O caminho que interessa

A primeira vez que soube da existência de Remainder, romance de estreia de Tom McCarthy (n. 1969), foi num ensaio de Zadie Smith, intitulado Two Directions for the Novel (incluído no livro Changing My Mind: occasional essays, Penguin, 2009). Nesse texto, Smith confronta dois romances que ela considera estarem nos antípodas um do outro: Remainder e Netherland, de Joseph O’Neill (Bertrand). Se este é um exemplo perfeito da tendência dominante na ficção anglófona contemporânea – o «realismo lírico» que acredita no «poder encantatório da linguagem» para revelar a «verdade» (numa linha que vem desde Flaubert e Balzac) –, o segundo é uma espécie de recusa militante dessa fé na literatura como instrumento capaz de «descrever o mundo com alguma exactidão» ou sentido de transcendência. Artista conceptual, além de escritor, McCarthy está claramente do lado dos vanguardistas (Robbe-Grillet, Georges Perec, John Barth, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, entre outros). Se Remainder não chega ao ponto de assassinar o romance psicológico, mais os seus códigos artificiais, ele representa um forte abanão, que devia ser capaz de arrancar este género literário à sua actual complacência, resume Smith.
Lembro-me de rabiscar mentalmente uma nota: «ler Remainder, com carácter de urgência.» Queria verificar, por mim mesmo, a anunciada «desconstrução construtiva» dos paradigmas gastos. Mas entretanto outras urgências se interpuseram, como é costume, e a nota mental perdeu-se no labirinto caótico das minhas sinapses. Até que há cerca de um ano voltei a tropeçar em Tom McCarthy, então finalista do Man Booker Prize com C (Presença), magnífico romance sobre um homem, Serge Carrefax, que atravessa como um fantasma as grandes convulsões científicas, sociais e políticas do início do séc. XX. É um ser puramente reflexivo, amoral, obstinado em descobrir, no tecido complexo do mundo, padrões e códigos que o aproximem da sua identidade. Não muito diferente do narrador de Remainder, o tal livro adiado que acabei por comprar na versão para Kindle, depois de ter perguntado sem sucesso pela edição portuguesa (Estampa) em três livrarias de Lisboa.

Durante uma semana de férias na costa vicentina, conheci finalmente o improvável protagonista do primeiro romance de McCarthy. No fundo, um homem vulgar a quem acontecem coisas invulgares. Um dia, teve um acidente grave: uma coisa caída do céu deixou-o em coma. Sobreviveu, depois recuperou a custo parte da memória e toda a mecânica dos gestos. Quando os responsáveis pelo acidente lhe pagam uma choruda indemnização (oito milhões e meio de libras), sabe que pode fazer o que lhe der na gana. Então, ao ver uma racha na parede, decide-se. Aquela imagem despertou-lhe a recordação esquiva de um prédio onde em tempos terá vivido, num apartamento onde chegava o cheiro de fígado ao lume e as escalas de um pianista. Pela janela, gatos pretos sobre telhas vermelhas e, no pátio, um homem às voltas com a sua motocicleta. A ideia não é apenas resgatar a memória, mas refazer a realidade desse tempo perdido. O dinheiro permite-lhe contratar quem concretize os seus desejos, sem nunca os pôr em causa. Alguém que organiza tudo: a compra de um prédio semelhante, a sua transformação, a escolha e treino de actores que fritam fígado ou tocam piano. Mas isto não chega. Para se sentir vivo, para se sentir «real», o milionário entra numa escalada de obsessão e delírio, com recriações de outros momentos entretanto vividos ou de cenas-limite (um homicídio, o assalto a um banco). Eis a literatura enquanto simulacro total. Um simulacro que consegue ser surpreendentemente mais verdadeiro, na sua absurda objectividade, do que a fiável verosimilhança dos modelos narrativos clássicos.
Na praia menos concorrida da Zambujeira do Mar, houve um momento em que desejei ter oito milhões e meio de libras. Com essa fortuna, poderia encenar meticulosamente aquele minuto em que deitado na areia, com certo vento, certa luz e a presença difusa de uns 15 banhistas (vultos desfocados na orla da visão periférica), murmurei: «Tinhas razão, Zadie. Este livro é genial. E se o romance tem de ir por algum lado, que vá por aqui.»

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

O que aí vem (Assírio & Alvim)

Na Margem da Alegria, de Ruy Belo (poemas escolhidos por Manuel Gusmão); O Núcleo da Claridade – entre as palavras de Ruy Belo, de Duarte Belo; Observação do Verão, de Gastão Cruz; Como se Desenha uma Casa, de Manuel António Pina.

Lançamento de ‘Vida: Variações II’

O novo livro de poemas de Bénédicte Houart (como os outros três editado pela Cotovia) vai ser lançado hoje, a partir das 18h30, na FNAC do Chiado. Haverá leitura de poemas pela autora e pelo actor Diogo Dória.

‘Avenida de Poemas’, n.º 1

Eis a versão completa da primeira sessão da Avenida de Poemas, com Pilar del Río (Teatro Tivoli, dia 22 de Novembro):

Watch live streaming video from arteadmin at livestream.com

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq (Alfaguara), por Pedro Mexia
O Terceiro Homem, de Graham Greene (Casa das Letras), por José Guardado Moreira
Nagasáqui, de Éric Faye (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho (Tinta da China), por António Guerreiro
Aves de Portugal, de Helder Costa, Eduardo de Juana e Juan Varela (Lynx), por Carla Tomás

‘ípsilon’, agora em versão iPad

O suplemento cultural do Público passa agora a existir autonomamente, em edição para iPad. As primeiras impressões são boas: leitura agradável, navegação eficaz, correcta articulação dos textos com o conteúdo multimedia (vídeos, fragmentos de músicas, excertos de livros). Único ponto negativo: o espaço que ocupa. Se cada número pesar 500 MB, como este primeiro, vai ser preciso apagar números antigos ao fim de poucas semanas.

David Machado em Itália

O romance Deixem Falar as Pedras, de David Machado (ler recensão aqui), vai ser publicado em Itália pela editora Cavallo di Ferro, irmã transalpina da Cavalo de Ferro portuguesa, numa tradução de Federico Bertolazzi (Lasciate Parlare le Pietre). A edição está prevista para Maio de 2012, a tempo da Feira do Livro de Turim.

Resumo do dia de ontem

Quatro poemas de João Luís Barreto Guimarães

como se o acaso fizesse desta folha um reino
por habitar o endereço de janeiro algo branco
por começar como se de entre as nervuras da

folha apenas uma fosse o pombo que líquido se
eleva e voa como um aroma como um adeus ou
mesmo: como se uma ideia de ar fosse a força
dobrando uma pedra d’aço e o riso fosse água

e o jardim movimento onde se falasse das
cores do vinho e do corpo (substância de
referência) como se por exemplo: o amor fosse
só um de todos com outros todos (etc. assim:)

apenas eu como se livre fosse seria o eco que
volta como leve sono ou algo puro algo novo
raiz fixa ao gozo de ter uma vida nas mãos

***

este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso de

mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje
não tocarei o corpo da Corona Four

uma ‘azerty’ americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e ranco) faz um mês que se perdeu
a tecla da letra « » só por isso não

tenho escrito sobre o rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
uscar as minhas palavras

***

11 DE ABRIL

Transpõe a porta de entrada um par que reconheço. Ela, das casas a norte. Ele, dos bairros a leste. Aqueles rostos porém, transportam uma impressão difícil de definir.
Entraram de mãos laçadas, anel doirando no dedo. Não os conhecia unidos. Desconhecia-os sequer conhecidos.
Não tenho vigiado os amigos. Tenho estado pouco atento à procura de percursos na calçada de cimento que fronteia o Café. Não fui eu que estabeleci que as horas que somam para mim, se multiplicam para os outros.

***

FALSA PARTIDA

Ainda estranho o lugar quando acordamos
no revés de já ser outro
o dia
porque espelhas o tempo à janela é
à face de teu rosto que decido
o que vestir.
O vento que molda a praia
é de todas as bandeiras:
há um silêncio talhado à substância do quarto
(o chão de madeira matiza o
frio que força uma fresta)
podia apostar comigo: hoje
de madrugada
um cão ladrou na voz do galo.
O meu sobrenome segue-te
pela véspera da casa
(fim de emissão no ecrã
cálices
meio hasteados) a
chuva desistiu de apagar o nosso amor embaciado
pelo lado negativo.
Tornas à cama e abres
aquele romance de sempre
(o descanso existe
noutro cansaço).

[in Poesia Reunida, Quetzal, 2011]

No mundo das duas luas

1Q84 – Livro 1
Autor: Haruki Murakami
Título original: 1Q84
Tradução: Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso
Editora: Casa das Letras
N.º de páginas: 487
ISBN: 978-972-46-2053-4
Ano de publicação: 2011

O primeiro volume de 1Q84, o complexo e gigantesco romance de Haruki Murakami (composto por três livros que já venderam milhões de exemplares no Japão e ameaçam tornar-se a versão 2011-2012 do fenómeno Stieg Larsson), começa numa auto-estrada engarrafada de Tóquio, em 1984. Dentro de um táxi, Aomame desespera com a quase certeza de chegar atrasada a um importante encontro. Na sofisticadíssima aparelhagem do automóvel ouvem-se os compassos agrestes da Sinfonietta, de Janacek, e a música provoca na jovem uma «sensação estranha», equivalente a uma «torção interna». Às tantas, o motorista sugere que ela pode descer por umas escadas de emergência com ligação ao solo e depois apanhar um comboio na estação mais próxima. Aomame aceita a ideia, depois de ouvir o taxista alertá-la para o facto de as coisas nem sempre serem o que parecem. E não são, de facto. Chegada ao nível da rua, Aomame já não está em 1984 mas sim em 1Q84 («Q é a letra inicial da expressão ‘question mark’, o signo de qualquer coisa carregada de interrogações»). Isto é, uma realidade paralela e quase igual, à excepção de ligeiras diferenças. Um mundo, por exemplo, em que os uniformes e o armamento da polícia sofreram uma súbita melhoria. E em que há duas luas, em vez de uma só. A normal continua no seu sítio, mas a seu lado surgiu uma outra, mais pequena e verde («como se estivesse coberta por uma fina camada de musgo»).
É neste território de «estranheza subtil» que Murakami se sente como peixe na água. À semelhança de outros romances deste autor, a narrativa alterna entre duas histórias independentes que se vão aproximando pouco a pouco, à medida que se vislumbram nexos entre as respectivas personagens e enredos. Uma das histórias tem como protagonista Aomame, a rapariga que desceu as escadas para um outro mundo, na verdade uma assassina profissional, a mando de uma velha senhora que elimina homens que maltratam as mulheres (nem de propósito, um tema recorrente nos livros de Larsson). A outra história gira em torno de Tengo, professor de matemática com aspirações literárias, instigado pelo seu editor a reescrever um romance com enorme potencial, mas estilisticamente fraco, enviado para um concurso de primeiras obras por uma estudante de 17 anos. Os elementos fantásticos dessa ficção, sobre um «Povo Pequeno» que emerge da boca de uma cabra cega e morta, podem ser menos irreais do que parecem à primeira vista, acabando por estabelecer uma das pontes entre as duas histórias (juntas, elas formam a crónica lenta de um reencontro deixado nas mãos do acaso).
Murakami gosta de personagens solitárias, alienadas, assombradas por perdas, ausências, memórias traumáticas, vazios interiores. Quase todas as figuras com que deparamos em 1Q84 encaixam neste perfil, escondendo umas das outras os seus segredos «profundos e obscuros». O estilo é neutro, muito preciso nas descrições, quase clínico de tão eficaz, mas não isento de lugares-comuns e passagens menos conseguidas (por exemplo, a dada altura Tengo rumina os «fragmentos» de uma cena «como uma vaca num prado», obtendo «valiosos nutrientes que alimentavam a sua imaginação»). Ainda assim, o escritor japonês consegue aprisionar com mestria o leitor dentro da lógica alucinada dos seus mundos paralelos, mergulhando-o aos poucos na textura onírica da narrativa.
Na edição original, os dois primeiros livros foram editados em simultâneo e só o terceiro, que é uma espécie de prolongamento, mais tarde. Ao publicar o Livro 1 de forma isolada, a Casa das Letras fez uma pequena maldade ao seus leitores, porque as histórias ficam em suspenso e o Livro 2 tem edição prevista apenas para Março de 2012.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Deve imaginar-se um quinquagenário frustrado por sê-lo tão cedo e tanto, residente nas imediações de Nagasáqui, na sua vivenda de um bairro de ruas caindo a pique. E terão de ver-se também estas serpentes de asfalto mole que rastejam na direcção do cimo dos montes, até que toda esta espuma urbana de chapas, lonas, telhas e não sei que mais ainda se detém aos pés de uma muralha de bambus desordenados, de través. É aí que eu moro. Eu – quem? Sem querer exagerar, não sou grande coisa. Cultivo hábitos de celibatário que me servem de barreira de protecção e me permitem dizer que, no fundo, não desmereço demasiado.»

[in Nagasáqui, de Éric Faye, trad. de Miguel Serras Pereira, Gradiva, 2011]

Logo à noite, ‘Avenida de Poemas’

A partir das 21h30, no palco do Teatro Tivoli, eu e Raquel Marinho (jornalista da SIC) estaremos à conversa com Pilar del Río, na estreia da ‘Avenida de Poemas’. Mais informações aqui (notícia da TSF) e no blogue deste projecto, no site do jornal Expresso. Apareçam.

Maravilhas da paternidade

Infância: o tempo em que a felicidade pode caber toda num livro sobre tubarões.

Depois do acidente

Por Este Mundo Acima
Autora: Patrícia Reis
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 220
ISBN: 978-972-20-4634-3
Ano de publicação: 2011

O quinto romance de Patrícia Reis decorre numa Lisboa pós-apocalíptica, devastada por um misterioso «acidente» global cujos contornos nunca chegamos a conhecer com precisão. Entre ruínas, Eduardo, um antigo editor de meia-idade, outrora altivo e poderoso, vê-se humildemente reduzido a uma condição animalesca quando descobre que a «existência civilizada» acabou de vez (não há electricidade, nem água canalizada, nem qualquer ordem social).
Enquanto afina a arte da sobrevivência, Eduardo agarra-se ao único vínculo que o liga à sua vida anterior: a memória. Através de anotações manuscritas e listas que guarda em caixas de sapatos, evoca o círculo íntimo dos seus amigos: Jaime, o galerista; Lourenço, o pragmático, «político nas horas vagas»; e sobretudo Sofia, a filha rebelde de pai militar, mulher tão sozinha que ouvia o seu corpo a envelhecer, portadora de um segredo que Eduardo só descobre agora, quando já é tarde demais. No meio do negrume, surge depois a improvável esperança, através de um miúdo desembaraçado (Pedro) e de um livro inédito, anterior ao acidente, mas que «fala do futuro e da forma como não seremos capazes de combater um lado mais forte das coisas terríveis» (ou seja, de um futuro que se tornou o presente). Cada um à sua maneira, salvam Eduardo e dão sentido à sua velhice, despertando nele uma bondade que a arrogância pré-catástrofe não deixava antever.
Hino à amizade, ao poder redentor da arte (sobretudo a literatura, mas também a música) e à crença no lado bom dos seres humanos, esta é uma narrativa em que «tudo se mistura como tintas a desfazer-se em água»: as histórias, os tempos, as ilusões, as perdas, os recomeços. Se «todos os bons romances são interrogações», como defende Eduardo, então este é sem dúvida um bom romance.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

1Q84, de Haruki Murakami (Casa das Letras), por José Mário Silva
O Amante é Sempre o Último a Saber, de Rui Zink (Planeta), por Paulo Nogueira
Pátria Utópica – O Grupo de Genebra Revisitado, de António Barreto, Ana Benavente, Eurico Figueiredo, José Medeiros Ferreira e Valentim Alexandre (Bizâncio), por José Pedro Castanheira
D. Pedro V – Um Homem e um Rei, de Ruben Andresen Leitão (Texto), por Pedro Mexia
Diário Íntimo – Dádiva e outros poemas, de Luís Amaro (Licorne), por António Guerreiro

Será que o mundo literário norte-americano é como o liceu (high school)?

Jonathan Lethem acha que sim.

Primeiros parágrafos

«– Não, o outro.
A bejeca deixou uma fímbria de branco poroso a ferver no lábio de Abreu. O ar de desdém, basófio e curto, derivava agora, nasalado, pela fresta da comissura:
– Alguém mandou olhar?
Dois velhos pasmados a uma mesa de canto, queixos pendidos sobre chávenas de café. Não era o da boina de xadrez, de beiço torto. Era o de bochechas lassas, e olhos aguados, como um buldogue.
Abreu ia explicar tudo, mas dava muito trabalho e desistiu. Mordiscou um tremoço, rilhou-o com os molares, em jeito de enjoo, e removeu a vista para o estaladiço do tecto, precisado de pintura. E sempre a dar-lhe, num sussurro bocejado:
– Não sabia que o gajo vinha aqui.
Tinha ouvido dizer – «quanto vale a aposta?» – que naquela cervejaria de madeirames polidos aviavam torresmos com a imperial. Mas nem pevides davam e os tremoços eram à parte.
Bartlo encolheu os ombros e atacou a cerveja. Era altarrão e composto, lábia solta, mas pouca gramática. Tinha gastado uma hora a fazer o relatório de dois namoros, um perdido emprego e uma mãe. Fartava-se logo da conversa quando não era o próprio a falar. Mas o outro afincava. O droguista! Não o reconhecia? Era preciso ser muito desprevenido da ideia para não marcar o narigonço e as belfas dançantes, pá.
– A drogaria Esmpampanante, ao começo da rampa, quando a rua dobra para baixo.
– Estou a ver – Batlo vagava, desconcentrado.
– Estás a ver uma ova.
Mas Bartlo começava a lembrar-se, fazia o jeito:
– Tinha vassouras à porta. E jerricans amarelos. Vassouras novinhas de palha cinzenta. Até se podiam lamber. Dava dó usar aquilo prò chão.
– Isso agora não interessa. Vassouras são vassouras.
– Eu lembro-me, camandro.
– Mas entravas lá, entravas? Ah, pois, a minha mãe mandava-me à cera. Cem gramas de cera. Em papel-manteiga, com uma espátula. Havia um livro comprido pròs fiados.
– Nunca lá o vi.
– O livro?
– O velho.
– Tinha praí quatro ou cinco drogarias, ou mais, e dava a volta por cada uma, à semana. Sempre com uma bata de surrobeco, toda sebenta. Espreitava assim, por cima dos óculos.
Abreu imitava com os dedos esticados debaixo do nariz a fingir lúzios dardejantes. Caso para rir.»

[in Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho, Tinta da China, 2011]

Ratos e homens

Batalha
Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência
N.º de páginas: 200
ISBN: 978-989-637-318-4
Ano de publicação: 2011

Escritor prolífico, David Soares afirmou-se no género fantástico mas tem vindo a cruzar essa matriz ficcional com o romance histórico, nomeadamente em A Conspiração dos Antepassados (2007), Lisboa Triunfante (2008) e O Evangelho do Enforcado (2010). No seu quarto romance, Batalha, evoca-se a figura do mestre Afonso Domingues, o arquitecto que acompanhou a edificação do Mosteiro de Santa Maria da Vitória no final do século XIV e ficou, segundo a lenda, três dias em jejum sob a abóbada da Casa do Capítulo, para garantir que seria o primeiro a morrer caso ela caísse – como caíra pouco antes a abóbada construída pelo flamengo David Huguet.
A esta história de fé na obra própria, por parte de um arquitecto já cego e moribundo, havemos de chegar, mas só no fim do livro. É este o aspecto mais original de Batalha. Em vez de acompanhar o processo de construção do mosteiro, Soares prefere contar-nos uma fábula das antigas, com animais a personificarem qualidades e defeitos humanos. Protagonista: uma ratazana que descobre sucessivamente o amor e o abandono (no seio de uma família de ratos do campo), o cinismo dos corvos, a bondade absoluta (porca Fraca-Chicha) e o instinto predador de gatos cruéis. A ratazana acaba entre humanos, procurando uma grandeza espiritual a que a maior parte dos homens nem sequer aspira.
Talvez por fidelidade à época em que a história decorre, a prosa é barroca. Compreende-se que David Soares recupere palavras raras, vocabulário perdido nos dicionários. Nada contra. Acontece que exagera: só numa página, tropeçamos em «abacinava», «fulverino», «noncupativo», «luarejar», «rorífluas», «tristimania», «ossívoro». O estilo torna-se pesado, quando não opaco. Mesmo sem comprometer as qualidades narrativas do autor, há ali um lastro claramente desnecessário.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Luxos do Facebook

Ter o Armando Silva Carvalho a pedir-me amizade.

O que aí vem (Bizâncio)

Liszt – Vida e Obra, de Malcolm Hayes; Baby Blues 28 – Corta!, de Rick Kirkman e Jerry Scott; Terra Crua – Arquitectura de Natureza, de Paulo Caetano e Rui Vasco.

Maravilhas da paternidade

Um destes dias, o TPC da Alice consistia num auto-retrato. Ficou assim:


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Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, de António Barahona (Averno), por António Guerreiro
Adúltero Americano, de Jed Mercurio (Civilização), por Luísa Meireles
O Arranca Corações, de Boris Vian (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Enviado Especial, de Evelyn Waugh (Relógio d’Água), por Pedro Mexia

Poesia portuguesa em Salamanca


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Quatro poemas de António Barahona

CORRESPONDÊNCIA COM SOHRAB SEPEHRÍ

Nasci na Andaluzia:
o meu sangue vem dos tempos do Profeta
e continua a fluir na consciência da brisa.
Ibn Arabí estudou numa madrassah em Lisboa.

Sou muçulmano:
o meu mihrab é uma rosa vermelha
ou um ventre de mulher adormecida
e, o mundo inteiro, o meu tapete de oração.
Faço as abluções com fogo refrescante.

Cada partícula, do que rezo, cristaliza,
quando o vento de vidro
chama os fiéis do alto do cipreste.

***

CORRESPONDÊNCIA COM IBN ZAYDUN

Serenidade tão desencantada
d’Ibn Zaydun, um bom poeta eleito,
que leio e releio com respeito
e d’alma deslumbrada.

Serenidade vinda dum olhar
azul, que lhe furtou o coração,
devolvido depois, mas só no som
do seu êxul cantar.

E cantou o pescoço da donzela
que atraía as pérolas, tal como, perto,
a água atrai camelos no deserto
e a sedenta gazela.

E cantou o pudor que lançou luz
sobre a fatal beleza feminina,
que, nua, se mostrou nessa menina,
ao poeta andaluz.

***

CORRESPONDÊNCIA COM MÁRIO CESARINY

Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos
À luz do vidro e do metal
mato pulgas de oiro azul
em homenagem ao António
Maria e dele me despeço
Já ganhei a idade das barbas:
agora sou um barbo
a ‘violinar’, como diria o Herberto,
o rio poluído
Toco no fundo
‘o botão entre os limos’,
Mário,
mas ‘olho muito depressa como se fosse de moto’
e não posso em ti deter-me por mais tempo

Acelero a lucidez,
a alâmpada e a luva:
a estrada é muito larga sob a chuva,
o meu chapéu de sol acende a água:
intensamente álacre a minha mágoa
recusa-se a ser triste
e desço ao inferno
como Dante
pleno de esquizofrenia
e alegria

Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos,
de todos me despeço,
dos novos e dos velhos
e solitário amanheço

***

ADVERTÊNCIA

Poeta
em verdade em verdade te digo
que, para ser genuíno e ficar vivo,
em glória corporal, não apenas em livro,
é-te necessário morrer primeiro que tudo
na Grande-Guerra-Santa dedicada ao estudo
da grã fonética de mil murmúrios
e do vôo das aves, pródigo em augúrios.

[in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno, 2011]

O Evangelho segundo o irmão gémeo

Jesus o Bom e Cristo o Patife
Autor: Philip Pullman
Título original: The good man Jesus and the scoundrel Christ
Tradução: Ana Saldanha
Editora: Teorema
N.º de páginas: 189
ISBN: 978-972-695-978-6
Ano de publicação: 2011

Ateu assumido, Philip Pullman está habituado a ter problemas com os fundamentalistas cristãos. Na trilogia fantástica His Dark Materials, uma espécie de resposta à «propaganda religiosa» das célebres Crónicas de Narnia, de C. S. Lewis, Pullman criou um mundo em que há um Deus senil, além de impotente, inspirador de uma igreja opressora e corrupta. O facto de pertencer à National Secular Society e ter sido um dos intelectuais britânicos que assinou, há cerca de um ano, uma carta aberta contra as «honras de Estado» concedidas à visita do Papa Bento XVI ao Reino Unido, também não contribuiu para a sua boa imagem junto dos crentes mais ortodoxos. Foi contudo o lançamento de Jesus o Bom e Cristo o Patife, em 2010, numa colecção que a Canongate dedica à revisitação dos grandes mitos por escritores contemporâneos (editada em Portugal pela Teorema), a colocá-lo debaixo de fogo. Às previsíveis reacções violentas de vários sectores da igreja, juntaram-se dezenas de cartas a acusarem-no de blasfémia (e a condenarem-no ao «inferno eterno»), bem como um livro inteirinho que se limita a desmontar, ponto por ponto, as supostas inconsistências bíblicas desta obra de ficção (Philip Pulmann’s Jesus, de Gerald O’Collins).
Tal como outros escritores que se debruçaram antes sobre o tema (entre os quais José Saramago), Pullman dá um sentido diferente a vários episódios (encontrando explicações racionais para os milagres, por exemplo) e resolve alguns pontos delicados da história, que na forma canónica só se sustêm como matéria de fé (no caso da concepção «imaculada» de Maria, explica que esta chama «anjo» a um homem que lhe entrou pela janela). O achado desta abordagem narrativa, porém, está na dissociação de Jesus Cristo. Quando nasce em Belém, ele não é um, mas dois. Um par de irmãos gémeos: Jesus, o primogénito, robusto, iluminado, pronto a anunciar por toda a parte a vinda próxima do Reino dos Céus; e Cristo, o mais novo, frágil, uma sombra do outro, incapaz de grandeza, cheio de dúvidas e dilemas morais.
Cristo admira Jesus e salva-o muitas vezes com a sua argúcia, sobretudo durante a infância, mas sabe também que a mensagem do irmão, quando este começa a pregar na Galileia, precisa de uma estrutura que a perpetue. Sugere por isso a importância dos milagres como elementos persuasivos e a necessidade de uma «poderosa organização», capaz de determinar aquilo em «que se deveria acreditar e o que deveria ser rejeitado». Jesus recusa «montar um espectáculo sensacionalista para os crédulos» e continua o seu caminho de intransigente rectidão, em nome de um Deus que por vezes parece «impulsivo», «arbitrário» e até injusto. Mais do que pela trajectória do profeta, destinado a morrer na cruz para cumprir o seu desígnio divino, Pullman interessa-se pela tragédia íntima de Cristo, que no fim substitui Judas no papel de traidor, antes de encenar o embuste decisivo (ao fazer-se passar por Jesus, legitimando o suposto milagre da ressurreição).
A dado momento, um «estranho» (outro «anjo» dúbio, agente de não se sabe que poder) atribui a Cristo a função de registar, moldar e «melhorar» as histórias do irmão: «Há o tempo e há o que está para além do tempo. A história pertence ao tempo, mas a verdade pertence ao que está para além do tempo. Ao escrever sobre as coisas como elas deveriam ter sido, estás a permitir que a verdade entre na história.» Segundo o «estranho», Jesus exige uma perfeição absoluta – isto é, excessiva, impossível de alcançar. «O verdadeiro Reino cegaria os seres humanos como o sol, mas, mesmo assim, eles precisam de uma sua imagem. E é isso que a igreja será.» A igreja que Jesus antecipa como manifestação quase diabólica, ao confrontar-se com o silêncio de Deus no jardim de Getsémani. Eis a trágica ironia: a igreja ergueu-se como poder à custa do sacrifício de Jesus, mas sem a igreja ele seria esquecido, como água despejada sobre a areia. Neste belo livro, complexo, corajoso e muito bem escrito, Pullman ataca aquilo em que a religião cristã se tornou, mas nunca o seu profeta.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Prémio Portugal Telecom de Literatura 2011 para Rubens Figueiredo

Os vencedores do Prémio Portugal Telecom de Literatura 2011 foram anunciados ontem à noite, em São Paulo. Em primeiro lugar ficou Passageiro do fim do dia (Companhia das Letras), de Rubens Figueiredo (100 mil reais). Em segundo, Uma Viagem à Índia (LeYa), de Gonçalo M. Tavares (35 mil reais). E em terceiro, Minha Guerra Alheia (Record), de Marina Colasanti (15 mil reais).

Feira do Livro de Belgrado 2011

O João Sousa André, leitor antigo deste blogue, esteve na Feira do Livro de Belgrado e enviou-me, com a habitual gentileza, a seguinte reportagem (que desde já agradeço):

Na Feira do Livro de Belgrado que teve lugar de 23 a 30 de Outubro, o convidado de honra foi a Língua Portuguesa. Não Portugal, mas a língua, em múltiplas variantes. Aliás, o simples facto de Mia Couto ter estado presente na abertura da Feira bem o demonstra. A vocação marítima da língua portuguesa foi demonstrada na frase escolhida para simbolizar o convite: «Da minha língua vê-se o mar», de Vergílio Ferreira. Infelizmente o autor não foi um dos escolhidos para tradução nesta iniciativa, mas muitos outros o foram que bem representaram Portugal. A lista de autores de língua portuguesa pode ser encontrada aqui.

O espaço da língua portuguesa estava agradável, construído sob a forma de uma manta de literatura, com passagens de autores de língua portuguesa em português e servo-croata. A encimar o espaço estava o lema, «Uma língua, muitas culturas», e o nome dos países participantes. O espaço tinha diversas cadeiras, mesas e almofadas para quem passasse se poder ir sentando. Num dos lados estava uma longa estante com livros: de língua portuguesa, em português e traduzidos para servo-croata, de autores sérvios para português e até um exemplar (creio que) de Saramago traduzido para castelhano. Noutro dos lados estava uma longa mesa com os autores escolhidos para a edição da feira. Alguns já consagrados e clássicos (Machado de Assis encontrava-se entre eles), enquanto que outros eram mais recentes e participaram no certame. Estes livros foram editados por diversas editoras sérvias, sendo que se encontravam depois também nos espaços próprios das editoras. Note-se que nem todos os autores portugueses traduzidos tinham os seus livros para venda por ali. Dois casos de presença apenas «para amostra» eram Camões (Os Lusíadas) e Miguel Sousa Tavares (Equador). A lista completa de livros traduzidos para o certame está aqui.

No dia em que estive presente, sexta-feira dia 28, tive a oportunidade de ver parte da conversa entre o autor brasileiro Augusto Cury e o público. Augusto Cury falava através do microfone e o seu tradutor (um sérvio com um curioso sotaque brasileiro) fazia o mesmo. A conversa denotava alguma falta de conhecimento da obra do autor, com muitas das questões a serem algo genéricas (“qual a sua musa?”, “quando começou a escrever?”), mas sempre em ambiente de descontracção e simpatia. Também surgiram outras sessões com a presença dos autores, mas não necessariamente no stand do convidado de honra, antes no das suas editoras na Sérvia.

O programa contou ainda com algumas iniciativas interessantes, não necessariamente apenas no recinto da Feira. Algumas delas:
– Domingo dia 23 (dia de abertura), o Centar za kulturnu dekontaminaciju (Centro para a descontaminação cultural) projectou o filme O Banqueiro Anarquista, de Eduardo Geada, seguido de uma discussão.
– Quarta-Feira, dia 26, leitura pública do livro Portugal, terra verde, de Ivo Andrić (autor jugoslavo, prémio Nobel em 1961 e que escreveu o referido livro sobre as suas viagens em Portugal).
– Quinta-Feira, discussão sobre o Teatro Moderno Português.
– Sexta-Feira, transmissão radiofónica dos textos Outono em Lisboa, a partir de uma compilação de trabalhos de Fernando Pessoa e heterónimos.
– Sábado, conversa aberta a partir dos textos de Álvaro Guerra (antigo embaixador em Belgrado) reunidos em Crónicas Jugoslavas. Participação de Pedro Rosa Mendes e Aleksandar Gatalica, antigo editor do diário cultural Hoje.
– Exposição permanente durante a Feira: Viagem a Portugal, Terra Verde. Exposição fotográfica de Dragoljub Zamurović com base nos textos Viagem a Portugal, de José Saramago, e Portugal, Terra Verde, de Ivo Andrić.

Fiz referência apenas a eventos relacionados com Portugal, mas outros países estiveram bastante presentes, com bastantes lançamentos de livros de autores angolanos e com o Brasil a promover workshops para crianças. O programa completo de eventos pode ser lido aqui, infelizmente apenas em servo-croata.

De referir que este foi o ano do 50.º aniversário da entrega do Prémio Nobel a Ivo Andrić, o mais celebrado autor de língua servo-croata. Por todos os stands os livros deste autor estavam bastante presentes com novas edições, desde o formato de livro de bolso às edições de coleccionador. Em Portugal, podem ser encontrados três livros de Andrić editados pela Cavalo de Ferro: Crónicas de Travnik, O Pátio Maldito e A Ponte sobre o Drina (este o seu romance mais celebrado). É notório que numa efeméride destas, Portugal tenha acabado por receber tanta atenção.

Para mais referência em relação à Feira do Livro de Belgrado, leia-se a página oficial do certame (em servo-croata, inglês e português) ou estes meus dois posts de há dois anos (I, II).

Prémio Agustina Bessa-Luís para Tiago Patrício

O Prémio de Revelação Agustina Bessa-Luís, atribuído pela Estoril Sol (com um júri presidido por Vasco Graça Moura e de que fazem parte Guilherme d’Oliveira Martins, José Manuel Mendes, Maria Carlos Gil Loureiro, Manuel Frias Martins, Maria Alzira Seixo, Liberto Cruz, Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu), vai este ano para o romance Trás os Montes, de Tiago Patrício. O júri louvou “as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes e à maneira como o estilo narrativo encontra uma sugestiva economia na expressão e comportamentos das personagens”.
Farmacêutico e dramaturgo, Tiago Patrício venceu em 2009 o Prémio Daniel Faria (poesia) com O Livro das Aves, publicado pelas Quasi e sobre o qual escrevi em Setembro daquele ano. Vários poemas desse livro já tinham uma temática transmontana. Eis um exemplo:

OS PINTASSILGOS DE MIRANDELA

Nasci numa casa com gaiolas brancas
espalhadas pelo Verão
Era o meu pai vivo e o meu avô estival
entrava pela hora mais terna
enquanto encarregado das gaiolas
e a minha infância inteira decrescia
no canto da casa dos pássaros

O alpendre era de uma inclinação natural
com avô e pássaros encostados à sombra dos álamos
e as gaiolas casas que os abrigavam
do frio, da fome e dos gatos bravos
A minha alegria era quente como a terra
e contava ensinar ao meu filho bisneto
a atracção pelos grilos, caracóis
e pintassilgos na doçura das borboletas

Em Mirandela havia um vale junto a um rio
com pomares e o cheiro de figos fáceis
Os pintassilgos divididos na abundância
eram como crianças atrás de amoras
que inspiram as flores de uma música sucessiva

O Pintassilgo é a mais bela ave silvestre
e se não pudesse manter as gaiolas em casa
era como se não houvesse onde permanecer
Eles amotinam-se nas minhas barbas
desalojam corvos e os dragões dos poemas
fazem a tarde parecer tão antiga e adormecer
como a infanta primavera em que o meu avô
era o estio e os bisnetos existiam mesmo
e os nossos olhos acariciavam os pássaros,
que é tão tarde agora para dizer aqueles que morriam
exaustos a contar os meses atrás das grades

Uma boa notícia

Leio no blogue da Sara Figueiredo Costa que Os Malaquias (o romance com que Andréa del Fuego ganhou, há duas semanas, o Prémio José Saramago) vai ser editado pelo Círculo de Leitores, já em Janeiro do próximo ano.

Escritores estrangeiros no Chiado


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O que aí vem (Presença)

Para Sempre, de Susanna Tamaro; Os Jogos da Fome – A Revolta (Livro III), de Suzanne Collins; Socorro! Sou Mãe… – Como sobreviver com alegria ao 1º mês de vida do bebé, de Rita Ferro Alvim; O Labirinto de Sombra, de Ulysses Moore; A Caixa dos Perigos, de Blue Balliett; O Primeiro Passo, de Orianne Lallemand; Queres Saber Porquê?, de Sylvie Baussier.

Maravilhas da paternidade

A Alice atou aos pulsos umas fitinhas e para cada uma pediu um desejo. «São desejos que têm a ver com as minhas amigas», explicou. A menina X passou a brincar com a menina Z e a menina Y «já não me liga». Enfim, problemas que podem parecer pequenos ao olhar dos adultos, mas assumem uma dimensão quase cósmica para quem tem seis anos.
«Quando atar outra fitinha», disse-me ela, «vou pedir uma coisa completamente diferente». Eu fiquei curioso. Que coisa? «Vou pedir que Portugal saia da crise.» Quando a pousei, depois de um beijo e de um abraço apertado, a Alice olhou para mim com um ar sério: «Quero mesmo que a crise acabe, pai, mas percebes que primeiro tenho de resolver as coisas com as minhas amigas, não é?»

Um coro de feridas

Gado do Senhor
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 49
ISBN: 978-989-8150-31-8
Ano de publicação: 2011

Na epígrafe deste livro, Rosa Alice Branco evoca o homem como «doença mortal do animal» e os poemas começam por criar a expectativa de uma denúncia, em voz alta, das nossas malfeitorias enquanto espécie dominante. As primeiras páginas falam-nos de vacas condenadas ao «churrasco de domingo», mas ainda assim trocando «mus» como «mantras de amor sob as estrelas»; mostram-nos aves em «previsível colisão com aviões», porque a guerra (em concreto, a do Iraque) nada sabe das rotas migratórias; ou um cão da infância que fingia não ser o dono do seu dono. Mais à frente, temos ainda a visão de aviários piores do que favelas («Nas favelas sempre se / tem alcunha e muita raiva. E manha para fugir ao medo»), o solilóquio de uma galinha à espera da faca em «dia de arraial», a clarividência dos caracóis que «vêem para dentro».
Esta aproximação à «candura dos animais», indefesos diante das mãos humanas, podia quedar-se por uma espécie de militantismo ecológico (entrevisto na evocação da «Terra» como «cadáver», ainda assim belo «entre as flores do campo que resta / e o fumo dos incêndios que te cinzam»). Mas a poeta logo demonstra que o verdadeiro tema é outro. É a própria ideia de morte, é a experiência da perda total, esse afinado «coro de feridas», esse vazio súbito que nos deixa num desamparo semelhante ao dos bichos e suscita uma revolta contra as ordens estabelecidas – em particular a religiosa, com os seus «altares do sacrifício» onde é suposto sermos, por nossa vez, uma forma de «gado», também ele submisso e temeroso.
Por muito que os cemitérios se tenham transformado em «repartições públicas», a que as famílias acorrem «sem os formulários preenchidos» e gastando «toda a tristeza que pouparam», há nestes poemas uma desarmante evocação das mais antigas formas de luto: «Sigo os números que conduzem a ti. / O rosário dos ossos desfia este amor / que não cabe nas mãos. A carne é fraca, / a madeira porosa e tudo o que respiro te consome. Fecho os olhos e os teus passos tocam de novo / o chão da casa.»
Atravessado de ponta a ponta por um subtexto bíblico, Gado do Senhor é um belo livro, agreste e corajoso, feito de parábolas, música magoada e uma ironia ácida, especialmente notória nos diálogos com o divino: «Se és deus, ressuscita os anjos. Eu cá em baixo / não espero peva a não ser um pouco de pudor da tua parte. / Mas continuas a exibir o sofrimento das larvas, / da tua mãe santíssima, dos teus pregos a escorrerem / sangue, um sangue que é puro desperdício. / Se ao menos fosses dador universal.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Jesus o Bom e Cristo o Patife, de Philip Pullman (Teorema), por José Mário Silva
O Destino das Imagens, de Jacques Rancière (Orfeu Negro), por António Guerreiro
O Chalet da Memória, de Tony Judt (Edições 70), por Luís M. Faria
Brasiliana Tangencial – Contensaios do Atlântico, de Henrique Garcia Pereira (IST Press), por Ana Cristina Leonardo
Lugano, de Tatiana Faia (Artefacto), por Pedro Mexia

Harms vs. Harms


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Eis um grande combate literário em perspectiva. Amanhã à tarde. No Porto.
De um lado do ringue, Miguel Gouveia (editora Bruaá). Na outra ponta, o microficcionista Rui Manuel Amaral. Em vez de luvas de boxe, textos de Daniil Harms (1905-1942), um dos últimos «grandes vanguardistas russos que ainda ousaram exprimir-se com liberdade e ironia».

Colóquio Internacional sobre Ruy Belo (em directo da Gulbenkian)

Para acompanhar, em live stream, aqui. O site inclui os vídeos das várias intervenções que foram sendo feitas desde a abertura do colóquio, ontem.

Fragmentos de ‘José e Pilar. Conversas Inéditas’

No próximo dia 18 será lançado o livro, com chancela da Quetzal, que reúne as muitas conversas entre José Saramago e Pilar del Río que o realizador Miguel Gonçalves Mendes não conseguiu incluir no seu documentário José e Pilar. Até lá, e a partir de hoje, o blogue O Caderno de Saramago publicará diariamente excertos da obra.

Festa do Livro no Museu do Oriente

As publicações da Fundação Oriente vão estar à venda a preços reduzidos, no lounge do Museu. De 18 de Novembro a 4 de Dezembro, entre as 10h00 e as 18h00 (à sexta, até às 22h00). Fecha à segunda-feira.

Prémio Goncourt para Alexis Jenni

O júri da Academia Goncourt atribuiu o prémio de 2011 ao livro L’Art français de la guerre, de Alexis Jenni. A decisão foi tomada com cinco votos a favor de Jenni e três para Carole Martinez, autora de Du domaine des Murmures. Ambos os livros foram publicados pela Gallimard.
Sucessor de Michel Houellebecq, que venceu em 2010 com O Mapa e o Território (agora editado em Portugal pela Objectiva), Alexis Jenni foi a grande revelação da rentrée francesa deste ano, com um primeiro romance de grande fôlego (mais de 600 páginas) que abarca tanto o conflito da Indochina como o da Argélia. Discreto professor de Biologia em Lyon, Jenni escreve e desenha no blogue Voyages pas très loin.

O que aí vem (Letra Livre)

O Bibliófilo Aprendiz, de Rubens Borba de Moraes. Uma preciosidade para quem ama os livros. Aqui, pode ler-se um excerto longo que termina assim: «Nunca me arrependi de ter comprado um livro por um preço alto. Só me arrependo das obras que não comprei.»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges