‘Lucerna’

O primeiro número da revista literária digital da Fundação José Saramago, dirigida por Sérgio Machado Letria e escrita pela dupla Sara Figueiredo Costa/Andreia Brites, já está disponível. Aqui. Na secção final, ‘Saramaguiana’, podem ser lidas três aproximações ao romance Claraboia (editado postumamente no ano passado), por Fernando Gómez Aguilera, Hector Abad Faciolince e Pilar del Río.

Nomear o indizível

As Coisas
Autora: Inês Fonseca Santos
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-989-97448-3-7
Ano de publicação: 2012

Numa nota inicial, Inês Fonseca Santos (n. 1979) explica que os poemas de As Coisas – o seu livro de estreia – foram escritos em poucos dias, «mas levaram anos a formar-se». De facto, pressente-se nesta obra uma lentidão quase geológica, um avanço que se faz por acumulações e sobreposições, através de sucessivas camadas de memórias, experiências, sedimentos. É uma poesia em torno de um tema só (o desafio de nomear o que é indeterminado ou indizível) e com a consciência exacta de que nos escapa sempre o essencial, de que nunca conseguiremos fechar dentro do recorrente aquário verde no topo da estante (o poema?) esses «peixes-palavras» que são as únicas «coisas inquebráveis».
Há nestes textos cheios de arestas – frágeis, opacos, feitos de vidro (e por isso cortantes quando se partem) – um «nome de todas as coisas» que se desfaz e recompõe continuamente. É um nome que evoca uma ausência, uma perda, esse «algo que já lá não está ou se perdeu» de que fala Manuel António Pina no poema As Coisas (incluído no seu último volume de originais: Como se Desenha uma Casa, Assírio & Alvim), poema que serve de mote a este livro e, segundo a autora, «confirmou o seu eventual sentido». Mais do que um trabalho de luto, ou de nostalgia, os textos procuram uma espécie de recomposição, uma forma de organizar os «restos», de colar os cacos do que um dia se partiu. «Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo. / Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas / construí um fecho novo para o colar de pérolas; / vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.»
Elíptica e desconcertante, a escrita de Inês Fonseca Santos faz da estranheza uma forma de defesa. Nada é transparente neste universo em que tudo se remenda: os copos, as palavras, o coração. Um mundo estanque, urdido com repetições e circularidades, em que fazer versos equivale a fumar um cigarro apagado: «Apago-o antes / que me chegue aos lábios. // Está frio neste lugar. A boca abre-se / como uma coisa lenta em forma de espanto.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

Debate na Feira do Livro

Logo à noite, a partir das 21h00, no Auditório da APEL (Feira do Livro de Lisboa), estarei à conversa com Hélia Correia e Dulce Maria Cardoso.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Mia Couto, autor de A Confissão da Leoa (Caminho), por José Mário Silva
O Jazz da Bancarrota, de Paul van Ostaijen (7Nós), por António Guerreiro
Ar de Dylan, de Enrique Vila-Matas (Teodolito), por Pedro Mexia
Sonata para um Viajante, de Dimas Simas Lopes (Calendário de Letras), por Carlos Bessa
Os Imperfeccionistas, de Tom Rachman (Presença), por José Guardado Moreira
Acerto de Contas, de António de Sousa Duarte (Âncora), por Bruno Roseiro
How to be a Woman, de Caitlin Moran (Ebury Press), por Jorge Manuel Lopes
– Escolhas de Hélia Correia

A arte de desenhar capas de livros

Chip Kidd, um dos mestres do ofício, explica como se faz numa das conferências TED. Depois da abertura, excessivamente americana e apalhaçada, vale mesmo a pena.

Primeiros parágrafos

«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.
Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde há algumas semanas, atormentam a nossa povoação.
Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.»

[in A Confissão da Leoa, de Mia Couto, Caminho, 2012]

O que aí vem (Planeta)

Luto pela Felicidade dos Portugueses, de Rui Zink; Voltar, de Sarah Adamopoulos; Uma Argola no Umbigo, de Alexandre Honrado.

Maravilhas da paternidade

Descendo a Avenida da Liberdade, cravo na mão, a Alice e o Pedro não se incomodaram com a chuva e cantaram entusiasmados as palavras de ordem. Entre todas, a preferida foi «O Povo unido jamais será vencido», mas também gritaram com empenho «25 de Abril sempre, Fascismo nunca mais». Diga-se que a primeira parte (25 de Abril) eles já compreendem bem, a segunda é que é mais complicado. Perguntou-me a Alice: «”Fascismo nunca mais” quer dizer que não vai haver mais tremores de terra?» Quando parei de rir à gargalhada, expliquei-lhe que se o fascismo já não faz sismos é justamente porque uns corajosos capitães decidiram sair de Santarém numa madrugada de 1974 para acabar com um regime que causou muito mais estragos do que o terramoto de 1755.

Cronos cruel

O Tempo Envelhece Depressa
Autor: Antonio Tabucchi
Título original: Il tempo invecchia in fretta
Tradução: Gäetan Martins de Oliveira
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 144
ISBN: 978-972-20-4962-7
Ano de publicação: 2012

O elemento comum às narrativas que compõem este volume é a «inclemência do tempo» e os seus efeitos nefastos (mas também, nalguns casos, regeneradores) sobre personagens solitárias ou à deriva. Consumidas pelo vazio existencial, pela insónia, pela «mudança da idade», desorientadas num mundo que «perdeu a lógica», entregues a deambulações nostálgicas ou à adivinhação do futuro pela forma das nuvens, elas sentem o tempo como algo que se perde, «ar» que deixamos «fugir por um furo minúsculo» sem nos darmos conta. As histórias chegam obliquamente, como que de fora, contadas a alguém que as transmite ou escreve em segunda mão. Há por vezes figuras mais velhas (uma tia moribunda, um pai confuso) que recuperam a custo o passado, em diálogo com um descendente que assiste, sem nada poder fazer, à crueldade de Cronos. Tal como os pintores do barroco italiano, Tabucchi é exímio a «captar o movimento inacabado das personagens» que nunca se fixam completamente, talvez por saberem que «o verdadeiro protagonista da história que vivemos não somos nós, é a história que vivemos».
No primeiro conto, O Círculo, uma mulher participa num encontro familiar junto ao Lago Léman, em Genebra, quando elementos fortuitos da conversa provocam uma espécie de suspensão mental que a conduz às origens magrebinas dos seus antepassados. De repente, ocorrem-lhe «lugares de areia» nunca vistos directamente (viveu desde a infância nos Grands Boulevards de Paris) mas que lhe induzem uma «falsa recordação», memória em que vê a avó a espremer leite das tetas de uma cabra para uma bacia de zinco. Este súbito lampejo, causador de um «profundo sentimento de si própria», vem de onde? «Do nada, aquele sentimento provinha do nada, tal como a sua recordação, que a bem dizer não era uma recordação, mas a recordação de uma história.» Escapando da festa para uma paisagem nas montanhas, onde em tempos foi feliz com o marido, confronta-se com as suas angústias (não conseguiram fazer um filho em 15 anos de casamento). Aproxima-se então, ameaçadora, uma manada de cavalos. Os animais cercam-na e começam a girar à sua volta, cada vez mais rápido. É o momento da catarse, rapidamente desfeita diante de um horizonte circular: «era essa a única coisa em que conseguia pensar, que o horizonte é circular, como se o círculo desenhado pelos cavalos se tivesse dilatado até ao infinito, transformando-se no horizonte». Estamos perante um efeito de ampliação metafísica, característico das ficções de Tabucchi, mas que surge nestes textos de forma muito subtil, quase inadvertidamente.
Em vários dos contos, o escritor italiano parece preferir uma aproximação a realidades que se desfizeram, vítimas do seu próprio imobilismo histórico – e por isso revisitamos o cinzentismo absurdo dos regimes comunistas do Leste europeu (Hungria, Roménia, Polónia, RDA). Um antigo agente da Stasi, responsável pela vigilância a Bertolt Brecht nos anos 50, vagueia pela Berlim dos nossos dias e suspira: «Ah, o muro, que saudades. Tinha-o ali, sólido, concreto, assinalava uma fronteira, marcava a vida, dava a segurança de uma pertença.» Agora essa pertença esfumou-se e o controlador (que o omnipotente Estado também controlava) pode por fim confessar-se à estátua do dramaturgo, que lhe deu uma «trabalheira» e sobre o qual sabia tudo: «Cretino, (…) eu era teu amigo, gostava de ti, surpreende-te que eu gostasse de ti?” (Os mortos à mesa). Não menos irónico é o desabafo de um antigo resistente húngaro, proscrito depois da invasão soviética de 1956, segundo o qual os melhores dias da sua vida foram os que passou em Moscovo, já na velhice, em visita a um antigo inimigo (Entre generais).
O melhor conto do livro é o último: Contratempo. Um escritor imagina a viagem de um homem que, chegado a Creta para participar num convénio, se decide pela direita num cruzamento em que devia virar à esquerda, acabando num mosteiro perdido nas montanhas, depois de experimentar uma «leveza insólita». É uma história simples mas, para conseguir escrevê-la, o escritor sente falta do «princípio da realidade» e por isso viaja ele próprio para Creta, refazendo – ou inventando – o percurso da personagem. Quando experimenta um déjà vu e o efeito se prolonga, como se uma «membrana» envolvesse «as árvores, os montes, as sombras do entardecer, o próprio ar que respirava», estamos já no mais puro território tabucchiano: «Sentiu-se tomado por uma forte vertigem e receou ser sugado por ela, mas foi coisa de um instante porque, ao dilatar-se, aquela sensação sofria uma estranha metamorfose, como se uma luva, ao voltar-se do avesso, levasse consigo a mão que protegia. Tudo mudou de perspectiva, num ápice experimentou a embriaguez da descoberta, uma náusea subtil e mortal melancolia. Mas também um sentimento infinito de libertação, como quando percebemos finalmente qualquer coisa que sabíamos desde sempre e queríamos ignorar: não era o já visto que o engolia num passado nunca vivido, ele é que o capturava num futuro ainda por viver.”

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Há uma razão para os livros velhos cheirarem bem

E é química: «The ink and chemicals used in the production of a book reacts with heat, moisture and light, causing the organic materials to break down. This is especially true for books with high acidity, like those made during the 19th and 20th centuries.» Os investigadores descrevem os compostos orgânicos voláteis que se libertam quando folheamos um volume antigo desta forma: «A combination of grassy notes with a tang of acids and a hint of vanilla over an underlying mustiness.» Os críticos enófilos não diriam melhor.

Pedro Mexia na ‘Avenida de Poemas’

Logo à noite, a partir das 21h30 (no palco do Teatro Tivoli), o crítico literário, cronista, poeta e blogger Pedro Mexia falará com a Raquel Marinho e comigo sobre os poemas que mais o marcaram ao longo da vida. Além da leitura desses poemas (de autores como Alexandre O’Neill, Mário Cesariny, Ruy Belo ou Manuel António Pina), haverá canções de Leonard Cohen, The Smiths e Bob Dylan.

World Book Night

É logo à noite.

Rancière pré-eleitoral

Agora que já se conhecem os resultados da primeira volta das eleições presidenciais francesas, vale a pena ler esta entrevista do filósofo Jacques Rancière (dada ao Nouvel Observateur, a meio da semana passada) sobre os limites da democracia representativa.

Faltam poetas em Londres

More than 20 writers are still needed for an event to include a poet from every nation competing in the 2012 Olympics and Paralympics.

Dia Mundial do Livro

É hoje.

João Queiroz na Letra E

O encontro de ontem, resumido e ilustrado aqui.

O que aí vem (Dom Quixote)

Nada Está Escrito, de Manuel Alegre; Caligrafia dos Sonhos, de Juan Marsé; O Testamento Final da Bíblia Sagrada, de James Frey; e reedições de Um Espião Perfeito, de John Le Carré, e As Três Vidas, de João Tordo.

Jennifer Egan: “Este livro é peripatético, está sempre a deambular”

Ao quinto romance, Jennifer Egan (n. 1962) atingiu uma súbita – e para ela inesperada – consagração literária. A Visit From the Goon Squad, editado por estes dias pela Quetzal, com o título A Visita do Brutamontes, não só recebeu críticas entusiásticas na imprensa dos EUA como arrebatou, em 2011, dois dos mais cobiçados prémios a que os escritores norte-americanos podem aspirar: o National Book Critics Circle Award e o Pulitzer de Ficção. Parte da surpresa de Egan prende-se com a natureza não-linear do seu livro, uma reflexão sobre a passagem do tempo e os efeitos que provoca numa vasta galeria de personagens, com o cenário de decadência da indústria musical como pano de fundo. Em conversa telefónica, a partir da sua casa em Brooklyn, Nova Iorque, a autora, que até agora vira apenas um dos seus romances editados em Portugal (A Ruína, Saída de Emergência) explicou a génese de A Visita do Brutamontes e o seu método de trabalho, que passa pela escrita à mão das primeiras versões do texto, de forma a resgatar ideias ainda libertas do açaime da racionalidade.

Este é um livro sobre o tempo, os seus efeitos e a forma como é percepcionado por pessoas muito diferentes. O que a levou a escolher este tema, um dos mais recorrentes e difíceis de abordar em literatura?
Eu sinto que não escolhi propriamente o tema do livro. Foi ele que me escolheu a mim. Mas o interesse pela questão do tempo já existia e deve-se muito a Marcel Proust. Quando era mais nova, aí por volta dos 20 anos, tentei ler o Em Busca do Tempo Perdido, só que não consegui passar dos dois primeiros volumes. Aos vinte e poucos anos, quem é que se preocupa com a noção de tempo?

Nessa altura julgamo-nos eternos.
Sim. O tempo parecia-me um tema muito entediante. O que me atraía era o amor obsessivo, isso sim. Acontece que mais recentemente, quando andava perto dos 40 anos, voltei à obra-prima de Proust com alguns amigos escritores e desta vez li tudo até ao fim. Foi uma revelação. Comecei a pensar que de certa forma todos os romances são sobre o tempo. A passagem do tempo é sempre uma componente essencial de qualquer processo narrativo. Agora, em A Visita do Brutamontes, quis justamente fazer do tempo a questão central do livro.

Ao contrário de Proust, porém, não nos centramos no tempo de um determinado indivíduo, mas nos tempos e memórias de uma vasta galeria de personagens, que vão assumindo sucessivamente o protagonismo e a narração do romance.
Sim, é verdade. E está aí a diferença essencial. Foi uma decisão consciente. Quis evitar a nostalgia. O meu primeiro romance é muito nostálgico. É sobre pessoas que não viveram os anos 60, esses tempos míticos da cultura americana, e sentem falta dessa experiência. O problema da nostalgia é que põe o livro a olhar para trás, de um momento preciso no tempo para outro. Aliás, é o que acontece no Proust, mas nesse caso justifica-se porque o tempo histórico sobre o qual ele escreve como que o exige. No fundo, ele está a contemplar o desaparecimento do século XIX na Europa, que foi uma mudança cataclísmica, um autêntico sismo. Mas eu não quis centrar o meu livro numa só perspetiva individual.

A narrativa vai da São Francisco dos anos 70 até à Nova Iorque dos anos 2020.
Algumas das histórias projetam-se no futuro, embora isso tenha acontecido sem que eu o planeasse. Eu só quis espreitar o futuro de uma determinada personagem, o Alex, que surge logo no primeiro capítulo. A lógica do livro é a de seguir personagens periféricas, como o Alex, e entrar nas suas vidas. De início, vêmo-lo de fora e ele é uma figura razoavelmente opaca. Tive vontade de saber em que tipo de pessoa Alex se tornaria e isso só era possível projetando-o no futuro, porque ele é muito novo.

Há outras personagens sujeitas a esses vislumbres do futuro, por vezes muito curtos, quase só um lampejo.
É verdade. Mas não se pode abusar desse espreitar lá para a frente, que tem qualquer coisa de sádico. Eu cheguei ao futuro porque queria seguir Alex até à meia-idade. Quando lá cheguei, apercebi-me que fazia sentido, mas não houve um desejo inicial de escrever sobre o futuro. O que eu queria mesmo era que cada capítulo tivesse uma abordagem narrativa diferente e uma voz completamente distinta. O objetivo era que os capítulos não parecessem fazer parte do mesmo livro.

Essa intenção experimental esteve presente desde a primeira hora?
Esteve. Na verdade, eu comecei o livro sem saber que estava a escrever um livro. Comecei quase inadvertidamente. Mas assim que soube o que estava a fazer, houve uma série de regras que se estabeleceram por si mesmas.

Ficamos com a sensação de que o romance foge do seu próprio centro, contrariando as expectativas do leitor. É como se estivesse sempre a escapar de si mesmo. Também escapou à autora?
Quando eu sentia que ele estava a querer assumir uma forma mais tradicional, ou mais previsível, o meu instinto era afastar-me dessa solução. Tinha consciência de que a grande força do livro estaria nessa recusa. Se ele seguisse as vias narrativas convencionais, não teria nada que o distinguisse. Houve em mim uma reacção quase visceral contra a previsibilidade. É por isso que muitas cenas não chegam a ser descritas. O meu critério foi este: se o leitor pode imaginar por si as cenas, então não preciso de as escrever. Elas estão lá, implícitas. Não quis gastar a minha energia a repetir o que todos já lemos algures.

Não temeu que para alguns leitores essa estratégia fosse demasiado exigente?
Sim, mas todos os meus livros correm esse risco.

Existe uma complexidade no romance que se assemelha à complexidade da própria vida.
Concordo. A vida real é muito áspera, muito caótica. Podemos encontrar-lhe uma ordem, mas há sempre nisso qualquer coisa de artificial. Eu quis mostrar o esforço que fazemos para criar essa ordem. É uma questão de tentativa e erro. Cada coisa que sai bem exige vários falhanços. Por exemplo, eu quis escrever um capítulo todo em verso, num registo épico. Não resultou porque sou péssima poeta.

Já o capítulo escrito em PowerPoint resultou às mil maravilhas.
Pois. Aí acho que me consegui safar bastante bem.

Faz sentido que uma rapariguinha de 12 anos criasse aquilo.
Sim. O facto de ela ter 12 anos é determinante. Esse é um capítulo que eu não poderia ter escrito de outra maneira. É muito sentimental, arriscava-se a ficar piroso. Na verdade, acontece pouca coisa nesse capítulo, a situação ficcional é bastante estática, por isso o PowerPoint, com as suas descontinuidades, adequa-se. Em prosa convencional, aquela história familiar não seria interessante para mim.

É verdade que escreve à mão?
É. Mas só os textos literários. Para o jornalismo, utilizo o computador. A questão é que o bom material é aquele que me chega do inconsciente. Por isso, o meu processo criativo é todo direcionado para permitir que o inconsciente tome o controlo das operações, porque ele trabalha melhor. A minha caligrafia é quase ilegível e nunca sei bem o que estou a escrever, o que funciona para mim. Depois, faço muitas, mas mesmo muitas, versões do livro. Porque ao escrever deste modo quase automático, a maior parte do que sai é mau.

Acaba por ser um processo lento?
Não. Eu escrevo muito depressa. Levo é uma eternidade a rever. Na verdade, demoro vários anos a escrever um livro. Ando às voltas, às voltas, às voltas. Seria mais rápido se fosse capaz de escrever diretamente no computador, mas não consigo.

Durante esses anos, nunca se cansa do livro, nunca se farta das personagens?
Claro que sim. Isso faz parte. Não aconteceu tanto neste livro, porque ele tem uma espécie de qualidade peripatética, está sempre a deambular e nunca fica muito tempo com cada personagem. Por isso não me fartei delas. A questão da fadiga pôs-se mais com outros livros. Todos os meus romances acabam por ter muitas personagens e relações complexas entre elas. Parte do meu método consiste em evitar esse cansaço.

O processo moroso da revisão dá-lhe prazer ou é só uma tortura?
Não, não é tortura nenhuma. Adoro fazer isto. Se estiver a correr bem, não há nada no mundo que seja mais divertido. Mas se não estiver a correr bem, pode ser um inferno.

A Visita do Brutamontes tem uma parte A e uma parte B, com 13 capítulos que funcionam como unidades autónomas. É como se fossem canções a ocupar os dois lados de um velho disco de vinil, não é?
Absolutamente. De início, não tive essa noção, mas aos poucos o romance ganhou essa forma: a de um álbum conceptual.

Várias das personagens do livro são músicos ou produtores musicais. Que ligações é que tem a esse mundo?
Para ser franca, nenhumas. Nunca me envolvi nesses domínios. Como jornalista, sempre me interessei pela indústria musical, mas nunca tive oportunidade de fazer um trabalho de fundo sobre o assunto. Quando escrevi o segundo capítulo, centrado no Bennie e na sua difícil transição do analógico para o digital, tive de passar muito tempo ao telefone com pessoas do meio, só para compreender aquilo de que estava a falar. Nessas conversas, apercebi-me do modo radical como este negócio mudou e de como essa mudança se tornou irreparável. Mas a música atravessa o romance de outras maneiras. Todos sabemos que a música nos transporta para o passado, como quase mais nada consegue. É uma espécie de máquina do tempo. Quando oiço músicas antigas no meu iPod, estou sempre a confrontar-me com as memórias que a elas ficaram associadas.

Sendo este um romance nova-iorquino, é interessante verificar que surgem várias referências ao 11 de Setembro, embora o ataque às torres gémeas nunca seja explicitamente mencionado.
Porque é assim que as coisas se passam em Nova Iorque. As pessoas já não trazem esse tema para a conversa. É estranho. Às vezes, com alguém de fora da cidade, podem falar disso. Mas quando nos perguntam onde estávamos no 11 de Setembro, isso causa-nos um grande desconforto. Não é um assunto de que falemos em conversas normais, embora esteja sempre lá, nunca deixe de estar presente. É impossível esquecer uma coisa daquelas.

Estava em Nova Iorque naquele dia?
Estava. Curiosamente, o modo como a cidade funciona no livro é o modo como funciona na minha vida. É um lugar para onde as pessoas vão porque têm grandes sonhos. Ou simplesmente porque querem estar perto de pessoas com grandes sonhos. Eu mudei-me para lá quando tinha 25 anos.

No seu caso, a aventura correu bastante bem.
De início foi muito difícil, mas não me posso queixar.

O facto de ter conquistado o Pulitzer mudou alguma coisa na sua vida?
Sim e não. O que é essencial continua exatamente na mesma. Tenho dois filhos, sou casada. Mas em termos profissionais acho que mudou algumas coisas, porque consegui mais leitores para este livro do que para os outros. Neste último ano, passei muito tempo a tentar explorar ao máximo a oportunidade. Estou nisto há tempo suficiente para saber como é raro conseguir este tipo de sorte. E a probabilidade de voltar a acontecer é zero.

Já está a trabalhar noutro romance?
Sim, mas muito lentamente.

Sente pressão?
Como assim pressão? Eu ganhei o Pulitzer, já não preciso de provar nada a ninguém. (Risos) Mas sei que o próximo livro não vai ser amado como este foi, porque estas coisas nunca acontecem duas vezes. Além disso, os meus livros são sempre muito diferentes uns dos outros, pelo que os leitores tendem a ficar desiludidos. O meu romance anterior, por exemplo, era um thriller gótico (A Ruína) e os leitores de thrillers góticos adoraram-no. Quando leram este, ficaram furiosos: «Mas que raio vem a ser isto? Onde é que está o castelo?» Já estou habituada.

O que pensa da literatura norte-americana dos nossos dias?
Sinceramente, não me cabe fazer essa análise. Eu admiro vários escritores contemporâneos mas não penso muito no que eles estão a fazer. Gosto de ler coisas boas, mas a mim interessa-me fazer coisas que não sejam como as que eu já li. Eu e o Jonathan Franzen, por exemplo, temos muito em comum. Somos da mesma geração, crescemos no Midwest, temos algumas preocupações semelhantes. Mas, embora o considere muito bom escritor, não creio que o meu trabalho tenha alguma coisa a ver com o dele.

Como é que vê o futuro do mundo da publicação e do livro, na era digital?
Para mim, o debate sobre se os e-books são bons ou maus é ridículo. Eles estão aí e vieram para ficar. Podemos queixarmo-nos, mas não podemos impedir que as pessoas os leiam. E dar sermões às pessoas nunca altera o que elas fazem. Dito isto, preocupam-me assuntos relacionados com estes. Como a pirataria. Se as pessoas começarem a fazer downloads à borla, teremos um grande problema. Veja-se o que aconteceu à indústria da música. A questão é saber de que forma o mundo editorial vai sobreviver a estas mudanças. A Amazon, por exemplo, pretende publicar livros directamente e eliminar o editor. Há bons argumentos a sustentar essa vontade, mas eu acho que ficaríamos a perder muito sem a figura do editor. Na verdade, esses não são os meus problemas. O meu trabalho é escrever bons livros. Enquanto as pessoas continuarem a ler livros, eu terei trabalho. E o meu trabalho é fazer livros que as pessoas não consigam deixar de ler.

A incerteza do que aí vem é um desafio para os escritores?
Exactamente. Em vez de nos perdermos em medos e queixas, devíamos assumir a nossa responsabilidade. Se um livro for realmente bom, e puxar as pessoas lá para dentro, e for relevante para a vida dos leitores, sobreviverá. Acho que a minha energia deve ser gasta nisso, em fazer os melhores livros possíveis, em vez de maldizer tendências culturais que estão em curso e ninguém vai conseguir alterar.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Deus já foi mulher. Antes de se exilar para longe da sua criação e quando ainda não se chamava Nungu, o atual Senhor do Universo parecia-se com todas as mães deste mundo. Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. O meu avô diz que esse reinado há muito que morreu. Mas resta, algures dentro de nós, memória dessa época longínqua. Sobrevivem ilusões e certezas que, na nossa aldeia de Kulumani, são passadas de geração em geração. Todos sabemos, por exemplo, que o céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço de firmamento volta a definhar.
Talvez por essa razão a minha mãe, Hanifa Assulua, não tenha parado de contemplar as nuvens durante o enterro da sua filha mais velha. A minha irmã, Silência, foi a última vítima dos leões que, desde algumas semanas, atormentam a nossa povoação.
Porque morreu desfigurada, deitaram o que lhe sobrava do corpo sobre o lado esquerdo, com a cabeça virada para o Nascente e os pés virados para Sul. Durante a cerimónia, a mãe parecia dançar: vezes sem conta ela se inclinou sobre um cântaro feito por suas próprias mãos. Aspergiu água sobre a terra em volta que, depois, calcou com ambos os pés, com o mesmo embalo de quem semeia.»

[in A Confissão da Leoa, de Mia Couto, Caminho, 2012]

Exercícios a partir de Spinoza


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É logo à tarde, no Espaço Llansol.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Tempo Envelhece Depressa, de Antonio Tabucchi (Dom Quixote), por José Mário Silva
Dançar a Vida – Memórias, de Jorge Salavisa (Dom Quixote), por Cristina Margato
Ensinar o Caminho ao Diabo, de Miguel-Manso (Edição de Autor), por Pedro Mexia
A Revolta de Beja, de José Hipólito dos Santos (Âncora), por José Pedro Castanheira
Uma Sociedade Funcional, de Peter F. Drucker (Dom Quixote), por Luís M. Faria
O Universo Explicado aos Meus Netos, de Hubert Reeves (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
– Escolhas de Alexandra Lucas Coelho

Insolvência da CESodilivros

Do editor da Antígona, Luís Oliveira, recebi há pouco este comunicado:

«A CESodilivros, a maior distribuidora de livros em Portugal, no mercado há mais de vinte anos, acaba de pedir a insolvência, deixando em grandes dificuldades e com muitas dívidas as mais de quarenta editoras que distribuía, incluindo a Antígona e a Orfeu Negro.
Os administradores desta empresa, o Sr. José da Ponte e o Dr. João Salgado, o patrão da mesma e também proprietário da Coimbra Editora, têm-se comportado como descarados malfeitores. Quase todas as distribuidoras de livros faliram nos últimos trinta anos.
Há aqui um erro; onde está esse erro?
Os meios de comunicação social têm estado silenciosos, indiferentes à desgraça dos editores e do pessoal trabalhador da CESodilivros.
Jornais e televisões andam muito ocupados com as banalidades do Governo e afins.
Deseja-se que a partir desta comunicação acordem para este gravíssimo problema cultural, ficando a Antígona disponível para fornecer todas as informações necessárias.
Lisboa, 20 de Abril de 2012»

João Rui de Sousa na Biblioteca Nacional

Prémio Vida Literária 2012, até dia 28.

A nova Teorema

Em tempo de crise, a Teorema vai apostar em novos autores portugueses e estrangeiros, com duas editoras a preencherem o vazio deixado pela saída de Carlos da Veiga Ferreira: Maria do Rosário Pedreira (portugueses) e Carmen Serrano (estrangeiros).

O som do tempo a passar

A Visita do Brutamontes
Autora: Jennifer Egan
Título original: A Visit from the Goon Squad
Tradução: Jorge Pereirinha Pires
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 371
ISBN: 978-989-722-004-3
Ano de publicação: 2012

No primeiro capítulo de A Visita do Brutamontes, romance que deu a Jennifer Egan o Pulitzer de Ficção e o National Book Critics Circle Award de 2011, é-nos apresentada Sasha, rapariga cleptomaníaca que rouba uma carteira na casa de banho de um hotel nova-iorquino, antes de se apropriar de um papel sem importância que pertence a Alex, parceiro sexual de ocasião que ela decidiu levar naquela noite para o seu apartamento e nunca mais verá. Sasha trabalha como assistente de Bennie, um produtor musical decadente que está no foco do segundo capítulo, durante o qual o vemos várias vezes deitar flocos de ouro no café, entre outras extravagâncias típicas de quem tenta resistir à perda de estatuto. Bennie começou por ser o baixista medíocre de uma banda inaudível, depois trepou na hierarquia da indústria musical ao descobrir um grupo que vendeu vários discos de platina (os Conduits), mas agora está num impasse. Ele sente-se cúmplice da passagem do analógico para o digital, esse «holocausto estético» que suga a vida a tudo o que foi «coado através dos seus microscópicos interstícios», odeia o seu trabalho, é assaltado por «memórias vergonhosas» e perdeu o «impulso sexual». A música impingida ao público pela sua editora, entretanto vendida a um grande grupo económico, é inerte e fria como «os quadrados de néon dos escritórios que retalhavam o azul do crepúsculo». À melancolia do arrependimento, Bennie tenta então sobrepor o desejo que Sasha lhe desperta.
Chegados aqui, é natural que os leitores criem a expectativa de que a narrativa continue a acompanhar Sasha e Bennie nos seus dilemas, nas suas vidas passadas, nas suas interacções com outras personagens, mas nunca os afastando muito do primeiro plano. Acontece que o objectivo de Jennifer Egan consiste precisamente em pulverizar essa expectativa – e é no modo brilhante como o faz que reside o triunfo absoluto de A Visita do Brutamontes. Se no terceiro capítulo ainda assistimos a um regresso à cena punk de São Francisco no final dos anos 70, quando Bennie perde uma namorada para o guitarrista da tal banda inaudível (os Dildos Flamejantes), a partir do quarto capítulo a linearidade narrativa estilhaça-se de vez. Subitamente, estamos num safári em África, com personagens novas que circulam em torno de Lou, uma figura que aparecera antes apenas de forma marginal.
Compreendemos então que este é um romance centrífugo, sempre a divergir do que seria o seu caminho previsível. Em vez de seguir em frente, ele anda para os lados, avança para a sua própria periferia. Egan consegue isto com mudanças abruptas de tom, de narrador, de atmosfera, de paisagem e de tempo histórico. Tão depressa assistimos ao afogamento narrado na segunda pessoa de um amigo de Sasha dos tempos da faculdade, como à operação de limpeza da imagem pública de um «ditador genocida» num país tropical, conduzida por uma relações públicas caída em desgraça. E se um capítulo assume a forma de perfil jornalístico sobre uma celebridade menor, pretexto para um pastiche de David Foster Wallace (a que não falta a erudição proliferante, a ironia amarga, as muitas notas de rodapé), outro capítulo reduz, com brilho formal e espantosa capacidade de síntese, a vida familiar de uma menina de 12 anos aos esquemas descontínuos de um ficheiro de PowerPoint.
O mais espantoso nesta ficção, algures entre o romance de estrutura heterodoxa e a colectânea de contos que funcionam como unidades autónomas, é que Egan nunca perde o sentido do tema que atravessa todas as suas histórias dispersas: o tempo enquanto agente de mudança que tanto pode maltratar-nos (é ele o «brutamontes» do título) como redimir-nos, às vezes inesperadamente. O livro termina numa Nova Iorque futura, na década de 2020, com um concerto junto ao ground zero reconstruído. A música que fica a pairar, porém, não é a da slide guitar de Scotty, a improvável estrela inventada por Bennie, mas antes o «zumbido» da cidade, mistura de taipais a serem corridos, cães a ladrar «roucamente» e camiões a passar sobre as pontes, que é o «som do tempo a passar».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Junot Díaz na New Yorker

O autor de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao é o ficcionista da semana na revista onde escrevem os melhores ficcionistas norte-americanos. O conto, Miss Lora, começa assim:

«Years later, you would wonder if it hadn’t been for your brother would you have done it? You’d remember how all the other guys had hated on her — how skinny she was, no culo, no titties, como un palito, but your brother didn’t care. I’d fuck her.
You’d fuck anything, someone jeered.»

Voltar a Borges

Aconteceu-me com Jorge Luis Borges algo que não voltou a acontecer com mais ninguém. Quando o escritor argentino morreu, em Junho de 1986, eu tinha 14 anos e uma apetência voraz por tudo o que fosse «matéria escrita». Lia muitos livros (aproveitando as tardes infinitas dos infinitos verões do início da adolescência), mas também lia de ponta a ponta todos os jornais que me fossem parar às mãos. Para o vespertino Diário de Lisboa nunca reservava menos do que duas ou três horas diárias (quando finalmente o dobrava e ia lavar as mãos, antes do jantar, o lavatório enchia-se de tinta negra); os sábados, passava-os até meio da tarde a devorar com método, sempre pela mesma ordem, os vários suplementos do Expresso, não suspeitando que um dia viria a escrever naquelas páginas. Creio que foi pelo DL que soube da morte de Borges. Na altura eu acompanhava religiosamente o Mundial de Futebol no México (Portugal fora eliminado por Marrocos três dias antes), mas de súbito passou a existir outro argentino prodigioso, para além de Maradona.
Nos obituários e textos evocativos, eram recordados o génio literário, a erudição, a vida rodeada de livros por todos os lados, a cegueira, os temas obsessivos (bibliotecas, tigres, eternos retornos), bem como as sinopses de alguns dos melhores contos. Lembro-me de pensar: «Eu tenho de ler isto. Eu tenho de ler Borges.» Ao mesmo tempo, evitei os ímpetos do entusiasmo. Não sei porquê, meti na cabeça que era demasiado cedo para entrar em tão fabuloso labirinto. Inconscientemente, estava a tentar fugir à melancolia de Bernardo Soares, que no Livro do Desassossego admite: «ter já lido os Pickwick Papers é uma das grandes tragédias da minha vida». Tragédia porque nunca mais voltamos a ler pela primeira vez um livro amado (como nunca mais voltamos a ouvir pela primeira vez os últimos quartetos de Beethoven). Não quis desperdiçar a abordagem inicial a um autor que poderia vir a ocupar um lugar importantíssimo, senão o lugar cimeiro, no meu panteão literário (como veio a acontecer). Por isso adiei Borges. Senti a urgência de o ler aos 14 anos, mas esperei pelos 18, como quem aguarda a maioridade para descobrir os grandes prazeres.
Já na Faculdade de Ciências, um amigo do curso de Biologia andava pelos corredores da Escola Politécnica com Borges debaixo do braço, não escondendo um sorrisinho metafísico. Não aguentei mais. Atirei-me de cabeça. Pedi-lhe emprestada a Nova Antologia Pessoal (Difel), depois o Ficções na edição da Livros do Brasil (o maior choque térmico intelectual da minha vida). Fiquei apanhado de vez, irremediavelmente convertido à causa borgesiana. Depois, só descansei quando devorei tudo, primeiro livro a livro (em edições baratas da Alianza, compradas nas idas a Espanha), mais tarde nos quatro volumes das Obras Completas, publicadas pela Teorema (1998-1999). Borges é daqueles autores a que podemos sempre regressar, uma e outra vez ao longo da vida, porque a sua escrita – ou a percepção que dela temos – evolui connosco, vai reflectindo aquilo que em nós se altera com a acumulação de experiências, de leituras e conhecimentos entretanto adquiridos. Ler Borges aos 40 anos não é a mesma coisa do que ler Borges aos 18 (ou, claro está, aos 14). Tal como não será lê-lo aos 86.
Agora que a Quetzal inaugurou uma colecção Jorge Luis Borges, O Livro de Areia voltou à minha mesa de cabeceira. Há dias reli o primeiro conto: O Outro. É uma variação sobre o célebre Borges e Eu (de O Fazedor). Em 1972, o narrador Borges senta-se em Cambridge (Boston), diante do rio Charles, e encontra-se consigo mesmo, isto é, com o Borges de 1918, sentado num banco em Genebra, «a uns passos do Ródano». Heraclito e o rio do tempo são evocados, claro. O Borges de 72, maduro e reaccionário, olha com benigna condescendência para o jovem cujos versos adolescentes pretendem cantar «a fraternidade de todos os homens», essa «abstracção». E remata: «Só os indivíduos existem, se é que alguém existe. “O homem de ontem não é o homem de hoje”, sentenciou certo grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou de Cambridge, somos talvez a prova disso.» Nós quatro, diria eu.

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

Crescer no Irão

Persépolis – A História de uma Infância e a História de um Regresso
Autora: Marjane Satrapi
Título original: Persepolis
Tradução: Duarte Sousa Tavares
Editora: Contraponto
N.º de páginas: 351
ISBN: 978-989-666-112-0
Ano de publicação: 2012

Apesar do tremendo sucesso internacional de Persépolis (2003), a novela gráfica da iraniana Marjane Satrapi, e do impacto talvez ainda maior do filme de animação que a própria co-realizou em 2007, com Vincent Paronnaud, este livro de culto ainda não fora até agora disponibilizado ao público português em versão integral. Originalmente dividido em quatro volumes, Persépolis tem sido editado internacionalmente em dois: um primeiro intitulado A História de uma Infância, seguido d’A História de um Regresso. A editora Polvo, especializada em BD, chegou a publicar A História de uma Infância há nove anos, mas o segundo tomo nunca viu a luz, para desalento dos muitos admiradores portugueses de Satrapi. Agora, a Contraponto resolveu de uma penada esta lacuna, ao juntar o conjunto da obra num só volume.
Na verdade, esta opção é a melhor para o leitor, na medida em que permite uma percepção imediata e continuada do espantoso percurso de uma rapariga iraniana, da infância sob o espectro do fanatismo religioso imposto pela revolução islâmica até à maturidade precoce, aos vinte e poucos anos, depois de uma adolescência atribuladíssima, um casamento desfeito e uma série de outras experiências pessoais, narradas num tom que vai oscilando entre o mais puro sarcasmo e a melancolia de quem aprende à sua própria custa como podem ser dolorosas as arestas da vida quotidiana.
A narrativa de Persépolis começa em 1980, o ano em que Marjane, então a terminar a escola primária, se viu forçada pela primeira vez a usar o véu. A família Satrapi, liberal, opõe-se às mudanças e manifesta-se na rua contra a nova ordem religiosa, mas o processo de condicionamento das liberdades individuais já está em marcha. Esses primeiros anos da chamada Revolução Islâmica são vistos sempre pelo olhar cândido da criança que Marjane era, uma menina que sonhava vir a ser profeta quando crescesse e que misturava a fé com o materialismo dialéctico. Aos poucos, porém, ela vai descobrindo a verdade crua sobre a repressão política e os crimes de Estado, uma longa história que afecta a família há várias gerações. O avô materno, por exemplo, estivera preso por afrontar o poder do Xá. Já o heróico tio Anoosh, irmão do pai, detido por espionagem, pede a dada altura para receber a sobrinha na derradeira visita prisional, oferecendo-lhe um cisne esculpido em pão, antes de ser executado.

Na sua hiper-consciência política e lucidez crítica, a pequena Marjane faz por vezes lembrar a Mafalda, de Quino, que mais ou menos no mesmo período histórico (os anos 70 do século passado) também comentava o estado do mundo com desarmante autoridade moral. À medida que Marjane cresce e que o fundamentalismo vai alterando os hábitos das pessoas, tendo o conflito militar com o Iraque como pano de fundo, a sensação de sufoco aumenta. A protagonista não deixa por isso de experimentar as crises e dilemas típicos da adolescência. Na escola, desconstrói os rituais nacionalistas e o culto dos mártires. Nas festas, exibe uma camisola cheia de buracos ao melhor estilo punk. Falta às aulas para ver rapazes nos cafés. Pede aos pais para lhe trazerem, do estrangeiro, posters da Kim Wilde e dos Iron Maiden. E consegue inventar a alegria por entre os bombardeamentos, o controlo dos guardiães da Revolução e as falhas de electricidade.

Aos 14 anos, a sua natureza rebelde empurra-a sistematicamente para situações de confronto com as autoridades públicas. Preocupados com o feitio da filha, incapaz de conciliar a educação recebida em casa com a obediência forçada a normas sociais absurdas, os pais de Marjane decidem enviá-la para a Europa. É com a chegada à Áustria que se inicia a segunda parte do livro. Sozinha numa terra estranha, a adolescente iraniana sofre todo o tipo de choques culturais. Os obstáculos sucedem-se: linguísticos, sociais, amorosos. Mas ela acaba por adaptar-se, apura o sentido da sobrevivência em território hostil, cria um círculo de amigos, desilude-se, entedia-se, revolta-se, entusiasma-se, assiste entre espantada e assustada às metamorfoses do seu corpo, sofre as primeiras desilusões sentimentais, segue enfim as etapas, boas e más, que levam à formação do carácter. Embora difícil, marcado por momentos de grande tristeza e solidão, culminando num episódio de indigência que podia ter sido fatal, o período europeu corresponde à porta para a idade adulta e, paradoxalmente, à necessidade de um regresso às origens.
De volta a Teerão, Marjane sente muita dificuldade em encontrar um lugar numa sociedade em que não se reconhece. Fica deprimida, irritada com a futilidade das amigas, zangada com o rumo dos seus dias. Até que conhece Reza, um rapaz com quem acaba por casar, embora ao fim de um mês já durmam em quartos separados. As últimas páginas do livro acompanham o fim da relação e o divórcio, terminando com a segunda saída de Marjane, desta vez para França, em 1994, sete anos antes da edição do primeiro volume de Persépolis.
Além da expressividade das suas pranchas a preto-e-branco, o que torna irresistível a arte narrativa de Satrapi é a forma como a vida da autora nos surge de forma realista e verosímil, poucas vezes grandiosa, quase sempre banal, conseguindo-se através dela vislumbrar os grandes movimentos e contradições da sociedade iraniana, muito mais complexa do que sugerem quase todos os discursos ocidentais sobre a antiga Pérsia.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Bookstagram

Enquanto utilizador do Instagram, eu costumo fotografar páginas dos livros que ando a ler, frases ou versos que me apetece partilhar com quem navega por esta rede social feita de imagens. Hoje aprendi que há uma hashtag própria para quem desafia os outros com as suas leituras (#bookstagram) e que eu no fundo já andava a participar nesse jogo malgré moi.

Uma grande ideia

«Suppose someone took every meaningful detail from all the books you love. Every song mentioned, every person, every food or place or movie title. And what if they did that for all the books everyone else loves, too. The ones you’ve never heard of. Suddenly you’ve got a whole world of seemingly random people, places and things, all gathered in one place.
Together they create something vast, wonderful and entirely new. A Storyverse. A place where details touch, overlap and lead you further. To new music to listen to. New movies to watch. Places to visit. People to know. And of course, new books to read. Getting started is simple. Just choose a book. See where it takes you.
»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Jennifer Egan, autora de A Visita do Brutamontes (Quetzal), e recensão ao livro, por José Mário Silva
Capitais, de Paulo Tavares (edição do autor), por António Guerreiro
Onde Moram as Casas, de Carla Maia de Almeida e Alexandre Esgaio (Caminho), por Sara Figueiredo Costa
A Filha do Optimista, de Eudora Welty (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Breviário das Más Inclinações, de José Riço Direitinho (Quetzal), por Pedro Mexia
– Escolhas de Karla Suárez

Pigmalião na neve

O Lago
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 129
ISBN: 978-989-641-266-1
Ano de publicação: 2012

Nos últimos livros de Ana Teresa Pereira, o teatro vem ocupando um lugar cada vez mais importante na densa rede de referências simbólicas da autora. Mas é em O Lago que se esbate de vez a fronteira – porosa e vagamente assustadora – entre palco e vida. Se na novela anterior (A Pantera), uma escritora (Kate) transformava o actor com quem se envolvia (Tom) em personagem de ficção, desta vez há um dramaturgo e encenador (também chamado Tom, o mais recorrente dos nomes-fétiches de ATP) que pretende converter uma actriz na própria essência da fugidia protagonista da sua peça. «Há algum tempo que ela usava as palavras representar e escrever como se fossem exactamente a mesma coisa», diz-se a propósito de Kate em A Pantera. Essa quase equivalência torna-se agora absoluta, através de uma subtil reformulação da frase: «Não há qualquer diferença entre escrever e representar.»
Na primeira parte do livro, assistimos à aproximação entre Jane, uma actriz mediana, ex-bailarina que transporta a marca do seu falhanço (um dia caiu do palco e feriu o tornozelo; por isso coxeia ligeiramente quando se sente «perdida» ou «com medo»), e Tom, o dramaturgo/demiurgo à procura de transcendência: «Queria um mundo que fosse completo e perfeito em si mesmo. Como um buraco no universo.» Obsessivo, ele imaginou uma mulher na cabeça, no papel, e necessita de um corpo que se lhe adapte, «material para ser modelado». Os sinais estão todos à vista. A Tom, «sempre o seduzira a história de Pigmalião». Ou seja, só concebe amar um ser por si criado. E se escolhe Jane, apesar da sua inexperiência, é porque ela tem «alguma coisa de Audrey Hepburn» (a protagonista de My Fair Lady).
A peça de Tom decorre num só cenário (alpendre, paisagem de neve, lago ao fundo), com um homem e uma mulher a conversarem «em terreno familiar», e depois «mais fundo, onde fazia escuro, era perigoso, e não havia caminho de volta». Para que o enigmático texto liberte a sua corrente subterrânea de horror («mas talvez houvesse felicidade no horror»), é preciso que Jane seja «completamente» a personagem e passe «para o outro lado». Uma metamorfose que acontece no lugar onde a peça foi escrita: a única casa de um «vale maldito», isolada do mundo pelos rigores do Inverno. É ali que Tom esculpe tudo: um passado, memórias, gestos; um dia que se repete, sempre igual. Esta aproximação a «algo de abstracto» (talvez divino) exige uma «espécie de loucura», o fechamento num território assombrado. E na literatura portuguesa ninguém conhece melhor tais rarefeitas paragens do que Ana Teresa Pereira.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Do prazer da releitura

Quinze autores anglo-saxónicos (entre os quais John Banville, John Gray, Hilary Mantel, Geoff Dyer, Philip Hensher) falam dos livros que mais releram, ou relêem, e porquê.

Kafka no Porto, este sábado


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«Se há escritor verdadeiramente inesgotável, esse escritor é Franz Kafka (1883-1924)», dizem eles. E dizem muito bem.

Quatro poemas de Miguel-Manso

ANTIMUNDO

Para o João Diogo

plágio manhoso do big-bang
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo

o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia

oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura

poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência

e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse ‘dia inicial inteiro
e limpo’ que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída

resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente

a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa

a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: ‘tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos’

um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi

***

PIAZZA SAN MARCO – ACQUA ALTA

às Musas não interessam
drenagens, deixam alagar livremente
com o que sobrevém: a água do instante
subjectivo

quando o poeta era uma fera luminosa
e Veneza, sobre a laguna, a porta para o Levante
com seu tráfego de peregrinos imateriais – que também traziam
as laranjas douradas, a seda, a musselina
porcelanas, aço, pimenta
incenso e alívios

a cidade detinha um colégio de sábios
que sabia, em dialecto próprio, ser a magia
este palácio mergulhado nos silêncios
meio submersos

e que apenas a ciência da leitura paulatina
poderá ser o escafandro glotal e sinal que soltará
da grosseria eloquente

o espanto oculto do poema

***

POEM NOT FOUND

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***

NEM TANTA COISA DEPENDE

preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama: a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê) outro poema

[in Ensinar o Caminho ao Diabo, edição do autor, 2012]

Porque devemos ler Homero em 2012?

Daniel Mendelsohn explica.

Em trânsito

E a Noite Roda
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 246
ISBN: 978-989-671-112-2
Ano de publicação: 2012

Mais do que a história difícil de dois amantes que nunca se chegam verdadeiramente a encontrar, E a Noite Roda, primeiro romance de Alexandra Lucas Coelho, é o relato belo e frágil de como uma extraordinária repórter arrisca trocar o terreno que conhece melhor – a realidade bruta mas concreta de um conflito internacional, testemunhado em Jerusalém, Gaza e Ramallah – pelos domínios muito mais incertos e obscuros da ficção, cartografando o que acontece a dois jornalistas, ela catalã, ele italiano (a viver em Bruxelas), depois de se apaixonarem um pelo outro, precisamente nos dias que antecederam a aguardada morte de Yasser Arafat.
Única narradora, cuja perspectiva das coisas se impõe do princípio ao fim, Ana começa a escrever para que a memória não se perca, para que a história com Léon, entretanto desaparecido, seja preservada, para que «exista». A uni-los estava «o desejo, o romance, o vendaval», uma certa impossibilidade de durar no tempo que os empurra para a experiência absoluta do sexo, forma de iludir a ameaça do vazio. «Fazemos as perguntas dos estranhos sem nunca termos sido estranhos. Há dois diálogos a acontecer ao mesmo tempo. As palavras são as de quem não sabe o suficiente, o silêncio é o de quem sabe demasiado. A nossa intimidade fica a pairar, como se não soubesse para onde ir.» E não sabe mesmo. Daí a fuga permanente, tanto geográfica (reencontros nos lugares mais díspares) como emocional (uma comunicação que se vai esgarçando, entre e-mails e SMS).
Alexandra Lucas Coelho está ela própria em trânsito, percebe-se que experimenta ainda os códigos narrativos, mas a sua linguagem sofisticada, elegante, de um lirismo subtil, é já a de uma grande escritora.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Pós-derby

Ou muito me engano, ou o narrador do mais recente livro do Joel Neto, cuja inexplicável conversão ao Benfica abre o romance (ver post anterior), deve estar hoje mais do que arrependido da triste heresia que cometeu.

PS – O Joel Neto, sportinguista acima de qualquer suspeita, gosta de testar os limites da ficção. Imaginar alguém capaz de trocar o Sporting pelo Benfica é um desafio à lógica, é um arriscado namoro com a impossibilidade, é um puro exercício de reductio ad absurdum. Ainda não li o livro, mas suspeito que não deve acabar nada bem.

Primeiros parágrafos

«Mudei de clube num dia de Novembro. O sol jorrava sobre Lisboa, que o recebia com um misto de gratidão e rancor – e, no entanto, nem o mês em curso, nem as condições meteorológicas vigentes, extraordinárias mas não inéditas, tiveram o que quer que fosse a ver com a minha decisão.
O que aconteceu, no essencial, foi o que sempre acontecia às segundas-feiras: estávamos os três, eu, Pedro e Alberto, prolongando o almoço muito para lá do devido sob o sol tardio de um daqueles outonos ferventes após os quais só podia vir chuva, muita chuva, muito mais chuva do que era suposto um Deus misericordioso derramar sobre as suas criaturas – e, naturalmente, falávamos de futebol. Até que, ao concluir outra das suas habituais dissertações sobre as origens de nova e inexorável série de derrotas do Sporting, a fé que nos unia e nos puxava para baixo e nos tornava a unir lá no fundo, Alberto ergueu o terceiro uísque:
– Que se lixe. Um homem muda de mulher, muda de partido, muda de religião, muda de tudo aquilo que quiser, até de sexo, mas de clube é que não muda nunca. Portanto, viva o Sporting!
E eu, como se não pudesse evitá-lo, dei por mim de repente:
– Mas não muda porquê?
E logo a seguir, incapaz de conter-me ainda:
– Uma merda é que não muda… Pois escreve aí direitinho, que é para depois não te esqueceres: eu agora sou do Benfica.
Dei por mim a dizê-lo e, ainda por cima, a gostar de ouvir-me dizê-lo:
– Aí tens. Sou do Benfica. Mudei para o Benfica. Mudei para o Benfica e agora quero é que o Sporting vá morrer longe.»

[in Os Sítios Sem Resposta, de Joel Neto, Porto Editora, 2012]

Maravilhas da paternidade

Pedro: Pai, quando é que a crise acaba?
Eu: Não sei, filho. Ninguém sabe.
Pedro: Mas um dia vai acabar, não vai?
Eu: Esperemos que sim.
Pedro: Claro que vai acabar. Se começou, tem de acabar.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges