Praça da Liberdade

Tahrir – Os Dias da Revolução
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 110
ISBN: 978-989-671-082-8
Ano de publicação: 2011

Num dos primeiros dias de Fevereiro, Alexandra Lucas Coelho estava nos Açores a lançar o seu belíssimo livro de viagens sobre o país dos aztecas (Viva México, Tinta da China). No dia seguinte voltaria para o Rio de Janeiro, onde há vários meses trabalha como correspondente do jornal Público. O Egipto assaltou então os noticiários internacionais e a praça Tahrir, a abarrotar de manifestantes que exigiam a queda de Mubarak, impôs-se de repente como o centro do mundo. Lucas Coelho nem hesitou: pediu férias e meteu-se no primeiro avião para o Cairo. O livro que acaba de publicar é o diário da semana (6 a 14 de Fevereiro de 2011) que passou dentro da revolução egípcia.
Em nota prévia, a autora sublinha que este não é um trabalho jornalístico. Compreende-se o escrúpulo. Se fosse jornalismo puro e duro, teria de haver mais contextualização histórica, análise política, etc. Pelo contrário, ALC assume de que lado está, integra-se na multidão, toma partido. A «centrípeta e pulsante» praça Tahrir é o palco onde encontra pessoas de todos os estratos sociais, de todas as idades, de todos os credos. Elas querem «falar, e falar, e falar». Alexandra ouve-as e depois conta à sua maneira, delicada e atenta, nunca escondendo o entusiasmo por aquele movimento colectivo que tem «o ímpeto do que é sem artifício». No ar, sente-se sempre a euforia própria dos momentos em que um povo toma o seu futuro nas mãos. Desta vez, com a vantagem de não ter ninguém a liderar. Como diz Ahmed, de 24 anos: «Esta revolução é um corpo sem cabeça, porque se tivesse cabeça eles cortavam-na.»
Aos olhos de ALC, certo rapaz «parece uma versão árabe de Vincent Gallo» e um homem de 50 anos tem «corpanzil de Francis Ford Coppola». Já Wael Ghonim parece Wael Ghonim, o executivo da Google que inventou uma desculpa para voltar à pátria, liderou os protestos no Facebook, foi preso e, depois de libertado, chorou convulsivamente na televisão, ao ver as imagens dos que morreram na praça. De Wael, Lucas Coelho só soube à distância; já outro ícone da revolta, Gigi Ibrahim, que apareceu na capa da Time e foi entrevistada por Jon Stewart, passou por um certo nono andar que é um dos lugares centrais deste livro, apartamento de cuja varanda se podia fazer «zoom» sobre a revolução, nomeadamente no dia da festa da vitória, o dia em que a praça (e o país; e o mundo) explodiu de alegria ao saber que Mubarak resignara, dia a que não faltou sequer o encontro com um jovem italiano que sabe cantar a Grândola de cor.
E depois da grande festa? Depois da grande festa, uma lição de civismo. «Raparigas todas cobertas e raparigas de jeans colados, avós e netos, grupos de homens: quando não estão em plena acção, estão a caminho, cabeça levantada, vassoura ao ombro, como uma enxada. A revolução venceu ao fim de 18 dias insones e tensos. E no dia a seguir qual é a tarefa mais importante? Limpar o lixo como quem limpa 30 anos. Onde antes afundávamos os pés em plástico e entulho, agora não há uma beata.»
Dos jovens egípcios que saíram à rua, unidos pelas redes sociais (sobretudo o Facebook, «único lugar livre»), diz Lucas Coelho: «estão a desarmar o Ocidente, comovendo-o». É impossível não estremecer diante de tanta esperança, mesmo se o «epílogo em aberto» já mostra dúvidas e receios sobre o que virá depois. Mas ALC tem razão: por muito que o futuro atraiçoe as promessas da praça Tahrir, nada «eliminará o que aconteceu» ali durante três fervilhantes semanas.

Avaliação: 8/10

[Versão aumentada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Uma pergunta, uma resposta

Is the book dead?

O que aí vem (Bertrand)

Em Junho: Vai Dando Notícias, de Catherine O’Flynn; Instinto de Morte, de Jed Rubenfeld; Mossad – Os Carrascos do Kidon, de Eric Frattini; Um Dia de Verão, de Patrick Gale; Continua Desaparecida, de Chevy Stevens; A Guerra dos Impérios – A China contra os Estados Unidos da América, de François Lenglet; O Escandinavo Deslumbrado, de Alberto Xavier.

‘Liking Is for Cowards. Go for What Hurts.’

Um artigo de opinião de Jonathan Franzen no The New York Times. Ou de como nem todos os escritores atacam o Facebook de uma forma gratuita e grosseira (sim, sim, estou a referir-me a Miguel Sousa Tavares).

Literatura de aeroporto

Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio
Autor: Alberto Torres Blandina
Título original: Cosas que nunca ocurrirían en Tokio
Tradução: Francisco Guedes
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 191
ISBN: 978-972-564-929-9
Ano de publicação: 2011

Com as suas zonas de partidas e chegadas, longos corredores, imensas salas de espera, os aeroportos são o apogeu do conceito de «não-lugar», tal como o teorizou Marc Augé. Terra de ninguém entre o local onde se está e o sítio para onde se vai, funcionam como uma suspensão do tempo e da identidade, um território onde, reduzidos à condição de passageiros, de seres em trânsito, podemos presumir vidas imaginárias, para nós mesmos ou para os nossos desconhecidos e absortos companheiros de viagem.
É a este exercício que se entrega, com galopante avidez e criatividade, o protagonista do romance Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio, de Alberto Torres Blandina. Empregado de limpeza à beira da reforma, Salvador Fuensanta assiste há muitos anos ao fluxo de pessoas num aeroporto e mete conversa com toda a gente, partilhando memórias próprias e histórias alheias – a maioria das quais dignas de um episódio de A Quinta Dimensão. Ele tanto lembra o homem que criou um poeta de culto, finlandês e fictício, como o matemático americano capaz de provar, apoiado em cálculos estatísticos, que um acontecimento improvável lhe roubou literalmente a vida. Perdido no labirinto da sua «incontinência verbal», Salvador alerta para o código que transforma os gestos femininos mais inocentes – abanar-se com um livro, por exemplo – em convites para sessões de sexo no WC, e garante que o Japão na verdade não existe mas que um bizarro Clube dos Desejos Impossíveis é real, por entre dezenas de episódios fragmentados que evocam momentos de tristeza, de abandono, de amnésia, de cegueira amorosa ou de solidão.
Em vez de uma estrutura linear, Blandina construiu um mosaico de linhas narrativas sujeitas a cortes, interrupções, finais em aberto. Contudo, se a ideia geral do livro é consistente, o mesmo não se pode dizer da maioria das histórias de Salvador (ou são artificiosas em excesso, ou demasiado básicas). Quanto ao epílogo redondo, que força até ao limite o jogo entre verdade e ficção, digamos que era desnecessário.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

valter hugo mãe no ‘Babelia’

O suplemento cultural do El País dá hoje destaque a valter hugo mãe, com uma entrevista e uma recensão a dois livros que acabam de ser publicados em Espanha: folclore íntimo (tradução de Martín López-Vega, edição da Vaso Roto, Madrid) e el apocalipsis de los trabajadores (do mesmo tradutor, editado pela Alpha Decay, de Barcelona).

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Nervo, de Diogo Vaz Pinto (Averno), por António Guerreiro
Tahrir – Os Dias da Revolução, de Alexandra Lucas Coelho (Tinta da China), por José Mário Silva
Stanley Kubrick’s Napoleon: The Greatest Movie Never Made, de Alison Castle (Taschen), por Valdemar Cruz
Os Armários Vazios, de Maria Judite de Carvalho (Ulisseia), por Pedro Mexia
Confissões de um Opiómano Inglês, de Thomas de Quincey (Alfabeto), por Hugo Pinto Santos
A Mala Assombrada, de David Machado (Presença), por Sara Figueiredo Costa
O Peso da Borboleta, de Erri de Luca (Bertrand), por José Guardado Moreira
Estratégia, de B.H. Liddell Hart (Tinta da China), por Luís M. Faria

Será que as novas plataformas digitais podem acabar com a menorização dos contos?

Eu acho que sim. E não sou só eu. Oram leiam:

«Stories are meant to be read one at a time, savored individually, taken in, and reflected upon. Collections are ways of repackaging known works. Publishing executives today don’t expect collections to sell (because they haven’t in the past), so they aren’t marketed, and this cycle of low expectations and insufficient care creates a self-fulfilling outcome: collections don’t sell.
Web connected devices, like the iPad and the iPhone, can connect readers of short fiction with the best writing in the market. Mobile and web technologies reduce friction in markets. Storytelling is a deep human need, and readers of stories are entertained and instructed by clever plots, sympathetic characters, and artful writing. Words create imaginary worlds that provide readers with an experience that is similar to, but different from, the worlds of movies and television. Technology provides a new way to connect story tellers and fans.»

‘Ler no Chiado’ na Feira do Livro do Porto (passe o paradoxo)

Logo à tarde, a partir das 18h00.

Hotel pós-moderno

Ainda no restaurante, vi-o atarefado sobre o bloco A4, fazendo desenhos e riscando, com força, as letras maiúsculas. Depois, aquelas dezenas de pessoas acabaram os seus cafés, abandonaram as mesas e as conversas, entraram no autocarro e voltaram ao Auditório para mais uma sessão, a sexta, das Correntes d’Escritas. Ele, o valenciano Alberto Torres Blandina (n. 1976), seria pouco depois o primeiro a intervir num debate com o verso «Espalho sobre a página a tinta do passado» (Nuno Júdice) como mote.
Lá apareceu o bloco A4, transformado por Blandina num powerpoint manual, sucessão de imagens em torno de uma ideia: a de que o século XX, ao contrário do que geralmente se pensa, não foi o século de Pablo Picasso, mas sim o de Marcel Duchamp. Picasso revolucionou a pintura, é certo, mas não deixa de ser o ponto de chegada, o corolário, do que havia antes. Já Duchamp virou tudo de pernas para o ar (incluindo o urinol que se tornou Fonte e objecto de museu), reinventando o próprio conceito de arte e antecipando as formas de criação do século XXI. Para Blandina, depois de tudo já ter sido feito, só faz sentido fazer de novo, fazer de outra maneira. O remake, tão comum no cinema, está ainda por explorar devidamente em literatura. É certo que Borges criou o extraordinário Pierre Menard, um escritor moderno que volta a escrever Dom Quixote, um Dom Quixote igualzinho ao de Cervantes (coincidem palavra por palavra) mas ao mesmo tempo radicalmente distinto, porque os séculos que os viram nascer em nada se assemelham. Outros exemplos de remake, como os pastiches de Jane Austen com zombies, são literariamente menos interessantes, mas as possibilidades que se abrem são ilimitadas. Nas Correntes, o escritor espanhol, que também é dramaturgo e vocalista da banda Niñamala, defendeu ainda que os ficcionistas actuais devem olhar para os livros do passado como os rapazes suburbanos olham para os seus Citröen Saxo: vendo neles a base para todo o tipo de upgrades tecnológicos e estéticos, ao gosto do utilizador. Para Blandina, vai sendo tempo de abrir alas ao tunning literário, por muito que esta expressão nos pareça um oxímoro.
Uns dias depois, noutro almoço, fiquei sentado ao lado de Alberto e ele mostrou-me o último romance de Agustín Fernández Mallo: El Hacedor (de Borges). Remake (Alfaguara, 2011). Remake, lá está. «Vim a lê-lo no avião. Corresponde àquilo que eu mencionei: a estrutura é igual à do livro do Borges, o número de textos e os títulos são os mesmos, mas a partir daí o Mallo construiu o seu universo próprio.» Menino bonito da crítica espanhola, Mallo assume a escrita como experimentação. Já Blandina, surpreendentemente, nem por isso. O romance que publicou recentemente em Portugal (Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio), apesar da escassa verosimilhança das suas histórias, não deixa de ser uma narrativa convencional. «Sim, como escritor em nome próprio não arrisco muito», admitiu. «Deixo os vanguardismos para as criações colectivas.»
Falou-me então do Hotel Postmoderno, um projecto que nasceu na Internet, a várias mãos. Quatro amigos abriram um blogue e começaram a erguer um romance em conjunto, nunca se sabendo quem escrevia o quê e menos ainda quem corrigia os textos colocados online. Adeus autoria, olá contaminação. «Trabalhamos como uma banda de rock na fase do improviso.» Surgiram depois um romance histórico «com estrutura de DVD» (De La Habana, un Barco) e uma narrativa multimédia em forma de reality show, com seis concorrentes em busca de um prémio que é a morte (Suicídame). No território da literatura digital (a «digiteratura», como lhe chamam) exploram-se as potencialidades da tecnologia e integram-se outras artes, outras formas de expressão: teatro, música, fotografia, rádio, vídeo, interactividade com os leitores através das redes sociais.
Isto é só o princípio. No grande hotel da pós-modernidade não faltam quartos, infinitos quartos, à espera de quem os queira ocupar. Pela minha parte, gostava de ver este afã do lado de cá da fronteira. E nem precisava de ser um hotel. Já me contentava com uma pensão de três estrelas.

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

À conversa com Carlos Vaz Marques, na biblioteca de Algés

Logo à noite, a partir das 21h30, participarei no encontro ‘Café com Letras’, uma entrevista pública feita por Carlos Vaz Marques na Biblioteca Municipal de Algés (Palácio Ribamar, Alameda Hermano Patrone).
Apareçam.

O escritor do Terminal 5

Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow
Autor: Alain de Botton
Título original: A Week at the Airport – A Heathrow Diary
Tradução: Manuel Cabral
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 143
ISBN: 978-972-20-4002-0
Ano de publicação: 2011

Em A Arte de Viajar (2002), Alain de Botton reuniu uma série de ensaios sobre a experiência da viagem tal como foi vivida por vários artistas – de Baudelaire a Van Gogh, de Flaubert a Hopper –, quase sempre em irónica sobreposição com as suas próprias deambulações pelo mundo. Uma Semana no Aeroporto, pelo contrário, aborda o que acontece imediatamente antes, ou imediatamente depois, desse tempo suspenso em que nos deslocamos para outra geografia – neste caso dentro da fuselagem de um avião, lá nas alturas da estratosfera.
Convidado pela empresa que gere o aeroporto de Heathrow para ser «escritor-residente» durante uma semana, com acesso a todas as áreas e o compromisso de redigir um livro in loco, numa secretária instalada a meio do novo Terminal 5, de Botton acabou por aceitar a «invulgar oferta», assegurando que lhe deram liberdade total para criticar o que lhe apetecesse. Muito ao seu estilo (bem humorado, elegante, puxando ao erudito), o autor descreve os vários espaços deste paradigma do «não-lugar»: o quarto de hotel com ementas líricas, comparadas provocatoriamente aos haikai de Bashô; as pistas; os hangares; a «sala multifés»; o lounge de luxo; o controlo de segurança; a fábrica de catering (sem janelas); os 17 quilómetros de tapetes rolantes para o transporte de malas; o serviço de imigração; os locais onde os passageiros reencontram a família ou se despedem.
Enquanto reportagem, é um trabalho algo previsível, que não coloca nada em causa. Enquanto trabalho literário, pode dizer-se que não desonra. Fica porém uns bons furos abaixo do que Alain de Botton já fez noutros livros.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um país sem bibliotecas

Charles Simic sobre o «trágico» fecho de bibliotecas públicas nos EUA.

‘Para acabar de vez com a leitura’

Começa amanhã à noite, no Chapitô, um ciclo de debates intitulado “Para acabar de vez com a leitura” que é evidentemente um pretexto para continuarmos todos a ler, da mesma maneira ou de outras (isso logo se vê). O primeiro round tem o seguinte texto de apresentação:

«O que é isto de escrever? Todos escrevemos, em cadernos, no computador, em guardanapos de papel. Fazemos listas de compras, deixamos recados no frigorífico e no bolso das calças. Escrevemos livros, textos, poemas, cartas de amor. Mas o que faz de nós um escritor? O que é isso de ser “escritor”? Onde está a linha que nos separa de Cervantes, Borges, Pessoa? Será realmente preciso ler uma biblioteca para escrever um livro? Que biblioteca é essa? Qual é a linha que separa um exercício de escrita de um texto que merece ser lido? Vamos pensar a escrita naquilo que ela tem de mais essencial: a comunicação. Vamos tentar perceber qual é o lugar da escrita.»

Participam Sara Figueiredo Costa, Juva Batella, Rui Zink e Afonso Cruz, com moderação de Rosa Azevedo.

Feira do Livro de Lisboa (balanço final)

Apesar dos grandes apertos económicos que os portugueses enfrentam, ou talvez por causa deles, a Feira do Livro de Lisboa, cuja 81.ª edição terminou no dia 15, resistiu bem ao cenário de crise. «Pelos nossos cálculos, baseados em estimativas, terão passado pelo Parque Eduardo VII cerca de 350 mil pessoas, mais 50 mil do que no ano passado», adiantou Miguel Freitas da Costa, director da Feira. Na ausência de dados fornecidos pelas editoras quanto aos montantes facturados, a organização da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) mostra-se incapaz de fazer um balanço comercial, mas «das conversas que mantive com vários participantes fico com a impressão de que o volume de negócios foi sensivelmente igual ao de 2010», explica Freitas da Costa. «Sei que alguns editores tiveram quebras, mas outros aumentaram as vendas, pelo que no cômputo geral a situação não se alterou; nem para melhor, nem – felizmente – para pior.»
Entre os participantes com aumento das vendas está o grupo Porto Editora, que integrou pela primeira vez todas as suas chancelas – nomeadamente as da Bertrand/Círculo – num modelo de «praça», a repetir na Feira do Livro do Porto (entre 26 de Maio e 12 de Junho, na Avenida dos Aliados). Segundo Paulo Gonçalves, «os resultados foram muito positivos, com um crescimento na ordem dos 10%, em comparação com o período homólogo do ano passado». Recorde-se que em 2010 a Feira foi prolongada uma semana, devido ao mau tempo – um problema que também se colocou no primeiro fim-de-semana desta edição, mas não ao ponto de suscitar outro prolongamento. Paulo Gonçalves destaca ainda a importância da iniciativa Hora H, em que os descontos chegavam aos 70%: «Funcionou muitíssimo bem.»
No caso da LeYa, os primeiros números apontam para vendas semelhantes às de 2010. Ainda assim, José Menezes, director de comunicação do grupo, garante que o «balanço é positivo». Não só porque a animação cultural (com debates, concertos de jazz e a presença de quase 200 escritores) «foi um sucesso», mas porque se registou «uma maior procura por autores de língua portuguesa do que por autores estrangeiros, o que, estamos em crer, está também relacionado com os muitos autores lusófonos que estiveram em sessões de autógrafos na Praça LeYa».
Fora da lógica dos grandes grupos, a Assírio & Alvim não tem grandes razões de queixa, para além de uns quantos livros que ficaram destruídos quando a chuva entrou nos pavilhões, logo nos primeiros dias. «Comparando com o período homólogo, tivemos vendas semelhantes às do ano passado», avança Vasco David. O mesmo não pode dizer Cláudia Moura, da Livros Horizonte, que assinala uma quebra enorme (24%), depois de em 2010 ter crescido 30%. Como responsável pelo desastre aponta o túnel da Babel, uma «barreira preta» erguida diante dos seus pavilhões e que terá absorvido a maioria dos visitantes que entravam na Feira vindos do Marquês de Pombal. David Ferreira, da Babel, grupo que conseguiu vendas acima das expectativas (mesmo levando em conta o facto de ter aumentado a área, de quatro pavilhões para o equivalente a dez), mostra-se surpreendido com os efeitos secundários negativos de que se queixa Cláudia Moura: «Até agora, não soubemos de nada. Se isso se verificou, é evidente que não ficamos satisfeitos. Mas essa questão será certamente discutida em sede própria, numa das próximas reuniões da APEL.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Sábado, 5 de Fevereiro

O voo para o Cairo está atrasado oito horas. No aeroporto de Amesterdão as televisões mostram uma carrinha da polícia egípcia numa corrida louca para atropelar o máximo de gente. Manifestantes contam como foram presos e espancados e levaram choques eléctricos. Imagens de tanques debaixo dos viadutos à volta da praça Tahrir, chuva de pedras em frente do Museu Egípcio, pandeiretas resistindo na noite. E os líderes ocidentais falam em transição, pedem calma, acautelam o futuro, porque sabe-se lá se o partido dos Irmãos Muçulmanos não vai tomar conta de tudo.
Um clássico ocidental: o presente dos outros pode sempre esperar um pouco mais.»

[in Tahrir – Os Dias da Revolução, de Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China, 2011]

Feira do Livro no Funchal

Hoje à tarde.

Mudança de planos

Afinal não vou à troca de livros no miradouro do Monte Agudo porque voei manhã cedo para a Madeira, onde substituirei Nuno Markl, ausente por razões familiares, numa sessão da Feira do Livro do Funchal (esta tarde a partir das 18h30, no átrio do Teatro Baltazar Dias).
Para compensar, prometo para breve mais uma Grande Oferta de Livros do BdB. E desejo que as trocas de hoje sejam produtivas.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Histórias de Imagens, de Robert Walser (Cotovia), por António Guerreiro
Uma Semana no Aeroporto – Diário de Heathrow, de Alain de Botton (Dom Quixote), por José Mário Silva
Nada a Temer, de Julian Barnes (Quetzal), por Luís M. Faria
A Praia, de Cesare Pavese (Ulisseia), por Pedro Mexia
Americana, de Don DeLillo (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
A Arte da Ressurreição, de Hernán Rivera Letelier (Alfaguara), por José Guardado Moreira
O Som do Sôpro, de António Barahona (Poesia Incompleta), por Manuel de Freitas

Maravilhas da paternidade

04:33 a 04:40

Sem comentários

«Os festejos dos adeptos do F. C. Porto na Avenida dos Aliados provocaram alguns danos nas estruturas da Feira do Livro, pelo que o evento poderá estar comprometido, de acordo com a organização.
“Foi invadido o recinto da feira do livro, que já estava meio montado e que ia abrir para a semana. Foram praticados vários actos de destruição na feira – há equipamentos muito danificados”, disse o secretário-geral da organização do evento, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.»

A tendência continua

E-Book Sales Up 159% in Quarter, Print Falls.

Troca de livros

Não sei se se lembram, mas eu organizei em Agosto do ano passado uma Grande Oferta de Livros, num sábado de manhã, no miradouro do Monte Agudo (Penha de França, Lisboa). Agora, é com satisfação que vejo anunciada uma «troca de livros» para o próximo sábado de manhã, no miradouro do Monte Agudo (Penha de França, Lisboa). Mesmo sítio, mesmo espírito.
Sem prejuízo de uma segunda GOLBDB, lá mais para o Verão, depois de amanhã vou despachar uns bons molhos de livros para as mãos de quem os queira receber.
Apareçam.


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Jornadas de Gestão e Marketing Editorial

‘Livros & Negócios’, dia 27 de Maio, na Sala de Actos da Reitoria da Universidade de Aveiro.

A Síndrome de Estocolmo aplicada aos romances longos

O fascínio da ficção mastodôntica, analisado por Mark O’Connell no site The Millions.

Festa do Livro do Funchal

A 37.ª edição da Feira do Livro do Funchal começa amanhã. Programa completo e outras informações aqui.

‘Uma Noite com Pessoa’

«Hoje, dia 19 de Maio, o escritor brasileiro João Gilberto Noll inaugurará o ciclo “Uma Noite com Pessoa” na Casa Fernando Pessoa, tornando-se o primeiro escritor a dormir no quarto onde Pessoa viveu durante os últimos quinze anos da sua vida. A proposta da Casa Fernando Pessoa consiste em convidar escritores a dormirem no quarto de Fernando Pessoa, escrevendo depois sobre essa noite, para um livro a publicar durante o próximo ano. Os escritores Luísa Costa Gomes e Valter Hugo Mãe serão os próximos hóspedes.»

O que aí vem (Dom Quixote)

Em Junho: Tiago Veiga – Uma biografia, de Mário Cláudio; Domínio Público, de Paulo Castilho; Os Novos Espectros, de José Sasportes; No Meu Peito Não Cabem Pássaros, de Nuno Camarneiro; Lendas da Índia, de Filipe Castro Mendes; Catch-22, de Joseph Heller; A Toupeira, de John Le Carré; Os Cachorros. Os Chefes, de Mario Vargas Llosa; Relato de um Náufrago, de Gabriel García Márquez.

Book Expo America

Começa na próxima semana.

Primeiros parágrafos

«Na ladeira, que era duma bruteza íngreme, o chão esfarelava-se em pedrinhas mínimas que rolavam debaixo dos nossos pés, obrigando-nos a jogos de equilíbrio ridículos, com apoio de mãos. Por isso, Mussa, à minha frente, voltava-se para trás, parado à nossa espera, e ria com descaro. Ele parecia um espeque negro, cravado na escorrência de areias ferrosas, a projectar uma sombra esguia, quebrada, pouco mais grossa que a da vara a que se arrimava. “É lá adiante!”, dizia, entre casquinadas agudas, e apontava para o cimo penhascoso, de alcantis avermelhados, muito erodidos, com protuberâncias que lembravam inchaços bulbosos. Perguntava-me eu se Mussa saberia o que estava a fazer e não nos prepararia um rebate falso, como havia acontecido com o amontoado de pedras na margem do ued, que se viu depois ser uma marcação de caravaneiros com menos de oito dias.»

[in O Homem do Turbante Verde e outras histórias, de Mário de Carvalho, Caminho, 2011]

Coleridge sobre Shakespeare

Aqui.

Man Booker International Prize 2011 para Philip Roth

Enquanto não chega o Nobel, um dos maiores escritores americanos vivos vai-se consolando com sucedâneos.

Aniversário

O blogue Horas Extraordinárias cumpre hoje um ano de vida. Parabéns, Maria do Rosário. Que venham muitos mais.

Elegias

Revista Relâmpago, n.º 27
Editora: Fundação Luís Miguel Nava
N.º de páginas: 201
ISBN: 977-087-39-5010-8
Ano de publicação: 2011

Num número coordenado por Carlos Mendes de Sousa, a Relâmpago oferece-nos um excelente dossier temático sobre o conceito de elegia. Além de quatro ensaios que abordam a origem helénica deste género poético (Maria de Fátima Silva), as «atitudes elegíacas» do Romantismo inglês (João Almeida Flor), a sua manifestação no espaço da língua alemã (António Sousa Ribeiro) e o impacto da «elegia e as suas perdas» na produção poética portuguesa moderna e contemporânea (Rui Lage), o essencial do dossier é composto por 20 abordagens ao tema, por 20 poetas que escreveram, nalguns casos propositadamente, uma elegia (complementada com um texto de reflexão, mais ou menos teórica).
Sem surpresa, Frederico Lourenço, fazendo jus à sua reputação de estudioso e tradutor de poesia grega, é o único autor que se mantém fiel à métrica e à cadência dactílica dos poetas helénicos, recorrendo até ao «dístico elegíaco» (um hexâmetro seguido de um pentâmetro) no segundo «andamento» do seu poema. Os restantes autores, abdicando dos espartilhos formais, quiseram antes captar uma «atmosfera» (Fernando Pinto do Amaral) ou um «estado de espírito» (Pedro Tamen), não deixando de convocar os elementos tradicionalmente associados ao género: a consciência da finitude e efemeridade das coisas, o negrume existencial, a «lírica do luto», a evocação de figuras ausentes, a melancolia, o «amor difícil», as marcas da passagem devastadora do tempo ou «esta constatação de que chegamos sempre tarde» (Luís Quintais). Também sem surpresa, o Rilke das Elegias de Duíno é o poeta mais citado; umas vezes como referência, outras como fonte de inspiração.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco para A. M. Pires Cabral

Atribuído pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e pela Associação Portuguesa de Escritores, o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, no valor de 7500 euros, distingue este ano – e muito bem – O Porco de Erimanto e outras fábulas, de A. M. Pires Cabral, livro publicado na Cotovia (a minha recensão pode ser lida aqui).
O júri, composto por Afonso Cruz, José António Gomes, Serafina Martins e Fernando Miguel Bernardes, decidiu por unanimidade e «valorizou a arquitectura dos enredos, a capacidade de jogar com a perspectiva do narrador, a diversidade dos registos linguísticos (do erudito ao mais coloquial e até ao escatológico) e o trabalho de apuro estilístico do texto».

Petição contra a extinção do Ministério da Cultura

É uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores. Eis o texto:

«Os autores abaixo-assinados manifestam a sua preocupação relativamente à possibilidade de, no governo resultante do acto eleitoral de 5 de Junho, deixar de existir Ministério da Cultura, transitando as competências, responsabilidades e obrigações da tutela para uma Secretaria de Estado, como durante anos aconteceu, com todas as desvantagens daí decorrentes.
Sendo sabido que uma Secretaria de Estado não dispõe do poder de decisão e da dotação orçamental que costumam estar atribuídos a um Ministério, os autores abaixo-assinados temem que, a confirmar-se essa sombria possibilidade, as suas condições de vida e de trabalho e também de difusão a nível nacional e internacional das suas obras venham a ficar ainda mais afectadas do que neste momento já se encontram.
Foi longo e complexo o caminho que conduziu à criação de um Ministério da Cultura em Portugal, o qual, devido ao facto de os governos não costumarem atribuir à Cultura importância estratégica, nunca dispôs da dotação orçamental que os criadores merecem e os titulares da pasta consideram indispensável para levarem à prática políticas que acham adequadas e inadiáveis no quadro da vida portuguesa.
No quadro da crise que Portugal está a atravessar, poderá ter falhado tudo ou quase tudo, excepto a capacidade de os criadores e os artistas se manterem criativos e capazes de engrandecer a nossa cultura e, através dela, criarem mais riqueza, mais emprego, mais coesão nacional e mais visibilidade e prestígio para o país em termos internacionais.
Também por isso se torna inaceitável uma eventual despromoção da Cultura e dos seus criadores na estrutura orgânica do próximo governo. Os autores abaixo-assinados responsabilizarão o próximo governo pelas consequências nefastas que esse acto poderá ter, caso venha a ser considerado que os valores atribuídos à Cultura são despesa e não investimento e que uma Secretaria de Estado pode substituir com vantagem um Ministério com as suas competências específicas e irrenunciáveis.»

Quem quiser, pode assinar aqui.
Eu já assinei.

Lançamento de ‘O Amor é um Lugar Comum’


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Balanço oficial da Feira do Livro

Eis o balanço da Feira do Livro de Lisboa, que terminou ontem à noite no Parque Eduardo VII, feito em comunicado pelo seu director (Miguel Freitas da Costa, da APEL):

«O balanço é extremamente positivo. Num ano em que a crise está na ordem do dia, conseguimos ter uma Feira sempre movimentada, mesmo nos dias em que a meteorologia não foi a mais favorável. Ainda não é possível adiantar números quanto às vendas da edição deste ano, mas pensamos que o número de visitantes, em relação ao ano anterior, foi ultrapassado. A possibilidade de comprar livros a preços mais acessíveis – principalmente durante a “Hora H” –, foi certamente um dos factores-chave para este crescimento, assim como o facto de a Feira do Livro ser uma montra gigante de toda a actividade editorial portuguesa.»

O que aí vem (Bizâncio)

A Física do Futuro, de Michio Kaku; Webcedário (O livro dedicado às letrinhas, essas nossas amigas), de ABC Dário; Os Filhos da Droga, de Christiane F. (reedição).

A crítica literária no tempo da Amazon

«Top critics Morris Dickstein and Cynthia Ozick debate who are truly the book critics today (hint: Amazon reviewers) and what this means for reviewing.»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges