Damas & Valetes

O Homem do Buick Azul
Autor: António Garcia Barreto
Editora: Oficina do Livro
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-989-555-570-3
Ano de publicação: 2011

Eneias Trindade, o protagonista do romance O Homem do Buick Azul, de António Garcia Barreto, é um detective privado sui generis. Com um metro e oitenta de altura para noventa quilos, quase «gigante» se atendermos «à bitola do português médio», faz-se valer das manhas de antigo polícia e dos músculos de ex-pugilista. Fumador compulsivo de cigarrilhas, leitor de Camilo, bom garfo (gosta de frequentar casas de pasto e leitarias), Eneias anda tristonho com a fuga da amada Rosarinho, que vários namoricos e flirts com outras mulheres não chegam a afastar do seu pensamento. A história dos desencontros com Rosarinho vem de um livro anterior (A Mulher da Minha Vida, 2008), bem como o Padre Angústias, agora reduzido à figura de mentor cujos aforismos pontuam a narrativa.
Um desses ensinamentos — «Este país tem muito sol por fora e muita sombra por dentro» — retrata na perfeição o Portugal da época (1933). O cinzentismo paira sobre todas as coisas e sufoca Lisboa com cheiros ácidos a «trapo velho», não conseguindo mesmo assim eclipsar a beleza e vibração da cidade. «No reino dos céus morava Deus; em São Bento, Salazar.» Mais modesto, Eneias vive numas águas-furtadas e mantém a custo uma pequena sala de trabalho num andar de escritórios. É aí que recebe os seus clientes, quase sempre necessitados de ajuda em casos de «damas & valetes»: grandes intrigas e pequenos mistérios de gente abastada. Casos como o desaparecimento de um sportsman chamado Álvaro Durval, conhecido produtor de vinho do Porto que se eclipsou e os amigos querem encontrar, embora com menos empenho do que seria de prever.
Na sua investigação, Eneias destapa pouco a pouco um mundo que cruza a alta roda da sociedade lisboeta com o bas-fond dos bairros populares. Há de tudo: senhoras elegantes e automóveis americanos, rufias e proxenetas, polícias sem grandes problemas em recorrer à tortura e até um anão travesti. De pistola Parabellum no coldre, o detective vai da capital a uma quinta no Douro, passando pelo Porto, para desmontar uma teia sem pontas soltas e que reserva ao leitor um desenlace surpreendente.
A escrita de Garcia Barreto é simples, directa e bastante eficaz, embora revele algumas fragilidades estilísticas. Volta não volta, salta um cliché ou uma frase pirosa (como esta: «O dia amanheceu da cor do sorriso das crianças»). Em certos momentos, a narrativa tem ainda tendência a perder-se nos meandros psicológicos de Eneias, nos seus dilemas afectivos banais, mas nada que comprometa o ritmo de uma história bem contada.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]

Paul Auster por Terry Gilliam

O realizador Terry Gilliam, que andou anos e anos e anos a tentar fazer, sem sucesso, uma adaptação cinematográfica do Dom Quixote, de Cervantes, está neste momento a trabalhar num argumento inspirado no romance Mr. Vertigo, de Paul Auster.

Cinco poemas de Rosa Alice Branco

O CÃO QUE ME TINHA

Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.

***

AS VESPAS DE PALERMO

A virgem sorri-me com boca de mosaico,
os meus olhos mergulham nos arabescos do chão,
geometria do sol descendo as ruas de Palermo.
Insectos aceleram bzz bzz até nas passadeiras
e Cristo impávido na igreja em frente.
Mas Cristo não atravessa as ruas:
está um pouco acima da cruz, um pouco antes.
Os anjos abandonam a escuridão do templo.
As vespas parecem pirilampos
e bzz bzz são as asas dos anjos
conversando sobre os turistas do dia.
O bzz bzz das vespas cá em baixo é de encontros
com um copo na mão, a outra na cintura
e nos punhos das vespas, vespas, vespas
atordoando o riso, o beijo passageiro.
E já os anjos estão a postos na sua nudez redonda
enquanto as vespas dormem um sonho de alcatrão.
A ceia prepara-se. Cristo não nega o seu lugar à mesa.
Entre um bzz bzz e outro, olho-te no b barroco ou bizantino
e não aceito a tua morte, tu que atravessas acima das vespas,
vespas, vespas, acima do Etna que sobe ao céu
enquanto dentro se cozinham os infernos: a tua ceia,
os restos que deixaste para nós no microondas.

***

STREEPTEASE (CARTAGENA)

Cidades deitadas umas sobre as outras.
O peso pode ser insuportável. Comemos relva
do dia sobre as camadas que se vão despindo
lentamente, a malha urbana dos cinco apelos
para a prece, e cinco sob os cinco de outra era.
Mais abaixo escavam agora gritos lancinantes
mesmo ao centro do anfiteatro romano.
Animais carnívoros perfuram o solo
até às raízes. Tenho de respirar
um pouco nos teus olhos e acreditar que podes despir-me
da verdade soterrada há tantos séculos sob a arena.
Foi aqui que os leões nos lamberam as feridas
mas ninguém bateu palmas.
Só batiam os pés no chão em algazarra
para que os devorássemos. Mas somos
palhaços herbívoros e mesmo a erva
dói a entrar no coração.

***

SEU A SEU DONO

A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do copo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

***

SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

[in Gado do Senhor, &Etc, 2011]

O regresso de Maurice Sendak

Ao fim de 30 anos, Maurice Sendak volta a publicar um livro em que assina tanto as ilustrações como o texto. É Bumble-Ardy, a história de um porco que só tem a sua primeira festa de aniversário ao cumprir nove primaveras. A propósito desta nova obra, com lançamento previsto para 6 de Setembro, a Vanity Fair publicou um perfil de Sendak, escrito por Dave Eggers (o autor de O Sítio das Coisas Selvagens, romance construído a partir do clássico Where the Wild Things Are) e fotografado por Annie Leibovitz.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Memórias do Duque de Palmela, com transcrição, prefácio e edição de Maria de Fátima Bonifácio (D. Quixote), por Henrique Raposo
Rumor, de José Carlos Barros (edição de autor), por Pedro Mexia
Tudo Voltaire ao Cabaré, de Luís Serra (Apenas Livros), por José Mário Silva
Lendas da Índia, de Luís Filipe Castro Mendes (D. Quixote), por António Guerreiro
Metade da Vida, de Darin Strauss (Quetzal), por Luís M. Faria
De Olhos Abertos, de Marguerite Yourcenar (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Papisa Joana, de Lawrence Durrell (Guerra & Paz), por José Guardado Moreira
A Partilha de Ficheiros na Internet e o Direito de Autor, de Paulo Jorge Gomes (Instituto Açoriano de Cultura), por Carlos Bessa

Viagem à volta do quarto dele

Ontem à noite, antes de dormir. Ou desdormir.

iBarnes & Noble?

Há quem diga que sim.

[via Blogtailors]

Feira do Livro da Póvoa de Varzim

Começa hoje.

No quarto de Pessoa


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Primeiro estranha-se; depois, continua a estranhar-se

Livro de cabeceira

A cama (estreitinha, estreitinha)

A autêntica cómoda triunfal

Roupa (desfocada) para o fantasma

Sobre a réplica da famosa arca onde o poeta guardava o seu gigantesco espólio, uma espécie de mini-bar sem o invólucro frigorífico. É de aplaudir a presença de álcool no quarto, claro, mas suspeito que Pessoa trocaria de bom grado os aromas escoceses do Famous Grouse pelo bom vinho tinto nacional.

Graffiti (a ponta dos dedos nas esquinas)

Primeiros parágrafos

«Bill is gone.
What is the sound of an eighty-nine-year-old heart breaking? It might not be much more than silence, and certainly a small slight sound.
When I was four I owned a porcelain doll given me by a strange agency. My mother’s sister, who lived down in Wicklow, had kept it from her own childhood and that of her sister, and gave it to me as a sort of keepsake of my mother. At four such a doll may be precious for other reasons, not least her beauty. I can still see the painted face, calm and oriental, and the blue silk dress she wore. My father much to my puzzlement was worried by such a gift. It troubled him in a way I had no means to understand. He said it was too much for a little girl, even though the same little girl he himself loved with a complete worship.»

[in On Canaan’s Side, de Sebastian Barry, Faber and Faber, 2011]

O funeral da literatura

Dublinesca
Autor: Enrique Vila-Matas
Título original: Dublinesca
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teorema
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-972-695-951-9
Ano de publicação: 2011

Samuel Riba é um editor à antiga, daqueles que «ainda lêem». Enquanto a sociedade «avança a passos gigantescos para a estupidez», ele está entre os últimos exemplares de uma espécie em vias de extinção — e sabe disso. Resignado, dispõe-se a vender a sua editora mas o negócio não avança. Já a velhice, pelo contrário, trepa por ele acima, voraz, deixando-lhe mazelas físicas e a angústia de não saber lidar com elas. O mundo digital assusta-o, é uma «ameaça», mas também uma fonte de fascínio (fica hipnotizado diante do computador: faz pesquisas no Google, vê vídeos no YouTube). Entre Célia, a companheira que se converteu ao budismo, e os pais muito idosos, incapazes de compreender as suas obsessões literárias, sente-se emparedado. Melhor dito: está num impasse. Até que um sonho premonitório o empurra para Dublin na companhia de três escritores amigos. O que o atrai é Joyce, é o cortejo fúnebre do sexto capítulo de Ulisses (essa «síntese universal»), pretexto para «celebrar as exéquias da galáxia Gutenberg», o ocaso de uma era, o funeral de uma certa ideia da literatura enquanto «arte em perigo».
No seu jeito derivativo, Dublinesca é uma belíssima viagem sentimental com requiem ao fundo, percorrendo um labirinto de referências literárias — sabiamente desconstruídas por Vila-Matas, com a habitual ironia. Imerso numa trama povoada tanto por escritores reais (Brendan Behan ou Paul Auster) como por avatares (Vilém Vok, Nietzky), Riba oferece resistência à sua condição de personagem. Ele «não quer de maneira nenhuma viver dentro de um romance». Mas claro que só dentro de um romance, dentro da própria literatura, é que a sua quixotesca e crepuscular jornada faz sentido.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hoje vou dormir no quarto do Sr. Pessoa, Fernando Pessoa

É uma honra, claro. Mas também uma responsabilidade.

Stieg Larsson vs. Anders Breivik

Vale a pena ler este texto de Joan Acocella, no blogue literário da New Yorker, sobre o trabalho jornalístico de denúncia dos movimentos de extrema-direita escandinavos feito por Stieg Larsson, muito antes de ter escrito a sua póstuma trilogia de policiais (onde, de resto, estas manifestações de ódio também ocupam um lugar importante). Entre outras, a série “Millennium” teve esta virtude: mostrar que por baixo da suposta perfeição social da sociedade sueca (ou norueguesa) se escondem fantasmas terríveis. Aquilo a que assistimos sexta-feira, sobretudo durante o massacre na ilha, foi à entrada abrupta no tecido do real de uma dessas atrozes fantasmagorias.
Curiosamente, a informação de que Anders Breivik, o ominoso assassino de Utoya, participava em foruns online da extrema-direita sueca veio da revista Expo, uma publicação da qual Stieg Larsson foi editor durante os seus últimos dez anos de vida.

O que aí vem (Gradiva)

O Chapéu de Vermeer, de Timothy Brook; O Romance do Gramático, de Ernesto Rodrigues; Ser Jornalista em Portugal, de vários autores (coordenação de José Rebelo); O Ponto Azul-Claro, de Carl Sagan.

‘Estranhões & Bizarrocos’

Um teaser para o livro infantil de José Eduardo Agualusa, feito pelo site Cata Livros.

Primeiros parágrafos

«She’d been lying in the hammock reading poetry for over an hour. It wasn’t easy: she was thinking all the while about George coming back with Cecil, and she kept sliding down, in small half-willing surrenders, till she was in a heap, with the book held tiringly above her face. Now the light was going, and the words began to hide among themselves on the page. She wanted to get a look at Cecil, to drink him in for a minute before he saw her, and was introduced, and asked her what she was reading. But he must have missed his train, or at least his connection: she saw him pacing the long platform at Harrow and Wealdstone, and rather regretting he’d come. Five minutes later, as the sunset sky turned pink above the rockery, it began to seem possible that something worse had happened. With sudden grave excitement she pictured the arrival of a telegram, and the news being passed round; imagined weeping pretty wildly; then saw herself describing the occasion to someone, many years later, though still without quite deciding what the news had been.»

[in The Stranger’s Child, de Alan Hollinghurst, Picador, 2011]

Maravilhas da paternidade

Insurge-se o Pedro: «Se na terra os cavalos puxam as carroças, porque é que no mar os peixes não puxam os barcos?»

Motorizadas e megawatts

Um Arraial Português
Autor: Rui Lage
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-972-568-673-7
Ano de publicação: 2011

Ao escrever sobre Trás-os-Montes no seu penúltimo livro de poemas (Corvo, Quasi, 2008), Rui Lage não se limitou a mostrar como pode ser «triste» a «moral da fábula campestre», encontrada no fim de um «caminho» para fora da cidade (Porto) empreendido em Revólver (Quasi, 2006). Nas palavras de Osvaldo Manuel Silvestre, Corvo correspondeu a um «imperativo»: o de «dar voz» a «quem desapareceu da cena da representação portuguesa». Ou seja, esse outro país dentro do país (o interior) que é geralmente ignorado pelas elites culturais.
Lage leva agora o «imperativo» ainda mais longe, fazendo das festas populares na província, durante o «querido mês de Agosto», o objecto da sua lírica atenta e depurada. Inevitavelmente, há aqui um efeito de estranheza, porque se a «paisagem aturdida» desta poesia é a da estética pimba — bailaricos e casamentos, foguetes no ar, motorizadas e megawatts, luzes que piscam, desacatos, muito pó —, a escrita está no exacto oposto da vulgaridade berrante que descreve. Repare-se na adjectivação inventiva («beijo tangencial», «combustíveis raparigas», «varandas penitentes», «muro cabisbaixo»), no rigor da construção estrófica («Nas escadas alinhados / quais peças de artilharia, / um por degrau refulgem, / entre os vasos, / os instrumentos da filarmónica») ou no modo como em apenas dois versos se fixa uma antinomia, uma atmosfera («Pairam abelhas sobre dálias / e cravos de plástico»).
O olhar de Lage é por vezes irónico, mas nunca depreciativo. O que ele procura são as sombras que se escondem sob a euforia kitsch. No seu tom de fanfarra melancólica, este livro é o belíssimo retrato (sem filtros) da nossa ruralidade, emboscada pelas silvas do abandono.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Anunciada a ‘longlist’ do Man Booker Prize 2011

Já se conhecem os 13 livros que fazem parte da longlist do Man Booker Prize deste ano:

The Sense of an Ending, de Julian Barnes (Jonathan Cape)
On Canaan’s Side, de Sebastian Barry (Faber & Faber)
Jamrach’s Menagerie, de Carol Birch (Canongate)
The Sisters Brothers, de Patrick deWitt (Granta)
Half Blood Blues, de Esi Edugyan (Serpent’s Tail)
A Cupboard Full of Coats, de Yvvette Edwards (Oneworld)
The Stranger’s Child, de Alan Hollinghurst (Picador)
Pigeon English, de Stephen Kelman (Bloomsbury)
The Last Hundred Days, de Patrick McGuinness (Seren Books)
Snowdrops, de A.D. Miller (Atlantic)
Far to Go, de Alison Pick (Headline Review)
The Testament of Jessie Lamb, de Jane Rogers (Sandstone Press)
Derby Day, de D.J. Taylor (Chatto & Windus)

A shortlist (seis livros) será anunciada a 6 de Setembro. Este ano, como nos últimos três, vou lançar-me à leitura integral dos finalistas durante cerca de mês e meio (a decisão sobre o vencedor está marcada para 18 de Outubro). Novidade: em vez de os encomendar por via postal, lerei os romances directamente no meu Kindle. Aliás, três deles já foram descarregados (o do Alan Hollinghurst, que será publicado em Outubro pela D. Quixote, com o título O Filho do Desconhecido; o do Sebastian Barry e o da Carol Birch), ficando o do Julian Barnes em pré-reserva, uma vez que só estará disponível a 4 de Agosto.

Maria Lúcia Lepecki (1940-2011)

Morreu uma grande professora e uma grande amante da literatura portuguesa. Uma grande mulher.

Sete poemas de Luís Serra

CORPO A CORPO

a luz à margem um ensaio
um olímpico amor de passagem

certo como um moribundo sem visitas

***

CUERNAVACA

Com as palavras descontraídas
propus um fenómeno atmosférico.

Flutuo torto e bêbado.

***

RECORDAÇÃO

castelos de espuma ou bolos de arroz
perspectiva de gelatina e fintas

nos arredores de Atenas

***

DESVENTURA

no fim da rua um naufrágio
a noite cerrada de vinganças

o cinema sem índios

***

POESIA

um viajante remendado
como uma porta de Tebas

a beleza uma ingenuidade que passa
de faróis panorâmicos

***

AMORES DE PAPEL

alegria por pouco tempo amotinada
fresca calamidade de laranjas amargas

***

NOCTURNO

no fim a geologia
e um silêncio repentino

a semântica uma senhora
tão fora de horas

[in Tudo Voltaire ao Cabaré, Apenas Livros, 2011]

Maylis de Kerangal: “Gosto de ver as personagens a desmontar as suas vidas”

Conhecido por Jibóia, John Johnson é o mayor de Coca, cidade californiana em franca expansão económica. Ao regressar de uma visita ao Dubai, o paraíso da construção civil (capaz de atrair «um terço das gruas existentes à superfície do globo»), o autarca decide empreender a sua própria revolução urbanística: «Vou libertar a cidade e inscrevê-la no mundo.» O que se segue é uma orgia de betão: o erguer de arranha-céus, a multiplicação de complexos comerciais, a feia arquitetura da prosperidade. Jibóia não olha a meios para «livrar Coca do anonimato provinciano» e «convertê-la à economia mundial, fazer dela a cidade do terceiro milénio, polifónica e omnívora». Símbolo da expansão, eis o projeto de uma enorme ponte suspensa, com seis vias, verdadeira «autoestrada por cima do rio», a unir duas margens radicalmente opostas: de um lado, a civilização do dinheiro, rápida, voraz, com aspirações cosmopolitas; do outro, a natureza bruta da floresta impenetrável, onde ainda vivem tribos índias.
É a história desta obra megalómana que atravessa o romance Nascimento de uma Ponte (Teorema), com o qual Maylis de Kerangal, 44 anos, ganhou por unanimidade o Prémio Médicis em 2010. Consequência desta consagração, a escritora francesa, até aqui bastante discreta, vê-se finalmente empurrada, ao sétimo livro, para o intenso circuito da exposição mediática internacional — as entrevistas sucessivas no estrangeiro, que para muitos escritores são uma forma de tortura, mas ela encara como um necessário «sacrifício humano». No bar de um hotel em Lisboa, garrafa de água mineral à frente e um sorriso de orgulho (acabara de saber, por telefone, que o filho completara o ensino secundário com boas notas), Kerangal defendeu durante quase uma hora esta outra cria, reflectindo enquanto falava, os olhos por vezes perdidos no tecto, à procura da formulação mais precisa.
«O que eu pretendia mesmo era trabalhar a ideia de epopeia», começou por explicar. «Não uma imitação de Homero, claro. Apenas o relato de um desígnio colectivo: homens e mulheres, mas também forças e materiais, convergindo para um mesmo perímetro. Aquele estaleiro. Aquela ponte. Queria que o livro se desenrolasse à medida que a obra cresce, tendo em fundo o discurso mítico da construção da cidade, quase como num western.» Projecto ambicioso, alternando as grandes panorâmicas em cinemascope com as histórias de muitas personagens (dezenas), cujas vidas e trajectos completos por vezes cabem num único parágrafo. A partir dos casos individuais de trabalhadores especializados vindos de todos os continentes, Kerangal aborda as tensões económicas, mas também políticas, do mundo em que vivemos. Ou seja, a lógica da globalização.
Uma lógica perfeitamente encarnada por um dos protagonistas do livro: Georges Diderot, o homem do terreno, o engenheiro mercenário que destrói paisagens, o pragmático com os pés fincados no real, trabalhador incapaz de questionar a finalidade do seu trabalho. Embora a ponte seja o eixo que estrutura toda a narrativa, Kerangal nunca afasta o foco das figuras humanas: «Este é um livro de personagens. A todas elas atribuí uma certa carga heróica — e por isso comecei por falar no sentido da epopeia. A carga heróica nasce de serem confrontadas com qualquer coisa que as ultrapassa. Qualquer coisa que não dominam completamente. Elas têm de se defrontar com a complexidade do mundo e colocar-se em causa. Gosto disso. Gosto de ver as personagens a desmontar as suas vidas, a encontrar pontos de fuga.» Quanto ao estaleiro, acaba por ser mais interessante do que a ponte em si mesma. «O estaleiro é o microcosmos, a sociedade em miniatura, todas aquelas relações de poder. E depois há essa característica melancólica: o facto de ser desmanchado quando a obra acaba. O estaleiro é efémero. Está limitado não só no espaço mas também no tempo.»

Se o processo de escrita do romance foi rápido (seis meses), para trás ficaram vários anos de maturação. «Escrevi as primeiras páginas em 2005. Depois andei às apalpadelas, fui fazendo outras coisas (reportagens e artigos para as revistas Geo e Inculte, outros dois romances, criação da editora Baron Perché), mas nunca deixei de pensar nos problemas que este livro me colocava.» Foi durante uma viagem a São Francisco, perto do território onde localizou a sua cidade imaginária, que começaram a surgir as soluções de que necessitava. Reunida uma extensa documentação técnica que lhe permitiu garantir «efeitos de real», concentrou-se na escrita propriamente dita, uma prosa de grande densidade e beleza que é o verdadeiro triunfo deste romance.
O principal desafio, a maior dificuldade, consistiu em incorporar o léxico técnico na matéria romanesca, criando uma espécie de «poética do estaleiro», com a sua energia cinética contaminando o ritmo das longas frases, muito bem articuladas, torrenciais, avançando em sucessivas acumulações de ângulos e perspetivas («são como um travelling que vai para a frente e para trás»). Com um brilho nos olhos, Kerangal entusiasma-se ao falar da subestrutura do romance: os momentos de aceleração e aqueles em que o tempo se dilata; as diferentes «zonas de intensidade»; os núcleos narrativos que se interligam em rizoma; as palavras raras que funcionam como «bombas de fragmentação»; a alternância dos níveis de linguagem (da trivialidade quase vulgar ao maneirismo barroco).
Se houve, de início, a tentação de escrever um romance puramente conceptual e pós-moderno, essa ideia foi logo posta de parte. «Não está na minha natureza. Não sou esse tipo de escritora.» Por muito que Nascimento de uma Ponte seja um tour de force estilístico (e é), o seu fulgor nasce da dimensão humana das histórias. Não por acaso, o livro fecha com a imagem da ponte construída, mas «ao longe», enquanto em primeiro plano vemos um improvável par amoroso, nadando no fluxo do rio, reconciliando o que parecia irreconciliável.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘raposas a sul’

Um blogue de António Cabrita, a partir de Maputo.

Novo site sobre Cesário Verde

É da Biblioteca Nacional. Explorar aqui.

‘Rua da Poesia’

Ou a poesia na rua.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Nas Trevas Exteriores, de Cormac McCarthy (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
A Casa das Auroras, de Cristina Carvalho (Planeta), por Luísa Mellid-Franco
Um Arraial Português, de Rui Lage (Ulisseia), por José Mário Silva
Quarto Livro de Crónicas, de António Lobo Antunes (D. Quixote), por Pedro Mexia
– Revista Telhados de Vidro, n.º 15 (Averno), por Hugo Pinto Santos
Almanaque do F.C. Porto, de Rui Miguel Tovar (Caderno), por Pedro Candeias

Aguenta-te, Loja 107

São sempre tristes, estas notícias de livrarias com a espada de Dâmocles a pairar sobre as suas estantes.

Uma poeta romena apresenta-se ao distinto público


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Alugar livros escolares no Kindle

De uma notícia na Bookseller:

«Amazon.com is giving students the ability to rent textbooks on Kindle e-readers. The company said students can save up to 80% off textbook prices with the new initiative (…). Dave Limp, vice-president at Amazon Kindle, said: “We’ve done a little something extra we think students will enjoy. Normally, when you sell your print textbook at the end of the semester you lose all the margin notes and highlights you made as you were studying. We’re extending our Whispersync technology so that you get to keep and access all of your notes and highlighted content in the Amazon Cloud, available anytime, anywhere, even after a rental expires.”»

Por enquanto, este serviço está apenas disponível para estudantes americanos, mas o conceito parece-me promissor.

Epifanias familiares

O Progresso do Amor
Autora: Alice Munro
Título original: The Progress of Love
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 307
ISBN: 978-989-641-235-7
Ano de publicação: 2011

O mais recente conto de Alice Munro foi publicado a 27 de Junho, na revista New Yorker. Intitula-se Gravel (Gravilha) e começa por descrever uma cova não muito funda, junto à caravana onde o narrador, então criança, vivia com a irmã mais velha, a mãe grávida, o amante desta e uma cadela chamada Blitzee. A mãe saíra de casa, levando consigo as crianças, depois de confessar ao marido que o filho não fora gerado por ele, mas pelo outro, um actor de uma companhia teatral recentemente chegada à cidade. Segundo Cynthia Ozick, a octogenária Munro (completou 80 anos a 10 de Julho) é «o nosso Tchéckhov». O mestre russo dizia que se no primeiro acto de uma peça vemos uma espingarda pendurada na parede, no último acto ela tem forçosamente de ser disparada. Com a cova de Gravel acontece o mesmo. No Inverno, a neve derretida transforma-a num pequeno lago. É aí que se desenrola a tragédia. Agarrada a Blitzee, a irmã lança-se à água. Nunca perceberemos porquê. Mas o narrador, incapaz de reagir na altura, arrastará toda a vida o fardo dessa súbita paralisia, o peso de não ter evitado aquele afogamento e o respectivo rasto de dor.
Embora escrito um quarto de século mais tarde, este conto podia perfeitamente juntar-se aos 11 textos que compõem O Progresso do Amor, uma colectânea de 1986, agora disponibilizada aos leitores portugueses numa excelente tradução de José Miguel Silva. Neste volume, há mesmo dois contos que representam uma espécie de variação, em negativo, da história de Gravel. Em Miles City, Montana, um casal canadiano viaja de carro nos EUA, com as duas filhas. Num dia particularmente quente, param numa piscina municipal para as miúdas se refrescarem. Por ser hora de almoço, a piscina está fechada mas a nadadora-salvadora deixa-as entrar. Os pais ficam de fora, no automóvel. Talvez guiada por um sexto sentido, a mãe inquieta-se no preciso momento em que a mais pequena desaparece nas águas, longe do olhar da primogénita, distraída com os beijos trocados entre a nadadora-salvadora e o namorado. Milagrosamente, o pior não chega a acontecer. Mas a possibilidade da «mais banal das tragédias» fica a pairar: «E se eu não tivesse tido naquele instante o impulso de ver onde estavam as crianças? E se tivéssemos ido à cidade buscar bebidas, como chegáramos a pensar?» A mera possibilidade da morte iminente de quem amamos, um golpe capaz de nos destruir (e não tão improvável quanto isso), deixa inevitavelmente as suas marcas.
O outro conto é Monsieur les Deux Chapeaux, exemplo perfeito da mestria narrativa de Munro. Colin e Ross são irmãos bastante parecidos, embora o segundo, mais novo, tenha aura de falhado. Na escola em que Colin dá aulas de ginástica, cabe a Ross aparar a relva e outros trabalhos menores. Nos últimos tempos, ele anda obcecado em artilhar o seu carro com um motor muito potente, talvez até potente demais para a fragilidade da carroçaria. Este risco, de que Colin toma consciência durante uma festa, reacende no irmão mais velho um instinto de protecção. Mas de onde vem esse instinto quase físico? Vem lá muito de trás. Depois de ter estabelecido habilmente a teia de relações entre as várias personagens, Munro desenterra, pela voz da mãe dos rapazes, Sylvia, a história fundadora dos equilíbrios familiares. Um dia, durante uma brincadeira perigosa, Colin disparou uma arma, sem querer, contra Ross. Por momentos, julgou que o irmão fora atingido mortalmente e fugiu para o topo de uma ponte, talvez com intenções suicidas. Só depois de ver Ross ileso, embora «não verdadeiramente arrependido» da partida estúpida que lhe quis pregar, é que «tudo começou a regressar ao que sempre fora». Mais uma vez, «o que por pouco não acontecera» condiciona para sempre aquelas pessoas e os seus actos.
Em quase todos os contos assistimos a um trabalho de escavação semelhante. Há sempre uma verdade das personagens que está escondida — por vezes delas próprias (através de complexos mecanismos de defesa) — e o trabalho da ficcionista é trazer essa verdade à superfície. Com extraordinária precisão, Munro cruza os vários tempos de cada história, organizando-os em torno de uma epifania, de uma revelação, momentos que tornam tudo mais claro (ou mais insondável), reverberando depois através da existência de quem os presenciou, em muitos casos fixando um sentimento que é levado ao extremo (desespero, compaixão, amor). São «clareiras na vida», sugere Munro. Lugares onde as coisas ganham sentido. E em que nós, leitores, entramos siderados.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

O site The Millions revelou em exclusivo as primeiras linhas (na verdade, o primeiro parágrafo) da tradução para inglês do último romance de Haruki Murakami, 1Q84. Ei-las:

«The taxi’s radio was tuned to a classical FM broadcast. Janáček’s Sinfonietta—probably not the ideal music to hear in a taxi caught in traffic. The middle-aged driver didn’t seem to be listening very closely, either. With his mouth clamped shut, he stared straight ahead at the endless line of cars stretching out on the elevated expressway, like a veteran fisherman standing in the bow of his boat, reading the ominous confluence of two currents. Aomame settled into the broad back seat, closed her eyes, and listened to the music.»

Quatro poemas de Rui Lage

JÁ PASSOU A PROCISSÃO

Descamam as telhas sob o sol
punitivo, zunem fios de alta tensão,
a pele do empedrado tremeluz
(pois é lá que tudo ondula).

No pátio salivam mangueiras
de abraço constritor, a canícula
ferve cascas de melancia, brilham
botijas de gás no xisto mendicante.

Nas escadas alinhados
quais peças de artilharia,
um por degrau refulgem,
entre os versos,
os instrumentos da filarmónica.

No ouro da tuba cabe o reflexo
do velho cão de companhia,
a gata reluz tubular
na esguia prata do clarinete.

Depostas sobre a toalha
as boinas brasonadas
e de húmidos círculos estampado
o sovaco das camisas,
oponíveis polegares calejam
copos de tinto em formatura

e não te é dada permissão
para vestires blusa mais fresca,
não venha teu seio chamar-se
um figo sobre a mesa.

***

BAILE DOS BOMBEIROS

Quer traves, rapaz,
quer precipites a mão

no seu cabelo a escaldarás
não tanto oxalá quanto

a pele do coração

pois naquela é passageira
a queimadura

mas neste
é sem cura.

Deixá-la correr um pouco
sob a torneira do pátio

se não for de seca
o sempre excessivo

e velhaco
Verão.

***

FESTA CIGANA

Alegra-me a presença
dos ciganos no recinto
manejando a pucarinha
com mãos de ilusionista.
Agrada-me o sebo
da mesa de armar,
o chocalhar das moedas,
as ciganas quais corvos
de olhares evasivos
em terra de inimigos.

Nunca lhes temi a navalha
e as promessas, terríveis,
de tripas ao sol:
ternas criaturas de raros dentes,
a soco fendidos, ou dourados,
em carroças de estrelas dormiam
(era no espelho do rio que as via
estacionadas).

Conforta-me vê-los no recinto,
ainda que já não lhes saiba o nome
como soube de certos outrora,
a uns supondo vivos
a outros assassinados.

***

ABOIO

Tinha um teclado barato
no recinto dos olhos
onde um loop eterno tocava
êxitos de ouro que o passado,
crendo-se futuro,
sem talento e sem contrato buscara.

Sentada no muro cabisbaixo
a si mesma descia por
escada interior
e na subida me puxava
como água
do fundo de um poço.

Para sua corte me chamava
e eu ia, cabeça de gado
numa só noite apreçada
e vendida.

[in Um Arraial Português, Ulisseia, 2011]

Trazer de volta a arca pessoana

Em 2008, a mítica arca onde Fernando Pessoa guardava os seus milhares de papéis manuscritos foi vendida, num leilão, a um coleccionador privado do Norte do país, cuja identidade a leiloeira nunca revelou. Agora, há quem tenha criado um site e uma petição para pressionar a Secretaria de Estado da Cultura no sentido de reavermos (nós, Estado português) este objecto que acolheu durante décadas a obra central da literatura portuguesa do século XX.
Parece-me, claro está, uma causa mais do que meritória. E julgo que faria todo o sentido que a arca recuperada fosse entregue aos cuidados da Casa Fernando Pessoa, em tempos dirigida nem mais nem menos do que pelo actual Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

Tudo continua

Os mupis que anunciam o último filme da saga Harry Potter resumem a ideia de ciclo fechado em duas palavras: «Tudo acaba». Depois deste, não há mais. Finito. Que ninguém espere sequelas e regressos, tão ao gosto de Hollywood. Quando trancou em 2007 a sua mina de ouro, J.K. Rowling teve a inteligência de atirar fora a chave. A ironia, porém, é que mesmo mantendo Rowling a decisão de não acrescentar nem mais um volume a uma das séries literárias com maior sucesso comercial de sempre (sete livros, cerca de 450 milhões de exemplares vendidos, com traduções em 67 línguas), mesmo esgotado de vez o filão cinematográfico, o universo do feiticeiro de Hogwarts não se esgota; e muito menos o seu império «acaba».
Enquanto fenómeno cultural que marcou o imaginário de toda uma geração, Potter tem ainda um potencial imenso que a sua criadora não se coibirá de explorar. Talvez não por acaso, pouco antes da estreia mundial de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2, Rowling anunciou no YouTube o nascimento, em breve, de um site que vai encher as medidas até do admirador mais exigente: Pottermore. Nesta «experiência online», os visitantes poderão mergulhar a fundo no mundo de Harry Potter, acrescentar a sua própria identidade às aventuras do feiticeiro, deambular pelos capítulos dos livros e interagir com leitores de todo o mundo (fala-se de uma espécie de rede social só para fãs). A autora prometeu ainda revelar segredos guardados «há muitos anos», novas informações sobre certas personagens, lugares e objectos, além de passagens escritas até agora inéditas. No dia 31 de Julho, aniversário de Harry, o primeiro milhão de pessoas que se registarem no site terão acesso prévio ao interior de Pottermore, que só abrirá oficialmente em Outubro. Durante os primeiros meses, os ‘pioneiros’ poderão dar ideias, sugerir melhorias e contribuir com textos e imagens, ajudando a moldar o conteúdo oferecido.
A grande novidade, porém, é outra. Rowling recusou sempre que os livros de Potter fossem vendidos em formato digital. Agora, aparentemente rendida aos e-books, vai passar a vendê-los através do site, saltando por cima das editoras e das grandes cadeias de retalho (como a Amazon). Mais: as versões electrónicas dos livros de Harry Potter estarão disponíveis para os vários tipos de formatos e aparelhos (curto-circuitando as guerras entre estratégias rivais, como a do Kindle vs. Nook). A notícia teve o efeito de uma bomba e já há quem fale de uma verdadeira revolução no mundo editorial, talvez com um impacto ainda maior do que o provocado pelo estrondoso e inesperado êxito dos primeiros volumes da série, no final dos anos 90.
As consequências deste gesto de Rowling não são por enquanto muito claras, mas parece evidente que prenunciam novos equilíbrios no jogo de forças entre os autores, os editores e os canais de distribuição (em detrimento dos dois últimos). Certezas, só duas: Potter continua e Rowling vai contribuir para um crescimento ainda mais acelerado da venda global de e-books.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um escritor a sério

O Filho de Campo de Ourique e outras histórias
Autor: António Figueira
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 191
ISBN: 978-972-20-4494-3
Ano de publicação: 2011

Jurista de formação, com muitos anos de carreira diplomática, António Figueira (n. 1961) é um estreante tardio, mas não se pode dizer que seja um desconhecido. Em 2007 viu um conto publicado na revista Ficções (ou seja, passou pelo crivo da exigente Luísa Costa Gomes) e quem frequenta a blogosfera nacional conhece decerto o seu talento de narrador, mais o invulgar domínio da língua portuguesa, evidentes nos textos que vai deixando no blogue 5 Dias. Algumas dessas prosas foram de resto incluídas, mesmo se com modificações, no volume O Filho de Campo de Ourique e outras histórias, um excelente livro que reúne 17 textos e é a afirmação inequívoca de um autor, daqueles que não nascem por geração espontânea, nem se dissolvem na espuma do êxito súbito e efémero.
À medida que se avança na leitura, cresce a sensação de que os temas destas histórias poderiam perfeitamente ser outros. Uma nota explica que Figueira tanto se inspirou num artigo sobre as desventuras de um proxeneta (publicado pela imprensa britânica) como numa página da Wikipedia sobre motocicletas ou numa entrevista lida no jornal gratuito Destak. O que lhe interessa, mais do que os assuntos em causa, é a escrita propriamente dita, o acto de escrever, a inteligência que o texto, ao fazer-se, engendra. Daí o carácter experimental desta obra, que vai dos puros exercícios de estilo aos elaborados morceaux de bravoure (a que não faltam, justamente, doses generosas de francesismos), declinando-se em glosas, variações, estruturas narrativas fragmentadas e toda a sorte de constrangimentos formais (notando-se uma tendência para criar limites quanto ao número total de palavras utilizadas).
Dito isto, convém sublinhar que o virtuosismo de António Figueira está sempre ao serviço de uma ideia de literatura. Ou melhor, de uma vontade literária em contínuo questionamento, a que não falta graça e panache, gozo lúdico e ironia. Seja na Ode ao Nabo, que defende o «encanto» do mui «nobre vegetal» (num único mas veemente parágrafo), seja na engenhosa paródia às teorias da conspiração (Rerum Cognoscere Causas), seja na formidável mas trágica saga do «primeiro grande não-autor da história da literatura mundial» (deliciosa sátira aos mitos literários e ao culto fetichista dos respectivos espólios), vemos surgir do nada uma voz poderosa. O Filho de Campo de Ourique que dá título ao livro pode ser um simulacro de escritor, uma divertida inexistência. Mas o pai do Filho de Campo de Ourique, pelo contrário, é um escritor a sério.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]

O que aí vem (QuidNovi)

A Mão e a Luva, de Machado de Assis; O Ateneu, de Raul Pompeia; O Avô Ximenes, de César Madureira e Catarina Correia Marques; O Colar de Maresia, de César Madureira e Catarina Correia Marques; A História Maravilhosa dos Três Pastorinhos de Fátima, de Amadeu Baptista e Raquel Pinheiro.

Hemingway e Cézanne

«En un fragmento eliminado de su relato El gran río de los dos corazones, Ernest Hemingway escribía a propósito de su alter ego: “Quería escribir como pintaba Cézanne. Cézanne empezaba por emplear todos los trucos. Luego lo descomponía todo y construía la obra de verdad. Era un infierno… Quería… escribir sobre el campo de forma que quedase plasmado como había conseguido Cézanne con su pintura… Le parecía casi un deber sagrado”. En su remembranza de sus primeros años en París, París era una fiesta, Hemingway escribió también sobre la influencia que había tenido en él el pintor francés cuando estaba aprendiendo su oficio: “Estaba aprendiendo de la pintura de Cézanne algo que hacía que escribir simples frases verdaderas no fuera suficiente, ni mucho menos, para dar a los relatos las dimensiones que yo quería darles. No sabía expresarme lo bastante bien como para explicárselo a nadie. Además, era un secreto”.
El secreto estaba en las pinceladas de Cézanne, cada una abierta y de textura visible, con repeticiones y variaciones sutiles, cada una llena de algo parecido a la emoción, pero una emoción profundamente controlada. Cada pincelada trataba de captar la mirada y retenerla y, al mismo tiempo, construir una obra más amplia, en la que había riqueza y densidad, pero también mucho de misterioso y oculto. Eso es lo que Hemingway quería hacer con sus frases. Después de contemplar la obra de Cézanne por primera vez en Chicago, luego en los museos de París y en casa de su amiga Gertrude Stein, lo que deseaba era seguir el ejemplo de esta última y escribir frases y párrafos a primera vista simples, llenos de repeticiones y variaciones extrañas, cargados de una especie de electricidad oculta, llenos de una emoción que el lector no podía encontrar en las propias palabras, porque parecía vivir en el espacio entre ellas o en los repentinos finales de algunos párrafos determinados.»

Início de um texto de Colm Tóibín, publicado na edição desta semana do suplemento Babelia, do El País.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Progresso do Amor, de Alice Munro (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Os Pretos de Pousaflores, de Aida Gomes (D. Quixote), por Vítor Quelhas
A Vida que Podemos Salvar, de Peter Singer (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
América, América, de Jorge de Sena (Guimarães), por Pedro Mexia
O Humor e a Lógica dos Objectos de Duchamp, de José Gil e Ana Godinho (Relógio d’Água), por António Guerreiro
A Minha Viagem pela Europa, de Charles Chaplin (Matéria Prima), por Luís M. Faria
Os 100 Melhores Futebolistas de Todos os Tempos, de João Almeida Moreira (Oficina do Livro), por Pedro Candeias

Arte de folgar

Bailias
Autora: Catarina Nunes de Almeida
Editora: Deriva
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-9250-77-4
Ano de publicação: 2011

No seu terceiro livro de poemas, Catarina Nunes de Almeida apropria-se dos temas, ritmos e vocabulário das cantigas de amigo medievais. Os poemas são delicadamente atribuídos a donzelas cheias de graça e leveza, tão disponíveis para o amor como para o espectáculo grandioso da natureza. Este é um mundo de folguedos, uma espécie de primavera eterna, declinada em cânticos que ecoam nas «noites bem bebidas». Um mundo de cavalgadas e pomares, florestas e «pasto aceso», tranças e ramos, pão e uvas, lençóis e remos, «ancas ondeadas» e carne viva. As raparigas bailam «rente aos caules / pelos caminhos curvos do vento», ensaiando a «perfeição de um delito» que é sempre um excesso de felicidade, um alvoroço, a manifestação «de uma alegria que tem flores e frutos».
Catarina Nunes de Almeida deixa-se levar por estas criaturas diáfanas, aéreas, luminosas (embora não necessariamente inocentes), abre-lhes as dobras dos seus poemas, inventa-lhes um rasto e enquadra-as num universo verbal bem cerzido, feito de regras antigas que se estilhaçam com garbo, quase sempre através de subtis jogos de palavras («o grande aqueduto das éguas livres»; «adão e erva»; «árvore de rapina»). Aqui, a arte de folgar representa também a liberdade de fazer da linguagem o palco de todas as brincadeiras, de todos os desvios, de todas as reinvenções. É com «brandura épica» que acedemos às veredas que levam ao coração de cada texto. Como nos versos iniciais da secção intitulada “Barcarolas ou Manhãs Frias”:

Começávamos o dia por baixo
pelo tempo da pedra. A escarpa muscular
onde ia gastando os teus sapatos.
Manhãs compridas que chegavam ao mar.
Trazíamos as letras inclinadas trazíamos
na ponta da língua o nome dos naufrágios
e estávamos à mesa como um corpo de baile.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]

Um poeta abre as portas da sua oficina

«A partir de amanhã, no meu blogue, vou começar a percorrer todos os poemas que publiquei em livro. A ideia é pegar em versões anteriores e posteriores à publicação em livro, tentando estabelecer uma versão possível para o momento actual. A cada semana, um bloco de sete entradas para cada um dos poemas. Obrigado por me acompanharem nesta viagem.»

O anúncio do Luís Filipe Cristóvão é feito hoje. A viagem começa este sábado. Para acompanhar aqui.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges