Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal), por José Mário Silva
A Livraria, de Penelope Fitzgerald (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
Julia Felix – Frescos de Pompeia, de Lívia Borges (Presença), por Luísa Mellid-Franco
Vencidos da Vida, de Leonard Cohen (Alfaguara), por Pedro Mexia
O Instinto de Acreditar, de Jesse Bering (Temas e Debates), por Ana Cristina Leonardo
Fascistas, de Michael Mann (Edições 70), por Luís M. Faria

Primeiro aniversário da Livraria Fábrica do Braço de Prata

É hoje. Para celebrar, a Livraria Fábrica do Braço de Prata organiza esta noite uma festa em que oferece descontos de 20% em cinco livros das suas editoras associadas: Assírio & Alvim, Relógio d’Água e Presença. A lista dos títulos com desconto pode ser consultada aqui.

Os e-books não mordem

Éramos seis naquela mesa redonda. Editores, romancistas, críticos literários, consultores. Tema da conversa: «Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?» Como se o facto de podermos trazer centenas de romances num aparelho fininho implicasse necessariamente uma guia de marcha para as estantes lá de casa. Quando me deram a palavra, pousei no colo os vários gadgets pelos quais distribuo as minhas leituras digitais (Kindle, iPad e iPhone), o que me fez sentir uma espécie de José Magalhães nos seus tempos de guru da pré-história da internet em Portugal (lembram-se?), e sublinhei uma evidência: o e-book não vai assassinar o livro em papel (pelo menos nas próximas décadas), nem substituir a experiência da leitura tradicional. Mas os dois suportes podem perfeitamente coexistir, com as respectivas vantagens e limitações. Pela minha parte, a adaptação foi imediata e leio agora e-books naturalmente, como se eles sempre tivessem existido. Uma das vantagens, para além de os poder descarregar no próprio instante em que estão a ser lançados nos EUA ou no Reino Unido, é o acesso instantâneo ao dicionário de inglês, ao Google e à Wikipedia. Basta carregar na palavra que nos suscita dúvidas e a definição correspondente aparece na base do ecrã (ou o link para os sites referidos). E uma pessoa habitua-se tão depressa que já me aconteceu, ao ler livros em papel, sentir o impulso de carregar numa palavra que desconheço ou no nome de alguém que gostaria de pesquisar.
No debate, havia quem estivesse disponível para experimentar, mas também quem jurasse a pés juntos que desta água não há-de beber. O discurso típico de quem só vê na emergência do digital os seus perigos (que existem, entre eles o da rápida obsolescência tecnológica) mas nenhuma das suas virtudes. A questão, porém, é que os e-books não são uma fantasia futurista. Eles são a realidade de hoje. Ou, para os mais renitentes, de amanhã. Foi aliás muito curiosa a resposta que obtive à pergunta: «Mas algum de vocês já leu um e-book?» Pois. Nenhum dos outros cinco participantes no debate tinha alguma vez lido um e-book. Ou seja, estiveram duas horas a falar de uma coisa que nunca experimentaram. Daqui a um ano ou dois, acreditem, a proporção vai inverter-se. Recordam-se da resistência inicial aos telemóveis? Alguns dos que se riam da hipótese de vir a andar com um aparelhómetro colado ao ouvido, que horror, agora não prescindem dos modelos de última geração, com internet e tudo. Mais: daqui a vinte anos o título do debate («Vem aí o e-book… Deito fora os meus livros?») vai parecer tão anacrónico como um debate que há vinte anos tivesse discutido «Vem aí o e-mail… Deito fora os meus postais?».
Parte do preconceito contra o livro digital nasce do facto de muita gente pensar que este é um mero clone dos livros em papel. Nada mais errado. Embora ainda só estejamos no início, já começam a aparecer livros-aplicação (a pensar nos tablets) que levam a literatura digital para outros patamares. Veja-se o caso da versão para iPad do poema The Waste Land, de T. S. Eliot, nascida da parceria entre uma editora de vanguarda tecnológica (a Touch Press) e a prestigiadíssima Faber & Faber (detentora dos direitos). O resultado é avassalador. Além dos versos, com as anotações de Eliot integradas, podemos ver em sincronia a interpretação do poema pela actriz Fiona Shaw, registos áudio de outras leituras (Ted Hughes, Viggo Mortensen, o próprio Eliot), vídeos com comentários de várias personalidades (de Jeanette Winterson a Seamus Heaney) e imagens da versão original com notas manuscritas de Ezra Pound. No momento em que escrevo, acabo de comprar outra aplicação igualmente espantosa: a «edição amplificada» do On the Road, de Jack Kerouac (Penguin), com mapas das suas viagens pelos EUA, biografias dos escritores da Beat Generation, documentos de arquivo, comparações entre rascunhos e versão definitiva, capas das edições internacionais (incluindo a da Ulisseia), etc. Já imaginaram o que se pode fazer com o Ulisses, com a Divina Comédia, com os livros do Pynchon, com os do Georges Perec? As possibilidades são infinitas. E eu mal vejo a hora de as poder desfrutar.

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

Medidas preventivas

Eu era para começar a ler hoje o novo livro de António Lobo Antunes. Mas depois lembrei-me que: 1) daqui a nada começa o jogo Sporting-Lazio; 2) o título do romance é Comissão das Lágrimas.

O que aí vem

‘Poéticas Contemporâneas’ na FCSH

Começa amanhã, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa, um ciclo de debates intitulado ‘Poéticas Contemporâneas’. No primeiro encontro (Edifício ID, 4º piso, Sala Multiusos, entre as 18h00 e as 20h00), serão discutidas as «revistas literárias do século XXI», com a participação de Ana Salomé (Golpe d’Asa), Fernando Guerreiro (Piolho), Gastão Cruz (Relâmpago), Luís Henriques (Jornal da Oficina do Cego), Manuel de Freitas (Telhados de Vidro), Mariana Pinto dos Santos (Intervalo), Paulo Tavares (Artefacto) e Tatiana Faia (Ítaca). O jornalista e crítico literário António Guerreiro será o moderador.

Maravilhas da paternidade

Pedro, enquanto olhava para um automóvel com o capot aberto: «O motor é igual ao porta-bagagens, só que mais quente.»

Lançamento de ‘O DN Jovem entre o Papel e a Net’


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Dois poemas de Nuno Dempster

Talvez houvesse rosas de Isabel
que Inês mudasse em outro paraíso,
andar por entre flores e pousar
a vista em coisas mínimas, pensar
que Pedro viria à noite, ou apenas
sentir o ventre ainda sossegado,
que assim melhor se vive, sem a culpa
magoar, como a cruz feria o deus
e a excomunhão dos bispos recordava.
Nada disto, porém, é verdadeiro.
Cenários apagados, tudo longe,
em ruínas o paço: uma janela.
A História só escreve equações,
da vida interior nada se lê.
Perdeu-se Inês nos campos do Mondego,
e agora recriamo-la, poesia
que se gera em sentido inverso à vida:
Inês, num paraíso que não há,
caminha virtual entre poemas.

***

Senta-te no silêncio das arcadas
místicas da abadia. Frente a Cristo,
vai pensando nos ossos de Pedro e Inês
e na imagem do filho abandonado
pelo pai, quando Deus se tornou o
grito «Eli, Eli, lama sabachthani?»
Medita então na morte dos amantes,
como deles se foi a luz e a força
centrípeta que os chamava, o íman real
da gravidade humana, e pensa o grito
que alguém deixou no livro dos profetas.
Sai então do mosteiro, observa a praça
e as casas em redor, cruas de sol.
Onde estão Pedro e Inês? Ninguém os vê.
Um a seguir ao outro, a morte teve
a carne luminosa dos seus corpos,
e hoje os ossos antigos nada dizem:
o presente é o largo do mosteiro
e a lojista ao fundo que dispõe
a tralha de ‘recuerdos’ sempre iguais,
e nada irá surgir ali que espante.

[in Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sempre-em-pé, 2011]

Defina Romantismo

Pois, não é fácil.

Valter Hugo Mãe: “Eu só sei escrever coisas arriscadas”

Na génese de O Filho de Mil Homens (Alfaguara), quinto romance de Valter Hugo Mãe, houve uma frase: «Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho.» Com esta frase inicial, escrita de repente num aeroporto, surgiu do nada a figura de Crisóstomo. «Fiquei agarrado pela frase, pela ideia, pela possibilidade daquela personagem. E o primeiro capítulo surgiu durante aquelas três horas à espera do voo. O texto funciona como um conto, uma história fechada. Podia ser perfeitamente um livro para miúdos, na esteira de outros que fiz.» Já no avião, enquanto aguardava pela descolagem para ligar de novo o computador, percebeu que tinha de continuar a escrever sobre o Crisóstomo e a sua estranha energia. «Não estava preparado para o facto de as personagens me deixarem fora do livro, sozinho, enquanto elas continuavam lá dentro, juntas e felizes.»
Com sucessivos recomeços, as histórias esboçadas naquelas primeiras páginas desenvolveram-se e ganharam o corpo de um romance. «Escrevi como sempre escrevo, mas com o desafio de simplificar as coisas, tornar as ideias mais cristalinas e o livro mais sucinto.» Se o capítulo de abertura se assemelha a um conto de fadas, completamente fora da realidade, essa atmosfera contamina o resto do romance. Valter assume que estabeleceu um pacto com o protagonista, talvez a mais cândida de todas as suas personagens. «Prometi-lhe: Crisóstomo, tu vais ser feliz, custe o que custar.» E a promessa foi cumprida. «Nos livros anteriores, por mais que tivesse compaixão pelos meus heróis ou anti-heróis, por mais que quisesse dotá-los de esperança, nunca pude salvá-los da grande desgraça. Desta vez, consegui.»
Por sistema, Valter avança na narrativa sem um plano, sem uma direcção definida. «É a força das personagens e a necessidade de saber mais acerca delas que me empurra.» Em relação a Crisóstomo, porém, sentiu uma espécie de pudor. «Ele esmagou-me. É quase intocável. É o arquétipo de uma certa ideia de beleza humana, a dos seres que procuram e exercem a perfeição.» O livro defende a ideia de felicidade no seio de uma família não biológica, impossível, utópica. Não se arriscará a ser trucidado pelo cinismo dominante? «Arrisca-se, sim. Mas eu só sei escrever coisas arriscadas. Ando sempre à procura, mas nunca percebo muito bem aquilo que encontro. No fim de cada livro, tenho um impulso muito destrutivo enquanto criador. Apetece-me afogar os livros no lago. A verdade é que não sei fazer as coisas de outro modo. Quanto ao tal discurso dominante, é com gosto que me alinho na contra-corrente. Posso ser muito ingénuo, mas acho mesmo que a arte pode mudar a vida das pessoas para melhor.»
Se O Filho de Mil Homens abre uma nova fase na obra de Valter Hugo Mãe – depois da tetralogia romanesca composta por o nosso reino, de 2004; o remorso de baltazar serapião, 2006 (ao qual foi atribuído o Prémio José Saramago); o apocalipse dos trabalhadores, 2008; e a máquina de fazer espanhóis, 2010 –, esta nova fase é drasticamente assinalada por uma mudança de paradigma estilístico. A regra de escrever só em minúsculas foi abolida, tanto nos textos como no nome do escritor. «Não deixei de acreditar no que acreditava», explica Valter, «mas ficaria muito frustrado se ao fim de alguns anos, ou eventualmente no fim da minha vida, as pessoas me reduzissem ao indivíduo das minúsculas». Houve também um certo cansaço: «Em cada país onde sou publicado, obrigam-me a justificar outra vez esta minha opção, como se eu tivesse inventado a pólvora. Não inventei. Antes de mim, já outros faziam isto, do cummings ao Almeida Faria. E eu ‘roubei’ a ideia ao Al Berto. Quando sonhei ser poeta, sonhei ser como o Al Berto.»


Fotografia de Nelson d’Aires

Apesar de tudo, a decisão foi relativamente fácil. Levá-la à prática, nem por isso. «Ao princípio, pareceu-me uma coisa contra-natura. O que me sai naturalmente é escrever em caixa baixa. Aliás, ainda escrevi os primeiros três capítulos sem maiúsculas. Acrescentei-as depois, retroactivamente.» Valter está satisfeito com o caminho tomado mas não garante que seja definitivo. A poesia, por exemplo, continuará a aparecer em minúsculas: «Quando publicar, vou ser o mesmo poeta de sempre e assinarei o meu nome em caixa baixa.» Ou seja, um dia veremos livros de um Valter Hugo Mãe ficcionista ao lado dos livros do poeta valter hugo mãe. Não será isto demasiado confuso? «Pois, se calhar é. Mas eu sou mesmo assim. Um ser humano todo atrapalhado e sempre cheio de angústias quanto às minhas opções.» Com maiúsculas ou sem maiúsculas, interessa-lhe sublinhar que a escrita em si não muda. «Os primeiros leitores disseram-me até que as coisas ficam mais límpidas, mais inequívocas, mais explícitas.»
No momento em que a primeira frase de O Filho de Mil Homens se impôs a tudo o resto, Valter estava a escrever outro livro, construído em torno de uma personagem transsexual. «Hei-de voltar a essa história, mas entretanto já escangalhei aquilo tudo.» Do texto existente, com cerca de cem páginas, duas personagens foram transplantadas para o actual projecto em curso: «É uma coisa muito diferente de tudo o que já fiz. Passa-se num cenário islandês. Vai ser o meu primeiro livro a fugir manifestamente da realidade portuguesa.» Em comum com O Filho de Mil Homens, apenas a constituição de uma família improvável, «a partir da ideia ou da imagem de um filho à deriva».
Em Agosto, Valter esteve na Islândia. Precisava de se sentir «imerso naquela natureza». Tenciona voltar em Janeiro, para «perceber a violência do frio». Neste momento, vive a fase da expectativa perante as «surpresas que o livro gera» e sente-se à mercê de Atla, uma menina com quem ainda não foi capaz de estabelecer um pacto. «Não consigo dizer se ela está destinada a ser feliz, à imagem do Crisóstomo.» E o mais provável é que não esteja, já que o romance promete ser o reverso de O Filho de Mil Homens. Isto é, vai «tender para a escuridão como este tendia para a luz».

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos cabelos louros dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito.
Eu nunca tinha sentido aquele cheiro pungente antes, aquele cheiro que ficaria para sempre misturado ao cheiro das outras mulheres, das que conheci na intimidade, que invadiria o cheiro de outras mulheres e que para sempre me levaria de volta a ela. Aquela mistura de perfume doce, carne cortada, suor, sangue e – o mais próximo que consegui perceber, até hoje – sal. Como se sente quando próximo do mar. Como quando adere à pele. Não os grãos de sal – mas a poeira invisível e olorosa do sal em dias húmidos.»

[in Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre, Planeta, 2011]

Pedra Angular

«Um projecto editorial, com direcção de José Tolentino Mendonça, que privilegiará o território da religião e da espiritualidade, não numa perspectiva confessional, mas na relação mais ampla e complexa com a cultura. Declaramos o nosso interesse por textos clássicos & velharias fora do circuito, mas também por leituras da actualidade, cerzidas a luz e controvérsia.»

Galeria de horrores

Tem um fraquinho por capas de livros inacreditavelmente feias? A sério? Então deixe-me apresentar-lhe um site irresistível: Good Show Sir. Sem falsas modéstias, promete «only the worst Sci-fi/Fantasy book covers». E cumpre. Cumpre mesmo.

As palavras são tudo

O Pintor Debaixo do Lava-Loiças
Autor: Afonso Cruz
Editora: Caminho
N.º de páginas: 175
ISBN: 978-972-21-2418-8
Ano de publicação: 2011

Em 1940, os avós de Afonso Cruz acolheram em casa, na Figueira da Foz, um pintor eslovaco. Temendo as rusgas da polícia política a meio da noite, colocaram-no a dormir por baixo do lava-loiças, atrás da lenha. «Julgo que todos nós, olhando para a vida dos nossos antepassados, encontramos histórias que dariam histórias», lembra Afonso Cruz. Isto é, histórias verdadeiras que se podem transformar em literatura. Neste caso, o acto de coragem dos avós, ao esconderem um refugiado que lhes entrou um dia de rompante na loja de fotografia, levou-o a escrever O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, um romance muitíssimo inventivo e bem escrito – digno sucessor do magnífico A Boneca de Kokoschka (Quetzal, 2010).
À partida, o que Afonso Cruz conhecia do pintor eslovaco era quase nada. Tinha um nome (Ivan Sors), o intervalo da sua vida (1895-1950), os quadros que deixou na casa dos protectores figueirenses (uma Crucifixão e um retrato da avó, vestida de minhota), mais uns vagos factos biográficos soltos. Isto deu-lhe toda a liberdade para efabular. Alterado o nome próprio de Sors para Jozef, o pintor transformou-se então num ser absolutamente ficcional, que o romancista pôde moldar à vontade. Por exemplo, fazendo dele o filho de um mordomo demasiado sincero, incapaz de compreender metáforas, e de uma engomadeira apreciadora dos gestos repetidos, das rotinas («os sapatos são bons quando não se sentem»).
Logo na infância, passada na casa do patrão dos pais (o coronel Möller, cuja autoridade não era posta em causa pelo facto de andar com flores no cabelo), Jozef descobre que a sua vocação é «desenhar o mundo». Ele olha para as coisas como se fizesse o pino, pensa através dos traços no papel e gosta de deixar os desenhos inacabados para que eles se abram «para o infinito». Abomina a «dispersão circular» e quer muito crescer para cima, vertical, sem desvios. A natureza não o ajuda, ao colocar-lhe no caminho tentações como a vizinha Frantiska, por quem sente um amor altíssimo, embora «desprovido de corpo». À excepção do momento em que a empurra no baloiço, nunca se tocam. Em vez disso, Jozef procura que a sua sombra beije a sombra da rapariga, contenta-se em encostar os lábios ao pedaço de vidro que ela antes embaciou, entra em êxtase quando consegue respirar ao lado dela, com a mesma cadência.
Depois, sucedem-se episódios. Tragédias familiares. Pessoas que morrem por causa de uma figura de estilo. A I Guerra Mundial, vista de um balão pairando sobre as trincheiras. Um Museu das Coisas Inúteis. Colarinhos assimétricos. Uma orelha arrancada. Cadernos cheios de desenhos (um só com olhos abertos, outro só com olhos fechados). O tempo a transformar tudo em areia. A mãe abandonada num hospício. Ida para os EUA. Regresso à Europa. Uma espécie de cegueira (o olhar ofuscado por sombras). Quase fim da linha em Lisboa, no meio de um «povo fatal».
Afonso Cruz narra tudo isto com vigor e precisão, em capítulos curtos. O estilo é o que já lhe conhecíamos: poético, filosófico, aforístico («Se está esticado é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador»). No manifesto gozo com que trabalha a linguagem, nota-se sobretudo neste autor a convicção de quem acredita firmemente no poder imenso, quase mágico, da literatura: «As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

Encontro de ‘bibliotecários’

Um dos melhores momentos da manhã de sábado aconteceu quando conheci, em pessoa, a Idónea Bibliotecária, nem mais nem menos do que a muito activa e empenhadíssima mentora do projecto Déjà Lu. Quem não conheça esta iniciativa, faça o favor de visitar o respectivo blogue. No fundo, o que a Déjà Lu faz são leilões online de livros já lidos, revertendo o valor das vendas para a APPT21 (Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21) e para o Centro de Desenvolvimento Infantil DIFERENÇAS.
Os livros a leiloar podem ser entregues em vários pontos de recolha (Lisboa, Cascais, Sintra, Setúbal, Porto e Vila Real), cujas moradas e contactos telefónicos podem ser consultados aqui.

PS – Não quero trocar galhardetes, mas se há alguém que merece o epíteto «simpatia em pessoa» é justamente a Idónea Bibliotecária, mais a sua não menos Idónea amiga e auxiliar.

Dois travelings

Miradouro do Monte Agudo, sábado, dia 24, 11h16:

Miradouro do Monte Agudo, sábado, dia 24, 11h38:

GOLBB, um balanço

Se a primeira GOLBB já tinha corrido muito bem, a segunda foi ainda melhor. Desta vez, os livros pousados na pérgula duraram cerca de meia hora, em vez de dez minutos, e não houve os abusos do ano passado (algumas pessoas com sacos cheios e outras de mãos a abanar). De uma forma geral, creio que se cumpriu a regra de cada pessoa levar 5/6 livros. A escolha fez-se sem confusões nem atropelos, antes com alegria e civismo. O que me deixa particularmente feliz. Houve muitos leitores a agradecerem-me no fim, mas eu é que agradeço às muitas dezenas de pessoas o interesse e disponibilidade para receberem livros que já não cabem na minha biblioteca mas de que gosto muito (li boa parte deles e há uma certa melancolia nisto de os ver partir).
Durante uma hora e meia, no sábado, o miradouro do Monte Agudo foi um lugar de partilha entre pessoas que amam os livros (além dos livros que ofereci, muitos outros volumes foram trazidos e trocados pelos participantes). Ter contribuído para um encontro desta natureza, diante de uma vista belíssima da cidade de Lisboa, deixa-me muito satisfeito e com uma pontinha de orgulho. Se um dia criei este blogue, não foi só para partilhar notícias e opiniões sobre a vida literária, sobre escritores e suas obras, foi também para integrar uma comunidade de leitores que se cruza nos labirintos da internet. Que uma parte dessa comunidade se tenha materializado no miradouro é a prova de que o esforço exigido para a manutenção deste espaço continua a valer a pena.
Queria ainda agradecer aos amigos (Ricardo e Paulo) que me ajudaram no transporte da livralhada, entre um terceiro andar sem elevador e o porta-bagabens do meu Skoda Fabia, ao Alexandre Esgaio (pelo cartaz) e aos amigos do café do miradouro, que não se importaram de assistir à matutina invasão da sua maravilhosa esplanada.
A quem não pôde vir, resta um consolo: para o ano, talvez mais cedo (início de Setembro), cá estarei para a terceira edição.

Primeiras imagens

Manhã de livros no miradouro do Monte Agudo:


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Pó dos livros

A dada altura, ainda pensei: vou buscar um pano e tiro algum do pó acumulado nos livros ao longo dos anos. Depois percebi que a tarefa seria hercúlea e suficientemente hercúlea já ela era (se lhe juntarmos as muitas «escolhas de Sofia»: este fica ou vai?). Por isso deixei-os ir assim mesmo, com pó na esquina das folhas, memória do sítio de onde vieram, mesmo que depois fiquem impecavelmente limpos nas novas estantes que os esperam.

Torres de Papel (6)

E pronto, já está. Cerca de 600 livros empilhados, aguardando novos donos. Amanhã, estarão todos no miradouro do Monte Agudo, a partir das 11h00, disponíveis para quem os quiser levar (relembro: a cada pessoa, cinco ou seis volumes; assim, ninguém sairá de mãos a abanar).


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Eis mais umas dezenas de títulos a somar às outras listas:

A Fábula, de William Faulkner (Dom Quixote)
Cadáver Precisa-se, de Milton Fornaro (Quetzal)
A Casa da Floresta, de Marion Zimmer Bradley (Difel)
Taipi, de Herman Melville (Teorema)
O Meu Livro de Música, de António Victorino d’Almeida (Texto)
No Teu Deserto, de Miguel Sousa Tavares (Oficina do Livro)
Vaticano S. A., de Gianluigi Nuzzi (Presença)
O Túnel, de Ernesto Sabato (Relógio d’Água)
Coração das Trevas, de Joseph Conrad (Vega)
O Passado, de Alan Pauls (Dom Quixote)
A Casa da Praia do Açúcar, de Helene Cooper (QuidNovi)
Chocolate, de vários autores (Casa das Letras)
Letra Só, de Caetano Veloso (Quasi)
White Jazz – Noites Brancas, de James Ellroy (Presença)
A Viagem dos Sete Demónios, de Manuel Mujica Lainez (Vega)
Corpos Divinos, de Guillermo Cabrera Infante (Quetzal)
Confissão, de Lev Tolstói (Alfabeto)
A Rainha Sol, de Christian Jacq (Bertrand)
Infidelidades, de Woody Allen (Relógio d’Água)
Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez, de Tabajara Ruas (AMBAR)
A Escrita Dissidente – autobiografia de Ruben A., de Dália Dias (Assírio & Alvim)
Canções, de António Botto (Presença)
O Mistério de Listerdale, de Agatha Christie (ASA)
Pablo La Noche, de Marcello Mathias (Quetzal)
As Esquinas do Tempo, de Rosa Lobato de Faria (Porto Editora)
Propaganda e Opinião Pública, de Noam Chomsky (Campo das Letras)
O Fiel Jardineiro, de John LeCarré (Dom Quixote)
Músicas da Consciência, de Luís Carmelo (Europa-América)
Quando Lisboa Tremeu, de Domingos Amaral (Casa das Letras)
Como Construir Uma Máquina do Tempo, de Paul Davis (Gradiva)
O Lugar da Utopia, de José Manuel Heleno (Fim de Século)
True Grit – Indomável, de Charles Portis (Presença)
Arabescos, de Anton Schammas (Dom Quixote)
Suplemento à Viagem de Bougainville, de Denis Diderot (Fenda)
Que o Diabo Leve a Mosca Azul, de John Franklin Bardin (Relógio d’Água)
Uma Data em Cada Mão – Livro de Horas I, de Maria Gabriela Llansol (Assírio & Alvim)
Morreste-me, de José Luís Peixoto (Quetzal)
Adriana Mater, de Amin Maalouf (Difel)
A Ilha da Páscoa, de Pierre Loti (Teorema)
Orgias, de Luís Fernando Veríssimo (Dom Quixote)
Sudoku 1, de Michael Mepham (Gradiva)
O Barulho das Chaves, de Philippe Claudel (ASA)
A Magia Sexual, de Alexandrian (Antígona)
Terra Morta, de Castro Soromenho (Campo das Letras)
Antologia Poética, de Miguel de Unamuno (Assírio & Alvim)
A Raiva e o Orgulho, de Oriana Fallaci (Difel)
Paraíso Travel, de Jorge Franco Ramos (Temas e Debates)
As Asas do Medo, de Paco López Diago (Alfabeto)
O Futuro Radioso, de Alexandre Zinoviev (Dom Quixote)
Homem em Armas, de Horacio Castellano Moya (Teorema)
A Simbólica do Espaço em ‘Senhor dos Anéis’, de Maria do Rosário Monteiro (Livros de Areia)
Infanta, de Bodo Kirchhoff (ASA)
A Cristandade ou A Europa, de Novalis (Antígona)
Afogados, de Carlos Eugenio Lópes (Estrofes & Versos)
A eternidade não é de mais, de François Cheng (Bizâncio)
Evocação de Sophia, de Alberto Vaz da Silva (Assírio & Alvim)
História do Século XX – 3.º volume, de Bernard Droz e Anthony Rowley (Dom Quixote)
O Rapaz que Chutava Porcos, de Tom Baker (Teorema)
Beatriz e Virgílio, de Yann Martel (Presença)
De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo, de Arthur Dapieve (Quetzal)
O Diário de Rutka, de Rutka Laskier (Sextante)
Poemas de Deus e do Diabo, de José Régio (Quasi)
Criaturas do Ar, de Fernando Savater (AMBAR)
As Memórias de um Espírito, de Germando Almeida (Caminho)
O Visível e o Invisível, de Lucia Etxebarría (Editorial Notícias)
Tu, Meu, de Erri de Luca (Bertrand)
Espera de Deus, de Simone Weill (Assírio & Alvim)
Pedra-de-paciência, de Atiq Rahimi (Teorema)
O Regresso do Soldado, de Rebecca West (Relógio d’Água)
Entre os Dois Palácios, de Naguib Mahfouz (Civilização)
Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano, de Raoul Vaneigem (Antígona)
Que Força é Essa, de Madalena Barbosa (Sextante)
Diário de Blindness, de Fernando Meirelles (Quasi)
A Oficina do Tempo, de Álvaro Uribe (Quetzal)
Os Guardiões da Verdade, de Michael Collins (Gradiva)
A Terceira Virgem, de Fred Vargas (Porto Editora)
Pensageiro Frequente, de Mia Couto (Caminho)
Espártaco – A Revolta dos Escravos, de Max Gallo (ASA)
O Escritor, de Yasmina Khadra (Bizâncio)
Três Mulheres Poderosas, de Marie Ndiaye (Teorema)
Estilhaços, de Adolfo Luxúria Canibal (Quasi)
A Minha Vida é uma Arma, de Christoph Reuter (Antígona)
As Suspeitas do Sr. Whicher, de Kate Summerscale (Bertrand)
Ensaios e Discursos, de Miguel Torga (Dom Quixote)
Globalização, de Mário Murteira (Quimera)
€14,99 – A Outra Face da Moeda, de Frédéric Beigbeder (Presença)
Os Imperdoáveis, de Cristina Campo (Assírio & Alvim)
Elza, a Garota, de Sérgio Rodrigues (Quetzal)
O Amor de Longe, de Amin Maalouf (Difel)
Pequenas Obras Morais, de Giacomo Leopardi (Relógio d’Água)
Crítica da Razão Criminosa, de Michael Gregorio (Dom Quixote)
Algumas Letras, de Adriana Calcanhotto (Quasi)
Histórias Devidas, de vários autores (ASA)
A Magia Sexual, de Alexandrian (Antígona)
Escorial, de Miklós Szentkuthy (Teorema)
O Meu Anjo Catarina, de Alexandre Pinheiro Torres (Caminho)
Ó, de Nuno Ramos (Cotovia)
Contos de Morte, de Pepetela (Edições Nelson de Matos)
O Arco de Nemrod, de Teresa Salema (Sextante)
As Duas Sombras, de Paulo Ramalho (íman)
Histeria, de Julia Borossa (Almedina)
Salazar e os Milionários, de Pedro Jorge de Castro (Quetzal)
Geografia do Caos, de Duarte Belo/Nuno Júdice (Assírio & Alvim)
Ei Nostradamus!, de Douglas Coupland (Teorema)
Bestas de Nenhum Lugar, de Uzodinma Iweala (Antígona)
Mr. Pip, de Lloyd Jones (Estampa)
A Vida Sexual de Fernando Pessoa, de Salomó Dori (Palimpsesto)
O Outro, de Ryszard Kapuscinski (Campo das Letras)
As Novas Confissões, de William Boyd (Dom Quixote)
Os Peixes da Amargura, de Fernando Aramburu (Minotauro)
A Noiva Indiana, de Karin Fossum (Oceanos)
Plexus, de Henry Miller (ASA)
O Grande Capital, de John Dos Passos (Presença)
Vida Dupla, de Pierre Assouline (Entre Letras)
Divisadero, de Michael Ondaatje (Porto Editora)
O Fato Cinzento, de Andrea Camilleri (Bertrand)
Falar é Fácil, de Zé Diogo Quintela (Tinta da China)
Wikinomics, de Don Tapscott (QuidNovi)
História Elementar das Drogas, de Antonio Escohotado (Antígona)
Enquanto Vivemos, de Maruja Torres (Dom Quixote)
O Melhor dos Meus Erros, de Clara Pinto Correia (Oficina do Livro)
Sentimental, de Abel Neves (ASA)
Regresso à Ilha, de Romana Petri (Cavalo de Ferro)
Digam-me como é uma árvore, de Marcos Ana (Guerra & Paz)
Gertrud, de Hermann Hesse (Difel)
Knulp, de Hermann Hesse (Difel)
Elogio da Velhice, de Hermann Hesse (Difel)
Deambulações Fantásticas, de Hermann Hesse (Difel)
Testemunhas da Guerra, de Nicholas Stargardt (Tinta da China)
Crónicas de uma Pequena Ilha, de Bill Bryson (11/17)
O Bandido Duplamente Armado, de Soledad Puértolas (Bertrand)
A Arte da Alegria, de Goliarda Sapienza (Dom Quixote)
Gasolina, de Quim Monzó (Teorema)
Diplomacia Doce e Amarga, de José Calvet de Magalhães (Bizâncio)
A Palavra Manipulada, de Philippe Breton (Caminho)
O Modelo, de Lars Saabye Christensen (Cavalo de Ferro)
América a Bem ou a Mal, de Anatol Lieven (Tinta da China)
A Melancolia do Geógrafo, de Brigitte Paulino-Neto (ASA)
Oriente, Ocidente, de Salman Rushdie (Dom Quixote)

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Valter Hugo Mãe, sobre O Filho de Mil Homens (Alfaguara), por José Mário Silva
Lógica Poética – Friedrich Hölderlin, org. de Bruno C. Duarte (Vendaval), por António Guerreiro
A Educação Sentimental dos Pássaros, de José Eduardo Agualusa (D. Quixote), por Pedro Mexia
Ataques ao Papa – Escândalos de Pedofilia e Polémicas Doutrinárias Contra Bento XVI, de Andrea Tornielli e Paolo Rodari (Presença), por Rosa Pedroso Lima
Nova História da Filosofia Ocidental – vol. 4, de Anthony Kenny (Gradiva), por Luís M. Faria
Ravelstein, de Saul Bellow (Quetzal), por Hugo Pinto Santos
Matadouro Cinco, de Kurt Vonnegut (Bertrand), por José Guardado Moreira
O Lanche do Senhor Verde, de Javier Saéz Castán (Orfeu Negro), por Sara Figueiredo Costa

Previsão meteorológica

Amanhã, para a hora de início da segunda edição da GOLBB, estão previstas as seguintes condições climatéricas em Lisboa:

– céu limpo
– Temperatura: 20ºC
– Humidade: 66%
– Vento: NNW, a cinco kms/h
– Probabilidade de chuva: 0%

Esperemos que as previsões se confirmem.

Prémio Máxima de Literatura 2011 para Inês Pedrosa

Depois de já ter ganho o prémio em 1998 (com o romance Nas Tuas Mãos), Inês Pedrosa volta a vencer com Os Íntimos (Dom Quixote). O júri, composto por Maria Helena Mira Mateus, Leonor Xavier, António Carvalho, valter hugo mãe e Laura Luzes Torres, atribuiu ainda um Prémio Especial do Júri ao romance Adoecer, de Hélia Correia (Relógio d’Água) e o Prémio Ensaio ao livro A Monarquia Constitucional, 1807-1910, da historiadora Maria de Fátima Bonifácio.

O caminho para o miradouro

Como o miradouro do Monte Agudo não mudou de sítio desde a primeira Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel, podem usar o mesmo road book para chegar, amanhã de manhã, à segunda edição (a partir das 11h00).

Primeiros parágrafos

«Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.
Ou, para ser mais exacto, como Oscar Schidinski diz que ele a escreveu.
É assim:
Polvorosa é um pueblo semelhante a tantos outros deste país de bananeiras e matas de cacau. Consiste apenas numa rua poeirenta, perpendicular à estrada de terra que vem de Insolación e segue para o Norte. De um lado e do outro dessa rua desamparada estão alinhados quinze ou vinte edifícios de madeira, decrépitos quase todos, desbotados e consumidos pela canícula. Há uma venda na qual, de modo irregular, se podem comprar alguns produtos essenciais: velas e querosene, carne seca, arroz e feijão, aguardente de cana, pregos, alguma roupa e sabão. Pouco mais. À direita de quem chega, a meio da fileira de edifícios, fica uma casa menos precária do que as outras, em alvenaria, caiada, com dois pisos e uma varanda assente em pilaretes de ferro forjado. É a residência dos Fuentes. Os Fuentes foram os primeiros colonos desta parte do país e são os proprietários de todas as coisas que aqui vivem e estão imóveis, incluindo as pessoas que, de algum modo, não estão ligadas à família por algum tipo de parentesco. Para lá dos limites da área construída existe um pequeno rio e, depois, estão os campos dos cacaueiros, os quais constituem, ainda assim, a única fonte de rendimentos do pueblo. Polvorosa seria, pois, um sítio sem nada que valesse a pena ser visto ou contado, se não houvesse aqui um homem diferente de todos os outros homens conhecidos. Chamam-lhe o homem-zebra — e é um indivíduo tão extraordinário que, se o pueblo não estivesse tão longe de tudo, tão perdido no mundo, já teria, decerto, vindo gente de outros lados, bacharéis e cientistas, médicos e curiosos por aberrações, apenas para poderem vê-lo e confirmar que existe, e que é exactamente como vai ser dito.»

[in Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2011]

Com o selo da ‘Ler’

Todos os meses, as livrarias da rede Bertrand afixarão dez livros de ficção e não-ficção recomendados pela Ler, de acordo com as críticas e notas publicadas na revista.

Prémio Fernando Namora com ‘shortlist’

O júri do Prémio Literário Fernando Namora (instituído pela Estoril Sol), decidiu este ano «usar da faculdade prevista no artigo nono do Regulamento do Concurso» e escolheu uma shortlist de cinco romances, dos quais sairá o vencedor, a anunciar no próximo dia 2 de Outubro.
Os finalistas são:

Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares (Caminho)
Adoecer, de Hélia Correia (Relógio d’Água)
O Bom Inverno, de João Tordo (Dom Quixote)
Peregrinação de Enmanuel Jhesus, de Pedro Rosa Mendes (Dom Quixote)
a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe (Alfaguara)

Presidido por Vasco Graça Moura, o júri inclui ainda Guilherme D’Oliveira Martins (Centro Nacional de Cultura), José Manuel Mendes (Associação Portuguesa de Escritores), Manuel Frias Martins (Associação Portuguesa dos Críticos Literários), Maria Carlos Gil Loureiro (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas), Maria Alzira Seixo, Liberto Cruz, Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu.

Já li e recomendo

O Retorno, livro que marca a transferência de Dulce Maria Cardoso da ASA para a Tinta da China. Um excelente romance sobre o regresso de uma família à «metrópole» em 1975, deixando para trás uma Angola quase independente e as sombras do fim do império. Nas livrarias a 7 de Outubro.

Lançamento de ‘Poemas Novos e Velhos’


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Amanhã à tarde, na Casa Fernando Pessoa.

E-books do ‘Público’ a 50 cêntimos

Por enquanto só estão disponíveis oito títulos, todos da colecção ‘Inteligência Financeira’, mas presume-se que a oferta aumente em breve.

Três sílabas de plástico

ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Alexandre O’Neill

A primeira letra foi descoberta no Algarve, por um turista italiano. Ao fotografar dois muros de pedra em ângulo agudo, nos arredores de São Brás de Alportel, pensou que estava ali um curioso V, mas depois descobriu outros dois valados paralelos, com vinte quilómetros de comprimento, e percebeu que se tratava antes de um imenso M. A notícia saiu na imprensa regional, num canto da página das curiosidades.
A segunda letra foi um H. Custódio Antunes manobrava o seu balão de ar quente, perto de Gouveia, quando se apercebeu das linhas muito direitas, três rasgões amarelados no verde denso da floresta. O vídeo gravado com o telemóvel, em que aparecia o dedo trémulo de Custódio e a sua voz a exclamar «É mesmo um H! Vede bem, minha gente, é mesmo um H!», teve um sucesso imediato no YouTube, mais por causa do sotaque cómico do que por outra razão qualquer.
A terceira letra, um D, surgiu da noite para o dia numa seara alentejana, para os lados da Vidigueira. Os telejornais da hora do almoço fizeram reportagens em directo, captando a perplexidade dos agricultores da zona e forçando comparações com os famosos círculos que tanta tinta fizeram correr há uns anos. Quem é que desenhara o gigantesco D no trigo? Com que objectivo? Seria uma campanha publicitária? Uma instalação artística? No estúdio, o pivot fez uma piadinha e piscou o olho, antes de se despedir.
A quarta letra, um A, foi avistada no concelho de Vila Pouca de Aguiar pelo piloto de um helicóptero do INEM. A quinta, um N, detectaram-na os topógrafos que andavam a fazer o levantamento de uma estrada secundária, entre duas freguesias de Proença-a-Nova. Quando um estudante do Instituto Superior Técnico identificou a sexta letra, outro N, junto a Tabuaço, depois de uma semana inteira a analisar em detalhe imagens do Google Earth, uma febre apoderou-se do país.
Dos programas de debate na TV aos editoriais dos diários de referência, do Facebook à blogosfera, dos transportes públicos aos cafés de bairro, não se falava de outra coisa. Havia uma frase por decifrar no corpo da nação, uma tatuagem inscrita na pele da paisagem, uma escrita dos deuses que talvez explicasse finalmente o que somos, de onde vimos, para onde vamos.
Temendo quebras de produtividade, o governo nomeou com carácter de urgência uma comissão de especialistas. Em boa hora, diga-se, porque nunca uma comissão em Portugal foi tão eficiente. Dois dias depois, a sobreposição de imagens de satélite actualizadas desvendou num ápice o mistério. Na imagem que circulou por todo o mundo, podia ler-se, na vertical, do Algarve a Trás-os-Montes, em letras quilométricas: MADE IN CHINA.

[in The Printed Blog Portugal, n.º 2, Setembro de 2011]

Torres de papel (5)

A Grande Oferta de Livros do Bibliotecário de Babel é já no sábado de manhã. As torres de papel são sete. E ainda vão crescer em altura.


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Eis mais alguns títulos a juntar à lista:

O Regicídio, de Maria Alice Samara e Rui Tavares (Tinta da China)
Então Chegámos ao Fim, de Joshua Ferris (Casa das Letras)
O Olho de Vidro, de Camilo Castelo Branco (Esfera do Caos)
Deste Lado da Luz, de Colum McCann (Civilização)
Portugal Medievo – vol. II, de António Borges Coelho (Caminho)
Perdido de Volta, de Miguel Gullander (Dom Quixote)
Foi Assim que Aconteceu, de Teresa Font (Presença)
O Livro dos Snobs, de W. H. Thackeray (Guerra & Paz)
Um Escritor Confessa-se, de Aquilino Ribeiro (Bertrand)
O Abominável Mundo Louco dos Jovens Cibernautas, de Renato Montalvo e Conceição Monteiro (Gradiva)
Final de Romance na Patagónia, de Mempo Giardinelli (Quetzal)
Beatles, de Lars Saabye Christensen (Cavalo de Ferro)
Mozart na Selva, de Blair Tindall (Guerra & Paz)
O verdadeiro ator, de Jacinto Lucas Pires (Cotovia)
Vir ao Mundo, de Margaret Mazzantini (Bertrand)
Marina, de Carlos Ruiz Zafón (Planeta)
O Rastro do Jaguar, de Murilo Carvalho (LeYa)
Diário de Paris, de Marcello Duarte Mathias (Oceanos)
Misterioso, de Arne Dahl (Presença)
O Estado Mais Quente, de Ethan Hawke (Difel)
Vejo uma Voz, de Oliver Sacks (Relógio d’Água)
A Casa do Sono, de Jonathan Coe (ASA)
No Buraco, de Tony Belloto (Quetzal)
A Noiva Indiana, de Karin Fossum (Oceanos)
Uma Palavra Tua, de Elvira Lindo (Presença)
O Alquimista, de Paulo Coelho (Pergaminho)
Atravessando o Deserto, de Mário Ventura (Editorial Notícias)
Mercado de Ilusões, de Felipe Benítez Reyes (Sextante)
Tens Visto o Antão, de António Manuel Couto Viana (Quetzal)
Passageiros da Neblina, de Montserrat Rico Góngora (Planeta)
A Casa dos Sete Pecados, de Mari Pau Domínguez (Presença)
O quase fim do mundo, de Pepetela (Dom Quixote)
História de Portugal – vol. 6, de José Mattoso (Estampa)
A Vida e as Opiniões do Cão Maf e da sua Amiga Marilyn Monroe, de Andrew O’Hagan (Bertrand)
Cavalheiros da Estrada, de Michael Chabon (Casa das Letras)
Buridan, de José-Augusto França (Quetzal)
A Contadora de Filmes, de Hernan Rivera Letelier (Presença)
O Livro dos Saberes, org. de Constantin von Barloewen (Edições 70)
A Empresa das Índias, de Erik Orsenna (Teorema)
O Meu Nome é Jamaica, de José Manuel Fajardo (Quetzal)
A Terceira Mãe, de Julieta Monginho (Campo das Letras)
O Seu Lado Clandestino, de Peter Carey (Dom Quixote)
Niketche, de Paulina Chiziane (Caminho)
João Sem Terra, de José Augusto França (Presença)
O Homem de Plasticina, de Manuel Manzano (Ulisseia)
A Magia dos Números, de Yoko Ogawa (Quetzal)
O Corpo Não Mente, de Joe Navarro (Estrela Polar)
A Talentosa Flavia de Luce, de Alan Bradley (Planeta)
1910 – uma antologia literária (Dom Quixote)
O Fim de um Mundo, Loretta Napoleoni (Presença)

As três perguntas

Warren Adler analisa as três perguntas fatais a que todos os escritores, mais tarde ou mais cedo, têm de responder.

Coisas terríveis em movimento

Ferrugem Americana
Autor: Philipp Meyer
Título original: American Rust
Tradução: Ester Cortegano
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 411
ISBN: 978-972-25-2283-0
Ano de publicação: 2011

A imaginária cidade de Buell, onde Philipp Meyer centra a ação de Ferrugem Americana, um dos mais aclamados romances de estreia dos últimos anos, fica no vale do Mon, a sul de Pittsburgh (Pennsylvania), em tempos um grande pólo industrial que produzia aço para todo o país, mas condenado ao declínio económico desde os anos 70. Uma a uma, as siderurgias fecharam as portas e «o vale entrou em colapso». As sirenes que assinalavam as mudanças de turno — com milhares de operários a sair das fábricas e outros milhares a entrar — calaram-se de vez. Os apitos já só se ouvem na memória dos nostálgicos: «apenas vinte anos antes, houvera tanta vida em Buell que era inconcebível, era impossível aceitar a ideia de que um lugar pudesse ser destruído tão rapidamente». Mas a decadência, vertiginosa, chegou mesmo. Tal como a miséria e o desemprego de longa duração. Por muito que pareça inconcebível, os EUA começam de facto a «andar para trás como nação, provavelmente pela primeira vez na História».
Meyer parte justamente daqui, deste «ignóbil» reverso do Sonho Americano. Não espanta por isso que as suas personagens pareçam (embora umas mais do que outras) condenadas à desistência e «a fazer tudo de maneira errada». Presas a uma cidade decrépita, de onde não puderam ou não quiseram sair, elas deixaram-se apanhar pelos «tempos sombrios». Na verdade, não pedem mais do que «uma vida com um pouco de dignidade», mas até isso parece um desígnio difícil de cumprir, quando a corrosão que devora as fábricas em ruínas se estende às relações sociais e aos pequenos gestos do quotidiano. A dada altura, alguém refere que em Buell há «coisas terríveis em movimento», só discerníveis quando já é «demasiado tarde».
Uma dessas «coisas terríveis» materializa-se numa tragédia, protagonizada por Isaac English e Billy Poe, amigos desde a escola secundária. Hoje com 20 anos, eles arrependem-se de terem ficado na terra natal, em vez de procurarem a sorte noutras paragens, como Lee, irmã de Isaac e ex-namorada de Poe, que se licenciou em Yale, onde encontrou o marido endinheirado. Se Billy, potencial estrela do futebol americano, ficou por vontade própria e casmurrice, recusando as bolsas de estudo universitárias que lhe ofereceram, Isaac foi vítima da escolha de Lee. Com a partida da irmã, ele teve de ficar a cuidar do pai, incapacitado por um acidente de trabalho na siderurgia e sozinho depois do suicídio inexplicável da mulher, cinco anos antes.
Quando o livro começa, Isaac, o melhor aluno do condado, planeia fugir para a Califórnia e dedicar-se à astrofísica. No bolso leva quatro mil dólares, roubados ao pai, e a disposição aventurosa de um «Jack Kerouac Júnior». Mas a ingénua odisseia descamba logo ao princípio. Enquanto tenta convencer o amigo Billy a fazer-lhe companhia, os dois são apanhados por uma bátega e abrigam-se numa velha fábrica abandonada. Chegam então três vadios que reclamam o espaço e Billy, incapaz de resistir a um confronto físico, faz-lhes frente. Resultado: um dos sem-abrigo acaba morto. A partir deste nó narrativo, a «coisa terrível» foi posta em movimento e não mais parará.
Em pânico, Isaac e Billy não avisam a polícia. Em vez disso, decidem seguir cada um o seu caminho. Isaac viajará escondido em comboios de mercadorias, antes de mergulhar numa espiral violenta: é espancado, assaltado, humilhado, perseguido, forçado a roubar em lojas, sujeito à fome e ao frio mais extremos. Billy é detido mas recusa-se a prestar declarações, para não incriminar o amigo, acabando numa cadeia de alta segurança, onde o seu mau feitio o incompatibiliza com os vários gangs de prisioneiros e o deixa marcado como alvo a abater.
Esta narrativa poliédrica não se fixa, porém, apenas nas descidas ao inferno, em paralelo, de Isaac e Billy. Há outras quatro personagens centrais, que vão assumindo à vez o protagonismo de cada capítulo: Lee; Grace, a desesperada mãe de Billy; Henry, o pai de Isaac; e Harris, o chefe local da polícia e amante intermitente de Grace, indeciso quanto à possibilidade de livrar Billy do sarilho em que se meteu (como já fizera anteriormente, num caso menos grave). Recorrendo com mestria à técnica do monólogo interior, Meyer entra na cabeça destas pessoas e acompanha os seus caóticos pensamentos, os raciocínios obsessivos, as dúvidas, angústias e medos, o sentido de lealdade e os dilemas morais (particularmente agudos no caso de Harris).
Ferrugem Americana pode ser lido como um romance pessimista sobre uma época e um lugar amaldiçoados, prestes a regressar ao «estado primitivo» em que é a natureza quem mais ordena. Mas, se lermos com atenção, apercebemo-nos do infinito cuidado e respeito que o autor dedica às suas figuras humanas, aos hérois possíveis desta história sem heroísmo. Mesmo quando mergulham nas trevas, há sempre nestes homens e mulheres um lampejo da tal «dignidade» a que aspiram até os proscritos entre os proscritos. Compreendemos então a escolha para epígrafe de uma frase de Camus, segundo a qual em tempo de pestilência aprendemos «que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar». Ela podia ser apenas uma inspiração. Mas é mais do que isso. É todo um programa.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

“the unbearable beauty and sense of time passing, of ageing itself”

No The Guardian, Esi Edugyan, um dos seis finalistas do Man Booker Prize, assina um breve texto sobre o impacto que lhe causaram os quadros de Lucian Freud.

Rui Lage no ‘Ler Mais Ler Melhor’ (RTPN)

Sobre o livro Um Arraial Português (Ulisseia).

Três poemas de Ana Luísa Amaral

A IMPOSSÍVEL SARÇA

Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer

Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita abençoada
mas de mais e cristã
também castigo

Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras

que não chegam
– mas cegam

***

PALIMPSESTO

Limpa o cesto bem limpo,
mas deixa lá ficar sombra ligeira:
essa primeira sílaba.
Sobre ela
podes encher o cesto com mais sílabas,
e até outras palavras.

Terás assim um cesto
que aos olhos de quem vê
é um cesto só teu,
onde escondeste as coisas
do costume dos cestos: flores, solidões,
rastilhos, bombas.

Foi limpo o cesto
aos olhos de quem vê,
mas tu sabes que não.
Que houve ali um momento de ladrão,
quando nele ficou
a sombra dessa sílaba.

E agora mostras
a toda a gente o cesto,
e não há sombra.
Há só a mão que surge
e pega no teu cesto,
o toma devagar.

E o olha com olhos de quem lê,
e o limpa muito limpo,
ao teu antigo cesto,
deixando lá no fundo,
disfarçada,
uma segunda sílaba.

***

GATO EM APONTAMENTO QUASE BARROCO E DE MANHÃ DE SÁBADO

Gentilmente curvado sobre a flor,
Percorre devagar nervura e centro.
E em tantos delicados argumentos
Vai avançando lentamente as folhas.

A cabeça pondera e repondera
Defronte a haste fácil, rente a terra,
E uma pedra minúscula e serena
Sobe no ar, acesa como fera.

Não conhece os segredos do soneto,
Sendo de ofício muito ignorado
A sua arte. E em curto minuete:

Uma garra afiada em pé de valsa,
Um dente a desdenhar a flor e a folha
E a cravar-se, feroz, na minha salsa.

[in Vozes, D. Quixote, 2011]

O cenário da GOLBB

No último sábado, ao fim da tarde, o miradouro do Monte Agudo estava assim:

No próximo sábado, a partir das onze da manhã, em vez de músicos e música, haverá livros e bibliófilos. Apareçam.

Dois aniversários

A Fonte de Letras, de Montemor-o-Novo, fez 11 anos de vida. A Capítulos Soltos, de Braga, fez dois. Parabéns a estas duas belíssimas livrarias.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges