Teaser

Encontro de gigantes, na próxima Ler.

Livros ‘espertos’

«Atria is publishing its first book to be equipped with a smart chip, the publisher announced Friday. Tapping the RFID-enabled sticker with an NFC-enabled smartphone will bring up a website with additional materials for the book. The debut smart book is “The Impulse Economy: Understanding Mobile Shoppers and What Makes Them Buy” by Gary Schwartz. Appropriate.»

World Shakespeare Festival

Começa a 23 de Abril de 2012.

Maravilhas da paternidade

Desde que lhe mostrei as folhas em leque e a árvore que se ergue, majestosa, num dos cantos da praça que fica em frente à casa da avó, o Pedro anda fascinado com a Gingko biloba.
Hoje, noutro ponto da cidade, ao ver à distância uma destas árvores, disse: «Olha, pai, uma longínquo biloba…»

Primeiros parágrafos

«Estava a descer as escadas de um prédio de cinco andares um pouco mais para leste da cidade; acabara de fazer uma visita à minha irmã mais velha e não fora uma visita agradável, pois ela tinha demasiados problemas, grande parte deles imaginários, o que não contribuía de modo algum para melhorar a sua situação. Eu nunca nutri especial afecto por ela, ela nunca me teve a estima que devia. Decidi fazer-lhe uma visita porque um dos seus problemas era bastante real: a minha irmã tinha caído e partido o fémur esquerdo.
Saí de casa dela com um misto de sentimentos contraditórios: por um lado, feliz por me escapar dali; por outro, irritado porque a minha irmã me tinha feito prometer que voltaria no dia seguinte.
Como referi, estava a descer as escadas e, exactamente entre o terceiro e o segundo andar, dei com um homem de alguma idade sentado a meio de um dos degraus, impedindo-me de passar. Tinha colocado um grande saco de compras entre ele e o corrimão, e, como prefiro não descer as escadas sem ter onde me agarrar, parei atrás dele. Dava a impressão de que não me tinha ouvido chegar, por isso passados alguns instantes disse-lhe eu:
– Posso ajudá-lo com alguma coisa?
Como não respondeu nem se virou, pensei que talvez fosse surdo ou, quando muito, duro de ouvido, pelo que repeti a pergunta, desta vez mais alto.
– Não, obrigado, não me parece.
Fiquei espantado, não pelo que respondeu, mas pela sua voz, que me soou familiar; era absolutamente característica, ao mesmo tempo grave e aguda, e muito expressiva. E contrastava de forma extraordinária com o aspecto gasto, quase esfarrapado das suas roupas.
Como a sua voz me levou a crer que o conhecia, e por isso que ele me conhecia a mim, sucumbi a um capricho de vaidade. Não lhe quis pedir que mudasse o saco de sítio, revelando assim como me tornara débil, de modo que larguei o corrimão e passei pelo outro lado. Correu bem, mas quando voltei a agarrar-me ao corrimão e me virei para ele, descobri que me equivocara. Nunca tinha visto aquele homem.»

[in Uma Vasta e Deserta Paisagem, de Kjell Askildsen, tradução de Mário Semião, Ahab, 2011]

Ruy Belo: Homem de Palavra[s]

Um colóquio internacional sobre o autor de Aquele Grande Rio Eufrates. Dias 3 e 4 de Novembro. Na Fundação Calouste Gulbenkian.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Crítica da Razão Cínica, de Peter Sloterdijk (Relógio d’Água), por António Guerreiro
365 Dias com Histórias da História de Portugal, de Luís Almeida Martins (Esfera dos Livros), por Anabela Natário
Como os Políticos Enriquecem em Portugal, de António Sérgio Azenha (Lua de Papel), por Cristina Figueiredo
Uma Vasta e Deserta Paisagem, de Kjell Askildsen (Ahab), por Pedro Mexia
Contos Sombrios, de Mónica Baldaque (Ulisseia), por Carlos Bessa

O que aí vem (ASA)

Em Novembro: Autobiografia, de Agatha Christie; Uma Menina de Boas Famílias, de Elizabeth Edmondson; Jesus, o Homem que era Deus, de Max Gallo.

Eu & Bobby Fischer

No final dos anos 80, a minha grande paixão era o xadrez. Todos os sábados, apanhava um autocarro da Rodoviária Nacional com destino ao subúrbios de Almada (isto é, a periferia da periferia), onde participava em campeonatos fracos, mas disputadíssimos, no humilde Clube Recreativo do Feijó. Não se pode dizer que as condições para a prática da modalidade fossem as melhores: lembro-me de um “torneio interno” ter coincidido com um campeonato de tiro, em salas contíguas. Ao regressarem aos tabuleiros, vindos da casa de banho, os xadrezistas tinham de esperar que os atiradores baixassem as armas. E o som dos disparos minava, tarde adentro, a capacidade de concentração de quem temia perder-se nos labirintos teóricos da Defesa Siciliana.
Nessa época, o meu herói era Garry Kasparov, cujas partidas acompanhava nas páginas inteiras que o vespertino A Capital dedicava todas as semanas ao xadrez, cheias de diagramas e análises do mestre Luís Santos (hoje recordo esse espaço de inteligência como um oásis efémero, rapidamente devorado pelo deserto da vulgaridade jornalística). Muitos anos mais tarde, pude jogar contra o mítico “ogre de Baku” numa simultânea no Estoril e o meu único prazer consistiu em adiar o golpe de misericórdia, a estocada final do antigo campeão, já na reforma mas ainda ferozmente competitivo. Antes de Kasparov, admirei Anatoly Karpov, cerebral campeão-tipo da escola soviética (li de fio a pavio o livro de capa verde, editado pela Caminho, com as “32 lições de xadrez” do match Karpov-Korchnoi pelo título mundial de 1978); e antes dele rendi-me a Alexandre Alekhine (russo branco que morreu em Portugal, engasgado com um pedaço de carne), capaz dos mais estrepitosos sacrifícios de peças, mesmo em jogos às cegas; e, antes ainda de Alekhine, houve o cubano elegantíssimo, José Raúl Capablanca, autor daquele que foi o meu primeiro livro de xadrez.
Deste panteão, curiosamente, nunca constou Bobby Fischer, talvez porque o único campeão mundial norte-americano acabou por sair de cena assim que venceu Spassky em Reiquejavique, poucos meses depois do meu nascimento, em 1972. Quando comecei a jogar mais a sério, Fischer era um fantasma, uma assombração, um paranóico incapaz de se encaixar no mundo. Reconhecia-lhe o talento puro e deleitava-me com as suas melhores partidas, mas não era capaz de o venerar. Depois veio o 11 de Setembro e as célebres afirmações de regozijo com os ataques aos EUA – a alegria de um sociopata ressentido com a pátria que renegou. Risquei-o de vez do meu mapa mental, até saber da sua morte na Islândia, em 2008, no fim de um longo processo de decadência e fuga que o levou até ao lugar onde conheceu a glória desportiva, esse zénite estupidamente desperdiçado.

Embora não seja grande leitor de biografias, algo me atraiu para o livro Endgame, de Frank Brady (Crown, 402 páginas, 2011). Talvez o quilométrico subtítulo: Bobby Fischer’s Remarkable Rise and Fall — From America’s Brightest Prodigy to the Edge of Madness. Quem não gosta de histórias de ascensão e queda? Quem resiste a figuras que estão no fio da navalha, entre génio e loucura? Em muitos aspectos, Bobby Fischer é como uma personagem de romance: grandiosa, iníqua, trágica. E a trajectória da sua vida – minuciosamente recuperada por Brady (um árbitro internacional de xadrez que conheceu de perto o objecto da sua biografia e teve acesso a vasta documentação) – mostra-nos como o rapazinho brilhante de Brooklyn, que respirou xadrez da infância à idade adulta, obcecado em tornar-se um dos melhores jogadores de sempre, descarrilou assim que cumpriu o seu desígnio, deixando-se levar por megalomanias insensatas, pela torpeza das teorias da conspiração e por um ódio anti-semita que o tornou, para sempre, odioso. O xadrez era a sua vida e ele desperdiçou ambos: o xadrez (que na prática abandonou antes de fazer 30 anos) e a vida. É uma história triste, tristíssima, mas atravessada por fugazes momentos de luz intensa. Como aquela partida maravilhosa que jogou aos 13 anos contra Donald Byrne (chamaram-lhe o “Jogo do Século”) e que está entre as coisas mais belas que alguma vez contemplei.

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Sístole e diástole

«Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido ao alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias.
O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo.
Nas crianças, nos três, o coração fazia a diástole, a via expressa estava aberta. O vaso dilatado não perturbou o curso da electricidade e o raio seguiu pelo funil da aorta. Sem afetar o órgão, os três tiveram queimaduras ínfimas, imperceptíveis.»

[in Os Malaquias, de Andréa del Fuego, Língua Geral, 2010]

Andréa del Fuego

Nasceu em S. Paulo, Brasil, em 1975. Publicou Minto enquanto posso (2004), Nego Tudo (2005), Engano seu (2007), Nego Fogo (2009) e Os Malaquias (2010). Fez publicidade e cinema. Escreveu vários blogues, mantendo actualmente um que leva o seu nome.

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À esquerda, com Nelida Piñon e Pilar del Río (juradas)

E o vencedor do Prémio José Saramago 2011 é…

Andréa del Fuego, com Os Malaquias.

Já não sabem o que hão-de inventar

Os blocos de post-it começaram por ter uma forma quadrangular, mas depois foram-se diversificando. Agora acaba de surgir este modelo:

Que nome dar às notas que se prendem ao pulso como um relógio? Pulsações?

Igreja Católica responde ao novo romance de José Rodrigues dos Santos

Arrasando-o de alto a baixo, claro. Involuntariamente, porém, fazendo-lhe a vontade: burburinho mediático é o que o sub-Dan Brown lusitano mais deseja. Neste momento, JRS deve estar inchadíssimo com a perseguição da Igreja, a única coisa que alguma vez teve (ou terá) em comum com Saramago.

RAP + ABB


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Prognóstico para logo à tarde

Cordilheira, de Daniel Galera (Caminho, 2010).

Despertares (3)

Mais aberturas de romance com despertares, desta vez sugeridas por leitores:

«Acordou, abriu os olhos. O quarto pouco ou nada lhe dizia; ele estava profundamente imerso na inconsciência donde acabara de vir.»

[O Céu que nos protege, Paul Bowles, trad. de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1989; sugerido por Rui Almeida]

«Elói está deitado. Amanhece. Ainda não abriu os olhos, mas, embora os abrisse, nada veria; a escuridão reina dentro do quarto. Neste momento deve debater-se na impossibilidade de saber se dorme ou se está acordado.»

[Elói ou Romance numa Cabeça, de João Gaspar Simões, Presença, 1932; sugerido por Hugo Pinto Santos]

Maravilhas da paternidade

Depois de duas semanas a desenhar a letra ‘i’, a Alice passou para o ‘u': «É bom, pai. Agora já posso escrever “ui”.» Ou seja, a primeira palavra escrita na sala de aulas é uma preparação para o sofrimento. Será que a Troika também andou a influenciar os programas do ensino básico?

Lançamento de ‘Uma Mentira Mil Vezes Repetida’


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O último romance de Manuel Jorge Marmelo, um dos melhores publicados este ano por autores portugueses, vai ser apresentado por Hélia Correia. Promete.

Despertares (2)

«Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso.»

[A Metamorfose, de Franz Kafka, trad. de João Barrento, Quasi, 2003]

«Bunny não acordou de uma só vez. Um som (de quê, não sabia) atingiu a superfície do seu sono e afundou-se como uma pedra. O sonho esvaeceu, deixando-o desperto, preso, na cama. Virou-se, impotente, e enfrentou o tecto. Tinha rebentado um cano durante o Inverno anterior, e agora via-se o contorno de um lago amarelo.»

[Vieram Como Andorinhas, de William Maxwell, trad. de Rita Almeida Simões, Sextante, 2011]

«A manhã encontrou Benoni prostrado, corpo distendido, na cama, num quarto do primeiro andar, agora batido pelo sol, um quadrado de luz sobreposto à brancura do lençol. O despertar não foi nem suave nem brusco. Dois braços esticados irromperam de baixo das cobertas, depois curvaram-se sobre a cabeça imóvel. Seguindo o percurso inverso, contraíram-se novamente, e novamente desapareceram de vista. Um pudor persistente constrangia os movimentos de Benoni, não só de manhã, mas principalmente de manhã. Um pudor perante o mundo, mas haveria ainda pudor se não houvesse mundo.»

[Benoni, de Alexandre Andrade, Editorial Notícias, 1997]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Dossier Man Booker Prize 2011, por José Mário Silva
Poemas Novos e Velhos, de Helder Macedo (Presença), por Pedro Mexia
Impressões de África, de Raymond Roussel (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
A Escavação, de Andrei Platónov (Antígona), por Mário Santos
– Revista Piolho n.º 6 (Edições Mortas), por António Guerreiro
Finta Finta, de Paola Rolletta (Texto), por Bruno Roseiro

Vozes sobre vozes

Comissão das Lágrimas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 326
ISBN: 978-972-20-4795-1
Ano de publicação: 2011

Não há nada mais violento do que reduzir a complexidade de um livro com mais de 300 páginas à formulação lapidar, mas necessariamente superficial, de uma sinopse com três ou quatro linhas. No caso dos romances de António Lobo Antunes, sobretudo os mais recentes, não se trata sequer de violência mas de impossibilidade. Dizer-se que Comissão das Lágrimas é sobre o horror vivido em Angola no período pós-independência, quando Agostinho Neto aproveitou o esmagamento da revolta «fraccionista» de Nito Alves, a 27 de Maio de 1977, para eliminar opositores (tanto fora como dentro do MPLA), equivale a resumir o romance anterior – Sôbolos Rios que Vão – à lenta agonia de um homem operado a um cancro, que enfrenta as suas desordenadas memórias e o espectro da morte numa cama de hospital. Os romances também são isto, claro, mas são sempre muito mais, infinitamente mais do que isto, porque Lobo Antunes abandonou há muito os modelos narrativos clássicos, trocando-os por uma praxis poética da ficção, em que a força torrencial da linguagem se sobrepõe a tudo, até à clareza e legibilidade das muitas histórias que convoca para as suas obras.
Num breve ensaio sobre um livro anterior, de 2008, publicado no volume António Lobo Antunes: A Arte do Romance, organizado por Felipe Cammaert (Texto, 2011), o filósofo José Gil escreve: «O que é O Arquipélago da Insónia? Não uma narrativa, nem linear nem descontínua. Mas uma imensa colagem de imagens, de cenas, (…) recordações não de um só mas de múltiplos tempos cronológicos. E em cada um destes pode surgir um outro tempo, alguém que se lembra subitamente de um gesto ou de coisas num outro tempo do passado; então a recordação salta para um plano diferente da memória, como uma lembrança de uma lembrança, muitas vezes sem nenhuma ligação com a narrativa que interrompeu. São ilhas de tempo que se conectam pelo poder hipnótico da bruma que a escrita segrega.» A descrição aplica-se, palavra por palavra, a Comissão das Lágrimas. Está tudo lá: a «imensa colagem» de imagens e cenas, os mecanismos da memória, as «ilhas de tempo», o «poder hipnótico» da linguagem, até a «bruma» que torna difusos os meandros dos percursos individuais.
O espaço narrativo coincide com a mente caótica de Cristina, uma mulher que ouve vozes e está internada numa clínica: «as coisas passam-se dentro de mim, não fora». A matéria do livro é por isso, em sentido estrito, uma alucinação. Cristina torna-se o veículo das vozes alheias que «se acotovelam, vociferando ou lamuriando-se», um círculo de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», figuras que a manipulam e confundem: «aproximam-se-me do ouvido, pegam-me no braço, empurram-me, surge uma cara e logo outra se sobrepõe discursando por seu turno, às vezes não discursos, segredos, confidências». No corpo do texto, sincopado e tenso, os narradores interrompem-se, coalescem, tal como os tempos e lugares se misturam e prolongam uns nos outros. Há no que se conta um alto grau de incerteza (por exemplo, a mãe, cujo nome oscila entre Alice e Simone, trabalhou numa fábrica/modista/escritório). O estado natural das coisas é a derrocada, das «lembranças que se emaranhavam trocando de sítio» aos episódios «que ao julgar apanhá-los se escapam». No limite, a única certeza é a dúvida (e a suspeita de que pode ser «tudo mentira»).
Das muitas vozes que irrompem no delírio de Cristina, há duas que se destacam. A da mãe, branca, corista decadente, sofrendo em África com as saudades da província portuguesa de onde veio (mesmo se parte das suas memórias são traumáticas: violações, abusos, miséria). E a do pai, negro, que andou no seminário, foi padre, mas depois abandonou Deus. É ele o eixo central da narrativa. Para vingar a humilhação da mãe, em tempos posta de joelhos, submissa, no chão da cozinha de um chefe de posto, aceita fazer parte da Comissão das Lágrimas, que interrogou, torturou e condenou sumariamente à morte milhares de pessoas, tanto na Cadeia de São Paulo, onde se lançavam granadas para dentro de cubículos cheios de prisioneiros, como em Quibala, onde as vítimas cavavam as fossas em que depois eram sepultadas. A culpa, essa, continua intacta trinta anos depois, no apartamento lisboeta com marquise virada para o Tejo e vidros opacos, um refúgio tão precário como o eterno jogo de xadrez atrás do qual se esconde, porque ele sabe que um dia os fantasmas da História lhe hão-de bater à porta para o fazer pagar pelos seus crimes.
À semelhança dos outros romances da última década, há em Comissão das Lágrimas uma estrutura musical (temas, variações, estribilhos, ritornelos) que permite abordá-lo como uma «partitura literária», para usar a expressão de Catarina Vaz Warrot (num ensaio sobre o «texto como tecido sonoro», incluído no volume citado mais acima). Volta igualmente a verificar-se uma espécie de auto-consciência da ficção: «se as vozes não voltam não se escreve este livro»; «não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se e eu a perguntar-me quais as que devo dar a vocês, não tenho tempo para decidir, escolham».
Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é também aqui que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo se maravilhados). Nas palavras de José Gil, o «poder entrópico» desta «grande máquina formal de escrita» é tão grande que corre o risco de «devorar toda a substância, toda a vida das personagens e dos acontecimentos». Mas enquanto Lobo Antunes não perder as suas qualidades de prosador magnífico – capaz de descrever Luanda como «uma gaveta de facas sempre aberta», uma cidade «que incha e se contrai numa cadência de punho, as avenidas elásticas, os edifícios moles, a Muxima para diante e a arredar-se depois, exprimindo, só para ela, o que eu não entendia» –, enquanto continuar a escrever com um fôlego e um fulgor sem paralelo na literatura portuguesa contemporânea, esse é um risco que vale a pena assumir.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Despertares

Não sei se há estudos estatísticos que o comprovem, mas parece-me que a situação mais vezes descrita na abertura de um romance é o acto de acordar (cf. post anterior).

Primeiros parágrafos

«Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.»

[in Claraboia, de José Saramago, escrito em 1953 e editado pela Caminho em 2011]

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Podemos ser astronautas e ilusionistas ao mesmo tempo?»

Uma leitura colectiva das ‘Novas Cartas Portuguesas’


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A 25 de Outubro de 1973, num teatro parisiense, foram lidos pela primeira vez excertos das Novas Cartas Portuguesas (de Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta). Quase quatro décadas depois, o livro, recentemente reeditado com anotações de Ana Luísa Amaral, vai voltar a ser lido em voz alta, no dia 25, pelas 18h30, no Centro de Cultura e Intervenção Feminista.

O que aí vem (Dom Quixote)

Livros para Novembro: Anatomia dos Mártires, de João Tordo; Vida e Destino, de Vassili Grossman; Contos Completos, de Gabriel García Márquez; Ave de Mau Agoiro, de Camilla Lackberg; Gaspar, Belchior e Baltazar, de Miguel Tournier; Explicação dos Pássaros, de António Lobo Antunes (reedição comemorativa dos 30 anos do livro).

Blogue de poeta

O do Amadeu Baptista.

E o vencedor do Man Booker Prize 2011 é…

Julian Barnes. Só podia ser. Prémio justíssimo. À quarta foi de vez.

Man Booker Prize – um prognóstico

Terminada a leitura dos finalistas do Man Booker Prize em cima da meta (o vencedor é anunciado logo à noite), eis a minha avaliação da shortlist:

1. The Sense of an Ending, de Julian Barnes
2. The Sisters Brothers, de Patrick DeWitt
3. Jamrach’s Managerie, de Carol Birch
4. Half-Blood Blues, de Esi Edugyan
5. Snowdrops, de A.D. Miller
6. Pigeon English, de Stephen Kelman

Importa ainda sublinhar que o livro de Julian Barnes é claramente o melhor dos seis. Se não ganhar o prémio, será uma injustiça of huge proportions.

A longa espera

Perder Teorias
Autor: Enrique Vila-Matas
Título original: Perder Teorías
Tradução: Jorge Fallorca
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 87
ISBN: 978-989-97474-0-1
Ano de publicação: 2011

Em Dublinesca, o seu último romance, Enrique Vila-Matas acompanha os impasses e cogitações de um editor da velha guarda (ou seja, daqueles que «ainda lêem») nestes tempos de euforia com os suportes digitais, que a ele, Samuel Riba, só prenunciam o declínio definitivo da literatura e umas sombrias «exéquias da galáxia Gutenberg». Ironicamente, esse espantoso livro foi publicado em Portugal no início deste ano pela Teorema, poucas semanas depois de Carlos Veiga Ferreira se ter afastado de vez, e não sem amargura, daquele que foi o projecto editorial da sua vida — um pouco à semelhança do que acontece a Riba, com quem partilha não só o percurso profissional como uma certa mundividência. Mais irónico ainda é verificar que o regresso de Veiga Ferreira à edição, com a Teodolito (chancela da Afrontamento), se faz justamente com uma novela de Vila-Matas que é uma espécie de extensão ou «anexo» ensaístico de Dublinesca. Coincidência ou justiça poética? Talvez ambas, muito ao jeito do que costuma acontecer nas obras do escritor catalão.
Perder Teorias começa com a chegada de um alter ego de Vila-Matas a Lyon, para participar num encontro internacional de literatura «sobre as relações entre a ficção e a realidade». O escritor, transportado por um taxista português algo «burgesso», que só recebeu a carta de condução há três dias e a quem ele explica que «nós, a humanidade, não seríamos nada sem a linguagem», descobre, ao chegar ao hotel, que a organização se esqueceu de o receber. Incógnito e resignado ao papel de «alguém que espera», fecha-se no quarto e aproveita o tempo livre para esboçar uma teoria geral do romance no século XXI, assente em elementos «irrenunciáveis» e «imprescindíveis», como a «”intertextualidade” (escrita assim, entre aspas)», as ligações com a grande poesia, a prevalência do estilo sobre a trama (tendo como mote uma frase de John Banville: «O estilo avança dando passos largos triunfais, a trama caminha atrás, a arrastar os pés») ou a «consciência de uma paisagem moral nociva».
A principal referência para esta teorização é o romance O Mar das Sirtes, em torno do qual o narrador se demora, vendo nele um precursor das tendências narrativas actuais, na medida em que o livro de Julien Gracq, embora publicado em 1951, soube «pressentir» e percepcionar o futuro. Trata-se de uma obra que «não se alimenta apenas dos materiais que a vida lhe proporciona, mas como que também cresce, misteriosamente, sobre outros livros». Uma característica, bem o sabemos, do próprio Vila-Matas, que não deixa aqui de «crescer» sobre textos e ideias de Kafka, Rimbaud, Charles Simic ou Ricardo Piglia.
O tema central de Perder Teorias é a reflexão, nada exaustiva e razoavelmente desconfiada, sobre o «sentido da espera nessa longa espera que é a vida». Sempre à deriva, caótico, selvagem, divertido, Vila-Matas faz deste seu livrinho vermelho uma defesa da importância de construirmos teorias explicativas, nem que seja para as abandonarmos à primeira oportunidade, em troca da «grande liberdade do espírito vago, disponível para tudo menos para outra teoria».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

E o vencedor do Prémio LeYa 2011 é…

João Ricardo Pedro, com o romance O Teu Rosto Será o Último (informação enviada via SMS por Luís Ricardo Duarte, a quem agradeço).
João Ricardo Pedro tem 38 anos, é licenciado em Engenharia Electrónica e vive em Lisboa.
O júri esteve dividido mas acabou por tomar uma decisão consensual.

Novas Vozes

Na próxima quarta-feira, dia 19, a Casa Fernando Pessoa organiza uma sessão de leitura de “Novas Vozes da Poesia” no Hotel da Estrela (Rua Saraiva de Carvalho, Campo de Ourique). Participam, lendo os seus poemas, Filipa Leal, Golgona Anghel, Margarida Ferra, António Carlos Cortez, José Mário Silva e Pedro Mexia. A partir das 21h30. Apareçam.

Primeiros parágrafos

«Naquele dia 25 de Junho, por volta das quatro da tarde, tudo parecia pronto para a coroação de Talu VII, imperador do Ponukelé, rei do Drelchkaff.
Apesar do Sol declinante, o calor sufocava naquela região de África, vizinha do Equador, e cada um de nós sentia-se duramente incomodado pela tempestuosa temperatura que a brisa não conseguia alterar.
Diante de mim, estendia-se a enorme Praça dos Troféus, situada no coração de Ejur, imponente capital composta por inúmeras palhotas e banhada pelo Oceano Atlântico, cujos longínquos bramidos podia ouvir à minha esquerda.
O quadrado perfeito da esplanada estava delimitado por uma fileira de sicómoros centenários; as armas, profundamente enterradas na casca de cada tronco, sustinham cabeças cortadas, ouropéis, adornos de todos os géneros, ali amontoados por Talu VII ou pelos seus antepassados no regresso de muitas campanhas triunfais.»

[in Impressões de África, de Raymond Roussel, trad. de Júlia Ferreira e José Cláudio, Relógio d’Água, 2011]

De volta a casa

Aeroporto da Portela. Lisboa. Uns dias depois. O mesmo calor. Uma crise (ainda) pior.

Imagens da Feira

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Comissão das Lágrimas, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo, António Guerreiro, Clara Ferreira Alves, José Mário Silva e Pedro Mexia
Ferdydurke, de Witold Gombrowicz (7Nós), por António Guerreiro
A Mulher do Tigre, de Téa Obreht (Presença), por Hugo Pinto Santos
A Hora da Morte dos Pássaros, de Ignacio Martínez de Pisón (Teorema), por Vítor Quelhas
Perder Teorias, de Enrique Vila-Matas (Teodolito), por José Mário Silva
Xanana – Uma Biografia Política, de Sara Niner (Dom Quixote), por Cristina Peres
O Grande Livro dos Medos e das Birras, de Mário Cordeiro (Esfera dos Livros), por Luís M. Faria
Do Eu Solitário ao Nós Solidário, de Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco (Verso de Kapa), por Rosa Pedroso Lima
Guerreiro Verde, de Filipe Garcia (Livros d’Hoje), por Hugo Franco

Coincidências

No mesmo eléctrico em que vi um senhor a memorizar caracteres chineses, calhou ler esta passagem do romance The Sisters Brothers, de Patrick DeWitt: “I opened a window and leaned out into the salty air. The hotel was located on a steep incline and I watched a group of Chinese men, in their braids and silk and muddy slippers, pushing an ox up the hill. The ox did not want to go, and they slapped its backside with their hands. Their language was something like a chorus of birds, completely alien and strange, but beautiful for its strangeness.”

Confirmado: IVA dos livros não aumenta

No meio de tanta desgraça, valha-nos isso.

Quando eu quis ouvir Umberto Eco e não me deixaram

Umberto Eco foi hoje convidado para o Sofá Azul, na Feira do Livro de Frankfurt. As perguntas eram feitas em alemão, por um jornalista alemão. O escritor respondia em italiano, mas o som da sua voz era quase imperceptível. Através das colunas de som, viradas para o público (numeroso), só se ouvia a tradução simultânea… em alemão. Ao fim de cinco minutos, fui-me embora. Eu e uma parte significativa dos espectadores.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges