos do Figo no Barcelona enquanto passava camisas a ferro nas tardes de domingo, e, curiosamente, lia muito menos do que lê hoje. Curiosamente, repito, porque a fotografia no Conservatório serviu para ilustrar uma reportagem longa de Ana Margarida de Carvalho sobre «grandes leitores», publicada na Ler (também a revista era então muito diferente: no formato, na espessura, no grafismo, no papel).
Em 1996, eu lia bastante mas não fazia da leitura a minha actividade principal, como faço hoje. Naquela época, talvez admitisse vir a ser um dia o leitor que sou agora. Ao falar enquanto «grande leitor», era do José Mário de 2011, um José Mário futuro, finalmente bafejado pela sorte (ser pago para devorar livros, em vez de escrever sobre tudo e mais alguma coisa, em suplementos do Diário de Notícias que já ninguém recorda), era do José Mário actual que o José Mário de 1996 falava. Por isso, as citações que leio no texto de Ana Margarida de Carvalho não perderam validade. Exemplo: «Eu não tenho essa visão sacralizada da leitura. Leio sempre que me apetece, nem que seja em pé na paragem de autocarro. E Beckett não me sabe pior lá por estar debaixo de chuva.» Ou ainda: «A leitura, para mim, é talvez a droga mais saudável que existe. Traz-nos euforia, cria-nos dependência, mas o único risco que corremos é ampliar a nossa visão do mundo. E isso, que eu saiba, não tem contra-indicações.» Passados quinze anos, continuo a achar que a leitura tem o efeito de uma droga (felizmente benigna), mas encaro a frase com a bonomia de um velho consumidor de ópio diante do súbito entusiasmo de quem começou ontem a fumar charros.
Diga-se que há muitos aspectos do José Mário de 1996 que permanecem no José Mário de 2011. No núcleo central das preferências literárias, estavam quatro nomes (Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Herberto Helder e Georges Perec) que nunca abandonaram o panteão particular, antes o partilham com outros autores (como Roberto Bolaño ou W. G. Sebald) que só vim a descobrir mais tarde. A bem dizer, a principal diferença entre os dois eus não é física, nem psicológica, nem sequer intelectual. A principal diferença está nas muitas centenas (ou talvez milhares) de livros que o segundo leu entretanto, cumprindo em parte o vago desejo do primeiro (habitar um dia a secção menos aleatória da Biblioteca de Babel). Bem vistas as coisas, o primeiro é um fragmento da memória do segundo. E o segundo é o sonho cumprido do primeiro. Um e outro coexistiam já na fotografia daquele número antigo da Ler. E, como Borges, não sei qual dos dois escreveu esta página.

[Texto publicado no n.º 100 da revista Ler]

‘Escritores cubanos: criação e liberdade’

Hoje, na Casa Fernando Pessoa, uma sessão de leitura e debate com Karla Suárez, Manuel Diaz Martínez e Miguel Rivero. A partir das 18h30.

Chegou o ‘bicho’

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Livros

«Livros viscosos como pântanos, nos quais uma pessoa se afunda e clama, em vão, que a salvem; livros ásperos, cortantes, perigosos, que nos enchem de cicatrizes; livros acolchoados, de dunlopillo, onde pulamos e saltamos; livros-meteoro que nos transportam para territórios ignotos e nos permitem escutar a música das esferas; livros chatos e resvaladiços, onde escorregamos e partimos a cabeça; livros inexpugnáveis nos quais não conseguimos entrar, quer seja pelo meio, pelo início ou pelo fim; livros tão transparentes que penetramos neles como no ar e, quando voltamos a cara, já não existem; livros-larva que deixam ouvir a sua voz anos depois de os termos lido; livros peludos e com garra que nos contam histórias peludas e com garra; livros orquestrais, sinfónicos, corais, mas que parecem dirigidos pelo tambor principal da banda da aldeia; livros, livros, livros…»

[in Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro, trad. de Tiago Szabo, Ahab, 2011]

Poesia em debate na Feira do Livro

Na próxima sexta-feira, a partir das 18h00, vou moderar um debate na Feira do Livro que tem como mote “Inventar espaços para a Poesia”. Convidados: Paulo Tavares (poeta e editor), Rui Almeida (poeta e blogger divulgador de poesia), Catarina Barros (livreira da Trama) e Sandra Silva (editora e co-organizadora do Festival Silêncio!). A conversa decorrerá na Praça Amarela, esperemos que sob agradáveis condições atmosféricas.

A alquimia infame

HHhH – Operação Antropóide
Autor: Laurent Binet
Título original: HHhH
Tradução: Manuela Torres
Editora: Sextante
N.º de páginas: 298
ISBN: 978-972-0-07130-9
Ano de publicação: 2011

Obra de estreia de Laurent Binet (n. 1972), distinguida em 2010 com o prémio Goncourt para primeiro romance, HHhH – Operação Antropóide é um livro sobre a possibilidade (ou impossibilidade) da representação literária, sobre o poder da narrativa ficcional e os seus limites. Logo no primeiro dos 257 capítulos curtos em que a obra se divide, Binet evoca um homem a quem deseja prestar homenagem, o herói eslovaco Jozef Gabčík, co-autor de «um dos maiores actos de resistência da Segunda Guerra Mundial». Imagina-o no seu quarto, de persianas corridas, ouvindo o chiar de um eléctrico que passa na rua, em Praga. E começam aqui os problemas com a saga do atentado histórico que deseja tão ardentemente contar: «Estou a reduzir este homem à categoria de vulgar personagem, e os seus actos a literatura.» Trata-se, nas suas palavras, de uma «alquimia infame», um jogo perigoso que lhe causa sobressaltos éticos. De qualquer modo, ele avança: «Não quero arrastar esta visão pela vida fora sem, pelo menos, ter tentado restituí-la. Só espero que, por trás da espessa camada reflectora de idealização que vou aplicar a esta história fabulosa, o espelho sem estanho da realidade histórica se deixe ainda penetrar.»
A «visão» de que Binet fala é a que emerge da densa sequência de factos que levaram à morte por septicemia de Reynard Heydrich, responsável nazi pela Boémia e Morávia, na sequência do ataque ao seu Mercedes, a 27 de Maio de 1942, por dois pára-quedistas vindos de Londres (o já referido Gabčík e Kubiš, um checo). Este acontecimento concreto tornou-se, com o tempo, uma obsessão para o escritor, que acumulou gradualmente toneladas de informação sobre a época e as figuras implicadas. Contrariamente ao que acontece na maior parte dos romances que abordaram o tema (alguns deles analisados por Binet), a intenção não era apenas mostrar o árduo caminho dos resistentes até conseguirem pôr fim à «besta loira», esse ideólogo maior da Solução Final, também conhecido como «o cérebro de Himmler» (nas SS, brincava-se com o acrónimo do título, HHhH, que quer dizer «Himmlers Hirn heißt Heydrich»; ou seja, «o cérebro de Himmler chama-se Heydrich»). Na verdade, o livro mergulha nas origens de Reynard, acompanha a sua trajectória ascendente dentro da hierarquia nazi e as suas maquinações, mas não pretende explicar a sua natureza pérfida. Tal como não pretende explicar o heroísmo dos pára-quedistas, cuja entrada em cena vai sendo adiada durante quase cem páginas («Talvez essa longa espera na antecâmara do meu cérebro lhes restitua um pouco da sua realidade, e não apenas a vulgar verosimilhança»).
É justamente esta procura de uma verdade que não seja corrompida pela retórica literária que está no centro das preocupações de Binet. Para fugir ao «carácter ridículo e pueril da invenção romanesca», ele opta por criar um «sub-romance». Isto é, uma narrativa que incorpora, em alternância com a história principal, elementos exteriores: dúvidas (o Mercedes afinal era preto ou verde?), hesitações, erros, desvios, reflexões sobre a escrita em curso e memórias da própria vida do autor durante o processo. Os seus dilemas, diga-se, são essencialmente os mesmos que Flaubert sentiu ao recriar um tempo histórico distante, em Salambô. A diferença é que Flaubert só mencionou esses dilemas na correspondência privada, enquanto Binet os transforma numa das linhas de força principais do livro.
«Escravo» dos escrúpulos, o escritor chega a parecer emparedado: «Não posso contar esta história tal como ela devia ser contada. Toda essa miscelânea de personagens, de acontecimentos, de datas, e a arborescência infinita de ligações de causa a efeito, e essa gente, essas pessoas reais que existiram de facto, com a sua vida, os seus actos e os seus pensamentos dos quais apenas traço um quadro ínfimo… Esbarro incessantemente contra esse muro da História sobre o qual trepa e se estende, sem nunca parar, sempre mais alta e sempre mais espessa, a hera desesperante da causalidade.» Dá-se então uma espécie de paradoxo. Quanto mais Binet se convence de que a história é impossível de abarcar, porque não tem fim e nunca será possível colmatar os seus hiatos, mais se aproxima do que ela tem de profundamente belo, grandioso e insondável.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Quetzal)

Para Maio: Adeus a Berlim, de Christopher Isherwood; O Grande Bazar Ferroviário, de Paul Theroux; Transa Atlântica, de Mónica Marques (reedição, com nova capa); A História Não Acabou, de Claudio Magris; Os Óculos de Ouro, de Giorgio Bassani.

Cioran por Pedro Mexia

«Cioran foi um “aristocrata dos vencidos”, não conheço definição tão certeira como essa, e viveu algumas divertidas contradições: autor da moda mas mediaticamente invisível, niilista citado nos salões burgueses, discípulo de Job sem grandes tragédias objectivas. Sempre admirei nele a propensão para os “exercícios negativos”, que eram não apenas a constatação de fracassos, precariedades ou embustes, mas uma exploração radical dessa constatação pessimista. Isto, creio eu, tem também a virtude de afastar os timoratos e de atrair os complicados.»

‘The Lost Thing’ (um vislumbre)

Trailer do filme The Lost Thing, vencedor do Oscar para a melhor curta-metragem de animação deste ano, inspirado num livro de Shaun Tan, de quem descobrimos recentemente o fabuloso Contos dos Subúrbios.

Impaciência

«A impaciência de Pierre Gould não tem limites. No dia em que, sendo jovem, decidiu que seria escritor, começou por redigir uma nota testamentária para legar os seus futuros manuscritos à Biblioteca Nacional. No dia seguinte, andava pela cidade à procura de tradutores. No terceiro dia, registava duzentos títulos no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual. No quarto, telefonava aos jornalistas para garantir boas críticas. E dez anos mais tarde, evidentemente, continuava sem ter escrito uma palavra.»

[in Contos Carnívoros, de Bernard Quiriny, trad. de Miguel Serras Pereira, Ahab, 2011]

Sara Poisson

Uma poeta lituana, a descobrir aqui.

Cerveja sem álcool, prosa chilra & água divina

Ou do carácter ambíguo das transfigurações, segundo um fecundo tradutor.

Mais logo

O último volume de crónicas do «reaccionário minhoto», apresentado por Joana Amaral Dias, Pedro Lomba e Francisco José Viegas. Na Bertrand do Chiado, a partir das 18h30. Vá lá, vá lá, ser a 26 de Abril; e não a 24.

Revistas à solta

No sábado, Dia Mundial do Livro, várias edições da LER (e um ou outro livro) foram espalhados pelos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, da Estrela e de São Pedro de Alcântara (Lisboa); e também em Serralves, no Palácio de Cristal e no Jardim do Passeio Alegre (Porto). Uma bela ideia.

Leitura do dia

Avenida da Liberdade. Capa: Marquês do Pombal. Contracapa: Rossio.

Feira do Livro (uns dias antes da abertura)

Os pavilhões já estão montados, com destaque para o que vai ser a «apresentação surpreendente» do Grupo Babel, em forma de túnel: «uma estrutura que se estenderá por 50 metros e será dividida em três secções cobertas, com espaço para zona multimédia, um auditório, uma área infantil e outro reservado às parcerias» (Biblioteca Nacional, Academia de Ciências, Trienal de Arquitectura, Cinemateca).
Eis um primeiro vislumbre do dito «túnel de experiências», criado pela arquitecta Soledade Paiva de Sousa:

Seis poemas de António Barahona

COMPOSIÇÃO

Sequer um gesto fica por esboçar
nem hora sem a sua liturgia:
realidade inteira a respirar
Deus, por todos os poros, à porfia.

Só então o poeta bebe a bica
e, discreto, compõe versos à lupa.

***

A GRANDE OBRA

Frondoso espírito de tantas páginas.

Estas partículas de lume pegam
fogo à água, e o símbolo assume
seu aspecto de som em labaredas.

***

PULSAÇÃO

Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d’árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sôpro do seu sangue num coágulo.

***

LARGO DO BARÃO DE QUINTELA

A estátua da verdade está sempre de braços partidos
cada vez que vou a caminho dos teus braços inteiros

***

ARTE POÉTICA

Por cada verso feito quantas noites
desfeitas e mulheres transfiguradas,
madrugadas, cidades, auto-estradas,
montes de cartas, mortos e ausentes.

Por cada verso feito me despeço
dêste mundo, em pedaços repartido,
pois só consigo reunir-me quando fundo
império de poema nunca escrito.

***

CADÁVER ESQUISITO HETERODOXO COM JOÃO RODRIGUES NO CAFÉ GELO EM 1961

Intimidade côr de bombazina
a cercar uma aranha de bambú
passa um polícia a cheirar a benzina
parte-se uma vidraça e surges tu

Sobrenadavam carpas na baía
um novo ritmo que vem de Las Vegas
daquele lado já nada se ouvia
quadrilha de gaivotas quase cegas

Por dentro era o som dum violino
por fora havia um vago marulhar
menos que nunca penso no destino
e bebo a tua sombra devagar.

[in O Som do Sôpro, Poesia Incompleta, 2011]

Era uma vez um burro, um macaco e um rato

É um Livro
Autor: Lane Smith
Título original: It’s a Book
Tradução: E. P.
Editora: Presença
N.º de páginas: 32
ISBN: 978-972-23-4518-7
Ano de publicação: 2011

Houve um tempo em que o livro era um livro. Um objecto feito de papel, tinta e cola (ou linhas a coser os vários cadernos), às vezes com capa dura, às vezes com capa mole, às vezes com bonecos, às vezes sem bonecos, sempre com páginas que se iam virando do princípio para o fim. Hoje um livro continua a ser isso, mas também é outras coisas. Ficheiros digitais, pdf’s, textos descarregados da internet para leitores electrónicos: Kindles, Nooks, iPads, essa parafernália toda. Haverá o risco de as crianças pequenas (entre quatro e oito anos) ficarem tão enfeitiçadas com as novas tecnologias que esqueçam as características milenares dos livros analógicos (chamemos-lhes assim)? Não me parece. De qualquer modo, como quem joga pelo seguro, Lane Smith decidiu criar este simpático manifesto em defesa dos livros tradicionais, aqueles que não precisam de electricidade para funcionar.
Como nas fábulas, a história circunscreve-se a uma situação muito concreta, vivida por três personagens animais: um burro, um macaco e um rato. O rato pouco mais é do que um observador do duelo entre o burro hiperactivo e o macaco pachorrento, o primeiro a fazer as vezes de nerd e o segundo no lugar do leitor clássico. «O que tens aí?», começa por perguntar o quadrúpede. «É um livro», responde o símio. Com um computador portátil pousado nas patas, o burrico vai fazendo um exame às capacidades do dispositivo que o amigo parece venerar. À partida, o livro parece muito limitado: não envia mensagens, não permite fazer tweets nem posts, não tem wi-fi, não emite sons, não permite sequer «organizar combates entre os personagens». Por outro lado, não precisa de palavra-passe nem de um nome de utilizador. Quando o macaco lho passa para as mãos, o burro lê uma página solta, sobre um pirata com uma perna de pau, brandindo uma «enorme espada incrivelmente afiada», e logo sentencia que há ali «letras a mais», que uns emoticons poderiam muito bem resumir. Vagamente incomodado, mas sem baixar a guarda, o macaco limita-se a repetir: «Isto é um livro.» Como quem diz: «Se não gostas, se não queres, o problema é teu. Vai lá brincar com as tuas geringonças que eu não troco o meu livro por nada.»
É então que o burro se deixa envolver na leitura da história de piratas que começou por desdenhar. E o relógio, por cima da sua cabeça, vai assistindo a um frenesim dos ponteiros. Ficou agarrado, mesmo sem teclas, sem downloads, sem refresh. Quando o macaco pede o livro de volta, o burro já não o quer largar. Está preparado o terreno para a punchline da história. Quando o macaco, triunfante, diz ao amigo que pode deixar-se estar, porque ele vai à biblioteca procurar outras leituras, o burro grita «Não te preocupes. Eu carrego a bateria quando acabar!», pondo-se a jeito para a estocada final, dada pelo ratinho cúmplice: «Deixa estar. Não é preciso…»
À simplicidade da narrativa e da mensagem, alia-se a elegância espartana das pranchas, muito estilizadas e despidas de elementos que possam distrair a atenção do essencial: as personagens do burro e do macaco (de cabeça estreita e comprida o primeiro; grande e redonda, o segundo; como que vincando o carácter intempestivo de um e a bonomia do outro). Eles estão frente a frente, sentados em poltronas de linhas rectas. O que interessa é o que dizem, a forma como duvidam ou se convencem do que é dito, sempre com o livro a passar entre eles como elemento de prova ou testemunho. Talvez seja uma defesa algo linear das vantagens do livro em papel, mas é uma defesa muito eficaz.
Aliás, sei bem do que falo quando me refiro à eficácia. Assim que recebi este volume, li-o aos meus dois filhos, de seis e quatro anos. O entusiasmo foi imediato. Chegados ao fim, pediram em uníssono: «Pai, Pai, lê outra vez.» E eu li outra vez. E outra vez. E outra vez. À quinta leitura, já sabiam os diálogos de cor. Depois, foram os dois para o quarto e eu ouvi-os a folhear as páginas, para trás e para a frente, enquanto fingiam, ora um, ora outro, as vozes do macaco e do burro. «Precisa de palavra-passe?» «Não!» «Isto é um livro, Burro!»

Avaliação: 8/10

Primeiros parágrafos

«Tantos livros, meu Deus, e tão pouco tempo e, por vezes, tão pouca vontade de os ler! A minha própria biblioteca, que só recebia um volume depois de previamente lido e digerido, vai-se infestando de livros parasitas, que ali chegam muitas vezes não se sabe como e que, através de um fenómeno de magnetização e de aglutinação, contribuem para cimentar a montanha do ilegível; e, entre esses livros, perdidos, encontram-se os que eu escrevi. Não digo em cem anos, mas em dez, vinte, o que restará de tudo isto? Talvez só os autores de tempos imemoriais, a dúzia de clássicos que atravessam os séculos, tantas vezes sem muitos leitores, mas airosos e robustos, como que animados por uma espécie de impulso elementar ou de direito adquirido. Os livros de Camus, de Gide, que ainda há duas décadas se liam com tanta paixão, que interesse têm agora, apesar de escritos com tanto amor e tanto sofrimento? Porque é que daqui a cem anos se continuará a ler Quevedo e não Jean-Paul Sartre? Ou François Villon e não Carlos Fuentes? De que substância se deve fazer uma obra para que ela perdure? Dir-se-ia que a glória literária é uma lotaria e a longevidade da arte um enigma. E, apesar de tudo, continua-se a escrever, a publicar, a ler, a glosar. Entrar numa livraria é pavoroso e paralisante para qualquer escritor, é como que a antecâmara do esquecimento: nos seus nichos de madeira, os livros já se preparam para dormir o seu sono perpétuo, muitas vezes antes de terem vivido. Qual foi o imperador chinês que destruiu o alfabeto e todos os vestígios da escrita? Não foi Heróstrato quem incendiou a biblioteca de Alexandria? Talvez só a devastação de tudo quanto foi escrito nos possa devolver o prazer da leitura, para podermos partir inocente e alegremente do zero.»

[in Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro, trad. de Tiago Szabo, Ahab, 2011]

Um bom conselho para o Dia Mundial do Livro

«Namora uma rapariga que lê» (texto de Rosemary Urquico, traduzido por Carla Maia de Almeida no seu blogue).

Artists Remix Classic Book Covers

O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, por Jason Edmiston. Mais exemplos, aqui.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

HHhH – Operação Antropóide, de Laurent Binet (Sextante), por José Mário Silva
As Mulheres dos Nazis, de Anna Maria Sigmund (Esfera dos Livros), por Luís M. Faria
Sítios, de José Bento (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
O Químico e o Alquimista – Benjamin, leitor de Baudelaire, de Maria Filomena Molder (Relógio d’Água), por António Guerreiro

Grande Prémio de Ensaio APE para Manuel Gusmão

O júri, composto por Clara Rocha, José Cândido Martins e José Carlos Seabra Pereira, atribuiu o prémio, por unanimidade, ao livro Tatuagem Palimpsesto – da poesia em alguns poetas e poemas, editado pela Assírio & Alvim. Uma decisão justíssima.

Bertrand do Chiado é a mais antiga livraria do mundo em actividade

Com portas abertas ininterruptamente desde 1732, primeiro na Rua Direita do Loreto, depois junto à Capela de Nossa Senhora das Necessidades (na fase que se seguiu ao terremoto de 1755), finalmente na Rua Garrett, a Livraria Bertrand do Chiado foi reconhecida pelo Guiness Book of Records como a livraria mais antiga do mundo em funcionamento. Durante o processo de candidatura, foram ouvidos testemunhos de vários especialistas que confirmaram o facto de a actividade da livraria nunca ter sido interrompida, entre os quais José Antunes (historiador), Miguel Cabrita (sociólogo), Rita Ferreira (engenheira) e José Augusto-França (escritor, historiador, crítico de arte e membro do Conselho Literário do Grémio Literário de Lisboa).
A partir de ontem, o certificado do Guiness passou a estar exposto na entrada da livraria (Sala Aquilino Ribeiro):

O que aí vem (Dom Quixote)

Em Maio: O Seu Lado Consumista, de Peter Carey; Lisboa. Um Melodrama, de Leopoldo Brizuela; As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta; Por Este Mundo Acima, Patrícia Reis; Ilha Teresa, de Richard Zimler; A Manhã do Mundo, de Pedro Guilherme-Moreira; A Viagem dos Cem Passos, de Richard C. Morais; Estrela do Mar, de Joseph O’Connor.

iMoleskine

Há quem ande com um Moleskine no bolso. Há quem ande com um iPhone no bolso. A partir de agora, haverá quem ande com um Moleskine dentro do iPhone que está no bolso.

Uma haste de assombro

A Mão na Água que Corre
Autor: José Manuel de Vasconcelos
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-972-37-1581-1
Ano de publicação: 2011

Ensaísta e tradutor, José Manuel de Vasconcelos é também um poeta bissexto: publicou apenas quatro livros entre 1982 e 2009 (dois na Vega, um na Ulmeiro e outro na Assírio & Alvim, neste momento fora de mercado). Em A Mão na Água que Corre oferece-nos um conjunto de poemas de escrita muito cuidada, quase todos de natureza descritiva ou contemplativa, marcados por dois pólos temáticos particularmente fortes: de um lado, o amor (enquanto aspiração, epifania ou memória); do outro, uma melancolia difusa que funciona como ecrã entre o sujeito poético e o mundo.
Esta é uma poesia da observação e do espanto («todo o instante seria uma haste de assombro»), atravessada por um «límpido lirismo» que acaba por se tornar cansativo. Vasconcelos procura na linguagem uma forma de música, mas esta melopeia, se por vezes é envolvente e entusiasma, na maior parte dos casos redunda num registo demasiado brando e arrendondado, uma beleza neutra que logo se dissolve, tão amena quanto vaga, alheia a qualquer sobressalto exterior. Num dos poemas, há uma referência aos olhos como estando «ausentes dos nervos do mundo» e talvez esteja aí o problema, nesse solipsismo de um «pranto sem corpo», sinalizando crepúsculos, ausências e angústias.
Num universo fechado e por vezes claustrofóbico, Vasconcelos dialoga com outros poetas — Ramos Rosa, Eliot, Sophia, Fiama, Alejandra Pizarnik, Umberto Saba (que traduziu) —, com obras pictóricas (Correggio, Rubens, Van Gogh, Christopher Pratt, Gerardo Rueda, Lourdes Castro) e com a mitologia grega. Mas os seus melhores poemas acabam por ser os mais irónicos. Como aquele que descreve a «entediante eternidade» da cabeça de Diogo Alves (o assassino do Aqueduto), presa num frasco de formol «cor de pânico». Ou aquele outro que atribui, à pobre Anne Frank, um confinamento similar: «Anne Frank foi sempre / um pequeno peixe num aquário, / primeiro às voltas com um impiedoso anzol, / agora olhada através dos grossos vidros / por turistas desengonçados».

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Reis e sapateiros

«Num hospício, um louco gritava no seu leito, apontando para o retrato do rei na parede da enfermaria: “O rei sou eu! Prendam esse impostor!” Nisto alguém se aproximava dele e dizia-lhe baixinho, junto à orelha: “Exerga-te”, e ele então caía em si, e depois essa pessoa perguntava-lhe, sempre no mesmo tom: “Que fazes tu na vida?”, e ele respondia, também baixinho, e com uma voz obediente: “Sou sapateiro”, isto até desatar a gritar outra vez que era o rei, e o verdadeiro, e alguém lhe falar de novo ao ouvido, e ele se calar, e assim por diante, e assim somos todos nós, também reis e sapateiros (e alguns de nós verdadeiros).»

[in O Filho de Campo de Ourique e outras histórias, de António Figueira, Dom Quixote, 2011]

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Não, A Mala Assombrada não é sobre aquela coisa de couro que todos os senhores do FMI transportam com algum esforço na mão direita, quando se dirigem pela manhã ao Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Mas podia ser.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges