O que aí vem (Presença)

Dolce di Love, de Sarah-Kate Lynch; Raposas Inocentes, de Torey Hayden; Scarpetta, de Patricia Cornwell; Do Lado de Cá do Mar, de Philip Graham; Sociologia Geral – A Organização Social, de Guy Rocher; O Pequeno Livro das Boas Maneiras à Mesa, de Christine Coirault; Amor Monstro, de Rachel Bright.

Borges no Chiado

No momento em que a obra de Jorge Luis Borges começa a ser reeditada pela Quetzal (dois primeiros volumes: O Livro de Areia e História da Eternidade), a tertúlia “Ler no Chiado” vai colocar à conversa três borgesianos: António Mega Ferreira, Nuno Artur Silva e o autor deste blogue (cujo nome, não por acaso, foi inspirado por um conto do mestre argentino). O encontro acontecerá na quinta-feira, dia 9 de Fevereiro (18h30), na Livraria Bertrand do Chiado. Como sempre, a moderação estará a cargo de Anabela Mota Ribeiro.

Correntes d’Escritas: apresentação do programa na quinta-feira

A apresentação do programa completo da edição deste ano das Correntes d’Escritas acontecerá no dia 2 de Fevereiro, a partir das 11h00, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, na Póvoa de Varzim.

O mecanismo do mistério

Os Malaquias
Autora: Andréa Del Fuego
Editora: Círculo de Leitores
N.º de páginas: 260
ISBN: 978-972-42-4747-2
Ano de publicação: 2011

Depois de ter consagrado alguns dos mais importantes ficcionistas portugueses surgidos na última década (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto e João Tordo), o Prémio José Saramago distinguiu, em 2011, Andréa Del Fuego (n. 1975), uma escritora paulista até agora inédita em Portugal. Ao contrário de outros autores brasileiros da mesma geração, como João Paulo Cuenca ou Daniel Galera, mais interessados em mostrar a energia e a violência da sociedade contemporânea, num estilo seco, muito directo, Del Fuego retoma uma certa tradição do fantástico, assumidamente lírica e com marcas regionalistas (sobretudo nos diálogos). A sua força está no facto de abordar essa tradição reinventando-a, recriando-a, procurando nela caminhos novos e uma linguagem original.
Logo nas primeiras páginas, assistimos a uma cena arrancada à memória familiar da autora, cujos bisavós morreram fulminados por um raio. Na versão ficcionada, Adolfo e Donana sucumbem porque no momento fatal os seus corações faziam a sístole, fechando a aorta e a possibilidade de a energia se escoar até ao solo: «O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória.» Mais afortunados, os três filhos do casal – Nico, Júlia e Antônio – tinham o coração em diástole, as vias sanguíneas abertas, e por isso salvaram-se com «queimaduras ínfimas, imperceptíveis». O destino dos órfãos desamparados, com nove, seis e quatro anos de idade, diverge logo ali. Nico, o mais velho, fica a trabalhar para o dono de uma fazenda da Serra Morena. Os outros dois são entregues a diligentes freiras francesas, que os criam e educam, à espera de encontrar quem os adopte. E se isso acaba por acontecer com Júlia, menos sorte tem Antônio (por transportar o estigma de ser anão). Separados os três, o livro acompanha as respectivas trajectórias, as suas desilusões e tormentos, o sonho de um dia se voltarem a juntar como família.
Não é, contudo, pela matéria propriamente narrativa que este romance se distingue. O que o torna fascinante é a escrita de Andréa Del Fuego, o modo como ela desmonta à nossa frente o «mecanismo do mistério», o espanto diante das formas do mundo. Esta é uma prosa elementar, feita de elipses, de frases em que só sobra o essencial (tão no osso que até se prescinde dos artigos), uma forma de narrar que fixa os mínimos detalhes: os cheiros, as texturas, as cadeias moleculares invisíveis, o brilho que as coisas têm quando estamos suficientemente atentos para as ver. Numa festa rural, uma rapariga tímida olha para os rapazes «de frente para trás como quem recebe uma carta por debaixo da porta». Antônio «pouco se lembrava da fisionomia dos pais, ela reduziu-se a pontinhos sem a reta que os alinhavasse». E, muito depois do acidente, num dos órfãos «vestígios do raio ficaram nos olhos, cintilando».
Os Malaquias é atravessado por encontros e desencontros, grandes febres, mortes súbitas, segredos, heranças, elementos fantásticos (o espírito de uma mulher que transita entre os vários estados da matéria, o navio encalhado no cimo da serra), também por choques duros com a realidade palpável e paisagens agrestes onde os velhos permanecem, «terminando de se gastar». Andréa Del Fuego cose estes elementos uns aos outros numa vertigem de capítulos curtos, mas no final ficamos com a sensação de que há demasiadas costuras à vista, linhas soltas, pespontos previsíveis, bainhas desnecessárias. É uma sensação difusa, diga-se, porque as imperfeições e os desequilíbrios da história ficam como que ofuscados pela beleza desta prosa, uma das mais estimulantes de entre as que se escrevem em língua portuguesa hoje em dia.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Desinfestação

Durante as últimas semanas, um «bug no sistema de caching» fez com que o feed deste blogue deixasse de funcionar. Entretanto, o deus ex machina Paulo Querido resolveu o problema. Fica o registo e o pedido de desculpas aos muitos leitores que me escreveram queixando-se de não receberem notícias do BdB pelas vias habituais.

Lançamento de ‘Um Certo Pudor Tardio’

O novo livro de Pedro Eiras, um ensaio sobre os «poetas sem qualidades» intitulado Um Certo Pudor Tardio (Edições Afrontamento), vai ser lançado dia 3 de Fevereiro, a partir das 18h30, na Livraria Leitura (Porto), com apresentação de Mathilde Ferreira Neves.

Revista ‘Ler’, n.º 110

Amanhã nas bancas.
Excerto da crónica que publico neste número, sobre Fernando Assis Pacheco:

Assis morreu à porta da Buchholz, de repente. Vinha a sair, feliz, com um saco de livros comprados após a sua habitual ronda pelas novidades editoriais. Meses mais tarde, uma associação de existência efémera (chamava-se Locomotiva Azul) organizou uma homenagem ao Assis no Bairro Alto, numa tasca, como tinha de ser. Uns dias antes, aproveitando a estadia em Lisboa de Gonzalo Torrente Ballester, fui ao hotel onde se hospedava o escritor galego recolher um depoimento de viva voz, para ser ouvido na homenagem. Recordo-me perfeitamente de Don Gonzalo, no silêncio sábio dos seus oitenta e muitos anos, à procura das palavras certas. Ficou quieto, as mãos tremendo ligeiramente, olhos fechados atrás das lentes espessas de míope. Por fim, pigarreou e disse: «Morreu numa livraria não foi? Então teve a morte mais bela a que um escritor pode aspirar. Morreu junto aos livros, no seu posto, como o soldado morre no campo de batalha.»

Primeiros parágrafos

«Todas as tardes, quando as andorinhas rodopiam no céu cor de malva, um homem de cabelo grisalho transpõe a porta de um pequeno hotel da Rua Mirza Mansûr, vira à direita na Harb, depois à esquerda na Sabir, encimada por belas varandas de madeira, por vezes envoltas numa trepadeira e ornamentadas com peças de roupa. Vindo de um minarete próximo do Palácio dos Shirvanshahs, o apelo de um muezim – tão discreto, quase melancólico, que se torna comovente – suspende no ar frágeis arabescos sonoros. O deus que essa voz de violoncelo invoca não tem um ar terrível, seríamos capazes de o convidar para a mesa, e justamente jantamos sós esta noite, como quase todas as noites. As folhas das figueiras recortam mãos verdes e trémulas no céu. Em volta de Kiçik Qala desprendem-se das paredes os tapetes de cores e ritmos de vitral. O passeante transpõe agora a porta dupla rasgada na muralha de Isheri Sheher, a Cidade Velha (ou, traduzindo com mais exatidão, a Cidade Interior). As torres esguias parecem peças de um jogo de xadrez, ou pimenteiros (Alexandre Dumas, em 1858, observava que as fortificações de Baku eram feitas para deter ataques com armas brancas e não para resistir à artilharia). Hesita por momentos antes de atravessar o fluxo de alta cilindrada – luxuosos automóveis alemães, enormes todo-o-terreno, carros monumentais de um negro lustroso, cujos condutores carregam nervosamente na embraiagem, perto das muralhas. Turbilhão de carros funerários com turbocompressor, pilotados por cangalheiros de grande bigodaça e óculos Ray Ban

[in Baku – últimos dias, de Olivier Rolin, tradução de Manuela Torres, Sextante, 2012]

O quarto de Virginia Woolf, por Annie Leibovitz


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Fotografia captada por Leibovitz na casa da escritora, perto de Charleston (Inglaterra), para o seu mais recente projecto (Pilgrimage), uma série de imagens digitais, intimistas e sem celebridades, agora exposta no Smithsonian American Art Museum (e que também inclui um grande plano do único vestido de Emily Dickinson a sobreviver à usura do tempo).

Era uma vez um Grufalão

Radiografia de um dos livros infantis mais lidos e relidos lá por casa.

Escritores em campanha

No blogue literário do Nouvel Obs, o escritor Patrick Rambaud, autor de livros sarcásticos sobre o reinado de Sarkozy, relata o modo como viu o comício do candidato socialista à Presidência de França (ou, como ele diz, «pretendente ao trono»), François Hollande, no passado dia 22. Um excerto desse discurso pode ser visto aqui.

Jonathan Franzen, o paladino do livro em papel

«E-books are damaging society», diz ele.

FNAC retirou exemplo ‘Maias/Meyer’ da sua campanha promocional

Ao compreender a dimensão da polémica em curso, a FNAC foi rápida a pedir desculpa pelo seu monumental tiro no pé e a retirar o infeliz exemplo ‘Maias vs. Meyer’ da sua campanha de trocas de livros, CDs e DVDs usados por novos. Tudo feito, diga-se, by the book.

E se a euforia à volta da auto-publicação digital não passar de uma bolha especulativa?

Eis uma dúvida a que Ewan Morrison procura dar resposta, no The Guardian. Um excerto:

«All of this ebook talk is becoming a business in itself. Money is being made out of thin air in this strange new speculative meta-practice: there are seminars, conferences and courses springing up everywhere, even at the Society of Authors (a writers’ union which, until recently, was largely against epublication). Television and radio programmes are being made about self-epublishing (I’ve personally been asked to speak about it on 12 occasions since August). Everyone can be a writer now: it only takes 10 minutes to upload your own ebook, and according to the New York Times “81% of people feel they have a book in them … And should write it”.
But all of this gives me an alarming sense of deja vu. There’s another name for what happens when people start to make money out of speculation and hype: it’s called a bubble. Like the dotcom bubble, the commercial real estate bubble, the subprime mortgage bubble, the credit bubble and the derivative trading bubble before it, the DIY epublishing bubble is inflating around us. Each of those other bubbles also saw, in their earliest stages, a great deal of fuss made over a “new” phenomenon, which was then over-hyped and over-leveraged. But speculation, as we’ve learned at our peril, is a very dangerous foundation for any business. And when the epub bubble bursts, as all previous bubbles have done, the fall-out for publishing and writing may be even harder to repair than it is proving to be in the fields of mortgages, derivatives and personal debt. Because this bubble is based on cultural, not purely economic, grounds.»

O texto completo pode ser lido aqui.

Prémio Luís Miguel Nava para Helder Moura Pereira

O Prémio de Poesia Luís Miguel Nava relativo ao biénio 2009/2010, no valor de cinco mil euros, acaba de ser atribuído ao livro Se as Coisas Não Fossem o que São, de Helder Moura Pereira (Assírio & Alvim). O júri fixo, composto pelos quatro directores da Fundação Luís Miguel Nava (Carlos Mendes de Sousa, Fernando Pinto do Amaral, Gastão Cruz e Luís Quintais), a que se soma um elemento convidado (desta vez o professor, poeta e crítico Fernando J. B. Martinho), decidiu por unanimidade.

O efeito Streisand segundo a FNAC

Afinal sempre existe uma explicação para o desaparecimento dos posts no Facebook que criticavam a estapafúrdia promoção da FNAC, segundo a qual vale a pena trocar Os Maias do Eça pelos vampiros da Stephenie Meyer. Retirada a foto em causa, por quem a colocou primeiro no seu perfil do FB, ela desapareceu automaticamente de todos os perfis que a partilharam. A questão, como uma leitora recorda nos comentários do post anterior, é que «faz parte do código de conduta implícito do FB não apagares um post que tem várias partilhas e comentários. Não deixa de ser uma espécie de censura. E utilização das pessoas: vocês, leitores e “amigos”, interessam-me enquanto partilharem aquilo que me interessa a mim, depois disso, tiro-vos o tapete e deixo-vos a fazer figura de parvos». Ou seja, estamos perante mais um exemplo do Efeito Streisand. Ao querer eliminar um foco de polémica, a FNAC só aumentou (mais ainda) a indignação dos internautas.

Logo à tarde


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A partir das 19h30, na livraria Pó dos Livros.

Sinal dos tempos

O La Tribune deixa hoje de se publicar em papel, passando a existir exclusivamente em formato digital. Prenúncio de uma mudança que afectará o resto da imprensa? Creio que sim. E temo bem que aconteça mais depressa do que imaginamos.

Trocar os Maias pela Meyer


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Esta é provavelmente a campanha promocional mais absurda e abstrusa que uma livraria alguma vez levou a cabo em Portugal. Troque uma obra-prima da literatura portuguesa, um clássico maior das nossas letras, pelo lixo vampiresco de uma best-seller americana de 17.ª categoria. Eis o que sugere a FNAC, outrora uma loja onde se podia encontrar uma escolha criteriosa de boa literatura (ainda me lembro das generosas bancadas de poesia), hoje reduzida a uma espécie de fast-food cultural.
Nas redes sociais, a campanha absurda e abstrusa foi rapidamente fustigada (e muito bem), com muitas pessoas a sugerirem outro tipo de troca: a da FNAC por uma das boas livrarias independentes (enquanto não fecham). Acontece que parte desses protestos desapareceu de ontem para hoje, como por magia. Muitas das partilhas críticas da fotografia que ilustra este post foram simplesmente removidas do Facebook. Deve haver uma razão técnica para este apagão das críticas à FNAC. É bom que haja e que seja explicada rapidamente. Caso contrário, estamos diante de um movimento de censura que nos obrigará não só a trocar a FNAC por livrarias decentes (o que no meu caso já acontece há muito tempo) mas também a trocar o Facebook por redes sociais em que apagões destes não sejam possíveis.

Rota das Letras

O Festival Literário de Macau começou hoje e acaba no próximo sábado. O programa pode ser consultado aqui.

Três poemas de Inês Dias

ÁGATA

Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.

Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado da maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.

Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.

***

ET NUNC MANET IN TE

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.

***

NOSTALGHIA

Ouvia-te falar e sentia
as chamas retomarem
as paredes do teu coração
de igreja abandonada.
O céu, nessa tarde,
era um leque de lantejoulas
ao rés do teu sorriso
e dos meus olhos encadeados.
Doía-me esse excesso de luz
que te fazia toda sombra,
o crepitar morno da pele
antes do incêndio consumado.

Sempre que dizias o seu nome,
riscavas outro fósforo –
ele avançava dentro de ti,
nas mãos uma vela prestes a cair.
Amo demasiado o fogo
para a suster. Prefiro
redesenhar as nossas cicatrizes,
ser depois a memória da pedra
fria em pleno Verão.

[in Em Caso de Tempestade este Jardim Será Encerrado, Tea for One, 2011]

A letra E

Este fim-de-semana, uma exposição de materiais do espólio que documenta a infância e o nascimento para a escrita de Maria Gabriela Llansol inaugurou a nova área aberta ao público do Espaço Llansol: chama-se Letra E.

Primeiros parágrafos

«O meu amigo António – aquele que, em miúdo, com dez ou doze anos, ficava horas a fio, num descampado, de saco na mão, à espera dos gambozinos: um homem bom, incapaz de matar uma mosca ou de maltratar um gato – quarenta e quatro anos, figura esguia, uma farta cabeleira a esbranquiçar, uns óculos de aros redondos, o que lhe dava um ar de “intelectual de esquerda”, imagem que cultivava com requintado deleite, estava sentado a uma mesa, no Pavilhão Chinês, numa madrugada de sábado para domingo, a matutar à volta de uma cerveja, enquanto ia coçando a barba crescida mas bem aparada.
António tinha a cabeça num rodopio. O cansaço dilatava a vertigem em que se afundara na última meia hora, o que lhe dava um ar esgazeado. Refugiara-se ali para pensar, mas ainda não conseguira sair do vazio que o esfarrapava. Fixou o olhar na pintura do tecto: observou o soldado soviético, no seu uniforme cinzento, a espingarda a tiracolo, a subir a escadaria do Palácio de Inverno, numa tarde de Outubro. O soldado soviético e o Palácio de Inverno avivaram-lhe a memória dos muitos anos passados com a Joana, com quem viveu até há trinta minutos, talvez por ela continuar uma ortodoxa comunista.»

[in Uma História de Amor no Casal da Eira Branca, de Tomás Vasques, Abysmo, 2011]

Não deixa de ser irónico

Eu (que nunca fumei um cigarro) faço parte do «arquivo de um grupo de fumadores», também conhecido por Volúpia na Tabacaria.

Maurice Sendak vs. Stephen Colbert

Uma entrevista hilariante, em que Sendak dá baile a Colbert (e também uns blurbs).

PS – Um dos vídeos está invertido, eu sei, mas foi o único que consegui encontrar com a segunda parte da conversa.

Um escândalo

Tudo o que a Sara Figueiredo Costa descreve neste post é, em si mesmo, um escândalo. Mas o pior é que não se trata de um caso isolado. Histórias destas multiplicam-se, na imprensa e no mundo editorial, a um ritmo assustador. Os freelancers, ao mesmo tempo que pagam cada vez mais impostos e contribuições para a Segurança Social, não só vêem baixar os montantes pagos pelo seu trabalho (por exemplo, paga-se hoje por uma recensão literária um terço do que se pagava há dez anos) como ainda têm nalguns casos de esperar indefinidamente por esses miseráveis pagamentos.
A situação está a atingir proporções gravíssimas e temo que possa piorar. Por isso, é urgente que os empregadores compreendam que há limites que simplesmente não podem ser ultrapassados. A decisão da Sara e da Andreia não revela apenas coragem e dignidade. É um grito de alerta e um aviso de que as pessoas não estão dispostas a serem tratadas como lixo.
Bravo, Sara. Bravo, Andreia.

Almedina TV

A «primeira televisão digital portuguesa totalmente dedicada ao mundo do livro» iniciou hoje as suas emissões em directo. Para acompanhar aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Círculo Vicioso, reportagem sobre as dificuldades por que passam os pequenos e médios editores, por António Guerreiro
Os Malaquias, de Andréa Del Fuego (Círculo de Leitores), por José Mário Silva
Como Estamos Famintos, de Dave Eggers (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
O Lago, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas
Amor Livre e outras histórias, de Ali Smith (Quetzal), por Pedro Mexia
O Epigrama de Estaline, de Robert Littell (Civilização), por Hugo Pinto Santos

Lançamento de ‘Artefactos Importantes e Objetos Pessoais da Coleção de Lenore Doolan e Harold Morris, incluindo Livros, Roupa e Acessórios’

O livro de título quilométrico da escritora e ilustradora canadiana Leanne Shapton, editado em Portugal pela Bertrand, será apresentado por Helena Vasconcelos, com a presença da autora, logo à noite (a partir das 21h30) no Centro Cultural de Cascais, onde ficará patente até 4 de Março uma exposição com alguns dos objectos que compõem a narrativa deste romance original, em forma de catálogo de artigos a leiloar.
Eis alguns exemplos:

O que aí vem (Porto Editora)

Lágrimas na Chuva, de Rosa Montero; Uma Fazenda em África, de João Pedro Marques; Às Vezes o Mar Não Chega, de Sofia Marrecas Ferreira; O Cerco de Krishnapur, de J. G. Farrell; Últimas Notícias do Sul, de Luis Sepúlveda e Daniel Mordzinsky.

Post do mês

Este extraordinário pequeno texto de um grande romancista adiado.

Graffiti & Literatura (uma boa mistura)


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Mais exemplos aqui.

‘Modernista’, n.º 2

O segundo número da revista do Instituto de Estudos sobre o Modernismo (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Univ. Nova) já está disponível online, com os artigos em pdf. Destaque para o dossier sobre ‘Álvaro de Campos e arredores’.

Kafka na Achada


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Quatro poemas de Inês Fonseca Santos

AS COISAS

São feitas de vidro.
Partem-se quando digo em voz alta
o teu nome. Nome de todas as coisas.

***

AS COISAS DO CORPO

Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos.
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito.

***

AS COISAS NAS PONTAS DOS DEDOS

Cortam os vasos, as veias. Minúsculas,
as coisas nas pontas dos dedos
são feitas de vidro partido.
Invisíveis aos olhos, levam com elas
as nossas impressões
digitais.

***

AS COISAS FRÁGEIS

Pegava-te no nome como no aquário
verde, quando era ainda cidade de peixes –
bichos de alimento diário e morte mensal,
silenciosa, sem desgosto ou pânico,
indiferente à vida. (As nossas, as deles.)
Hoje caminho, como todas as manhãs, com a tua existência
nas mãos (na cabeça, nos pés), seguro-a como coisa frágil,
quebradiça – coisa morta do dia em que morreste.

Recordo apenas o pássaro. Tinha no nome ruivo
e no bico o som atenuado de uma canção.

[in As Coisas, Abysmo, 2012]

Capa de Pedro Marques nomeada para os prémios BSFA


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Esta capa de Pedro Marques é uma das candidatas aos prémios da BSFA (British Science Fiction Association), na categoria de «Best Art». O romance Osama, de Lavie Tidhar (PS Publishing), parte de uma realidade alternativa em que o 11 de Setembro não aconteceu e onde uma série de livros populares sobre um vingador chamado “Osama Bin Laden” faz furor, sendo que esses livros de pura ficção descrevem os atentados de Dar-es Salaam, de Nairobi e o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, a 11 de Setembro de 2001.
Os vencedores dos prémios BSFA serão anunciados em Abril.

Every poet needs a Virgil

The mystery of poetry editing.

Tatuagens literárias

Eis um site só sobre «tattoos based on books, poems, lyrics, and many other literary sources».

Kaui Hart Hemmings: “Quis dar às personagens oportunidade para fazerem asneiras, lutarem, e viverem realmente umas com as outras”

Ao agradecerem o Globo de Ouro para melhor filme dramático, atribuído a Os Descendentes, o produtor (Jim Burke) e o realizador (Alexander Payne) não se esqueceram de referir Kaui Hart Hemmings, a autora do romance em que o filme se baseia, publicado originalmente em 2007 e a semana passada em Portugal (com chancela da Presença). Por e-mail, Hemmings mostrou-se satisfeita com o prémio: «Estou muito feliz com o sucesso do Alexander, que fez uma belíssima adaptação cinematográfica do meu livro. Concordei com todos os ligeiros ajustes feitos à história e acho que as duas obras se complementam na perfeição.»
Tanto no livro como no filme, a visão paradisíaca e os estereótipos turísticos são postos de lado. «Quis mostrar o Hawai através do olhar de pessoas concretas, simples hawaianos, como eu», explica Hemmings. Hawaianos que lidam com questões universais: a perda de um ser amado, a traição amorosa, as disputas familiares na hora das partilhas, o sentido de herança em relação ao que as gerações anteriores legaram. «Quis que a história funcionasse como uma força silenciosa – algo que empurra secretamente as personagens de acção para acção, confinando-as, manipulando-as, inspirando-as. Quis também que a História do Hawai e a sua geografia figurassem no livro, sem no entanto lhes atribuir uma carga simbólica especial.»
A narrativa de Os Descendentes, um dos romances de estreia mais bem recebidos dos últimos anos nos EUA, amplia e desenvolve um enredo que Hemmings esboçara em The Minor Wars, incluído na sua primeira obra (o volume de contos House of Thieves, de 2005, ainda não traduzido para português). A escala do romance permitiu-lhe outro fôlego: «Pude explorar melhor cada uma das personagens. Dar-lhes oportunidades para fazerem asneiras, lutarem, e viverem realmente umas com as outras.» O principal trunfo literário da autora é a sua capacidade de se aproximar das emoções – muitas vezes em estado puro: violentas, contraditórias – sem nunca cair na armadilha do sentimentalismo. «Eu nunca poderia ser melodramática. Procuro evitar isso a todo o custo. Espero que o texto consiga comover os leitores, mas de uma forma natural, verdadeira e honesta.»
O protagonista do romance é um advogado, Matthew King, que se vê forçado a tomar conta das duas filhas quando a mulher, Joanie, entra em coma irreversível depois de um acidente. «Porque não pode falar, porque está ali, na cama do hospital, mas ausente, o que dela sabemos vai sendo contado por outros. E como cada personagem tem a sua perspectiva, Joanie acaba por tornar-se uma figura complexa, com muitas dimensões. Para mim foi um desafio, sobretudo porque tento evitar os flashbacks.» Na preparação para o livro, Hemmings pesquisou o modo como diferentes famílias na mesma situação lidaram com o processo de despedida e procurou o máximo de verosimilhança, dando a ler as passagens do foro clínico a um médico que trata doentes em coma.

Um dos temas centrais do livro é o abismo entre as gerações e a dificuldade de entendimento entre elas, particularmente notório na forma como King se relaciona com as filhas problemáticas, para quem a autoridade paterna é pouco menos do que risível. Num momento de desabafo, o advogado ataca os mais novos e duvida da sua utilidade futura. Em vez de criarem trabalho e riqueza, queixa-se, eles vão limitar-se a fumar drogas, tirar cursos de escrita criativa e «rir-se de nós». É um momento de ironia, porque um curso de escrita criativa foi precisamente o que Hemmings fez na Universidade de Stanford (California). «Eu não só gostei muito desse curso como precisava dele. Sempre adorei ler e sentia que tinha uma voz, mas faltava-me saber como é que transformamos a linguagem, as palavras, numa obra coerente.»
Se os direitos do livro para o cinema foram vendidos no início de 2007, ainda antes de ser editado, a escritora nunca acreditou que o eventual filme chegasse à fase de produção. Só uma ínfima parte das obras adquiridas chega ao fim do processo e não seria de esperar que tal acontecesse com o romance de uma autora então praticamente desconhecida. A paixão de Payne pela história, porém, desbloqueou todos os entraves. «Ele é incrível. Veio para o Hawai acabar o argumento e tornámo-nos bons amigos.» Tão bons amigos que o realizador lhe concedeu o privilégio de entrar no filme como actriz, numa pequena cena em que interpreta a secretária de King (George Clooney). «Foi óptimo», garante. E brinca: «Ele estava um bocadinho intimidado. Mas depois disse-lhe para relaxar, porque no fundo eu sou só uma pessoa normal.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Serra Morena é íngreme, úmida e fértil.
Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.
— Corre, Adolfo!
Donana pedia ajuda ao marido, ele cravou o machado na lenha e foi acudir. A bacia brilhava no fundo da cisterna, Adolfo desceu a corda com o balde amarrado na ponta, o encaixou na bacia e foi arrastando-a de volta pela parede. A mulher não fazia mais o pesado, com osso quebradiço, passou a benzer espinha de criança e com reza ganhava fubá, café e leite. Branca rosada, lábio fino. Tirando os Malaquias, os habitantes eram pardos como ma- míferos silvestres.
As crianças fizeram um círculo em torno do poço, o lençol freático refletia três pares de mãos, cada par moldurando dois brilhos e um nariz: Nico tinha olho azul, nove anos. Antônio, miúdo, seis. Júlia, barriguda, quatro.»

[in Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, Círculo de Leitores, 2011]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges