Absolutamente imperdíveis

Os posts da Livreira Anarquista.

À distância

Não podendo estar fisicamente em Matosinhos, a mi pesar, consolo-me com a leitura do blogue do Luís Ricardo Duarte, que continua a fazer um acompanhamento minucioso do LeV.

Regresso

O LeV continua até amanhã, mas eu tive que apanhar o comboio das 07h45, no Porto. Em Lisboa (ou melhor, em Paço de Arcos), o trabalho chamava por mim.

Mesa 4

Filipa Leal começou por ler alguns versos de Manoel de Barros, «o homem da minha vida». E depois falou dos seus problemas com a ideia de realidade: «Não gosto da realidade. O que me interessa na realidade é a ficção.» Um interesse que lhe levantou muitos problemas quando estudou jornalismo em Inglaterra e raramente satisfazia as exigências de objectividade dos seus editores.
Laurent Binet refutou uma ideia defendida na abertura do debate por Carlos Veiga Ferreira, segundo a qual ficção e realidade seriam indissociáveis. Para o escritor francês, pelo contrário, realidade e ficção são coisas muito diferentes e é importante mostrar de que modo diferem. «Há um núcleo duro da realidade que é preciso ter presente e respeitar. O que eu não gosto na ficção é quando esta pretende imitar a realidade, ao mesmo tempo que dela escarnece. O que há mais, hoje em dia, são fracas cópias das obras-primas do realismo do século XIX. Há quem faça romances pós-Balzac ou sub-Balzac, mas com raras excepções esses livros não me interessam.»
João Tordo assumiu que o escritor está sempre a mentir, não sendo claro quais das muitas histórias que contou são mentiras-mentiras e quais são mentiras verdadeiras. Depois de confessar que começou a escrever por vingança (contra uma rapariga que lhe rasgou um poema, oferecido com amor num intervalo escolar), Tordo lembrou que as difusas fronteiras entre a realidade e a ficção provocam situação caricatas, como o facto de 30% dos adolescentes norte-americanos pensarem que Hitler não passou de uma personagem de ficção. «O ficcionista deve tentar subverter a realidade, anda às turras com ela. Escrevemos sempre para ajustar contas com a realidade, que não tem a obrigação de ser interessante, ao contrário da ficção.
Coube a Miguel Miranda a intervenção mais animada, com exemplos de vários episódios dos seus contos e romances que podem parecer ostensivamente ficcionais mas correspondem, segundo Miranda, a retratos exactos do que é a realidade. Com uma mão a segurar a mala da ficção e outra a segurar a mala da realidade, o escritor sente-se em condições de viajar para todo o lado. E até de enveredar por caminhos mais estranhos e perigosos, como o canibalismo (mesmo se apenas no plano simbólico, os escritores comem-se todos uns aos outros).
Luis Sepulveda lembrou, logo a abir, os perigos do Google enquanto instrumento de quem mistura, tantas vezes impunemente, a ficção com a realidade. Certa vez, deparou com uma biografia sua que o punha a nascer em 1919. Falando com a sua mãe, não deixou de se queixar: «Então, por que é que nunca me disseste que nasci antes de ti?

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Mesa 4: Da Ficção à Realidade. Da esquerda para a direita: Laurent Binet, Luis Sepúlveda, Carlos Veiga Ferreira (moderador), Miguel Miranda, João Tordo e Filipa Leal

Uma excelente notícia

Ao entrar para o autocarro, à vinda da Casa de Chá do Siza, o Carlos da Veiga Ferreira anuncia-me o seu regresso próximo à edição. «I’m back in town, como cantava o Frank Sinatra.» A nova editora, apresentada como chancela das Edições Afrontamento, chamar-se-á Teodolito. Um belo nome para suceder a Teorema, acho eu, por ser ao mesmo tempo próximo e distante do projecto que durante tantos anos apaixonou Veiga Ferreira – a distância que vai da abstracção da teoria à materialidade de um instrumento para medições rigorosas e objectivas. Um nome que a mim me diz muito (ou não fosse filho de um topógrafo) e que me fez logo pensar numa pequena obra-prima de Luiz Pacheco, livrinho mais do que esgotado e que bem merecia regressar às livrarias. Será que veremos em breve O Teodolito editado pela Teodolito? Pela reacção do editor regressado quando lhe mencionei esta hipótese, suspeito que sim.
O arranque a sério da Teodolito acontecerá só lá mais para Outubro, mas entretanto o primeiro livro sairá a 23 de Abril, Dia Mundial do Livro. É a habitual colectânea de contos que Veiga Ferreira co-edita todos os anos com a FNAC, desta vez com narrativas curtas de Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Ondjaki, Onésimo Teotónio de Almeida e Ricardo Adolfo.

Mesa 3

André Gago falou da construção do seu romance Rio Homem e da importância de trazer para o presente a memória dos acontecimentos históricos passados. No seu caso, a Guerra Civil de Espanha e II Guerra Mundial, como epicentro de algumas das maiores tragédias da Europa no século XX. «E por que é que escrevo? Escrevo para exercer a minha curiosidade sobre as coisas.»
Pedro Almeida Vieira: «No romance histórico, o escritor não tem rede, tem obstáculos. Em de 100 metros planos, corremos 110 metros barreiras. Pode parecer que a História como tema nos facilita a vida, mas é exactamente o contrário. Quando escrevo sobre o passado, procuro o rigor, claro, evitar anacronismos, tudo isso, mas nunca deixo de ter um pé no presente, no meu presente, para manter o contacto com o leitor de hoje.»
Teolinda Gersão falou essencialmente de política, de economia e do estado ruinoso das contas públicas, um problema antiquíssimo e que nunca deixou de existir em Portugal.
Leonardo Padura abordou o tema da História desconhecida da União Soviética, sobretudo no que diz respeito às relações da U.R.S.S. com os movimentos comunistas internacionais. No caso do assassinato de Trotsky, tema do seu último romance, houve muita informação perdida, porque Stalin tinha o hábito de destruir os documentos relativos às suas decisões e crimes, justamente por ter uma percepção aguda da História que perdura nos livros. O trabalho do romancista passa também por preencher esses hiatos, esses buracos, através do poder da linguagem e da imaginação.
António Vasconcelos Raposo explicou como durante décadas foi incapaz de falar da sua experiência na Guerra Colonial, até ao dia em que começou a acordar de noite, psicologicamente desequilibrado, atormentado pelas memórias dos combates. A salvação, encontrou-a na escrita do romance Até ao Fim – a última operação, publicado pela Sextante e lançado ao início da tarde no LeV. Um romance de que leu um excerto, comovendo-se a dada altura com o regresso ao palco do seu trauma. No fim, com a voz embargada, admitiu: «Isto afinal é mais difícil do que eu julgava.»

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Mesa 3: Livros com História dentro. Da esquerda para a direita: António Vasconcelos Raposo, Leonardo Padura, Francisco José Viegas (moderador), Teolinda Gersão, Pedro Almeida Vieira e André Gago

Primeiros parágrafos

«Gabčík (é o seu apelido) é uma personagem que existiu realmente. Terá ele ouvido, lá fora, por trás das persianas de um apartamento mergulhado na obscuridade, deitado sozinho numa estreita cama de ferro, o guinchar tão característico dos eléctricos de Praga? Quero crer que sim. Como conheço bem Praga, posso imaginar o número do eléctrico (mas talvez ele tenha mudado), o seu itinerário, e o sítio onde, atrás das persianas corridas, Gabčík, deitado, aguarda, pensa e escuta. O eléctrico n.º 18 (ou 22) parou diante do Jardim Botânico. Estamos sobretudo em 1942. Em O Livro do Riso e do Esquecimento, Kundera dá a entender que tem uma certa vergonha de ter que baptizar as suas personagens e, se bem que essa vergonha não seja perceptível nos seus romances, que estão cheios de Tomás, Tamina e Teresa, há aí como que uma evidência: o que poderá haver de mais vulgar do que, num desejo pueril de provocar um efeito de real ou, na melhor das hipóteses, apenas por comodidade, atribuir arbitrariamente um nome inventado a uma personagem inventada? Na minha opinião, Kundera deveria ter ido mais longe: o que poderá haver de mais vulgar, de facto, do que uma personagem inventada?»

[in HHhH, de Laurent Binet, trad. de Manuel Torres, Sextante, 2011]

O mar de Matosinhos


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Visto da espantosa Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, desenhada por Siza Vieira.

Mesa 2

Para Gonçalo M. Tavares, a viagem do século XXI é uma consequência da linha recta. A natureza não tem linhas rectas. Quando surgem linhas rectas é porque esteve lá um ser humano. A estrada, a autoestrada: linhas rectas impostas à barbárie, a ordem humana sobrepondo-se ao caos da natureza. Depois, porque o solo é um território difícil para as linhas rectas (está cheio de obstáculos: montanhas, pessoas, etc.), conquistámos os céus com as linhas aéreas. «Hoje vivemos fascinados com o ponto de partida e o ponto de chegada. Classicamente, a viagem era o percurso. Agora é o destino. O percurso deixou de ser importante. A história da viagem é a história da eliminação do percurso. E o avião é a satisfação máxima desse nosso desejo: a abolição do percurso.» E Tavares falou ainda da viagem enquanto itinerário mental, enquanto mudança do lugar da nossa atenção: «O que importa é onde está a nossa atenção, não é onde estão os nossos pés.» Para concluir: «O grande perigo da viagem é mudar-nos tanto que quando regressamos já não reconhecemos aqueles que deixámos.»
O argentino Eduardo Sacheri, temendo que a audiência não compreendesse o seu castelhano adocicado, falou do tempo em que tinha medo do escuro e lia na cama, depois do pai se afastar apagando todas as luzes. Naquele espaço circunscrito, imaginava-se numa carruagem de um comboio de transporte de mercadorias e protegia-se dos pânicos infantis mergulhando nos livros, na literatura. Passados muitos anos, garante que «escrever é voltar a estações anteriores da nossa vida, para melhorar coisas e situações do passado. Viajamos sempre como escrevemos. No meu caso, nas viagens o que me atrai é o acto de observar sítios que nunca imaginei conhecer e imaginar como serão as vidas das outras pessoas.»
José Abecassis Soares, que escreveu um livro sobre viagens a glaciares de várias latitudes, não se considera um escritor. «A ser alguma coisa, sou um descritor.» Alguém que descreve o que vê, sem pretensões literárias. Narrou depois, talvez com demasiados detalhes, a sua transformação de «viajante egoísta» em viajante altruísta».
À terceira presença no LeV, José Luís Peixoto pôde finalmente falar de um livro seu em que as personagens viajam mesmo, fisicamente, geograficamente, e não apenas num plano simbólico. O tema do seu último romance, a emigração portuguesa para França nos anos 60, surge-lhe agora como um mantra, uma ideia tão coesa que parece uma única palavra: emigração-portuguesa-para-França-nos-anos-60. A aprendizagem que o livro lhe trouxe foi também um exercício de compreensão de si mesmo e das suas origens familiares. A fechar uma intervenção um pouco longa demais para debates deste tipo, Peixoto leu uma passagem de Livro, com abundantes referências ao português afrancesado dos emigrantes e à importância dos intestinos e bexigas em literatura, que gerou momentos de hilaridade na bem composta audiência.
Por fim, Joel Neto analisou os vários tipos de turismo contemporâneo (incluindo a estranha mania de dizer que se «fez» um determinado país, como se esse país não existisse antes do turista lá ter estado), terminando com a leitura comovida de uma crónica muito pessoal, quase íntima, sobre a terra onde cresceu: Terra Chã, na ilha Terceira, Açores.

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Mesa 2: Encontro-me a mim próprio viajando. Da esquerda para a direita: Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Joel Neto, Vítor Quelhas (moderador), José Abecassis Soares e Eduardo Sacheri

Da partilha de recursos (ou quando um iPhone se transforma num hotspot de internet)

Sempre que precisares, Ricardo, é só pedires. Não tens de quê.

Mesa 1

João Lopes Marques lamentou o facto das viagens serem teoricamente de ida e volta (um bilhete de avião só de ida pode custar cinco vezes mais do que os outros). Quando se parte, está sempre implícito o regresso, disse este escritor e jornalista que um dia chegou à Estónia e já não quis voltar.
José Ricardo Nunes lembrou «a mais aterradora de todas as viagens», aquela que Bernardo Soares descreve no Livro do Desassossego, numa sequência em que vai num eléctrico e vê uma rapariga sentada à sua frente e olha para o seu vestido e começa a imaginar a fábrica em que aquele vestido foi feito e as pessoas que trabalhavam nessa fábrica e o que elas faziam e as cidades em que viviam e quando Bernardo Soares sai do eléctrico sai exausto por ter vivido tantas vidas.
Miguel Carvalho fez a defesa de um jornalismo que tenha o objectivo de mudar o mundo, mesmo sabendo que não se pode mudar o mundo.
Marcelo Ferroni considera-se um viajante sedentário (chega a uma cidade e fica «parado como uma pedra»). Entre outras coisas, explica como pensou visitar a Bolívia durante o processo de investigação e escrita do seu romance, uma biografia ficcionada de Che Guevara, mas depois acabou por ficar em casa e citar descrições de viajantes que fizeram a viagem que ele não fez («a minha Bolívia é um país imaginário»).
Rui Zink, o único vestido a rigor para o debate (trazia uma camisa havaiana), teve uma prestação à Rui Zink: engraçada, histriónica e bastante lúcida, para lá das gargalhadas. A dada altura, mostrou dois papéis. Num estava escrito “VI”; noutro estava escrito “AJO”. A viagem, concluiu, é sempre esta conjunção, esta dança entre o que vemos e o modo como essa observação nos leva a agir.

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Mesa 1: Viajo para educar o raciocínio. Da esquerda para a direita, João Lopes Marques, Miguel Carvalho, José Ricardo Nunes, Paulo Ferreira (moderador), Marcelo Ferroni e Rui Zink

Um almoço junto ao Douro

Antes de rumar ao LeV, participei no almoço organizado pela Ler, na pousada do Freixo, juntando os cronistas da revista com alguns dos seus leitores nortenhos. Assim, cara a cara, à mesma mesa. Devo dizer que a materialização de quem nos lê provoca uma sensação estranha. Há uma espécie de pudor que é preciso vencer. Mas depois, ultrapassada a estranheza, vencido o pudor, ajudados pelo vinho branco, a distância desaparece de vez.
Uma bela experiência.

A caminho do LeV

Vendas de e-books suplantam paperbacks nos EUA

The latest report from the Association of American Publishers, compiling sales data from US publishing houses, shows that total ebook sales in February were $90.3m. This makes digital books the largest single format in the US for the first time ever, the AAP said, overtaking paperbacks at $81.2m. In January, ebooks were the second-largest category, behind paperbacks.

Os narradores

«Quién sabe de dónde vienen las historias. De joven uno piensa que inventarlas, construir tramas brillantes, encontrar una forma original de contar, es un talento específico y más bien secreto que posee muy poca gente, los escritores, los maestros. Uno quiere ser literario sin interrupción, sublime sin interrupción, como el dandi de Baudelaire, y se enamora de libros que tratan de escritores y de escritores que ejercen de manera incesante como tales, que van vestidos de escritores y hablan como escritores con otros escritores y son tan literarios que los críticos literarios los adoran, sabiendo que pisan un terreno seguro, el de la literatura evidente, la literatura literariamente enroscada alrededor de sí misma. Uno hace o se propone hacer diagramas de argumentos; uno lee las conversaciones de Truffaut con Hitchcock y las cartas de Flaubert y a poco que se descuide se convence desoladamente de que le falta originalidad o imaginación, o de que la literatura les sucede a otros y sucede en otra parte, en los lugares distinguidos y lejanos en los que las cosas ocurren de verdad, donde los escritores se juntan para discutir y beber hasta las tantas de la madrugada como si vivieran en el París de la Generación Perdida, donde los escritores viven esas experiencias que son propias de escritores y que sirven de material para los libros.»

Início de um texto de Antonio Muñoz Molina sobre On Writing, A Memoir of the Craft, de Stephen King, publicado na edição de hoje do suplemento Babelia, do El País.

Literatura em Viagem

O segundo encontro literário mais importante do país (a seguir às Correntes d’Escritas), começa hoje, em Matosinhos, com a presença de 38 escritores de vários países, entre os quais Marcelo Ferroni (Brasil), Rui Zink, Eduardo Sacheri (Argentina), José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Leonardo Padura (Cuba), Teolinda Gersão, João Tordo, Laurent Binet (França), Luis Sepúlveda (Chile), Hubert Haddad (Tunísia), Karla Suárez (Cuba), Afonso Cruz, Ondjaki (Angola), Tessa de Loo (Holanda), António Jorge Gonçalves, Richard Zimler (EUA), José Rentes de Carvalho, Mario Delgado Aparaín (Uruguai) e valter hugo mãe.
Programação completa, aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Questão Finkler, de Howard Jacobson (Porto Editora), por Luís M. Faria
Correr, de Jean Echenoz (Cavalo de Ferro), por Ana Cristina Leonardo
Estados de Guerra – Todos Contra Todos, org. de Rui Trindade (Bizâncio), por Cristina Peres
O Tesouro Escondido, de José Tolentino Mendonça (Edições Paulinas), por Pedro Mexia
A Mão na Água que Corre, de José Manuel de Vasconcelos (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
A Mão do Oleiro, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por António Guerreiro
O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco

The horizon trembling, shapeless

«Past the flannel plains and blacktop graphs and skylines of canted rust, and past the tobacco-brown river overhung with weeping trees and coins of sunlight through them on the water downriver, to the place beyond the windbreak, where untilled fields simmer shrilly in the A.M. heat: shattercane, lamb’s-quarter, cutgrass, sawbrier, nut-grass, jimsonweed, wild mint, dandelion, foxtail, muscadine, spine-cabbage, goldenrod, creeping charlie, butter-print, nightshade, ragweed, wild oat, vetch, butcher grass, invaginate volunteer beans, all heads gently nodding in a morning breeze like a mother’s soft hand on your cheek. An arrow of starlings fired from the windbreak’s thatch. The glitter of dew that stays where it is and steams all day. A sunflower, four more, one bowed, and horses in the distance standing rigid and still as toys. All nodding. Electric sounds of insects at their business. Ale-colored sunshine and pale sky and whorls of cirrus so high they cast no shadow. Insects all business all the time. Quartz and chert and schist and chondrite iron scabs in granite. Very old land. Look around you. The horizon trembling, shapeless. We are all of us brothers.
Some crows come overhead then, three or four, not a murder, on the wing, silent with intent, corn-bound for the pasture’s wire beyond which one horse smells at the other’s behind, the lead horse’s tail obligingly lifted. Your shoes’ brand incised in the dew. An alfalfa breeze. Socks’ burrs. Dry scratching inside a culvert. Rusted wire and tilted posts more a symbol of restraint than a fence per se. NO HUNTING. The shush of the interstate off past the windbreak. The pasture’s crows standing at angles, turning up patties to get at the worms underneath, the shapes of the worms incised in the overturned dung and baked by the sun all day until hardened, there to stay, tiny vacant lines in rows and inset curls that do not close because head never quite touches tail. Read these.

[Primeiro capítulo do romance The Pale King, de David Foster Wallace, Little, Brown and Company, 2011]

Abram alas para o rei pálido

Finalmente, um dos livros mais esperados de 2011, pelo menos no mundo anglo-saxónico, chega hoje às livrarias norte-americanas. Refiro-me a The Pale King, o romance incompleto e póstumo de David Foster Wallace, uma espécie de hino ao tédio contemporâneo, com a mais burocrática e aborrecida repartição de finanças que se possa imaginar como centro da narrativa.
Vantagens da tecnologia: poucos minutos depois da meia-noite, fiz download do romance para o Kindle e li o capítulo 1 antes de adormecer.

Cinco poemas de José Manuel de Vasconcelos

A CABEÇA DE DIOGO ALVES*

Estranha forma de olhar a vida eterna
dentro de um exíguo frasco, cor de pânico,
exposto às cozeduras do chiste
cheio de uma luz disfórica
tão longe já das pequenas glórias
do Aqueduto e dos sobressaltos
que vivificavam a míngua
Agora, a entediante eternidade
intercalada de visitas
como nos hospitais ou nas prisões
E quando há mais pessoas
estala no altifalante, irónico, o «Halleluia»

* Numa exposição que teve lugar no Museu Nacional de Arte Antiga, intitulada Passagens, 100 peças para o Museu da Medicina, exibia-se uma cabeça, dentro de um frasco com líquido conservante, como sendo a de Diogo Alves, o famoso criminoso que, entre outras «façanhas», assaltava pessoas no cimo do Aqueduto das Águas Livres, atirando-as depois dele abaixo.

***

TEATRO

Passam as personagens principais,
bons e maus actores
muitos figurantes
tudo se reduz a marcações, cenários
e inúteis figurinos

interminável, a representação
às vezes entusiasma
mas no geral é o supremo tédio
o rasgado bocejo

tem pequenos intervalos
um sopro de outra realidade
mas afinal não passa de ilusão
e a peça não acaba nunca –
alguém fechou as portas do teatro
pelo lado de fora

***

NUMA EXPOSIÇÃO DE GERARDO RUEDA

Olhavas para um quadro de Rueda
com um ar curioso mas displicente
procurando acolher aquelas três ou quatro
massas de cor na desorganização do teu olhar
que bem reflectia a tua vida
e eu contemplava-te apenas a pensar em sexo
e colocava-te mentalmente nas posições
em que gostaria de te possuir nessa noite
quando na efémera paisagem do quarto de hotel
organizássemos a relação do desejo
com os objectos que o habitavam (cama, cadeiras, espelhos,
e até o armário)
No fundo, no teu corpo
inscrevia-se a indecifrável vertigem
que une a arte e a vida

***

PAISAGEM COM CORVOS

Van Gogh
atirava pedras aos corvos
para os esmagar contra o céu
dos seus quadros

***

MUSEU ANNE FRANK

Anne Frank foi sempre
um pequeno peixe num aquário,
primeiro às voltas com um impiedoso anzol,
agora olhada através dos grossos vidros
por turistas desengonçados

[in A Mão na Água que Corre, Assírio & Alvim, 2011]

Uma gralha


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Hoje, a primeira página do Público anuncia uma colecção com um conceito interessante: livros escolhidos de autores importantes que nunca ganharam o Nobel. Estranhamente, Jorge Luis Borges não faz parte do lote, o que o coloca numa posição bizarra: não só foi ignorado pela Academia Sueca, como volta a ser ignorado na lista dos excluídos do Nobel.
Outro que não teve muita sorte foi Henry James, que na capa do respectivo volume passa a Henri James. Toda a gente sabe que o autor de Retrato de uma Senhora nasceu americano e naturalizou-se britânico. Pelos vistos, agora também o querem afrancesar.

‘Efeito Borboleta e outras histórias’ é um dos candidatos ao Prémio PT de Literatura (Brasil)

A nona edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura, atribuído a obras publicadas no Brasil em 2010, recebeu a inscrição de 380 livros na sua primeira fase de triagem. Destas obras, há uma de autora moçambicana (Agarra-me o Sol por Trás, de Tânia Tomé), uma de autor angolano (Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa) e sete de autores portugueses:

Neo-Poemas-Pagãos, de Ernesto Melo e Castro
As Três Vidas, de João Tordo
Efeito Borboleta e outras histórias, de José Mário Silva
Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares
Os Íntimos, Inês Pedrosa
Poemas da Noite Incompleta, Maria do Sameiro Barroso
A Escrita a Postos, Júlio Conrado

Quero desde já agradecer ao meu editor de Porto Alegre, Alfredo Aquino (da ARdoTEmpo), inexcedível no empenho e entusiasmo com que vem lutando pelo Efeito Borboleta… no imenso mercado editorial brasileiro.
A escolha dos primeiros 50 classificados decorre até 15 de Maio. Nessa altura, forma-se o Júri Intermediário que escolherá os 10 nomeados (shortlist), em Setembro. Por fim, em Novembro, numa cerimónia em São Paulo, serão anunciados os três vencedores. Em 2010, o primeiro prémio foi para o romance Leite Derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras).

Logo à noite, no Porto


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A sessão de hoje do Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre, junta dois Miguéis (o -Manso e o Cardoso) a duas Margaridas (a Vale de Gato e a Ferra), num espectáculo de poesia que foi buscar o título a um verso de Cesariny: “Vinde Trazer-nos Rosas e Arame”. Na segunda parte, toca e canta Lula Pena.
Gostava mesmo muito de assistir, mas o teletransporte, hélas, ainda não foi inventado.

A Trama tramada

Começou por ser um boato. Agora parece que é mesmo verdade: a livraria Trama entrou em insolvência e vai fechar portas. Merda. Grande merda. E eu que pensava que a vinda do FMI era a pior notícia da semana.

O que aí vem (Saída de Emergência)

São livros para o calor, dizem eles: Sangue Mortífero, de Charlaine Harris; A Caixa, de Richard Matheson; O Beijo das Sombras, de Laurell K. Hamilton; Sedução na Noite, de Sherrilyn Kenyon; O Feitiço do Highlander, de Karen Marie Moning; A Partícula de Vénus, de Douglas Preston.

Maravilhas da paternidade

Apesar de ainda faltarem uns meses para entrar no primeiro ano do ensino básico, a Alice já quase sabe ler e soletra cada vez melhor.
Esta manhã, ao folhear um livro infantil, deparou-se com a palavra «Egipto». Começou:
– Ê-Ê-GI-GI… e agora pai?
Expliquei-lhe que o «p» faz parte da palavra mas não se lê.
– Aliás, quando fores para a escola, essa palavra já não vai ter ‘p’.
Olhou-me com perplexidade.
– Não vai ter ‘p’?
– Não.
– O ‘p’ vai desaparecer?
– Sim.
– Do alfabeto? (em tom assustado)
– Não, filha, só das palavras em que a letra está lá mas o som dela não se lê.
Tanto a Alice como o Pedro (que estava por perto, calado), pareceram muito aliviados. Então o Pedro disse:
– Ainda bem, pai. É que se o ‘p’ desaparecesse do alfabeto, eu deixava de poder escrever o meu nome, não era?

O dugongo no jardim

Contos dos Subúrbios
Autor: Shaun Tan
Título original: Tales From Outer Suburbia
Tradução: Maria Lúcia Lima
Editora: Contraponto
N.º de páginas: 96
ISBN: 978-989-666-083-3
Ano de publicação: 2011

Os subúrbios de Perth, na Austrália, onde Shaun Tan (n. 1974) cresceu, não diferem muito dos subúrbios que estamos habituados a ver em filmes americanos: vivendas com garagem, todas iguais ou muito parecidas; relvados impecáveis; cercas; uma atmosfera talvez ilusória de segurança, conforto e normalidade social. É esta a paisagem em que Tan situa as suas 15 histórias, partindo todas elas de um qualquer curto-circuito que permite a irrupção, no quotidiano banal, de elementos narrativos da ordem do fantástico (umas vezes absurdos, outras vezes misteriosos, quase sempre poéticos).
Em Correntes Submersas, um dugongo aparece no quintal de uma família conhecida pelas violentas discussões conjugais. Ninguém compreende como é que um mamífero marinho daquelas dimensões foi ali parar, a quatro quilómetros da praia mais próxima, mas os vizinhos depressa se organizam para salvar o animal, trazendo baldes de água e cobertores ensopados. Quando os especialistas aparecem, com um guindaste no pronto-socorro e uma banheira gigante para o transporte seguro até ao mar, toda a gente julga que a estranha ocorrência será notícia nos telejornais. O dugongo, porém, não aparece em nenhum deles, levando os habitantes do bairro a concluir que «o episódio não devia ser tão extraordinário como tinham pensado». É quando tudo volta ao normal que o prodígio acontece. Na relva, ficou marcado o contorno do bicho. E dentro desse contorno vem deitar-se, olhando para as estrelas, com uma enciclopédia de zoologia marítima na mão, o filho do casal desavindo. Dá-se então uma espécie de epifania que transforma a vida familiar, como se a passagem improvável do dugongo tivesse tocado num ponto sensível e até então oculto da estrutura afectiva daquelas três pessoas, abrindo-lhes uma porta que parecia definitivamente fechada.

Este efeito de transfiguração – provocado por um corpo estranho à ordem natural das coisas – surge na maioria das histórias. Há o mergulhador que volta a casa, com o escafandro a escorrer água e coberto de cracas, como quem regressa do espaço exterior ou da morte. Há a gigantesca «bola de poesia», acumulação de todos os poemas que são escritos «mas que nunca se deixa os outros lerem», objecto formado por milhões de fragmentos avulsos, um aleph de papel, infinitamente poderoso e infinitamente frágil. Há os «pátios interiores» que são uma forma idílica de utopia no espaço de cada família. Há a memória fantasiosa de um avô, dando sentido e transcendência a umas simples alianças de casamento. Há uma rena que leva consigo os objectos preferidos, melancólico avatar das renúncias que nos são impostas e com as quais temos de saber viver. Há uma «Máquina da Amnésia» verdadeiramente eficaz, porque ninguém se lembra dela. E há mísseis intercontinentais montados nas traseiras de cada casa, por ordem do governo, mas que os cidadãos depressa encaminham para outros fins (casota, arrecadação, forno de pizza), esperando que o desprezo pela guerra seja universal: «Afinal de contas, se em países distantes houver famílias que tenham no seu quintal um míssil montado e apontado na nossa direcção, confiamos que também já tenham descoberto melhores usos para lhe dar.»
Ao talento narrativo, Shaun Tan junta um espantoso trabalho de ilustração, com estilos muito diferentes (da gravura japonesa ao pastel, do realismo polaroid ao preto-e-branco expressionista), conseguindo encontrar o registo apropriado para cada história e fazendo de Contos dos Subúrbios um dos livros mais belos editados em Portugal nos últimos anos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A batalha perdida de Zadie Smith

Apesar da luta levada a cabo pela autora de Dentes Brancos, a biblioteca de Kensal Rise, fundada por Mark Twain no início do século XX, vai mesmo fechar.

Um poema ao sábado, no ‘Público’

Neste último sábado, o Público estreou, no seu suplemento P2, uma rubrica que deve ser saudada com alegria (e talvez mesmo ao som de trombetas) por todos aqueles que lutam por uma presença mais constante e visível da poesia no espaço mediático. Todas as semanas, Luís Miguel Queirós, jornalista da secção de Cultura especializado em poesia, escolherá um poema inédito de autor português que ocupará uma página inteira: «Um poema sozinho, desamparado no excessivo espaço da página. Para o obrigar a si, leitor, a olhá-lo nos olhos.»
A estreia fez-se, e muito bem, com Manuel António Pina:


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Só é pena que no texto de apresentação da rubrica, publicado na última página do jornal, sexta-feira, o tom auto-congratulatório típico destas notícias desse azo a uma daquelas inverdades que não fica bem a uma publicação de prestígio propalar aos quatro ventos. Refiro-me à passagem em que se diz: «É certo que o Público, no Ípsilon, ainda vai garantindo à crítica de poesia mais espaço do que qualquer outro jornal nacional.» Ora, esta afirmação é falsa. Se os jornalistas do Público não lêem o Expresso, é lá com eles. Mas se lessem, perceberiam rapidamente que o suplemento Actual tem publicado, nos últimos anos, muito mais recensões a livros de poesia (e a livros de ensaio sobre poesia) do que o Ípsilon. Basta ir a uma qualquer hemeroteca e comparar.

O que se discute por estes dias na Feira do Livro de Londres

«Será que os editores vão ter alguma relevância no futuro?» Por futuro entenda-se, claro, a era digital.

Primeiros parágrafos

«Os alemães entraram na Morávia. Chegaram a cavalo, de mota, de carro, de camião mas também de caleche, seguidos por unidades de infantaria e de colunas de abastecimento, e ainda por algumas semi-lagartas de pequenas dimensões, nada mais. Ainda não chegou o momento de ver grandes panzer Tigers e Panther guiados por condutores de tanques em uniformes negros, que será uma cor bem prática para esconder as manchas de óleo. Alguns monomotores Messerschmitt de reconhecimento, do tipo Taifun, sobrevoam esta operação mas estão somente encarregados de garantir nas alturas que tudo se passa tranquilamente, não estando armados sequer. Esta não é senão uma pequena invasão relâmpago, feita com suavidade, uma pequena anexação sem que haja histórias, ainda não se trata da guerra propriamente dita. Trata-se apenas da chegada dos alemães e da sua instalação, é tudo.»

[in Correr, de Jean Echenoz, trad. de Virgílio Tenreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2011]

David Foster Wallace por Michiko Kakutani

Crítica ao muito aguardado romance póstumo e inacabado de DFW (The Pale King), publicada no The New York Times.

Lançamento de ‘Marias Pardas’

Logo à tarde, a partir das 17h30, António Ferra apresenta o seu novo livro, Marias Pardas (&Etc), no espaço de A Barraca. A actriz Maria do Céu Guerra lerá excertos do livro.

O outro lado da Madeira

Há uma semana, fomos dando aqui conta do desenrolar do Festival Literário da Madeira. Entre outras coisas, o encontro pareceu-nos um bom sinal de abertura às actividades culturais na ilha.
Poucos dias depois, eis o reverso da medalha, na forma de um comunicado que recebi da Editorial Caminho e que dispensa, a meu ver, quaisquer comentários. Leiam-no e tirem as vossas próprias conclusões:

«A propósito do lançamento no Funchal do livro Jardim, a grande fraude, de Ribeiro Cardoso (Caminho), cujo convite lhe foi ontem por nós enviado vimos informar o seguinte:

1 – Depois de devidamente combinado e agendado o lançamento numa sala do Hotel CS Madeira Atlantic, no Funchal, para o dia 12 de abril (próxima terça-feira), pelas 18 horas, fomos informados esta manhã, por parte de responsável do Hotel, da impossibilidade do aluguer da sala.

2 – Durante a tarde de hoje realizámos diversos contactos para alugar uma sala na cidade do Funchal, contactos que se revelaram infrutíferos.

3 – Por esta razão, vemo-nos forçados a adiar o lançamento para uma data posterior, da qual informaremos logo que possível.

O lançamento agendado para Lisboa, no dia 13, às 18.30h, na Casa da Imprensa, mantém-se.

Lamentamos qualquer inconveniente causado por este adiamento.»

Uma sinopse do livro de Ribeiro Cardoso pode ser lida aqui e torna fácil de perceber a dificuldade (ou antes, a impossibilidade) de alugar uma sala para o apresentar no Funchal.

‘Cosmopolis’ começa a ser rodado a 24 de Maio


O próximo filme de David Cronenberg, que adapta ao cinema o romance Cosmopolis, de Don DeLillo, vai ser rodado entre 24 de Maio e 21 de Julho. Do elenco fazem parte Robert Pattinson, Paul Giamatti, Samantha Morton, Juliette Binoche e Mathieu Amalric. O produtor é Paulo Branco.
Mais informações sobre esta obra, que desde já gera naturais expectativas nos admiradores de DeLillo, podem ser encontradas no site oficial do filme.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Contos dos Subúrbios, de Shaun Tan (Contraponto), por José Mário Silva
Hora: Noite, de Liudmila Petruchévskaia (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Um Promontório em Moledo, de António Sousa Homem (Bertrand), por Pedro Mexia
Contra a Literatice e Afins, de João Gonçalves (Guerra & Paz), por Ana Cristina Leonardo

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges