Primeiros parágrafos

«A primeira vez aconteceu depois de todas as outras, numa tarde que parecia vulgar. Foi há uns meses, a cidade afastava-se do frio. Havia um certo torpor, meu e dela. Eu caminhava ao sol, devagar, ela acolhia, confiante. Avenida da Liberdade, sétima esquina a contar do rio. No semáforo, verde e vermelho. Um autocarro a travar, mulher a cruzar a passadeira, os canteiros na meninice. Uma pastilha elástica em voo picado, pombo aterrado em pata manca, as primeiras flores. A avenida inteira, gente a viver-se.»

[in Como Carne em Pedra Quente, de Ana Sofia Fonseca, Clube do Autor, 2012]

216 anos

O Alvará régio de 29 de Fevereiro de 1796 fundou a Real Biblioteca Pública da Corte, a mais antiga antecessora formal da BNP.

Olivier Rolin: “É a matéria da escrita que me impõe a sua forma”

Quando escreveu Suite no Hotel Crystal, em 2004, Olivier Rolin imaginou o seu suicídio no quarto 1123 do Hotel Apcheron, em Baku, no ano de 2009, com uma bala de 9mm disparada por uma pistola Makarov. Como alguns amigos levaram a sério o jogo ficcional e o aconselharam a evitar a capital do Azerbaijão no ano fatídico, o escritor francês fez questão de ignorar esses avisos e instalou-se precisamente em Baku, durante um mês, numa espécie de desafio à morte. Quando regressou a Paris, vivíssimo, trazia na bagagem o esboço de Baku – Últimos Dias, um magnífico livro inclassificável (agora editado pela Sextante).

Ir a Baku, o suposto palco anunciado da sua morte, foi uma forma de testar o poder profético da literatura?
Em parte foi. Eu li um ensaio de Pierre Bayard, Demain est écrit (O Amanhã está Escrito), em que são apresentados vários exemplos, alguns perturbantes, de escritores que anteciparam nos seus livros o que lhes viria a acontecer mais tarde, nomeadamente as circunstâncias da morte. Na verdade, fiquei mais intrigado do que convencido. Ora, tendo escrito num romance anterior que o meu destino era morrer em Baku, no ano 2009, parti para o Azerbaijão para desafiar literariamente a morte, mas sem pensar que ia mesmo morrer ali. É bom sublinhar que nunca tencionei suicidar-me. Todos sabemos que a nossa morte pode acontecer de um momento para o outro. E era tão provável que acontecesse ali como noutro lugar qualquer.

À chegada, descobriu que o hotel fora demolido dois meses antes, o que alterou evidentemente o rumo do jogo literário a que se tinha proposto. E se o hotel ainda estivesse de pé?
Faria o que tinha pensado. Instalava-me no quarto 1123, onde há uns anos imaginei o meu suicídio, à espera do que pudesse acontecer.

Suponho que não levava consigo uma Makarov de 9mm.
Claro que não! Mas olhe que ter acesso a uma pistola dessas, naquelas paragens, é tudo menos difícil…

O projecto do livro alterou-se muito ao constatar que o quarto 1123 já não existia?
Quase nada. Se o quarto ainda existisse, o livro não seria muito diferente. Porque o jogo com a ideia do suicídio programado foi só um pretexto. O que me interessava era falar de Baku e do mar Cáspio, dos livros escritos sobre a cidade e a sua História, das pessoas que ali vivem ou viveram.

Escolheu o ano de 2009 por alguma razão em particular?
A ideia ocorreu-me quando escrevia um livro com histórias passadas em quartos de hotel. Foi em 2004 e eu pensei que teria de ser uma data não muito distante, mas que ao mesmo tempo me deixasse algum tempo de vida, digamos assim. Um intervalo de cinco anos pareceu-me suficiente. A data da morte é uma fantasia para muitos escritores, justamente porque está fora do nosso controlo. Certa vez, pediram a Borges que falasse de si mesmo. E ele respondeu: «Que querem que vos diga? Eu quase nada sei sobre mim mesmo. Sei tão pouco que até ignoro a data da minha morte.» Saber a data da morte confere-nos uma espécie de poder.

E não é estranho ter duas mortes, a imaginária e a real?
É um luxo. Um luxo que perturba. Os escritores, enquanto fabricantes de ficções, têm essa possibilidade. Os espiões também.

Não por acaso, surgem vários espiões neste livro. Como Teague-Jones, o inglês que se envolveu na guerra civil russa, defendendo os interesses britânicos no Cáucaso. Um homem de trajetória rocambolesca, até desaparecer de circulação durante muitas décadas.
Como romancista, mas também pessoalmente, interessam-me e atraem-me as existências aventureiras, perigosas. Eu próprio tive uma fase dessas, quando era muito novo e militei na extrema-esquerda. Vivi clandestino e devo dizer que essa vida dissimulada, escondida, tem um certo encanto.

O que é este livro afinal?
Procurei que fosse um texto muito livre, algures entre o relato de viagem e o diário íntimo, com partes claramente ficcionadas (como aquela em que imagino várias alternativas para a minha morte). Às tantas digo que é um «monólogo em voz baixa» porque há elementos pessoais, apenas aflorados, que só podem ser compreendidos por quem me conhece muito bem. Acaba por ser uma confissão disfarçada, uma semi-confissão.

Como é que surgiu esta estrutura fragmentada e híbrida?
Eu creio que foi o livro que inventou a sua própria estrutura. Quando regressei a Paris com os meus cadernos cheios de notas, uns três ou quatro, a forma final impôs-se imediatamente e os blocos que compõem a narrativa coagularam assim como estão, por si mesmos, sem dificuldade, sem esforço. Para mim funciona quase sempre assim. É a matéria da escrita que me impõe a sua forma. Há um certo vagar na acumulação dos materiais, seguido de uma súbita organização espontânea.

Que estratégias usa para conhecer uma cidade desconhecida, como Baku?
Tenho sempre referências. Factos que descobri nos livros, listas de lugares onde quero ir. Começo por aí. Depois, examino os mapas. Vou sempre ver as estações de comboio e os cemitérios. Ficamos a saber muito sobre a história e a identidade de uma região pela forma como se faz o culto dos mortos.

Quem também gostava de visitar estações de comboio e cemitérios era W. G. Sebald, o escritor alemão com quem partilha uma certa aproximação literária à geografia, o prazer de refletir enquanto deambula a pé e a inclusão de fotografias no meio do texto.
É um autor que li com muito entusiasmo. Quase toda a gente destaca Austerlitz, mas eu sinto-me mais próximo de outro dos seus livros, Os Anéis de Saturno, que acaba por ser um longo passeio, simultaneamente através da paisagem inglesa e da literatura.

À semelhança do que acontece em Um Caçador de Leões, assistimos em Baku – Últimos Dias ao resgate da memória viva de alguns lugares. Será essa uma das missões do escritor?
Para mim o escritor deve salvar, no que escreve, as coisas que vão desaparecer ao mesmo tempo do que ele. Ou seja, as coisas que ele ainda viu, mas que já não serão vistas pelas pessoas que virão depois. Por exemplo, o mundo que eu conheci em criança, o mundo do pós-guerra, desapareceu totalmente. E há outras realidades prestes a seguir o mesmo caminho. O papel do escritor é evitar, na medida do possível, esse apagamento.

Neste livro faz ainda uma espécie de revisão da sua obra anterior. A proximidade da morte, mesmo se hipotética, levou-o a empreender um balanço?
Não foi intencional. Mais do que a morte, preocupava-me o desaparecimento. O que é isso de desaparecer? Se o que escrevemos não for interessante, ninguém nos lê. E se ninguém nos ler, somos esquecidos. Eu sinto muitas vezes essa ansiedade. Será que isto pode interessar às pessoas?

Há sempre o risco, como sugere a dado momento, de que todas aquelas horas debaixo de uma lâmpada, todos aqueles milhares de páginas escritas, não tenham servido para nada. É isso?
É. Todo o escritor digno desse nome tem de estar consciente de que o seu esforço pode ser em vão.

É o mínimo de humildade exigível.
Acho que sim.

[Entrevista publicada no suplemento Actual do jornal Expresso]

Palavras de Miquel Barceló sobre Antoni Tàpies

Em catalão, no blogue da Cotovia.

Prémios de Edição ‘Ler’/Booktailors 2011

O anúncio aconteceu após a cerimónia de encerramento das Correntes d’Escritas. A lista completa pode ser consultada aqui.

Balanço final

Seja qual for o ângulo de análise (público, qualidade das mesas, organização), a 13.ª edição das Correntes d’Escritas foi um êxito. As dificuldades económicas fizeram-se sentir na duração do encontro (menos um dia), mas não no empenho dos participantes nem na adesão dos espectadores. A Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes, à frente de uma grande equipa (e com o apoio da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim), estão mais uma vez de parabéns. E se a crise para o ano apertar ainda mais os cordões à bolsa, talvez seja de ponderar o pagamento simbólico das entradas (dois euros, por exemplo). Era uma forma de controlar o crescimento desmesurado do público, que já não cabe no Auditório, ao mesmo tempo que se financiaria um projecto que é demasiado importante para correr o risco de extinção.
Enfim, com maiores ou menores dificuldades, estou certo que para o ano há mais. E cá estaremos para dias intensos de debates em série, pouco sono e muito convívio.

Soundbytes

«O ruído do lápis no papel é uma música celeste», Almeida Faria (mesa 1)

«O escritor é um roubador do fogo, quer criar o mundo, quer transformá-lo num objecto que os outros podem contemplar», Eduardo Lourenço (mesa 1)

«Somos todos loucos nesta mesa, mas cada um à sua maneira», Rubem Fonseca (mesa 1)

«Como tenho poucos leitores, todos os meus poemas são sempre inéditos», Luís Quintais (mesa 2)

«O fôlego do leitor é o ritmo do poema», Manuel António Pina (mesa 3)

«Há um desequilíbrio no universo: o bem tende para zero, o mal para infinito», Afonso Cruz (mesa 3)

«O escritor não é Ulisses, o escritor é a Penélope», Rui Zink (mesa 3)

Últimas mesas

A mesa 5 («A escrita é um investimento inesgotável no prazer») foi talvez a mais animada de todas. Afonso Cruz cerziu várias histórias, no seu modo fragmentário e erudito, terminando com aquela em que o filho de quatro anos deu a entender, a um adulto, que gostava muito do Tolstoi (o pai, espantado, foi verificar a precocidade literária do miúdo e percebeu que afinal ele gostava mesmo era do «toi stoi»; ou seja, do Toy Story). Júlio Magalhães teve a humildade de reconhecer que era um não-escritor numa mesa de escritores e contou episódios engraçados da sua relação com os leitores (nomeadamente arrumadores de carros e pedintes). Ana Luísa Amaral, às voltas com um abcesso, leu um belo texto, todo ritmo e ímpeto. Valter Hugo Mãe fez uma extravagante e divertida declaração de amor a Rubem Fonseca, com a sugestão de um engate casto que acabaria com o escritor português deitado na cama do octogenário brasileiro, muito quietinho, abrindo de vez em quando os olhos «para o admirar». Manuel Moya foi evocativo, lírico, nostálgico. E Rui Zink correspondeu às expectativas, saltando de digressão em digressão, num caos calculado para ultrapassar o tempo da prometida franqueza («Juro dizer a verdade e só a verdade nos próximos dez minutos»), de modo a poder terminar, com mais wishfull thinking do que verosimilhança, fazendo o relato de uma suposta facadinha no casamento, com o pretexto do «trabalho de campo» para um romance sobre a infidelidade. No período de perguntas do público, uma leitora confessou que também vai para a cama com o Valter (quer dizer, com os seus livros), e uma outra anunciou a intenção de se deitar com todos os participantes da mesa, ao que o moderador da mesma, Henrique Cayatte, se apressou a dizer «Mas olhe que eu não sou escritor, eu não sou escritor».
Embora melhor do que a mesa 2, a mesa 6 («Da crise da escrita não se pode fugir») também deixou muito a desejar. Carmo Neto e João Pedro Marques não arrancaram os espectadores ao torpor de sábado de manhã (a sessão começou às 10h30), Miguel Real fez uma abrangente panorâmica da cultura portuguesa dos últimos séculos, com o foco nos intelectuais que se viram obrigados a passar os seus anos mais criativos fora de Portugal (um discurso com muita informação interessante, mas demasiado enumerativo, ao ponto de se tornar fastidioso), e Salgado Maranhão mostrou excelentes dotes de comunicação, só que ao serviço de uma abordagem do tema que pecou por ser impressionista e errática. As intervenções mais interessantes couberam aos oradores mais novos: Valeria Luiselli, que falou sobre a eternização das crises mexicanas e o lugar excessivo que a questão do narcotráfico ocupa no imaginário da literatura contemporânea do seu país; e Sandro William Junqueira, que leu um conto em que a crise real (a da austeridade, das dívidas, das contas por pagar) se intromete nas crises da criação literária.
Finalmente, a mesa 7 bateu todos os recordes de adesão por parte do público e os espectadores (que ultrapassaram largamente a lotação do Auditório Municipal) não se sentiram defraudados. Eugénio Lisboa deu uma notável lição de sapiência em que questionou as duas versões da frase-tema («As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento», em tradução que inverte o sentido original da frase de Antoine Rivarol). Helena Vasconcelos explorou a ambiguidade etimológica da palavra «talento». Luís Sepúlveda improvisou um devaneio algo preguiçoso. Gonçalo M. Tavares aproximou-se do tema muito ao seu jeito, analiticamente, em círculos, a partir de notas escritas na viagem de comboio entre Lisboa e o Porto. Onésimo explorou todas as variações possíveis da frase, no meio da habitual vertigem de anedotas. E João de Melo estreou-se nas Correntes em grande estilo, mostrando as suas qualidades narrativas numa intervenção brilhante, irónica e autodepreciativa, que partiu das memórias de infância nos Açores, à sombra de uma família numerosa em que o pai o considerava um fardo («Este não vale sequer a água que bebe»), passando pela parábola bíblica dos talentos.

Economia e poesia

Na mesa 3 das Correntes, discutiu-se o seguinte mote: «A poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras». Gostei particularmente da intervenção da Margarida Vale de Gato, cheia de verve e magnífica prosódia, sem medo de ser «barroca e verborreica». Eis o texto completo, com dois poemas integrados no torrencial fluxo de um discurso empolgado e empolgante:

«Economia e poesia, era o que mais querias. Poupar as palavras, pô-las a render. Às palavras contadas descontávamos o encontro, que necessita de logística, criávamos o supérfluo, um desejo imperativo e virtual, sem matéria nem peso nem carne, mas de aparência premente e vital, e exigíamos resultados ao poeta de serviço, corretor da Babel. O poeta de serviço metia ao bolso as palavras negativas e enjorcava um poema cheio de afirmações e de bons sentimentos. A balança de pagamentos bajulava a poesia alemã, esforçando-se por honrar a eterna dívida externa. O texto vai na sétima, agora oitava, linha, passou por isso a perfeição, e ainda não disse a palavra austeridade. Ai pois não, se somos lixo tomai lá que palavras são luxo, e poesia não é circuito nem é fluxo nem refluxo que ignore o que por aí se diz, o que por aí se canta e sofre, a manta que se pinta, poesia é sopro, sim, haverá quem o guarde só para si, mas não será soma nem resultado nem produto, quando muito é lucro, quando muito é estupro desta acrítica gramática, será serviço, por que não, mas servil? Uuuhhh põe-te em guarda poeta se já douras a pílula e arranjaste um sistema, ou ainda pior um esquema, desconfia muito do governo, se tens um, e sobretudo se te elege, a vida custa a ganhar já se sabe, mas dizemos por aí, nós, os que saímos à rua, marcha pequena que finalmente acorda e se põe a palrar, que à falta de papel andamos aos cartões e com eles enchemos as esquinas e as praças e nos pomos a abanar as mãos e a discutir seriamente as nossas vidas e a democracia com os fundilhos nas calçadas, dizemos por aí que basta, que inevitável é a tua tia e não se sabe como vai isto acabar, é como o amor, interminável enquanto dura, e há tanto tempo que por aqui não havia nada que se pareça, poesia é isto, não é soma feita, é procura e processo, imperfeita,

barroca e verborreica como eu, mas sem peneiras, meu bem,
experimentando a mão e a maneira
a poesia, como a gente, acha-se linda, desce à primavera.
e a água muda em madeira e a densidade em arco
devemos arejar o fígado, tratar a raiva,
laurear a pevide
trazer à brisa os cascos dos barcos
pois temos vivido submersos;

há amantes sem dinheiro, há pedintes de versos ao peito,
e há quem esqueça o trato cordato e queira pegar em pedras do fundo de perspectivas em falta
a reguilice desconjunta abala o planeamento
urbano mais do que a luta organizada,
que chatice, nem todo o grito é exacto, há revolta que não sabe que forma quer, dor sem acordo de discurso, balbucio, palavrões que inquietam, letreiros tão diversos.

Não é a desordem nem o excesso que impede um estado, mas o movimento que difícil e admiravelmente se põe em marcha num estado de austeridade.
Por mim sei que pouco me une aos meus semelhantes e porém não creio que haja pior solidão nem caminho mais perto para o fim.
Cada um no meio dos outros, alguns pelo seu bem comum: vamos ver.
A poesia nem sempre resulta nem nunca dá de comer.
Mas se falhar a economia haja outras coisas com matéria
para nos darmos
o que livre da miséria.

Só abdicando da respeitabilidade, nesta vida competitiva, podemos suspeitar da infinita realidade desmedida. Posso e já escandi versos e admito que há modéstia e coragem na procura de uma única frase bem lançada e precisa. Ao contrário da economia a matemática não me faz estrilhar. Gosto dela desde que não seja resultado, nem seja medição nem muito cálculo mas assim mais equação. Há beleza no pensamento abstracto, na eterização, na condensação, como há nos números primos e solitários, o belo de se ser único, o mistério de se ser regular até ao infinito ou irracional como pi. A poesia participa dessa esfera também mas faz falta que se suje, bem como que a admiração do rigor abra lugar ao riso. Este é um tempo profano e de nada serve a aparência do religioso se não for também aparição. Eu quero hoje que a palavra mova, necessito da palavra denúncia e da palavra nova que me darás, táctilintactotérmica, o que eu gostava da palavra mágica, da palavra ternura, coanilada, e viçoardente.
É maravilha e tristeza isto da escrita a correr além daqui e de mim, tão fácil montar e povoar mundos assim, iludir solidão, construir abrigos. Foram talvez os surrealistas que mais denunciaram este risco e impunidade do literário, reclamando a palavra-acção. E que fizeram? Desataram a desenterrar o sonho no mundo, a fazer armas automáticas de arremesso ao edifício da razão, queriam a revolução e marimbavam-se para a economia, e terão desconhecido pelo menos de início que dariam meios sofisticados à publicidade, ao marketing, ao mercado de ilusões, às campanhas de marcas e de partidos.
Colocamo-nos então uma pergunta cheia de gravidade: há alguma coisa que se possa fazer? Tens olhos, ninguém tem de te dizer para ver. Aqui na Póboa, por exemplo, eu beijo com os meus olhos e aqui bou, bôo eu, a tourear-te outra bês com a minha berbe. Somos muito perigosos nós com os nossos sotaques, as nossas falas malabares, corremos o risco, com tanta falta de contenção e despojamento de não estar preparados nunca para a verdade e, pior, para o gesto. Na minha história e neste tempo que lugar há para tudo isto que digo e como devo dizê-lo. E já pensei até em calar-me, não dizer mais, que estou a azular o mundo e a escritura não cura. Mas não, isso ainda eu não quero. Quero falar para que façamos. E no meio disto há o medo de parecer frívola ou assim de com alguma alegria te convidar à partilha e te chamar para aquilo que não sei como vais querer e se calhar quererás com ideal diferente do que eu achava que era bom para ti. Mas não quero estar mais sozinha nem pensar que a poesia é dedicação mais alta, ou que consigo brincar aos deuses e ao fim do mundo guardando a palavra archote, pelo que reflecti um poucochinho e fiz estes versos para ti:

Democrítica

Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
do que a fazer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,
herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,
e deixa que o isente a lucidez
da desprendida rota da unidade
além da sua esfera. Mais consola
levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.
Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.
Agora, se descerem os médios
à rua os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência translação,
a derrubar consumo e cómodo sem afecto
e esta economia ávida que há muito não vê
pessoa que não faça género ou número, então
não seja eu por mim avara na poesia,
e, mais que busque luz, eu desconhecendo, dê.

Margarida Vale de Gato»

Enchentes

Em vários anos que levo de Correntes d’Escritas, acho que nunca vi tanto público como nesta edição. Nas mesas mais concorridas (como a 7) até as escadas do primeiro balcão ficaram completamente ocupadas. Por vezes o Auditório esgotava 20 minutos antes do início do debate e cheguei a ver senhoras septuagenárias sentadas durante duas horas em desconfortáveis degraus de madeira, sem queixumes, dizendo umas para as outras que todos os sacrifícios valem a pena em nome da cultura.

Conversas Polaroid

São «uma espécie de flash-interview sem tema futebolístico», breves entrevistas com gente dos livros. A acompanhar no Cadeirão Voltaire de Sara Figueiredo Costa. Primeiros exemplos: aqui, aqui e aqui.

Jornalistofobia

Toda a gente sabe que Rubem Fonseca não dá entrevistas nem contacta com a imprensa. Não o faz no Brasil, não o fez também na sua curta estadia em Portugal. Só a simples presença de um jornalista é suficiente para lançar o alarme. Sexta de manhã, tomava eu o pequeno-almoço com três camaradas de profissão quando o gigante brasileiro se aproximou da nossa mesa, sorrindo muito. Por trás dele, ouvimos a voz da filha dizendo: «Atenção, papai, são jornalistas!» Rubem pôs-se muito direito, muito hirto, exclamou «Vamos embora, vamos embora» e lá se dirigiu, em passo rápido, para a mesa mais distante que conseguiu encontrar.

Aplausos

Nas Correntes d’Escritas, é habitual ouvirem-se aplausos no final das sessões ou durante, quando uma determinada intervenção galvaniza a plateia. Este ano, na sessão de encerramento, houve um outro tipo de aplauso, intenso apesar de silencioso. Quando uma turma de alunos com deficiência auditiva subiu ao palco para receber um prémio, o público reagiu assim:

Mãos no ar, agitando-se. Foi o aplauso mais ruidoso de 2012.

Uma arte de poucas palavras

Eis um dos textos mais interessantes (e certamente o mais divertido) de entre os que foram lidos até agora nas Correntes d’Escritas. Foi trazido pelo poeta João Luís Barreto Guimarães para a mesa 3, com o tema “A poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras”:

O tema que nos é imposto hoje, confere-me uma certa insegurança ensaística, vamos dizer assim, em primeiro lugar porque entendo muito pouco de economia e ainda menos em tempos de escassez como estes pelos quais passamos; em segundo lugar, e talvez resida aqui uma verdade insofismável, porque tanto quanto me vou conseguindo aperceber pelo que vou ouvindo e lendo, a palavra «perfeita» e a palavra «economia» não se costumam entender a dançar juntas, qual casal de namorados que a cada passo pisa o dedo grande do pé um do outro. Com a diferença de que à «economia» nunca ninguém a ouvirá pedir desculpa.
Há, porém, neste mote provocador, duas palavras que me agradam sobremaneira e que têm o bom hábito de conviver entre si: «poesia» e «palavras». A «poesia», como se sabe, pode ser feita de «palavras», embora num sentido igualmente belo, também o possa ser de acordes musicais, ou de imagens fotográficas ou cinematográficas, por exemplo; e as «palavras», até prova em contrário, também têm a sua «poesia». Até mesmo a palavra «dinheiro», escreveu Pedro Paixão.
A poesia actual é uma arte de poucas palavras. Pode mesmo ser austera. É verdade que ainda existe quem, epicamente, insista em espalhar palavras e mais palavras por longos lençóis de papel, com o fito de fazer «grandes poemas». Mas se me perguntam, – e eu queria agradecer à Manuela Ribeiro e ao Francisco Guedes por uma vez mais se terem lembrado de me perguntar, – a poesia que me parece maior é, de facto, a mais pequena. Em tamanho e em tom. É essa, de facto, que me interessa actualmente.
Uma poesia que não fale muito. Acima de tudo, que não fale de mais. Que diga o que tem a dizer de forma concentrada, alusiva, sintética, compacta, elíptica, e depois se cale. Sobre o assunto que a toma desde o princípio a página, que tenha a amabilidade de o sugerir ao alto da página e depois, chegada esta ao fim, diga mais nada.
Pode até voltar à fala na página seguinte. Mas, também aí, o mais provável é que se alongue pouco, descendo pelo poema abaixo, degrau a degrau, surpreendendo-se ela própria por alguns lanços serem mais curtos, outros um pouco mais longos, mas de uma forma ou de outra sempre com um final à vista. Uma «escultura de som», escreveu António Barahona.
Suspeito que esses poemas extensos a que atrás aludi, se estendem por lençóis e lençóis de palavras por falharem em apreender o essencial, atirando em todas as direcções numa interminável verborreia, esquecendo a lição da Arquitectura mais recente que mostra, à exaustão, que «nunca a quantidade se tornou qualidade» (J.M.F.J.).
Mas desculpem se me antecipo com genuíno entusiasmo e me esqueço de que a maior parte dos presentes não está muito familiarizada com esse termo – como é mesmo que se diz? – «poesia». Senão, vejamos, quantos dos presentes terão no último ano adquirido algum desses objectos a que teimosamente insistimos em chamar, por resistência, «livro de poesia»?
Vou então tentar explicar, muito brevemente, o que é isso de um «livro de poemas» e, já agora, tentar perceber em que medida é que esse exótico objecto pode ser útil, digamos, nestes tempos de austeridade por que agora estamos a passar aqui no rectângulo.
Um livro de poesia é uma coisa, o mais das vezes, fina, em que as páginas vêm meio escritas, meio em branco. É verdade. Não há engano. Não se dá o caso de o autor não ter acabado de escrever a página até ao fim, por esquecimento ou acédia. Não. Um livro de poesia é mesmo assim.
Porque os poemas são feitos de coisas que se dizem e de coisas que não se dizem. Ou seja: uma página de um livro de poesia, habitualmente, é constituída por uma parte falada e uma parte muda. A parte falada tem palavras. A parte muda tem silêncios brancos.
Devo aliás referir que o silêncio que se segue ao final de um poema é parte integrante do poema sendo, aliás, a forma mais económica de fazer poesia. O silêncio encerra em si a mais perfeita forma de economia das palavras.
Alguns editores têm até algum pudor em editar livros de poesia, não porque lhes pareça que os livros de poesia não vendem o suficiente para justificar a edição, não, nada disso, mas porque sentem verdadeiro pudor em propor uma coisa que só está escrita pela metade.
Não se sentem bem a vender o silêncio, parece-me a mim, porque isso seria como, por exemplo, tentar vender o buraco do meio do pão-de-ló. A outra parte do poema, a do miolo gráfico, ainda vá, mas a parte em branco, realmente, custa-lhes. É por isso, e só por isso, que optam por não publicar mais poesia.
Devo confessar que não tenho razão de queixa. Fui recentemente adoptado por uma excelente editora, a Quetzal, que acaba de publicar os meus sete livros de poesia num só volume de 326 páginas. Intitula-se «Poesia Reunida» e está à venda lá fora.
Por uma questão de honestidade intelectual, devo desde já prevenir aqueles se possam sentir tentados a adquirir o referido livro que das 326 páginas que constituem o volume, só 228 contêm, de facto, poesia. O restante são cortinas, fichas técnicas, vinhetas, dedicatórias e epígrafes, – ah, as epigrafes, – essas frases em língua estrangeira que os poetas colocam no início dos livros, ou como incipit a alguns poemas para parecerem mais inteligentes que o leitor.
Alguns de nós chegam mesmo a colocar epigrafes em latim ou em grego, ou pior que isso, em alemão, – embora nunca, nestes tempos conturbados, em grego e em alemão no mesmo poema, – epigrafes essas que, convenhamos, em termos práticos têm um efeito muito semelhante a pedir Carne de Porco à Alentejana e aquilo ser servido com amêijoa vietnamita, a gente vê que a amêijoa está lá, sim senhor, em epigrafe à carne, mas não lhe chega a provar o sabor.
Duzentas e vinte e oito páginas em 326 parecem ser poucas páginas escritas, dirão os leitores de ficção presentes no auditório. Que mau negócio de leitura! Então aguardem pela verdade nua e crua: essas 228 páginas só estão escritas pela metade.
Era para falarmos de economia? Então continuemos: se estivéssemos a falar de prosa, essas 228 páginas corresponderiam somente a 114 páginas de ficção, o que significa que apenas 1/3 da área total disponível em papel no livro é que traz poesia. Os outros 2/3 são vasilhame.
Claro que isso pode revelar-se providencial em tempos de crise. Não é de mais chamar a atenção para o facto de que, por essa mesma razão, pelos espaços em branco que contém, um livro de poesia que fique esquecido lá por casa, pode vir a revelar-se um excelente bloco de notas, exactamente porque cada página tem ainda um pedacito de área em branco onde se pode escrever, digamos, uma lista de compras anotada à pressa, de pé, junto à copa, mesmo ao sair de casa, como aliás terá feito certa pessoa junto à sua escrivaninha favorita.
Reciclar é economizar. Numa página de Camões escolhida à pressa, quiçá mesmo aquela que começa com «Alma minha gentil que te partiste», a Dona Alzira, – que Deus a conserve por muitos e muitos anos, – pode sempre acrescentar, aproveitando aquele espacinho em branco que ainda sobra: «uma dúzia de ovos de galinha pica no chão»; «dois litros de leite magro, marca branca»; «400 gramas de maminha de vaca para grelhar», três singelas linhas que são, já por si, um poema.
E cá está! Aqui temos o argumento que faltava para esbater a barreira que os puristas insistem em traçar entre literatura e gastronomia, que a meus olhos sempre foi tão ténue como aquela linha oscilante que confunde a areia seca da areia molhada numa praia de inverno. Exactamente onde o mar costuma depositar «conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos».
Um soneto de Camões, um rol de séculos depois, a condicionar de forma implícita a ementa do jantar dos senhores doutores de Leça. Maminha de vaca. Quem sabe até, se essa página arrancada ao azar, – sem desprimor por outras do nosso maior poeta, – abandonada depois ao acaso na grade de um carrinho de hipermercado e colhida pelo cliente seguinte, não poderia vir a tornar-se um importante objecto de estudo universitário de literatura comparada, numa tese peregrina que versasse o tema «Camões, precursor do hiper-realismo – o pergaminho perdido».
Mas nestas questões de economia, os mais poupados com as palavras sempre foram os Orientais. São assim na vida e nos negócios, como o são na poesia. Chegaram mesmo a desenvolver um tipo de poesia, digamos, low-cost, denominada «haiku», – na verdade um modelo derivado da poesia japonesa, – constituído apenas por 3 linhas com um número fixo de sílabas: 5 no primeiro verso, 7 no segundo (e, antes que o poeta se entusiasmasse a esbanjar 9 sílabas no terceiro:), outra vez 5 no derradeiro verso.
Esta fórmula tornou-se, aliás, um género literário muito apreciado nestes dias conturbados e há até um Ministro do nosso Governo, de seu nome Vítor Gaspar, que adoptou o «haiku» como forma de comunicação ao país, embora com maior largueza de sílabas como é habitual nas derrapagens à portuguesa.
Senão recordemos dois dos seus mais recentes poemas, tal e qual como apareceram publicados nesse curioso hebdomadário de poesia a que chamam «Diário da República»:

O sol brilha na manhã
de mais um dia feriado:
«Saiam para o trabalho!»

Ou estoutro:

A borboleta tem nome:
«Décimo-terceiro mês».
A borboleta voa.

É realmente verdade que a poesia é pessoa de poucas palavras. A melhor poesia não deve poupar nos leitores, não deve poupar os leitores, mas deve, de facto, poupar nas palavras.
Num bom poema tudo conta, cada palavra conta. Em verdade, um bom poeta não precisa de fazer um grande esforço para economizar nas palavras porque à partida já não está na sua natureza gastar de mais. Para um poeta, cada palavra é valiosa demais na sua denotação e nas suas conotações, para ser gasta ao desbarato.
A poesia, esse grande enigma: «o que se perde na tradução».
Ou, como escreveu Juan José Almagro Iglésias no prefácio a uma tradução castelhana da poesia do norte-americano Billy Collins: «a única história documentada que possuímos do sentimento humano».
Ou ainda, como dizia outro poeta, «as palavras certas na ordem certa».
Texto e contexto. A poesia que mais me interessa atende a ambos. Tomemos como último exemplo a palavra «maçã» em diferentes contextos. Não é a mesma coisa aludir num poema à maçã de Newton, ou à maçã de Adão. Já tive oportunidade de escrever sobre ambas.
No episódio de Newton, quem cai é a maçã. No episódio com Eva, como é sabido, quem caiu foi mesmo Adão.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Olivier Rolin, autor de Baku, Últimos Dias (Sextante), por José Mário Silva
O Murmúrio do Mundo, de Almeida Faria (Tinta da China), por António Guerreiro
Jonas Savimbi – No Lado Errado da História, de Emídio Fernando (Dom Quixote), por Luísa Meireles
Civilização, de Niall Ferguson (Civilização), por Luís M. Faria
Contos Escolhidos, de Isaac Babel (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Shakespeare, de Giuseppe Tomasi de Lampedusa (Teorema), por Pedro Mexia

Outros blogues

Vale a pena espreitar o que vão escrevendo sobre as Correntes outros bloggers presentes, como a Sara Figueiredo Costa e o Luís Ricardo Duarte.

Cesariny dito por Sandro William Junqueira

Ontem à noite, numa das salas do Hotel Vermar, Sandro William Junqueira, que lançará amanhã nas Correntes d’Escritas o seu segundo romance (Um Piano para Cavalos Altos, Caminho), disse um excerto do poema Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, de Mário Cesariny. Belo momento.

Primeiro balanço

Em rascunho, no backoffice do blogue, há posts sobre as três primeiras sessões das Correntes (à quarta, no final da tarde de hoje, não pude assistir). Conto publicá-los amanhã, se tiver tempo para os limar. Mas é já possível fazer um balanço telegráfico dos debates iniciais. Sem grande surpresa, a primeira mesa foi a melhor, com boas intervenções de Eduardo Lourenço, Almeida Faria, Hélia Correia e Ana Paula Tavares, seguidas de um autêntico show de Rubem Fonseca, que andou pelo palco, interpelou a plateia e a «torrinha» (o primeiro balcão), bem como os seus companheiros de mesa. Inteligente, erudita, provocatória, a intervenção de Rubem foi um exemplo do melhor que as Correntes podem oferecer, quando os seus convidados revelam extraordinárias capacidades de comunicação.
Esta amanhã, pelo contrário, vimos na mesa 2 um exemplo do pior que as Correntes também podem oferecer. O ensaísmo pessoano bacoco, pretensioso e excessivamente demorado de Alberto S. Santos, as historietas sem pés nem cabeça de Sofia Marrecas Ferreira e a girândola de lugares comuns de José Jorge Letria lançaram ondas de tédio no auditório. Salvaram-se da sessão, ingrata até no tema («O fim da arte superior é libertar»), as intervenções de Care Santos, Fernando Pinto do Amaral e Luís Quintais, que cumpriram os mínimos mas estiveram longe de brilhar.
Com a mesa 3, em que participaram Jaime Rocha, João Luís Barreto Guimarães, Margarida Vale de Gato, Manuel Rui e Manuel António Pina, os níveis de qualidade voltaram a subir. Destaco o brilhante texto de Barreto Guimarães, o manifesto poético de Margarida Vale de Gato e a intervenção improvisada, mas densa, lúcida, irónica e divertida, de Manuel António Pina.

Dois momentos de Rubem Fonseca nas Correntes d’Escritas

Agradecendo a medalha de mérito cultural que lhe foi entregue pelo Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

Final da intervenção «peripatética» (sempre a andar e falando directamente para a plateia) na primeira mesa das Correntes d’Escritas, sobre as coisas de que um escritor necessita para ser mesmo escritor.

Singrando, entre auroras e sofias

O discurso de abertura das Correntes d’Escritas, proferido por D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, pode ser lido na íntegra aqui. Eis um excerto:

«Recortado pela espada dum rei meio-borgonhês, expandido pela visão dum príncipe meio-inglês, regenerado de oitocentos para novecentos por vagas meio-francesas, quando não francesas de todo, das militares e políticas às literárias e ideológicas, Portugal foi e é ainda uma importação inculturada, nunca tendo terra nem recursos para ser doutro modo.
Isto mesmo poderíamos dizer também de outros e até generalizar. Mas a nossa geografia terminal ou o grande cais em que nos (re)tornámos, trouxeram-nos tanta terra e tanto mar que ganhámos esta atual condição de pátria de todos e ninguém – ou de ninguém para renascer de todos. Creio que Vieira e Pessoa aceitariam a caracterização. Sendo aqui profético o Romeiro de Garrett (Frei Luís de Sousa), como Portugal perdido e no entanto ali, quase pedindo um reconhecimento que o salvasse, passando do “ninguém” que se chamava ao merecido “alguém” que o despertasse, muito merecidamente despertasse. Estamos nisto tão perto dos últimos versos da Mensagem pessoana: “ … (que ânsia distante perto chora? / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro… / É a Hora!”.
Sim, saberiam trovar os poetas provençais, mas aqui trovava-se sempre; poderiam outros fazer algo em suas terras, mas daqui só se podia adivinhar tudo; poderiam outros manter grandes impérios, mas aqui só do nada se renasceria enfim.
Portugal culturalmente é uma teima, como geograficamente é uma praia, feita cais de partir e chegar, chegar e partir.»

Rubem Fonseca lê um soneto de Camões

O soneto Busque Amor novas artes, novo engenho, de Luís Vaz de Camões, lido por Rubem Fonseca nas Correntes d’Escritas.

[Um vídeo postado por Sara Figueiredo Costa no Cadeirão Voltaire]

Uma entrevista com E. L.

Foi em Março de 1998, poucas semanas antes da abertura da Expo’98. Num domingo à tarde, sentei-me à conversa com Eduardo Lourenço, então prestes a fazer 75 anos. Pretexto: uma entrevista de fundo para o suplemento DNA, do Diário de Notícias. Lembro-me perfeitamente do átrio do hotel lisboeta, com cadeirões confortáveis, à média luz. Em surdina, chegava da recepção um relato de futebol. O professor recebeu-me com um aperto de mão firme, rosto ameno, gestos cordiais. Vestia casaco castanho, calças cinzentas, gravata malva. Antes de nos sentarmos a uma mesa do canto, enquanto eu testava o gravador e a microcassete de fita castanha, apoquentou-se. Apalpando os bolsos, admitiu não saber dos óculos: «Acho que os deixei no Vá-Vá» (o café da Avenida de Roma onde passara parte da manhã). Ao aperceber-se da agitação, um empregado aproximou-se, lembrando que vira «o senhor professor» a subir para o quarto com os óculos postos. Eduardo Lourenço pediu desculpa, dirigiu-se rapidamente para o elevador e demorou um quarto de hora a voltar ao átrio. Já a luz vermelha do gravador se acendera, quando rematou: «Uma parvoíce, isto dos óculos, na verdade não precisava deles para falar, pois não?»
A bonomia do primeiro contacto prolongou-se pelas quatro horas seguintes. Quatro horas de discurso contínuo, de elocubrações e memórias, de inteligência e lucidez. O mais espantoso de tudo foi ver como Eduardo Lourenço, nunca se assumindo como filósofo (apenas como «pensador»), exercia à minha frente a arte de reflectir. As suas frases tinham uma frescura inesperada, como se estivessem a ser ditas pela primeira vez (e algumas estariam mesmo). Entre ideias mais fortes, havia por vezes longas pausas, como se os nexos entre elas requeressem o tempo de serem devidamente ponderados. Coisa extraordinária, esta: ouvir um pensador no acto de pensar. Aqui e ali, um sorriso sublinhava as palavras que se arredondavam em soundbytes. Por exemplo: «Portugal não sairá nunca de si.» Ou: «Este é um país pequeno mas que tem um imaginário hiperbólico.» Ou ainda: «A Arte, se virmos bem, acaba sendo a verdadeira Internet de Deus. É o lugar onde ao mesmo tempo navegamos e somos navegados.»
Lourenço falou de Camões e Pessoa, de Husserl e Kierkegaard, as suas grandes referências literárias e filosóficas. Lamentou não ter sido médico ou historiador, em vez de transportar em si a consciência de um trabalho interminável: «A minha vida é não produzir sentido. É uma vontade de dar essa ideia de sentido, algo de que me aproximo como de um objecto quase idolátrico. Era Hegel que dizia ter sido condenado por Deus a ser filósofo. Condenado porquê? Porque é uma tarefa infinita.» E lembrou a infância, «esse espaço dentro do qual se coloca algo de parecido com a felicidade», os primeiros anos na aldeia beirã onde nasceu, S. Pedro de Rio Seco, e que hoje em nada se assemelha ao que era na década de 20. «Entre as diversas temporalidades, a mais difícil de pensar é a do nosso próprio tempo, porque de algum modo é ele que nos pensa a nós», resumiu, vagamente comovido.
Houve também espaço para pequenas surpresas. A confessada admiração por Corto Maltese, «que andou pelo mundo fora em viagem»; admiração com um toque de inveja («infelizmente sou pouco aventureiro»). Ou o entusiasmo ao evocar o «erotismo platonizante» de Ingrid Bergman: «Além da beleza inacreditável, há nela uma espécie de inocência, uma espécie de aura, qualquer coisa que se assemelha a uma aparição.» O cinema, de resto, tem uma carga simbólica tão poderosa que Lourenço lhe atribui a origem do domínio cultural americano: «Foi no grande ecrã que os americanos criaram a América. Atribuíram-se um imaginário e um passado que não tinham.»
No fim das quatro horas de conversa, enquanto agradecia a generosidade do tempo dispensado, perguntei-me: «Caramba, como é que um homem de quase 75 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» Catorze anos depois, a pergunta mantém-se: «Caramba, como é que um homem de quase 89 anos continua tão vivo, tão lúcido, tão capaz de pensar o mundo à sua volta?» A resposta também se mantém: não sei. Não sei mesmo. Mas assistir à persistência de tamanho brilho intelectual é um consolo para quem vê diariamente a estupidez a ganhar terreno em todo o lado.

[Texto publicado no número de 2012 da revista Correntes d’Escritas]

Aproximações a Eduardo Lourenço

O número deste ano da revista das Correntes d’Escritas foi apresentado durante a sessão de abertura do maior encontro literário português. Integralmente dedicada a Eduardo Lourenço, a revista inclui textos de Almeida Faria, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Almeida, Emílio Rui Vilar, Francisco José Viegas, Gonçalo M. Tavares, Guilherme d’Oliveira Martins, Hélia Correia, Inês Pedrosa, Jaime Rocha, João de Melo, João Morales, José Carlos de Vasconcelos, José Jorge Letria, José Mário SIlva, Lídia Jorge, Miguel Real, Onésimo Teotónio de Almeida, Patrícia Reis, Pedro Vieira, Rui Zink, Sara Figueiredo Costa e Virgílio Bento.

Prémio Casino da Póvoa para Rubem Fonseca

O romance Bufo & Spallanzani (Sextante), de Rubem Fonseca, acaba de ser anunciado como o vencedor da edição deste ano do Prémio Casino da Póvoa. O escritor brasileiro encontra-se na Póvoa de Varzim para participar na edição deste ano das Correntes d’Escritas, que começa hoje. Logo à tarde, a partir das 17h00, Fonseca estará na primeira mesa redonda, com a frase “A Escrita é um risco total” como mote. Neste debate participam ainda Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Eduardo Lourenço e Hélia Correia, com moderação de José Carlos de Vasconcelos.

A caminho das Correntes d’Escritas

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Os dias balcânicos

3 de Abril de 2002
Entre Lisboa e Zagreb, o aeroporto de Frankfurt. Passadeiras rolantes intermináveis, multidões que arrastam malas com rodinhas. Em muitos rostos, o pânico apressado de quem teme perder uma ligação. Sigo as setas, entro em elevadores, saio de elevadores, viro aqui, contorno ali, não me perco uma única vez. Ainda assim, chego ao gate B31 mesmo em cima da hora. Já chamam os retardatários do voo para a capital croata. E se tivesse errado uma curva do percurso? Onde estaria agora?
Ao meu lado, junto à janela, um eslavo: olhos claros, bigode, inglês rudimentar, anel com pedra vermelha, relógio dourado. Observa-me. Eu também o observo. Igual desprendimento. É um olhar de soslaio, sem curiosidade suficiente para tentar imaginar de onde vem e o que vai fazer o outro. No meu caso, não quero verdadeiramente saber se ele pertence a uma organização criminosa responsável por tráfico humano ou a um departamento do Ministério do Turismo. Assim que o avião descola, ele adormece e ressona baixinho, enquanto eu leio uma reportagem sobre um violador vampiro, no USA Today que oferecem a bordo.
À minha espera, o José Luís Peixoto. Depois de trocar euros por kunas (a kuna é uma marta, animal cuja pele servia de moeda para pagar impostos na Idade Média), dirigimo-nos para a casa de Vanja, a namorada croata do JLP, amiga comum. Deixo as malas no apartamento pequeno da rua Bleiweisova e saímos para um primeiro passeio. O eléctrico azul deixa-nos no centro. Andamos a pé, sem rumo, durante meia hora. Depois, esperamos a Vanja numa esplanada da Trg Marsala Tita (Praça Marechal Tito). Ela chega sorridente, senta-se, bebe connosco. Como sempre, falamos em inglês. Explica que Zagreb quer dizer «behind the hill», atrás da colina. Assim que pomos a conversa em dia, leva-me à Algoritam, uma das melhores livrarias da cidade. Os meses que passou em Portugal foram suficientes para saber quais são as minhas prioridades.

4 de Abril de 2002
Céu cinzento. Visita à Catedral. Sandes de panado com molho tártaro. Consulta dos e-mails no cibercafé Sublink. Mercado de flores em Splavnica. Na praça principal, debaixo do relógio, um grupo de peruanos tocava a música do filme Titanic em flautas de pã.

5 de Abril de 2002
Sexta-feira. Num rent-a-car, alugamos um Opel Astra verde até segunda, ao meio-dia. Pela auto-estrada são 120 quilómetros até Karlovac, a cidade dos quatro rios, onde a Vanja nasceu. Durante a viagem comemos chocolates e ouvimos, no rádio mal sintonizado, um equivalente croata da música pimba. Na paisagem, marcas da guerra: casas em ruínas, arrasadas por obuses; muros cravados de balas. Ninguém esqueceu a operação Tempestade de 1995, durante a qual o exército croata expulsou a minoria sérvia da Krajina.
Em Karlovac, tomamos a estrada para o parque natural de Plitvice. É ali, perto do maravilhoso emaranhado de lagos e cascatas, que fica a casa da mãe da Vanja. Boa anfitriã, oferece-nos o jantar e, antes disso, aguardente de ameixa. Com típico humor eslavo, deixa a garrafa aberta em cima da mesa da cozinha: «Se ficarem já bêbedos, não tenho de os aturar.» À refeição, comemos cevapi (uma espécie de kebab) e folhados de cogumelos. Sobremesa: um delicioso bolo de creme e chocolate. Ao serão, TV polaca e o filme Carrie, dobrado em croata.

6 de Abril de 2002
Destino: Bósnia. Saímos em direcção à fronteira, com Bihac no horizonte. Na janela do carro, cerejeiras em flor. A seguir à montanha, planície. Para lá da fronteira, começamos a ver os minaretes das mesquitas. Almoço na margem do rio Una. Uma varanda sobre as águas, borrego assado com batatas e vinho esloveno (Quercus). Dragana, a irmã de Vanja, acompanha-nos no passeio e conta a história de como os sérvios de Banja Luka alteraram a composição química do rio, de forma a que este ficasse azul e não verde (a cor dos muçulmanos). Já na estrada, cruzamo-nos com um casamento: 20 carros em fila, os capots cobertos de flores, todos a apitar freneticamente. Na Croácia, onde estão flores estariam bandeiras nacionais.
Em Bihac, há papéis necrológicos pendurados nas árvores: verdes para os muçulmanos; pretos para os católicos. No supermercado, recebemos o troco em convertible marks. Muitos buracos de balas nas paredes, entre placas que lembram os partizans caídos em combate na II Guerra Mundial. Numa rua do centro, duas meninas de dez anos, ou talvez menos, passam de mão dada, a cantar. É uma melodia alegre, saltitante, infantil. Peço à Vanja que me traduza a cantilena. Quando ela traduz, estremeço. O refrão só diz isto: «Viola-me / Mata-me / É tudo a mesma coisa.»

8 de Abril de 2002
Regressámos a Zagreb ontem à noite. Hoje de manhã, antes de entregar o carro, ainda fomos dar umas voltas pela cidade. No cemitério onde fica a campa do muito amado e muito odiado presidente Tudjman, Vanja fala-me da situação política e do peso sufocante do nacionalismo doentio.
Às 19h30, uma experiência daquelas que nunca mais se esquecem. Numa sala apinhada com perto de 2000 pessoas, Cesária Évora dá um concerto. Ritmo creoulo, melancolia na voz rouca da diva descalça (como será que se diz «diva descalça» em croata?). Por um acaso da sorte, oferecem-nos algumas das poucas cadeiras instaladas no palco, sob uma luz violeta. De onde estamos, vemos os músicos de costas, a enorme Cesária abanando as ancas de cá para lá, o maravilhamento de um público que se rendeu e no fim, em apoteose, aplaudiu durante mais de 15 minutos.

9 de Abril de 2002
Dia feio, sombrio. Pombos a planar sobre a praça. Chapéus-de-chuva. Na livraria Algoritam, descubro um poema de Bukowski no livro The Last Night of the Earth. Começa assim: «it / takes / a lot of // desperation // dissatisfaction // and / disillusion // to / write // a / few / good / poems.» Não me sinto desesperado, nem insatisfeito, nem desiludido. Mas também não escrevo poemas. Olho pela janela ampla do Kavana Dubrovnik. O empregado, um careca rezingão, traz-me um café duplo quando lhe pedi apenas um trivial kava espresso, uma bica normal. Quando desfaço o equívoco, fica furioso e murmura palavras cheias de sílabas que parecem arestas (também devem ferir pelo seu significado, suspeito).

10 de Abril de 2002
Continua a chuva. Vou aos museus. Deambulo pela cidade. Nos bairros do centro, paira ainda a atmosfera do império austro-húngaro. Estou sempre à espera de me cruzar com senhores de jaqueta e bigode torcido, acompanhados por senhoras de sombrinha com o cãozinho pela trela, casais de braço dado, caminhando airosos ao som de valsas de Strauss. As praças são largas; os jardins, geométricos (cercados de plátanos). É uma espécie de Viena com pátina, decadente mas sedutora. Aqui não se detectam sinais da guerra, mas há fachadas enegrecidas, paredes periclitantes. A pobreza existe, só que discreta. Ontem apercebi-me de que ainda não vi um único arrumador de automóveis.

11 de Abril de 2002
Viagem de um só dia à Eslovénia. Algumas horas de comboio até Ljubljana, uma capital-miniatura, belíssima. Faço a ronda das livrarias. Numa delas, com os tectos muito altos, compro uma edição eslovena de Alice no País das Maravilhas, a pensar na colecção lewiscarrolliana de uma amiga. No cimo de um monte, o castelo é omnipresente e tem qualquer coisa que me faz pensar em Kafka. Bebo um chá quente no Café Nostalgia (cheio de ícones da antiga Jugoslávia). Compro seis CDs de música clássica a baixo preço e fico meia hora a comer amêndoas junto à ponte tripla. Regressamos de noite. No comboio escrevo um poema para a Vanja. Começa assim: «Dentro da escuridão / há uma paisagem / submersa: árvores, / ossos, rios, pedras, / a memória dos mortos, / o fogo gasto de uma estrela».

12 de Abril de 2002
Volto à Algoritam, descubro a Mladost. É estranho percorrer as bancadas cheias de livros escritos numa língua que desconheço. Volto ao Sublink e passo por outros cibercafés: o Charlie’s, o @vip. Volto ao Kavana Dubrovnik, ao Mala Kavana. Ainda não passaram dez dias sobre a minha chegada a Zagreb e já tenho hábitos, rotinas, lugares a que me sabe bem regressar. Num dos cafés, desafio outra vez Bukowski: «Eu sei que o poema / se faz de ar e fumo, / arquitectura abstracta, / gestos cegos de tão lúcidos.» É um esboço que continua por mais uma dezena de versos. Hesito: amarroto o papel ou guardo-o? [Quase uma década mais tarde, a hesitação mantém-se.]

13 de Abril de 2002
Amanhã, voo para Lisboa. A viagem está a chegar ao fim. «Não te podes ir embora sem subir ao Sljeme», diz-me a Vanja. O Sljeme é a montanha que fica junto a Zagreb, a tal «colina» atrás da qual a cidade se esconde. O bilhete do teleférico custa 15 kunas. Subimos devagar, suspensos, encosta acima. Lá no topo, fotografias que provarão, um dia, que estivemos aqui. Aqui em Zagreb. Aqui em 2002. Supostamente, a vista da cidade é ampla, bela, de tirar a respiração. Mas hoje há nevoeiro. Um nevoeiro denso, placa branca a meia altura da montanha. Zagreb está lá em baixo, escondida, invisível, como se já tivesse dito adeus muito baixinho, como quem se esconde no último minuto porque não gosta de despedidas.

[Diário de viagem publicado na última página da edição de hoje do Jornal de Letras]

‘Avenida de Poemas’ de Fevereiro (o vídeo)

Faltam só os primeiros minutos, em que foi lido o poema De Tarde, de Cesário Verde.

O que aí vem (Esfera do Caos)

Podemos Matar um Sinal de Trânsito? – um divertimento político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano, de Porfírio Silva; A Oriente do Silêncio, de Rui Rocha; Maçã de Zinco, de Alice Caetano; Razão e Liberdade – O Pensamento Político de James Madison, de José Gomes André; Verdes Anos – História do ecologismo em Portugal (1947-2011), de Luís Humberto Teixeira.

Desafiar a morte junto ao Mar Cáspio

Baku, Últimos Dias
Autor: Olivier Rolin
Título original: Bakou, Derniers Jours
Tradução: Manuela Torres
Editora: Sextante
N.º de páginas: 169
ISBN: 978-972-0-07156-9
Ano de publicação: 2012

Numa das histórias reunidas em Suite no Hotel Crystal, de 2004 (editado pela ASA em 2006), Olivier Rolin imaginou o suicídio de uma personagem com o seu nome, no quarto 1123 do Hotel Apcheron, em Baku. O disparo da pistola Makarov de 9mm só existia na ficção, mas a nota biográfica na badana do livro criava uma certa ambiguidade, ao assimilar como verdadeira essa morte imaginária e futura: «Boulogne-Billancourt, 1947 – Baku, 2009». Estávamos, evidentemente, no campo do mais puro jogo literário. Ainda assim, os amigos de Rolin, ao verem aproximar-se a fatídica data, pediram-lhe que se mantivesse longe, muito longe, da capital do Azerbaijão. Sem surpresa, esses avisos só o acicataram: os «alertas amistosos fizeram nascer em mim a ideia de que eu devia forçosamente ir a Baku em 2009, e permanecer lá o tempo suficiente para dar à ficção sobre a minha morte nas margens do mar Cáspio (…) uma hipótese razoável de se realizar».
Durante a viagem de avião, começou a ler um ensaio de Pierre Bayard que defende ser a escrita «o lugar de uma obscura presciência daquilo que ainda não sucedeu», dando exemplos de escritores (Émile Verhaeren, Virginia Woolf) que anteciparam nos livros o seu fim. Se desafiar a morte através da literatura pode revelar-se um exercício fatal, Rolin aterrou em Baku decidido a correr esse risco. Logo à chegada, porém, informaram-no de que o Hotel Apcheron fora demolido dois meses antes. Desaparecia o cenário, o ponto de encontro, mas permanecia a cidade. Solução: prolongar o desafio, a ver se ele se cumpriria de outra maneira qualquer.
Baku, Últimos Dias é o relato dessa espera. Sem nada de concreto para fazer, o escritor assume o papel do observador nato, do flâneur que se deixa ir pelas ruas, do estrangeiro obrigado a criar rotinas, mesmo sabendo que não ficará mais de um mês: «O viajante longe de casa é como um dado lançado, rola por momentos, hesita, vacila e depois encontra o equilíbrio e não se mexe mais.» Rolin passeia pela Cidade Velha com uma previsibilidade kantiana, sob um céu de malva onde rodopiam andorinhas, rente às paredes com tapetes coloridos e «ritmos de vitral». Lembra o passado da capital azeri (as mudanças onomásticas que acompanharam as mudanças de regime político) e a inevitável sobreposição de vários tempos, cada qual deixando a sua marca num palimpsesto urbano em que «a cidade moderna traduz e trai as cidades antigas». Sob as belas varandas de madeira, respira-se o presente pós-soviético em que o dinheiro do petróleo se materializa em automóveis «monumentais de um negro lustroso», comparados a irónicos «carros funerários com turbocompressor, pilotados por cangalheiros de grande bigodaça e óculos Ray Ban».
Depois, a viagem amplia-se. Rolin atravessa a bacia do Cáspio (até ao Turquemenistão), visita complexos petrolíferos «paleo-industriais», deambula por cemitérios, vai à ópera, descreve encontros com habitantes e membros da comunidade francesa (por vezes em tom sarcástico), e evoca figuras que passaram pela região, como o poeta-camponês Essenine, «anjo loiro» que se suicidou, ele sim, num quarto de hotel em São Petersburgo; ou Ronald Teague-Jones, o espião inglês que viveu rocambolescas aventuras durante a guerra civil russa. À falta da verdadeira morte, imagina as que poderia ter em Baku, quase todas violentas. Aqui e ali, ilustra a sua deriva com más fotografias (à maneira de W. G. Sebald). Mas o filtro do olhar é sempre a literatura. A dos outros e a própria. Rolin regressa aos seus livros anteriores como quem arruma os papéis. Esconderá este magnífico diário de viagem um testamento? Não, deixemos a grandiloquência de lado. «É um passeio no arame. Um monólogo em voz baixa, para ouvidos pacientes e atentos.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

World Book Night

Numa noite, um milhão de livros oferecidos. É a 23 de Abril.

Maria Filomena Mónica no ‘Avenida de Poemas’

A partir das 21h30, Maria Filomena Mónica estará no palco do Teatro Tivoli, em Lisboa, à conversa com a jornalista Raquel Marinho e comigo sobre os poemas essenciais da sua vida (disclaimer: haverá um predomínio notório de Cesário Verde). Apareçam.

Por amor aos livros

«During the Bosnian war, a group of men and women risked their lives to rescue thousands of irreplaceable Islamic manuscripts – and preserve a nation’s history. Amid bullets and bombs, this handful of passionate book-lovers safeguarded more than 10,000 unique, hand-written antique books and documents – the most important texts held by Sarajevo’s Gazi Husrav Beg Library, founded in 1537.»

Um sedativo moral

Canções Mexicanas
Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-641-262-3
Ano de publicação: 2011

No ano passado, Alexandra Lucas Coelho publicou um livro de viagens (Viva México, Tinta da China) que captava, com nitidez, a escala imensa e a pulsação da Cidade do México, antes de viajar para outras regiões do país. Em Canções Mexicanas, Gonçalo M. Tavares assinala alguns dos espaços por onde andou a jornalista – lugares obrigatórios como a praça do Zócalo, a casa de Frida Kahlo e os murais de Rivera – mas sublimados (ou, melhor dizendo, distorcidos) pelo trabalho da ficção. Onde Lucas Coelho era objectiva como uma repórter deve ser (mesmo quando foge, com brilho, aos espartilhos jornalísticos), Tavares deixa-se tomar pelos delírios do mezcal, que provoca redemoinhos «em cima da cabeça» de quem o bebe e entorna a realidade para o lado da alucinação, ao mesmo tempo que funciona como «sedativo moral» para o excesso de violência.
A Cidade do México tem, sobre o narrador destas histórias curtas e oníricas, um efeito semelhante ao da tarantela, esse ritual das pessoas que foram picadas por uma aranha venenosa e têm de dançar para não morrer. É isso que a prosa de Tavares faz: dança para não morrer, cura-se pelo movimento, segue o fluxo das multidões («não há rua, não se vê o chão, se olhas para baixo és empurrado, se olhas para cima és empurrado»), os textos correm, saltam, tropeçam, tentam escapar para longe dos bairros tenebrosos onde o fio de uma navalha espera o turista incauto, o estrangeiro vulnerável. Enquanto isso, na praça central, muito lentamente, ano após ano, milímetro a milímetro, a catedral vai sendo engolida pelo solo, «enterrada como um vivo que enquanto caminha se afunda». Algo que também acontece a todos nós – e só «não o notamos porque é no tempo, não no espaço».
Aqui tudo é estranho, tudo é excessivo. Numa ponta da cidade, esconde-se o homem mais feliz do mundo, «um passo antes de começar o inferno». Há ameaças brutais («se gritas, cortam-te a cabeça»), uma Maldade que é nome próprio (da dona de um tugúrio onde se organizam combates de galos), há crianças que se alimentam de ódio, há marginais, anões, pedintes, hordas de loucos, metafísicos cavalos de Quixote (sem Quixote), matilhas de cães esfomeados, há uma prostituta que pergunta pelo «plano de viagem» do cliente e lhe pede que beije os pés de um crucifixo, há pedradas que rasgam um ecrã de cinema, suicidas que não conseguem morrer e reincidem.
Ao captar o avesso do México exótico, Gonçalo M. Tavares experimenta novos caminhos para a sua escrita, descentrando-a da matriz original (mais controlada e europeia), mas nunca perdendo a identidade.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]

Maravilhas da paternidade

Pedro: «E quando cai um dente à Fada dos Dentes, o que é que ela faz?»

O terrível hábito de comprar demasiados livros

Ou os dilemas de um bibliófilo (daqueles com que eu me identifico, e muito).

Lançamento de ‘Onde Moram as Casas’

É amanhã (sábado) ao início da tarde, no Espaço Sou, com inauguração simultânea de uma exposição de ilustrações do Alexandre Esgaio. Podem folhear virtualmente algumas das páginas do livro, aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Baku – Últimos Dias, de Olivier Rolin (Sextante), por José Mário Silva
Por um Fio, de Thomas McGuanne (Quetzal), por Luís M. Faria
A Caixa Negra, de Amos Oz (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
Vita – La Vie Légère, de Leonor Baldaque (Gallimard), por Pedro Mexia
Isso Passa, de João Miguel Henriques (Artefacto), por António Guerreiro

PS – Por lapso, a ilustrar o texto de Pedro Mexia sobre o livro de Leonor Baldaque aparece uma fotografia de Leonor Silveira (ambas se chamam Leonor e ambas foram actrizes em filmes de Manoel de Oliveira, mas as semelhanças terminam aí). Às duas, e aos leitores, antecipo um pedido de desculpas.

Fundação Saramago já funciona na Casa dos Bicos

Desde ontem.

Prémio Vergílio Ferreira para José Gil

O filósofo José Gil vai receber no próximo dia 1 de Março, na Sala dos Actos da Universidade de Évora, o prémio Vergílio Ferreira em reconhecimento pelo seu «contributo singular para uma reflexão profunda sobre a identidade do Portugal contemporâneo». Do júri fizeram parte José Alberto Machado (presidente), Fernando Gomes, José Augusto Bernardes, Mário Avelar e Antonio Saéz Delgado.

Leanne Shapton: “Todos nós temos coisas que demarcam a nossa memória; criamos verdadeiros relicários com elas”

Em 2006, a canadiana Leanne Shapton, então com 33 anos, cumpria o sonho de viver em Nova Iorque. Além de trabalhos como ilustradora freelancer, assinava uma coluna sobre viagens na revista Elle e estava prestes a publicar o primeiro livro de ficção: Was She Pretty, uma exploração irónica – com desenhos a preto-e-branco e textos minimalistas – das inseguranças que as ex-namoradas dos namorados provocam em muitas mulheres. Foi por essa altura que assistiu a um leilão de objectos pessoais de Truman Capote: «Era tudo muito banal, sem grande valor: roupas, cartões de crédito, livros, pequenos papéis, cobertores. O que me intrigou e atraiu, tendo em conta o que conhecia do escritor, foi o facto de serem coisas tão aborrecidas.» Coisas aborrecidas, sim, mas que contavam pequenas histórias e mostravam os tristes contornos dos últimos anos de vida do escritor.
Pouco depois, uma outra exposição, sobre a correspondência entre os poetas Sylvia Plath e Ted Hughes (revelando os altos e baixos do seu relacionamento), provocou o clique final. «Apercebi-me de que a história de um casal pode ser contada por aquilo que um dia possuíram, pelos vestígios materiais da sua vida.» A esta ideia sobrepôs a imagem do leilão de Capote e assim começou a ganhar forma o romance conceptual de título quilométrico que viria a tornar-se uma das maiores sensações literárias de 2009: Artefactos Importantes e Objetos Pessoais da Coleção de Lenore Doolan e Harold Morris, incluindo Livros, Roupa e Acessórios. Narrativa em forma de catálogo, composta pelas fotografias de centenas de lotes e respectivas fichas, das quais vai emergindo, nas entrelinhas da linguagem seca das descrições, o retrato de uma história de amor que acaba mal.
Enquanto bebe uma água sem gás no café do Centro Cultural de Cascais, a poucos metros da sala onde está exposta (até 4 de Março) uma parte dos protagonistas inanimados do seu livro, Shapton não esconde o fascínio pela materialidade dos objectos e a forma como eles reflectem as experiências de quem um dia os utilizou quotidianamente. «Pensemos em Pompeia. Nós sempre adorámos esta ideia de reconstituir a vida das pessoas a partir do que deixam para trás. Há sempre tantas histórias associadas aos objectos. Todos nós temos coisas que demarcam a nossa memória, coisas carregadas de significado. Criamos verdadeiros relicários com elas.»
Desde cedo, Shapton, que entretanto começou a desenhar regularmente as páginas de opinião do New York Times, pensou em centrar a sua narrativa «no arco que muitas histórias de amor seguem, do processo de enamoramento até ao instante em que a relação deixa de funcionar». Enquanto preparava o livro, um amigo próximo estava a morrer com cancro e por isso «o livro é muito marcado por uma ideia de fim». Mas sem forçar demasiado a nota: «Não quis que a separação da Lenore e do Harold fosse provocada por uma tragédia ou por uma traição. É só a vida que os separa, como tantas vezes acontece.» Ela é mais proactiva, mais decidida, gosta de fazer listas, analisa os prós e contras da relação. Quando o amor acaba, segue em frente. Ele é mais hesitante e incapaz de tomar decisões. Na dúvida, busca em letras de músicas pop a chave para o que está a sentir. Quando o amor acaba, não consegue libertar-se totalmente. «Eu acho que no fundo tenho muito dos dois, mas para ser honesta estou mais próxima do Harold do que da Lenore.»

Antes de chegar à forma definitiva, Shapton experimentou muito. «Avancei por tentativa e erro. Via o que funcionava, o que não funcionava, emendava, riscava, voltava a fazer. Mudei muita coisa ao longo do processo.» E quantas versões teve o livro? «Não faço ideia. Teria de analisar o disco rígido do meu computador.» A primeira fase consistiu na criação da história: «Escrevi-a de uma ponta à outra, por tópicos, em parágrafos curtos. Quis estabelecer a topografia da relação. Quando é que as coisas assentam, quando é que entra o ciúme, etc. Só depois é que procurei os objectos que lhe deram corpo.» Objectos que vieram quase todos dos seus armários, aproveitando a circunstância de ser coleccionadora por natureza («acumulo muita coisa»). Enquanto folheia o livro, aponta: «Este Scrabble, por exemplo, é o nosso. E este pijama é o do meu então namorado e agora marido. Ainda ontem o usou.»
Um dos aspectos interessantes do livro é a quase absoluta ausência de elementos tecnológicos no dia-a-dia do casal. «Foi por isso que coloquei a história a decorrer entre 2002 e 2006. Se fosse hoje, teria de ser muito diferente, com smartphones, o Facebook, etc. Fiz com que fosse normal para eles escreverem cartas um ao outro. Já não é. Só escrevemos cartas aos nossos avós. Estamos a assistir ao fim de uma era.» E como será no futuro? «Não sei. Mas o essencial da comunicação entre os amantes manter-se-á, creio, só que com menos objectos físicos, menos tralha. Vai estar tudo na cloud. Embora eu ainda não confie totalmente nessa tal nuvem informática. Será que os meus netos ainda conseguirão ler as minhas mensagens SMS? Tenho dúvidas.»
Hoje, Shapton já não trabalha no New York Times. «Agora só pinto, escrevo e enterro dinheiro com gosto numa pequena editora sem fins lucrativos, a J&L Books.» Em Junho, será publicado Swimming Studies – um volume fragmentado de memórias pessoais, escritas e ilustradas, sobre a sua experiência de nadadora (chegou a ser atleta de competição). E já está avançada no livro seguinte: «É uma coisa nova para mim, uma história de fantasmas.» Como se Artefactos Importantes… não fosse já isso mesmo: uma história de fantasmas. Os fantasmas do amor projectados nos objectos que o testemunharam.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges