Eis o sofá da Livreira Anarquista:

Bem catita. E ela merece.

O que aí vem (Planeta)

Os Segredos da Maleta Vermelha, de Alexandra Leal e Paulo Cosme Pinto; Cascos, talos, folhas e outros tesouros nutricionais, de Alexandre Fernandes; Manual para não Morrer de Amor, de Walter Riso; Um Erro Inconfessável, de Emma Wildes.

Livraria Portugal vai fechar

É mais uma livraria que fecha portas. Uma livraria histórica, onde em tempos pré-FNAC perambulei entre estantes ajoujadas e a banca das novidades (nem sempre muito recentes). Uma livraria antiga, com cheiro a pó dos livros e uma certa desarrumação que era uma forma de charme, como se o leitor tivesse de ser seduzido pela dificuldade em encontrar a obra pretendida. Sem grande surpresa, um dos sócios explica que a situação «insustentável» se deve às «grandes alterações no mercado livreiro», à «quebra das vendas» e à «insuficiência de meios para pagar as despesas». Enfim, uma receita para o desastre.
Pior ainda: tendo em conta o rumo que as coisas levam, temo bem que outras livrarias históricas venham a conhecer muito em breve a mesma sorte.

PS – No seu blogue, a Sara Figueiredo Costa assinala com tristeza mais este desaparecimento, evocando memórias pessoais e familiares associadas à livraria da Rua do Carmo.

Prémio Fundação Inês de Castro para Gonçalo M. Tavares

Depois de ter sido distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e com o Prémio Fernando Namora, o romance Uma Viagem à Índia (Caminho), de Gonçalo M. Tavares, acaba de ganhar o Prémio Fundação Inês de Castro. Do júri fizeram parte José Carlos Seabra Pereira, Mário Cláudio, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Pedro Mexia. Fernando Echevarría, de 82 anos, recebe um Tributo de Consagração pelo conjunto da obra literária.
A entrega do prémio será feita a 4 de Fevereiro na Quinta das Lágrimas, em Coimbra.

Impossível como uma raposa

Vale a pena ler o excelente micro-conto de Margarida Ferra, publicado no site das Histórias Daninhas.

Leitura integral da ‘Mensagem’ pessoana


Clique para aumentar

É na quarta-feira à noite, na galeria Gesto (Porto).

Três poemas de João Miguel Fernandes Jorge

PEQUENOS VIDROS AZUIS

Cobria a mesa com velas acesas
a macerada tarde do mês último —
e escrevia em rectângulo
de papel bem aparado,

depois rasgava. Todos o podiam ver
sentado a essa mesa no cimo do parque,
a casa,
o vidro azul da janela

canal de água a par do caminho. Foi
quando surgiu o levadeiro
— as velas de um sopro apagou —
caía a água na extensão da rocha

no perfume magoado de dezembro
entre o rumor do vento
a sombra não se movia nem se prendia ao
traço do corpo, não imitava os gestos

em doce modo apagou todas as velas
ao que escrevia sem qualquer sentido
ao muro branco do nevoeiro
a última folha da faia rubra prendia a

vazia escrita do desejo, seguia-o
com o passo de um ladrão e o tremor
de quem falta a secreto juramento.

***

ESCHSCHOLZIA

Além naquele requebro sobre o mar, ao passar o pinhal
e os cálices brancos da esteva (tão grandes nunca assim os vi
no continente) está o chão de amarelo Chamisso. É a eschscholzia.
Semelhante à vulgar papoila
se não fôra o amarelo intenso
sobre o mar da ilha
estremece ao menor sopro de vento
ferida de pele queimada que recorda vencedores e derrotados no plaino de [Waterloo.

Pôs o chapéu de palha e levou-me pelo caminho da casa velha,
acachorrada, campestre. Em voz medida, a flor do acaso
rente ao passar — eufórbia, trevo rosa, artemisa,
o azul da chicória, a sombra desenhada da bardana, o
caminho do herbário. Na despedida,
não sei porque me disse em castelhano Y
las más de las veces la excelencia
sólo está en los mimados por los dioses. O obscuro azul da noite
descia, triste cravo de bronze sobre a leal flor
do linho que vinga sem cuidado.

***

OS AMARELOS DE NOVEMBRO

Não tem palavras a minha canção preferida. Tem antes
os amarelos queimados de novembro. Gosto de gente antiga e
obscura, gente culpada, jovem ou envelhecida para
quem a vida não passa de um contínuo de sombra
por isso sei abraçar por isso partem sem regresso.
Sombras que surpreendo — não quebres não
estragues o amarelo de novembro.

E aquele que está sentado à nossa frente é entre
todas as coisas
a ideia mais perfeita, a mais real, a mais sólida.
No instante seguinte nada sabemos.
É assim o nosso modo de ser e a própria
condição do amor. Destruir,
riscar até desaparecerem os amarelos de novembro.

[in Lagoeiros, Relógio d’Água, 2011]

Skoob

Eis a maior rede social para leitores do Brasil.

‘Long live the Book’

Todas as declarações de amor aos livros, mesmo as mais simples, banais ou previsíveis, têm qualquer coisa de comovente.

Assim uma espécie de mapa da Amazon

«Whenever you look at an item on Amazon, the site recommends related items that you might be interested in. So in a way, these items are connected by how people buy. Artist and designer Christopher Warnow uses the metaphor to create a network of Amazon products, where each node represents an item, and connections, or edges, represent common bonds of recommendations. Simply enter an Amazon link, and Warnow’s software generates a network.»

Um vazio enorme que cai

Uma Vasta e Deserta Paisagem
Autor: Kjell Askildsen
Título original: Et stort øde landskap
Tradução: Mário Semião
Editora: Ahab
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-989-97228-3-5
Ano de publicação: 2011

O norueguês Kjell Askildsen, um dos maiores ficcionistas escandinavos da actualidade, foi revelado aos leitores portugueses pela Ahab, em 2010, com Um Repentino Pensamento Libertador, antologia dos seus melhores contos. Numa dessas narrativas curtas (Crias de gaivota), um casal discute a sua relação amorosa de forma elíptica, cheia de não-ditos, enquanto ao fundo a ilha de onde partiram para um passeio de barco à vela se incendeia, materializando a violência implícita no diálogo. Os contos de Askildsen funcionam quase sempre assim: com uma imagem forte no centro, a dar sentido a uma prosa descarnada e agreste, palco para uma visão muito negra (por vezes quase niilista) do que são as relações humanas.
No segundo livro deste autor que a Ahab publica, Uma Vasta e Deserta Paisagem, o equivalente da ilha a arder pode ser um acidente rodoviário, o prego que alguém espeta numa árvore ao regressar de um funeral, uma carta de baralho queimada às escondidas (sem que se perceba bem porquê), um cão morto descoberto na cave e que é preciso enterrar. Símbolos que absorvem a energia malsã que circula entre personagens resignadas à mais extrema solidão, ao mais absoluto desamparo. Um dos contos (O jóquer) começa com um homem a abrir a janela da sala. De pé, calado, ele olha para o jardim das traseiras e escuta o rumor da chuva: «Talvez tenha sido esse o motivo, a chuva suave e o silêncio, o certo é que aconteceu o que acontece de vez em quando: cai sobre nós um vazio enorme, como se a própria falta de sentido da existência entrasse por nós adentro e se estendesse como uma imensa e despida paisagem.»
O vazio enorme cai igualmente sobre os protagonistas dos outros contos: velhos sorumbáticos e misantropos, familiares desavindos, casais incapazes de comunicar, irmãos gémeos que se odeiam. Em comum têm um mesmo sentido da angústia como estado natural das coisas, uma consciência de que o «deserto» entrou de vez nas suas vidas e tornou impossível qualquer espécie de consolo. No momento em que uma personagem se mostra invulgarmente simpática e positiva, outra apressa-se a desvalorizar o arremedo de luz: «quando está sóbrio de certeza que também se sente só e insatisfeito, toda a gente se sente assim, simplesmente não o sabem, ou dão-lhe outro nome».
Este pessimismo radical faz de cada história um verdadeiro soco no estômago. Mas se o soco dói tanto, e por tanto tempo, é porque a escrita seca, precisa e finamente cinzelada de Askildsen exponencia a força devastadora do golpe.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]

Partilhar estantes

How to Say “I Do” to Shared Bookshelves Without Ruining Your Relationship.

O que aí vem (Dom Quixote)

As Palavras do Corpo – Antologia de Poesia Erótica, de Maria Teresa Horta; Gare do Oriente, de Vasco Luís Curado; Nova Teoria do Mal, de Miguel Real; A Vida Privada de Maxwell Sim, de Jonathan Coe; Dias de Expiação, de Michael Gregorio.

599 poemas

Já instalei a aplicação que me dá poesia portuguesa para o iPhone (com bastantes inéditos de novos autores). Por exemplo este, de Minês Castanheira:

POEMA AZUL

Então não o sabíamos, já não se escrevia nos cafés,
porque já não se fumavam os vícios, Pessoa estivera sempre
morto e os demais poetas passeavam agitando as estátuas,
gritando versos à multidão surda.
Deixou de interessar contar quantos éramos à mesa sem
sinais de fogo.
Na certeza de escrever-te, perdida a voz que te falasse,
assumi os óculos de sol pequenos e quadrados
e castanhos monóculos por onde espreitar o estranho
mundo inavegável.
Então penso: cachimbo, fumo, caixa, café, chapéu, silêncio.

Vê como tenho evitado escrever-te.
As cidades não são líquidas,
reproduz-se em brandos depósitos a seca da geração anterior.
O passado é feito de muitas palavras – não é essa a
linguagem que persigo – e os que vieram antes de nós
afogaram-se em pátria, ponte apontada a cinza.
E fizeram baús maiores do que gente.
E fizeram grande gente que mata à fome um poema,
que não vê para além da caixa ou do que a sua tampa oculta.

Todo esse recolher das coisas aos seus lugares
exactos
leva ao extremo a tua ausência – se não estás aqui não
estás inteiro em lugar algum –
és um corpo entornado sobre o tapete. E também essa
recordação se há-de acomodar em nós, plantada em pele
fértil de pátria, ponte e cinza, ocupando
caixas e caixas de chapéu.
E dela guardaremos firme promessa. Agitando as estátuas,
domesticando o coração à cadência de novos sons internos.

De pouco me serve agora dizê-lo, mas não pertenço
a esse azul.
Nem quero barcos que hesitem sobre a mesma onda, pontes
por onde continuar a tua longínqua viagem,
moldura pequena, quadrada para encaixilhar a mancha
longa e caudalosa.
Quando corro dentro de mim meço apenas alguns palmos
e sujo o chão logo à entrada, mas sítio algum
se manteve intacto assim, como este, depois de teres partido.

Que se fumem os vícios. Fume-se esta linguagem que
persigo.
O ar passa a ter um cheiro doce e quente sempre que tento
escrever-te. Retornas em pedacinhos
em certas tardes de Inverno, como sedimentos de palavras
em terra firme.
Em doses virais.
Deixo que as formas me surpreendam e posicionando o
castanho monóculo, acendo o cachimbo imaginário para encher
de fumo no café a caixa de onde subtraio o chapéu íntimo.

Os que vieram antes gritam às estátuas. Vê como tenho
evitado escrever-te. Houve quem se escusasse ao furto das
águas e fosse lançar-se sobre as
palavras.
Nunca percebi porque tanto falam do mar. É nas trincheiras
deste jardim que mergulho, com todo este evitar-te e com todo
este escrever-me. E nele não há azuis.

A Modianerie

«Meticuloso arquivista de si mesmo», Patrick Modiano expõe-se como nunca na mais recente edição dos Cahiers de l’Herne. Fotos, cartas, telegramas, fac-similes, manuscritos, desenhos, recortes de imprensa: não falta lá nada.

Maravilhas da paternidade

«No queque, gosto sempre de comer primeiro as pétalas», disse o Pedro, ao lanche.

25 coisas que os escritores deviam começar a fazer

Podiam ser mais coisas, podiam ser menos coisas, mas listas deste tipo querem-se redondas.

The Short Story Club

Uma excelente iniciativa da edição online do The Telegraph.

Diz Alain de Botton:

«The nirvana would be if the questions raised by Oprah Winfrey would be answered by the faculty at Harvard»

Primeiros parágrafos

«A meio do jantar, eu sabia que iria reviver todo o serão pela ordem inversa – o autocarro, a neve, a subida pelo ligeiro declive, a catedral a erguer-se à minha frente, a desconhecida no elevador, a sala de estar enorme e amontoada onde rostos iluminados por velas resplandeciam com gargalhadas e premonições, a música de piano, o cantor de voz roufenha, o odor a pinheiro por toda a parte enquanto eu vagueava de divisão em divisão, a pensar que talvez naquela noite devesse ter chegado muito mais cedo, ou um pouco mais tarde, ou nem sequer devia ter ido, as clássicas águas-fortes a sépia na parede junto da casa de banho onde uma porta giratória se abria para um corredor longo de acesso a zonas privadas não abertas a convidados mas que dava outra curva para o corredor e depois, por milagre, voltava a conduzir à mesma sala de estar, onde mais pessoas se tinham reunido, e onde, junto da janela onde pensei ter encontrado um lugar tranquilo atrás da enorme árvore de Natal, alguém se virou de repente para mim, estendeu a mão e disse:
– Sou a Clara.
Sou a Clara, dito num ápice, como se fosse o facto mais óbvio do mundo, como se eu sempre o tivesse sabido, ou o devesse saber, e, vendo que não a reconhecera, ou talvez estivesse a tentar não o fazer, ela me ajudasse a acabar com o fingimento e a dar um rosto ao nome que decerto já todos tinham mencionado muitas vezes.»

[in Oito Noites Brancas, de André Aciman, trad. de Maria João Freire de Andrade, Matéria Prima, 2012]

Rui Costa (1972-2012)

Quando soube da notícia, não tive tempo de escrever, não tive cabeça para escrever, não tive vontade de escrever. Eu conheci muito mal o Rui. Há três anos, nas Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, conversámos durante uma viagem de autocarro. Ele estava empenhado em candidatar-se à direcção do Pen Clube e falou muito sobre os jogos de bastidores, sobre as tricas em que é pródigo o mundo literário, sobre os egos que os escritores transportam como um estandarte, para ser exibido aos outros como os galos mostram as suas cristas.
Conversámos também sobre poesia, sobre livros adiados, versos que nunca nos chegam a satisfazer e outras misérias líricas. Quando o autocarro estacionou no cimo de um monte, com vista panorâmica e o mar lá muito ao fundo, cheio de brilhos dourados, sentámo-nos em pontas opostas do restaurante e a conversa ficou a meio (era, na verdade, uma conversa que ficaria sempre a meio, por muito que a continuássemos).
Há dez dias, ao saber que o Rui estava desaparecido desde dia 5, sem fazer levantamentos no multibanco, nem dar sinal de vida nos telemóveis, temi logo o pior. Nem por isso foi menos violenta, a notícia. Lembrei-me, por exemplo, da morte do Olímpio Ferreira, muito diferente nas circunstâncias, mas com a mesma brutalidade de ver um homem tão novo (40 anos), e com tanto para dar, arrancado assim de repente ao convívio dos que o amavam. Há um buraco que se recorta no quotidiano, sempre tão cheio de prioridades que nos afastam uns dos outros, e no momento em que nos apercebemos dessa cratera, a irreversível cratera, já nada podemos fazer.
Conheci muito mal o Rui. Ignoro as histórias que se escondem por trás da história da sua morte. Prefiro não saber mais nada. Sei que durante aquela viagem de autocarro ele me pareceu um homem decente (coisa tão rara), um poeta com mais dúvidas do que certezas, e isso basta-me. O essencial ficou dito, com raiva, com o coração todo à mostra, pelo Henrique Manuel Bento Fialho (a quem roubei a fotografia do Rui), neste post.

Prémio T. S. Eliot 2011

O relato da controversa edição deste ano do Prémio T. S. Eliot, atribuído pela Poetry Book Society do Reino Unido, está no blogue da revista Agio, num post de Ricardo Marques (que traduziu três poemas de John Burnside, o vencedor).

Uma mascote para a Bertrand

A Bertrand acaba de lançar o concurso “Leitores de todos os tamanhos”, que desafia os ilustradores portugueses a criarem uma mascote a ser usada nos diversos suportes de comunicação das Livrarias Bertrand. Os trabalhos concorrentes ao prémio (2500 euros) devem ser enviados até 9 de Março. Mais informações e o regulamento, aqui.

Russell Edson (menos as danças)

Logo à tarde, na livraria café-bar Gato Vadio (Porto).

Regresso a Buenos Aires

Um breve diário de Ricardo Piglia, no suplemento Babelia do El País.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Kaui Hart Hemmings, autora de Os Descendentes (Presença), por José Mário Silva
A Persistência da Obra – Arte e Política, de vários autores, com organização de Tomás Maia (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
História Económica de Portugal, de Leonor Freire Costa, Pedro Lains e Susana Munch Miranda (Esfera dos Livros), por Luís M. Faria
O Colosso de Maroussi, de Henry Miller (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
Os Constituintes de 1911 e a Maçonaria, de António Ventura (Temas e Debates), por Valdemar Cruz
Homem versus Estado, de Herbert Spencer (Alfanje), por Carlos Bessa
A Arte da Crítica, de Álvaro Manuel Machado (Presença), por Pedro Mexia
O Horizonte, de Patrick Modiano (Porto Editora), por José Guardado Moreira

CCB: sai António Mega Ferreira, entra Vasco Graça Moura

Eis uma notícia que me deixa perplexo. A Secretaria de Estado da Cultura acaba de anunciar a substituição de António Mega Ferreira por Vasco Graça Moura, na presidência da Fundação Centro Cultural de Belém. Se Mega Ferreira, nos dois mandatos à frente da instituição, deu «provas de brilho, criatividade e responsabilidade no cumprimento da missão que lhe foi incumbida», porque razão sai agora, quando por lei ainda podia ficar à frente do CCB durante mais três anos? Não se entende. Ou melhor, percebe-se uma coisa muito simples: sem pôr em causa as qualidades de Graça Moura e a sua grande experiência em cargos desta magnitude, há aqui claramente uma mudança de azimute político. Onde estava um intelectual mais ou menos alinhado com o PS, passa a estar um intelectual ostensivamente alinhado com o PSD. Numa altura em que assistimos ao verdadeiro assalto da EDP e outras empresas de forte participação estatal, por parte dos boys e girls laranjinhas (mais uns quantos centristas), a nomeação de Vasco Graça Moura para o CCB vai parecer mais do mesmo.
Perante o facto consumado, resta enaltecer o excelente trabalho feito por Mega Ferreira no CCB, nomeadamente as muitas iniciativas de cariz literário (as participadíssimas comemorações do Dia Mundial da Poesia, os ciclos de colóquios sobre escritores, as homenagens, as maratonas de leitura, os Dias dedicados a certos autores: Tolstoi, Kafka, Vitorino Nemésio, Tabucchi, etc.) Esperemos agora que Vasco Graça Moura consiga prosseguir este movimento de abertura do CCB aos temas literários.
Cá estaremos para ver.

O que aí vem (Sextante)

Travessa da Abençoada, de João Bouza da Costa; A Grande Arte, de Rubem Fonseca; Baku – Últimos Dias, de Olivier Rolin; Cinzas de Abril, de Manuel Moya; A Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendoza.

Perder a fé

Na ficha técnica de Blankets, uma novela gráfica de Craig Thompson que a Biblioteca de Alice (nova chancela da editora Devir) lançou no final de 2011, há uma pequena nota de agradecimentos que começa por sublinhar a «generosidade» do autor e termina com uma menção a Pedro Miranda, «por um certo dia ter brandido, indignado, um Blankets no ar». Rui Santos, criador da Biblioteca de Alice, ainda hoje recorda esse dia: «Foi há seis ou sete anos. O Pedro Miranda, que é um dos sócios fundadores da Devir, estava entusiasmadíssimo com o livro e desafiou-me: “Tens de ler isto, já!”. A verdade é que fui resistindo àquela ordem. Uma história sobre as dificuldades de um rapaz do campo durante o processo de crescimento, mais o seu primeiro amor, não era coisa que me atraísse por aí além. Eu estava mais virado para o Batman. Mas depois resolvi dar uma hipótese ao Craig e arrependi-me de não ter seguido logo o conselho do Pedro. Fiquei completamente maravilhado.»
Assim que surgiu a oportunidade de comprar os direitos para Portugal, Rui Santos arregaçou as mangas e pôs mãos à obra com uma equipa de cúmplices, todos eles amantes da BD e dispostos a tornar viável uma edição arriscada, uma vez que imprimir apenas mil exemplares de um livro de capa dura com 600 páginas eleva muito o preço por unidade. A principal preocupação foi respeitar a obra original até ao mínimo detalhe gráfico, para que o obsessivo trabalho de Thompson em cada prancha não fosse posto em causa. «Eu já achava que o Craig merecia todo o nosso empenho, toda a nossa paixão e os muitos fins-de-semana perdidos. Mas quando o conheci, esse sentimento aprofundou-se. Porque ele não é só um grande artista, é também um tipo extraordinário, muito simples e humilde», lembra Rui Santos, que levou Thompson «a comer um robalo grelhado em Paço d’Arcos de que ele ainda hoje fala».

Craig Thompson nasceu no Michigan, em 1975, mas mudou-se ainda criança para o Wisconsin, onde cresceu com o irmão mais novo, Phil, no seio de uma família de fundamentalistas cristãos. Livro assumidamente autobiográfico, Blankets acompanha o percurso de Craig desde a infância (quando partilhava o quarto e a cama com Phil) até à idade adulta (partida para a universidade e autonomia em relação aos pais). Trata-se da crónica de uma adolescência sem nada de invulgar, semelhante à que viveram milhões de outros jovens norte-americanos. No centro da narrativa, dois pontos de viragem existenciais: o primeiro amor (com os seus êxtases, mas também as suas desilusões) e uma crise de fé. No fundo, Blankets é a história da libertação de um rapaz espartilhado pela rigidez moral da família e da sociedade marcadamente religiosa que o rodeia. Thompson desenhou, num espantoso preto-e-branco, todos os dilemas que o atormentaram, fazendo a exegese visual de várias passagens da Bíblia como forma de explicar o perigo das leituras literais, sobretudo num texto cujas palavras, ao invés de provirem da «boca de Deus», foram «subtilmente modificadas por gerações de escribas» e «diluídas» pelas sucessivas traduções ambíguas. Ao assumir a perda da fé, ele reage contra as respostas únicas que lhe impuseram desde pequeno. E resume tudo numa frase: «A dúvida dá-nos ânimo.»

Não foi, porém, por descrever as tribulações de um jovem banal, a braços com as incertezas típicas de quem descobre a complexidade do mundo, que Blankets se transformou numa novela gráfica de culto, elogiada publicamente pelos mais brilhantes mestres do ofício (de Art Spiegelman a Eddie Campbell), além de ter arrebatado uma mão cheia de prémios (três Harvey, dois Eisner e dois Ignatz). O que torna Blankets uma obra-prima é o modo como Craig construiu um mosaico perfeito, em que a unidade entre texto e desenho atinge pontos extremos de criatividade, elegância e invenção gráfica. Cada um dos nove capítulos funciona isoladamente e em função do conjunto, como os vários quadrados cosidos de que é feito o cobertor que a primeira namorada oferece ao protagonista (metonímia que, não por acaso, dá título ao livro). Quadrados que formam «um som visual» e que lidos «em sequência, como uma banda desenhada, contavam uma história». Thompson consegue adequar cada prancha à tensão dramática do episódio narrado, oscilando entre a grelha clássica da BD, mais contida, e momentos em que os vários planos se fundem (caso das sequências oníricas ou amorosas), com resultados muitas vezes deslumbrantes. Rui Santos destaca ainda a «candura» do narrador, «misto de franqueza crua e sensibilidade poética», um registo raro que atraiu muitas pessoas que não têm o hábito de ler este tipo de livros.

A mais recente novela gráfica de Thompson, Habibi, foi lançada nos EUA em Setembro de 2011 e explora elementos da mitologia islâmica. Se tudo correr bem, Rui Santos conta publicá-la perto do Natal deste ano. Antes disso, surgirá a tradução de Pilules Bleus, de Frederik Peeters, segundo volume a ir para a estante da Biblioteca de Alice – um projecto alternativo pensado contra os «agrimensores com chapéus de hélice e bigodinhos à Dali que tentam separar a literatura da BD».

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Rubem Fonseca vem mesmo às Correntes d’Escritas

Segundo a Sara Figueiredo Costa, há fumo branco: Rubem Fonseca, um dos maiores e mais reservados escritores brasileiros da actualidade (geralmente avesso a qualquer tipo de exposição pública), virá mesmo a Portugal em Fevereiro, para participar no encontro Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. É uma excelente notícia, claro, ainda por cima quando a visita coincide com a reedição, pela Sextante, de uma das suas obras-primas: A Grande Arte. Mas para já convém não embandeirarmos em arco. Tendo em conta o passado de RF, só quando o vir em carne e osso, no Auditório Municipal da Póvoa, é que acredito.

Lembrete

Logo à noite, a partir das 21h30, no palco do Teatro Tivoli, a ‘Avenida de Poemas’ recebe Francisco José Viegas e os «poemas da sua vida», numa conversa conduzida por Raquel Marinho e por mim. Apareçam.

Quatro poemas de Vítor Nogueira

À MANEIRA DE FILIPE NUNES

Para facilmente poderdes copiar uma cidade,
construí um quadrado com uma rede estirada,
de modo que as malhas fiquem todas direitas
na sua proporção. A seguir fazei num papel
a mesma rede com linhas. Depois procurai
o lugar de onde melhor se descubra a cidade,
os olhos e o quadrado num só ponto,
para que não percais a vista correcta do perfil.

Podereis então copiar facilmente. Porque
passareis a torre que fica numa malha da rede
para a malha que lhe responde no papel.
E fareis o mesmo a partir da outra malha
onde aparece a árvore. E assim podereis ir
pelas malhas, copiando a pouco e pouco.

***

À MANEIRA DE FRANCISCO DE HOLANDA

O dia é feito de deslizamentos, fantasmas
que emergem de cenários onde as cores
enlouqueceram. Mas o equilíbrio, quer dizer,
não é bem isto. Pintar é fazer perto o que está longe,
somente com duas linhas, uma recta e outra curva,
de modo que pareça estar numa tábua limpa
e lisa, ou num papel cego e franco, tudo aquilo
que não está. E assim mesmo com a razão
de duas coisas, porque de duas coisas
a pintura é formada, sem as quais é impossível
concluir alguma obra: a primeira é luz ou claro,
a segunda é escuro ou sombra.

***

TERRENO

Muitas vezes o pintor fica sozinho,
com o terreno à sua frente, acentuado,
e os demónios às bicadas na sua cabeça.
É a altura de arriscar, de subir
os degraus da escada óptica, de forçar
a realidade a caber nos seus desenhos.

É também, senhores, a parte mais perigosa
da escalada – seria mau momento
para a corda se partir. Como quem salta
de uma dor física para um amor perdido,
ter as mãos e os braços em farrapos
e poder subir ainda um pouco mais.

***

POMBO

Digam o que disserem, o grande vadio das cidades
é o pombo. Mistura-se com o fumo dos automóveis,
a luz dos cafés. Empoleira-se num busto
de homem célebre, o mesmo atrevimento
com que se mete num enfeite banal de cantaria.
Um dia bate as asas, lá se vai. Qual é o seu destino?
Sabe-se acaso o destino de uma asa que esvoaça?

[in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, &Etc, 2011]

Montanhas de livros

Um blogue, muito por onde escolher.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Blankets, de Craig Thompson (Biblioteca de Alice), por José Mário Silva
Lagoeiros, de João Miguel Fernandes Jorge (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Margem de Certa Maneira – O Maoísmo em Portugal, 1964-1974, de Miguel Cardina (Tinta da China), por António Loja Neves
Quando a Neve Começa a Derreter, de A.D. Miller (Civilização), por Luísa Meireles
Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou, de Kjersti Annesdatter Skomsvold (Eucleia), por Ana Cristina Leonardo
Questões Permanentes – Ensaios Escolhidos sobre Cultura Contemporânea, de António Pinto Ribeiro (Cotovia), por António Guerreiro

Philipp Meyer: “Tens de habitar as tuas personagens e sofrer com elas”

À primeira vista, Philipp Meyer não parece um escritor. Mais depressa o veríamos como pugilista ou cowboy. Escritor, nem por isso. E não é tanto pelo porte físico compacto, pela forma rígida como se senta na esplanada de um hotel lisboeta, pela voz áspera e riso brusco. Há nele uma falta de sofisticação que podia ser pose, mas é só uma forma de não trair as suas origens humildes, um modo de sublinhar o seu desprezo pela arrogância intelectual de uma certa elite literária norte-americana. Embora faça tournées de promoção do romance que o lançou para a ribalta (Ferrugem Americana, Bertrand) e aceite pacientemente o massacre das entrevistas sucessivas, Meyer ainda não perdeu a espontaneidade, nem um certo embaraço ao falar sobre o seu trabalho, e tem o mérito de não se esconder atrás de respostas preguiçosas ou pré-fabricadas pelos departamentos de marketing.
Editado nos EUA em 2009, Ferrugem Americana foi recebido apoteoticamente pela crítica (entrou nas listas dos melhores livros do ano de vários jornais, do The Washington Post ao The New York Times) e não faltou quem o comparasse a Faulkner, Steinbeck ou Cormac McCarthy. Na altura com 35 anos, Meyer começava a desesperar com os falhanços das suas anteriores tentativas romanescas (seguiu a clássica via crucis dos livros recusados por várias editoras) e temia que o sonho de se tornar escritor, assumido desde os 21 anos, se desfizesse em fumo. Ao concluir Ferrugem Americana, sentiu que a sua sorte estava prestes a mudar. «Sabia que o livro tinha tudo para ser um grande sucesso. Mas também sabia que havia o risco de um fracasso absoluto. Porque na altura ninguém queria saber disto. Ninguém falava disto.» Meyer refere-se ao «declínio da América produtiva», um dos temas centrais do romance.
A morte lenta das grandes indústrias, vítimas da concorrência global e das deslocalizações para a Ásia, era uma «história por contar». Faltava na literatura americana contemporânea quem fizesse a crónica da miséria e decadência no Rust Belt, do silêncio das sirenes, do vazio que paira sobre as fábricas fechadas, do desespero dos muitos milhares de trabalhadores blue collar entregues a um desemprego tantas vezes definitivo. No fundo, Meyer quis narrar o ocaso de um modo de vida, conferindo-lhe dignidade literária. «Sem querer comparar os livros, julgo que a última vez que se fez algo nesta escala foi em As Vinhas da Ira. Steinbeck mostrou-nos a realidade da Grande Depressão mantendo o foco numa família. É através da história dessa família que assistimos à violência com que foi rompido o tecido social. Com o meu livro, eu quis fazer exactamente a mesma coisa. A única maneira de explicar o custo humano da desindustrialização é mostrar as marcas desse custo na vida concreta das pessoas.» Marcas que Meyer conhece bem porque cresceu com elas. No final dos anos 70, quando ainda era criança, os seus pais mudaram-se para o bairro anexo a uma fábrica têxtil, numa das zonas mais pobres de Baltimore. «Na altura, a cidade já estava em crise, com os estaleiros e as fábricas de automóveis a fechar. As que não fechavam, automatizavam-se. E o desemprego subiu em flecha. Esta é uma realidade que eu conheci de perto.»
Das muitas regiões que podiam servir de cenário ao romance, Meyer optou pelo vale do Mon, a sul de Pittsburgh, na Pensylvania. «Quis que fosse uma zona rural com uma única indústria, porque essas foram as mais duramente atingidas. O Up State New York e Ohio chegaram a ser hipóteses, mas depois um amigo meu, que cresceu em Charleroi, no vale do Mon, a sete quilómetros de Buell, a minha cidade imaginária, disse-me que tinha de ser ali.» O facto de na região só existir uma indústria (a do aço), que começou a fraquejar nos anos 70 e ficou arruinada em meados dos anos 80, também ajudou: «Permitiu uma caracterização económica mais simples.» Durante o longo período de investigação no terreno, Meyer percorreu o vale de carro, fazendo um levantamento geográfico completo: «Quando estás a fazer pesquisa, vais acumulando informação. Estas são as árvores, estas são as estradas, estas são as pessoas. Anotas tudo. Captas milhares de fotografias. Tens de poder dizer a ti mesmo que conheces realmente aquela terra, aquelas cidades, aquelas paisagens. Sou incapaz de escrever sem esta rede, sem esta infraestrutura.”
Meyer abomina o espectro da autobiografia na ficção e por isso recusou-se a utilizar as suas experiências pessoais. «Eu preciso de sentir que estou a atingir a verdade daquilo que conto, tenho de chegar ao fundo daquilo que estou a contar. E quando temos uma qualquer ligação emocional à história, ou aos lugares em que decorre, isso é impossível.» Ainda assim, há algo dos anos de Baltimore que se infiltra, subrepticiamente, na narrativa: «Algumas das personagens secundárias mais obscuras ficaram com nomes de vizinhos meus ou de pessoas de que gostei muito, enquanto crescia. E o nome do cão de Harris, uma das figuras centrais do livro, é o nome do malamute preferido do meu pai. Acabamos por introduzir estes pormenores, como uma espécie de secreta homenagem.»

Ao longo da escrita de Ferrugem Americana, a principal dificuldade de Meyer esteve na construção das personagens – cada uma com a sua voz distinta, o seu ritmo, o seu dilema moral. «Hesitei imenso. Fiz várias versões, com muitos acrescentos e muitos cortes. O Colm Tóibín deu-me conselhos preciosos e voltei várias vezes ao livro dele sobre o Henry James» (O Mestre, editado em Portugal pela Dom Quixote). A principal influência, admite, foi buscá-la aos modernistas e ao seu uso da «corrente de consciência» (stream of consciousness). Ao acompanhar a fuga de Isaac, o protagonista, interessava-lhe sobretudo descrever os mecanismos do pensamento, a forma caótica como a mente processa a informação. «Procurei artigos de Psicologia que explicassem de que forma o cérebro funciona mas não encontrei nenhum que me servisse. Acabei por estudar a minha própria forma de pensar. E recorri à literatura, claro. Joyce, Virginia Woolf, os modernistas.» Depois, deu-se como que uma epifania: «No processo de escrita, há um dado momento em que acabas por entrar na cabeça das personagens. Esvazias a tua mente por completo e percebes que começas aos poucos a ver as coisas como as personagens as veriam.» O essencial, para Meyer, é que o escritor se coloque emocionalmente no lugar do outro: «Tens de habitar as tuas personagens. E sofrer com elas.»
Três anos após a primeira edição de Ferrugem Americana, o escritor já sente um certo distanciamento em relação à sua obra. «É estranho porque um livro é como uma relação amorosa. Primeiro apaixonamo-nos loucamente, ficamos obcecados. Depois fartamo-nos, ao ponto de não conseguirmos olhar para aquilo. Mais tarde, voltamos a reacender a paixão. Até que um dia o livro já não nos diz nada de novo. Então sabemos que acabou.» Se isso ainda não aconteceu a Ferrugem Americana é porque o romance marcou o verdadeiro arranque da carreira literária de Meyer («além de que lhe dediquei quatro anos da minha vida»), mas o escritor entretanto terminou outro livro, «e é esse que me entusiasma agora». Com lançamento previsto para o próximo Outono, The Son é um ambicioso épico sobre a História do Texas e a «vida na fronteira», reflectida na trajectória de uma família de criadores de gado que se transforma numa dinastia ligada ao negócio do petróleo. «Vai de 1830 até à actualidade, ao longo de sete gerações. É um romance longo, com cerca de mil páginas, em que deixei de saltar entre personagens para saltar entre tempos diferentes.»
A vida de Philipp Meyer dava, ela própria, um romance. Aos 16 anos, abandonou a escola pública em Baltimore para trabalhar como mecânico de bicicletas. Aos 22 anos, depois de decidir que queria ser escritor, candidatou-se a várias universidades de elite e acabou por entrar em Cornell, onde se licenciou em Inglês. A seguir, para pagar os empréstimos, conseguiu um cobiçadíssimo emprego em Wall Street, num banco de investimentos suíço. Aprendeu a manipular números, ganhou bom dinheiro, satisfez a sua necessidade de adrenalina e viu para onde caminhavam os mercados especulativos: para o desastre. Em 2001, fartou-se e bateu com a porta. Queria dedicar-se à escrita, mas os dois primeiros romances foram recusados e regressou, falido, para a casa dos pais em Baltimore. Conduziu ambulâncias e trabalhou na construção civil durante uns tempos, antes de fazer uma última aposta na literatura. Em 2005, uma bolsa do Michener Center for Writers, de Austin (onde hoje vive), permitiu-lhe escrever grande parte de Ferrugem Americana. O sonho de ser escritor a tempo inteiro cumpriu-se, mas nunca se sabe onde irá dar uma vida que parece uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. A sua filosofia pode resumir-se numa frase: «não ter medo de correr todos os riscos». No dia 11 de Setembro de 2001, por exemplo, ofereceu-se para retirar corpos dos escombros e só não o aceitaram porque não tinha estatuto de socorrista. Mais tarde, quando soube do furacão Katrina, dirigiu-se imediatamente para Nova Orleães, onde ficou vários dias a ajudar, cercado pelas águas. Não tenciona, porém, fazer ficção a partir destas experiências. Pelo menos para já: «Estou demasiado perto dos acontecimentos para poder escrever sobre eles.» Mas dêem-lhe tempo. Até porque, aos 37 anos, tempo é o que não lhe falta.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Lançamento de ‘As Coisas’

O primeiro livro de poemas de Inês Fonseca Santos (As Coisas, Abysmo) vai ser lançado esta noite, a partir das 22h00, no Lux/Frágil. A apresentação da obra estará a cargo de António Mega Ferreira; a leitura de poemas, de Filipa Leal e Pedro Lamares.

A alegria dos livros

Este vídeo, que anda a circular furiosamente pelo Facebook, é uma pequena maravilha:

Finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa 2012

A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão (Sextante)
As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta (Dom Quixote)
Adoecer, de Hélia Correia (Relógio D’Água)
Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca (Sextante)
Do Longe e do Perto – Quase Diário, de Yvette K. Centeno (Sextante)
Dublinesca, de Enrique Vila-Matas (Teorema)
O Homem que Gostava de Cães, de Leonardo Padura (Porto Editora)
Os Íntimos, de Inês Pedrosa (Dom Quixote)
Tiago Veiga – Uma Biografia, de Mário Cláudio (Dom Quixote)

Do júri fazem parte Ana Paula Tavares, Fernando Pinto do Amaral, José António Gomes, Patrícia Reis e Pedro Mexia. A reunião decisiva será a 22 de Fevereiro, com o anúncio oficial marcado para o dia seguinte, na abertura da 13.ª edição do Correntes d’Escritas.

Fiódor em Cabul

Maldito seja Dostoiévski
Autor: Atiq Rahimi
Título original: Maudit soit Dostoïevski
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-989-97474-5-6
Ano de publicação: 2011

No momento em que racha o crânio de uma velha com um machado, replicando o célebre gesto de Raskólnikov, Rassul sabe que está a cometer uma espécie de plágio. Ainda antes de a ver caída sobre um tapete vermelho e negro, gradualmente manchado de sangue, «passa-lhe pela cabeça» a história de Crime e Castigo. Atiq Rahimi podia apostar num simples decalque do romance de Dostoiévski, correndo sérios riscos de soçobrar num pastiche pretensioso. Ao fazê-lo como o faz, atribuindo ao protagonista a imediata consciência da emulação de Raskólnikov, mas também um sentimento de impotência e raiva por não conseguir imitar à risca o seu destino, torna muito mais subtil e interessante o jogo da intertextualidade.
Embora replique as traves-mestras da narrativa de Dostoiévski, Rahimi sabe perfeitamente que o Afeganistão dos anos 90, após a retirada das tropas soviéticas, nada tem a ver com a S. Petersburgo do século XIX. Por muito que o crime e os consequentes remorsos se assemelhem, tudo o resto é diferente. A escrita depurada do autor franco-afegão, aliás, preocupa-se mais em sublinhar as diferenças do que as semelhanças. Quando assassina Alia, uma mulher horrenda, agiota e proxeneta, que obrigara a sua noiva a prostituir-se, Rassul pretende não apenas vingar-se mas apropriar-se do seu dinheiro e jóias, com os quais tenciona ajudar a mãe e a irmã, sozinhas após a morte recente do patriarca da família. E é aqui que as histórias se começam a separar. Ao contrário de Raskólnikov, Rassul foge do local do crime de mãos vazias, o que torna algo impalpável e até duvidosa a sua culpa, uma vez que o cadáver e respectivos bens desaparecem misteriosamente – permitindo, até, a hipótese de o crime se ter dado apenas na sua cabeça.
Com o choque emocional, Rassul perde a voz e deambula por uma Cabul de pesadelo que cheira a enxofre e «podridão», sacudida por explosões e dominada pelos «barbudos», mujahedines que depois de expulsarem os soviéticos se digladiam em guerras tribais. Para escapar à «fornalha do ódio» em que se transformou o seu país, Rassul afunda-se nas salas de fumo, por entre nuvens de haxixe, a planar «nos abismos poéticos do cânhamo». Ele sempre preferiu o orgulho à altivez, mas agora sente-se vítima do seu próprio crime, incapaz de lidar com a «lâmina do destino» ou sequer com a ideia de um suicídio redentor. O sofrimento que o rói por dentro, como uma «ferida aberta, incurável», leva-o ainda assim a entregar-se à Justiça, só para descobrir que esta não existe – é um edifício abandonado, vazio, às moscas.
No fim de uma labiríntica sequência de peripécias, Rassul consegue finalmente ser julgado. E a ironia explode-lhe na cara. Porque ninguém se preocupa com o seu crime, a não ser ele. Como lhe explica um comandante militar: «o assassínio é um crime quando a vítima é um inocente. Essa mulher devia ser castigada. (…) Àquilo que fizeste, chama-se vingança. Ninguém tem o direito de te julgar como assassino.» Mais do que sacrificar-se aos seus fantasmas, ele pretende que o seu processo seja um testemunho «sobre estes tempos de injustiça, de mentira, de hipocrisia», e que a punição do seu crime sirva de exemplo, num país em que todos os valores colapsaram.
Muito intensa, muito rápida (abundam as frases curtas, em staccato), muito persa (com fortes imagens poéticas e personagens que contam histórias maravilhosas), a escrita de Rahimi surge ainda mais refinada do que nos livros anteriores, mantendo a sua imensa capacidade efabulatória.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Prémio Jacinto do Prado Coelho para Rosa Maria Martelo

O livro A Forma Informe – Leituras de Poesia, de Rosa Maria Martelo, acaba de ser distinguido com o Prémio Jacinto do Prado Coelho, da Associação Portuguesa dos Críticos Literários. Do júri fizeram parte Maria João Cantinho, Manuel Frias Martins e Liberto Cruz.

« Página anteriorPágina seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges