2012

O pobre do 2012, candidato a pior ano de sempre (ou mesmo a último ano de sempre, se as profecias maias estiverem correctas), tem um peso tão grande em cima que eu desconfio que vai ser menos mau do que o pintam. A sério. Pela minha parte, entro no prometido annus horribilis com vontade de o tornar o menos horribilis possível.
Bom ano a todos. E que haja mais esperança do que austeridade. Além de muitos livros, claro.

O que aí vem (Quetzal)

Franny e Zooey, de J. D. Salinger; Outra Vida, de Rodrigo Lacerda; Encontro à Beira-Rio, de Christopher Isherwood; Como Estamos Famintos, de Dave Eggers.

A vã cobiça

Quando o Diabo Reza
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 164
ISBN: 978-989-671-100-9
Ano de publicação: 2011

Depois de um excelente livro de contos publicado já este ano (O Homem do Turbante Verde, Caminho), Mário de Carvalho regressa às lides com um texto que podemos designar como romance curto ou novela avantajada: Quando o Diabo Reza, segundo título da nova colecção de ficção portuguesa da Tinta da China. Avesso às tipologias habituais, o autor preferiu chamar-lhe «vadiário breve» (e não faltam vadios e vadiagens nestas páginas), como a outros livros chamou «cronovelemas», mas tais epítetos são o que menos importa quando estamos na presença de um prosador de tão alta estirpe. Mário de Carvalho até podia escrever sobre a vida sexual das moscas da fruta, a arte de coser redes de pesca ou o funcionamento da bolsa de valores de Tóquio. Fosse como fosse, brilharia a escrita, esse manejo da língua portuguesa que é sempre um verdadeiro festim, um antecipado regalo.
Desta vez, a trama novelesca resume-se a uma divertidíssima e sarcástica aproximação a vários tipos de cobiça, com o furor de uma campanha eleitoral em fundo. No centro da narrativa está um velho endinheirado, dono de várias drogarias de bairro, cuja fortuna tolda a cabeça das duas filhas: Beatriz, em ânsias de visitar Cuba (cenário das suas fantasias eróticas), e Ester, que traz na ideia o sossego de viver numa casa de campo com telha preta. Paralelamente, Abreu, um bom malandro em liberdade condicional, engendra tortuoso plano para se apropriar do património do velho, esquema que envolve um pintas bem falante (Bartlo) e uma moça voluptuosa (Cíntia), ambos devidamente enfarpelados. Sem grande surpresa, no fim todos ficam a arder, tanto familiares como larápios, mas o gozo está todo no modo como somos conduzidos, de trapalhada em trapalhada, até esse previsível desfecho. Um gozo que é antes do mais vocabular: «No fundo, invejava aquele desembaraço com que Bartlo, em abancando, estendia as pernas, levantava a mão a meia altura, e vá de palavrear e enfiar histórias, magnetizando quem estivesse em volta. Não era grande cabeça pra meditar, mas tinha uma boca de ouro para a palradeira.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Um concurso de micronarrativa para o fim do ano

É o Electric Literature’s Holiday Restraint Short Short Contest. Basta enviar para halimah@electricliterature.com, até dia 31 à meia-noite, micronarrativas em inglês (limite mínimo: 30 palavras; limite máximo: 300 palavras).

Primeiros parágrafos

«Mal Rassul ergueu o machado para o abater na cabeça da velha, a história de Crime e Castigo passa-lhe pela cabeça. Fulmina-o. Os seus braços estremecem, as suas pernas vacilam. E o machado escapa-se-lhe das mãos. Racha o crânio da mulher, penetra-o. Sem soltar um grito, a velha cai no tapete vermelho e negro. O seu véu, decorado com motivos de flores de macieira, flutua no ar antes de cair em cima do seu corpo flácido e rechonchudo. É agitada por espasmos. Mais um sopro, talvez dois. Os seus olhos arregalados fixam Rassul, de pé no meio da sala, respiração cortada, mais lívido do que um cadáver. Ele treme, o seu patu a cai-lhe dos ombros salientes. O seu olhar assustado absorve-se no jorro de sangue que, brotando do crânio da velha, se confunde com o vermelho do tapete, cobrindo os seus traçados negros, escorrendo depois, lentamente, para a mão carnuda dela, que segura um maço de notas. O dinheiro ficará manchado de sangue.»

[in Maldito Seja Dostoiévski, de Atiq Rahimi, trad. de Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Teodolito, 2011]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Balanço dos melhores livros de 2011, por Ana Cristina Leonardo, António Guerreiro, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Paulo Nogueira e Pedro Mexia.

Às arrecuas

Poemas Novos e Velhos
Autor: Helder Macedo
Editora: Presença
N.º de páginas: 168
ISBN: 978-972-23-4613-9
Ano de publicação: 2011

Ficcionista, ensaísta e titular da Cátedra Camões do King’s College (em Londres), Helder Macedo é também poeta com uma obra significativa, mesmo se menos visível do que a restante bibliografia. O essencial desse trabalho poético, iniciado há 55 anos e disperso por livros nalguns casos difíceis de encontrar, acaba de ser resgatado pelo autor na antologia Poemas Novos e Velhos. Aos poemas inéditos, Macedo colocou-os logo a abrir, retrocedendo no tempo a partir daí, numa espécie de cronologia invertida que vai, não sem uma certa coragem, mostrando o caminho percorrido às arrecuas, desde a sageza do criador maduro à energia em estado puro das primícias.
Começamos então pelas Colagens de 2010-11, poemas de síntese e rigor prosódico, atravessados por ecos camonianos e uma aproximação à ideia do fim, a morte que ronda, deixando vazia a mesa dos amigos: «Já se foram todos / quase todos / (…) um dia destes alguém vai-me telefonar / com a notícia / de que também eu». O tom é de resignada melancolia, consciente de que «Este vai ser / talvez / o meu último poema // ou talvez não». A «finita eternidade» permite sempre um recomeço, «porque tudo é só como parece / e é sem cura».
Vem depois a luz triste, desolada, da Viagem de Inverno (o seu melhor livro), com o «certo entendimento / de que as vidas são feitas / no perdê-las»; a revisitação das mitologias clássicas (Penélope, Orfeu) ou bíblicas (Os Trabalhos de Maria e o Lamento de José); mais os poemas longos da juventude, cheios de «chama» e desafio à «face agreste do mundo» («ergui-me vertical / para dizer-te / existes porque sou»).
O mais espantoso é verificar como os temas de Macedo se mantêm constantes no arco de meio século: sempre a tensão entre Eros (o amor sensual) e Thanatos (a «matéria da morte / de que tudo é feito»), o jogo dos espelhos, as fronteiras, os bloqueios, a demanda identitária. Num poema de Vesperal (1956/57), está já implícito o fecho do círculo: «Serei a minha ausência e o seu indulto / reinventando a minha liberdade / como um sarcasmo, um passatempo e um culto.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Mais palavras de 2011

Os utilizadores da plataforma de blogues do Sapo escreveram, durante este ano, mais de 100 milhões de palavras. A partir desta «montanha de dados» foi possível «tirar o pulso» a esta parte substancial da blogosfera portuguesa e identificar as «100 palavras que ganharam relevância» em 2011. Ao contrário do que acontece na votação da Infopedia, nesta lista a austeridade está cá para baixo (52.º lugar), enquanto a troika sobe ao primeiro lugar.

O ciclo de vida de um livro

Aqui.

Revista ‘Ler’, n.º 109


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Amanhã nas bancas.

‘Creative Writing’

Um conto de Etgar Keret (escritor israelita, autor de O Motorista de Autocarro Que Queria Ser Deus, AMBAR, 2004), publicado na edição desta semana da revista The New Yorker.

Trocas de livros nas estações de metro e comboio londrinas

«Boris Johnson, the London mayor, agreed to look into the possibility of establishing a network of book swaps in the capital’s 700 tube and train stations, in response to an idea put forward by Chris Gilson, a political researcher at the London School of Economics, who has already set up a pilot scheme for communal book sharing in his local station, West Ealing.»

Os mil degraus do verso

Vozes
Autora: Ana Luísa Amaral
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-20-4781-4
Ano de publicação: 2011

No ano passado, Ana Luísa Amaral reuniu a sua obra poética completa num só volume (Inversos. Poesia 1990-2010, D. Quixote); coordenou uma edição anotada das Novas Cartas Portuguesas (na mesma editora); e traduziu, para a Relógio d’Água, Cem Poemas da norte-americana Emily Dickinson. Hiperactividade ou mera coincidência de projectos autónomos? Provavelmente coincidência. O certo é que ALA mal deixou que a poeira assentasse sobre Inversos e temos já nova obra original, Vozes, mais um exemplo da pujança criativa da autora.
Muitos dos poemas deste livro circulam por paisagens reconhecíveis: os ritmos do quotidiano, as epifanias domésticas, o rasto de coisas «evanescentes» que se guardam «por comovidas gavetas e memórias». Mas há também outras atmosferas. Por exemplo, o lirismo sossegado dos oito fragmentos sobre os Açores, como que a pairar sobre a geologia das ilhas, intuindo a criação do mundo na beleza agreste do basalto. Ou os «apontamentos» aéreos, escritos num avião, mais alto do que as nuvens («como exércitos / pintados»), por entre referências ao triste fim de Ícaro.
A escrita de ALA tem quase sempre uma dimensão lúdica, de experimentação e prazer no trabalho da linguagem, que neste livro se cruza com uma espécie de ventriloquismo, uma vontade de se aproximar (e, nalguns casos, de se apropriar) de outras «vozes», sejam elas estritamente poéticas (Rilke, Camões, Bocage) sejam históricas (Galileu na sua torre; D. Dinis e os navegadores que abriram caminho para novos mundos; ou Pedro e Inês imaginados na velhice, num delicioso exercício de ironia em que o desejo carnal do rei se reduz ao «bom bife / de javali macio», tendo ficado há muito para trás a «fantasia peregrina» de «ver Inês em esquife»).
Muitas vezes, esta desarmante ironia, espécie de antídoto para a solenidade, começa logo nos títulos (Junto a um levíssimo pormenor de estilo ou Gato em apontamento quase barroco e de manhã de sábado). Tudo se joga, afinal, «no avesso / das palavras // que não chegam / – mas cegam». Tudo se resume a «subir a pulso / os mil degraus do verso, / e não voltar / atrás», sem perder de vista que os «estados da matéria» são ambíguos: «Mas nem isto é balada nem estão certas as sílabas / em poema que agora nem sólido, nem líquido.» Indeterminados ou não, os poemas nunca deixam de exibir um certo requinte no acabamento. Como no «quase soneto» onírico que termina assim: «E esse corpo adormece ao nosso lado, / depois de tudo o resto acontecido // – que nunca acontecera, se acordado.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Palavra do ano 2011

No site da Infopédia, é possível votar na palavra do ano 2011. Sem grande surpresa, neste momento a austeridade vai à frente, com um confortável avanço sobre três outsiders: charter (não sei se por causa do Paulo Futre ou da vontade que tantas pessoas sentem de fugir do país; impulso aliás incentivado pelo Governo), esperança e troika (duas palavras que são antónimos).
A votação fecha no dia 31.

Emma Donoghue: “Este romance é como uma criança que se recusa a crescer”

Irlandesa de nascimento, Emma Donoghue (1961) vive no Canadá desde 1998. O seu sétimo romance, Room (publicado pela Porto Editora com o título O Quarto de Jack), chegou em 2010 à shortlist do Man Booker Prize e foi finalista do Orange Prize. É um livro intenso, emocionalmente poderoso e estilisticamente original, que narra uma história de sequestro (semelhante à dos mediáticos casos de Elizabeth Fritzl e Natascha Kampusch) pela voz do filho da vítima. A escritora respondeu às perguntas enviadas por e-mail a partir de «vários aeroportos».

Este romance é narrado por um rapazinho de cinco anos. Foi difícil encontrar o tom certo, a voz ideal para o Jack?
Para ser sincera, não foi nada difícil. O meu filho tinha cinco anos na altura em que escrevi o livro e pedi-lhe emprestada muita coisa. O grande desafio técnico deste livro era tornar a Mãe do rapaz uma verdadeira personagem, até porque tudo o que sabemos dela é através dele.

A sensação com que se fica, ao longo do livro, é que o texto não foi escrito por um adulto que finge ser uma criança, mas por uma criança capaz de contar uma história terrível de isolamento e medo, de amor e redenção. O que é que sacrificou para chegar a esta nova linguagem? Teve de abdicar do seu estilo?
Felizmente, eu não tenho um estilo de escrita. Há muitos leitores que nem se apercebem que já leram vários livros meus porque eu adapto o meu estilo a cada história.

Investigou questões relacionadas com a psicologia infantil em situações-limite?
Sim, claro. Li muito sobre a forma como as crianças se desenvolvem, quer em contextos normais, quer em circunstâncias bizarras.

Nos últimos anos, tornaram-se públicas, e com enorme exposição mediática, várias histórias reais de raparigas sequestradas e abusadas, que tiveram filhos durante longos cativeiros. Porque escolheu um tema tão sombrio para o seu livro?
Não foi porque seja algo que aconteça muito. Não acontece. Mas estes são casos particularmente interessantes para testar a oposição entre a parentalidade e a importância do mundo social. É um tema com aspectos horríveis, mas não sombrio.

O quarto em que Jack viveu toda a sua curta vida com a mãe é uma prisão, mas também um abrigo. Para a criança, representa o universo inteiro. É por isso que ele nomeia os objetos com letras maiúsculas (Cama, Guarda-Fatos, Candeeiro)? Chega a parecer que estamos a lidar com arquétipos platónicos.
Desde o início do planeamento do livro que tive consciência desses elementos arquetípicos e das implicações filosóficas… Por isso, fiz questão de enraizar tudo num enquadramento absolutamente realista. Tirei notas sobre as dimensões de cada peça de mobiliário e passei dias a investigar, por exemplo, os tipos de vidro de alta segurança, à prova de choque, para a claraboia. Queria que a minha narrativa fosse suficientemente naturalista para ganhar a confiança dos leitores que estão prestes a deixar-me puxar os fios dos seus corações.

Há qualquer coisa de útero naquele quarto, não há? E isso talvez explique o facto de ser tão difícil, para o Jack, sair dali para fora e enfrentar o mundo real.
Sem dúvida. Na língua inglesa, a palavra ‘quarto’ rima com ‘útero’ (room/womb). Eu vejo este romance como a história de um parto, uma meditação sobre a necessidade de termos um progenitor que nos ame — mas também de sermos capazes de crescer para além dele.

Depois de meses imersa na linguagem cândida e pura de Jack, foi complicado voltar a escrever de outra maneira?
Como já disse, eu não tenho um estilo pessoal. Apenas um conjunto de preocupações características, creio. A voz do Jack foi menos estranha do que outras adoptadas por mim anteriormente, como as dos diálogos entre aristocratas ingleses do século XVIII no romance Life Mask.

Presumo que as personagens mais fortes sejam difíceis de abandonar. Como é que conseguiu libertar-se de Jack?
As personagens fortes são muito difíceis de abandonar, sobretudo quando recebo vários e-mails por dia de pessoas que acabaram de ler O Quarto de Jack ou estão a meio do livro! De certo modo, este romance é como uma criança que se recusa a crescer. E estou impaciente para passar a outra coisa. Mas, ao mesmo tempo, estou muito grata por ter sido capaz de escrever algo que provoca um efeito duradouro no mundo.

O livro termina com uma comovente cena em que Jack se despede do lugar que foi o paraíso para ele e um inferno para a mãe. É um momento libertador, mas melancólico. Intuímos que a verdadeira vida de Jack começa naquele momento. Só que não ficamos a saber nada do que aconteceu depois.
Pois não. Porque na verdade eu espero que lhes seja permitido, à mãe e ao filho, mergulharem na absoluta normalidade. Ou seja, que vivam todas as experiências banais. Experiências preciosas em si mesmas, mas que não precisam de comentário.

Vários críticos referiram-se a este romance como algo diferente de tudo o que haviam lido antes. Apercebeu-se, enquanto escrevia, desta tão elogiada originalidade?
Não posso negar que tinha grandes ambições para este livro, sim. Nunca me senti tão segura desde a primeira hora em relação a uma ideia como neste caso. E também nunca hesitei nas minhas decisões (como tornar Jack o narrador; ou colocar a fuga a meio da narrativa, em vez de no fim). Mas claro que fiquei surpreendida por tantas pessoas terem gostado do livro!

Além do reconhecimento da crítica e do público, O Quarto de Jack obteve vários prémios. Contudo, falhou os dois principais, Man Booker e Orange, apesar de ter estado na shortlist de ambos. Ficou desiludida? Que importância têm os prémios literários para si?
Qualquer escritor desejaria ter tudo: excelentes recensões, o aplauso do público e os grandes prémios! Mas devo dizer que O Quarto de Jack chegou a tantas pessoas do mundo inteiro, tocando-as, que sinceramente não necessito de mais nada.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Imagens translúcidas

O que mais me impressionou foi a súbita explosão de alegria. O anúncio do Nobel costuma ser uma cerimónia circunspecta. Abre-se uma porta numa sala cheia de dourados, o secretário permanente da Academia Sueca faz uma curtíssima declaração, ouvem-se os disparos das máquinas fotográficas e um ligeiro burburinho (geralmente um «quem é?» em várias línguas, quando o premiado sai das trevas do anonimato). Este ano foi diferente. Quando Peter Englund, visivelmente satisfeito, revelou que o Nobel ficaria em casa, na Suécia, nas mãos do venerado poeta Tomas Tranströmer, a sala rejubilou. E eu também. A sala rejubilou porque ao fim de 37 anos acabava o tabu provocado pela polémica atribuição do Nobel a dois suecos em 1974, Harry Martinson e Eyvind Johnson, ambos membros do comité do prémio. Eu porque o Nobel voltava a ser atribuído a um poeta, 15 anos depois. Pelo meio houve Saramago e Pinter, que também escreveram poemas, mas foram premiados pelos seus romances (o primeiro) e peças de teatro (o segundo). Poeta-poeta, o último fora a polaca Wislawa Szymborska, em 1996, há uma eternidade.
Alguém devia fazer um dia, se já não foi feito, um estudo sobre as justificações lapidares da Academia Sueca, reduzidas quase sempre a uma frase generalista, redonda e abrangente, que pode ser perfeita para a lógica dos soundbytes da comunicação social, mas é curta para quem deseja perceber o que distingue o autor premiado. No caso de Tranströmer, foram evocadas as suas «imagens condensadas e translúcidas» que permitem «novas formas de acedermos à realidade», um elogio que em bom rigor pode aplicar-se a dezenas de outros poetas. Houve, apesar de tudo, alguma exactidão na referência às «imagens translúcidas», porque é precisamente o refinadíssimo trabalho metafórico de Tranströmer, a capacidade de vermos através das imagens por ele convocadas, que torna a sua poesia tão arrebatadora.
Os poemas que conheço deste autor foram vertidos para inglês, castelhano e (poucos) para português. Se a poesia é o que se perde na tradução, como defendia Robert Frost, eu de cada vez que os leio fico com pena de não saber sueco. Pressinto neles uma delicadeza que o trânsito para outras línguas deforma. O poema traduzido é a sombra do poema original: tem o seu contorno, a sua silhueta, mas falta-lhe espessura. Ainda assim, encontrei belíssimas sombras. Como a de Madrigal, traduzido por Alexandre Pastor no Jornal de Letras: «Herdei uma floresta sombria onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que mortos e vivos mudarão de lugar. A floresta começará então a mover-se. (…) Eu herdei uma floresta sombria, mas hoje passeio numa outra, plena de claridade. Tudo o que está vivo e canta, serpenteia, acena, rasteja! É primavera, e o ar que se respira é fortíssimo. Tenho um diploma da universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.» Releio o poema e as imagens acendem-se: a floresta que se move, como no quinto acto de Macbeth; a explosão da primavera; a universidade do esquecimento; as mãos vazias agitadas pela ventania que não precisa de ser nomeada.
Este poema surgiu num livro de 1989 e há justamente uma imagem – a da camisa pendurada na corda – que rima com outro poema, de 1966, intitulado Pássaros Matinais (aqui em tradução do poeta português João Luís Barreto Guimarães, a partir de uma versão castelhana): «(…) Por uma parte de trás da paisagem / chega a gralha / negra e branca. Pássaro agoirento. / E o melro que se move em todas as direcções / até que tudo seja um desenho a carvão, / salvo a roupa branca na corda de estender: / um coro da Palestina: // Não há vazios por aqui. // É fantástico sentir como cresce o meu poema / enquanto me vou encolhendo / Cresce, ocupa o meu lugar. // Desloca-me. / Expulsa-me do ninho. / O poema está pronto.» A imagem translúcida, aqui, é a do poema que se desenvolve à custa do poeta, o crescimento de um fazendo-se do encolhimento do outro, o poema ocupando o lugar do poeta, expulsando-o do ninho. Uma lição essencial. Quem ganhou o Nobel este ano não foi Tranströmer, mas a poesia.

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

A memória dos mortos

Anatomia dos Mártires
Autor: João Tordo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 271
ISBN: 978-972-20-4875-0
Ano de publicação: 2011

Logo na primeira página do quinto romance de João Tordo, surge uma espécie de linha de força programática: a ideia de que a nossa existência é «indissociável da memória dos mortos». Quando os queremos resgatar ao esquecimento, ou aos equívocos da História, eles acabam «por assombrar o resto dos nossos dias». É precisamente isso que acontece ao narrador de Anatomia dos Mártires. Jornalista ambicioso, à espera de uma oportunidade para brilhar no suplemento de fim-de-semana, ele decide abordar o tema do martírio num artigo em que associa Catarina Eufémia — a camponesa assassinada em Baleizão, símbolo da resistência anti-fascista — ao suicídio de um místico americano, que saltou do 37.º andar de um prédio em Nova Iorque com um manuscrito amarrado ao peito (segundo o qual o verdadeiro silêncio é o único caminho de aproximação a Deus e aos seus desígnios).
O artigo desperta uma onda de protestos que ganham uma dimensão preocupante quando Raul Cinzas, o editor-chefe do jornal, entra em coma depois de ser atacado na rua por desconhecidos. Cinzas, conhecido por ser um «velho comunista» (mas menos empedernido do que aparenta), saíra em defesa do «jovem» arrogante e este, ainda aturdido com a magnitude das reacções ao texto e com o ataque ao seu superior hierárquico, decide lançar-se numa investigação séria sobre a história de Catarina Eufémia. Para compreender o presente, ele sente que é preciso esclarecer o passado, mas depressa se descobre perdido num «labirinto cheio de espelhos». A partir das muitas versões contraditórias sobre os acontecimentos de 19 de Maio de 1954 – da questão da suposta gravidez da ceifeira aos gestos exactos do assassino (o tenente Carrajola, da GNR) – impôs-se uma narrativa que sobrepõe a «Catarina-mártir» (desde então o símbolo maior da luta comunista no Alentejo) à «Catarina-mãe» ou à «Catarina-mulher», predispostas estas a viver e não a morrer. Cinco décadas após os acontecimentos, o resgate da Catarina real – a de carne e osso, não a lendária – é impossível. Porque atrás do mito não há nada: ele assenta apenas em «meias-verdades» e em «meias-mentiras» que conduzem inevitavelmente ao «cepticismo mais absoluto ou ao dogmatismo mais desenfreado».
Enquanto se entrega à busca obsessiva de um sentido para a história da ceifeira que morreu a exigir um pagamento justo para o trabalho duro, mas também paz, o narrador coloca entre parêntesis as outras frentes da sua vida: o romance com Lorna Figgis, uma irlandesa cheia de segredos; a relação conflituosa com o pai (um antigo maestro à beira da loucura, sempre a escavar o fosso geracional que o separa do único filho); os encontros tensos com Tom Kapus, o biógrafo de Francis Dumas, o tal suicida místico americano; ou a amizade com Afonso, um gestor de investimentos em fundos que perdeu tudo com a crise financeira mundial (tema que atravessa o romance de ponta a ponta, como um inquietante ritornelo).
A dada altura, o protagonista convence-se de que resolvendo o mistério de Eufémia, a mártir involuntária alentejana, poderá encontrar a «chave» para as suas restantes histórias. Pura ilusão. O mistério não se resolve, pelo contrário. E é ele que se deixa apoderar pela «funesta sombra de Catarina», como outros se tinham apoderado dela antes. Só depois de dar quase tudo por perdido – o emprego, o amor, as expectativas de conseguir transformar a morosa investigação num livro – é que a libertação surge, num final épico e optimista, com vozes ao alto, bandeiras ao vento, promessas de sublevação e a memória dos mortos finalmente resgatada.
João Tordo conhece bem as técnicas narrativas, sabe criar conflitos entre as personagens e domina a difícil arte do diálogo. A prosa, porém, ressente-se de uma certa rigidez estilística, do abuso de adjectivos, de uma grandiloquência nem sempre justificável e da vaga sensação de que tudo nesta escrita obedece a uma fórmula. Os livros de Tordo são densos, coesos, eficazes, mas muito construídos, muito certinhos, pouco dados à saudável subversão das regras e dos códigos.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Orfeu Negro)

A Arte da Performance, de RoseLee Goldberg (segunda edição, revista e aumentada); Poética da Dança Contemporânea, de Laurence Louppe; Sobe e Desce, de Oliver Jeffers; Os Animais Estavam Zangados, de William Wondriska.

Primeiros parágrafos

«Tom aprendera com José Quintero que não se deve roubar pão – o motivo é de ordem religiosa; e que dirigir uma peça ou um filme é procurar algo de tímido e de interior, escondido nos bosques do nosso ser.
Era o começo do Outono e as folhas desprendiam-se das árvores; à noite fazia frio. No teatro, fazia sempre frio. Tom tinha visto tantas raparigas a lerem o papel, que começava a sentir-se aborrecido. Uma das actrizes profissionais do primeiro dia…
A rapariga foi a última da tarde. Ele viu-a atravessar a sala e subir para o palco sem grande interesse. Era bonita, o cabelo louro comprido, o corpo magro, vestia um casaco preto de cabedal que tirou antes de sentar-se. Por baixo vestia uma T-shirt branca, sem mangas, e uma saia preta que lhe ficava alguns centímetros acima do joelho. Botas pretas. Parecia cansada.
Tom conhecia aquele cansaço. Não era o cansaço de quem trabalhara muito naquele dia, de quem trabalhara muito na véspera, mas a simples dor de estar vivo. Devia ter vinte e nove ou trinta anos. Ele conseguia ver a sua história nos olhos cor de avelã. O trabalho num bar para pagar os estudos, um ou dois bons papéis, inúmeras audições e depois nada. Pequenos papéis em peças que saíam de cartaz ao fim de umas semanas e nada.»

[in O Lago, de Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água, 2011]

O poeta asceta

O Som do Sôpro
Autor: António Barahona
Editora: Poesia Incompleta
N.º de páginas: 142
Depósito legal: 325043/11
Ano de publicação: 2011

Em O Som do Sôpro, o cinzelado volume que António Barahona decidiu publicar com chancela da livraria Poesia Incompleta, assistimos a uma curiosa rebelião ortográfica. Numa altura em que o fatídico Acordo começa a ser aplicado no mundo editorial, Barahona recusa-se a pactuar com as novas regras. Mas, ao contrário de outros autores que também continuam a escrever como sempre escreveram, ele vai mais longe: em vez do questionável passo em frente, dá ostensivamente um passo atrás, recuperando grafias que a norma anterior já tinha banido, como «éther», «lucta», «hymno» ou «saüdade». E se há aqui um efeito de estranheza (o vocabulário aproxima-nos de Camilo Pessanha), ele faz todo o sentido no contexto da rigorosíssima poética do autor.
Central neste processo é a procura da sonoridade certa («o som em carne viva», o «som do sôpro / primordial») que obriga o poeta a uma «constante reescrita do poema», subindo a escada da «lenta e dolorosa» aprendizagem, cujos últimos degraus só a Deus pertencem. «É por causa do som que o vate vive», explicita Barahona, que muitas vezes procura no soneto a forma perfeita («como a roda, o cubo e o triângulo»), num esforço de pura oficina que procura alcançar «fulgor e limpidez verbal» – embora na «convulsiva tarefa» de esculpir a beleza (por exemplo, pondo «em verso / obscuro» a «claridade do fim do dia») acabe muitas vezes por ser o «escultor» a ser esculpido «até ao escalpe». O «gesto d’escrita» constrói um universo, mas também implica despojamento: «O poeta / é um asceta / que renuncia ao oiro do mundo / mas não aos frutos da Terra».
Na sua qualidade de muçulmano zeloso, para quem a «total entrega ao Alcorão» está acima de tudo, Barahona dedica muitos poemas a louvar o Profeta ou a descrever os rituais nas mesquitas de Lisboa. Mais interessantes, porém, são as suas aproximações ao amor, com forte carga erótica, muito na linha da tradição oriental: «O teu corpo é mais belo na minha cama / do que um céu de alegria sobre o mundo.» Na quarta parte do livro, talvez a melhor, é a memória dos mortos que se impõe, mas sem rasto de lágrimas, «a menos / que sejam d’alegria, em versos plenos / de fúnebre alabastro». As várias evocações de amigos perdidos têm o seu vértice num poema extraordinário, Memória do Café Gelo, em que se recupera a célebre tertúlia de «conversas incendidas, sismo a sismo, / no desabar da época», com Barahona a ver-se adolescente no meio do grupo de poetas, sentado «quase à margem / numa fresta de céu».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Maravilhas da paternidade

Como todos os anos, o Pedro e a Alice deixaram uma merenda para o Pai Natal ao pé da árvore. Ao ver o pacote de leite meio-gordo na cozinha, a Alice disparou: «Acho que era melhor oferecermos leite magro. O Pai Natal já é muito gorducho. Não pode engordecer ainda mais.»

Para o ano, a minha árvore de Natal vai ser assim

Equilibrar-se-á melhor, sem dúvida, que a de plástico verde comprada na loja dos chineses.

Quatro poemas de Manuel A. Domingos

Uma mulher
grita
contra um gafanhoto

Uma criança
mostra
um desenho ao avô

Uma andorinha
faz
o reconhecimento

dos telhados

***

SONETO #3

Gosto de fazer
a barba enquanto
no duche cantas
um qualquer samba

que sabes de cor
Eu de cor só sei
um ou outro verso
que aprendi na escola

mas confesso
que isso agora pouco
ou nada importa

Cortei-me e não há
verso capaz
de estancar o sangue

***

Não adianta
pensar nas coisas
na sua mecânica

por menos caiu
Tróia e Jericó
viu as suas muralhas
no chão

Abre a janela
respira o ar
antes que seja tarde
ou o dia passe
ao largo
dos sentidos

Sai à rua

Podes nem
acreditar

há vida
para lá de tudo
isto

Mas caminha
com cuidado

não vá
uma andorinha
cagar-te no ombro

***

João de Deus
não te ensinou nem
as primeiras letras
nem os primeiros
versos

e dele só ficaste
a saber – pela voz
do teu pai – que um curso
de três não se faz
em nove

Isso foi antes
de ganhares a primeira
bolsa de criação literária
e passares parte
do dia na esplanada
a olhar as pessoas
passar

de pouco serviu

preferiste
escrever sobre fantasmas

em vez de tremoços
e cervejas

Chegaste a ensaiar
uma teoria
sobre os malefícios
da poesia
que te levou
a fumar muitos
cigarros

pensar cada vez mais
na morte

Depois veio
o merecido prémio
e passaste a integrar
mesas redondas

colóquios

[in Teorias, edição do autor, 2011]

Onze metros quadrados

O Quarto de Jack
Autora: Emma Donoghue
Título original: Room
Tradução: Cristina Correia
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 333
ISBN: 978-972-0-04343-6
Ano de publicação: 2011

A escritora irlandesa Emma Donoghue inspirou-se em várias histórias de sequestro prolongado – Elizabeth Fritzl, Natascha Kampusch, entre outras – para construir um romance intenso sobre o mal absoluto e a resiliência humana, sobre os abismos do trauma psicológico e o poder do amor. Mesmo sem ter vencido nenhum dos grandes prémios literários para que foi nomeado (chegou à shortlist do Man Booker e do Orange Prize), o livro fez parte das listas dos melhores de 2010 na imprensa internacional. E com toda a justiça.
Aos cinco anos, a única realidade que Jack conhece é a do quarto minúsculo (11 metros quadrados) onde nasceu e de onde nunca saiu. Quando foi raptada, sete anos antes, a mãe ainda adolescente sujeitou-se a todo o tipo de abusos por parte de Nick, o homem que a escondeu num barracão ao canto do jardim das traseiras de sua casa. Para Jack, o universo acaba nas paredes do quarto. O Lá Fora, que vai entrevendo nos programas de televisão, tem qualquer coisa de fantasmagórico, como se não fosse verdadeiro. A única realidade real é a que pode tocar e sentir, a realidade dos objectos que são nomeados com maiúscula: a Cama, o Candeeiro, a Banheira, a Clarabóia, o Tapete.
Jack não se sente preso porque nunca saiu daquele espaço fechado, ao mesmo tempo útero e caverna de Platão. Sabe que Nick existe porque o ouve à noite, fazendo ranger a cama da mãe, enquanto ele se esconde no Guarda-Fatos. A mãe, não. A Mamã. Entre tantos arquétipos, ela é o arquétipo absoluto, o alfa e omega. A relação entre mãe e filho – quase fusional (Jack ainda mama) – ocupa todo o espaço afectivo e físico das respectivas vidas, coagula o próprio tempo. Mas o idílio simulado, feito de rotinas e rituais que reforçam uma cosmogonia a dois, torna-se insustentável. A mãe acaba por não conseguir esconder a dor, a angústia e a necessidade da fuga.
Donoghue foi muito inteligente na escolha do narrador. Tudo o que acontece, tanto na claustrofóbica primeira metade do livro (sobre a clausura no Quarto) como depois da libertação, surge na primeira pessoa, contado por Jack. E o que temos é uma voz que nos fascina e perturba, uma voz que normaliza o horror do cativeiro com uma desarmante lógica infantil. São essa voz e essa lógica, captados de forma muito subtil por Donoghue, que fazem deste romance um notável exercício de linguagem (inventivo sem deixar de ser verosímil) e uma investigação lúcida sobre a forma como uma criança se pode desenvolver no isolamento total, sem interacções sociais e dependente do amor materno.
Quando Jack encontra por fim o grande mundo, o leque de personagens amplia-se, a tragédia ganha outros contornos (com o colapso da mãe) e a narrativa perde algum foco, sobretudo quando deriva para uma crítica da previsível vampirização da história por parte dos media. O choque com a realidade é tremendo e Jack acaba por oferecer uma compreensível resistência à mudança. Ao integrar-se na sociedade, ao autonomizar-se da mãe, a criança sofre de uma só vez todas as dores de um crescimento adiado. Donoghue revela-nos com delicadeza os cambiantes deste embate e fecha o livro com uma espantosa cena de despedida, em que Jack, de regresso ao Quarto, diz adeus àquele espaço que agora parece mais pequeno («Encolheu?»), um inferno que para ele foi o jardim do Éden. «Olho para trás mais uma vez. É como uma cratera, um buraco onde algo aconteceu. Depois, saímos pela porta.» E é como se finalmente, cortado o cordão umbilical, pudesse verdadeiramente nascer.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Jo Nesbo, autor de A Estrela do Diabo (Dom Quixote), por Paulo Nogueira
Haja Luz! Uma História da Química Através de Tudo, de Jorge Calado (IST Press), por Virgílio Azevedo
Papéis de Jornal, de António Mega Ferreira (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por Pedro Mexia
Macedo, uma biografia da infâmia, de António Mega Ferreira (Sextante), por Hugo Pinto Santos
Anatomia dos Mártires, de João Tordo (Dom Quixote), por José Mário Silva
Bel-Ami, de Guy de Maupassant (Relógio d’Água), por Carlos Bessa
A Estrela do Diabo, de Jo Nesbo (Dom Quixote), por Paulo Nogueira
Um Lugar nos Olhos, de Luís Manuel Gaspar (Ao Norte), por Sara Figueiredo Costa
Viagem de Autocarro, de Josep Pla (Tinta da China), por Mário Santos
Em Caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado, de Inês Dias (Tea for One), por António Guerreiro
Pensamentos, de Oscar Wilde (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Os 50 Grandes Acontecimentos da História, de Hugh Williams (Matéria Prima), por Anabela Natário

O que aí vem (Planeta)

A cor da memória, de Care Santos; A mulher que mergulhou no coração do mundo, Sabina Berman; Jesus Ama-me, de David Safier; Um erro inconfessável, de Emma Wildes; O estudante de Coimbra, de Guilherme Centazzi; Múltipla Escolha, de Lya Luft.

Balada dos desterrados

O Retorno
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-989-671-098-9
Ano de publicação: 2011

Até agora, quase 40 anos após o processo da descolonização, ainda não aparecera um grande romance português capaz de contar, como merece ser contada (isto é, sem enviesamentos ideológicos ou saudosismos serôdios), a história do difícil regresso de meio milhão de pessoas à metrópole, nos tempos mais conturbados da década de 70. O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China), é esse romance.
A autora não defende nem condena os «desterrados», antes ilumina o que acontece a uma família em dois momentos muito concretos: aquele em que já se perdeu tudo (saída de Angola) e aquele em que ainda não se tem nada (os primeiros meses de impasse, num hotel do Estoril, à espera de refazer a vida). O que se passou antes e depois é como se não existisse, está fora de campo. Dulce Maria Cardoso evita explicar o passado ou antever o futuro das suas personagens. O que lhe interessa é apenas aquele estranho purgatório em que caíram, o limbo entre existências diametralmente opostas.
Para reforçar este efeito de transitoriedade, quem conta a história é o mais novo da família, um adolescente que se encontra, também ele, entre dois mundos: a infância e a vida adulta. Com uma voz narrativa ainda à procura do tom certo, fugidia e por vezes caótica («não consigo mandar naquilo em que penso»), Rui absorve um turbilhão de acontecimentos, mas mostra-se muitas vezes incapaz de lidar com tanta realidade. Ele já tem barba (embora não justifique ida ao barbeiro), já fuma às escondidas, já aprendeu a guiar, já experimentou o sexo com raparigas negras, mas falta-lhe estofo emocional. Quando o pai é preso à sua frente, confundido com um branco assassino, desmaia – e nunca se perdoará por essa cobardia. A experiência na metrópole acaba por ser também a crónica do seu crescimento, da sua autonomia, embora ele nunca abandone uma certa candura que dá consistência e verosimilhança ao relato.
O primeiro capítulo é exemplar na forma como materializa a perda total de quem se vê obrigado a fugir de uma terra que considerava sua. A mãe de Rui, psicologicamente instável, cercada de demónios íntimos que os comprimidos não conseguem afastar, prepara as poucas malas para o voo da noite, enquanto o pai, frustrado por não se ter rendido às evidências em devido tempo, vai arrancando com uma faca as dálias bordadas na toalha do almoço. Ele quer queimar tudo, a casa e os camiões que explora, para que os «pretos» não se fiquem a rir. E há um silêncio que paira sobre todas as coisas (a guerra, a doença da mãe, a consciência de que «Angola acabou»), o silêncio que Rui encontra nos quintais vazios das redondezas, com «pneus quietos nas árvores como se fossem olhos parados no ar a fazerem-nos perguntas».
A chegada à metrópole, «acanhada e suja», de ruas estreitas «onde parece que nem cabemos», representa um choque: «era como se estivéssemos a entrar no mapa que estava pendurado na sala de aula». Com quartos a abarrotar de gente – restos humanos do «império cansado, (…) derrotado e humilhado», sempre a evocar idílios coloniais e a maldizer os políticos «traidores» –, a atmosfera do hotel torna-se irrespirável. A espera «faz com que os dias pareçam emperrados uns nos outros» e dificulta a integração na sociedade, na escola, no quotidiano de um país a meio de um processo revolucionário.
Há muitas coisas que Rui ignora. Sobre a passagem do pai pela prisão, sobre os demónios da mãe, sobre o amor. Na véspera do tão aguardado reinício, porém, os seus horizontes abrem-se como a paisagem que avista do terraço do hotel. E Dulce Maria Cardoso fecha o romance como o começou: demonstrando uma precisão narrativa e uma clareza de estilo absolutamente admiráveis.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Pai, tu és o fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo, mais fundo do meu coração.»

Lembrete

Logo à noite (21h30), Avenida de Poemas no palco do Teatro Tivoli, com Nuno Artur Silva a ser entrevistado por Raquel Marinho e por mim, a partir dos poemas da sua vida.

‘Grande Sertão Veredas': 55 anos depois

O jornalista brasileiro Jorge Sanglard reflecte sobre a obra-prima de Guimarães Rosa, a partir das xilogravuras que o artista plástico Arlindo Daibert criou para o livro.

O único verdadeiro deus vivo

É um blogue (em que o senhor Miguel Martins, poeta, se dirige aos humanos).

Luísa Costa Gomes para Kindle

Já há vários livros de uma das melhores escritoras portuguesas contemporâneas disponíveis para Kindle. Conferir aqui.

Memorial do estaleiro

Nascimento de uma Ponte
Autora: Maylis de Kerangal
Título original: Naissance d’un pont
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: Teorema
N.º de páginas: 278
ISBN: 978-972-695-971-7
Ano de publicação: 2011

Durante muitos anos, houve quem explicasse o declínio do estatuto e influência da literatura francesa em Portugal – enormes há meio século, quase nulos hoje – com a conjugação de dois factores. Por um lado, a hegemonia cada vez mais notória da língua inglesa nos principais circuitos de consumo cultural. Por outro, um fechamento de horizontes dos próprios autores do Hexágono, incapazes de fugir a um certo pendor solipsista (como se a realidade não fosse além dos dilemas existenciais de quem vive em apartamentos modernos na rîve gauche parisiense). Se o primeiro factor é indesmentível, o segundo nem por isso. Aliás, o estereótipo do umbiguismo à solta em Saint-Germain des Prés não passa disso mesmo: de um estereótipo. Ou de uma parte tomada pelo todo. Além dos consagrados que são excepções à suposta regra (Le Clézio, Quignard, Echenoz, entre outros), há muitos novos autores que demonstram a vitalidade e diversidade da ficção francesa contemporânea. Felizmente, alguns deles começam a ser publicados por cá. Depois de Mathias Énard (Zona, Dom Quixote) e Laurent Binet (HHhH, Sextante), duas magníficas surpresas, apareceu de rompante este notável Nascimento de uma Ponte, de Maylis de Kerangal, justíssimo vencedor do Prémio Médicis de 2010.
A ponte a que o título se refere é um projecto de enorme envergadura (seis faixas de rodagem, quase dois quilómetros de comprimento, torres altíssimas, tabuleiro suspenso, tudo desenhado por um arquitecto de renome), obra de rasgo que promete colocar no mapa a imaginária cidade californiana de Coca, da qual «nunca ninguém ouviu falar». Fascinado com o novo-riquismo urbanístico do Dubai, o mayor aposta forte na ideia de expansão, acredita que é uma espécie de Médicis, um «príncipe mecenas de capa de veludo», e quer vencer a barreira que separa as duas margens em tudo opostas: de um lado, o crescimento económico vertiginoso; do outro, a floresta quase virgem, ainda habitada por tribos de índios. Paisagem dentro da paisagem, aquele «bloco de energia bruta» é um hino à engenharia e um delírio de grandeza («como um enorme desejo num corpo muito pequeno»).
Nas mãos de Kerangal, a ponte assume-se como uma metáfora da globalização, um íman que atrai operários especializados vindos de todo o mundo – dezenas de personagens que existem enquanto unidades narrativas autónomas, mesmo se nalguns casos reduzidas à escala mínima do parágrafo. O livro organiza-se como o relato exaustivo de uma «epopeia técnica», com a sua «movimentação colectiva», mas a autora, para lá da «mecânica gigantesca» do estaleiro, também nos oferece uma espécie de poética do trabalho, visível no modo como o texto assimila, nas suas frases longas, muito bem cinzeladas, as dinâmicas e ritmos próprios da construção (a prosa é pulsátil, voluptuosa, belíssima).
Enquanto crescem os pilares da ponte, alarga-se o alcance da gesta narrada. Kerangal não se limita a descrever as contingências da obra: múltiplos atrasos (por causa do clima agreste ou da nidificação de aves migratórias); acidentes; ameaças de greve; uma hipótese de atentado. Vai mais longe, recuperando a história mítica da cidade, hoje «dopada pelo suor e pelo dinheiro», mas outrora apenas a materialização do sonho árduo dos pioneiros que desbravavam a natureza, a caminho do mirífico Oeste. E vai também mais fundo, aproximando-se em zoom das personagens, entrando nelas, nos seus pensamentos e memórias, nas suas histórias passadas, nos seus amores improváveis. Há em Nascimento de uma Ponte um sopro épico, mas o fulgor da escrita nunca ofusca a sua dimensão humana.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Dois poemas de A. M. Pires Cabral

DEFEITO DE FABRICO

Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.

Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,

e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.

Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.

Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –

– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.

Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.

***

UMA TOUPEIRA NA CALÇADA

Vi uma toupeira na calçada.

As toupeiras não se dão bem em calçadas
– elas que têm no solo arável o seu habitat –
mas aquelas estava ali inexplicavelmente.

Uma aventura que acabou mal,
pensei para comigo.

A toupeira extraviada na calçada
esbracejava (se assim se pode dizer)
como um náufrago que não tem bóia nem tábua.

Tentava refugiar-se na terra
a que pertencia. Mas, desfavorável,
a pedra não se deixava fender das suas unhas,
tal como a água se não deixa nadar
do desespero do náufrago
que não tem tábua nem bóia.

Estava-se mesmo a ver como a coisa ia acabar.

Enquanto tivesse forças, a toupeira,
embora perplexa daquele lugar hostil,
continuaria sempre a esbracejar,
arranhando em vão a pedra da calçada.
Depois, algum gato havia de passar por ali
(há sempre um gato que passa ‘por ali’)
e daria o remate apropriado
a esta história sem história.
No fim de contas, uma toupeira é um rato,
não é verdade? (Pergunta o gato.)

Meditando na sorte da toupeira,
enquanto o gato ainda anda por longe,
ocorreu-me então que a calçada
podia muito bem ser um espelho
e a toupeira naufragada
a nossa imagem reflectida nele.

Toupeira em calçada todos nós.

[in Cobra-d’Água, Cotovia, 2011]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Emma Donoghue, autora de O Quarto de Jack (Porto Editora), por José Mário Silva
Heterodoxia, de Eduardo Lourenço (Fund. Gulbenkian), por António Guerreiro
Tempo de Subversão – Páginas Vividas da Resistência, de Carlos Brito (Edições Nelson de Matos), por Luísa Meireles
Life, de Keith Richards (Theoria), por Jorge Manuel Lopes
Canções Mexicanas (Relógio d’Água) e Short Movies (Caminho), de Gonçalo M. Tavares, por Pedro Mexia
Soldados de Honra, de Adrian Goldsworthy (A Esfera dos Livros), por Luís M. Faria
O Processo 95385, de Rui Verde (Livros d’Hoje), por Rosa Pedroso Lima

‘Avenida de Poemas’, n.º 2

Depois da estreia com Pilar del Río, a Avenida de Poemas recebe Nuno Artur Silva, terça-feira, a partir das 21h30, no palco do Teatro Tivoli. A conversa será conduzida por Raquel Marinho e por mim.

Prémio Pessoa para Eduardo Lourenço

Mais do que justo, justíssimo.

Ainda JLBG (2)

Peça do programa Ler Mais Ler Melhor sobre Poesia Reunida, de João Luís Barreto Guimarães.

Ainda JLBG

Vale a pena ler a excelente entrevista que João Luís Barreto Guimarães concedeu, na 3:AM Magazine, a SJ Fowler (também ele poeta, além de «full time employee» do British Museum e estudante de pós-graduação no Contemporary Centre for Poetic Research da Universidade de Londres). Acompanhando a entrevista, podem ser lidos cinco poemas de JLBG traduzidos para inglês por Ana Hudson.

Dentro da vida

Poesia Reunida
Autor: João Luís Barreto Guimarães
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 314
ISBN: 978-972-564-971-8
Ano de publicação: 2011

As edições que reúnem a obra completa de um poeta num só volume têm duas grandes vantagens. A primeira é permitir-nos o acesso a livros que não adquirimos em devido tempo e entretanto desapareceram das livrarias. A segunda é a leitura da obra como um todo, com as suas evoluções, rupturas, continuidades.
No caso de João Luís Barreto Guimarães, autor de sete livros, a Poesia Reunida permite assinalar três fases no seu percurso (ou «três andamentos distintos», como sugere José Ricardo Nunes, num excelente posfácio). O núcleo inicial corresponde aos três primeiros livros (1987-1994), nos quais JLBG explorou com grande sentido lúdico um modelo clássico (o soneto), sujeitando-o a todo o tipo de experimentações. Vemos assim surgir poemas com formas geométricas; com errata; com enigmas e respectiva solução no fundo da página; poemas que se ligam e apagam; um que está riscado como certos discos antigos; ou ainda um outro sem o ‘b’, porque «faz um mês que se perdeu / a tecla da letra» na Corona Four, «uma azerty americana já com uma certa / idade». Há depois um belo livro de poemas em prosa, Lugares Comuns (2000), escrito durante um ano, sempre à quinta-feira, no Café Corcel (Porto). Exemplar na arte da observação, o poeta recolhe acasos e gestos, pequenas epifanias, histórias breves, o trabalho da melancolia. Uma melancolia que ganha terreno na terceira fase, a dos últimos livros, muito atentos aos rituais quotidianos, aos estragos que a rotina provoca nos corpos e nos espaços domésticos, ao confronto com a ideia da morte e da perda.
Por muito que JLBG, médico de profissão, afirme que a poesia é uma «doença» que não se deseja a ninguém, a verdade é que ele só sabe escrever «de dentro da vida» e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges