‘We love this book’

Um novo site sobre livros (em versão beta), complemento de uma revista que ainda nem sequer foi lançada.

‘Saramago’ no Deportivo da Corunha

lapsi linguae e lapsi linguae. Este é particularmente curioso. Durante a apresentação de Diogo Salomão (o promissor extremo que o Sporting acaba de emprestar ao Deportivo da Corunha por uma época), o presidente do clube galego, Augusto César Lendoiro, referiu-se várias vezes ao jogador como Saramago. Presumo que o equívoco se deva ao facto de Salomão ser o nome do protagonista do penúltimo romance de José Saramago: A Viagem do Elefante. Se estiver certo, isto só prova que alguns presidentes de clubes de futebol sempre vão lendo outros livros, para além do livro de cheques.

História da Língua Inglesa em dez lições, pela Open University

Estas são as primeiras três lições (cerca de um minuto cada): informativas, divertidas, nalguns casos a raiar o hilariante. As outras sete podem ser vistas aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O que aí vem (Civilização)

Em Julho: Uma Questão de Atração, de David Nicholls; A Ponte Invisível, de Julie Orringer; Madame Hemingway, de Paula McLain.

Margaret@Twitter

Segundo o The Guardian, a escritora canadiana Margaret Atwood, editada em Portugal pela Bertrand, é uma das dez melhores «Twitter personalities» do mundo anglo-saxónico. Querem averiguar se o epíteto é justo? Façam o favor.

Bibliofilia fatal

O Último Livro
Autor: Zoran Živković
Título original: Posledjna knjiga
Tradução: João Cruz
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 238
ISBN: 978-989-623-144-6
Ano de publicação: 2011

Do escritor sérvio Zoran Živković já conhecíamos um pequeno volume com seis contos fantásticos, Biblioteca, publicado pela Cavalo de Ferro em 2005. Claramente inspiradas em Jorge Luis Borges, essas histórias valiam pelas ideias fortes e engenhosas, já que as qualidades estilísticas ficavam a anos-luz do escritor argentino. Eram exercícios de uma inteligência provocatória, apontando para o lado negro da bibliofilia: os livros como maldição e a biblioteca como inferno (uma espécie de negativo do Paraíso borgesiano).
Em O Último Livro, permanece a sensação de ameaça. O livro mencionado no título é o derradeiro porque mata quem o abre. Quando os clientes da livraria Papyrus começam a sucumbir, sem explicação que a autópsia detecte, entra em cena o inspector Dejan Lukic, um detective licenciado em literatura. Chega a pairar a hipótese de uma imitação de O Nome da Rosa, depressa afastada à falta de subtis venenos. Na verdade, Živković esconde bem o jogo até ao capítulo final (optando por um desenlace meta-literário que justifica a estranha sensação de «déjà lu» por parte de Lukic), embora pelo caminho use e abuse dos estereótipos do género policial.
O recurso a fórmulas estafadas (como a insistência em pesadelos simbólicos, obscuros mas iluminadores), o frouxo romance entre o inspector e a dona da livraria (regado a chá de figo) ou a seita apocalíptica que parece saída do Eyes Wide Shut, algures entre o grotesco e o risível, empurram o romance para baixo. Salvam-no as últimas páginas, as da revelação do mistério, pelo seu efeito retrospectivo e pelo modo como alteram, literalmente, a forma como as personagens se vêem a si mesmas (e ao mundo).

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Grupo BertrandCírculo anuncia saída de Francisco José Viegas

Eis o comunicado de imprensa:

«Francisco José Viegas foi indigitado Secretário de Estado da Cultura. A Administração do Grupo BertrandCírculo congratula-se pela escolha de um quadro da empresa para tão importante missão e expressa publicamente votos de sucesso no exercício das suas novas funções ao serviço da Cultura em Portugal.
Consequentemente, Francisco José Viegas suspende a colaboração com o Grupo BertrandCírculo, uma ligação que perfaz um total de 17 anos de trabalho.
Tendo integrado o Círculo de Leitores em 1986, Francisco José Viegas regressou, em 2008, depois de um breve interregno. De há três anos para cá tem dirigido a revista Ler, uma referência nas publicações da especialidade. Em 2008, a revista foi reformulada, retomando a periodicidade mensal e reunindo um conjunto de colaboradores, críticos e cronistas, que asseguram uma cobertura exaustiva, rigorosa e inteligente do sector editorial em Portugal e do mundo literário em geral.
Francisco José Viegas dirigiu também, durante os últimos três anos, a chancela Quetzal Editores. Protagonizando uma renovação deste selo, deu uma nova vida a esta marca editorial – que faz parte da história recente da edição em Portugal – seguindo as linhas essenciais da identidade da editora fundada em 1987 e fazendo que se trate de um projecto ímpar no panorama editorial português.
A Revista Ler e a Quetzal Editores são dois projectos de sucesso também graças às respectivas equipas, construídas e geridas por Francisco José Viegas. Estas, merecendo da Administração do Grupo BertrandCírculo o reconhecimento da competência dos seus profissionais e, na certeza de que trabalharão de acordo com o espírito do projecto em que estão inseridas, garantirão uma gestão na continuidade, enquanto o director editorial se dedica por inteiro ao enorme desafio que agora abraça.
João Pombeiro, editor da Revista Ler desde 2008, zelará pela revista e Lúcia Pinho e Melo, editora da Quetzal Editores desde 2008, assegurará a continuidade da actividade editorial desta chancela.»

Apesar de não ter contribuído para a eleição deste governo e de não concordar com as suas linhas programáticas, nomeadamente no campo da Cultura (que Francisco José Viegas vai tutelar), desejo ao Francisco, que conheço há muitos anos enquanto profissional e amigo, toda a felicidade nas suas novas funções.
Quanto aos lugares que se vê forçado a abandonar, sei que será bem substituído por dois magníficos profissionais que muito admiro e respeito: na Quetzal, a Lúcia Pinho e Melo; na revista Ler, o João Pombeiro.

Grande Prémio de Romance e Novela da APE para ‘Uma Viagem à Índia’

Gonçalo M. Tavares venceu o mais prestigiado prémio atribuído a uma obra de ficção em Portugal com um livro belíssimo, para mim efectivamente o melhor de 2010. No entanto, se o prémio distinguisse o romance Adoecer, de Hélia Correia, também ficaria muito bem entregue.

Filhos de um deus maior

Vejo Uma Voz – Uma Viagem ao Mundo dos Surdos
Autor: Oliver Sacks
Título original: Seeing Voices
Tradução: Regina Faria
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 197
ISBN: 978-989-641-194-7
Ano de publicação: 2011

Neurologista de formação, Oliver Sacks tornou-se conhecido fora da comunidade médica com os livros em que expõe – num estilo cativante e fugindo sempre que possível aos formalismos dos artigos científicos – casos clínicos de pessoas que conseguem adaptar-se às limitações impostas por certas doenças. O primeiro livro, de 1970, abordava os vários subtipos de uma maleita comum: a enxaqueca. O segundo, de 1973, trouxe-lhe a fama: Despertares, sobre as vítimas de uma epidemia de encefalite letárgica que ele resgatou de uma espécie de eterno marasmo com a ajuda de um novo medicamento (história que seria adaptada ao cinema por Penny Marshall, em 1990, num filme com Robert De Niro e Robin Williams). Nos livros seguintes, debruçou-se sobre outros problemas neurológicos – da Síndrome de Tourette à doença de Parkinson, passando pelo autismo, daltonismo, afasias, amnésias, cegueira, etc. –, quase sempre com a mesma estrutura: um conjunto de ensaios relativamente curtos, em que Sacks narra, sem poupar nos detalhes, a história de pacientes concretos, mostrando de que forma cada um desses casos corrobora determinadas teorias vigentes sobre o funcionamento do cérebro e dos mecanismos da percepção, da memória e da identidade humana.
O livro que a Relógio d’Água acaba de editar foi originalmente publicado em 1989 e leva-nos, como o subtítulo sugere, numa «viagem ao mundo dos surdos». Não deixando de abordar aspectos neurológicos do problema e a evolução do lugar ocupado pelas pessoas com défices auditivos na sociedade, Oliver Sacks interessa-se sobretudo pelas várias formas de linguagem associadas à experiência da surdez, nomeadamente os vários tipos de língua gestual, que não apenas se tornam «a voz dos surdos» como têm uma complexidade (ao explorar, por exemplo, a dimensão espacial) e uma autonomia evolutiva em relação às línguas faladas que fazem delas o instrumento de uma cultura específica, em nada inferior à cultura oficial dos falantes. Sacks dá muitos exemplos dos desafios que os surdos têm de enfrentar, separando claramente as águas entre os que são pós-linguísticos (como David Wright, que perdeu a audição depois de adquirir a linguagem, o que lhe permitiu continuar a ouvir «vozes-fantasmas») e os pré-linguísticos, que nunca chegam a ouvir os pais e se arriscam a ficar definitivamente tolhidos nas suas capacidades cognitivas.
Em Vejo uma Voz encontramos um caudal de conhecimento e análise séria sobre a questão da surdez, mas transmitida ao leitor quase ao jeito de um bombardeamento intelectual, com a prosa de Sacks a revelar-se muito mais neutra, compacta e exaustiva (atente-se na profusão de notas de rodapé, por vezes ocupando a página quase toda) do que em outras obras. Quem vier à procura das histórias curiosas e literariamente conseguidas de O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu (Relógio d’Água, 1990) ou do estilo ágil com que escreveu as suas memórias de infância (O Tio Tungsténio), talvez fique desiludido. Exceptuando o relato da visita a Martha’s Vineyard – a ilha onde a Língua Gestual era «falada» tanto pelos muitos surdos hereditários como pela restante população – e o diário da revolta na Universidade Gallaudet, uma escola para surdos em que os alunos exigiram ter um reitor surdo, o livro é pouco entusiasmante. Contudo, enquanto obra que apresenta, situa e defende uma «cultura» ainda pouco ou mal conhecida pelo público generalista, Vejo uma Voz cumpre perfeitamente a sua missão.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

Uma gralha abominável

Acontece aos melhores, já se sabe, mas não deixa de ser triste ver uma nova edição da poesia completa de Eugénio de Andrade (Modo de Ler) manchada por um erro impossível, daqueles que não podem mesmo passar impunes. O lapso foi assinalado na edição de sexta-feira do Público, numa nota assinada por Carlos Mendes de Sousa, Federico Bertolazzi, Fernando J. B. Martinho, Gastão Cruz, Manuel Gusmão, Paula Morão e Rosa Maria Martelo:

«Na cortina de um dos mais paradigmáticos livros de Eugénio de Andrade, Os Amantes Sem Dinheiro, e também na inscrição desse título no fundo de algumas páginas, este surge transformado em Os Amantes do Dinheiro, numa perversa mudança que não pode deixar de merecer uma veemente condenação, já que revela a forma deficiente como a edição foi revista.
É para isto que pretendemos chamar a atenção, sugerindo a imediata retirada do mercado do volume em que se contém o deplorável erro que dá ao título de Eugénio um sentido oposto ao que ele tem.»

PS – Entretanto, o editor da Modo de Ler, José da Cruz Santos, assumindo o lamentável erro, anunciou que vai fazer uma errata e que os leitores que compraram esta edição podem devolver os exemplares em causa, sendo evidentemente ressarcidos.

Primeiros parágrafos

«Numa noite de Setembro, na escuridão do Abbey Theatre em Dublin, Kate encontrou a sua personagem. Com os olhos fixos no palco, no corpo magro do actor, sentiu que o livro começava a tomar forma, as palavras e as imagens, a ternura e o terrível.»

[in A Pantera, de Ana Teresa Pereira, Relógio d'Água, 2011]

Breve crónica de um suicídio colectivo

Foi no MusicBox que procurámos a morte. Eu, a Patrícia Portela e o João Leal. Ou melhor, as nossas personagens: Ismael Barros, Alva Ramalho e Luzia Fernandes. De início, havia só isto: três personagens resumidas em dez linhas, cada uma com a sua razão para se suicidar. Na sala às escuras, os portáteis ligados a um projector (dois Mac, um PC). Ideólogo da performance, o escritor e músico espanhol Alberto Torres Blandina, deus ex machina escondido na sombra mas atento a tudo. Foi ele que criou o conceito do espectáculo Suicida-me, foi ele que inventou as regras deste divertimento literário interactivo, aberto aos inputs do público. A gerir o ritmo da escrita e a evolução da história, um mestre de cerimónias: Nuno Costa Santos, também conhecido por Melancómico. Eis como ele explicou de forma sucinta a mecânica do jogo:

E lá nos aventurámos na escrita em directo, sem recuo, diante de um público que foi crescendo ao longo da noite. A Patrícia (com a sua convincente máscara de monstro) apresentou-nos Alva Ramalho, uma zombie que pretendia deixar cair a parte «viva» da condição de morta-viva. Ao centro, eu defendi as pretensões do Ismael Barros, um «atractor de desgraças» farto de espalhar tragédias à sua volta. E o João Leal introduziu-nos nos terrores de Luzia Fernandes, em pânico com a perspectiva de vir a ser apanhada por um Frank sempre quase a chegar, como o Jack Nicholson do Shining.
O jogo organiza-se em vários momentos de escrita, com uma duração compreendida entre os cinco e os dez minutos. Em cada um desses momentos, o público era convidado a escolher alguns elementos que cada escritor devia incluir na narrativa, ou uma pergunta a que o texto devia responder de forma coerente, etc. Por exemplo, logo no primeiro bloco, foram definidas uma geografia, uma influência cinematográfica e um objecto para cada personagem. Para a Alva: Paramaribo (capital do Suriname), Top Gun e enrolador de pestanas. Para a Luzia: Reikjavik, O Ninja das Caldas e telemóvel sem saldo. Para o Ismael: Barreiro, Laranja Mecânica e Bimby. Pode parecer fácil, mas não é. Por muito que nos concentrássemos na brancura dos nossos ecrãs, sabíamos que os espectadores, ali mesmo à nossa frente, estavam a acompanhar em tempo real a evolução de cada texto, as nossas hesitações, enganos, tentativas, recomeços, vai à frente e volta atrás. Uma exposição total.
Eis o aspecto da coisa:

Curiosamente, nenhum de nós bloqueou, nenhum de nós deixou um texto a meio. E lá fomos criando narrativas paralelas necessariamente irregulares e sinuosas, saltando a custo (mas creio que com engenho e por vezes com graça) as muitas dificuldades que nos iam colocando no caminho. Entre outras safadezas, obrigaram-me a vestir a pele de Berlusconi e a perorar sobre a Hello Kitty, enquanto o João teve de macaquear o estilo da Laurinda Alves e a Patrícia se viu constrangida a mencionar o tema Paixão, dos Heróis do Mar.
No final das histórias, progressivamente mais destrambelhadas, o público votou de braço no ar e deu a vitória (justa) ao João Leal. Coube-lhe então ler a morte de Luzia, mas a Alva e o Ismael (cujos desfechos era suposto ficarem no tinteiro digital) também acabaram por morrer no ecrã e na voz dos seus criadores, completando um suicídio colectivo que escapou ao guião do espectáculo mas satisfez os espectadores.
Conclusão: se a proposta era arriscada, o resultado acabou por superar as melhores expectativas. Para quem esteve no palco foi um divertimento absoluto, com bastante adrenalina criativa. Para quem assistiu, julgo que foram umas horas bem passadas.
A fórmula resultou. Os responsáveis pelo Festival Silêncio suspiraram de alívio. Para o ano repetimos, Alberto?

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Menos por Menos, de Pedro Mexia (D. Quixote), por António Guerreiro
- O Reino Deste Mundo, de Alejo Carpentier (Saída de Emergência), por José Guardado Moreira
- O Último Livro, de Zoran Živković (Cavalo de Ferro), por José Mário Silva
- Por Este Mundo Acima, de Patrícia Reis (D. Quixote), por Luísa Mellid-Franco
- A Cidade das Palavras, de Alberto Manguel (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
- O Olhar da Mente, de Oliver Sacks (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
- 2010-2011, de Ana Paula Inácio (Averno), por Pedro Mexia
- Whitewash, Red Stone: A History of Church Architecture in Goa, de Paulo Varela Gomes (Yoda Press), por José Manuel Fernandes

O que aí vem (Esfera do Caos)

Será Poesia?, de Eduardo Ferrão; Falas da Terra no Século XXI, de vários autores; O Céu Também Tem Degraus, de António José Oliveira; Migrações: das células aos cientistas, de vários autores.

Crónica da Guiné

K3
Autor: Nuno Dempster
Editora: &Etc
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-989-8150-28-8
Ano de publicação: 2011

Deixemo-nos de rodeios: K3, de Nuno Dempster, é um dos melhores livros de poesia publicados em Portugal nos últimos anos e a mais espantosa aproximação ao horror da Guerra Colonial desde Catalabanza, Quilolo e Volta, de Fernando Assis Pacheco (1976). Poema longo e de fôlego épico, K3 narra a experiência militar do autor na Guiné e procura arrancar às trevas do esquecimento os «anti-heróis» que combateram a seu lado, esses representantes involuntários das «gerações vencidas a quem coube / fechar impérios», homens usados como carne para canhão por um regime caduco. «E chega-me esta gente como um peso, / não me sai da lembrança, / não me sai do poema, / acompanhou-me oculta até hoje», assume Dempster, para quem o resgate da memória serve aqui de expiação, exorcismo e catarse.
No princípio é a Gare Marítima de Alcântara, o lugar simbólico das despedidas, com lenços brancos e choro aflito de mães e namoradas, intuindo que muitos daqueles jovens não regressariam vivos. O «alto navio negro», a abarrotar de soldadesca assustada, surge como «nefasta» réplica das caravelas dos Descobrimentos e quem lá vai dentro sente-se devedor de «juros / acumulados há seiscentos anos». A «gesta lusitana» repete-se, mas «escrita desta vez / ao contrário». É por isso no avesso da grandiloquência que o poema prossegue mar adentro, sentindo «o estremecer das máquinas / na medula dos ossos» e a respiração de três mil rapazes prestes a deixar a juventude para trás, sonhando à noite com mulheres que se assemelham a fogos de Santelmo, emanações do desejo que os distraem do pavor da morte.
Segue-se a descoberta da realidade africana, a «selva dos miasmas», as paisagens envoltas em sol vermelho, o calor que «formava uma abóbada / com o céu sempre baixo», o contacto com os negros e os seus «corpos de hulha / pronta a incendiar-se». Dempster leva para o mato livros de Pavese e discos de Stan Getz, a pensar ouvi-los num gira-discos a pilhas, mas quando a lancha cinzenta, «cor de guerra», o transporta para o palco dos combates, é já «sem hipótese alguma de lirismo». Assim que as balas começam a zunir «como abelhas mortais» e os aviões T-6 descarregam napalm sobre o inimigo, inscreve-se no cérebro em pânico «a gritaria, / o medo e o estigma». Surge então, como um círculo do inferno, o labirinto do K3, essa rede de subterrâneos «que nenhuma epopeia há-de lembrar», porque «não há poemas que celebrem / soldados sob fogo nos túneis escavados, / casernas enterradas, criptas cheias / de vencidos sem culpa e sem vontade».
Os dias no K3, riscados a esferográfica, são um «tumor», uma «síndrome em mim» que «me levou a luz / e trouxe a indiferença». O resto da guerra, em Colibuia, em Quebo, é o culminar de uma alucinação em que nunca deixaram de assomar, ao longe, os cavaleiros do Apocalipse. E será que se volta deste passado? «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia», conclui Dempster, depois de confessar, melancólico: «sobrevivi / nas coisas mínimas / que a falta de futuro me deixava».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

2 x Festival Silêncio

Hoje estarei em duas sessões do Festival Silêncio. Primeiro, às 19h30, vou moderar uma conversa na sala 2 do Cinema S. Jorge, entre o brasileiro Juva Batella, o angolano José Eduardo Agualusa e o norte-americano Richard Zimler. Depois, a partir das 23h00, serei um dos três concorrentes de um jogo literário de alto risco: Suicida-me, concebido por Alberto Torres Blandina e apresentado por Nuno Costa Santos. Na arena da folha em branco (a imagem de um processador de texto projectada no grande ecrã), medirei forças com Patrícia Portela e João Leal. No fim, ao invés do que se passava nas lutas entre gladiadores, o prémio do vencedor é a morte (o suicídio) da personagem que se levou na cabeça para a escuridão fumarenta do MusicBox.

Palavra-chave: miradouro

How to give away your books: «If I think too deeply about the books I’m giving away, I have a sort of crisis. It’s got to be like ripping off a band-aid: I give them away quickly, and then I try to forget that I ever owned them.»

Uma biblioteca impressionante

[via Blogtailors]

Os homens escavam para fazer crescer

«Dali de cima viam as trincheiras que pareciam cobras, e de vez em quando morriam dezenas de soldados. Ou centenas. Ou milhares. Dali de cima, sem o cheiro das trincheiras, sem o sangue, sem os gases, sem o fumo e a lama e sem o pó, nada parecia condenável. Eram pontinhos, coisas pequeninas, que apareciam e desapareciam. Aquela era a visão de Deus. Se Ele se baixasse, veria outras coisas.
Ao final do dia foram atacados pela aviação inimiga. Soucek, quando ouviu os motores a aproximarem-se, levantou-se e pulou para fora do balão. O pesado para-quedas abriu de seguida. Sors ficou a vê-lo cair, sem reagir. Quando o avião mais próximo disparou uma primeira rajada sobre o balão, Sors ainda estava agarrado às cordas. O fogo alastrou de imediato e um pedaço de pano a arder passou-lhe pela cara. Sors soltou as cordas onde se agarrava e caiu em direcção ao chão. Abriu o para-quedas com uma calma que não julgava possuir e reparou mais uma vez nas trincheiras lá em baixo, escavadas aos esses como um bêbado.
Os homens escavam para fazer crescer. Desde casas a couves. Tudo nasce de buracos. A criatividade prefere a penumbra do interior dos nossos cérebros. Os fetos preferem o útero. Mas não é só a vida que gosta do invisível, a morte também é feita de coisas que não se veem, de emboscadas, de disfarces. E de buracos como as trincheiras. Esses buracos nunca servirão para fazer alicerces de edifícios. Porém, serviram para Sors sonhar com Františka, com beijos que sabem a janelas embaciadas.»

[in O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, de Afonso Cruz, Caminho, 2011]

Programa para o fim-de-semana

Coincidências

Hoje entrevistei dois escritores: o norte-americano David Vann e a francesa Maylis de Kerangal. Em A Ilha de Sukkwan (Ahab), Vann atira-nos à cara com o peso tremendo de uma relação entre pai e filho que se interrompe com um suicídio, algures numa ilha deserta do Alasca, tragédia amplificada pela descrição minuciosa de uma paisagem belíssima mas agreste. Em Nascimento de uma Ponte (Teorema), Kerangal conta-nos, em tom de epopeia do século XXI (era de todas as globalizações), a construção de uma gigantesca ponte numa cidade imaginária da Califórnia, fazendo do estaleiro a metáfora da própria criação do romance.
À partida, nada une estes autores. A não ser isto: os romances que vieram lançar a Portugal ganharam ambos o Prémio Médicis 2010 (o francês para Kerangal; o estrangeiro para Vann, que tinha, como companheiros de shortlist, Thomas Pynchon e Gonçalo M. Tavares). «Say hi to her», pediu-me Vann. E quando transmiti a Maylis o cumprimento, ela respondeu: «Il est à Lisbonne? Super. Quel livre, le sien. C’est dingue, non?»

Dez elementos essenciais para uma prosa moderna, segundo Kerouac

Retirados de uma lista de 30:

4. Be in love with yr life
5. Something that you feel will find its own form
7. Blow as deep as you want to blow
11. Visionary tics shivering in the chest
13. Remove literary, grammatical and syntactical inhibition
15. Telling the true story of the world in interior monolog
17. Write in recollection and amazement for yourself
19. Accept loss forever
20. Believe in the holy contour of life
21. Struggle to sketch the flow that already exists intact in mind

[in secção 'Kerouac on Writing' da edição amplificada para iPad de On The Road, de Jack Kerouac, Penguin, 2011]

‘On The Road’, agora em versão iPad

A «edição amplificada» para iPad do romance On The Road, de Jack Kerouac (Penguin), foi lançada no passado sábado. Já comprei a aplicação, já explorei as novidades, já embasbaquei. E concordo com o que se diz aqui, particularmente esta passagem:

«The decision to bring out “On the Road” as an app has a lot to do with this iconic status, explains Stephen Morrison, editor in chief of Penguin Books, reached this week by phone at his Manhattan office. “We were looking for a book with enough resonance,” Morrison says, “as well as enough supplemental material from which we could learn how to curate a literary app.”
The key word there is “learn,” which is what all of us, publishers and writers and readers, must do now as the publishing industry increasingly comes to terms with the digital age. We need to learn how to use the digital space as a vessel, as a container, how to produce and interact with apps and electronic texts that feel like books, yet also reflect the possibilities of technology.»

De facto, ainda estamos todos a aprender. Isto ainda está tudo no princípio. Mas uma coisa é certa: as possibilidades que se abrem são simplesmente extraordinárias.

Voltar aos exames (por uma via inesperada)

Tanto por e-mail como no Facebook, houve professores que tiveram a gentileza de me avisar da minha presença no exame nacional de português do 9.º ano (ou, para ser mais rigoroso, na Prova Escrita de Língua Portuguesa para o 3.º Ciclo do Ensino Básico). Como se pode comprovar neste pdf, os alunos tiveram de responder a perguntas sobre um trabalho que publiquei na revista Única, do Expresso, em torno de algumas das mais célebres primeiras frases de romances. Sabendo que as outras partes do teste partiam de um texto teatral de José Saramago e de uma estrofe de Os Lusíadas, fico com uma sensação de profundo embaraço (mas que raio estou eu a fazer ali?). Espero que os alunos, que tantas vezes se revoltam contra os autores que os tramam nos exames, não tenham saído da prova a fazer, por outras razões, esta mesmíssima pergunta.

‘Duas Margens’

Acaba de nascer uma nova revista literária, exclusivamente digital. Os editores são Vítor Quelhas, Carlos Pessoa e José Guardado Moreira. Eis a declaração de intenções:

«A revista Duas Margens é uma plataforma aberta de divulgação editorial e literária transnacional e transcontinental no âmbito do espaço geográfico e cultural lusófono e ibero-americano (com produção literária inédita bilingue, em português e castelhano) e lugar de encontro e diálogo entre autores, editores, tradutores, críticos, livreiros, ilustradores, designers e outros agentes do campo literário, como fundações, prémios, congressos, encontros literários e feiras do livro, das duas margens do Atlântico.»

O download do primeiro número pode ser feito aqui.

Viagem de Inverno

Caminhar no Gelo
Autor: Werner Herzog
Título original: Von Gehen im Eis
Tradução: Isabel Castro Silva
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 124
ISBN: 978-989-671-081-1
Ano de publicação: 2011

Figura de proa do chamado Novo Cinema Alemão e autor de filmes em que abundam as personagens excessivas (Aguirre, Woyzeck, Fitzcarraldo, Cobra Verde), Werner Herzog é ele próprio um homem que testa permanentemente os seus limites. Os conflitos com Klaus Kinski (actor-fetiche), levados quase até às últimas consequências, tornaram-se lendários — tal como a célebre aposta perdida para Errol Morris. Herzog jurou que comeria os seus sapatos caso Morris conseguisse estrear o documentário Gates of Heaven. E cumpriu a promessa, como se pode ver num documentário de Les Blank.
Caminhar no Gelo, um relato agora editado na colecção de literatura de viagens da Tinta da China, nasce de uma obstinação parecida. No final de 1974, Herzog soube que Lotte Eisner, uma das mais importantes estudiosas do cinema alemão, estaria às portas da morte, em Paris. Decidiu então sair de casa, em Munique, com um casaco, uma bússola e um saco de desporto (contendo só o estritamente necessário), e caminhar a direito até à capital francesa, convicto «de que ela viveria se eu fosse ter com ela a pé». Estamos, é claro, no domínio do pensamento mágico, de uma inocência quase infantil. Mas o diário mostra-nos que esta viagem não foi uma brincadeira, não foi um desafio pessoal inconsequente. Muito pelo contrário.
De 23 de Novembro a 14 de Dezembro, Herzog avançou pelas paisagens desoladas da Baviera e da França ocidental, quase sempre debaixo de chuva, neve, tempestades, um frio de rachar. Como o wanderer da Viagem de Inverno de Schubert, ele perde-se na natureza hostil, descobrindo todos os cambiantes da solidão. A escrita é tensa, áspera, oscilando entre o rigor fotográfico e a alucinação onírica. No fim, o certo é que Eisner não morre, talvez porque Herzog, animado pela sua teimosia, acabou por sobreviver aos sacrifícios da terrível jornada (e nós com ele).

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Cavalo de Ferro)

Ainda em Junho: Museu da Rendição Incondicional, de Dubravka Ugrešić; Viagem ao País da Manhã, de Hermann Hesse; As Mulheres Nunca Envelhecem, de Iaia Caputo.

Lydia Davis sobre a tradução de Rimbaud feita por Ashbery

Num dos últimos números da New York Times Book Review, Lydia Davis publicou uma magnífica abordagem crítica à edição americana das Illuminations de Rimbaud, traduzidas pelo poeta John Ashbery.
Eis um excerto:

«In a meticulously faithful yet nimbly inventive translation, Ashbery’s approach has been to stay close to the original, following the line of the sentence, retaining the order of ideas and images, reproducing even eccentric or inconsistent punctuation. He shifts away from the closest translation only where necessary, and there is plenty of room within this close adherence for vibrant and less obvious English word choices. One of the pleasures of the translation, for instance, is the concise, mildly archaic Anglo-Saxon vocabulary he occasionally deploys — “hued” for teinte and “clad” for revêtus, “chattels” for possessions — or a more particular or flavorful English for a more general or blander French: “lush” for riches, “hum of summer” for rumeur de l’été, “trembling” for mouvantes.
Even a simple problem reveals his skill. In one section of the poem “Childhood,” there occurs the following portrayal of would-be tranquillity: “I rest my elbows on the table, the lamp illuminates these newspapers that I’m a fool for rereading, these books of no interest.” The two words sans intérêt (“without interest”) allow for surprisingly many solutions, as one can see from a quick sampling of previous translations. Yet these other choices are either less rhythmical than the French — “uninteresting,” “empty of interest” — or they do not retain the subtlety of the French: “mediocre,” “boring,” “idiotic.” Ashbery’s “books of no interest” is quietly matter-of-fact and dismissive, like the French, rhythmically satisfying and placed, like the original, at the end of the sentence.»

Convém lembrar que Davis, além de uma excepcional ficcionista, também se tem destacado como tradutora, precisamente do francês. Depois de ter vertido para inglês o primeiro volume da Recherche, de Proust, ganhou recentemente um prémio da French-American Foundation pela tradução de Madame Bovary, de Flaubert, em 2010.
Numa troca de e-mails com os editores da New York Times Book Review, Davis descreveu o modo como encara o seu trabalho de tradutora:

«A single work involves often hundreds of thousands of minute decisions. Many are inevitably compromises. The ideal translation would result in an English that perfectly replicated the original and at the same time read with as much natural vigor as though it had been born in English. But in reality the finished translation is likely to be more uneven — now eloquent, now pedestrian, now a perfect replication, now a little false to the original in meaning or rhythm or syntax or level of diction. A careful weighing of the many choices involved can nevertheless result in a wonderful translation. But great patience and of course great skill in writing are essential, not to speak of a good ear and a deep understanding of the original text.»

O meu encontro com Zoran Živković (no Festival Silêncio)

Eis a sessão completa. No início, em estreia mundial, li o primeiro capítulo (traduzido pelo editor Diogo Madre Deus) da sequela de O Último Livro, neste momento ainda um work in progress:

O vídeo foi feito por Luís Rodrigues.

Ler o ‘Ulisses’ no Twitter

Na passada quinta-feira, dia 16, celebrou-se um pouco por todo o mundo mais um Bloomsday. De entre todas as evocações da obra-prima de James Joyce, houve uma que teve qualquer coisa de Rossio enfiado à força na Rua da Betesga. Refiro-me ao projecto de condensar as quase 800 páginas do romance em 96 sequências de tweets (com um máximo de 140 caracteres cada um). O resultado desta micronarrativização de um clássico pode ser conferido aqui. E aqui encontramos um apanhado das reacções ao Bloomsday Burst.

O horror do mar

Os Folgazões
Autor: Robert Louis Stevenson
Título original: The Merry Men
Tradução: Aníbal Fernandes
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-972-37-1570-5
Ano de publicação: 2011

Recém-licenciado pela Universidade de Edimburgo, Charles Darnaway chega à pequena ilha de Aros, na costa noroeste da Escócia. É lá que o seu tio Gordon – um presbiteriano «amargo», «rude», «bilioso» e perseguido pela má sorte – vive com a filha, Mary Ellen, uma bela rapariga que o primo civilizado quer resgatar de uma vida de tédio, entre carneiros e «gaivotas esvoaçantes». Na cabeça, Charles traz um plano: encontrar, no fundo de uma das baías de Aros, o casco do Espirito Santo, um galeão espanhol da Invencível Armada de Filipe II, supostamente naufragado ali mesmo, há vários séculos, com os porões a abarrotar de ouro.
Assim começa a novela Os Folgazões, de Robert Louis Stevenson. O que se segue, porém, não é uma simples história de caça ao tesouro, feita à medida dos leitores oitocentistas sequiosos de aventura. É antes um hino às forças da natureza e ao modo como o mar afecta a vida dos homens que têm a infelicidade de sucumbir ao seu poder implacável, seja enquanto vítimas dos tratos de polé a que os navios são sujeitos na armadilha dos recifes, seja enquanto espectadores longínquos, mas interessados nos despojos dos naufrágios.
Entre Charles e Gordon o conflito é inevitável, porque se o primeiro interpreta a realidade à luz da razão, o segundo está imerso nas superstições e mitos gaélicos. Quem vem de fora não atribui necessariamente uma sombra dentro de água ao corpo de um demónio furtivo, mas quem sempre viveu naquela paisagem agreste, de escarpas altíssimas e marés mortíferas, é compreensível que veja no mar a porta para o inferno, bem como na extensão oceânica – essa «criatura falsa, salina, fria, rugidora» – um antro de maldade. Mais do que respeito, Gordon sente medo, um medo absoluto que faz com que antecipe, a milhares de quilómetros do Congo, uma célebre frase de Conrad: «Oh, senhores, o horror… o horror do mar!»
Nas palavras de Stevenson, Os Folgazões é «uma sonata fantástica». E há de facto qualquer coisa que canta nesta escrita, sensorial como poucas: «À volta de toda a ilha de Aros a ressaca vergastava os recifes e a costa com uma imparável e trovejante pancada de martelo. Mais forte num lugar, mais fraca noutro, esta perseverante massa sonora lembrava uma música orquestral com variações que não punham em assinalável destaque nenhum dos seus momentos. E, a dominar ruidosamente todo este alvoroço, eu distinguia as vozes instáveis do Roost e o rugido intermitente dos Folgazões.» Os Folgazões são rebentamentos de ondas que enlouquecem os homens, enquanto aniquilam os navios que têm o azar de ficar presos na sua «dança da morte». Um espectáculo «enraivecido na leveza» e «instigado por uma monstruosa jovialidade», descrito genialmente por Stevenson no assombroso capítulo quarto, em si mesmo um exemplo perfeito do realismo «completamente irreal», próprio de quem «nunca olhou para as coisas com olhos que não fossem os da sua imaginação», que lhe atribuiu Marcel Schwob, citado pelo tradutor Aníbal Fernandes em mais um dos seus estimulantes prefácios.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

Lembrete

Esta tarde, a partir das 18h00, estarei à conversa com o escritor sérvio Zoran Živković, na sala 2 do Cinema São Jorge, em mais uma sessão do Festival Silêncio.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- Poesia, Saudade da Prosa, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
- Caminhar no Gelo, de Werner Herzog (Tinta da China), por José Mário Silva
- Até Lá Abaixo, de Tiago Carrasco (Oficina do Livro), por Alexandra Carita
- O Meu Testemunho Perante o Mundo, de Jan Karski (Bizâncio), por Luís M. Faria
- Antologia Açoriana, de João Miguel Fernandes Jorge/Urbano (Governo Regional dos Açores), por Manuel de Freitas
- A Pior das Guerras, de Daniel Jonah Goldhagen (Casa das Letras), por Luís M. Faria

‘Ítaca’, número 3

Três poemas de Rosa Alice Branco

STREEPTEASE (CARTAGENA)

Cidades deitadas umas sobre as outras.
O peso pode ser insuportável. Comemos relva
do dia sobre as camadas que se vão despindo
lentamente, a malha urbana dos cinco apelos
para a prece, e cinco sob os cinco de outra era.
Mais abaixo escavam agora gritos lancinantes
mesmo ao centro do anfiteatro romano.
Animais carnívoros perfuram o solo
até às raízes. Tenho de respirar
um pouco nos teus olhos e acreditar que podes despir-me
de verdade soterrada há tantos séculos sob a arena.
Foi aqui que os leões nos lamberam as feridas
mas ninguém bateu palmas.
Só batiam os pés no chão em algazarra
para que os devorássemos. Mas somos
palhaços herbívoros e mesmo a erva
dói a entrar no coração.

***

SEU A SEU DONO

A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do corpo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

***

SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

[in Gado do Senhor, &Etc, 2011]

Uma Torre de Babel feita de livros

Em Maio, a artista Marta Minujin criou em Buenos Aires uma espantosa obra efémera: uma Torre de Babel de estrutura helicoidal, com uma altura equivalente a sete andares, coberta com 30 mil livros nas mais diversas línguas e dialectos, formando no seu todo uma grande «biblioteca multilinguística».
O projecto tem a ver com Babel, tem a ver com livros, e terá decerto a ver com Jorge Luis Borges. Este vosso humilde BdB só poderia levantar-se e aplaudir.

O que aí vem (Presença)

O Último Homem na Torre, de Aravind Adiga; Miral, de Rula Jebreal; O Último Desejo, de Andrzej Sapkowski; Onde Moram as Sombras, de Michael Ridpath; A Casa da Sabedoria, de Jonathan Lyons; Vida no Universo, de João Lin Yun; As Quatro Estações, de David Mourão-Ferreira (relançamento).

Festival Silêncio

Começa hoje e vai transformar Lisboa na «capital da palavra» até dia 15. Programação completa aqui.
Pela minha parte, estarei à conversa com o escritor sérvio Zoran Živković este sábado (18h00), na sala 2 do Cinema São Jorge. Depois, no dia 24, vou ser o moderador da conversa entre o brasileiro Juva Batella, o angolano José Eduardo Agualusa e o norte-americano Richard Zimler (19h30), antes de participar numa performance/jogo literário do espanhol Alberto Torres Blandina, Suicida-me (23h00, no MusicBox), em que terei como adversários Patrícia Portela e João Leal, com Nuno Costa Santos a fazer de mestre de cerimónias.

Lembrete

Logo à noite, a partir das 22h00, no Chapitô, participarei num debate sobre a emergência dos e-books com o editor Carlos da Veiga Ferreira e o booktailor Nuno Seabra Lopes (já anunciados previamente), numa mesa a que entretanto se juntaram mais três convidados, todos romancistas: Miguel Miranda, David Machado e João Tordo. A moderação da conversa estará a cargo de Eurídice Gomes.

O código Carrefax

C
Autor: Tom McCarthy
Título original: C
Tradução: Maria João da Rocha Afonso
Editora: Presença
N.º de páginas: 395
ISBN: 978-972-23-4511-8
Ano de publicação: 2011

Tom McCarthy (n. 1969) é um caso bastante atípico no contexto da literatura contemporânea de língua inglesa. Nascido em Londres, com estudos universitários em Oxford, ele revela uma inusitada francofilia. Além de admirar as obras teóricas de Jacques Derrida ou Roland Barthes, não esconde a influência do nouveau roman (e particularmente de um autor hoje tão esquecido como Alain Robbe-Grillet). Na verdade, antes de ser escritor, McCarthy assumiu-se como artista conceptual, ainda na década de 90, à frente de uma organização semi-fictícia, a INS (International Necronautical Society), cujo objectivo é criar projectos provocadores que «façam com o conceito de morte o que os surrealistas fizeram com o sexo». Quando em 2001 escreveu o seu primeiro romance, Remainder, deparou-se com a mais completa indiferença por parte das editoras britânicas. À semelhança de um célebre romance que também foi recusado dezenas de vezes (Ulisses, de James Joyce), Remainder acabou por ser publicado em Paris (2005) numa pequena editora especializada em livros de arte. Paradoxalmente, no Reino Unido o romance podia ser comprado em galerias e museus, mas não nas livrarias. Ainda assim, o livro recebeu críticas bastante positivas e acabou por surgir um ano mais tarde no catálogo de uma editora inglesa independente (a Alma Books).
No entanto, a operação de resgatar McCarthy às trevas do anonimato só ficou completa em finais de 2008, quando a romancista Zadie Smith publicou um extenso e muito citado ensaio — Two Paths for the Novel (entretanto coligido no volume Changing my Mind, 2009) —, em que apontava rumos possíveis para o futuro do romance, a partir da oposição feroz entre dois paradigmas. O primeiro era representado por Netherland, de Joseph O’Neill, enquanto apogeu e esgotamento do «realismo lírico» que tem dominado a ficção contemporânea. Do outro lado, como antídoto e recusa desse modelo, Smith apontava Remainder (Remanescente na edição portuguesa da Estampa), sugerindo que o regresso ao experimentalismo das vanguardas pode ser uma das formas de arrancar o romance ao seu actual estado de «complacência».
Em Remainder, McCarthy conta a história, na primeira pessoa, de um homem que sofre um trauma provocado por uma peça caída do céu, perde a memória e tenta, ao receber uma enorme indemnização, reconstruir a vida eclipsada, através da laboriosa encenação de momentos do seu passado. No fundo, ele deseja voltar a sentir as coisas como elas eram; uma espécie de «autenticidade» pura e utópica. Ainda nas palavras de Smith, o romance avança por «acumulação e repetição, aproximando-se do seu tema em círculos cada vez mais apertados». Embora com premissas narrativas menos radicais do que Remainder, C confirma McCarthy como um dos ficcionistas mais interessantes da actualidade. Zadie não falhou a aposta e atrás dela foram muitos os olhos que se abriram, ao ponto de o Man Booker Prize — tradicionalmente mais inclinado para narrativas de recorte clássico e leitura acessível — o ter seleccionado para a sua shortlist do ano passado.
Dividido em quatro partes, C acompanha a curta vida de Serge Carrefax (1898-1922), em cujo percurso se reflectem alguns dos grandes avanços e tragédias das duas primeiras décadas do século XX. O livro começa de forma arrastada, com a descrição minuciosa do nascimento e dos primeiros anos de Serge, algures na província inglesa, na Casa Versoie, simultaneamente uma escola para crianças surdas, dirigida pelo pai (um inventor fascinado pelas possibilidades do telégrafo sem fios), e uma quinta que produz seda, sob a supervisão da mãe. Serge cresce com a irmã mais velha, Sophie, ao som de um «zumbido mecânico intermitente», vindo dos estábulos onde o pai faz as suas experiências, mas enquanto ele partilha o entusiasmo tecnológico do progenitor, explorando o éter noite dentro, à procura de vozes e mensagens nas ondas de rádio, Sophie mergulha em estudos científicos profundos (química, entomologia, criptografia) que a levam à consciência de uma complexidade avassaladora («está tudo ligado»). A vertigem empurra-a até aos limites da loucura e depois, já com o peso de uma relação sexual ilícita a atormentá-la, até ao suicídio.
Esta morte e respectivo luto, com tonalidades incestuosas, paira sobre o restante percurso de Serge, que nos surge em blocos autónomos, sem grandes preocupações cronológicas. Encontramo-lo primeiro numa estância termal da Mitteleuropa, à procura de cura para a bílis negra que lhe envenena o sangue e turva a vista; depois num avião em plena I Guerra Mundial, a emitir sinais que guiam as bombas da artilharia aliada para os alvos alemães; de seguida a aprender arquitectura em Londres, nos intervalos de coisas mais importantes, como o sexo e as drogas (cocaína, heroína); e por fim no Egipto, a colaborar na montagem da grande rede de comunicação sem fios do império britânico, pretexto para subir o Nilo e descer à escuridão saturada de símbolos dos túmulos dos faraós.
Ainda em criança, quando aprende as regras elementares da pintura com o seu tutor (Sr. Clair), Serge revela «um bom sentido da linha e do movimento», embora seja «incapaz de fazer a perspectiva». Ele vê tudo liso: «Objectos, figuras humanas, paisagens». Ao acompanharmos as suas deambulações, somos também apanhados por esta bidimensionalidade. Serge não se prende a nada, nem a pessoas nem a sentimentos. É um ser reflexivo, abstracto, sempre à procura de padrões e interferências, de mapas mentais que lhe permitam decifrar o código da sua própria identidade e aproximar-se do sentido último das coisas (guardado para o delírio onírico das últimas páginas).
A escrita de McCarthy reflecte fielmente as idiossincrasias do protagonista, pelo que este não é um livro fácil de ler. Por vezes explicativo demais, C afronta o leitor, provoca-o, exaspera-o. Contudo, quem souber resistir ao momentos de lentidão e aridez narrativa, receberá a devida recompensa. Porque esses momentos são absolutamente necessários ao equilíbrio interno desta deriva existencial. São como a estática que nos agride quando sintonizamos um rádio, mas nos faz apreciar melhor a harmonia da música que chega depois, nunca sabemos bem de onde.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges