As más notícias chegam a todo o lado

Ontem, estávamos nós a jantar num restaurante chamado Utopia (nome que logo se tornou tristemente irónico) quando da pátria chegaram relatos apocalípticos sobre o discurso à nação do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. À distância, pareceu-nos ouvir distintamente o som de um país em colapso. E ficámos com pena de não poder antecipar o regresso, porque queríamos mesmo muito chegar a tempo da grande manifestação de amanhã.

Anúncio do Prémio LeYa no dia 18 (horas antes do Man Booker)

O Prémio LeYa, no valor de 100 mil euros, será anunciado terça-feira, cerca das 13h00, imediatamente após a deliberação do júri. Resta saber se este ano haverá algum finalista distinguido, algo que não aconteceu em 2010.

Secretário de Estado da Cultura garante que o orçamento da DGLB vai ser duplicado

Durante a visita ao stand da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, ontem à tarde, Francisco José Viegas declarou ao Público que a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) reforçará a política do livro com um aumento da dotação orçamental da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas “seguramente superior a 100 por cento“, embora não se possa para já quantificar o montante. O reforço servirá para pagar dívidas aos municípios relativamente a bibliotecas e para apoio à tradução de obras de autores portugueses no estrangeiro.

Representação portuguesa em Frankfurt

Os Booktailors já a documentaram fotograficamente no seu blogue, não vale a pena estar aqui a chover no molhado.

Imagens da Feira

O melhor título para um debate com que me deparei em muito tempo

Of literary bastards with their roots in the air. Aconteceu ao fim da manhã, num recanto relativamente obscuro do Hall 4.

A conta-gotas

Eis as duas principais dificuldades de um blogger na Feira de Frankfurt: escasso e incerto acesso à internet; manifesta falta de tempo (ou blogas ou deambulas pelos imensos pavilhões). A actualização prosseguirá portanto em ritmo lento. É pouquinho, bem sei, mas é o que se pode arranjar.

Errata

Onde se lê Jesus, leia-se Dan Brown.

O futuro

No eléctrico em que viajo para a Feira, um senhor bem vestido ia encostado à janela, concentradíssimo na leitura de um livro de capa clara. Olhava fixamente para as páginas durante 15 segundos, depois fechava o livro, contemplava o tecto da carruagem, murmurava qualquer coisa muito baixinho, voltava a abrir o livro, a olhar fixamente para as páginas durante 15 segundos, a fechar o livro, a contemplar o tecto da carruagem, a murmurar qualquer coisa muito baixinho, etc. Quando se preparou para sair, vi finalmente o título da obra: Learning Chinese Characters.

Um vislumbre da exposição da Islândia (país convidado da Feira de Frankfurt)

Não há livros, há leitores (projectados em ecrãs gigantes, na solidão silenciosa da leitura).

Três poemas de Ana Paula Inácio

Ó CÉSAR

não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soup
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer

***

Diz B. Moser em ‘Clarice Lispector – Uma vida’
que a felicidade para CL era clandestina,
página em que parei a minha leitura e
me interroguei se havia de cortar o cabelo
com risca ao meio ou ao lado,
eu a quem só restava a literatura,
que durante uma vida inteira recusara,
como suprema ironia
como a fava do bolo,
nesta quadra
em que o teu rosto já não é uma paragem obrigatória;
nesta mentira em que me enfio
como a calça curta do dandy
ou a jaqueta do paletó do José Mauro de Vasconcelos,
os poetas sempre ficaram melhor no retrato
do que na vida.

***

66-12-ZZ

Como um velho comerciante de carros falido
parecias saído de um filme de Tarantino.
Com as minhas plumas em forma de asas
e a maquilhagem de anjo doente
parecia saída de um filme de Wenders caído.
Relativamente às plumas, em forma de asas,
trazia os cálculos anotados
da distância a manter do Sol
e a imagem de Ícaro em chamas.
Mas naquele dia tudo correu mal.
O que poderíamos fazer de diferentes filmes saídos?
E choveu.
E o nevoeiro nem um cometa deixou ver.
A minha maquilhagem desfez-se,
confundiu-se com os veios das plumas
que se colaram à minha coluna vertebral
como um colete de forças.
E tu velho comerciante
já não me pudeste enganar
e vender um artefacto voador
por um coração ferido

[in 2010-2011, Averno, 2011]

A ‘baleia’ branca

Por fora:

Por dentro:

Aqui de Frankfurt

Pelo que me dizem, há muito menos gente na Feira do que nos últimos anos. Menos editores, menos agentes literários, menos pessoas a percorrem os intermináveis pavilhões. É a crise, em todo o seu negro esplendor.
Ainda assim, para quem aqui chega pela primeira vez, como eu, o gigantismo da Feira impressiona. Só o centro de imprensa, uma espécie de baleia estilizada, branquíssima por fora e por dentro, é maior do que muitos centros de exposições que já visitei noutros lados. Pena é que as ligações à internet wireless estivessem todas em baixo durante a manhã (problema entretanto resolvido com a proverbial eficiência germânica).
Uma visita à APEL e já me cruzei com vários editores veteranos: Zeferino Coelho (Caminho), Vasco Teixeira (Porto Editora) e Carlos Veiga Ferreira (Teodolito).
Foi justamente Veiga Ferreira a dar-me a primeira notícia digna de nota desta Feira, no que aos livros comprados para Portugal diz respeito. «Quer saber uma coisa em primeira mão?», atirou-me. «Então cá vai: acabo de comprar o próximo romance do Enrique Vila-Matas, que ele entregou agora ao editor espanhol e deve ser publicado em Espanha na Primavera de 2012.» Título: Aire de Dylan (Ar de Dylan). Bob Dylan, entenda-se. «Eu ainda perguntei se não seria o Dylan Thomas», diz CVF, «mas não, parece que ele se está mesmo a referir ao cantor».

PS – O tradutor do novo livro de Vila-Matas, Jorge Fallorca, adiantou entretanto, nos comentários a este post, que o título vai ser À Dylan. Pinta de Dylan também não ficaria mal.

Carne e voragem

Adornos
Autora: Ana Marques Gastão
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 79
ISBN: 978-972-20-4699-2
Ano de publicação: 2011

Neste livro de poesia, o seu sexto, Ana Marques Gastão fez corresponder a cada uma das partes um dos cinco sentidos: visão (Antevisão), tacto (O rapto), audição (Ondulações), olfacto (Inflorescências) e paladar (Confeitos). Esta é uma poesia sensorial, ágil e depuradíssima. Em vez de meros efeitos sinestésicos, porém, o que se busca é justamente o que os sentidos não conseguem apreender, a «invisível presença», o «indeterminado» que «se determina / pelo correr do tempo».
Para o sujeito poético, a escrita é «uma valsa, / blusa sem alça, / fractura d’um salmo / que amacio no papel». Aqui, imperam os ritmos puros e os movimentos aéreos (como passos de dança), a sintaxe elástica, as aliterações e rimas bruscas, a esquiva beleza que nasce do entrelaçar de elementos opostos. O mundo «não é senão / sonho, íris, degrau»; a vida «véu ou tocha», «tafetá ou monstro». À poesia – lunar, espectral, «neptúnica», feita de ressonâncias, turbilhões e quedas – cabe estabelecer a «sinapse sinopse / dum saturado real». Saturado ao ponto de exigir uma transubstanciação, o deslocamento do sujeito para outro plano, a manifestação de um desejo «corporeamente espiritual» («quando o rosto se expõe de tão oculto»).
Estas complexas metamorfoses simbólicas tornam por vezes os poemas algo crípticos, atravessados por imagens bizarras, barrocas, como que caídas neste nosso tempo vindas de outro século. Mas nunca Ana Marques Gastão esteve tão perto da exactidão formal a que todos os poetas aspiram: «Anda, suporta teu corpo de ferida / cicatriz ou nome, és esqueleto bravio / carne e voragem, sino que ressoa, / te ensurdece e desmorona».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘Escritaria’ dedicada a Mia Couto

Dias 15 e 16, em Penafiel.

Destino: Frankfurt

Daqui a nada, estou ali.

Prémio PEN Clube de Ficção para Pedro Rosa Mendes

O escritor e jornalista foi distinguido pelo romance Peregrinação de Enmanuel Jhesus (Dom Quixote). Na poesia, ganhou Jaime Rocha, presumo que com Necrophilia (Relógio d’Água) – a notícia é omissa. O prémio para romance de estreia coube a André Gago, por Rio Homem (ASA).

‘Ler no Chiado’ sobre literatura para os mais pequenos

É na quarta-feira:


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E se o IVA dos livros sobe?

É melhor nem pensar nisso. Caso o próximo Orçamento do Estado contemple uma subida do IVA para os livros (hoje nos 6%), a maioria das editoras portuguesas, já de si em grandes dificuldades económicas, arrisca o naufrágio completo.

Prémio José Saramago anunciado no dia 25

O vencedor do Prémio José Saramago 2011 será revelado no próximo dia 25, pelas 18h30, no edifício-sede do Grupo BertrandCírculo, em Lisboa. O prémio, atribuído de dois em dois anos, distingue autores que tenham até 35 anos (inclusive) e obra de ficção (romance ou novela) editada em língua portuguesa.
Nas seis edições anteriores, foram premiados Paulo José Miranda (1999), José Luís Peixoto (2001), Adriana Lisboa (2003), Gonçalo M. Tavares (2005), Valter Hugo Mãe (2007) e João Tordo (2009).

Queres ser Américo?

O verdadeiro ator
Autor: Jacinto Lucas Pires
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 190
ISBN: 978-972-795-321-9
Ano de publicação: 2011

Terceiro romance de Jacinto Lucas Pires, O verdadeiro ator é uma narrativa que está continuamente a desdobrar-se numa espécie de hipertexto. No percurso de Américo Abril, um actor desempregado e com a vida em pantanas, abrem-se sucessivas janelas com histórias perpendiculares à trama principal: sequências oníricas, memórias antigas (infância, adolescência), breves ficções dentro da ficção (cenas de um filme, romances lidos pelo protagonista, sinopses de espectáculos teatrais hipotéticos). Este material paralelo faz sentido, mas há talvez excesso de sequências oníricas e défice do resto. Todos os escritores sabem que contar sonhos atrás de sonhos é um risco. No monumental 2666, Roberto Bolaño correu esse risco e saiu ileso. Já Lucas Pires não pode dizer o mesmo.
Na verdade, a insistência no relato dos sonhos (com a sua inevitável carga simbólica) acaba por ser redundante, porque o livro corresponde, no seu todo, a um enorme pesadelo. Logo nas primeiras páginas, Américo é convidado a participar numa produção cinematográfica internacional de grande orçamento: um filme intitulado Queres ser Paul Giamatti, no qual interpretará justamente o papel daquele «tipo cómico que fez aquele filme cómico sobre o vinho na América», desta vez às voltas com questões de identidade num enredo muito ao estilo de Charlie Kaufman (o argumentista de Queres ser John Malkovich?). Preso dentro de um jogo de vídeo chamado Estar Vivo, o protagonista de Sideways descobre que só ultrapassando os vários níveis se aproximará do seu verdadeiro eu: «Para ser cada vez mais ele (e, presume-se, conseguir sair do jogo e regressar ao mundo cá de fora), o nosso protagonista Giamatti tem de ir resolvendo os problemas à sua volta, ganhando consciência dos seus dons e limites.»
Ora o que acontece a Américo na vida real é muito semelhante a esta busca de si mesmo. Nos vários planos da existência (enquanto marido, pai, amante, amigo, filho, profissional e cidadão), ele está longe de ser exemplar. Mas se Giamatti, no filme, vai sempre subindo de nível, no seu caso as coisas descarrilam de vez, sobretudo após o homicídio de Carla Bruna (o nome é um achado), prostituta de luxo que lhe servia de escape a um casamento asfixiante. A partir daí, a deriva de Américo torna-se tão grotesca que ele próprio se convence da sua irrealidade. Tudo não passaria de uma performance muito rebuscada, «uma espécie de instalação-em-processo», feita de simulacros, obedecendo ao grande «mecanismo da ilusão».
Entretanto, à medida que Américo se dissolve, o país está em acelerada mudança. O avolumar das tensões sociais conduz a uma revolta pacífica, um «caos magnífico», em que uma multidão compacta invade a Assembleia e sobe à tribuna, propondo soluções para o «problema português». Infelizmente, Lucas Pires desiste logo de acompanhar o modus operandi e as consequências desta revolução sem ideologia, preferindo trazer para o primeiro plano a investigação policial à morte de Carla Bruna. Aliás, o problema do livro está precisamente na frágil articulação dos materiais que o compõem. O verdadeiro ator oscila entre registos muito diferentes – com predomínio da ironia e da sátira feroz (as páginas sobre os tiques da classe média ou sobre o mundo das artes são divertidíssimas, de antologia) – mas nem sempre esses registos encaixam bem uns nos outros. Quanto ao final ambíguo, faz lembrar uma das personagens secundárias, cujo sorriso não se vai «desfazendo aos poucos», como é suposto, antes «cai todo de uma vez».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

Lançamento de ‘Vozes’

O novo livro de Ana Luísa Amaral, Vozes (Dom Quixote), vai ser apresentado por Joana Matos Frias amanhã, dia 11, no auditório do Planetário do Porto, a partir das 18h30. Haverá leitura de poemas por Teresa Coutinho, Pedro Lamares e pela autora. Tendo em conta o lugar em que o lançamento decorrerá, espera-se que no recital seja incluída a belíssima sequência sobre Galileu na sua torre.

Maravilhas da paternidade

O Pedro a brincar com o conteúdo da caixa Playmobil que o tio lhe ofereceu:

– Isto é uma árvore que não dá frutos, dá animais.

Três poemas de João Silveira

uma mesa acesa, a vela ao centro.
a madeira, a voz range nas persianas como vento,
alguém fala nesse sítio, sussurrando.
o vento rangendo folhas, madeira,
há um portão chorando entre ervas altas,
secas, castanhas,
embaladas numa voz que murmura

os mortos ainda um nome
os mortos ainda um cheiro
os mortos com a roupa de domingo

percorrendo paredes,
movendo dedos em persianas,
o vento cria árvores largadas na terra
e alguém repete qualquer coisa,
alguém imita uma palavra,
alguém fala como fotografias
e um portão gemendo aberto às ruínas,
ao pó dos brinquedos, dos livros e cartas,
alguma roupa para sempre esperando o corpo,
um minúsculo resto de perfume,
uma tesoura negra,
uma máquina de costura.
a madeira estala,
o fogo estala
recordando os cantos exactos do silêncio
ao longo das paredes,
no quarto,
na porta que dará para um largo de plátanos.
os olhos em fotografias que sorriem
e lembram qualquer coisa aveludada:

um rádio rasgando estática, baixinho.

***

as árvores continuam mortas
e, por vezes, vêem-se garças junto aos carros.
ainda há crianças que brincam no ar
e há também um homem em álcool,
destruído contra a vitrina de uma galeria de arte.
há novas mãos enlaçadas
e novos mundos prestes a explodir junto ao mar.
há livros geniais
e há também um homem a comer fruta podre
encarando um restaurante.
há preços a pagar
e segredos que, com as garças,
permanecem junto aos carros.
há tempo de nascer e morrer

e é tudo tão real.
e tudo apenas atrás dos meus olhos.

***

Lisboa a largar-se ao céu em braços e cabelos
que poderiam também ser estrelas,
poderiam ser casas caídas em ruas cujo nome não sei,
poderiam ser nesse mesmo instante
uma palavra nunca dita a tempo
ou os dedos que se perderam em afectos
numa pele sem destino aparente
e dir-te-ia
‘meu amor’
julgando cabelos e dedos magros compridos
que afinal estrelas e um reflexo incrível sobre o rio,
Lisboa submersa largando-se em tons azuis,
dir-te-ia todas as mentiras,
todas as que se conjugassem numa só noite
e num só corpo.

[in Dever/Haver, de João Silveira, Artefacto]

Saramago na Best books of the month da Amazon

Na escolha dos «melhores livros» de Outubro feita pela equipa editorial da Amazon constam nomes como Haruki Murakami, Jeffrey Eugenides, Michael Ondaatje e José Saramago, com a edição norte-americana de Caim.

Uma das razões por que a França eliminou a Inglaterra no Campeonato do Mundo de Râguebi

As patilhas de Maxime Médard. Nada como um personagem de romance oitocentista para dar sentido e panache ao belo jogo de uma selecção que estava a ser arrastada, ingloriamente, pela mediocridade do seu treinador principal.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Grande Inquisidor, de João Magueijo (Gradiva), por Virgílio Azevedo
O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China), por Pedro Mexia
Os Crimes dos Viúvos Negros, de Isaac Asimov (Ulisseia), por José Guardado Moreira
Um Mundo Iluminado, de Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly (Lua de Papel), por Ana Cristina Leonardo
Rasto Negro de Sangue, de Joseph O’Neill (Bertrand), por Ana Cristina Leonardo
Adornos, de Ana Marques Gastão (Dom Quixote), por José Mário Silva
Lérias, de Miguel Martins (Averno), por Hugo Pinto Santos
Diamantes de Sangue, de Rafael Marques (Tinta da China), por Anabela Campos

E na secção Ideias e Debates:
O Pensamento Português Contemporâneo, 1890-2010 – O Labirinto da Razão e a Fome de Deus, de Miguel Real (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por António Guerreiro

Mais sete poemas de T. T.

Em inglês, aqui.

A imprensa de referência e o Nobel de Literatura

Todos os anos, no dia seguinte à atribuição do Nobel de Literatura, faço um pequeno exercício na banca dos jornais: «Ora deixa cá ver quem é que chamou o escritor nobelizado para a primeira página e quem é que o ignorou.»
Escusado será dizer que o Correio da Manhã, por exemplo, nunca faz qualquer referência. Ainda se o escritor fosse um assassino, um pedófilo ou um ponta-de-lança do Benfica, talvez se arranjasse um espacinho. Agora alguém que escreve livros, essas coisas aborrecidas, é óbvio que nunca terá lugar numa capa tablóide.
Durante muito tempo, verifiquei uma espécie de lei universal que permitia separar os jornais de referência do resto da imprensa. Os jornais de referência são os que fazem chamada de capa com o Prémio Nobel de Literatura ou com os grandes escritores, quando morrem. Há uns anos, para minha tristeza, o Diário de Notícias começou a esquecer o Nobel literário. O Público, esse, nunca falhava.
Ora neste ano da graça de 2011, para meu grande espanto, aconteceu o contrário: Tomas Tranströmer está na capa do DN (com foto e tudo; embora para isso contribua, estou certo, o facto de o poeta sueco ter escrito sobre Lisboa), mas nem sombra dele na capa que o Público dedica quase na íntegra a Steve Jobs. Não deixa de ser sintomático (e preocupante).

“Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja”

O poema que num post anterior Tomas Tranströmer lê em sueco (língua incompreensível, estou certo, para 99,99% dos leitores deste blogue) foi ontem mesmo traduzido pelo incansável Luís Costa, autor de um ensaio muito interessante sobre a poética de Tranströmer, publicado em Novembro de 2007 na revista online Agulha.
Eis a versão portuguesa de Madrigal:

«Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o dia em que os mortos e os vivos trocam os seus lugares. Então, a floresta põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera, o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.»

Um breve depoimento (áudio) sobre o Nobel de hoje

Aqui.

‘Madrigal’

Tomas Tranströmer lê um poema de Tomas Tranströmer.

Lá na ilha

Em 2007, Doris Lessing soube do Nobel quando chegou a casa, com os sacos das compras, e viu uma multidão de jornalistas à sua porta. Normalmente, os vencedores são avisados por telefone. Mas Tranströmer vive numa ilha, longe de tudo, propositadamente isolado do mundo. Sem jornalistas à porta, terá atendido o telefonema de Estocolmo? Ou será que olhava as árvores a andar «de aqui para ali sob a chuva» e foi preciso alguém murmurar-lhe ao ouvido que o grande mundo está, finalmente, de olhos postos nele?

Quatro poemas de Tomas Tranströmer

Em Fevereiro deste ano, o poeta João Luís Barreto Guimarães publicou no seu blogue alguns poemas do novo Prémio Nobel, traduzidos a partir da versão castelhana do livro Para vivos y muertos (editado em Espanha pela Hiperión, com tradução do sueco por Roberto Mascaro e Francisco Uriz). Desse post que me foi dedicado (e que agora agradeço, com meses de atraso), roubo então estas quatro pequenas maravilhas, vertidas para português por JLBG:

HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).

***

A ÁRVORE E A NUVEM (1962)

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

***

DESDE A MONTANHA (1962)

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

***

PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

Efeito Nobel

É um recorde absoluto: na última hora, este blogue recebeu 319 visitas únicas e 695 pageviews. Obrigado, Alfred. Obrigado, Tomas.

15 anos depois, um poeta

E já não era sem tempo.
Em 1998, o Nobel foi entregue a José Saramago, que também escreveu poesia, mas ganhou o prémio por causa dos seus romances, tal como Harold Pinter, também poeta, venceu em 2005 pelo seu trabalho enquanto dramaturgo. Os últimos Nobel a distinguir obras poéticas foram os de 1996 (Wislawa Szymborska) e 1995 (Seamus Heaney).

Justificação

Pouco passava do meio-dia, quando o secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund, surgiu dos bastidores para ler em sueco e em inglês o habitual curtíssimo comunicado:

«The Nobel Prize in Literature for 2011 is awarded to the Swedish poet Tomas Tranströmer “because, through his condensed, translucent images, he gives us fresh access to reality”»

O que pode ser traduzido por:

«O Prémio Nobel de Literatura 2011 é atribuído ao poeta sueco Tomas Tranströmer “porque nos dá, através das suas imagens condensadas e translúcidas, novas formas de acedermos à realidade”»

Bibliografia

17 dikter (1954)
Hemligheter på vägen (1958)
Den halvfärdiga himlen (1962)
Klanger och spår (1966)
Kvartett (1967)
Mörkerseende (1970)
Stigar (1973)
Östersjöar (1974)
Sanningsbarriären (1978)
Dikter 1954-78 (1979)
PS (1980)
Det vilda torget (1983)
Dikter (1984)
För levande och döda (1989)
Minnena ser mig (1993)
Sorgegondolen (1996)
Air Mail. Brev 1964–1990 (2001)
Den stora gåtan (2004)

E agora, editoras portuguesas, quem é que se chega à frente?

Número de livros de Tomas Tranströmer publicados em Portugal:

Zero.

Pensamento mágico

Em 2008, apostei em Tomas Tranströmer. Em 2009, apostei em Tomas Tranströmer. Em 2010, voltei a apostar em Tomas Tranströmer, convencido que à terceira seria de vez. Depois, a 8 de Outubro de 2010, escrevi: «Para o ano, não apostarei no poeta Tomas Tranströmer (pode ser que assim ele ganhe)». Fiel a essa promessa, em 2011 não apostei em Tomas Tranströmer nem em mais ninguém. Pelos vistos, resultou.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges