O que aí vem (Presença)

O Canto do Anjo, de Richard Harvell; A Resistência, de Gemma Malley; O Crime de Lord Arthur Savile e Outros Contos, de Oscar Wilde; Maya Fox – A Escolhida, de Silvia Brena e Iginio Straffi; Não Quero Crescer Mais!, de Sandra Pinto; A Minha Escola é Muito Louca!, de Yvonne Coppard; A Bolsa para Iniciados, de Fernando Braga de Matos.

Leitura de Mário Dionísio, na Casa da Achada

Logo à tarde, a partir das 18h30, na Casa da Achada, Pedro Rodrigues lerá mais um capítulo (“Conteúdo e Forma”) da primeira parte de A Paleta e o Mundo, de Mário Dionísio, com projecção das obras citadas. O resto do programa para hoje pode ser consultado aqui.

David Vann: “O que é interessante na ficção é o modo como distorcemos a realidade objectiva”

Em 2008, David Vann (n. 1966) parecia condenado a ser mais um dos muitos escritores que ficam pelo caminho. O primeiro livro de ficção, Legend of a Suicide (mosaico narrativo composto por uma novela e cinco contos interligados), estava há uma dúzia de anos nas mãos de agentes que nada faziam, por acharem que o tema tabu, anunciado no título, afugentaria os leitores. Deu-se então uma espécie de milagre. Uma crítica positiva no The New York Times abriu portas, começaram a chover prémios e elogios, traduções e reconhecimento global. Em França, ganhou em 2010 o Prémio Médicis para melhor livro estrangeiro (entre os finalistas contavam-se Thomas Pynchon, Per Petterson e Gonçalo M. Tavares).
A pressão do sucesso não o incomoda, porque nunca deixou de escrever. No outono sairá o seu quarto livro, uma investigação sobre um tiroteio numa escola, mas já está a trabalhar no oitavo. «Como fui ignorado durante muito tempo, deixei de me preocupar com o que as pessoas pensam de mim ou da minha escrita. Tenho consciência de que uma carreira literária está sempre em risco. Por isso, vou gozando enquanto posso.»

No centro do seu primeiro livro de ficção, Legend of a Suicide, de onde foi retirada a novela A Ilha de Sukkwan (editada em Portugal pela Ahab), está um facto violentíssimo: o suicídio do seu pai, com uma bala na cabeça. De que forma é que a literatura o ajudou lidar com o trauma?
Eu comecei a escrever esse livro quando tinha 19 anos e só o acabei aos 29. Era uma história inevitável. Mais tarde ou mais cedo, teria de a contar. O meu pai matou-se quando eu tinha 13 anos. Durante muito tempo, fui incapaz de lidar com a tragédia. Dizia às pessoas que ele morrera de cancro.

Estava em negação.
Negação total. Recusava-me a acreditar naquela morte. Cheguei a alimentar fantasias de que ele ainda estava vivo. Tinha vergonha do suicídio do meu pai. Aquilo transmitia-se de alguma maneira para mim. Fazia com que me sentisse sujo.

Sujo?
Sim. Era uma coisa física. Uma mistura de vergonha, culpa e raiva. Deixei de conseguir dormir — insónias terríveis que duraram quase 15 anos. Afastei-me dos amigos. Mantinha uma vida dupla. Durante o dia era aluno exemplar. Toda a gente pensava que eu estava a lidar bem com o problema. Mas à noite escapava de casa às escondidas, levava a espingarda com que o meu pai ia caçar ursos e punha-me aos tiros às lâmpadas dos postes de iluminação. Atravessei tempos muito negros. O que demorou mais a desaparecer foi a raiva contra o meu pai. Uns 25 anos. Fiquei muito zangado ao constatar que o meu amor todo não fora suficiente. O meu amor devia ter sido suficiente. Devia ter sido uma razão para ele ficar.

Sentiu-se traído?
Senti-me traído. Quanto à culpa, todas as pessoas na minha família a sentiram. Mas era uma culpa diferente para cada um. A minha culpa prendia-se com o pedido que o meu pai me fez para que passasse um ano com ele no Alasca. Eu nasci e cresci lá, mas depois os meus pais divorciaram-se e mudei-me para a Califórnia com a minha mãe. Então, ele pediu-me para voltar. Adolescente, não me imaginava longe de tudo durante tanto tempo. E disse que não. Duas semanas depois, ele matou-se. Pensei muitas vezes que se tivesse dito que sim o meu pai talvez ainda estivesse vivo. A Ilha de Sukkwan é justamente isso: o rapaz a dizer que sim ao pedido do pai, a passar um ano com ele em total isolamento. É uma espécie de segunda oportunidade, uma forma de me redimir daquela recusa. Mas não me apercebi disto durante o processo de escrita. Foi algo que surgiu de forma inconsciente.

Serviu de catarse?
Não. Essa veio por outra via. Entre os 13 e os 35 anos, acreditei que o suicídio estava à minha espera. Imaginava-me a repetir a vida do meu pai: casamento, filhos, infidelidade, divórcio, depressão e o resto. Foi preciso chegar a um ponto baixo na minha vida, aos 35 anos, para perceber que o meu rumo não seria aquele. Ali estava eu, depois de perder tudo, sem sequer dez dólares no bolso, sem perspectivas, a vida descarrilada, e nem por um momento pensei em matar-me. Compreendi então que não estava condenado, que aquele impulso autodestrutivo não era hereditário. Foi maravilhoso. Um dos piores momentos da minha vida tornou-se um dos melhores momentos da minha vida.

Quando é que sentiu o impulso para ser escritor?
Acho que esse impulso existiu sempre. Ainda antes de saber escrever, já inventava histórias sobre esquilos que a minha mãe punha por escrito. Depois, passei a narrar todos os anos as histórias familiares sobre caça e pesca. A minha aspiração era ser escritor de aventuras.

Como foi a sua aprendizagem literária?
Ao princípio, quando comecei mais a sério, por volta dos 19 anos, não sabia lá muito bem o que era isso de escrever um conto. Escapavam-me as subtilezas do subtexto. Fazia tudo de forma demasiado direta, com gente a chorar e sangue logo na primeira página. Eram coisas impossíveis de ler. Deitei quase tudo para o lixo. A Ilha de Sukkwan surgiu ao fim de muitos anos deste trabalho de escrever e deitar fora. Foi durante uma viagem entre a Califórnia e o Havai, num barco à vela, 17 dias no mar alto, a matraquear um portátil preso com velcro aos meus joelhos. O texto saiu quase de um fôlego e muito próximo da versão final. Costuma dizer-se que a escrita é sobretudo revisão, mas eu discordo.

Porquê?
O excesso de revisão cria monstros dignos de Frankenstein, com as cicatrizes todas à mostra. Vê-se logo como é que as peças foram montadas. Na minha concepção de literatura, as várias partes devem encaixar-se como num sonho. O texto deve transmitir a sensação de que o escritor se sentou e escreveu tudo de uma só vez.

Após dez anos a escrever Legend of a Suicide, esperou mais 12 para vê-lo impresso. O que aconteceu?
O que aconteceu foi que durante esse tempo o livro nunca chegou aos editores. Os agentes, mesmo os que acreditavam em mim e no valor da obra, achavam que não teria hipóteses nenhumas por causa do tema tabu. O suicídio não vende. E por isso nem sequer enviavam o manuscrito.

Chegou a pensar que o seu futuro como escritor estava comprometido?
Não apenas o meu futuro como escritor, também a minha atividade docente. Sem livros publicados, não podia continuar a dar aulas. A minha carreira ficou num beco sem saída. Nunca liguei muito ao dinheiro, mas nessa altura comecei a ligar, até porque corria o risco de passar o resto da vida abaixo do limiar da pobreza.

Como é que saiu do impasse?
Tornei-me capitão e montei um negócio. Dava aulas de escrita criativa a bordo de veleiros. O problema é que deixei de ter tempo para a escrita. Durante cinco anos e meio, não escrevi quase nada. E arrependi-me. Decidi então publicar um livro de não-ficção, sobre como eu e a minha mulher construímos um barco e depois o perdemos numa tempestade nas Caraíbas, durante a nossa lua-de-mel. Perdemos o barco e com ele as alianças, os presentes de casamento, os passaportes, tudo o que tínhamos. Houve ainda problemas com a seguradora. Fui operado a um joelho. Enfim, tempos muito difíceis. Quando esse livro de não-ficção viu a luz do dia, em 2005, eu já tinha 38 anos.

Mas ainda não foi dessa vez que desencalhou o livro que verdadeiramente queria publicar.
Não. Esperei mais quatro anos. E então tive um golpe de sorte. Quando percebi que ninguém estava disposto a lutar pelo livro, enviei-o para um concurso literário. Se os elementos do júri não tivessem gostado, o livro morria de vez. Mas gostaram. E eu ganhei o prémio (Grace Paley Prize), o que me abriu as portas de uma pequena editora universitária. A tiragem da primeira edição, em 2008, foi mínima: 800 exemplares. Podia, mais uma vez, passar completamente despercebido. Só que de repente apareceu uma recensão de página inteira, muito positiva, no The New York Times. Foi outra vez sorte. Se o livro tivesse ido parar às mãos de um crítico menos generoso, talvez não acontecesse nada do que se seguiu. E o que se seguiu foi uma bola de neve. Uma editora maior interessou-se (a Harper), começaram a surgir traduções, prémios, escolhas para as listas dos melhores do ano, etc. Neste momento estou publicado em 16 línguas, por 22 editoras diferentes. É incrível. E pensar que houve um momento em que julguei que nunca iria ser publicado.

Há quem o compare a Cormac McCarthy.
E eu fico muito feliz com a comparação, porque adoro o Cormac McCarthy. É o meu escritor preferido. Mas também sei que não sou o Cormac McCarthy e que nunca conseguirei escrever um livro tão bom como Meridiano de Sangue (edição portuguesa da Relógio d’Água). Está muito para lá do meu alcance.

A paisagem hostil do Alasca é um dos elementos mais importantes da sua narrativa.
Sem dúvida. É uma paisagem literal que se expande até se tornar figurativa. A floresta, enquanto o pai a atravessa, consumido pela culpa, é uma espécie de página em branco que o inconsciente depois preenche. Acabo por descrever a vida interior das personagens de forma indireta, através das paisagens em que elas deambulam. E aquele Alasca que dou a ver é o da minha infância, corresponde às minhas memórias mais antigas.

Mas curiosamente escreveu o livro muito longe dali, no meio do oceano Pacífico.
Exacto. Se estivesse no Alasca, a olhar para a floresta, teria sido impossível. Não devemos escrever com o objecto da escrita em frente dos olhos. Eu dependo da falibilidade da memória. É importante que ela não seja precisa, que ela altere as coisas. O que é interessante na ficção é o modo como distorcemos a realidade objectiva. É quando nos afastamos dessa realidade objectiva que conseguimos chegar à verdade. E esse é um poder espantoso. Tenho a certeza de que a interação entre o rapaz e o pai em A Ilha de Sukkwan está mais próxima da relação que eu tinha com o meu pai do que quaisquer momentos que efectivamente vivemos.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Questionário Schmidt

O poeta argentino Alejandro Schmidt criou uma lista de 24 perguntas que envia a outros poetas. As respostas podem ser lidas neste blogue.

Dez livros sobre futebol (britânico)

Uma escolha de Anthony Clavane, no The Guardian. Destes todos, começaria sempre por The Unfortunates, o experimentalista «book-in-a-box», de B.S. Johnson.

Maravilhas da paternidade

No Jardim Zoológico, enquanto assiste ao espectáculo dos golfinhos, o Pedro olha com bastante desconfiança para as habilidades dos cetáceos. Às tantas, desabafa: «Hmmmmmm, nunca vi golfinhos a fazerem isto. Acho que estes devem ser treinados.»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Romance do Gramático, de Ernesto Rodrigues (Gradiva), por José Mário Silva
O Amante Extremamente Minucioso, de Alberto Manguel (Teorema), por José Guardado Moreira
A Intermitência, de Andrea Camilleri (Bertrand), por José Guardado Moreira
Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal), por Hugo Pinto Santos
As Raízes Diferentes, de Fernando Guimarães (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Reality Show ou A Alegoria das Cavernas, de Alberto Pimenta (Mia Soave), por António Guerreiro
O Ponto Azul-Claro, de Carl Sagan (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
A Maratona de Nova Iorque, de António Goucha Soares (Temas e Debates), por Anabela Natário

Parceria Assírio & Alvim/Grupo Porto Editora

O Grupo Porto Editora emitiu hoje o seguinte comunicado:

«O Grupo Porto Editora e a Assírio & Alvim anunciam a celebração de um acordo de parceria estratégica para as áreas de edição e de distribuição.
Os objetivos deste acordo são o de dar maior sustentabilidade ao excelente trabalho editorial que distingue a Assírio & Alvim, bem como o de contribuir para que as respetivas obras cheguem a um maior número de leitores.
Para a persecução desses propósitos, a Assírio & Alvim beneficiará das sinergias criadas no contexto do Grupo Porto Editora, sendo fundamental sublinhar que a continuidade editorial está expressamente assegurada, preservando-se assim as características fundamentais de uma editora de prestígio reconhecido.
De referir que este acordo contempla todo o catálogo da Assírio & Alvim, incluindo o designado fundo editorial.»

Raúl Ruiz (1941-2011)

O cineasta chileno Raúl Ruiz morreu hoje aos 70 anos, em Paris, na sequência de uma infecção pulmonar. Em 2010, realizou Mistérios de Lisboa, um filme inspirado na obra homónima de Camilo Castelo Branco, com recepção ditirâmbica da crítica em todo o mundo.

Paulo Ferreira assume direcção-geral da Booktailors

Ao fim de cinco anos de partilha, com Nuno Seabra Lopes, do projecto de consultoria editorial líder do mercado, Paulo Ferreira permanecerá na liderança da empresa, enquanto Seabra Lopes, que cede a totalidade da sua posição, prosseguirá outros caminhos profissionais. Diogo Coelho e Nuno Quintas, colaboradores da Booktailors desde 2009, passam a fazer parte da estrutura societária da empresa, ao mesmo tempo que Paulo Ferreira reforça a sua quota, tornando-se sócio maioritário.

O que aí vem (Livros d’Hoje)

Uma História do Mundo Depois do 11 de Setembro, de Dominic Streatfeild; O Mestre da Vida, de Augusto Cury; Dragões de Éter, de Raphael Draccon.

Logo hoje que me apetecia dar um pulinho à melhor livraria de Lisboa,

descubro que está fechada para férias, até 19 de Setembro.

Com a Planeta Tangerina é outra loiça

Conferir os protótipos de uma das novas linhas da Vista Alegre, aqui.

Quatro poemas de Fernando Guimarães

PÁGINA

Principiamos a ler. O rosto inclina-se. Ainda separadas,
algumas das letras estremeceram. Tudo aquilo que se sente
é a respiração que fica à sua volta. O ar destina-se às palavras
e também ao silêncio. A luz que chega pode explicar-nos
melhor o que se passa. Os olhos sabem-no. Daí a pressa
com que se aproximaram dela, até se tornar o que se leu
mais nosso. Depois repousamos um pouco. Uma das mãos
estende-se e vai ao encontro de outra página. Esta será maior.

***

COROAÇÃO DA VIRGEM DE STEFANIO DA VENEZIA

Quem são aqueles que ficam ali reunidos e se submetem
a esta ordem que é a da pintura? Estão sentados. Há filas onde avultam
os rostos cercados pela luz. Podemos dizer que é um trono este lugar
onde descai uma das mãos para o que nos era oferecido? Tudo
o que se espera há-de ficar abrigado por um manto. Encontraremos
finalmente aquilo que se pode ainda receber. Dois rostos
inclinam-se e tornam-se maiores. À sua frente estava suspensa
uma coroa. O seu brilho aproxima-se para não ser diferente
do que se vê todos os dias ao amanhecer. Ela vinha ocupar o centro
deste espaço que se fecha agora em si mesmo. Num dos lados
dispunham-se algumas palavras que podiam ser lidas. No outro, alguém
continuava ajoelhado. A imobilidade permite encontrar outros caminhos.

***

F. GREGOROVIUS

Sozinho no seu gabinete, procurava a verdade acerca de uma mulher
chamada Lucrezia. Pertencia à família dos Bórgias. Este nome
foi conhecido por estar associado ao veneno. E também
ao amor. Um e outro podem percorrer o nosso sangue e depois ficar
no coração. Aí nasceria uma flor. As pétalas eram brancas
ou negras. Gregorovius colheu-as e preocupou-se apenas em ver
a sua transparência. Assim é que se principia a contemplar um rosto
amado. Nunca mais o esqueceu. Ao que já tinha escrito acrescentou
estas palavras: «É uma mulher amável e doce, frívola
e infeliz.» Deteve-se. Reflectiu durante alguns instantes. Mas continua
a escrever sem descanso, como se um fio de sangue corresse nas suas mãos.

***

ACERCA DE UMA ARANHA

O que se pode dizer? Falemos da sua leveza, dessa espécie de gesto
que a sustenta no ar. Permanece sozinha, para que se encontre
a si mesma. À sua frente estão múltiplos caminhos, mas escolhe
apenas um. Ela procura o centro de qualquer coisa. Aí fica
à espera, atenta como nós quando lemos um livro. Talvez esteja perto
daquilo que há muito se ignorava, de um segredo que a teia
lhe pode revelar quando estremece. Solta-se dela um fio
maior para que a luz venha ao seu encontro. Oscila um pouco
e afasta-se lentamente. É outra a página que se lê agora.

[in As Raízes Diferentes, Relógio d’Água, 2011]

A toalha ideal para ficar deitado na areia, à conversa

É esta, claro.

Meridiano de culpa

A Ilha de Sukkwan
Autor: David Vann
Título original: Sukkwan Island
Tradução: José Lima
Editora: Ahab
N.º de páginas: 182
ISBN: 978-989-97228-2-8
Ano de publicação: 2011

Jim, um dentista de Fairbanks, decide largar tudo para viver na natureza, longe dos «excessos da humanidade». Numa ilha remota do Alasca, a que só se chega de barco ou hidrovião, compra um terreno e respectiva cabana (a precisar de obras) e convida o filho para um ano inteiro de isolamento e reconciliação. Roy tem 13 anos. Está habituado ao sol e aos confortos da Califórnia, para onde se mudou em criança com a mãe e a irmã. A perspectiva de ficar com o pai numa ilha inóspita, meses a fio, não o entusiasma mas também não o angustia. Só que Jim começa, aos poucos, a dar mostras de perturbação. Em vez de se descontrair e trabalhar o relacionamento com Roy, vai-se fechando cada vez mais numa «carapaça» de desespero sem fissuras. Ele queria ser «um novo homem surgido das cinzas» (as cinzas dos dois casamentos que arruinou, dos falhanços profissionais, das dívidas ao fisco) mas não consegue. Por isso, chora à noite. E deixa o filho preocupado com a sua fraqueza psicológica, a falta de jeito para as questões práticas da sobrevivência, a obsessiva acumulação de mantimentos para o inverno.
Entre os dois há uma corda emocional, esticada até ao limite. Quando esta rebenta, é para o lado que menos se esperaria e o livro mergulha a pique num território de trevas (como num pesadelo). Quem sobrevive, não sobrevive: afunda-se na culpa, na dor, numa solidão irredimível. David Vann, ao acompanhar em apneia a trajectória dessa «queda», revela a têmpera dos grandes escritores.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

The Victorianator

Ora aqui está uma aplicação para iPhone que tenho de experimentar: o Victorianator, jogo de leitura poética com gestos (capaz de transformar qualquer Villaret de trazer por casa num Laurence Olivier).

Adoçante ortográfico

«Ensinar as principais alterações do novo acordo ortográfico enquanto se toma um café é o objetivo dos pacotes de açúcar postos no mercado por uma marca de cafés, ao abrigo de um protocolo com o Ministério da Educação.»

Objectivo sem “c”, claro. Mas o Acordo, para mim, continua amargo.

[via Blogtailors]

Primeiros parágrafos

«Tudo isto aconteceu, mais ou menos. As partes da guerra são, em grande medida, verdadeiras. Um tipo que conheci foi mesmo morto em Dresden por ter levado um bule que não era seu. Outro tipo que conheci ameaçou de facto contratar pistoleiros para matar os seus inimigos pessoais depois de terminada a guerra. E por aí fora. Mudei todos os nomes.
Regressei mesmo a Dresden com dinheiro da Guggenheim (Deus a tenha na sua graça) em 1967. Parecia-se muito com Dayton, no Ohio, mas com mais espaços abertos. Deve haver carradas de farinha de ossos humanos no solo.
Voltei lá com Bernard V. O’Hare, um velho companheiro de guerra, e travámos amizade com um taxista que nos levou ao matadouro onde nos fechavam à noite enquanto prisioneiros de guerra. Chamava-se Gerhard Müller. Contou-nos que fora prisioneiro dos americanos algum tempo. Perguntámos-lhe como era viver num regime comunista, e ele disse que, no início, fora horrível, porque tinha de se trabalhar imenso e havia poucos abrigos, comida e roupa. Mas agora as coisas estavam muito melhores. Tinha um pequeno apartamento muito simpático, e a instrução da filha era excelente. A mãe dele foi incinerada na tempestade de fogo em Dresden. E é assim.»

[in Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut, trad. de Rosa Amorim, Bertrand, 2011]

Férias à força

Eis o que nunca me tinha acontecido: um dia e meio com o blogue offline, devido a problemas com um servidor (crash que o diligente Paulo Querido entretanto resolveu). Parece castigo. Durante a minha semaninha de repouso, fui actualizando o BdB como quem não quer a coisa (ou melhor, como quem quer muito a coisa). E agora os deuses da Internet forçaram-me a uma paragem brusca.
Enfim, o pior já passou. Enquanto suspiro de alívio e me livro da síndrome de abstinência, peço desculpa a todos os leitores que vieram cá ontem e hoje de manhã, apenas para bater com o nariz na porta.

The Nietzsche Family Circus


After the old god has been assassinated, I am ready to rule the world.


Egoism is the very essence of a noble soul.


Two great European narcotics, alcohol and Christianity.


The advantage of a bad memory is that one can enjoy the same good things for the first time several times.


It is my ambition to say in ten sentences what others say in a whole book.


And if you gaze for long into an abyss, the abyss gazes also into you.

Muito bom.

[Uma sugestão de Luís Filipe Silva, via Facebook]

O que aí vem (Eucleia)

Em Setembro: Não Humano, de Osamu Dazai (romance); Livro Ruído, de Davi Araújo (poesia). Em Outubro: Necrópole, de Santiago Gamboa (romance); A Arte de Chorar em Coro, de Erling Jepsen (romance); Quanto mais depressa ando, mais pequena fico, de Kjersti Annesdatter Skomvsvold (romance).

X5YOLV

O voo para Frankfurt já está reservado. Este ano, a grande Feira não me escapa.

A sintaxe do caos

As Teorias Selvagens
Autora: Pola Oloixarac
Título original: Las Teorías Salvajes
Tradução: Margarida Amado Costa
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 263
ISBN: 978-972-564-957-2
Ano de publicação: 2011

Num dos capítulos finais de As Teorias Selvagens, primeiro romance da argentina Pola Oloixarac (n. 1977), deparamos com um «fenómeno total»: um ataque organizado, com o apoio informático de verdadeiros hackers, ao site do Google Earth. Aproveitando a vulnerabilidade dos protocolos estruturais da Internet, os piratas conseguem trocar as fotografias normais do perímetro urbano de Buenos Aires por imagens modificadas. Da manipulação resultam não apenas avenidas repletas de sangue e edifícios reduzidos a ruínas (todo um cenário de hecatombe), mas também uma vista aérea da própria história da cidade, através de uma «justaposição de tempos». O que está em causa nesta espécie de terrorismo artístico é a inscrição de «factos, pormenores, arquitetura, catástrofe e caos». Dito de outro modo, o que se leva aqui ao extremo é a própria noção de simulacro: o mapa já não é uma réplica do espaço físico mas sim uma materialização do tempo como «cenário sucessivo».
Até chegar a esta apoteose conceptual, o livro de Oloixarac vai sistematicamente sabotando as expectativas narrativas do leitor, à boa maneira pós-moderna de quem sabe que todos os enredos já foram contados de todas as maneiras possíveis. Aquilo a que temos direito é a uma «acumulação de relatos, carentes de ordem e hierarquia, e não propriamente uma história». Mas se a autora deixa para trás a artificialidade do realismo (e a sua tentativa vã de contar a verdade concreta do mundo), também não cede, sem mais nem menos, ao canto de sereia dos exercícios meta-literários. As Teorias Selvagens começa por ser uma sátira devastadora do mundo académico e das imposturas intelectuais que por lá campeiam, mas nunca deixa de reflectir a sociedade argentina contemporânea, dos traumas da sua história recente (os «anos de chumbo») às dinâmicas de comportamento das novas gerações.
A principal linha narrativa que atravessa o livro acompanha a aproximação obsessiva de uma aluna de Filosofia a um professor decadente: Augusto García Roxler. Este criou uma difusa e críptica Teoria das Transmissões Yoicas, a partir do trabalho feito no início do século XX por um antropólogo holandês, Johan Van Vliet, admirador de Rousseau e estudioso de comunidades humanas alheias «ao processo de adaptação coreográfica chamado cultura». Quando desapareceu na selva, Van Vliet deixou discípulos fracos, cujas exposições académicas lhes saíam «das gargantas como balidos de errantes cabras montesas», inintelígiveis e por isso condenadas a não deixar «descendência teorética». Décadas mais tarde, é Roxler que encontra o seu próprio caminho ao compreender as implicações profundas do legado de Van Vliet: «Tinha nas mãos o tecido fetal da intuição, e agora devia esmagá-lo contra a garganta do seu sistema de crenças». A teoria, porém, volta a encalhar, até que a estudante se entusiasma com as suas possibilidades e se decide a corrigir os respectivos erros, falhas e incongruências, fechando-se em casa – com a sua biblioteca omnívora, um peixe vermelho e uma gata chamada Montaigne – a teclar furiosamente noite dentro.
Em si mesma, a teoria das transmissões yoicas é imperfeita, para não dizer ridícula, mas a aluna/narradora encontra ali o modelo para uma «antropologia da voluptuosidade e da guerra», que presume a maldade natural dos homens e aponta, como chave da evolução da espécie, o momento em que um primata antiquíssimo passou de presa a predador das bestas. Quase como ilustração prática destas ideias, acompanhamos em paralelo uma segunda linha narrativa, centrada num par de namorados muito feios (Kamtchowsky e Pablo/Pabst) que vivem a vertigem do século XXI como uma espécie de reverso da década em que nasceram: «Nos anos 70, (…) não havia como ser piroso. Podias bradar aos quatro ventos que o teu objetivo na vida era ser poeta maldito, que ninguém se ria na tua cara. Agora é diferente.» Uma diferença que passa pela despolitização dos jovens, indiferentes à mitologia heróica dos intelectuais de esquerda que se aburguesaram, e pela recusa dos discursos hegemónicos (a «alegada revolução sexual», por exemplo, é vista como uma falácia, uma vez que o sexo é apenas «um sistema estável de formas egoístas que giram em redor do sol da vaidade»). Na era do cinismo, chega-se ao ponto de enaltecer a McDonald’s como o único lugar verdadeiramente democrático, onde «toda a gente ia para a fila, e o que obtinham não era mais do que aquilo a que podiam aspirar».
Para o seu livro-vórtice, Oloixarac tanto convoca a cultura popular (canções foleiras, programas televisivos, jogos de computador, filmes de James Bond, blogues, YouTube) como o pensamento de filósofos clássicos (de Hobbes a Leibniz, de Sun Tzu a Wittgenstein). As suas personagens não dialogam: debitam opiniões elaboradíssimas, de uma erudição exagerada e provavelmente wikipédica. Para elas, tudo pode ser relacionado com tudo. São teóricos selvagens, procurando ligações (uma sintaxe, uma ordem) no caos da informação quase infinita que hoje temos ao dispor.
Embora denso e por vezes cansativo (sobretudo quando abusa do jargão académico e acumula referências especificamente argentinas que o leitor europeu não capta), este é um romance brilhante, uma comédia intelectual corrosiva e um exemplo de inteligência literária, com a dose certa de sentido crítico.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Planeta Livro

Breves pensamentos sobre a linguagem, por Mário Rufino. A acompanhar de perto.

Back to business

As usual.

Foi bom mas acabou-se

Como tudo.

Nietzsche nos Anjos

O primeiro a falar foi o Adelino, Lino para os amigos. E foi o que falou menos. Escondeu o jogo. Os outros contaram em detalhe os seus problemas. O Hélder falou das temporadas no inferno por causa da droga, histórias terríveis mas que ficaram para trás («há mais de um ano que deixei a metadona, não vou arriscar outra recaída»). O Daniel explicou como é que perdeu a vista direita (uma facada) e se lhe pedisse muito mostrava-me a cicatriz que assinala o lugar por onde um dia lhe entrou uma bala. O João Miguel contou como «as drogas e a night» lhe estragaram o futuro de ponta-de-lança com jeito para marcar golos de cabeça; mais a longa peregrinação por centros de apoio e comunidades terapêuticas, em Portugal e no estrangeiro. O José Manuel lembrou um piano-bar em Nampula, durante a guerra colonial, e a experiência de emigrante em Inglaterra, numa fábrica de bacon na Cornualha, seguido de um regresso súbito a Lisboa para tratar da mãe, que depois morreu e o deixou à deriva. Apenas o Lino se fechou em copas. Houve descaminhos e «percalços» que o levaram para trás das grades, muitas vezes. Só isso. Os livros ajudavam-no a sair dali, mentalmente. Leu Hemingway, Umberto Eco, mas também os calhamaços de José Rodrigues dos Santos. «Até se comem bem», resumiu – sorriso irónico à frente das palavras, como um biombo. Estávamos os seis, eu e aqueles cinco homens a quem a vida trocou as voltas, na cave do Centro de Apoio Social dos Anjos, em Lisboa, também conhecido como «a sopa dos pobres». Começávamos assim mais uma “Leitura Furiosa”, iniciativa que leva escritores ao encontro de leitores zangados com a leitura ou com o mundo, leitores ou ex-leitores que não têm dinheiro para os livros e que partilham as suas histórias, as suas raivas, e depois as vêem transformadas num texto que é lido numa sessão pública, com actores e músicos.
Foi só no dia seguinte, ao almoço, já o texto escrito, aprovado pelo grupo e ilustrado por um escultor, que Lino se expôs um pouco mais. Cenário: um restaurante na Mouraria. Sopa de entulho, pataniscas, língua de vaca, vinho carrascão. O João Miguel explicava que em alguns dos centros por onde passou havia uma componente religiosa, católica, muito forte. «Eu cá não me sujeitava a nada disso», replicou o Lino, «a mim não me fazem lavagens ao cérebro nem me chateiam com beatices». E de repente, virando-se para mim: «Já leu Nietzsche? Eu agora queria mesmo é ler Nietzsche.» Estive tentado a dizer que o Nietzsche não se come tão bem como o Rodrigues dos Santos, mas calei-me. O Lino tímido da véspera dera lugar a um Lino afirmativo. «E o Joyce? Conseguiu ler o Ulisses? Olhe que eu não. Esforcei-me, aguentei umas 50 páginas, mas depois larguei. Não tinha pedalada para aquilo. Acho que ele não precisava de ser assim tão complicado, tão obscuro. Do que eu gostei mesmo foi do outro Ulisses, do verdadeiro, o da Odisseia, o do Homero. Li tudo de uma ponta à outra. Que maravilha.»
Apeteceu-me reescrever o texto, começar de novo. Mas suspeito que o Lino não gostaria da aura de intelectual. A sua luta é outra. Sobreviver, seguir em frente, manter-se de pé. À tarde, fomos à Feira do Livro. Havia sol, calor, milhares de pessoas a deambular entre os pavilhões e as praças coloridas. No túnel da Babel, o Lino parou em frente dos livros de capa verde da Guimarães. Lá estava Nietzsche: Assim Falava Zaratustra; Para Além do Bem e do Mal; A Gaia Ciência. Cada volume a três euros. Senti o impulso da generosidade mas contive-me (nada de paternalismos). Lino sabe que pode requisitar Nietzsche nas bibliotecas públicas. Expliquei-lhe quais as mais próximas dos Anjos (onde, além de fazer fila para as refeições gratuitas, também dorme). No dia seguinte, reencontrámo-nos os seis na Casa da Achada. Ouvimos as palavras deles e as minhas, ditas em voz alta. Não os voltei a ver. Mas agora, sempre que passo em frente da igreja dos Anjos, recordo este aforismo escrito em alemão há mais de um século: «E se tu olhares muito tempo para dentro de um abismo, o abismo também olhará para dentro de ti.»

[Texto publicado no n.º 103 da revista Ler]

‘Duas Vozes’

No site do The New York Times está disponível um vídeo com o novo poeta laureado dos EUA, Philip Levine, a ler um dos seus poemas (Two Voices).

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Ilha de Sukkwan, de David Vann (Ahab), por José Mário Silva
Cosmic Communist Constructions Photographed, de Frédéric Chaubin (Taschen), por Valdemar Cruz
As Teorias Selvagens, de Pola Oloixarac (Quetzal), por José Mário Silva
Os Novos Espectros, de José Sasportes (Dom Quixote), por Pedro Mexia
Como é Possível ser Português?, de Michel J. B. Cartier (Matéria Prima), por Filipe Santos Costa
Os Cachorros. Os Chefes, de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote), por José Guardado Moreira
Sob a Rede, de Iris Murdoch (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Deus e Caravaggio, de Carlos Vidal (Vendaval), por António Guerreiro
Quarto Azul e outros poemas, de Rui Caeiro (Letra Livre), por Hugo Pinto Santos
O Teatro de Revista e a I República, de Pedro Caldeira Rodrigues (INCM/Fundação Mário Soares), por Luís M. Faria

Festival do Livro de Edimburgo

Começa amanhã.

O que aí vem (ASA)

O Quarto Reich, de Francesc Miralles; Lições de Desejo, de Madeline Hunter; Em Carne Viva, de Nadia Ghulam e Angès Rotger; Café Negro, de Agatha Christie (adaptado para romance por Charles Osborne).

Helder Macedo finalista do prémio Zaffari & Bourbon

Publicado em Portugal pela Presença, Helder Macedo é o único autor português entre os dez finalistas do prémio Zaffari & Bourbon, cujo vencedor será revelado no próximo dia 22, na abertura da 14ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo:

Azul-corvo, de Adriana Lisboa (Rocco)
Um Erro Emocional, de Cristovão Tezza (Record)
Natália, de Helder Macedo (Azougue Editorial)
Cidade Livre, de João Almino (Record)
Rei do Cheiro, de João Silvério Trevisan (Record)
Estive em Lisboa e Lembrei de Você, de Luiz Ruffato (Companhia das Letras)
Diário da Queda, de Michel Laub (Companhia das Letras)
O Planalto e a Estepe, de Pepetela (Leya)
Outra Vida, de Rodrigo Lacerda (Alfaguara)
Passageiro do Fim do Dia, de Rubens Figueiredo (Companhia das Letras)

Além de Natália, estão editados em Portugal o romance de Luiz Ruffato (na Quetzal) e o do angolano Pepetela (na Dom Quixote).

Maravilhas da paternidade

Um portal de alfarrabistas (ou sebos, porque é brasileiro)

Chama-se Livronauta. Também tem um blogue associado.

Philip Levine é o escolhido para Poeta Laureado dos EUA em 2011/2012

Conhecido pelos seus longos poemas à la Walt Whitman sobre a classe operária de Detroit, Philip Levine vai herdar um título, o de poeta oficial da nação (ou consultor poético da Biblioteca do Congresso americano), que já pertenceu a figuras como Robert Lowell, Elizabeth Bishop, William Carlos William, Robert Frost, Stephen Spender, Joseph Brodsky, Billy Collins ou Charles Simic.

Kindle Cloud Reader

Ena, ena, cheira-me que esta web app vai ser muito útil.

Inventário de assombros

Contos Carnívoros
Autor: Bernard Quiriny
Título original: Contes Carnivores
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: Ahab
N.º de páginas: 233
ISBN: 978-989-97228-0-4
Ano de publicação: 2011

Por vezes, há livros que provocam uma inveja saudável: «Caramba, como eu gostava de ter escrito isto.» Ou uma certa raiva: «Mas porque não me ocorreu a mim, em devido tempo, tão espantosa ideia?» Contos Carnívoros, de Bernard Quiriny, é um desses livros. Depois dos cumes a que Jorge Luis Borges a elevou, poderia pensar-se que a literatura fantástica estava condenada ao declínio, à repetição, ao pastiche, ao esgotamento. Este jovem autor belga (n. 1978) prova precisamente o contrário. E não é, evidentemente, caso único. As extraordinárias narrativas deste seu segundo livro representam mesmo, para quem a elas se saiba entregar, um atestado de vitalidade criativa de um género que já nos ofereceu no passado – de Edgar Allan Poe a Julio Cortázar ou Italo Calvino – um sem-número de obras-primas.
Para além do recorte clássico da escrita (muito trabalhada, elegante, buriladíssima), o que mais impressiona nas 14 histórias de Quiriny é o rigor da sua construção e o esmero do acabamento literário. Cada conto revela uma unidade perfeita, em que um certo conjunto de ideias ou pressupostos são testados e explorados até aos limites da sua potencialidade narrativa, até ao cerne da sua lógica interna. O modelo recorrente consiste no embate (umas vezes divertido, outras inquietante) de personagens vulgares com situações inauditas, quase sempre anomalias da percepção ou fenómenos sobrenaturais. Como as histórias são narradas na primeira pessoa, o leitor partilha o espanto, os medos, as angústias e as epifanias dos protagonistas, vive o desconcerto por dentro, sofre na pele os mecanismos do absurdo, e acaba por aceitar a precária verosimilhança do que lhe vai sendo descrito.
Logo no primeiro conto, Sanguínea, deparamos com uma mulher que tem o corpo literalmente coberto por casca de laranja, uma mulher-citrino que se deixa beber pelo seu amante. Dito assim, parece um disparate grotesco. Lido no papel, é uma fantasmagoria erótica lancinante, que fica a pairar na memória como uma assombração. Outro exemplo: o bizarro ovo humano que um artista pinta em A ave rara. Ou o bispo cuja alma se divide entre dois corpos (O episcopado da Argentina), invertendo a situação da mais conhecida personagem de Stevenson – Dr. Jekyll/Mr. Hyde – que tinha num só corpo duas almas. Há depois quem beba o que não é suposto beber (Uma embriaguez perpétua), quem oiça o que não é suposto ouvir (Qui habet aures…), quem veja o que não é suposto ver (Miscelâneas amorosas). E há quem encomende a própria morte por razões artísticas ou por enfado (Recordações de um assassino a soldo).
Os leitores que se aventurarem nestas páginas ficarão também a saber o que são «homonimografias», em que consiste o «gaudiofone» e o que leva pessoas aparentemente sãs a atravessarem a Europa para assistirem, em êxtase, ao triste espectáculo de uma maré negra a chegar às praias galegas. Expansiva, a fantasia de Quiriny cria ainda catálogos inteiros de músicos e escritores imaginários, com destaque para uma personagem-fetiche que surge em vários contos e já aparecia no livro anterior: Pierre Gould, autor sem obra, homem tímido, excêntrico e desligado da realidade, que tem como lema «Já não acreditar senão nas lendas» e talvez seja o duplo de Quiriny. Ou seja, o verdadeiro autor destes Contos Carnívoros, como sugere Enrique Vila-Matas no seu brilhante posfácio, cheio de malícia e alguma da tal saudável inveja.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]

Catch-quantos?

Podia ter sido Catch-18. Podia ter sido Catch-27. Até podia ter sido Catch-539. Acabou por ser Catch-22. Erica Heller, filha de Joseph Heller, conta como foi escolhido o enigmático número do romance mais conhecido do pai.

Ângulo de visão

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges