‘Middlemarch’ em versão panorâmica

Eis uma visão vertical, digamos assim, do romance de George Eliot, recentemente editado em português pela Relógio d’Água.

Como escrever sobre um livro que não se leu (e ainda nem sequer está publicado)?

Não é assim tão difícil se o livro for de Enrique Vila-Matas, como demonstra João Ventura num excelente post a propósito de um romance (Aire de Dylan) que só amanhã é posto à venda em Espanha.

Anatomia de um impasse

Outra Vida
Autor: Rodrigo Lacerda
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 168
ISBN: 978-972-564-987-9
Ano de publicação: 2012

O romance Outra Vida, do escritor brasileiro Rodrigo Lacerda, decorre inteiramente numa estação de autocarros, cenário de um drama familiar que vai ganhando densidade e violência, à medida que as personagens revelam a sua verdadeira natureza. No centro da narrativa, três figuras: um homem, uma mulher e uma menina de cinco anos. Ele é um gigante de quase dois metros, abrutalhado mas terno, funcionário público menor que se deixou corromper (mais por ingenuidade do que por cupidez), transformado em bode expiatório e de tal maneira caído em desgraça que só pensa em abandonar a grande cidade, regressando às suas origens humildes. A mulher, pelo contrário, não quer partir. Está muito presa às ambições de uma vida na metrópole, sente o pânico de um retrocesso no seu estatuto social, e por isso procura argumentos para ficar, ignorando que um desses argumentos (o amante secreto) ameaça intrometer-se no longo impasse que dura mais de duas horas e 160 páginas. Quanto à menina de cinco anos, funciona como o fulcro e o catalisador da desagregação conjugal, sobretudo a partir do instante em que desaparece no caos dos passageiros que vão e vêm, abrindo de vez uma caixa de Pandora que não voltará a ser fechada.
Rodrigo Lacerda executa, com rigor clínico, a anatomia deste impasse, revelando a pouco e pouco a parte submersa do icebergue; isto é, todas as condicionantes – biográficas, psicológicas, emocionais – de uma relação assente em desequilíbrios e expectativas frustradas. O problema é que o faz recorrendo a um narrador verborreico, algo pomposo, com tendência para teorizar sobre tudo e mais alguma coisa (de questões sociológicas ao crescimento populacional), uma voz exagerada que se sobrepõe à narrativa, tão omnipresente que chega a sufocar as vozes próprias das personagens. Junte-se a isto algumas limitações estilísticas da prosa de Lacerda, quase sempre pesadona, e temos um romance com alguns momentos poderosos (toda a relação do pai com a filha, por exemplo), mas que fica muito aquém do que podia ser.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Rosa Montero, autora de Lágrimas na Chuva (Porto Editora), por Cristina Margato
In Terra Viventium, de Fernando Echevarría (Afrontamento) e Como se Desenha uma Casa, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Serém, 24 de Março, de José Miguel Silva (Averno), por Carlos Bessa
Modernidade e Desconstrução, de Carlos França (Fenda), por António Guerreiro
Nova Teoria do Mal, de Miguel Real (D. Quixote), por José Mário Silva
Poeira da Alma, de Nicholas Humphrey (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
Republicanas Quase Desconhecidas, de Fina D’Armada (Temas & Debates/Círculo de Leitores), por Valdemar Cruz
– Escolhas de João Pedro Marques

Haruki Murakami: “Por vezes parece-me que estou a viver no mundo errado”

A pretexto do lançamento da trilogia 1Q84 (edição Casa das Letras), Haruki Murakami, o mais famoso e mediático dos escritores japoneses da actualidade, deu-nos uma entrevista que viu a luz com uma espécie de vagar oriental. Enviadas as perguntas por e-mail, em língua inglesa, estas passaram por vários agentes e intermediários até chegarem ao escritor, que as devolveu, semanas mais tarde, em japonês. Algumas questões foram ignoradas, outras respondidas com uma brevidade digna de um haiku (o clássico poema nipónico de apenas três versos). Pelo caminho, alguma coisa se terá perdido nas sucessivas traduções. Mas até isso bate certo com a estranheza que os leitores de Murakami se habituaram a encontrar nos seus livros.

A sua ficção mais recente, 1Q84, vendeu mais de um milhão de exemplares no Japão só no primeiro mês e está neste momento a ser publicada em todo o mundo, com reconhecimento da crítica e dos leitores. Ainda se surpreende com o seu sucesso à escala global?
Uma pessoa que no meu lugar não ficasse surpreendida com o sucesso só poderia ter uma infinita confiança no seu talento ou ser idiota. Nenhuma dessas condições se aplica a mim. Por isso, todos os dias me espanto com o que acontece à minha volta e à volta dos meus livros.

As suas personagens tendem a viver entre dois mundos paralelos: o nosso, o real, e um outro só ligeiramente diferente, em que por exemplo há duas luas no céu. Por que razão explora tão insistentemente a fronteira entre a vida normal e essa outra dimensão onde acontecem coisas estranhas?
Porque as nossas vidas são feitas de ilusão, sobre a qual colocamos uma camada fina daquilo que é concreto, material. Se não o fizéssemos, não seríamos capazes de viver normalmente. Mas lá no fundo sabemos que a ilusão existe mesmo. É por isso que o vai-vém das minhas personagens, entre realidade e fantasia, acaba por ser verosímil.

No capítulo inicial de 1Q84, Aomame é assaltada por um sentimento de «torção interna» que a leva a pensar que o mundo enlouqueceu. Já alguma vez sentiu algo de semelhante ou é uma experiência a que só acede através da ficção?
Houve uma menina que um dia também conheceu esse sentimento. Chamava-se Alice. A Alice do País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Eu por vezes sinto-me como ela e como Aomame. Vejo as coisas um pouco distorcidas. Ou parece-me que estou a viver no mundo errado. É aquele momento em que perguntamos: será que me enganei no caminho? Onde é que me desviei da realidade? Acho que todas as pessoas sentem isso numa altura ou noutra das suas vidas.

O título do livro faz alusão à obra-prima de George Orwell, 1984. De que forma é que a sua ficção dialoga com os temas e o estilo do escritor inglês?
Não quis propriamente dialogar com Orwell. Limitei-me a olhar para o ano de 1984 a partir do futuro, como ele fez a partir do passado.

Curiosamente, 1984 foi publicado pela primeira vez em 1949. Isto é, no seu ano de nascimento.
É verdade. Mas não passa de uma coincidência. No ano de 1984 propriamente dito, eu estava a escrever o livro Em Busca do Carneiro Selvagem [editado pela Casa das Letras em 2007].

Uma das personagens desta trilogia, Komatsu, diz que para o aspirante a escritor o mais importante é ter prazer no acto da escrita. Com mais de 30 anos de carreira, ainda sente esse prazer?
Se não sentisse, pararia de escrever e voltava a abrir um clube de jazz em Tóquio, onde só se ouvissem as minhas músicas preferidas. Para mim, escrever é tão divertido como tocar música. É tão divertido como voar no céu em completa liberdade. Embora eu, infelizmente, à semelhança dos restantes humanos, nunca tenha voado no céu em completa liberdade.

Outra personagem, Fuka-Eri, uma adolescente que vence um concurso literário, vê o texto ser editado por Tengo, romancista frustrado que consegue melhorar muito a escrita da rapariga. Qual é a importância do processo de revisão nos seus livros?
O processo de revisão é a minha grande alegria. De cada vez, acontece a mesma coisa. Começo por escrever a história em bruto, sem pensar muito, seguindo a urgência de narrar. Depois, revejo muito, faço várias versões, emendo e corrijo, vou melhorando a prosa o mais que posso. Ou seja, dentro de mim coincidem a Fuka-Eri e o Tengo, eles são as duas faces da minha actividade de escritor.

Uma das linhas narrativas de 1Q84 centra-se numa assassina profissional que ataca e mata homens que odeiam as mulheres e abusam delas. Essa justiceira fez-me pensar em Lisbeth Salander. Já leu a trilogia ‘Millennium’, de Stieg Larsson?
Sim. Mas li os livros de Stieg Larsson só depois do lançamento de 1Q84 aqui no Japão. Ainda bem que não foi ao contrário. A trilogia dele é muito interessante e quando comecei a ler já não consegui parar. Curiosamente, o 1Q84 foi lançado na Suécia pela mesma editora que publicou o Larsson.

Depois da tragédia que assolou o Japão em 2010, com o tsunami e as fugas radioactivas nos reactores da central de Fukushima, fez declarações públicas que punham em causa a política nuclear seguida pelo seu país. Enquanto cidadão, como é que analisa os problemas que a sociedade japonesa enfrenta actualmente?
Não posso responder, pois essa é uma pergunta imensa.

Alguma vez considerou a hipótese de escrever um livro sem música ou sem gatos?
Nunca pensei nisso, mas acho improvável abdicar dos temas que mais me interessam. Por outro lado, garanto-lhe que sou perfeitamente capaz de escrever um livro sem cebolas vermelhas e riquexós.

[Entrevista publicada na Revista do jornal Expresso]

“Se eu vejo muito papel diante de mim apetece-me escrever”

Uma bela aproximação ao mundo de Agustina Bessa-Luís, com os seus manuscritos de letra densa e minúscula (tão semelhantes aos microgramas de Robert Walser), decifrados ao longo dos anos pelo marido (seu diligente descriptador), e outros prodígios de um espólio em grande parte inédito. Depoimentos recolhidos por Maria João Costa; imagem e edição de Joana Beleza.

12 perguntas

Também eu passei pelo crivo das Entrevistas Booktailors. As minhas respostas podem ser lidas aqui. Um excerto:

O que é fundamental para se ser um bom crítico literário?
Ausência de preconceitos, atenção, muitas leituras acumuladas, rigor analítico, memória, sensibilidade estética, boa prosa. Tudo isto é importante, mas o essencial é mesmo a honestidade intelectual.

Como é que equilibra editorialmente o Bibliotecário de Babel com as suas colaborações na imprensa? Alguma vez o blogger quis dar a notícia que deveria ser reservada para as publicações impressas para onde escreve?
Além das suas rubricas específicas, o blogue serve como arquivo pessoal do que vou escrevendo, nos mais variados contextos, sobre livros e literatura. É uma espécie de mapa das minhas deambulações pelo mundo literário. Mas não é o blogue que me paga as contas de casa. Antes de blogger, sou jornalista. É essa, a minha profissão, e não confundo o que não deve ser confundido.

Se pudesse fazer uma pergunta ao atual secretário de Estado da Cultura, qual seria?
Quando é que voltas, Francisco?

Dê-nos uma boa ideia para o setor editorial português.
Publicar menos, mas publicar melhor.

Primeiros parágrafos

«Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece. Esquece a morte e segue-me.
Sete e meia da manhã em agosto. Gosto do cheiro de jasmim pela manhã no pátio de Karim. Ainda não o conheço, está no Brasil, chega em dezembro: Karim Farah. Nome estranho para um brasileiro, mas o amigo do amigo que nos pôs em contacto disse-me que há milhões de descendentes sírio-libaneses no Brasil. Não sei nada do Brasil, sabemos pouco do Brasil na Catalunha. Por acaso o amigo do meu amigo foi tocar ao Rio de Janeiro, conheceu Karim e ele contou-lhe que tinha uma casa em Damasco onde recebia músicos. Eu andava a estudar cantigas do Al Andaluz, precisava de ver arquivos em Damasco. Escrevi a Karim, respondeu que viesse. Mesmo na sua ausência a casa era minha.
No dia marcado foram buscar-me a Bab Sharqi, o portão oriental da Cidade Velha. Entrámos ao crepúsculo, com o souk a acelerar na cacofonia dos últimos pregões. Tudo foi ficando cada vez mais estreito, até acabar num beco onde se ouvia o eco de cada passo. Ao fundo uma pequena porta abriu um clarão. Achei-me entre laranjeiras, fontes de azulejo e madrepérola. Era o próprio Al Andaluz.»

[in E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho, Tinta da China, 2012]

Lançamento de ‘E a noite roda’


Clique para aumentar

É logo à noite.

‘O Livro do dia’

O programa sobre livros de Carlos Vaz Marques, na TSF, começou segunda-feira. É para ouvir todos os dias, na rádio propriamente dita ou aqui.

Aproximações ao Assis

1. Ainda hoje não me perdoo por não ter conhecido o Assis. O Assis Pacheco. O Fernando Assis Pacheco. No princípio da década de 90, ele era mais do que uma referência para quem ia aprendendo, pela tarimba (como então se dizia), os rudimentos do ofício. Ele era a própria ideia do repórter: o homem capaz de arrancar histórias à realidade quotidiana e transformá-las em crónicas brilhantes – ou em notícias que eram sempre mais do que uma pirâmide invertida. Diziam-me: «Tu tens de conhecer o Assis.» O Assis bom garfo, o Assis leitor omnívoro, o Assis atento ao que fazem os mais novos, o Assis camarada, tão lúcido e generoso. «Tu tens de conhecer o Assis.» E eu queria conhecer o Assis. Trabalhávamos a uma distância de poucos quarteirões, na mesma avenida lisboeta. Houve almoços colectivos apalavrados, promessas de copos no Bairro Alto, outras oportunidades para um encontro que fui adiando para um dia destes. O dia nunca chegou. E eu, sei-o bem, não fiz tudo para que chegasse. Depois, no final de 1995, deixou mesmo de poder chegar. Ainda hoje não me perdoo por não ter conhecido o Assis, o Assis Pacheco, o grande Fernando Assis Pacheco.

2. Mas a poesia. Ele escreveu tantas outras coisas, quase todas magníficas (como Walt ou Os Trabalhos e Paixões de Benito Prada). Mas a poesia. Volto à Musa Irregular (ASA, 1996). Ninguém como o Assis trouxe para o poema, tão crua e horrenda, a Guerra Colonial: «Li tudo sobre a morte. / Escrevi sobre a minha / e depois embebedei-me. / A bala vem pelo ar / (ruído onomatopaico) e / crava-se, cava, ceva-se / nessas carnes. Era a minha. / Tive uma bala marcada: / à última hora telefonei / a desistir. ‘da-se!». Que desassombro brutal diante do inominável. Que retrato à queima-roupa de uma sombra, de uma «luz negra» que voltaria a rondar, anos mais tarde, sem necessitar de balas, o corpo subitamente frágil, a mais falível das máquinas. E depois o amor. Dito assim, em três versos que resumem tudo: «Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo / da escuridão do mundo. / Porque tudo se escreve com a tua letra.»

3. Quando me lembro do Assis, lembro-me de uma fotografia. Ele de pé, no meio de uma estrada de terra, ao fundo erva e arbustos, um céu imenso por cima. Encostada, tem-te-não-caias, uma bicicleta das antigas, pasteleira de enrijecer os músculos das pernas. O Assis: enorme, barba a embranquecer, um sorriso de gozo a iluminar-lhe a cara toda, o punho direito muito fechado, os braços a fazerem um manguito daqueles. Um manguito com tudo o que um manguito deve ter: força, determinação, amplitude, bravura. Um manguito de quem ainda sabe muito bem, ou nunca deixou de saber, como se manda dar uma curva.

4. Assis morreu à porta da Buchholz, de repente. Vinha a sair, feliz, com um saco de livros comprados após a sua habitual ronda pelas novidades editoriais. Meses mais tarde, uma associação de existência efémera (chamava-se Locomotiva Azul) organizou uma homenagem ao Assis no Bairro Alto, numa tasca, como tinha de ser. Uns dias antes, aproveitando a estadia em Lisboa de Gonzalo Torrente Ballester, fui ao hotel onde se hospedava o escritor galego recolher um depoimento de viva voz, para ser ouvido na homenagem. Recordo-me perfeitamente de Don Gonzalo, no silêncio sábio dos seus oitenta e muitos anos, à procura das palavras certas. Ficou quieto, as mãos tremendo ligeiramente, olhos fechados atrás das lentes espessas de míope. Por fim, pigarreou e disse: «Morreu numa livraria não foi? Então teve a morte mais bela a que um escritor pode aspirar. Morreu junto aos livros, no seu posto, como o soldado morre no campo de batalha.»

5. À noite, os meus filhos gostam de ouvir audiolivros na cama, enquanto esperam o sono. Da vasta colecção, um dos discos mais pedidos é o das Memórias de um Craque (Boca), as crónicas de futebol e nostalgia que o Assis publicou em 1972 no jornal Record – e que o Nuno Moura lê de forma insuperável. A Alice recita de cor deliciosos excertos («De como fiz a minha iniciação desportiva, hesitando entre a arte de guarda-redes e a de pedróbolo da quinta do Lopes…»), mas os meus filhos ainda não sabem quem foi o Assis. Um dia destes, conto-lhes. Mas conto mesmo.

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

O que aí vem (Presença)

O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk; Querido Pai, de Orianne Lallemand; A Cor do Céu, de Julianne MacLean; O Homem Que Plantava Árvores, de Jean Giono.

A discreta leveza dos fantasmas

Rostos na Multidão
Autora: Valeria Luiselli
Título original: Los Ingrávidos
Tradução: Rita Custódio e Àlex Tarradellas
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 150
ISBN: 978-972-25-2400-1
Ano de publicação: 2012

A protagonista de Rostos na Multidão, a fulgurante estreia ficcional da mexicana Valeria Luiselli (n. 1983), é uma mulher que tenta escrever um romance «silencioso» – «para não acordar as crianças» – numa casa habitada por um fantasma e onde não tem um quarto que seja seu (tantos anos depois de Virginia Woolf). Os obstáculos são muitos, das asfixiantes tarefas da maternidade às perguntas e rituais infantis do filho mais velho, passando pela paranóia do marido, que fica inquieto ao ler as páginas já escritas por não saber quanto há nelas de verdade e quanto de ficção. Páginas em que são contadas memórias de um outro tempo, de uma outra existência, quando a narradora vivia em Nova Iorque, partilhando o seu apartamento com figuras algo sórdidas e experimentando no seu dia-a-dia um caos afectivo e existencial.
O livro começa por oscilar entre estes dois planos: o do presente, no qual a narradora reflecte sobre a vontade de criar um romance «horizontal» mas «contado verticalmente», ao mesmo tempo «compacto» e «poroso», com «uma estrutura cheia de buracos para que seja sempre possível chegar à página, habitá-la»; e o do passado, composto por «lembranças» soltas que não passam de «andaimes» e «casas vazias», material em bruto a necessitar de uma «elaboração posterior». De entre essas lembranças, uma das mais significativas tem a ver com o trabalho numa pequena editora especialista em «resgatar ‘pérolas estrangeiras’». A missão que lhe atribuem é a de descobrir um autor latino-americano capaz de suceder a Roberto Bolaño no altar da crítica, à falta de mais inéditos ou «alguma entrevista» perdida do «escritor chileno morto com mais amigos vivos».
É durante esta pesquisa que a narradora se interessa pela obra de Gilberto Owen, um obscuro poeta mexicano que viveu em Nova Iorque no final dos anos 20. O interesse transforma-se em obsessão e ela começa a acumular notas e ideias para um romance sobre a figura de Owen, cuja presença se materializa durante as viagens de metro. Aos poucos, a sua existência vai sendo invadida por este fantasma literal e literário, inventor de uma fantasmagoria maior em que se cruzam, entre outros, Ezra Pound, Federico García Lorca e William Carlos William. A dado momento, o romance duplica-se, desdobra-se num par de histórias paralelas, quase simétricas: a da narradora, que sobrepõe as suas várias vidas; e a de Owen, contando as suas sucessivas mortes e a gradual perda de peso. Cada um escreve-se através do outro, cada um é o fantasma do outro: «Quando houve outra vez escuridão atrás da janela vi contra o vidro a minha própria imagem difusa. Mas não era o meu rosto; era o meu rosto sobreposto no dele – como se o seu reflexo tivesse ficado estampado no vidro e agora eu me refletisse dentro dessa dupla armadilha na janela da minha carruagem.»
Inevitavelmente, tudo se emaranha – os lugares, os tempos, as pessoas – e o que é dito pode revelar-se tão falso como a tradução dos poemas de Owen por Zvorsky que a narradora inventa um dia, talvez sem noção da gravidade da impostura. Certo é que tudo está em processo de colapso e ruína, culminando na violência do terramoto final. No mesmo movimento, o que se constrói engendra a sua destruição. E por isso a narradora assume-se como «Penélope esquiva», consciente de que, ao urdir e desfazer a matéria da escrita, «o tecido da sua realidade imediata desgasta-se e quebra-se». Ou seja, «a fibra da ficção começa a modificar a realidade» e não o contrário.
No fim, o que subsiste é a dúvida. Será a narradora uma espécie de Emily Dickinson, «mulher que fica para sempre fechada numa casa, ou numa carruagem de metro, é indiferente, a falar com os seus fantasmas e a tentar recompor uma série de pensamentos quebrados», ou o oposto disso, «uma mulher que não suporta estar sozinha» e por isso inventa «uma vida, uma família, mas é incapaz de habitar o mundo que constrói»? Nunca saberemos. Mas ambos os destinos são, neste caso, ao mesmo tempo trágicos e gloriosos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Prémio Literário Vergílio Ferreira 2012 para João Morgado

O Prémio Literário Vergílio Ferreira 2012 foi atribuído ao romance Diário dos Imperfeitos, de João Morgado, entre 71 obras a concurso sob pseudónimo. O autor distinguido lançou em 2010 o primeiro romance (Diário dos Infiéis, Oficina do Livro) e publicou recentemente um livro de contos (Meio-Rico, Kreamus).

Quatro poemas de Rui Almeida

Como se um sobressalto
Pudesse prolongar-se por vários dias
E conter passos e olhares
Sem que o espanto momentâneo se dissipe.

A limpidez de tudo
Delimita o mundo à sensação,
Traz as coisas ao contacto com a pele,
Experiências do tremor
Na demora que concentra.

***

Agora é o tempo todo desde sempre.

Abandono tenso de leveza
Levada às cordas vocais
No incómodo do esforço.

Caudal da vontade
Tornada assombro táctil.

***

Um golpe na pele
Como um abismo onde
O desamparo cresce para dentro.

Um golpe justo a deixar
Que as noites sejam tensas,
Rigorosas
Em sua escuridão propícia
À fertilidade.

***

Em três horas de viagem
Se lêem poemas com 40 anos,
Contemporâneos de começar
A ser quem hoje é em viagem
Nesta costa, neste longe
Atlântico incerto, inevitável.

Nesta costa foi o que é agora
Sonhado, silencioso,
Tenso, rumoroso
E fraco, como ainda
Custa ser. Se ser é isto,
Como seria não ser?

E como seria limpar o rosto
Depois de cada Agosto?

[in Caderno de Milfontes, volta d’mar, 2012]

Maravilhas da paternidade

Alice: «As palavras que rimam são palavras que se dão bem umas com as outras.»

As histórias de Macondo, agora em e-book

Na próxima terça-feira, dia em que Gabriel García Márquez completa 85 anos, será publicada a primeira versão electrónica de Cem Anos de Solidão, cuja edição original faz 45 anos. Mas há mais efemérides em torno de Gabo: 60 anos sobre o conto de estreia e 30 sobre a atribuição do Nobel. A propósito destas múltiplas celebrações, o El País organizou um interessante dossier.

Revista ‘Ler’, n.º 111


Clique para aumentar

Já nas bancas.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Artigo de Clara Ferreira Alves sobre Guy de Maupassant
Rostos na Multidão, de Valeria Luiselli (Bertrand), por José Mário Silva
Middlemarch, de George Eliot (Relógio d’Água), por Hugo Pinto Santos
Adão no Éden, de Carlos Fuentes (Porto Editora), por Alexandra Carita
A Grande Arte, de Rubem Fonseca (Sextante), por Pedro Mexia
A Outra Casa, de Mariana Pinto dos Santos (Oficina do Cego), por Manuel de Freitas
Informação, de James Gleick (Temas e Debates), por Luís M. Faria
33 Revolutions per Minute, de Doryan Lynskey (Faber), por Jorge Manuel Lopes
– Escolhas de João Luís Barreto Guimarães

PS – Ainda no Expresso, mas na Revista, publico uma breve entrevista com Haruki Murakami

Que ler quando se chega aos 40 anos?

No dia em que passo a barreira que separa os ‘inta’ dos ‘enta’, fica a pergunta. Eu sei o que me apetece ler na minha nova qualidade de quarentão, mas também gostava de saber o que os meus queridos leitores me sugerem.

Festival Literário da Madeira 2012

Entre os dias 15 e 18 de Março, no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal. Participantes: Afonso Cruz, Ana Margarida Falcão, Barry Wallenstein, Eduardo Pitta, Fernando Pinto do Amaral, Francesco Benozzo, Francisco José Viegas, Graça Alves, Inês Pedrosa, Jaime Rocha, João Carlos Abreu, Joel Neto, José Manuel Fajardo, Júlio Magalhães, Karla Suárez, Manuela Ribeiro, Paulo Sérgio BEJu, Patrícia Reis, Pedro Vieira, Rui Nepomuceno, Valter Hugo Mãe, Yang Lian, e este vosso dedicado blogger. A mesa que me calhou é a última, a n.º 5, com o mote «Éramos originais e não sabíamos». Mais informações aqui.

Feiras do Livro já têm data

A de Lisboa começará a 24 de Abril (vai até 13 de Maio). A do Porto abre portas a 31 de Maio (vai até 17 de Junho).

Vamos lá saber qual é ‘O Livro do Dia’


Clique para aumentar

O novo programa sobre livros da TSF, feito por Carlos Vaz Marques, começa na próxima segunda-feira. Será emitido três vezes por dia: 9h50; 14h50; 17h50. Não há desculpa para não o ouvir.

« Página anterior

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges