Charters de chineses a promover Paulo Futre, na Feira do Livro

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Lídia Jorge, Mário de Carvalho e Mia Couto (em debate, na Feira do Livro)

A partir das 17h30, na Praça Azul. Moderação de Luís Ricardo Duarte.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Homem do Turbante Verde e Outras Histórias, de Mário de Carvalho (Caminho), por Pedro Mexia
O Revisor, de Ricardo Menéndez Salmón (Porto Editora), por Vítor Quelhas
Nos Bastidores da Wikileaks, de Daniel Domscheit-Berg (Casa das Letras), por Micael Pereira
Na Sombra do Poder, de Pedro Feytor Pinto (Dom Quixote), por José Pedro Castanheira
Francis Bacon – Lógica da Sensação, de Gilles Deleuze (Orfeu Negro), por António Guerreiro
– Revista Relâmpago, n.º 27, “Elegias” (Fundação Luís Miguel Nava), por José Mário Silva

Um poema inédito de Manuel António Pina (hoje, no ‘Público’)

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Primeiros parágrafos

«No final de Novembro de 1974, um amigo ligou-me de Paris a dizer-me que Lotte Eisner estava gravemente doente e que provavelmente morreria. Eu disse que não podia ser, não agora, o cinema alemão ainda não a podia dispensar, não podíamos permitir que ela morresse. Peguei num casaco, numa bússola e num saco de desporto contendo o estritamente necessário. As minhas botas eram novas e robustas, confiava nelas. Segui pelo caminho mais directo até Paris, com a firme convicção de que ela viveria se eu fosse ter com ela a pé. Queria, além disso, estar a sós comigo mesmo.
O que escrevi pelo caminho não foi pensado para leitores. Agora, quase quatro anos volvidos, senti uma estranha comoção ao segurar novamente no pequeno caderninho, e o desejo de mostrar o texto a outras pessoas, a desconhecidos, impôs-se ao pudor em abrir a porta ao olhar de estranhos. Omiti apenas algumas passagens demasiado privadas.»

[in Caminhar no Gelo, de Werner Herzog, trad. de Isabel Castro Silva, Tinta da China, 2011]

Prémio Camões 2011 para Manuel António Pina

Reunido na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o júri do Prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa, decidiu por unanimidade e em menos de meia hora. Vale a pena registar os nomes dos responsáveis por tão excelente escolha: Edla Van Steen e Antonio Carlos Secchin (Brasil), Rosa Maria Martelo e Abel Barros Baptista (Portugal), Ana Paula Ribeiro Tavares (Angola) e Inocência Mata (São Tomé e Príncipe). Depois de em 2010 ter distinguido Ferreira Gullar, talvez o maior poeta brasileiro vivo, o Camões para Manuel António Pina parece-me absolutamente justo, ao reconhecer a importância e o valor que quem escreveu alguns dos melhores livros de poesia, crónica e literatura infantil das últimas décadas, em Portugal.

Um discurso memorável de David Foster Wallace, revisited

Antigos alunos do Kenyon College, que escutaram em primeira mão o agora mítico discurso This is Water, proferido por David Foster Wallace a 21 de Maio de 2005, relembram o modo como o texto foi recebido pelos seus primeiros ouvintes.

‘Nós e os Clássicos’

Começou por ser uma comunidade de leitores na livraria Almedina do Saldanha. Agora transformou-se num programa de televisão sobre livros intemporais, na SIC Notícias. Autora e apresentadora: Filipa Melo. Slogan: «Livros excepcionais por leitores excepcionais». O alinhamento para as próximas semanas e os vídeos de algumas das emissões estão disponíveis no blogue do programa.

Dois fragmentos de Maria Gabriela Llansol

«A luz de ler na luz», aqui.

A dor da imobilidade a ser desfeita

Liberdade
Autor: Jonathan Franzen
Título original: Freedom
Tradução: Maria João Freire de Andrade
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 684
ISBN: 978-972-20-4525-4
Ano de publicação: 2011

A principal singularidade dos Berglund — a família dentro e em torno da qual se desenvolvem as principais linhas narrativas deste romance — é não terem singularidade nenhuma. Eles vivem num bairro de classe média aburguesada, algures no Minnesota, onde prestam culto à boa vizinhança. Antiga basquetebolista, Patty assume-se como «abelha afável», a «bem-humorada carregadora do pólen sociocultural», ostensivamente decidida a representar o papel da mãe perfeita e dona de casa exemplar. Quanto a Walter, o marido, funcionário da 3M que se transferiu para a Conservação da Natureza, rapaz do campo com gostos sofisticados (Stravinsky, teatro experimental, bandas musicais alternativas) mas igualmente capaz de soldar uma junta de cobre, vai exercendo a simpatia como um mantra. Para compor o retrato, dois filhos: Jessica, a rapariga responsável; e Joey, o rebelde em potência (sendo que a rebeldia máxima, numa casa que vota nos democratas, passa por adoptar os valores republicanos).
Atrás desta fachada de respeitabilidade pública, as coisas são mais complexas. Há tensões, dramas, choques geracionais, erros que se acumulam e repetem. No bairro murmura-se que «sempre houve algo de estranho com os Berglunds», como se não houvesse sempre algo de estranho com toda a gente, como se a suposta normalidade não fosse uma convenção social. O que Franzen nos revela é o que os vizinhos intrometidos, capazes de julgar apenas pelo que vêem de fora, desconhecem: a mecânica interna da família, as muitas camadas de experiências humanas sobrepostas que moldaram a sua natureza e explicam o colapso iminente. À medida que os anos passam, o casamento treme nas fundações, ameaçado pelo fantasma de um triângulo amoroso mal resolvido, em que o terceiro vértice é Richard Katz, o melhor amigo de Walter desde os tempos da faculdade, músico egocêntrico e mulherengo que regressa à dureza do trabalho manual, construindo terraços panorâmicos para os ricaços de Nova Iorque, depois de ter alcançado inesperadamente a fama.
Num dos relatos autobiográficos de Patty, erguido em torno do «grande vazio da sua vida» e da lenta queda nos abismos depressivos da autocomiseração, ela descreve uma visita fugaz à universidade da filha. Ao olhar para um dos edifícios, depara com a seguinte inscrição numa pedra: «Usai bem a vossa liberdade». É este o problema central que aflige, consciente ou inconscientemente, a maioria das personagens do livro. Não tanto como ganhar a liberdade, mas o que fazer dela. Uma questão que atravessa os vários planos narrativos que Franzen consegue, sem atritos, encaixar uns nos outros, tornando fluido o contínuo vai-vem entre a esfera individual e a visão mais abrangente de um país, os EUA, confrontado com encruzilhadas históricas, económicas, políticas, ecológicas, etc.
Franzen é especialmente eficaz no desenho das personagens e no modo como nos mergulha nos seus conflitos interiores, na sua psicologia. O que tantas vezes falta noutros romances contemporâneos, há aqui de sobra — isto é, a espessura emocional que torna verosímeis e palpáveis as figuras saídas da imaginação do escritor. Quanto ao estilo, digamos que mantém as qualidades evidenciadas em Correcções (o romance anterior, de 2001, que fazia para a última década do século XX o que este faz para a primeira do século XXI), oferecendo-nos parágrafos e frases de fino recorte em quase todas as páginas. Exemplo: «Há uma tristeza perigosa nos primeiros sons do trabalho matinal de alguém; como se a imobilidade sentisse dor por estar a ser desfeita.» Não sendo o «romance do século», como decretou um crítico do The Guardian, este é ainda assim um livro poderosíssimo sobre isto de estarmos vivos em tempos conturbados, com todas as contradições imagináveis, mas também com a resiliência que nos permite sobreviver — apesar de tudo mais facilmente do que a mariquita-azul (a pequena ave ameaçada que Walter se propõe salvar).
Depois de ler Guerra e Paz, onde encontra espelhados alguns dos seus dilemas, Patty confessa-se «alterada» pelo romance de Tolstói. Salvaguardadas as devidas distâncias, duvido que haja leitores que não se sintam igualmente «alterados» depois de lerem Liberdade. É esse o poder maior da literatura.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Book Country

«Looking to support and develop writers of genre fiction, Penguin is launching a public beta of Book Country, a free online writing community and publishing services venture. In development for more than a year, Book Country offers writers a place to upload new works and receive feedback and criticism from a community of writers and readers; a place for agents and editors to look for new talent; and eventually the venture will offer a suite of self-publishing services that will offer e-book and print publication for a fee.»
O projecto foi pensado para certos géneros específicos, como a Ficção Científica, o Fantástico, o thriller, etc. A referida versão beta do site pode ser explorada e utilizada, aqui.

Ecos da ‘Leitura Furiosa’

Ontem à tarde, os textos da Leitura Furiosa 2011, tanto os escritos em Lisboa como os escritos no Porto e em Amiens, foram lidos na Casa da Achada por um grupo de actores, de que fizeram parte Antonino Solmer, Diogo Dória, Elisabete Piecho, Inês Nogueira, Joana Craveiro, Maria Gil e outros.
Apesar da captação de som imperfeita, aqui vos deixo o momento em que Dois Círculos foi lido a cinco vozes:

Logo depois, o Pedro Rodrigues e a Diana Dionísio (também conhecidos como Pedro e Diana) aproveitaram duas frases do texto («À volta, cinco homens com marcas no corpo e na memória: rugas, cicatrizes, tatuagens, histórias de rasteiras que a vida prega»; «Sempre fiz tudo ao contrário») para comporem e cantarem uma bela canção, com acompanhamento de tambor e concertina:

O que aí vem (Presença)

C, de Tom McCarthy; Julia Felix – Frescos de Pompeia, de Lívia Borges; Little Brother – O Futuro já Começou, de Cory Doctorow; O Mistério do Jogo das Paciências, de Jostein Gaarder; A Ameaça, de Ken Follett; Nos Meandros da Lei, de Michael Connelly.

Nem só de filmes se faz a carreira de Ethan Coen

De vez em quando, o realizador que é uma das metades da dupla «irmãos Coen» também publica poesia. Em 2009, estreou-se com The Drunken Driver Has the Right of Way. Em 2012, reincidirá com The Day the World Ends.

‘Leitura Furiosa’ (quando a ilustração de um texto é uma pequena escultura)

A partir de Os dois círculos, o artista Zé d’Almeida criou uma ilustração 3D. Ou seja, aquilo a que se costuma chamar uma escultura, neste caso em barro, com arames:

Um poema novo de Vasco Graça Moura

ELEGIA BREVE À POESIA

fugitivo passar pela retina,
no virar de uma esquina ou de um silêncio,
a tua ausência é este ensombramento,

porém que a despedida seja breve
e que voltes com um relâmpago, um
desvendar-se do mundo entrecortando

dobras desamparadas do real.
e eu pergunto: que vozes do crepúsculo
se apagavam então? talvez o vento

agitasse tristezas na folhagem,
e esse fosse o frémito dos seus
melancólicos sinais rumurejando,

ou talvez fosse a cama de um hospital
e o branco desolado das paredes
e a mudez de estranhos aparelhos,

ou talvez fosse o próprio esquecimento
de que irias voltar, ou resvalar
numa lenta passagem de tercetos.

[in Revista Relâmpago n.º 27, com data de Outubro de 2010, mas distribuída agora]

Tentações e sustos na Feira do Livro

Tentações:


(Pavilhão da Relógio d’Água)


(Pavilhão da Antígona)


(Pavilhão da Teorema)


(Pavilhão da Gradiva)

Sustos:


(Pavilhão da Babel)

Balanço do Ano (Ficção)

A partir das 17h30, no auditório da APEL, na Feira do Livro de Lisboa, vou moderar um debate sobre os melhores livros de ficção do ano (no período entre feiras, de Junho de 2010 a Maio de 2011). Participam o editor Manuel Alberto Valente, o jornalista Luís Ricardo Duarte, o escritor David Machado e o livreiro Sérgio Lavos.

Dois círculos

Eis o texto que resultou da conversa, sexta-feira de manhã, no Centro de Acção Social dos Anjos, em Lisboa, com o Adelino, o Hélder, o Daniel, o José Manuel e o João Miguel:

DOIS CÍRCULOS
Assim juntas, as mesas circulares formam um oito, ou então o símbolo do infinito (depende). À volta, cinco homens com marcas no corpo e na memória: cicatrizes, tatuagens, rugas, histórias de rasteiras que a vida prega, «percalços» a que não se quer voltar, nem no tempo suspenso de uma conversa. Dos cinco, o mais reservado é o Lino, o Adelino que hoje faz 50 anos e sorri muito quando todos o cumprimentam («então não dizias nada, pá?») mas depois se fecha em copas. O sonho de ser médico não passou disso mesmo: um sonho. «Sempre fiz tudo ao contrário.» A escola deixada a meio, os descaminhos, as muitas detenções. Atrás das grades, os livros que ia buscar à biblioteca foram importantes: «Ajudavam-me a sair dali, a evadir-me dentro da cabeça.»
Para Hélder, a libertação não foi a leitura, mas a escrita. Há uns anos, a psicóloga das Taipas que o salvou do abismo das drogas, uma rapariga que conhecia desde a infância em Benfica, ali para os lados do Califa, pediu-lhe que pusesse no papel a sua vida e ele escreveu-a, com o seu lado negro, os remorsos, todas as dores. Lá recapitulou a história do pai que era pasteleiro em Luanda e vendia bolos num raio de 400 quilómetros, até ao dia em que teve de voltar para Portugal e deixou tudo, e perdeu tudo, casa, carro, negócio, tudo, tudo. História parecida, a do filho, a dele próprio, mas sem o fim do império como desculpa: «Houve uma altura em que eu era electricista durante o dia e vendedor da TVCabo à noite, nunca ganhei tanto dinheiro, tinha um apartamento em Santo António dos Cavaleiros, mulher, automóvel, e num mês foi-se tudo, num mês perdi o que levou anos a construir.» A psicóloga das Taipas salvou-o, há um ano que nem sequer precisa de metadona, mas as doenças arruinaram-lhe o corpo. «Aos 39 anos, estou reformado por invalidez.» Não é preciso dizer mais nada.
No trajecto de Daniel, 42 anos, há uma mistura de Lino e Hélder: prisões e drogas. Em miúdo, jogava futebol na Praça da Alegria, partia vidros e imaginava-se centrocampista do glorioso SLB. Ainda calçou as chuteiras no Casa Pia e no Oriental, mas ficou-se pelos juniores. Aos 17 anos, a vida inclinou-se para o lado pior e «nem vale a pena entrar por aí», pois nunca passaremos da ponta do icebergue. Ao bafo da morte, conhece-o bem: perdeu a vista direita com uma facada, já levou um tiro, já esteve em coma devido a uma pneumonia. E sabe que o destino prega partidas irónicas. Filho de pai ausente, em pai ausente se tornou. Há 22 anos, era funcionário da Santa Casa, nas oficinas de carpintaria; hoje, é «cliente» das refeições que a Santa Casa serve nos Anjos, no lugar a que em tempos se chamava «sopa dos pobres».
O futebol também foi o futuro não cumprido do João Miguel, 47 anos. Nas camadas jovens, chegou a jogar no Sporting e no Benfica. Depois seguiu como semi-profissional no Odivelas (no tempo em que lá estava o Oceano) e em equipas dos distritais. Era ponta-de-lança, sempre na frente, um fartote a marcar golos de cabeça. A cabeça que infelizmente lhe faltava para o resto. Com os olhos brilhantes, resume: «A droga e a night estragaram-me a vida.» A família tentou curá-lo, mas ele fugia sempre dos centros de reabilitação, mal começava a ressaca. Passou por Espanha, pela Áustria, pela Suíça, pela Alemanha. Tem pena de não ter ficado em Zurique, onde se entusiasmou a tratar de um jardim. Em vez disso, voltou para Portugal. Foi escriturário-dactilógrafo no Hospital Pulido Valente e segurança no Metro. Está desempregado desde Janeiro, ainda com esperança de que as coisas mudem. Aponta para os companheiros de mesa: «Do que a gente precisa todos é de arranjar trabalho.»
José Manuel, o mais velho dos cinco, faz que não com a cabeça. Por ele, prescinde de mais trabalho. Basta-lhe o consolo das refeições quentes e alguma companhia. Aos 50 anos, quando emigrou para Inglaterra, sentia-se com 40. «Agora, com 62, é como se tivesse 70.» A morte da mãe, que acompanhou na doença final, deitou-o abaixo. Mas a memória ainda funciona. Lembra-se do primeiro emprego, aos 14 anos, numa companhia de seguros. Lembra-se de ser dispensado da fábrica de bacon, na Cornualha, com muitos outros, e do curso de mecânica automóvel que fez logo a seguir. Lembra-se da comissão em África, Moçambique, de 1971 a 1973, no destacamento de Fotografia e Cinema, a revelar filmes que mostravam cenas das evacuações em combate, mortos e feridos a entrarem nos helicópteros. Lembra-se do Bagdade, o piano-bar de Nampula, onde se bebiam copos no meio da guerra e o pianista não era nada mau. Lembra-se dos livros que nunca deixou de ler (Eça de Queirós, Soeiro Pereira Gomes, Jorge Amado, José Cardoso Pires). Lembra-se dos discos que ouvia no seu estúdio minúsculo, lá em terras de Sua Majestade (música clássica e muito jazz, sobretudo bebop, Coltrane, Charlie Parker, Gillespie, Miles Davis). Ao contrário dos outros, nunca sucumbiu ao apelo das drogas, essa escura maldição. Ao álcool, sim, sempre ajuda a adormecer à noite, «mas sem abusos».
No relógio, os ponteiros unem-se sobre o 12. É hora de almoço, arrastam-se cadeiras. Afastadas, as mesas voltam a ser só dois círculos numa sala vazia. Uma sala que se fecha, com estas histórias lá dentro, a pairar.

Altifalante

Ouvido no sistema de som da Feira do Livro: «Sessão de autógrafos no sítio X com Gil Duarte» (era José Duarte); «Sessão com Manuel Maria Saraiva na Praça Y» (era Manuel Maria Carrilho).

Lançamento de ‘Histórias Amorais para Crianças e Animais’


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É logo à tardinha, aqui.

O problema das constelações

Nos jornais, por vezes as estrelas atribuídas aos livros caem sem que ninguém entenda porquê (mistérios da desformatação informática). Voltou a acontecer hoje, na edição em papel do Expresso: onde na ficha técnica do romance Liberdade, de Jonathan Franzen, se vêem três estrelas, deviam estar quatro (erro ainda corrigido a tempo na edição para iPad).

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Liberdade, de Jonathan Franzen (Dom Quixote), por José Mário Silva
O Cemitério de Praga, de Umberto Eco (Gradiva), por Luciana Leiderfarb
A Humilhação, de Philip Roth (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
História da Vida Privada em Portugal – vol. 4, direcção de José Mattoso (Temas e Debates), por Luís M. Faria
A Colonização Portuguesa e a Emergência do Brasil, de José Fernandes Fafe (Temas e Debates), por Pedro Mexia

Cinco vidas à volta de uma mesa (aliás, de duas)

Em 2010, a Leitura Furiosa levou-me a uma escola do ensino básico, onde encontrei estes meninos e as histórias que juntei no respectivo texto. Este ano, coube-me o Centro de Apoio Social dos Anjos (a que muita gente ainda chama «sopa dos pobres»), onde ouvi cinco narrativas de percursos e «percalços», contadas por homens a quem a vida de alguma maneira pregou rasteiras, quando não foram eles a pregarem-nas a si mesmos.


Adelino, 50 anos (exactos, feitos hoje)


Hélder, 39 anos


Daniel, 42 anos


João Miguel, 47 anos


José Manuel, 62 anos

Uma bela definição da palavra livro

«Portable brain defibrillator» (encontrei-a num apaixonado e interessantíssimo manifesto de Lidia Yuknavitch: The Urgent Matter of Books).

‘Café com Letras’

No próximo dia 25, a partir das 21h30, na Biblioteca Municipal de Algés, vou estar à conversa com o Carlos Vaz Marques durante um «serão à volta dos livros».

‘Leitura Furiosa’


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De amanhã até domingo, entro em modo furioso.

Primeiros parágrafos

«O poeta épico começa habitualmente a sua narrativa pelo meio. Os romancistas estão também aptos a fazê-lo, podendo classificar-se um décimo do seu trabalho como prosa poética. Deste modo, o herói, surja ele deitado numa cave ou num palácio, num divã ou numa chaise longue, confronta-se com a inevitabilidade de recordar tudo o que passou em benefício da sua amada. “Tendo provocado o amor grandes sacrifícios…” etc. Enfim, já conhecem a história.
Tal é o método habitual, tão elogiado pelos críticos. Mas apesar de eu próprio ser um partidário das regras, prefiro o método do escritor de sagas ou do procurador que, quando chegam à altura de descrever um herói ou um tratante, agarram-no no berço, se assim se pode dizer, e acompanham-no cronologicamente até à imortalidade ou até à forca. A minha narrativa vê-se assim obrigada a começar pelo princípio, e quem preferir uma desordem clássica pode começar por ler as últimas páginas, e deixar as primeiras para o fim; transformará assim uma história simples e linear num texto épico.»

[in Papisa Joana, de Lawrence Durrell (adaptado do grego de Emanuel Royidis), trad. de Mário Avelar, Guerra & Paz, 2011]

Logo à tarde

Alternativa a Mattoso: um debate intitulado “Os Esquecidos – Livros e Autores que não têm tido (ou já não têm, ou não tiveram) a devida atenção”. Local: Praça Amarela da Feira do Livro de Lisboa. Começa às 18h00. Participam Ana Sousa Dias (editora de Cultura da Lusa); Eduardo de Sousa (livreiro, criador da Letra Livre); Juva Batella (escritor brasileiro); e eu; com moderação de João Morales.

O que aí vem (Booksmile)

Sabes que também podes ralhar com os teus pais? e Sabes onde é que os teus pais se conheceram?, os dois volumes iniciais de uma nova colecção de literatura infantil, com textos de Maria Inês Almeida e ilustrações de Paulo Galindro.

FBooks

Eis um novo conceito, desenvolvido pela Leo Burnett para a LeYa: livros de ficção adaptados para o Facebook. «Os leitores poderão acompanhar o narrador de forma interactiva, mas não através de opiniões e evitando que alguém revele mais do que deve ser contado. Para cada personagem criámos um perfil no Facebook. Os diálogos entre as personagens são colocados em posts nos seus murais, sendo também utilizados links para ajudar a pôr o leitor ainda mais “dentro” da história. Por exemplo, se uma personagem visita um lugar, o link para este sítio no Google Street View é colocado junto ao texto, para que o leitor possa estar lá também. Se uma música é tocada na história, é colocado um link para o vídeo da canção no YouTube junto ao trecho do livro que cita a música.»
O primeiro livro adaptado é o romance O Bom Inverno, de João Tordo (Dom Quixote), cujas personagens e peripécias podem ser acompanhadas aqui.

A lição de Maria do Rosário Pedreira

Na semana em que foi incluída na lista das 100 personalidades portuguesas mais influentes (para o jornal Expresso), a editora Maria do Rosário Pedreira vai dar uma das «100 Lições» do programa comemorativo do Centenário da Universidade de Lisboa. Título da comunicação: Ler. Saber. Dizer não. – Publicar Literatura em Portugal. Acontecerá amanhã, quinta-feira, dia 5, pelas 18h00, na Sala de Conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa. A sessão é aberta ao público.

Grande Prémio APE de Poesia para Pedro Tamen

O Livro do Sapateiro (Dom Quixote), de Pedro Tamen, obra já distinguida este ano com o Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d’Escritas, acaba de ganhar o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. O júri, que decidiu por maioria, foi composto por Ana Marques Gastão, Fernando J. B. Martinho e Francisco Duarte Mangas.

A arte de passar ao lado

Prosas Apátridas
Autor: Julio Ramón Ribeyro
Título original: Prosas Apátridas
Tradução: Tiago Szabo
Editora: Ahab
N.º de páginas: 134
ISBN: 978-989-97228-1-1
Ano de publicação: 2011

Peruano de nascimento, Julio Ramón Ribeyro (1929-1994) viveu quase toda a sua vida adulta na Europa. Durante uma década, viajou «com uma mala cheia de livros, uma máquina de escrever e um gira-discos portátil», até assentar arraiais em Paris no início dos anos 60, onde foi jornalista da France Press e adido cultural junto da UNESCO. Reunindo os textos da edição original (1975) aos que foram acrescentados na edição espanhola de 1986 (Tusquets), estas Prosas Apátridas podem ser uma excelente porta de entrada para a sua obra, até agora inédita em Portugal, mas não correspondem a uma escrita do exílio ou do desenraizamento, como o título eventualmente sugere. Se estes textos são apátridas é porque «não se ajustam cabalmente a nenhum género» nem pertencem a «um território literário próprio».
No fundo, constituem uma sucessão aparentemente fortuita de duas centenas de fragmentos, nos quais encontramos de tudo: aforismos, vinhetas, farpas, esboços líricos, epifanias, anedotas, poemas em prosa, sugestões irónicas, brevíssimos tratados de Sociologia ou História, ideias soltas – uma espécie de blogue avant la lettre, em que Ribeyro dá mostras de uma sabedoria oblíqua, esquiva, sem certezas nenhumas. Se um texto fala de livros e do culto que lhes prestamos, o seguinte pode cantar o amor, o sexo, o corpo das mulheres. Ou então reflectir sobre a memória, a amizade, a infância, a solidão, a vida secreta dos objectos, o carácter maldoso das casas, o apelo da morte que nos espreita ao «dobrar de cada esquina», a instabilidade do passado (sempre sujeito a ser destruído pelo presente).
Ribeyro assume que anda à deriva num «mundo ambíguo», em que a realidade é «um fenómeno tão difuso que se afigura difícil distingui-la do sonho, da fantasia ou da alucinação». O seu método: a divagação sistemática. Ele considera-se um «hedonista frustrado», um homem que só se descobre escritor no fundo das garrafas de vinho, um esteta que fuma à janela, a contemplar do alto a silhueta de Paris, ouvindo música barroca enquanto espera a «irrupção do maravilhoso» no tecido trivial dos dias. Como o flâneur de Baudelaire, ele anda pelas ruas, atentíssimo aos fulgores e horrores da comédia humana, entrevistos a cada instante nos apartamentos das porteiras ou nas carruagens do metro. Objectivo: «ser tão-só o vidro através do qual nos penetra, intacta, a vida».
Fora isto, esconjura fantasmas, oportunidades perdidas, renúncias, os gestos que não foram feitos em devido tempo. O desconforto, esse, nunca se atenua, «talvez porque escrever seja ignorar o canto de sereia da vida, talvez porque nada do que fiz me satisfaz, talvez porque muitas vezes tenho a impressão de que em algum momento me enganei no caminho e isso me condenou para todo o sempre a passar à côté de la question». Este desacerto, esta estranha arte de passar ao lado das coisas, esta dispersão, esta «incapacidade de concentrar duradouramente o meu interesse, a minha inteligência e as minhas energias em algo concreto», mergulham Ribeyro na melancolia, mas também num estado de lucidez próximo da revelação: «O meu olhar adquire, em momentos privilegiados, uma agudeza intolerável; e a minha inteligência, uma sagacidade que me assusta.»
Às vezes áspero e agreste, outras vezes de uma delicadeza que arrepia e comove, o estilo de Ribeyro faz lembrar um instrumento de precisão. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos. Só as estritamente necessárias. Um exemplo: «O grande mural fotográfico que adorna a sala do Café Les Finances. Representava, nos seus bons tempos, um bosque em pleno verdor. Com os anos a cor foi amarelecendo. A Primavera das fotografias também tem o seu Outono.»
Eis o início do fragmento 149: «Imaginar um livro que seja desde a primeira à última página um manual de sabedoria, uma fonte de regozijo, uma caixa de surpresas, um modelo de elegância, um tesouro de experiências, um guia de conduta, um regalo para os estetas, um enigma para os críticos, um consolo para os desafortunados e uma arma para os impacientes.» Não conheço melhor sinopse para Prosas Apátridas, um livro extraordinário que, depois de lido, nunca mais nos abandona.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

E-Wook

A Wook, livraria online do Grupo Porto Editora, já criou uma área para a venda de e-books. Aliás, duas: a dos e-books em português e a dos e-books em inglês. Pena é que os preços ainda não sejam muito aliciantes. Por exemplo, o livro Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares, só baixou para 12,90 euros, quando a versão em papel custa 15,50 nas livrarias (e 13,95 na Wook).

Sovaco vs. Chanel

Pedro Marques, editor da Livros de Areia, também acha que existem neste momento duas Feiras do Livro. Mas vai mais longe e avança com uma proposta de cisão:

«E porque não duas Feiras do Livro? Uma dos editores pequenos, médios, remediados, assim-assim e alfarrabistas (a das “barraquinhas” e farturas) e outra a dos “donos dos livros”. Em datas distintas, no mesmo local. Se o mercado está a partir-se em dois por força dos 3 grupos, porque não assumir isso já na Feira, e acabar com esta convivência incómoda, o cheiro a sovaco de uns abafado com borrifadelas de Chanel n.5 de outros? Tenho é a impressão de que, no fim, os “analistas” do mercado ficariam espantados com a comparação dos números da afluência entre as duas feiras.»

Revista ‘Ler’, n.º 102

Quarta-feira nas bancas.

Uma Feira a duas velocidades

Já outros o disseram e eu assino por baixo. Este ano, há algo de esquisito, de bizarro, na organização territorial (chamemos-lhe assim) da Feira do Livro de Lisboa. Se nas últimas edições a LeYa já tinha construído uma espécie de Feira dentro da Feira, os condomínios privados (chamemos-lhes assim) agora multiplicaram-se. A Porto Editora também tem a sua praça, muito na linha do que fez a LeYa; a Presença não se fechou mas criou uma zona verde (como a cor dos seus materiais promocionais); e a Babel inventou aquele túnel escuro por fora e abafado por dentro (estreito, apertadinho, vagamente claustrofóbico) que mais parece uma metáfora do país. Neste último caso, com a agravante de o túnel aspirar literalmente os visitantes que começam a subir a alameda esquerda, para quem vem do Marquês, deixando às moscas os três ou quatro pavilhões que tiveram o azar de ficar em frente ao devaneio arquitectónico do grupo dirigido pelo presidente da APEL (o que não deixa, convenhamos, de ser significativo; e, se não condenável, pelo menos questionável).
Será que todos os pavilhões deviam ser iguais, como eram há dez anos? Não sei. Mas a Feira do Livro sempre se distinguiu por ser um espaço onde as assimetrias entre as grandes editoras e as pequenas se esbatiam. Todos tinham direito ao seu espaço, proporcional ao respectivo catálogo e volume de negócios. Hoje, há claramente uma burguesia da edição, a dos grandes grupos açambarcadores de espaço e arquitectonicamente exibicionistas, em contraste com o resto das editoras proletárias, reduzidas a uma uniformidade que a APEL impõe só a alguns.
O certo é que há dois pesos e duas medidas, duas Feiras distintas, sobrepostas mas não coincidentes, o que cria uma estranheza a que eu, frequentador há mais de 30 anos, duvido que me venha a habituar.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges