Uma mosca entre vespas

Eu e Tu
Autor: Niccolò Ammaniti
Título original: Io e Te
Tradução: José J. C. Serra
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-972-25-2340-0
Ano de publicação: 2011

Aos 14 anos, Lorenzo é um rapaz com as dificuldades de integração social típicas dos adolescentes. Diz o psicólogo que ele sofre de «perturbação narcísica» e incapacidade «de sentir empatia pelos outros». Na escola, é uma «mosca» rodeada de «vespas». Solução: imita as vespas, finge ser como elas. À mãe, preocupada com o seu isolamento, dá a entender que um grupo de colegas o convidou para uma semana de férias na neve. A mentira ganha vida própria e Lorenzo decide levá-la às últimas consequências: simula a partida para Cortina, fecha-se na cave do prédio (com muitas latas de atum, PlayStation e romances de Stephen King), inventando depois relatórios sobre esqui e montanhas nas curtas chamadas de telemóvel para a progenitora. O idílio solipsista é interrompido pela chegada imprevista de Olivia, uma meia-irmã de 23 anos que Lorenzo mal conhece. Com ela vêm problemas a sério, questões de vida ou morte, dilemas que relativizam as angústias do adolescente, forçam-no a ultrapassar bloqueios, ajudam-no a crescer.
Escrito num estilo seco, directo e sem grandes requintes estilísticos, Eu e Tu é um romance de formação com estrutura simples mas muito eficaz. De leitura fácil (quase light, apesar das sombras que se abatem sobre a história), tem a lógica funcional dos best-sellers. Os picos dramáticos, os momentos de pausa, as revelações, os conflitos, as surpresas – está tudo onde se esperaria que estivesse. É tentador, aliás, imaginar estes capítulos transformados em cenas de um filme. Não por acaso, já foi anunciada para breve a adaptação cinematográfica do livro, marcando o regresso ao cinema de Bernardo Bertolucci, ausente dos estúdios desde 2003.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

I Love My Librarian Award

Nem só quem escreve, traduz ou edita livros merece um prémio.

Revista ‘Ler’, n.º 105

Quinta-feira, 1 de Setembro, nas bancas.

PEN Award de biografia para Stacy Schiff

O livro Cleópatra, de Stacy Schiff (recentemente editado em Portugal pela Civilização), acaba de vencer o PEN/Jacqueline Bograd Weld Award for Biography, atribuído pelo PEN clube norte-americano. Schiff já ganhara um Prémio Pulitzer, em 2000, com Vera (Mrs. Vladimir Nabokov), biografia da mulher e musa do autor de Lolita.
A lista completa dos prémios atribuídos pelo PEN dos EUA pode ser consultada aqui. Destaco o PEN/W. G. Sebald, para «um escritor de ficção a meio da carreira», ganho por Aleksandar Hemon, autor de O Projecto Lazarus (também editado em Portugal pela Civilização).

Grande Oferta de Livros do BdB – segunda edição

A 21 de Agosto do ano passado, umas boas centenas de livros voaram em poucos minutos, assim que os coloquei na pérgula do miradouro do Monte Agudo, em Lisboa, para serem levados gratuitamente pelos leitores deste blogue (e por quem foi sabendo da iniciativa, através das redes sociais e de um artigo de jornal). A experiência, muito gratificante, está documentada aqui.
Agora, conforme prometido, já estou a pensar na segunda edição da Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel. Acontecerá no fim de Setembro (sábado, dia 24, 11h00) ou no princípio de Outubro (sábado, dia 1, mesma hora). E desafio todos os eventuais interessados a trazerem consigo livros que queiram oferecer, para juntar às pilhas que se formarem no miradouro.
Em breve darei mais novidades. Entretanto, trocas de ideias e sugestões, na caixa de comentários deste post, serão muito bem-vindas.

Dia Vitorino Nemésio no CCB

Marquem nas agendas: 18 de Setembro, Sala Almada Negreiros, a partir das 15h00.

Estirpe de romancistas

No Babelia desta semana, o escritor mexicano Carlos Fuentes escreve «sobre a história e a evolução da narrativa latino-americana» e partilha o que considera ser o respectivo cânone de escritores e obras fundamentais do século XX e do século XXI.
Ainda no suplemento cultural do El País, vale a pena ler a recensão elogiosa de Santiago Gamboa ao mais recente romance de Michel Houellebecq (O Mapa e o Território, prestes a ser lançado por cá pela Objectiva) e a resposta de Alberto Manguel, que não compreende o entusiasmo de tantos «leitores inteligentes» com a «burocracia vitalícia» da obra do francês.

14 bibliotecas

Todas diferentes. Umas tradicionais. Outras modernas. Belíssimas. Aqui.

Os nomes das coisas

The Noun Project «collects, organizes and adds to the highly recognizable symbols that form the world’s visual language, so we may share them in a fun and meaningful way».

Vasculhar a internet na silly season

É o que a Sara Figueiredo Costa tem feito nas últimas semanas, desenterrando do YouTube algumas preciosidades, sempre relacionadas com o mundo dos livros.

O livreiro utópico

Na próxima semana, talvez
Autor: Alberto Nessi
Título original: La prossima settimana, forse
Tradução: Simonetta Neto
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 166
ISBN: 978-972-25-2271-7
Ano de publicação: 2011

Nascido num vale do cantão de Ticino (Suíça), em 1840, Giuseppe Fontana é o arquétipo da figura romanesca. Relojoeiro e operário humanista, desde sempre escandalizado com as injustiças sociais e defensor dos direitos dos trabalhadores, revolucionário nas ideias e nas acções, acabou por vir parar a Lisboa, onde durante o dia trabalhava na Livraria Bertrand do Chiado e à noite mergulhava na boémia ilustre do Cenáculo de Eça e Antero de Quental, o poeta magnético que o descreveu numa penada: «muito alto, muito magro, sempre vestido de preto». José, como lhe chamavam por cá, foi ainda um dos organizadores das Conferências do Casino (1871) e fundador do Partido Socialista Português (1875). A 2 de Setembro de 1876, suicidou-se com um tiro, pondo fim ao suplício da tuberculose.
Eis, em suma, uma daquelas histórias que exigem ser transformadas em literatura. E como nenhum escritor português se chegou à frente, Alberto Nessi, um suíço que mora a dois quilómetros da aldeia onde Fontana nasceu (Cabbio), tomou conta do recado em Na Próxima Semana, Talvez (Bertrand), um romance biográfico de forte pendor poético. Ao longo do relato, sobrepõem-se três planos narrativos: o principal acompanha os últimos cinco anos da vida de Fontana, das Conferências do Casino até ao momento em que decide roubar à doença a decisão de morrer; o segundo consiste nas memórias de infância e juventude, resgate do seu percurso de vida, arrancado às «sombras do passado»; e o último coloca o próprio objecto da história a dirigir-se ao narrador, a partir de um além que tudo abarca.
No fundo, Nessi sabe que nunca alcançamos a verdadeira complexidade de um homem, por muito que o observemos de vários ângulos. Ainda assim, fixa com delicadeza e respeito os belos sonhos e visões de quem tão romanticamente quis mudar o mundo – este mundo que um século e meio depois continua a precisar de ser mudado.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]

Reductio ad absurdum

A BIBLIOTECA

«Nada está tão bem protegido do ruído como uma biblioteca.
Somente os mudos, a não ser que tenham tuberculose ou alguma constipação, podem ali entrar. Mas em pantufas de feltro, sem anéis, pulseiras ou outros objectos susceptíveis de perturbar o silêncio.
A cada dois metros, nos corredores, seguranças armados fazem respeitar o regulamento. O essencial encontra-se em painéis de aço.
“Avance lentamente”, pode-se ler. “Evite respirar pelo nariz”. “Não bata nas paredes”. “Caminhe na ponta dos pés”.
As recomendações tornam-se mais precisas, mais ásperas ainda ao entrarmos na grande sala de leitura da biblioteca onde dois painéis gigantescos ditam ordens de peso.
A primeira: “É proibido folhear as páginas das obras”.
E a outra: “É proibido ler”.»
Jacques Sternberg, in Contes glacés

[via Bruaá]

Os livros de Maurice Sandoz (por Montag)

Com a habitual minúcia, Pedro Marques analisa as peculiaridades gráficas de três livros editados em Portugal nos anos 50: obras de um escritor suíço obscuro e hoje esquecido, ilustradas por um pintor espanhol nada obscuro e ainda hoje lembrado.

Quatro poemas de Sylvia Beirute

CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

***

DIA DOS NAMORADOS

o amor
passou-se no tempo em que não havia medo.
não havia paredes subidas.
as manhãs eram remotas como rosas.
os ontens uma mitologia condigna.
a pátria era tão labiríntica quanto uma lágrima.
tão imprevisível quanto o ofício de um deus.
o amor passou-se no tempo em que ainda não tinha nome,
em que os segundos eram uma espécie de sangue,
e a tarde podia ser uma só palavra
na órbita de uma outra palavra.
o amor passou-se neste poema para pessoas sós,
passou-se como mera reprodução de um tempo
em que não havia corpos, logo
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.

***

LEITURA EXPLÍCITA

{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.

***

POEMA SIMPLES

escreve um poema muito simples
com ideias vagas, artefactos visuais,
e o azulecer de um castigo pendente,
um poema indietrónico e
sem dissecação possível
onde colocas, por fim, um intensificador
como aquele que deus usou
no começo do mundo.
um dia perguntar-te-ão de que
trata o teu poema,
e para explicares isso ao mundo – um mundo,
digamos, impessoal porque com excesso de gente –
escreverás um outro de alguns versos
encadeados como gotas de água
ou lágrimas da mesma substância.
aí, dirás que escrever poemas é errar
e que interpretar é a mais bela forma de erro.

[in Uma Prática para Desconserto, 4 Águas, 2011]

Quando uma estante cheia de livros nos deixa perplexos

Muito bom, o texto de Alan Bennett sobre as bibliotecas da sua vida, publicado na London Review of Books. Começa assim:

«I have always been happy in libraries, though without ever being entirely at ease there. A scene that seems to crop up regularly in plays that I have written has a character, often a young man, standing in front of a bookcase feeling baffled. He – and occasionally she – is overwhelmed by the amount of stuff that has been written and the ground to be covered. ‘All these books. I’ll never catch up,’ wails the young Joe Orton in the film script of Prick Up Your Ears, and in The Old Country another young man reacts more dramatically, by hurling half the books to the floor. In Me, I’m Afraid of Virginia Woolf someone else gives vent to their frustration with literature by drawing breasts on a photograph of Virginia Woolf and kitting out E.M. Forster with a big cigar. Orton himself notoriously defaced library books before starting to write books himself. This resentment, which was, I suppose, somewhere mine, had to do with feeling shut out. A library, I used to feel, was like a cocktail party with everybody standing with their back to me; I could not find a way in.»

Mea culpa, mea maxima culpa

Quem é que me mandou entrar no estádio de Alvalade com um romance intitulado O Museu da Rendição Incondicional debaixo do braço? Estava-se mesmo a ver no que ia dar. Até as letras do título são verdes, caramba.

O que aí vem (Bertrand)

Ferrugem Americana, de Philipp Meyer; Rasto Negro de Sangue, de Joseph O’Neill; V., de Thomas Pynchon; Segunda-Feira Triste, de Nicci French; Uma Mão Cheia de Coisas, de Carlos Vidal; Hitler – Uma Vida em Imagens, de María J. Martínez; A Rainha das Duas Sicílias, de Nancy Goldstone; A Sombra do Teu Sorriso, de Mary Higgins Clark.

A biblioteca de Darwin

Para explorar, livro a livro, anotação a anotação, aqui. Uma mina.

[via Blogtailors]

Ipsis verbis

Não podia estar mais de acordo com o texto publicado por António Guerreiro, no suplemento Actual do Expresso:

«O “protocolo de colaboração” celebrado no final da semana passada entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora pode ser uma benéfica operação, mas revela publicamente uma verdade terrível: que uma editora não consegue hoje sobreviver pelos seus próprios meios se o núcleo central do seu catálogo é a literatura portuguesa – mesmo que seja uma parte razoável do cânone do século XX. Pensar que o famigerado mercado ameaça de extinção os livros de Fernando Pessoa, é pura e simplesmente obsceno. E chegou-se a este estado de catástrofe sem grandes resistências nem gritos de alarme, como se o que aconteceu e continua em curso não fosse um desastre obscuro. Pelo contrário, aqueles que foram traçando, desde há muito tempo, um quadro negro do estado da situação fizeram figura de criaturas agoirentas. E, no entanto, basta hoje entrar nas livrarias – e, com maioria de razão, se entrarmos com o objectivo de procurar um livro que escapa ao mainstream editorial e das “novidades” – para perceber que elas repousam hoje sobre um crime. Ou melhor: sobre uma cadeia de crimes perpetrados com a colaboração (nem sempre consciente dos seus efeitos nefastos) de muita gente e muitas instâncias. A partir de certa altura, o caminho único e coercivo revelou-se sem alternativas – há apenas um pequeníssimo espaço para alguns devaneios de gente freak e diletante, como aliás reconhecia, numa entrevista, há menos de um ano, Vasco Teixeira, responsável editorial da Porto Editora: “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, dir-lhe-ei que não. Quando muito, teremos algumas edições artesanais (…). E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares que os amantes de poesia comprarão.” Esperemos que o poderoso assinante do “protocolo de colaboração” não se aplique agora, que tem ainda mais poder para isso, na realização da sua própria profecia.»

A barreira do milhão

Ao fim de três anos de actividade, o portal PNETLiteratura acaba de ultrapassar a barreira do milhão de visitas. Parabéns ao dinamizador do projecto, Vítor Coelho da Silva, e a toda a equipa liderada por Luís Carmelo.

Maravilhas da paternidade


(clique para aumentar)

Com o seu desenho-aguarela nas mãos, o Pedro informa-me: «Isto és tu com 11 anos, pai. Tinhas óculos, sabias?» Podia não saber, mas sabia. Tinha óculos e, pelos vistos, nenhum cabelo. Fora isso, está perfeito.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

- As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão (Quetzal), por Pedro Mexia
- Como Viver em Tempo de Crise, de Edgar Morin e Patrick Viveret (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por José Mário Silva
- Evolução, de Edward J. Larson (Temas e Debates), por Luís M. Faria
- A Televisão e o Serviço Público, de Eduardo Cintra Torres (Fundação Francisco Manuel dos Santos), por António Loja Neves
- Poesia Completa, de Manoel de Barros (Caminho), por Hugo Pinto Santos
- Não Humano, de Osamu Dazai (Eucleia), por Ana Cristina Leonardo
- Vieram Como Andorinhas, de William Maxwell (Sextante), por José Guardado Moreira
- Eu e Tu, de Niccolò Ammaniti (Bertrand), por José Mário Silva

‘The Repurposed Library’

Novas vidas para velhos livros:

[via Hello, Friend, dica da minha amiga Jussara]

Saída de Emergência oferece 20 exemplares de ‘A Dança dos Dragões’

O romance mais aguardado do ano, no campo da literatura de fantasia, é A Dança dos Dragões, de George R. R. Martin. Aos muitos fãs da saga das Crónicas de Gelo e Fogo, a Saída de Emergência decidiu oferecer o novo livro na compra de outros dois títulos. A promoção está explicada aqui.

Açougue de palavras

«Açougue de palavras, pedaços de carne roubados e atirados às feras», escreve Carlos Alberto Machado, no seu excelente blogue/site, sobre esse movimento de «predação» que é sempre a leitura dos outros.

Histórias contadas

O Homem do Turbante Verde e outras histórias
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Caminho
N.º de páginas: 187
ISBN: 978-972-21-2408-9
Ano de publicação: 2011

Trinta anos depois da retumbante estreia literária (Contos da Sétima Esfera), e onze anos após o último volume de narrativas curtas (Contos Vagabundos), Mário de Carvalho regressa ao seu habitat natural com O Homem do Turbante Verde. E em grande forma. Não que os seus romances e novelas sejam obras menores, longe disso, mas há no seu perfil de ficcionista uma apetência pela forma breve, um talento para o relato de poucas páginas, que o coloca, sem margem para dúvidas, no restrito panteão dos melhores contistas da literatura portuguesa.
Atente-se, por exemplo, no ritmo perfeito e acabamento sem mácula de O Celacanto. Começa por nos mostrar o narrador ao telefone com uma ex-namorada, enquanto enrodilha o fio espiralado do telefone nos «dedos incautos». Só isto já nos situa no tempo, anterior à omnipresença dos telemóveis e dos aparelhos fixos sem fios. Descobrimos depois que Jacinta, a tal ex-namorada vagamente autoritária, é sócia de uma galeria de arte que aposta em «instalações» de jovens artistas. Ora Jacinta, «para honrar a exposição», decide mandar vir de Moçambique, meio às escondidas, um «planetariamente protegido» celacanto, raríssimo peixe-fóssil, pardo e feio, transportado de avião como se fosse um mero «xarroco tropical». Nessa altura, o fantástico irrompe na narrativa: afinal o bicho paira no ar, junto ao tecto, antes de fugir da galeria para a Rua da Escola Politécnica. O que se segue é Mário de Carvalho vintage: personagens à beira de um ataque de nervos, correrias, altercações, volte-faces e um desfecho irónico, a que não falta o «brilho de escamas» que o peixe voador vai deixando em ombreiras e parágrafos.
Se há histórias ansiosas por serem contadas (ideia sugerida pela epígrafe de Luísa Costa Gomes), o autor de O Conde Jano faz-lhes a vontade, aliando o esmero narrativo a uma certa volúpia no uso da nossa língua e seu vasto vocabulário. Em O Homem do Turbante Verde assistimos ao conceito de guerra preventiva levado ao extremo, algures no Iraque ou no Afeganistão, quando o exército americano rapta crianças para as usar como moeda de troca – neste caso, única forma de salvar arqueólogos transformados em escudos humanos. Na Terra dos Makalueles é um «capricho» literário divertidíssimo, com as influências todas à vista (confira-se o nome dos navios). Depois, uma sequência de três textos abordam um dos temas recorrentes do autor: a memória afectiva da luta anti-fascista, aqui feita de surpresas, desilusões e sobretudo de um certo desfazer da inocência, ou talvez da ingenuidade. Numa dessas histórias (A secção de campo), frustra-se a tentativa de mostrar Eisenstein a camponeses, porque estes preferem o sossego à incerteza do que carece de autorização oficial. E em Bildung acompanhamos um jovem no processo de descobrir que o amor por vezes não dura mais do que o desfraldar de uma bandeira.
À medida que avançamos no livro, o carácter faceto desta escrita (evidente na história rocambolesca do homem que tenta, tenta, mas não consegue sair do Porto) vai dando lugar a atmosferas mais densas e opressivas. Na secção final – muito negra, pessimista, kafkiana – mergulhamos no absurdo das relações sociais equívocas (O chochman), na violência absoluta a que se submete um ser humano atirado para uma via crucis involuntária (A longa marcha) e no fechamento literal a que conduz a paranóia (O reduto).
Voltemos um pouco atrás: «Renato ouvia vagamente, intrometendo-se no clamor, como um veio precioso na escória, a voz alteada e fina de um pequeno homem de pêra que levantava um dedo enristado, e se dirigia, furioso, ao comissário de polícia. Num instante, a multidão oscilou, dividiu-se, sombras correram, a vaia modelou-se em vozeios diferenciados, crepitaram ruídos corridos de passos, desaustinaram tropeios de botas.» Por muito que as histórias sejam bem arquitectadas e as personagens construídas com minúcia, o que torna este livro extraordinário é a prosa inigualável de Mário de Carvalho.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]

Sentido de oportunidade (ou golpe de sorte)

Precisamente na altura em que Steve Jobs assume a sua retirada definitiva da Apple, a Objectiva anuncia a publicação, em Novembro (em simultâneo com a edição original americana), de Steve Jobs: a Biography, escrita por Walter Isaacson, a partir de 40 entrevistas feitas ao ainda patrão da empresa de Cupertino (Califórnia), ao longo de dois anos. Isaacson é autor de biografias de Albert Einstein, Benjamin Franklin e Henry Kissinger.

Maria do Céu Guerra lê poemas de António Ferra

Excerto da leitura que a actriz fez no lançamento do livro Marias Pardas, de António Ferra (&Etc), no bar d’A Barraca, em Abril.

Sr. Teste

Venda e divulgação de livros, música, artes plásticas e ideias.

Steve Jobs já não é CEO da Apple

A notícia foi comunicada ao conselho de administração da empresa californiana e à «comunidade Apple»:

«I have always said if there ever came a day when I could no longer meet my duties and expectations as Apple’s CEO, I would be the first to let you know. Unfortunately, that day has come.»

Como previsto, o novo CEO será Tim Cook, o sucessor designado por Jobs.

O que aí vem (Objectiva)

O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe; O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq (Goncourt 2010); O crepúsculo de um ídolo, de Michel Onfray; A Purga, de Sofi Oksanen; As mais belas fábulas africanas, de Nelson Mandela; Fragmentos, de Marilyn Monroe; Caderneta de Cromos Contra-ataca, de Nuno Markl.

Google recorda Jorge Luis Borges

Hoje, dia do 112.º aniversário de um dos maiores escritores do século XX, a Google homenageia Jorge Luis Borges, dedicando-lhe o desenho especial do cabeçalho. A ideia é excelente mas a ilustração, tenho de o dizer, não me satisfaz. Pôr Borges a olhar para a complexidade do mundo a partir da sua biblioteca faz algum sentido (se ignorarmos o facto de naquela idade ele já ser cego), mas a arquitectura da cidade é pouco borgesiana. A sugestão de labirinto, ao centro, quase não se dá por ela. E nem sombra de espelhos, ou tigres, ou mapas, ou bestiários fantásticos. Já para não dizer que os dois “o” de Google poderiam perfeitamente ser representados pelas galerias hexagonais da Biblioteca de Babel.
Ainda assim, parabéns Google, pela lembrança.

Ligeiro atraso

Como é evidente, o post anterior devia ter sido publicado há três dias, coincidindo com o 50.º aniversário da morte de Roland, a Morsa, mas nem sempre conseguimos fazer as coisas quando elas merecem ser feitas.

Primeiros parágrafos

«No jardim zoológico de Berlim, ao lado da piscina que contém a morsa viva, há uma exposição invulgar. Num mostruário de vidro estão todas as coisas encontradas no estômago de Roland, a Morsa, que morreu a 21 de Agosto de 1961. Ou, mais precisamente:

um isqueiro cor-de-rosa, quatro paus de gelados (de madeira), um broche de metal em forma de poodle, um abre-garrafas, uma pulseira de senhora (de prata, provavelmente), um gancho de cabelo, um lápis de madeira, uma pistola de água de plástico de criança, uma faca de plástico, óculos de sol, uma pequena corrente, uma mola (pequena), um anel de borracha, um pára-quedas (brinquedo infantil), uma corrente de aço com cerca de 46 cm de comprimento, quatro pregos (grandes), um carro de plástico verde, um pente de metal, um distintivo de plástico, uma bonequinha, uma lata de cerveja (Pilsener, 2,84 decilitros), uma caixa de fósforos, um sapato de bebé, uma bússola, uma pequena chave de carro, quatro moedas, uma faca com cabo de madeira, uma chucha, um molho de chaves (5), um cadeado, um saquinho de plástico com agulhas e linha.

O visitante fica de pé, diante da exposição invulgar, mais encantado do que horrorizado, como se estivesse perante achados arqueológicos. O visitante sabe que a sua sorte como exposição-de-museu foi determinada pelo acaso (o caprichoso apetite de Roland) mas ainda assim não consegue resistir ao pensamento poético de que com o tempo os objectos adquiriram algumas ligações secretas, mais subtis. Arrebatado por este pensamento, o visitante tenta então estabelecer coordenadas semânticas, reconstruir o contexto histórico (ocorre-lhe, por exemplo, que Roland morreu uma semana após a construção do Muro de Berlim), e por aí adiante.
Os capítulos e fragmentos que se seguem devem ser lidos de forma semelhante. Se o leitor sentir que não existem ligações significativas ou firmes entre eles, seja paciente: as ligações estabelecer-se-ão por si próprias de acordo com a sua vontade. E mais uma coisa: a questão de saber se este romance é autobiográfico poderia, a certa altura hipotética, dizer respeito à polícia, mas não ao leitor.»

[in O Museu da Rendição Incondicional, de Dubravka Ugrešić, tradução de Sofia Castro Rodrigues, Cavalo de Ferro, 2011]

Quando a auto-publicação compensa

John Locke foi o primeiro a atingir a fasquia do milhão de livros vendidos para o Kindle em edição de autor. Ele era sempre apresentado como o exemplo maior do sucesso conseguido fora dos circuitos habituais de produção e distribuição livreira. Sem grande surpresa, o «sistema» contra-atacou: Locke acaba de assinar contrato com a Simon & Schuster, nem mais nem menos do que uma das maiores editoras tradicionais do mundo. Seria irónico, sim, se não fosse tão previsível.

Labirinto quinhentista

O Romance do Gramático
Autor: Ernesto Rodrigues
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 230
ISBN: 978-989-616-437-9
Ano de publicação: 2011

Na abertura deste romance, Ernesto Rodrigues recorre a um dos mais antigos estratagemas ficcionais: a descoberta de um manuscrito perdido que lança nova luz sobre uma determinada figura histórica. Neste caso, o foco recai sobre Fernando de Oliveira, autor da primeira Grammatica da Lingoagem Portuguesa (1536). Em jeito de preâmbulo, assistimos ao encontro entre um professor de português da Universidade de Budapeste e uma aluna húngara que prepara dissertação sobre João de Barros. Nas suas investigações, a jovem recupera um documento, dobrado em 16 partes, escrito por diferentes mãos, tanto na frente como no verso. Os dois textos, autónomos, causam no professor «admiração, inveja limpa, euforia», na medida em que revelam uma inesperada qualidade romanesca, antecipando «algumas propostas da ficção seiscentista e ulterior».
O primeiro «livro» consiste numa estranha narrativa, passada na ilha de Bled (actual Eslovénia), em Setembro de 1532, quando os turcos voltam a ameaçar a Europa. Enviado pelo papa, Fernando de Oliveira chega a um mosteiro de frades desconfiadíssimos, numa missão pouco clara até para ele próprio. Apresentando-se como censor de livros, tenciona vigiar aquela comunidade fechada e hostil, mas é ele que acaba vigiado.
A ilha surge como um espaço opressivo, longe do mundo, onde se infiltra, por entre as neblinas, uma espécie de irrealidade. Oliveira assiste a crimes horrendos, fugas, conspirações, diatribes teológicas e até a um bizarro «concurso europeu Cristo do Ano», com qualquer coisa de reality show. Há ainda uma biblioteca gótica vazia (gémea siamesa de uma igreja) e um labirinto vegetal onde Oliveira intui princípios de uma «gramática da natureza». Sendo um «homem de sentidos», ele tem muitas dúvidas quanto à sua capacidade de resistência ao pecado, acabando por cair em tentação. Ao envolver-se num festim carnal com uma Judite de contornos míticos, o «discurso em romance», barroco e picaresco, torna-se ainda mais difuso e inverosímil — pelo que não espanta o parecer final do frade que proíbe a obra, alegando que ela contém «muita coisa desonesta, e mal soante, alguma escandalosa e contrária à fé e bons costumes».
O segundo «livro», escrito no verso do primeiro, é supostamente obra deste último dominicano censor, inimigo que acompanhou como uma sombra todo o percurso de Fernando, uma vida agora narrada em fragmentos (sete passos e uma «queda»). Mais do que a trajectória de uma «figura indecisa» e fugidia, «mudando conforme o olhar» que sobre ela incide, importa aqui o cenário em que Oliveira se move: esse século «de ouro sombrio», atravessado por «sismos e pestes, pirataria, perdas do rei e da nação, império ao deus-dará», mais o Santo Ofício e seus julgamentos sumários.
Ernesto Rodrigues constrói O Romance do Gramático como um labirinto em que a autoria dos textos é incerta, bem como a verdade do que neles se conta. Mas o que lhe interessa, para lá das contingências ficcionais, é o retrato de um país à beira do declínio, triste sina que se prolongou até hoje. Isso e o elogio do amor (em jogo de espelhos que atravessa os séculos). Isso e o prazer da escrita, dando corpo ao «luxo de falarmos esta língua».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Poetas por Km2

Um festival de poesia que une, em 2011, Espanha e Brasil.

Na biblioteca, a chorar

O bom velho Quino.

[via Livreira Anarquista]

‘BookWars’

Como em muitas outras coisas, concordo com a Sara: eu também quero ver o documentário BookWars, de Jason Rosette, sobre os vendedores ambulantes de livros nas ruas de Nova Iorque.

História de um rebelde

Na edição desta semana da New Yorker, Daniel Mendelsohn, autor de Os Desaparecidos, escreve sobre a «breve carreira» de Rimbaud e assume que o facto de ter descoberto tardiamente o poeta (quase sempre avassalador para quem o começa a ler na adolescência) o impediu de ser arrebatado («swept away») pelos versos das Illuminations. O magnífico texto é acompanhado por uma não menos magnífica ilustração de André Carrilho:

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges