Boletim clínico

Não há maior inimigo da escrita do que a gripe.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Obituário de Antonio Tabucchi por António Guerreiro
O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro (LeYa), por José Mário Silva
O Doutor Glas, de Hjalmar Söderberg (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Mães e Filhos, de Colm Tóibín (Bertrand), por Carlos Bessa
Nos Sonhos Começam as Responsabilidades, de Delmore Schwartz (Guerra & Paz), por Pedro Mexia
– Escolhas de Fernando Pinto do Amaral

Quatro poemas de Paulo Tavares

Em berlim, o inverno dura sete
ou oito meses, e dizes que a cidade,
ainda um pouco provinciana nos
seus tiques bipolares, vive e brilha
para os meses de verão. no centro,
os corvos propagam-se em redor
da catedral – e por esta altura,
na cidade materna, são os pombos
e alguns melros que se aglomeram
nas praças e nos jardins quase desertos,
como uma praga de pássaros um pouco
mais silenciosos. dizes que é impossível
um bater de asas no exílio, ou tirar
uma fotografia sorridente junto ao muro
de berlim. e no entanto, vendo-as
mais de perto, com a democrática
garantia de que nenhum monumento
se abate duas vezes sobre um corpo,
todas as caras sorriem para a objectiva.

***

Não é, na verdade, azul
este lamacento danúbio,
mas olhando-o da ponte,
depois do mercado central,
é possível ver afundada
a narrativa que nos precede:
os tanques capotados ao longo
de estradas sem rumo, a ascensão
dos movimentos estéticos,
os campos silvestres e os campos
de morte. e empilhada sobre
tantas outras, uma porta ao canto:
símbolo sem transposição.

***

No tuschinski, a árvore
da vida e o riso adolescente
de duas recém-ganzadas.
é inevitavelmente dupla
a perspectiva que encontra,
com subtis forças de atrito,
a origem da matéria finita:
alguém que se perde, um olhar
que arrefece, e a densidade
do real como uma dor crónica
no momento exacto da revelação.

***

No restaurante italiano
da greek street, soho londrino,
as bocas trituravam lentamente
a comida em intervalos cíclicos
de nostalgia: falavam de regimes,
métodos e soluções – e vindo
cobertas por uma fina camada
de novos polímeros, as ruas,
frias e seculares, desembocavam
ao redor das mesas, servindo
os referenciais do esquecimento
que crescem nos poros
das grandes estruturas vivas.

[in Capitais, edição do autor, 2012]

Uma daquelas notícias que me deixam doente

«Lisboa perdeu a sua única livraria exclusivamente dedicada à poesia. O proprietário, Mário Guerra, admite reabrir num outro espaço, mas não consegue esconder a profunda desilusão com o rumo do país.»
Que merda, que merda, que merda.
Ate já, Changuito.

João Ricardo Pedro: “Nunca percebo o que faz mover o quê no livro, se são as frases a construir a história, se é ao contrário”

Há qualquer coisa de exemplar nesta história. Formado em Engenharia Electrotécnica, João Ricardo Pedro (n. 1973) trabalhou durante mais de uma década numa empresa de telecomunicações, embora sem aplicar «as admiráveis equações de Maxwell», como explica na sua curta nota biográfica. Paralelamente, desenvolveu um gosto pela leitura que se tornou obsessivo. Quando saiu a tradução de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, feita por Pedro Tamen, leu os volumes todos de enfiada. E ficou-lhe o fascínio pela frase enquanto unidade narrativa. A leitura despertou ainda o desejo de escrever e a certeza de que seria capaz de acabar um livro, se a isso se dedicasse.
Quando a empresa em que trabalhava o despediu, abriu-se uma janela de oportunidade. Desempregado, com o tempo por sua conta, inventou uma rotina de escrita. Sem ajudas de qualquer tipo, experimentando por si mesmo, arregaçou as mangas e atirou-se às teclas do computador. Nos primeiros meses, procurou um estilo, uma voz. Depois, começou a dar corpo a um novelo mais ou menos caótico de histórias, quase todas deixadas em aberto. Ao aperceber-se de que poderia concorrer ao Prémio LeYa, acelerou o processo de desbaste e reduziu as mais de mil páginas do seu manuscrito proliferante a cerca de duzentas. Nunca mostrando o texto a ninguém, enviou o livro para o concurso, um pouco às cegas mas confiante no valor literário da obra de estreia.
No final de 2011, chegou a boa nova. O Teu Rosto Será o Último foi o romance escolhido pelo júri do mais valioso prémio literário português – de que fazem parte, entre outros, Manuel Alegre, Nuno Júdice, Pepetela e José Castello. Quando receber o cheque de cem mil euros, João Ricardo Pedro vai sentir um «conforto» financeiro que lhe permitirá dedicar-se à escrita durante uns anos. «A minha mulher é economista e conto com ela para gerir bem o dinheiro», assume num tom desprendido. Quanto à projecção mediática associada ao prémio, ainda lhe faz alguma «confusão», porque «há livros muito melhores do que o meu que não tiveram esta sorte».
O Teu Rosto Será o Último, com chancela da LeYa, é posto à venda no dia 31 de Março. Será depois editado no Brasil, em Angola e em Moçambique.

Em 1975, quando foi demitido da direção do Diário de Notícias, José Saramago decidiu não procurar trabalho e dedicar-se a tempo inteiro à literatura. De certa forma, o desemprego empurrou-o para a descoberta do seu estilo, no romance Levantado do Chão, e deu-lhe o impulso para uma carreira literária tardia. Salvaguardadas as devidas distâncias, ter perdido o emprego foi o seu momento saramaguiano?
Essa comparação é muito honrosa para mim. Na verdade, acho que foi um desses «azares da vida» (como diz o Celestino, uma das minhas personagens) que depois descobrimos ser um instante de sorte, uma oportunidade que se abre, inesperada e irónica. Eu lia muito e a partir de uma dada altura, por volta dos vinte anos, fiquei com a ideia de que era capaz de escrever. Ao ler os livros dos outros, sentia que se quisesse muito, se me dispusesse a isso, também conseguiria fazer aquilo. Depois, a ideia tornou-se quase uma obsessão. Mas com a minha vida familiar e profissional era impossível. Há pessoas que conseguem chegar à noite, depois de um dia de trabalho, e ter disponibilidade para a escrita. Eu não conseguia essa disciplina.

Chegou a procurar trabalho?
Não. A escrita aconteceu logo, de uma forma súbita. No primeiro dia sem emprego, levei os filhos à escola, voltei para casa, fiz as camas, essas coisas todas. Havia no ar aquele vazio do «e agora?» Então, liguei o computador, abri um ficheiro de Word e comecei a escrever. Uma coisa em bruto, seis horas por dia. Desse primeiro material, não se aproveitou nada. O que está no livro começou a surgir ao fim de sete, oito meses. E só no final do primeiro ano é que me apercebi, aos poucos, do que estava a fazer.

Nunca tinha escrito ficção antes?
Nem ficção nem poesia, nem outra coisa qualquer. Absolutamente nada. Nem sequer tive um blogue. Fui aprender tudo.

Começou da estaca zero?
Sim. O primeiro problema foi: eu não sei fazer isto. Ignorava as coisas mais simples. Como descrever um tipo que desce as escadas. Como pôr de repente um homem a falar com outro. Comecei aí uma aprendizagem autodidacta. Relia os meus escritores preferidos para ver como é que eles faziam, como é que eles resolviam as situações. O José Cardoso Pires, por exemplo, foi fundamental. Aprendi muito com ele. Mas escrevia sozinho, só para mim. Ninguém acompanhou o processo de criação. Avancei voluntariamente desamparado.

Nunca mostrou o que ia fazendo a ninguém?
Nunca. É mais uma questão de feitio do que de orgulho. Ainda hoje é para mim difícil saber que alguém está a ler o livro. A minha mulher só o leu depois de ter sido enviado para o concurso da LeYa. E mesmo assim foi doloroso, o ela estar ali ao meu lado, a ler aquilo.

Confiava no valor literário do romance?
Sim, caso contrário não o sujeitaria ao concurso. Tinha aliás o pressentimento de que poderia ganhar. Um pressentimento estúpido, porque não fazia a mínima ideia da qualidade dos outros concorrentes. É absurdo, eu sei, mas convenci-me de que poderia perfeitamente ganhar.

Quais foram as principais dificuldades?
O mais difícil foi descobrir o meu tom, a minha voz. Eu ia pôr os filhos na escola, chegava a casa às oito e meia e ficava até às quatro e meia a escrever, com uma hora de intervalo para o almoço. Fui avançando de forma um bocado caótica, até perceber que tinha de dar uma certa unidade àquilo. Então cortei muito, fiz desaparecer algumas das personagens e reduzi mais de mil páginas a trezentas e tal. No fim, ficaram cerca de duzentas. O principal trabalho de edição foi esse: tirar, tirar, tirar. A dada altura, tive a sensação de que poderia ficar a escrever este livro para sempre. Quando é que isto acaba? O prémio foi bom também nesse sentido. Impôs-me uma data limite. Acelerou o processo final de lapidação.

O livro começa, certamente não por acaso, no dia 25 de Abril de 1974.
Foi simbólico. Essa decisão surgiu já a meio do livro. Os meus avós são da província e uma coisa que sempre me impressionou foi o afastamento das pessoas em relação ao que se passava no país. No primeiro capítulo isso é evidente. Quando pensamos no 25 de Abril, pensamos numa coisa extraordinária que aconteceu ao país, mas esquecemos que houve muita gente para quem aquilo passou completamente ao lado. Interessava-me tudo o que aconteceu a seguir à revolução mas também o que estava para trás. O meu pai andou na Guerra Colonial, todos os meus tios andaram, toda a minha infância foi vivida a ouvir aquelas histórias.


Foto: DN

Como é que alguém nascido em 1973, quando a guerra estava a acabar, aborda esse tema?
É evidente que não podia falar de experiência própria. Só pude falar do que me contaram. O episódio mais forte que aparece no livro, com o Spínola, é completamente inventado. O Spínola interessa-me enquanto personagem complexo da História, um homem cheio de contradições, com uma força hollywoodesca.

Duarte, a personagem principal de O Teu Rosto Será o Último, é pianista. Qual a importância da música na estrutura do romance?
A música é absolutamente essencial. Durante o processo de escrita, não parei de ouvir as 32 sonatas para piano do Beethoven, na interpretação do Alfred Brendel. São sonatas em que se nota claramente a evolução estética do compositor: nas primeiras, está muito próximo de Mozart e de Haydn; mas nas três últimas é já outra coisa, estilhaça a forma da sonata, tem andamentos muito longos e outros curtos, com finais abruptos. No meu livro acontece algo de semelhante. Os primeiros capítulos são mais convencionais, os últimos são muito mais livres. Quis que o leitor se sentisse à beira de uma falésia escarpada.

Quase todos os capítulos são construídos em torno de cenas fortes, violentas, com uma grande carga dramática. Como se o narrador procurasse, na vida das personagens, apenas os momentos de maior intensidade.
Precisamente. É claro que as personagens viveram outras coisas, entre esses momentos de maior intensidade, mas essas coisas não me interessam. Nesse sentido, o romance assemelha-se ao resumo de um jogo de futebol em que apenas são mostrados os golos. Os passes para o lado, as bolas que vão fora, não quis nada disso.

Há um cuidado muito grande na forma como são nomeadas as personagens. O doutor Augusto Mendes, médico, nunca deixa de ser doutor, mesmo no espaço da intimidade familiar. Mas há um inspector Artur Monteiro que de repente volta a ser o soldado Monteiro, e essa inflexão muda tudo.
Fico contente que se tenha apercebido dessa transformação. Ela dá-nos as várias faces de uma pessoa no tempo. Artur Monteiro foi soldado, agora é inspector, mas a qualquer momento volta a ser soldado outra vez.

Como é que lhe surgem estes artifícios literários?
Não sei. São acasos. São milagres. Quando acontecem, até me vêm as lágrimas aos olhos. Fico com a ideia de que as mãos trabalham sozinhas, como as do Duarte quando toca piano. Não consigo compreender de onde é que aquilo aparece. São os mistérios da criação. Nunca percebo o que faz mover o quê. Se é a linguagem e as frases a construirem a história, se é ao contrário.

Uma das ideias fortes que atravessam o livro é a da orfandade, tanto individual como coletiva.
Sim. Há a orfandade do protagonista, há a orfandade da mãe, mas igualmente a orfandade em relação a certos ideais da esquerda, a orfandade provocada pelo fim do comunismo na União Soviética, por exemplo.

Fim que é relatado simbolicamente, por via da derrota da selecção da URSS na final do Campeonato da Europa de Futebol de 1988, contra a Holanda.
Lembro-me perfeitamente desse dia. Em casa dos meus pais, estavam uns homens a pintar as paredes. Eram comunistas. Quando o jogo acabou, ficaram tristíssimos, pouco faltou para começarem a chorar. Acho que o fim da União Soviética teve um impacto muito forte numa parte da população e eu quis mostrar esse impacto.

O romance tem uma clara dimensão política.
Sim. Num dos últimos capítulos, duas personagens assistem pela televisão à tomada de posse do governo de Cavaco Silva, no início dos anos 90. E aí refreei-me. Não quis vincar demasiado a ideia de que terminavam ali as ilusões criadas no período revolucionário. Mas a ideia está lá, implícita, e espero que os leitores a compreendam. Quem escreveu este livro tem um pensamento político. E uma leitura atenta acaba por discernir esse pensamento.

Na versão impressa, o livro segue as regras do Acordo Ortográfico. Já o escreveu assim?
Não. E a editora pôs-me completamente à vontade. Se eu quisesse, podia manter a grafia antiga. Mas é daqueles assuntos sobre os quais não tenho opinião formada. Pode parecer estranho, isto de alguém escrever um livro e não ter uma posição definida sobre este assunto, mas é o meu caso.

Daqui a dez anos, imagina-se a viver como escritor?
Não sei. Neste momento, só sei que quero escrever pelo menos mais um livro. E isso para mim é suficiente. Não tenho a ambição de ser escritor. Enquanto me apetecer fazer isto, faço. Enquanto tiver este impulso, continuo. Quando me fartar, parto para outra. Monto um quiosque, sei lá. Qualquer coisa.

[Entrevista publicada no suplemento Actual do jornal Expresso]

O que aí vem (Presença)

A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr; Rumo à Liberdade, de Slavomir Rawicz; Viver Sem Chefe, de Sergio Fernández; O Último Templário, de Raymond Khoury; O Que é a Economia?, de Liviana Poropat.

Vozes de escritores

T. S. Eliot lê The Hollow Men.

Primeiros parágrafos

«Naquela noite tinha havido uma tempestade em St. Louis. A água quedava-se em negros charcos fumegantes na calçada fronteira ao aeroporto, e, do banco traseiro do táxi, eu via a agitação dos ramos dos carvalhos sobre um fundo de nuvens citadinas baixas. Era sábado e as estradas estavam saturadas de uma sensação de extemporaneidade, de atraso – a chuva não caía, já tinha caído.
A casa da minha mãe, em Webster Groves, estava às escuras, à exceção de uma lâmpada com temporizador na sala de estar. Entrei, fui direito à prateleira das bebidas e servi-me de uma boa dose que já vinha a prometer a mim próprio desde antes do primeiro dos meus dois voos. Invadia-me o sentido de posse de um viquingue em relação a tudo a que pudesse deitar a mão. Estava prestes a entrar na casa dos quarenta, e os meus irmão mais velhos tinham-me confiado a missão de viajar até ao Missuri e escolher um agente imobiliário que se encarregasse de vender a casa. Enquanto estivesse em Webster Groves, a trabalhar em prol do património familiar, a prateleira das garrafas seria minha. Minha! Idem para o ar condicionado, que regulei para uma temperatura glacial. Idem para o frigorífico da cozinha, que achei necessário abrir imediatamente e vasculhar até ao fundo, na esperança de descobrir umas salsichas de pequeno-almoço, um guisado caseiro, alguma coisa cheia de gordura e de sabor que pudesse aquecer e comer antes de ir para a cama. A minha mãe tinha sempre o cuidado de etiquetar a comida com a data em que a tinha congelado. Debaixo de múltiplos sacos de mirtilos, descobri um saco com uma perca que um vizinho tinha pescado três anos antes. Debaixo da perca estava um pedaço de peito de vaca com nove anos.»

[in A Zona de Desconforto, de Jonathan Franzen, trad. de Francisco Agarez, Dom Quixote, 2012]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com João Ricardo Pedro, autor de O Teu Rosto Será o Último (LeYa), por José Mário Silva
O Nascimento de Vénus e a Primavera de Sandro Botticelli, de Aby Warburg; Imagens Apesar de Tudo, de Georges Didi-Huberman; e O Efeito Pigmaleão, de Victor Stoichita (KKYM), por António Guerreiro
Um Longo Caminho para a Liberdade, de Nelson Mandela (Planeta), por Cristina Peres
Governo de Pimenta de Castro – Um General no Labirinto da I República, de Bruno J. Navarro (Assembleia da República), por Hélder C. Martins
Gare do Oriente, de Vasco Luís Curado (Dom Quixote), por Pedro Mexia
Às Vezes o Amor Não Chega, de Sofia Marrecas Ferreira (Porto Editora), por Luísa Mellid-Franco
– Escolhas de Jaime Rocha

‘O que é ler?’ (oito respostas)

A celebrar o seu 25.º aniversário, a revista Ler pediu a vários autores convidados da última edição das Correntes de Escritas que definissem o acto da leitura. Eis o que responderam Pedro Rosa Mendes, Maria do Rosário Pedreira, Luis Sepúlveda, Sandro William Junqueira, Ana Luísa Amaral, Jaime Rocha, João Luís Barreto Guimarães e Manuel António Pina:

Em breve juntar-se-ão a estes outros depoimentos recolhidos na mesma altura.

As canas

CANTO DÉCIMO TERCEIRO

De criança sempre gostei de canas
e roubava-as do rio
ainda verdes.
Deixava-as depois estendidas ao sol durante todo o verão
e recolhia-as, ligeiras,
como o sussurro dos mosquitos.

Quando no inverno
os ossos estalavam de frio
e os gatos tossiam sobre o damasqueiro
corria até ao sótão
e metia as mãos no meio das canas quentes
ainda com todo aquele sol em cima.

[in O Mel, de Tonino Guerra, trad. de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2004]

LeV suspenso

A sétima edição do encontro internacional Literatura em Viagem, que deveria realizar-se entre os dias 21 e 24 de Abril, em Matosinhos, está suspensa e poderá mesmo vir a ser cancelada se até ao final do mês o Governo não regulamentar a Lei 8/2012 (a chamada “lei do compromisso”), que impede as autarquias de assumirem qualquer nova despesa que exceda os fundos disponíveis no curto prazo.

(Seria uma pena que o esforço imenso que Francisco Guedes tem despendido para manter um encontro literário de grande qualidade em Matosinhos ficasse agora comprometido, até porque o cancelamento desta edição torna automaticamente mais difícil a realização do LeV do próximo ano.)

A cerejeira em flor

«O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.
Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.
Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.»

[in Histórias para uma Noite de Calmaria, de Tonino Guerra, trad. de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2002]

Tonino Guerra (1920-2012)

Morreu um poeta. Um poeta imenso. Sei que também foi um extraordinário argumentista, mas para mim ele será sempre o Tonino de Histórias para uma Noite de Calmaria, O Mel e O Livro das Igrejas Abandonadas. Pelo mundo inteiro, acredito que «choveram todas as pétalas» das cerejeiras em flor.

O dedo na ferida

«Sento-me com outra amiga em Lisboa e ela conta-me que recusou idas e vindas e textos por não serem pagos, mas que isso não constituiu problema para quem a convidava, porque havia sempre gente para aceitar — como agora há cronistas a escrever de graça.
Eu vejo duas boas razões para escrever de graça. A primeira é quando alguém próximo nos pede. A segunda é quando reverte a favor de quem precisa. No primeiro caso trata-se de amizade, no segundo de voluntariado. O resto chama-se abuso.
O abuso não só perpetua o estado das coisas como o acentua. Cada vez que alguém acha natural não pagar a quem escreve está a dizer que a literatura é acessória, e a contribuir para que ela desapareça.»

Quem o diz é Alexandra Lucas Coelho, numa crónica exemplar.

Arte do romance

O Romancista Ingénuo e o Sentimental
Autor: Orhan Pamuk
Título original: The Naive and the Sentimental Novelist
Tradução: Álvaro Manuel Machado
Editora: Presença
N.º de páginas: 134
ISBN: 978-972-23-4801-0
Ano de publicação: 2012

Durante as últimas décadas, entre os oradores das Charles Eliot Norton Lectures, na Universidade de Harvard, estiveram figuras como Igor Stravinsky (1939), e. e. cummings (1952), Jorge Luis Borges (1967), Octavio Paz (1971), John Cage (1988), Umberto Eco (1992) ou George Steiner (2001). Na sua maioria, as conferências são coligidas em livro pela Harvard University Press e traduzidas para todo o mundo. Em Portugal, o volume de cummings foi editado pela Assírio & Alvim; o de Borges pela Teorema; o de Eco pela Difel; o de Steiner pela Gradiva; e o de Italo Calvino, as célebres Seis Propostas para o Próximo Milénio (que acabaram por ser apenas cinco, devido à morte do escritor em 1985), pela Teorema. A esta pequena biblioteca junta-se agora o livro que reúne as seis palestras proferidas, na mesma cátedra, por Orhan Pamuk em 2009, três anos após a consagração que nenhum dos escritores acima citados alcançou: o Prémio Nobel de Literatura.
Colocando-se numa posição de relativa modéstia, sem grandes arroubos teóricos ou pretensões ensaísticas, Pamuk começa por tentar discernir «o que se passa na nossa cabeça quando lemos um romance»; isto é, quais as características da estrutura romanesca que a diferenciam de qualquer outro tipo de experiência literária ou artística. Além das memórias de leitor compulsivo (entre os 18 e os 30 anos dedicou-se obsessivamente, por vezes «em êxtase», à leitura de romances), Pamuk convoca as reflexões nascidas do seu ofício de escritor. Ao longo das seis conferências, surge recorrentemente o propósito de definir uma «arte do romance». Quando inicia um novo livro, que pretende ao certo Pamuk? Nas suas palavras, o objectivo é «recriar a vida com exatidão», mostrar como os protagonistas da história «sentem, veem e atuam no seu próprio mundo» e «de que maneira o universo no interior da narrativa surge através do seu olhar». Para isso, o romancista deve ser capaz de projectar-se nas personagens, partilhando através delas as suas experiências sensoriais, deve erguer uma «visão panorâmica» da realidade que ameace substituir a própria realidade, e mostrar que é possível «acreditar simultaneamente em situações contraditórias». Em tom mais aforístico, defende ainda que se pode «falar de coisas importantes como se fossem insignificantes e de coisas insignificantes como se fossem importantes».
Uma das fontes a que Pamuk vai beber é um ensaio clássico de Friedrich Schiller: Sobre a poesia ingénua e a sentimental (1795-1796). Em traços largos, Schiller opunha os autores «ingénuos», para quem o poema não é «pensado e deliberadamente trabalhado pelo poeta», antes surgindo como uma emanação da Natureza ou de um «qualquer outro misterioso poder», aos autores «sentimentais» e reflexivos, que revelam uma espécie de «hiperconsciência» dos métodos e técnicas que utilizam, logo «do artifício envolvido no seu esforço». Trata-se, no fundo, da oposição entre o criador espontâneo e aquele que tudo intelectualiza, entre o génio instintivo de Goethe e a racionalidade muito trabalhada do próprio Schiller. Os dois pólos criam uma tensão que Pamuk considera produtiva e que rapidamente resolve, ao sugerir que a «contínua oscilação» entre um e outro extremo deve ser o estado natural do romancista.
O autor de O Meu Nome é Vermelho aborda ainda a questão do espaço físico da narrativa, e do respectivo tempo (objectivo ou subjectivo), a divisão entre «escritores verbais» (como Dostoievski) e «escritores visuais» (como Tolstoi), a importância dos romances como arquivos ou museus (uma forma de «resistência ao esquecimento») e essa espécie de «verdade secreta» a que chama «centro do romance», uma entidade difusa situada «algures por detrás de tudo, num plano de fundo, invisível, difícil de configurar» e que nunca chega a ser definida com a necessária clareza, apesar das dezenas de páginas que lhe são dedicadas.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

The First World War Poetry Digital Archive

É um manancial, aqui.

Quatro poemas de Inês Lourenço

ARTE POÉTICA I

Do texto não as pinças mas o lábio
da trama não o fio mas o hausto
do rosto não o facto mas o feixe
do timbre não o fundo mas a fenda
da venda não a fresta
mais que o laço.

***

ÁRIA

É belo o tempo de Inverno,
no silêncio, a lenha húmida
das maternas canções da chuva.
Na lentidão de Janeiro
fica mais longe a morte. As aves
habitam nos beirais
como príncipes destronados.

***

PENHORES

Aros esmaecidos, os anéis repousam
em brilhos desertos. Quantas
histórias banais, com o letreiro de
ouro usado. Nessa dúbia cor, uma
nobre tristeza resgata
os formatos vulgares e desenha
velhas parábolas
de purgatório e redenção.

***

SESSÃO LITERÁRIA

Falam de perfeição. De perseguir
ao menos em verso, esse vórtice de luzes
e excelsa beleza ou
beatitude que logrará

a canónica obra. Velho
enredo já sem graça divina
nem humana.

Melhor falassem
das batatas novas, que
costumam aparecer
antes da Páscoa.

[in Câmara Escura – Uma Antologia, com selecção de Manuel de Freitas, Língua Morta, 2012]

Maravilhas da paternidade

Desenhos do dia do Pai:


Clique para aumentar

Este é do Pedro.

Este é da Alice.

Este é outra vez do Pedro (aula de Inglês).

Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha

Até dia 22. A participação de Portugal (país-tema este ano) pode ser acompanhada aqui.

De volta

O Festival Literário da Madeira acabou bem, com um sábado carregado de sessões muito participadas e interessantes (sobre a última não tenho opinião, porque fui um dos intervenientes). Nos blogues do costume, há fotos e comentários. A mim, não me apeteceu escrever mais. Todos temos direito aos nossos momentos Bartleby.

Mesa 3 do FLM: “Éramos violentos e não sabíamos”

«Como a poesia pode mudar a nossa vida», discutem Yang Lian, Fernando Pinto do Amaral, Francesco Benozzo, Jaime Rocha, Barry Wallenstein e João Carlos Abreu. Modera a conversa Donatella Bisutti.
Algumas frases:

«O trabalho do poeta é exercer violência sobre a linguagem»
Barry Wallenstein

«A palavra é capaz de matar e ressuscitar uma pessoa»
João Carlos Abreu

«A poesia é o balastro que mantém o nosso barco estável»
«Eu sou dissidente da China mas não da língua chinesa»
Yang Lian

«Para mim a poesia é escrever o que não se vê, o que está para lá do visível»
«A descoberta dos primeiros livros do Herberto Helder mudou a minha vida. Era de uma beleza obscura, de uma violência, de uma força tão grande que me fez trocar o teatro pela poesia»
Jaime Rocha

«A poesia, a literatura, como toda a arte, devem ser inquietude»
Fernando Pinto do Amaral

«O poeta tem de lutar contra as rotinas da sua percepção»
«A linguagem foi criada para prevenir o ataque de uma realidade que nos ameaçava»
Francesco Benozzo

Grupo Porto Editora oficializa aquisição da Assírio & Alvim

Eis o comunicado de imprensa do Grupo Porto Editora que acabo de receber:

«O Grupo Porto Editora (GPE) confirma a aquisição da chancela Assírio & Alvim (A&A), concretizada esta semana, no que representa uma nova aposta do GPE na área da Literatura. Com esta aquisição, o GPE assegura integralmente a produção editorial e a distribuição de todo o catálogo da A&A.
No âmbito deste processo, Manuel Rosa, o anterior accionista maioritário da A&A, assumirá o papel de colaborador externo para esta chancela, ao passo que Vasco David, que até agora assegurava a coordenação e o acompanhamento das obras da A&A, continuará a exercer as mesmas funções, agora integrado na Divisão Literária dirigida por Manuel Alberto Valente, que assume, desta forma, a direcção editorial desta chancela.
Vasco Teixeira, Administrador e Diretor Editorial do Grupo Porto Editora, considera que “o património da Assírio&Alvim merece este nosso investimento, evitando que a presente conjuntura causasse perdas importantes no panorama editorial. Acredito que temos condições humanas e estruturais para fazer um bom trabalho, honrando o projeto desenvolvido desde a fundação da A&A – e, neste ponto, faço questão de lembrar o mérito ímpar de Manuel Hermínio Monteiro, a quem muito deve o Livro em Portugal”.
Nesta nova fase da sua vida, a A&A vai privilegiar três linhas de trabalho essenciais: a publicação de grandes autores portugueses, com Fernando Pessoa à cabeça, a poesia e a grande herança clássica da literatura mundial.
Entre os títulos a publicar brevemente, destaca-se Um país que sonha – cem anos de poesia colombiana, com organização de Lauren Mendinueta e traduções de Nuno Júdice, que será apresentado no próximo dia 24 de Março, no Centro Cultural de Belém, no âmbito da comemoração do Dia Mundial da Poesia; e Igreja e Sociedade Portuguesa – do Liberalismo à República, de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto.
Em Agosto de 2011, o GPE e a A&A estabeleceram um acordo na área da distribuição que acabou por evoluir, em outubro do mesmo ano, para um protocolo que passava a envolver uma parceria editorial.»

Ontem à noite

No palco do Teatro Baltazar Dias (Funchal), o norte-americano Barry Wallenstein diz um dos seus poemas (do livro Tony’s World), acompanhado ao contrabaixo por Massimo Cavalli, durante o espectáculo “Ser Poeta Não é uma Invenção Minha”, organizado pela italiana Donatella Bisutti.

Um festival que também se ouve

Para quem está longe do Funchal, as sessões do Festival Literário da Madeira podem ser ouvidas através da Internet: aqui (iTunes, Winamp) ou aqui (Windows Media Player).

Visita à escola

Ontem, participei num debate no belíssimo Centro de Artes – Casa das Mudas, com alunos da Escola Básica e Secundária da Calheta, lado a lado com o escritor e jornalista Joel Neto e o director da revista Ler, João Pombeiro, que apresentou o projecto 15/25. A sessão está resumida neste post do blogue oficial do FLM.

Mesa 2 do FLM: “Éramos poors e não sabíamos”

Participantes: Ana Margarida Falcão, Eduardo Pitta, Afonso Cruz, Júlio Magalhães. Moderadora: Ana Isabel Moniz.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk (Presença), por José Mário Silva
Câmara Escura – Uma Antologia, poemas de Inês Lourenço escolhidos por Manuel de Freitas (Língua Morta), por António Guerreiro
Obras, de Tomás Pereira (Centro Científico e Cultural de Macau), por Virgílio Azevedo
Pensar, Depressa e Devagar, de Daniel Kahneman (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Encontro em Samarra, de John O’Hara (Relógio d’Água), por Carlos Bessa
Como Carne em Pedra Quente, de Ana Sofia Fonseca (Clube do Autor), por Ana Cristina Leonardo
Dezoito Palavras Difíceis, de Luís Rainha (Tinta da China), por Pedro Mexia
– Escolhas de Miguel Miranda

Visto do camarote

A intervenção completa de Pedro Vieira pode ser vista aqui.

Mesa 1 do FLM: “Éramos felizes e não sabíamos”

No palco, os participantes sentam-se em cadeirões, com baús à frente a servir de mesa de apoio, e esperam que o público entre na sala. Aos poucos, a plateia vai ficando completa, enquanto os microfones abertos traem as conversas de circunstância que normalmente ninguém consegue ouvir.
O moderador, Castanheira da Costa, apresenta os cinco convidados: Patrícia Reis, José Manuel Fajardo (que promete falar numa língua à parte, quase português mas não completamente: o fajardês), Inês Pedrosa, Rui Nepomuceno e Pedro Vieira. Ao contrário do que se passa nas Correntes d’Escritas, em que a maioria das intervenções são lidas, nesta sessão o tom é de amena cavaqueira. Para acompanhar o que vai sendo dito, em tempo real, basta seguir o post in progress do Luís Ricardo Duarte.

A caminho

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Festival Literário da Madeira

Começa hoje. Programação completa e informações gerais aqui.

ONG italiana considera a ‘Divina Comédia’ de Dante “ofensiva e discriminatória”

Pois é, pois é. E os Lusíadas, hem? Também não me parece que sejam lá muito politicamente (e historicamente) correctos. Vamos banir Camões do ensino público?

Book Domino Chain Reaction

Um dia destes faço uma coisa assim cá em casa.

Primeiros parágrafos

«Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheios de gente, rostos e objetos que pensamos reconhecer. Tal como nos sonhos, quando estamos a ler romances somos, por vezes, tão fortemente atingidos pela natureza extraordinária das coisas com que deparamos que chegamos a esquecer onde estamos e vemo-nos no meio de acontecimentos e pessoas imaginários que se nos apresentam pela frente. Nessas alturas, sentimos que o mundo ficcional com que deparamos e a que nos entregamos com entusiasmo é mais real do que o próprio mundo da realidade quotidiana. Que essa vida paralela, essa vida segunda possa parecer-nos mais real do que a realidade significa frequentemente que substituímos a realidade pelos romances, ou pelo menos que confundimos a realidade do romance com a da vida real. Mas nunca nos queixamos, nunca nos arrependemos dessa ilusão, dessa ingenuidade. Pelo contrário, como quando temos certos sonhos, queremos que o romance que estamos a ler continue e esperamos que essa vida paralela provoque em nós um sentido sólido, consistente de realidade e de autenticidade. Apesar de tudo o que conscientemente sabemos sobre ficção, ficamos contrariados e dececionados se um romance não consegue criar a ilusão de uma verdadeira vida, de uma vida que estamos realmente a viver.»

[in O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk, Presença, 2012]

Encyclopædia Britannica agora é só digital

Ao fim de 244 anos, a Encyclopædia Britannica, rainha entre as enciclopédias, vai deixar de ser editada em papel.

Um ensaio bicéfalo

Nova Teoria do Mal
Autor: Miguel Real
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 185
ISBN: 978-972-20-4895-8
Ano de publicação: 2012

Professor de Filosofia no ensino secundário, Miguel Real foi escrevendo nos comboios da linha de Sintra («entre as negras suadas dos serviços de limpeza dos escritórios de Lisboa») esta Nova Teoria do Mal. Nascido de um agudo «sentido de revolta» diante do que se está a passar no nosso país, assolado pelo descalabro económico, pela traição das elites e pela brutal austeridade imposta de fora, o livro começa por ser um grito de alerta de pendor humanista (nas 14 páginas da «Apresentação»), transformando-se depois numa densa e por vezes fastidiosa abordagem estritamente filosófica à questão do «Mal».
É duvidoso que o leitor entusiasmado com a emoção panfletária inicial aprecie os vagares do processo analítico (o labirinto teórico de alíneas e sub-alíneas que atravessa a obra). Em si mesmas, as teses recapitulam conceitos conhecidos: o «mal» como substância do universo, enquanto o «bem» é «acidental» e «provisório»; o primeiro assumindo «o centro ontológico», relegando o segundo para «a periferia»; e a Política como instrumento que não visa «fazer o bem», mas antes «evitar, prevenir ou minimizar o mal».
Para o autor, a humanidade tem vivido uma «fase infantil e bárbara», fruto do falhanço das «éticas cristã e mercantilista», mas passível de ser redimida por uma «fase adulta» em que o «sentimento do sagrado» se deslocaria do antropocentrismo para o «biocentrismo». A fundamentação deste novo paradigma, porém, é escassa, para não dizer nula. Na pele de cidadão inquieto com o estado de um «país sonâmbulo» e a precisar de quem o acorde, Miguel Real é talvez excessivo mas pertinente. Como filósofo, seria de esperar outro arcaboiço ideológico, além de uma maior robustez argumentativa.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Hélia Correia

1.

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

7.

Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

[in A Terceira Miséria, Relógio d’Água, 2012]

Os bons livros elevam-nos

Louvre abre as portas a Le Clézio

«Trois ans après son prix Nobel, Le Clézio est l’invité du Louvre, où il présente des cultures absentes du musée.»

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges