Cinco portugueses seleccionados na primeira fase do Prémio PT de Literatura

Entre os 60 livros escolhidos para a very long list do Prémio PT, estão cinco portugueses: A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe; Escarpas, de Gastão Cruz; A maldição de Ondina, de António Cabrita; Tríptico da Súplica, de João Rasteiro; e O escandinavo deslumbrado, de Alberto Xavier. Eis as listas completas para cada um dos três géneros a concurso: poesia, romanceconto/crónica.

Feira do Livro do Porto

Até 17 de Junho, na Avenida dos Aliados.

Logo à tarde


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A página do Mário

O escritor Mário de Carvalho já tem um site oficial com tudo o que costumam ter os sites oficiais. Fica aqui.

Ler para dentro

Uma biblioteca é, por definição, um espaço de silêncio. Silêncio absoluto, para que as pessoas curvadas sobre os livros possam concentrar-se. Mas se entrarmos na sala de leitura e nos sentarmos numa das mesas (atentos, quietos, com os sentidos alerta), compreendemos que talvez não seja bem assim. À nossa volta, os ruídos multiplicam-se: tosses, passos, espirros, respirações, dedos matraqueando em teclados de computador, zumbidos, objectos que caem, coisas a rasparem noutras coisas, ecos de maquinarias distantes, o troar de um avião que segue a sua rota sobre o telhado, já em descida para o aeroporto. «Não será antes a biblioteca um lugar dedicado à “recolha de sons”?», pergunta uma voz aos nossos ouvidos.
Essa voz sussurrada – prestes a dar-nos todo o tipo de indicações e ordens – é a que guia os espectadores/participantes durante os 50 minutos de The Quiet Volume/O Volume Sossegado, peça de «autoteatro» criada por Ant Hampton (fundador da companhia Rotozaza) e Tim Etchells (director artístico dos Forced Entertainment) para o festival ‘Ciudades Paralelas‘, em Berlim (2010), tendo já passado por Buenos Aires, Varsóvia, Zurique e Londres, antes de chegar à Biblioteca Nacional de Lisboa, onde pode ser vista (ou melhor, ouvida) até 9 de Junho, integrada na programação do alkantara festival.

Munido de um iPod com auscultadores, cada participante senta-se numa mesa, a um canto da sala de leitura da BN, lado a lado com outro participante nas mesmíssimas condições, que servirá de «duplo» e cúmplice durante o espectáculo. À frente, um caderno escrito e quatro livros numa pilha: Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago; Trilogia da Cidade de K., de Agóta Kristóf; Quando Éramos Órfãos, de Kazuo Ishiguro; e um volume com fotografias panorâmicas de grandes cidades. A voz narrativa (Pedro Penim) conduz-nos em todas as acções: ler, parar de ler, mudar de página, mudar de livro, seguir certas frases com o dedo, interagir com o companheiro, contemplar o espaço em volta e as pessoas que o ocupam, etc. Aos poucos, da observação de uma circunstância (estar sentado numa sala silenciosa que não é assim tão silenciosa), passamos para movimentos de apropriação física (as páginas em branco, a textura do papel) e depois para os próprios mecanismos da leitura. Na sua maioria, estes são processos inconscientes. Quando lemos, não pensamos na forma como os símbolos inscritos se transformam em ideias no nosso cérebro. O acto da leitura é, em si mesmo, um instrumento transparente. The Quiet Volume torna-o visível. Ao decompô-lo nas suas partes, assistimos ao modo como funciona, como se articula no espaço mental e até como por vezes se dissocia do que está efectivamente inscrito no papel.
Através do condicionamento imposto pela voz, que tem a autoridade de um encenador a fazer marcações num palco, o livro à nossa frente converte-se numa espécie de teatro – um «teatro portátil». Nas palavras de Hampton, entramos «nesse mundo plano e permitimos que se dê a estranha dança triangulada entre o dedo, o olho e a imaginação». O espaço plano ganha então volume e expande-se: «A velocidade lenta de um dedo que acompanha uma linha de texto começa a torcer o tempo; retardando-o, duplicando-o, alongando-o.» Deste modo, a leitura transforma-se numa acção performativa com potencial dramatúrgico, precisamente o que atraiu Etchells para o projecto: «O agora da página é o que me prende – o momento presente, aqui convocado com este arranjo de marcas/códigos, tinta/pixéis, letras e palavras.»
Saltando entre o caderno com frases que nos interpelam (ou se dissolvem) e os livros propriamente ditos – a descoberta da cegueira nas primeiras páginas de Saramago, os dois irmãos que inventam mentiras para não ir à escola (Kristóf) e imagens da destruição numa Beirute bombardeada (Ishiguro) –, construímos dentro da cabeça um mundo, sem que o resto da biblioteca se aperceba. «Há sempre um certo atrito entre a esfera privada e a pública», lembra Hampton. «E desse atrito pode nascer uma emoção.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Quatro poemas de Henrique Manuel Bento Fialho

AUTO-ESTRADA DO SUL

A velocidade dos veículos
é proporcional à ânsia de chegar.
Jamais saberemos se os veículos
chegarão à velocidade com que circulam,
mas temos noção de que
em todas as chegadas há uma velocidade
a circular dentro de quem parte.
Uma velocidade conduzida, talvez,
pela vontade de novamente circular
dentro de tudo o que nos impele para o regresso,
dentro de tudo quanto transita,
dentro de tudo aquilo que já não existe.

***

Retomo a casa onde as noites têm a luz dos dias.
Não é a mesma casa de onde parti, nada é o mesmo
quando se regressa. Só o canto dos grilos, a dança
dos canaviais e o mar ao longe permanecem

intactos. Também as constelações, desde o sono
divino as mesmas, abraçam a quietude terrena.
Oferecem-nos vinho, batatas e ovos, pimentos
e tomates, sorrisos, uma certa nostalgia no olhar.

Nunca tinha reparado, onde as portas se abrem
sossegam os anseios. Se ao menos pudéssemos
aprender o proveito de estarmos sempre perto

de quem nos quer bem. Mas que bem nos querem
aqueles cuja ausência é só mais uma lição
de que estamos vivos e, por isso mesmo, quase mortos?

***

Pelas 7 a maré está baixa. Os polvos, escondidos
nas rochas, ficam à mão de semear. Balde num braço,
gancho nos dedos, descemos ao mar. Das enseadas
todas as marés são baixas. Puxamos das rochas

estrelas do mar, anémonas, cracas. Os polvos estarão
já, a esta hora, na cozinha de um restaurante onde
hordas de turistas lambuzarão os dedos. Velhos e
novos, nenhum escapa aos mergulhadores pelas 4.

Metemos as mãos a medo, mordem-nos caranguejos,
enchemos um balde com burriés. Uma cabana rente
ao mar numa aldeia piscatória, nada de telefone, nada

de rendas. As nossas academias amanham percebes
como quem devolve ao passado os promontórios
da sabedoria. Malcolm Lowry aos jantar, pelas 10.

***

NOITE ESTRELADA

Onde as flores sobrelevam fronteiras
e desabrocham para lá dos vasos,
para lá dos canteiros,
assomando à beira dos regaços
uma luz que queima a terra de alegria,
encontra o consolo a sua satisfação.

Onde as estrelas perdem a idade
que as separa umas das outras,
a distância que distingue a efemeridade do eterno,
encontra a satisfação o seu consolo.

[in Rogil, Volta d’Mar, 2012]

Dédalo de papel

A Esperança é um mundo.

Haja Esperança!

À porta do hotel, entrámos num táxi amarelo. O motorista levou alguns segundos a perceber para onde queríamos ir e depois lá se fez ao caminho, do Lido para o centro do Funchal. Sem dizermos nada uns aos outros, pensámos que a Esperança talvez conste dos guias turísticos – afinal, trata-se de uma das maiores livrarias do mundo, com uma área superior à de um estádio de futebol e mais de 100 mil exemplares expostos – e por isso os taxistas a incluam nas paragens obrigatórias para quem visita a cidade. Engano nosso, claro. Chegados ao centro, o motorista virou-se para trás, perplexo, como quem perdeu de repente o sinal do GPS. «Acho que é por aqui», murmurou. Mas não era. Lá lhe dissemos para nos deixar perto da Universidade, algo desiludidos por se ter desfeito a inesperada história do taxista que até sabe onde fica uma livraria mítica. O resto do percurso, ao longo da rua dos Ferreiros, fizemo-lo a pé.
Entrar na Esperança é entrar num labirinto. Eu já conhecia fotografias das suas muitas salas forradas de livros até ao tecto, mas deambular por ali é outra coisa. A todo o momento, temos a sensação de que não vamos conseguir, ou querer, sair daquele dédalo de papel. Livraria de fundos no verdadeiro sentido da expressão, a Esperança não obedece às leis da rotatividade vertiginosa, que reduz o tempo de vida das novidades a poucas semanas e expulsa os clássicos para a solidão dos armazéns ou para o pó dos alfarrabistas. Tanto podemos encontrar um romance lançado há poucos dias como aquela antologia poética de um autor obscuro dos anos 70 que julgávamos esgotadíssima. E se a arrumação por ordem alfabética do primeiro nome do autor propicia desafios até a bibliófilos experientes, a melhor estratégia é uma pessoa deixar-se perder entre as estantes, à mercê dos acasos da serendipidade literária. Aqueles que colocam, por exemplo, os Objectos Sexuais no Espaço, de Maria Regina Louro, a poucos metros dos Objectos Sexuais nos Céus, de Paula Kane e Christopher Chandler. Ou As Mãos e as Luvas, de João Gaspar Simões, relativamente perto de A Mão e a Luva, de Machado de Assis.
Na Esperança, os livros não ficam escondidos. Todos mostram a cara, que é como quem diz a capa, de frente para o futuro leitor. Ora isto exige o recurso a um sofisticado aparelho tecnológico chamado mola. Paredes acima, ou nas superfícies laterais das estantes metálicas, os livros sustêm-se – e por vezes parecem levitar – presos por molas que deixam marcas na superfície do papel, discretas «tatuagens» (como lhes chamou Paulo Sérgio BEJu numa das sessões do Festival Literário da Madeira) que passam a ser marcas de água, invisíveis carimbos que assinalam a proveniência. Vejo agora, já em Lisboa, esse vinco no exemplar de Conto é como quem diz (Europress), a narrativa curta publicada por Isabela Figueiredo em 1988, quando ainda assinava Isabel de Almeida Santos, mais de vinte anos antes do Caderno de Memórias Coloniais (Angelus Novus). Também o vejo no Garden Party de Katherine Mansfield (Relógio d’Água, 1985) e na edição brasileira de A Morte do Leão – Histórias de Artistas e Escritores (Companhia das Letras, 1993), um volume com cinco contos de Henry James e um título de mau augúrio para o Sporting Clube de Portugal, que naquela mesmíssima noite jogava em Manchester, contra o poderoso City, a passagem à eliminatória seguinte da Liga Europa.
À saída, ao pagar os livros, reparei num folheto em que dezenas de livreiros prestam homenagem a Jorge Figueira de Sousa, neto do fundador da Esperança e actual gestor deste espaço único. Aos 80 anos, ele continua a defender com unhas e dentes um modelo de livraria que a mera lógica comercial sugere ter os dias contados. O fecho recente da Livraria Portugal, no Chiado, paira ainda na memória como uma ameaça. Resta-nos então esperar que a Esperança se aguente, que a Esperança seja mesmo a última a morrer; ou melhor, que não morra de todo. Na verdade, os maus augúrios nem sempre se cumprem: umas horas após a visita à labiríntica Esperança, contra todas as expectativas (menos as minhas), o Sporting sobreviveu a uma equipa multimilionária e encontrou-se com a glória em Manchester.

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]

A silenciosa companhia

Ou de como pode haver histórias comoventes na vida de um livreiro (e de uma livraria).

Uma música selvagem

Um Piano para Cavalos Altos
Autor: Sandro William Junqueira
Editora: Caminho
N.º de páginas: 360
ISBN: 978-972-21-2466-9
Ano de publicação: 2012

O segundo romance de Sandro William Junqueira decorre numa Cidade arquetípica, separada da Floresta – a Natureza em estado bruto – por um Muro de betão com oito metros de altura. No interior, além da Torre Governamental e da Fábrica com duas enormes chaminés (uma para cada ala: a sul, onde se fabricam empadas de carne; a norte, onde se incineram os mortos), existem zonas residenciais separadas por cores e arame farpado, um «arco-íris urbano» que é uma espécie de apartheid levado às últimas consequências. No cimo desta sociedade distópica, erguida com «organizada aspereza» depois de um mítico Grande Desastre, está o Ministro Calvo, chefe de um Governo que legisla tudo – até a música – de forma a alcançar um efectivo controlo do medo colectivo (visto como «motor indispensável à civilização»). A maquinaria social pode parecer blindada, quase perfeita na sua eficácia fascistóide, mas também ela tem pontos frágeis e elos mais fracos, por onde a revolta se insinua.
Algures entre George Orwell e Gonçalo M. Tavares, Sandro W. Junqueira consegue manter um ritmo narrativo muito vivo, muito rápido, voraz, com a sua escrita feita de capítulos curtos, frases sincopadas e ideias fortes. Abundam imagens de uma crueza desconcertante, sobretudo as de cariz sexual. E tropeçamos, quase página a página, em aforismos: «O tempo e a dor não são cordiais; são insolentes»; «o coração é uma máquina de costura» porque «cose as pessoas umas às outras»; etc. Às duas partes em que se divide o livro (uma «sonata de inverno», a que se segue um «concerto de verão») correspondem dez gymnopédies. Na verdade, a música atravessa a narrativa de forma fulgurante, tal como atravessa as paredes da Cidade (onde «teima em vencer a arquitectura»). E se em muitos casos adormece as consciências, outras vezes envenena «o cão de guarda da razão» com a sua luz selvagem. Ela está em tudo, da faca na cozinha – «afinada em dó menor» – aos dedos do rapazinho literalmente amarrado a um piano, cuja apresentação em público, diante do ditador, coincide com o clímax dramático para o qual convergem os muitos fios desta história de ovelhas com a força dos lobos, lobos com a fraqueza das ovelhas, e lobos que simplesmente se devoram uns aos outros.
Vertiginoso, excessivo, elíptico, complexo, violento, divertido, onírico, expansivo, inteligente, visceral, cheio de som e fúria, barroco tanto na forma como no estilo, Um Piano para Cavalos Altos é um dos romances mais poderosos, intensos e arrebatadores que a literatura portuguesa nos deu nos últimos anos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

The Quiet Volume, de Ant Hampton e Tim Etchells, espectáculo de autoteatro na Biblioteca Nacional, por José Mário Silva
Pornografia, de Witold Gombrowicz (Dom Quixote), por Pedro Mexia
In Situ, de Inês Dias (Língua Morta), por António Guerreiro
Viagem a Tralalá, de Wladimir Kaminer (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
– Escolhas de João Ricardo Pedro

Primeiros parágrafos

«A minha mãe não era real. Era um sonho antigo, uma esperança. Era um lugar. Nevado, como este, e frio. Uma casa de madeira numa colina, com um rio mais abaixo. Um dia enevoado, a pintura branca gasta das casas que a luz aprisionada tornava inesperadamente mais brilhante, e eu voltava da escola. Tinha dez anos, vinha sozinha, seguia pelo meio da neve suja amontoada no pátio, em direção ao alpendre estreito de nossa casa. Não me lembro do que me ia no pensamento nesse momento, não me lembro de quem eu era nem de como me sentia. Tudo isso se apagou, desapareceu. Abri a porta da frente e deparei com a minha mãe pendurada de uma das traves do telhado. Desculpa, disse eu, e recuei e fechei a porta. Estava de novo lá fora, no alpendre.
Disseste isso?, perguntou Rhoda. Disseste desculpa?
Sim.
Oh, mamã.
Foi há muito tempo, disse Irene. E foi uma coisa que eu nem sequer naquela altura consegui ver, e por isso agora também não consigo. Não sei que aspeto tinha ela, ali pendurada. Não me lembro dos pormenores, apenas que aconteceu.»

[in A Ilha de Caribou, de David Vann, trad. de José Lima, Ahab, 2012]

Na Biblioteca, ouvindo uma voz

The Quiet Volume é um magnífico espectáculo de autoteatro, criado por Ant Hampton e Tim Etchells. Já está «em cena» na sala de leitura da Biblioteca Nacional, integrado na programação do alkantara festival. Para leitores vorazes, como serão muitos dos frequentadores deste blogue, trata-se de uma experiência a não perder.

Lançamento de ‘Trás-os-Montes’

No próximo sábado, dia 26, a partir das 17h00, na FNAC Chiado, vou apresentar com Anabela Mendes (professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) o romance Trás-os-Montes, de Tiago Patrício, editado pela Gradiva e vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2011. No fim da sessão, haverá um momento musical com alguns elementos da Associação Gaita-de-foles.

O que aí vem (Assírio & Alvim)

O Mendigo e outros contos, de Fernando Pessoa; Todas as Palavras – poesia reunida, de Manuel António Pina; O Têpluquê e outras histórias, de Manuel António Pina (reedição em novo formato); O Novíssimo Testamento e outros poemas, de Jorge Sousa Braga.

Maravilhas da paternidade

De vez em quando, a Alice pede-me o iPad para jogar FIFA11. Ontem, descobriu a solução definitiva para a angústia dos sportinguistas. «Seleccionei o Sporting como a minha equipa e também como a outra equipa. Assim, se ganhar, ganha o Sporting. E se perder, ganha o Sporting. Uma boa ideia, não achas?»

Com a cabeça debaixo do braço

A Última Sessão – A edição dos textos malditos de Luiz Pacheco
Autor: Pedro Piedade Marques
Editora: Montag
N.º de páginas: 40
ISBN: 978-989-2030-19-7
Ano de publicação: 2012

Além de designer gráfico, tradutor e responsável por um excelente projecto editorial (Livros de Areia, cujo único defeito está na parcimónia do catálogo), Pedro Piedade Marques é também autor de um blogue de referência sobre a arte de criar capas para livros. Em Montag, vem recolhendo textos de análise – muito bem escritos, organizados e ilustrados – que revelam o seu conhecimento do métier, uma vasta erudição técnica e um fervor de enciclopedista.
Agora, aproveitou a marca do blogue para lançar um livrinho que assinala os 35 anos da publicação «oficial», em 1977, dos Textos Malditos de Luiz Pacheco, pelas edições Afrodite (ao fim de muitos avanços e recuos, num processo moroso de recuperação das prosas proibidas pela censura, ou perdidas na «gaveta», que fora iniciado logo após o 25 de Abril de 1974). Graficamente exemplar, A Última Sessão revela-nos em detalhe vários aspectos da génese deste livro problemático, em particular a forma como nele convergiram as energias e o talento de três homens: o próprio Pacheco, de «vida caótica» e apostado em pôr a render, muito ao seu jeito, uma «requentada» mas brilhante «antologia abjeccionista»; o editor Fernando Ribeiro de Mello, um dandy sofisticado que se via como o Jean-Jacques Pauvert português; e o ilustrador Henrique Manuel, que explorou a figura de um «Pacheco-marioneta do teatro de si mesmo», mostrando-o na capa com a cabeça debaixo do braço.
Para Pedro Marques, há nos Textos Malditos uma dimensão «crepuscular», no sentido em que marca o «início do correr de cortinas» na carreira destes três criadores. É uma tese discutível, até nas suas metáforas teatrais, mas impecavelmente argumentada.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Prémio Camões para Dalton Trevisan

O maior prémio literário de língua portuguesa foi atribuído hoje a um escritor brasileiro que nunca li, embora faça parte da minha lista mental de escritores-que-tenho-mesmo-de-ler-um-dia-destes. Espero suprir em breve esta lacuna, não pelo Camões, mas pela maravilha que já me disseram serem os seus contos.

Residências literárias

Do Clube Português de Artes e Ideias (CPAI) recebi esta notícia:

«O escritor João Tordo começa já em Junho, em Montreal, a residência de criação literária para que foi escolhido, no âmbito do protocolo entre o Clube Português de Artes e Ideias e o Conseil des arts et des lettres du Québec, organismo tutelado pelo Ministério da Cultura desta província canadiana. João Tordo vai aproveitar a sua estadia no Québec para completar o seu próximo romance que se desenrola em vários lugares, nomeadamente em Montreal.
Por outro lado, Tiago Patrício, prémio revelação do concurso “Agustina Bessa-Luís”, e por várias vezes publicado pelo CPAI, partirá, também em Junho, em residência para a Letónia, no âmbito do programa M4m, da associação europeia Pépinieres Européenes pour Jeunes Artistes, que o CPAI representa em Portugal.»

Melancólicas criaturas

Eis o milagre de Tabu: assumir-se como declaração de amor ao cinema (aos seus artifícios e convenções) sem cair nas armadilhas da cinefilia. Murnau paira como sombra? Sim, embora apenas de forma esquiva. Miguel Gomes foi buscar ao filme homónimo do mestre alemão a estrutura em duas partes (Paraíso, seguido de Paraíso Perdido), mas a homenagem nunca se materializa verdadeiramente. Tabu é só um monte imaginário, algures em África; Aurora, uma personagem atormentada pelo passado e pela culpa.
A sustentar o filme, a articulá-lo, está Pilar, a vizinha boa samaritana que faz jus ao nome. Ela é a verdadeira espectadora, tanto das vidas alheias como do próprio filme, visto na cadeira de um cinema. Depois de assistir perplexa ao prólogo fantasista, comove-se antes de nós com o trágico idílio adúltero da jovem Aurora, chorando lágrimas que só mais tarde (através de um genial raccord musical) compreenderemos. Se a segunda parte assume todos os riscos formais – extenso relato em off; diálogos mudos; um travelling autoconsciente; a epistolografia lida pela voz anacrónica, porque envelhecida, dos amantes –, se emerge como a memória traumática de algo que se desfez (o império colonial; o tempo em que o amor era possível), é porque antes do fogo contemplamos as cinzas, nessa primeira parte de um realismo cru, temperado por assomos de humor e ironia.
Numa Lisboa crepuscular, «melancólicas criaturas» fazem bolos de cenoura, perdem dinheiro no casino, encontram-se na selva plástica dos centros comerciais. Ridículas, desamparadas, são humanas até ao osso. E Miguel Gomes filma-as com infinito respeito, oferecendo a Laura Soveral (Aurora) e Teresa Madruga (Pilar) aqueles que são talvez os papéis das suas vidas.

[Texto publicado no suplemento Actual, do jornal Expresso]

Primeiros parágrafos

«Naquele dia, deixou-se fascinar por veias. Veias e artérias. Pensou e admirou o seu crescimento, a forma ordeira como se espalhavam em silêncio debaixo da sua pele. Pequenos rios de sangue a crescer de acordo com as leis escondidas de uma orografia imparável; alimentando continentes, levando cheias de tempestade a terras sequiosas. A cada segundo, mais um milímetro de tubagem era construído com precisão e sem fadiga. Quem convencera o seu próprio organismo a alimentar assim o pequeno invasor? E onde estaria o projeto de uma tal empreitada? Como poderia, logo desde o início, aquela mão-cheia de células ambiciosas comandar um prodígio assim?»

[in 18 Palavras Difíceis, de Luís Rainha, Tinta da China, 2012]

Um rato através da anaconda

Ou como ir da ideia inicial ao livro feito, ao longo de um fluxograma com muitas setas.

Os reflexos do mal

Gare do Oriente
Autor: Vasco Luís Curado
Editora:
Dom Quixote
N.º de páginas: 207
ISBN: 978-972-20-4893-4
Ano de publicação: 2012

Em Gare do Oriente, Vasco Luís Curado apresenta-nos sucessivamente cinco personagens que convergem ao fim do dia para um mesmo comboio suburbano. Os respectivos monólogos interiores esmiuçam infâncias traumáticas, casamentos desfeitos e toda a sorte de relações mal resolvidas com pais tiranos, mães dominadoras ou sogras piores do que cobras. Na verdade, o romance decorre todo na cabeça destas pessoas banais, incapazes de se encaixarem no mundo e sujeitas a uma espécie de desligamento emocional, cujo corolário é uma solidão cheia de fantasmas.
Uma a uma, elas chegam-se à frente e contam a sua história. Há a professora de inglês assombrada pelo vazio que a morte do pai criou na sua vida; o esquizofrénico paranóico que inventou uma religião filantrópica aos oito anos e se gaba de poderes telepáticos; o vigilante de um parque de estacionamento, solipsista e incapaz de se orientar na vida; a funcionária pública furiosa com tudo e todos (até com o marido que morreu de cancro depois de a deixar, porque «os mortos também têm deveres»); e o advogado imerso no inferno de um divórcio litigioso. Todos eles estão focados nos tormentos individuais mas deixam-se tocar pela tragédia do dia: o ataque terrorista numa estação de comboios estrangeira, cujos reflexos são ao mesmo tempo um catalisador das angústias e uma hipótese de catarse – na medida em que acordam a «turbamulta» afundada no seu «tédio ruminativo e estéril», pondo em causa «o consenso decadente com que nos anestesiam e amansam, com que nos debilitam e controlam».
Vasco Luís Curado domina bem os ritmos da escrita e a sua linguagem chega a ser brilhante (sobretudo nas primeiras 50 páginas), mas o esquema narrativo é muito rígido e previsível, além de desequilibrado na importância e complexidade que atribui às várias personagens. Se as femininas são cruciais (Lígia, a professora perdida em si mesma; e Natália, a funcionária que se entusiasma com os terroristas que «insuflam ar nos nossos pulmões intoxicados pelo unanimismo cobarde»), as masculinas são quase irrelevantes, para não dizer dispensáveis.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

O que aí vem (Esfera do Caos)

Do Desespero ao Bem-estar, de Nuno Pereira; Jesuítas, Ciência e Cultura no Portugal Moderno, de João Pereira Gomes; Corpo e Pós-Modernidade, de Luís Coelho; Mr. Finney e o Mundo de Pernas para o Ar, de Laurentien Van Oranje e Sieb Posthuma; O Lugar das Coisas, de Miguel Almeida; Idades, de Ana Wiesenberger.

Camané no ‘Avenida de Poemas’

Na terça-feira, 22 de Maio, a partir das 22h00, eu e a Raquel Marinho vamos estar no palco do Teatro Tivoli com um dos melhores fadistas portugueses, à conversa sobre os poemas que marcaram a sua vida (sem surpresa, a maior parte são letras de fados ou poemas que deram fados).

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Sobre a Balsa da Medusa, de Anselm Jappe (Antígona), por António Guerreiro
A Última Sessão, de Pedro Piedade Marques (Montag), por José Mário Silva
Poesia Reunida 1955-2011, de Liberto Cruz (Palimage), por Pedro Mexia
O Imperador de Todos os Males, de Siddhartha Mukherjee (Bertrand), por Luís M. Faria
Do Lado de Cá do Mar, de Philip Graham (Presença), por Luísa Meireles
– Escolhas de Luís Rainha

Juan Marsé: “Ao romancista não basta a realidade, ele tem de ir sempre um pouco mais além”

Em manhã de chuva, Juan Marsé esperava-nos numa livraria do centro de Lisboa, onde na véspera conversara animadamente com António Lobo Antunes, autor do prefácio à versão portuguesa do romance Caligrafia dos Sonhos, editado pela Dom Quixote. Nesse texto curto, afirma Lobo Antunes, sobre o escritor de Barcelona (primeiro catalão a ganhar o prémio Cervantes, em 2008), que se trata de «um dos maiores escritores espanhóis vivos, e não digo o maior porque não os li a todos». Por natureza e temperamento, Marsé esquiva-se aos elogios deste tipo e não atribui qualquer importância à consagração literária. O que lhe interessa é a escrita propriamente dita, o labor oficinal de quem burila a frase com o esmero de um ourives. Logo a seguir à II Guerra Mundial, o autor de O Feitiço de Xangai começou justamente por trabalhar numa joalharia, reparando relógios e consertando pulseiras partidas. Hoje, aos 79 anos, continua a considerar-se um artesão e abomina a literatura prêt-a-porter, de consumo fácil. Sentado num cadeirão, com livros a toda a volta, falou do seu território sentimental (os bairros onde cresceu, muito pobres em tudo menos em tipos humanos), dos ecos e ressonâncias que atravessam Caligrafia dos Sonhos, do «imenso poder da imaginação», das dificílimas relações com os vários realizadores que adaptaram os seus livros ao cinema (entre eles Vicente Aranda e Fernando Trueba), bem como do recurso a elementos autobiográficos, que são de certa maneira a face visível das memórias pessoais, propositadamente diluídas na matéria ficcional.

Neste livro, como noutros romances, é descrita a Barcelona do pós-guerra (anos 40): o tempo e o lugar da sua infância, da sua adolescência. O que o leva a regressar tantas vezes a este cenário?
É de facto uma cenografia que se repete em muitos romances. Não em todos, mas em boa parte deles. Creio que se trata, no fundo, de um território pessoal. Mas um território que não corresponde exatamente à realidade. É uma mistura de três ou quatro bairros que conheci muito bem, entre Gràcia e o monte Carmelo.

Um território sentimental.
Logicamente. O que procuro num romance são as emoções e os sentimentos. Sem eles não conseguiria escrever ficção. A sociologia interessa-me muito, mas não como género literário.

O impulso para a escrita é o exercício da memória?
Sim, mas uma memória que nunca corresponde de forma linear aos acontecimentos reais. Não foi minha intenção escrever um relato objectivo sobre o que era Barcelona naquele tempo. Falo da vida de bairro porque foi a vida que conheci. Há escritores cujas obras seriam iguais ao que são, ou semelhantes, caso tivessem nascido noutro lugar. Isso não se passa comigo. Parece-me evidente que a paisagem dos livros que escrevi está muitíssimo vinculada à minha experiência pessoal.

Na primeira cena de Caligrafia dos Sonhos, assistimos a um suicídio simulado e algo patético. Uma mulher deita-se dramaticamente no meio da rua, sobre os carris de um elétrico que há muito não passa por aquela «via morta». A imagem dos carris emergindo de uma «pequena ilha de paralelepípedos melancólicos», formando uma «linha truncada que vem do ontem abolido e não vai a lado nenhum», ilustra na perfeição a vida da maioria das personagens, um grupo de pessoas que nunca saem daquele microcosmos e parecem irremediavelmente presas a um determinado tempo.
Sim, sem dúvida. Mas não me dei logo conta disso. Quando percebi, lembrei-me de incluir outro elemento: a escada que existe em pleno monte, com três degraus escavados na pedra que também não levam a lado nenhum. E que ninguém sabe porque estão ali. Há uma certa simetria entre os degraus e os carris do elétrico. Não a sei explicar, mas ela cria aquele tipo de ecos e ressonâncias que são essenciais na literatura de ficção.

O protagonista do romance é um rapazito que lê muito, um exímio narrador capaz de inventar histórias mirabolantes a partir dos livros de aventuras e dos filmes que vê nos cinemas do bairro.
Contar histórias era o nosso principal divertimento. Na altura, havia uma tremenda escassez de tudo. E também de brinquedos, claro. Se não tínhamos uma bola para jogar, nem sequer uma feita de trapos pelas nossas mães ou avós, muito menos um par de patins ou uma bicicleta, sentávamo-nos a contar histórias uns aos outros, relatos em que se misturavam os enredos dos westerns com situações de que ouvíamos falar em casa. Naquela época de forte repressão por parte do regime franquista, havia sempre um parente escondido em qualquer parte, ou alguém próximo que tinha sido preso ou morto.

As histórias imaginadas e as reais misturavam-se?
Inevitavelmente. É algo que está muito presente noutro romance meu: Si te dicen que caí (de 1973, nunca publicado em Portugal). Nesse livro, as aventis, histórias em que se mistura realidade e imaginação, são as células a partir das quais cresce toda a trama romanesca. Em Caligrafia dos Sonhos, as aventis estão limitadas a um só capítulo. Funciona mais como homenagem à ideia de literatura. Um dos rapazes do grupo põe em causa o modo fantasioso como Ringo (o protagonista) narra as histórias, dizendo que se um cavalo tem quatro patas não lhe podemos atribuir cinco, e que não faz sentido imaginar um combate contra índios nas praias do Arizona, porque no Arizona não há praias. Ao que Ringo responde da única forma possível. Ou seja, explicando que nas suas histórias existem praias onde ele muito bem entender.

É o poder da imaginação?
Nem mais. É o imenso poder da imaginação. Quem conta uma história não se pode contentar com a realidade, tem sempre de ir um pouco mais além. Isto é tanto verdade para o rapaz que deseja impressionar o seu círculo de amigos como para o romancista. Qualquer romancista.

Mas o ir mais além também pode redundar numa impostura. A dado passo da narrativa, Ringo inventa uma carta de amor que é uma mentira com efeitos drásticos na vida de outras pessoas.
O tema central do livro é justamente esse. O que conduz um rapaz honesto à impostura e de que modo essa impostura o reconcilia com uma realidade que sempre desprezou, ou da qual se sentia excluído. Trata-se, muito simplesmente, de um modelo clássico: o romance de iniciação, de aprendizagem.

Continua a defender a natureza oficinal da escrita?
Claro que sim. Não a concebo de outra maneira. E acho mesmo que uma das grandes obrigações do escritor, hoje, é lutar contra a literatura prêt-a-porter, de consumo fácil. O verdadeiro desafio é resistir a esse tipo de literatura industrial. Sou e serei sempre um artesão.

Há um momento em que Ringo está num café e olha pela «vidraça do tempo». Qual é a maior dificuldade associada a este olhar?
Eu diria que se escreves a partir de acontecimentos reais, enxertando na ficção aquilo a que podemos chamar crónica urbana, é conveniente não falsear. Ao falseares, corres o risco de ser desmentido pela memória que as pessoas guardam dos factos.

As relações com os realizadores de cinema que adaptaram as suas obras foram sempre muito tensas, muito difíceis. Porquê?
Tento sempre explicar-lhes que o problema dos filmes não está em serem pouco fiéis ao que eu escrevi. Pelo contrário, está em serem demasiado fiéis.

Não gostou de nenhuma das adaptações?
Não. Há talvez algumas menos más. Os realizadores parecem esquecer que os filmes têm a sua própria dinâmica narrativa, estritamente cinematográfica. Se for preciso trair o livro, façam-no. Mas na verdade nunca me traem o suficiente. Seria preciso deixar cair algumas personagens, algumas situações, criar outras novas. Os cineastas deixam-se enganar pela aparente simplicidade da minha escrita. Pensam que basta transpô-la para o ecrã, tal e qual. Ora, uma coisa é o que está escrito para ser lido e outra coisa é o que está feito para ser visto num ecrã.

Parte dessa ilusão de facilidade talvez se deva ao seu talento descritivo. Narra tudo de forma minuciosa, muito clara, muito visual.
Sim. A minha escrita é muito visual. Gosto de dar a ver as coisas ao leitor. Não dizer como é, não explicar, mas dar-lhe a entender o que se passa através da acção. Gosto que sejam as personagens a dar-se a ver. Por exemplo, não afirmar que um avaro é avaro, mas focar um aspecto da sua conduta através da qual a sua avareza se torne evidente. O leitor concluirá por si mesmo.

Na última frase do romance, o protagonista é descrito como um «rapaz tão observador». Ele passa a vida sentado, a ouvir o que se passa na existência quotidiana dos outros. Ao tornar-se escritor, leva ao extremo esse talento inato para a observação.
Precisamente. O escritor tem de ser muito observador, tem de ter muita curiosidade. Mas essa frase final ganha conotações irónicas, quase burlescas, porque aquele rapaz acaba de descobrir, dez anos depois, a verdade sobre a história de amor em que se viu envolvido. E essa verdade refuta a sua versão dos acontecimentos. De modo que ele não era afinal um observador assim tão bom. Eis a última lição do seu processo de aprendizagem: é preciso ter cuidado com a realidade, porque as coisas raramente são aquilo que parecem ser.

Geralmente são mais complexas, mais contraditórias. Veja-se a personagem do pai de Ringo. Anarquista, anti-clerical, quase sempre ausente. Imaginamo-lo a preparar uma revolução e no fim de contas é apenas contrabandista.
Essa personagem já aparece de outras formas em romances anteriores, como Rabos de Lagartixa. Relaciono-o com certas histórias que me contavam em pequeno, sobre amigos ligados à resistência antifranquista. Muitos começavam por passar pessoas através da fronteira com França, durante a II Guerra Mundial, e depois convertiam-se em contrabandistas, para ganharem a vida. São anti-heróis, militantes cuja deriva por vezes os levava até à delinquência. O meu pai conheceu vários durante o tempo em que esteve preso.

Mais do que noutros livros, abundam neste os elementos autobiográficos.
Às vezes perguntam-me quando é que penso escrever as minhas memórias. E eu respondo sempre que as minhas memórias estão nos meus romances. Mascaradas, diluídas, mas estão lá. Neste romance talvez haja mais factos reais da minha vida do que em outros. É verdade. Não sei dizer porquê.

A que se deve o recurso à narração na terceira pessoa?
Quando começas uma narrativa, tens de encontrar a voz certa. E essa voz é que pede para ser escrita na primeira pessoa ou na terceira. Eu só me pergunto qual é aquela em que o leitor mais acreditará. Neste caso, não narro na primeira pessoa porque ficaria preso a um só ponto de vista. Não me recordo em que momento o decidi, mas em todos os romances acontece o mesmo. Há um momento em que percebes que tem de ser assim e não de outra maneira. Sucede o mesmo com o tom, o estilo. Tens de o encontrar. Ou mais distanciado e irónico, ou mais directo. Ou com outras vozes.

Caligrafia dos Sonhos foi o primeiro romance publicado após a atribuição do prémio Cervantes. Que importância atribui a esta consagração?
Nenhuma. A responsabilidade diante do leitor é exactamente a mesma. A figura do escritor consagrado para mim não significa nada. Basta recordar alguns génios que nunca ganharam prémios importantes para saber isso.

Sente que a vocação da escrita foi uma dádiva na sua vida?
Acho que era Truman Capote que dizia: o escritor, quando nasce, recebe de Deus uma flor, mas também um chicote. A literatura é trabalho, é esforço. E o leitor não tem de se aperceber desse esforço. Escrever é como fazer uma cadeira. Quem compra a cadeira não tem de saber o que sofreu, ao fazê-la, o homem que construiu a cadeira.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do jornal Expresso]

Cinco poemas de Liberto Cruz

POEMA CONTRA A CIDADE

Aqui na cidade nossos dedos não acabam gestos
E a incauta presença nos suga
O esforçado mel de todos os dias.

São inúteis todos os rios de resina,
Todas as amoras maduras
Que pisámos, bravas,
No intervalo das estações.

As primeiras chuvas são apenas
Primeiras chuvas
E as crianças brincando são apenas
Crianças brincando.

Punhais de duas lâminas nos correm nas veias
E cavalos selvagens penetram
Em nosso corpo, até à raiz dos ossos.

Falsos, caminhamos, esmagados os olhos
Pela indiferença das árvores,
Pelo silêncio dos cisnes.

Aqui na cidade, talvez tudo seja o contrário,
Do que digo, do que escrevo,
Mas a amada perde-se em florestas de ar puro
E meus dedos não acabam gestos,
Não conseguem a calma da sua presença.

***

Vem a noite. E um límpido
E frio cansaço rompe
Entre as árvores. O mar
Abranda quase ausente.

Breve toda a esperança
Já o sonho não persiste
E só o medo aumenta
A raiva o desespero.

Uma corda: a solidão.
Uma névoa antiga
E depois a queda livre

O alívio talvez.
Quem sua vida comanda
Também a morte ordena?

***

Lembro o vinco do lençol
Uma certa mancha leve
Que mui de leve tacteio.
Lembro o perfil dos seios

A lisa curva do ventre.
Os dedos a divagar
Vão pelo cetim da pele
Vão a chama pressentindo.

Intermitente leitura
De um corpo todo meu
Na penumbra o evoco

Sua ausência folheio.
E de novo recupero
A memória do seu rosto.

***

Trinta e sete braços:
o dragoeiro
é um candelabro
de sombras orientais.

***

A folha em branco:
um campo minado.

[in Poesia Reunida, 1956-2011, Palimage, 2012]

A pirâmide alimentar dos escritores

Cartoon publicado há alguns anos na New Yorker e resgatado agora para assinalar o começo do novo blogue de livros da revista (Page-Turner).

Por uma Esquerda que não permaneça, de braços caídos, passiva e mole, a assistir ao colapso de todas as suas conquistas

Eis o Manifesto para uma Esquerda Livre:

«Portugal afunda-se, a Europa divide-se e a Esquerda assiste, atónita.
As raízes desta crise estão no desprezo do que é público, no desperdício de recursos, no desfazer do contrato social, na desregulação dos mercados, na desorientação dos governos, na desunião europeia e na degradação da democracia.
Em Portugal e na Europa, a direita domina os governos, as instituições e boa parte do debate público. A direita concerta-se com facilidade, tem uma agenda ideológica e um programa para aplicar. A direita proclama que o estado social morreu e que os direitos, a que chamam adquiridos, são para abater.
Em Portugal e na Europa, a esquerda está dividida entre a moleza e a inconsequência. Esta esquerda, às vezes tão inflexível entre si, acaba por deixar aberto o caminho à ofensiva reaccionária em que agora vivemos, e à qual resistimos como podemos. Resistir, contudo, não basta.
É necessário reconstruir uma República Portuguesa digna da palavra República e construir uma União Europeia digna da palavra União.
É preciso propor aos portugueses, como aos outros europeus, um horizonte mais humano de desenvolvimento, um novo caminho para a economia e um novo pacto de justiça social.
É possível fazê-lo. Uma esquerda corajosa deve apresentar alternativas concretas e decisivas para romper com a austeridade e sair da crise, debatidas de forma aberta e em plataformas inovadoras.
A democracia pode vencer a crise. Mas a democracia precisa de nós.
Apelamos a todos aqueles e aquelas que se cansaram de esperar – que não esperem mais.
É a nós todos que cabe construir:
UMA ESQUERDA MAIS LIVRE, com práticas democráticas efectivas, sem dogmas nem cedências sistemáticas à direita, liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa. Uma esquerda de cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o país recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária.
UM PORTUGAL MAIS IGUAL, socialmente mais justo, que respeite o direito ao trabalho condigno e combata as injustiças e desigualdades que o tornam insustentável. Um país decidido a superar a crise com uma estratégia de desenvolvimento económico e social, com uma economia que respeite as pessoas e o ambiente, numa democracia mais representativa e mais participada, com um Estado liberto dos interesses particulares que o parasitam.
UMA EUROPA MAIS FRATERNA, à altura dos ideais que a fundaram, transformada pelos seus cidadãos numa verdadeira democracia. Uma Europa apoiada na solidariedade e na coesão dos países que a formam. Uma Europa que ambicione um alto nível de desenvolvimento económico, social e ambiental. Uma União que faça do pleno emprego um objectivo central da sua política económica, que dê um presente digno aos seus cidadãos e um futuro promissor às suas gerações jovens.»

Eu já assinei, aqui. A apresentação pública deste manifesto acontecerá amanhã, 17 de Maio, às 11h30, no Café do Cinema São Jorge, em Lisboa.

Carlos Fuentes (1928-2012)

Dos três grandes nomes do boom latino-americano (os outros são Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa), foi o único a não chegar ao Nobel. Resumo biográfico aqui. A Porto Editora, que publicou recentemente o romance Adão no Éden, editará em breve dois livros do escritor mexicano ainda inéditos em Portugal: Contos Naturais e Contos Sobrenaturais. As principais obras de Fuentes, como O Velho Gringo e Aura, foram durante muitos anos publicadas pela Dom Quixote.

Noites do ‘Mauritânia’

O Mauritânia Real é um dos restaurantes de Matosinhos que costuma reunir escritores à conversa, durante as edições do LeV (Literatura em Viagem), o encontro literário que costuma decorrer no final de Abril, sempre com muito público a assistir às sessões na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, mas foi este ano cancelado por razões financeiras que comprometeram o apoio da autarquia ao projecto. O organizador do LeV, Francisco Guedes, não baixou os braços e resolveu «abrir outra porta», para que «o público ligado a estas coisas da cultura tenha onde ir quando se sentir mais pachorrento». Nasceu assim a ideia de jantares-encontros com escritores, a realizar todas as quintas-feiras, até 15 de Julho, justamente no Mauritânia Real. As marcações fazem-se para o 96.230.07.66 (Artur), ao preço de 25 euros (com direito a «repetir sólidos e líquidos»).

As praias do Arizona

Caligrafia dos Sonhos
Autor: Juan Marsé
Título original: Caligrafia de los Sueños
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editora:
Dom Quixote
N.º de páginas: 315
ISBN: 978-972-20-4917-7
Ano de publicação: 2012

Juan Marsé abre Caligrafia dos Sonhos com uma cena de grande efeito. No bairro de Gràcia, em Barcelona, a Torrente de las Flores (rua com 46 esquinas e três tabernas) assiste, num domingo à tarde, a uma tentativa de suicídio tão melodramática quanto ridícula. Vicky Mir, uma massagista anafada e sentimental, deita-se sobre os carris do eléctrico, aparentemente para pôr fim à vida e a um desgosto amoroso. A cena torna-se grotesca porque naquela rua já não passa qualquer eléctrico e as «mutiladas» linhas, agora inúteis, curvam «em direção a nenhures». O desespero de Vicky é por isso um equívoco penoso, puro teatro, uma «falácia». Entre os mirones que assistem ao triste espectáculo, o protagonista do livro (Ringo, 15 anos, «adolescente um tanto paspalhão e de olhar sombrio») intui pela primeira vez que «o inventado pode ter mais peso e credibilidade que o real, mais vida própria e mais sentido, e por conseguinte mais possibilidades de sobrevivência face ao esquecimento».
Alter ego de Marsé, com quem partilha vários traços autobiográficos (o pai adoptivo que trabalha na desratização dos cinemas, por exemplo), Ringo é um pianista frustrado. Primeiro, a família deixou de lhe conseguir pagar as lições particulares; depois, a esperança numa carreira musical foi-se de vez ao perder um dos dedos, devorado por uma máquina na oficina de joalharia onde trabalha. Leitor omnívoro, o rapaz passa os dias numa tasca, ouvindo e vendo tudo o que se diz e faz no bairro, apurando gradualmente a arte da observação que o levará a tornar-se romancista. Mas se ele acaba por encontrar, no «território ignoto e abrupto da escrita», o «trânsito luminoso que vai das palavras aos factos», há antes disso um longo caminho a percorrer, feito de enganos, juízos falsos, imposturas e coisas entortadas pelo acaso. Ao interferir na história de Vicky, eternamente à espera de uma carta prometida pelo suposto amante, Ringo descobre ao mesmo tempo o poder e os limites da ficção.
Caligrafia dos Sonhos é um bildungsroman com desfecho irónico, mas também um admirável retrato do que era a vida quotidiana na Barcelona dos anos 40, no auge da repressão franquista – tema a que Marsé regressa uma e outra vez, talvez para exorcizar as memórias da sua própria infância e adolescência. A cidade que nos surge é baça e lúgubre, estendendo-se até ao mar «como água da chuva empoçada e suja», uma ratoeira que condena os habitantes dos bairros populares à penúria extrema. As crianças calçam alpergatas de sola de pneu, usam cordas em vez de cintos, vestem camisolas comidas pela traça, têm frieiras e «tez famélica». Não havendo brinquedos, entretêm-se contando histórias uns aos outros, inventando peripécias mirabolantes inspiradas nos livros de aventuras e nos filmes. É num destes círculos de amigos que Ringo começa a destacar-se com a suas «minuciosas invenções», cruzamento de fantasias cinéfilas com pormenores «enquistados na realidade». E é também ali que vê ser posta em causa a liberdade criativa, quando Julito, miúdo penteadinho e presunçoso (o único que anda num colégio), lhe aponta um erro básico de geografia. Na sua narrativa, Ringo descreve índios Apache a galope nas praias do Arizona, logo um dos estados norte-americanos que não dão para o mar. No braço-de-ferro entre o realismo pragmático e a imaginação, porém, nem sempre é a imaginação que fica a perder. Face ao indignado Julito, os outros rapazolas encolhem os ombros: «Querem lá saber se o Arizona tem ou não uma praia, no fim de contas o Oeste Selvagem é um território do cinema que eles fizeram seu e no qual podem fazer o que lhes der na veneta.»
Marsé domina, como poucos, os mecanismos ficcionais, mas o seu livro vale essencialmente pela prosa buriladíssima, capaz de resumir em poucas palavras uma atmosfera (a taberna como «ninho de sombras e silêncio») ou decompor uma situação nos seus mínimos detalhes (isolando, por exemplo, o permanente cheiro a creolina e enxofre nas mãos do «pai mata-ratos», a «fúria latente nos nós dos dedos», uma «voz de fumo»).

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Balanço da Feira do Livro

Apesar dos bons resultados em termos de afluência e de vendas, uma grande parte dos editores presentes protestaram contra as datas e os horários da edição deste ano da Feira do Livro de Lisboa. E com toda a razão. Não faz sentido que a Feira abra portas no fim de Abril (sujeita à instabilidade meteorológica) só para satisfazer os timings do presidente da Câmara do Porto.

PS – Entretanto, ficou a saber-se que os grandes grupos editoriais (LeYa, Porto Editora e Babel) se demarcam do abaixo-assinado promovido por Luís Oliveira, editor da Antígona.

O que aí vem (Cavalo de Ferro)

Rashōmon e Outras Histórias, de Ryūnosuke Akutagawa; Arde o Musgo Cinzento, de Thor Vilhjálmsson; O Escritor-fantasma, de Zoran Živković.

A ‘Leitura Furiosa’ em voz alta

Como sempre, a Leitura Furiosa terminou na Casa da Achada, domingo à tarde, com uma sessão de leitura dos textos escritos por dezenas de autores em Lisboa, Porto, Beja e Amiens, depois dos encontros com os mais variados tipos de “leitores furiosos” na sexta-feira.
Mais uma vez, tive a sorte de ouvir um excelente actor (Antonino Solmer) a ler as minhas palavras e as dos meus meninos:

A partir do mesmo texto, a dupla Pedro e Diana, músicos capazes de fazer uma canção em menos de nada, criaram isto:

Foi muito bom. Para o ano há mais.

Primeiros parágrafos

«Os media e as instâncias oficiais estão a avisar-nos: muito em breve, vai-se desencadear uma nova crise financeira, e será pior que em 2008. Fala-se abertamente das “catástrofes” e dos “desastres”. Mas o que vai acontecer depois? Como serão as nossas vidas depois de um colapso em larga escala dos bancos e das finanças públicas? A Argentina já passou por essa experiência em 2002. À custa de um empobrecimento em massa, a economia desse país pôde em seguida voltar a subir de novo um pouco a encosta: mas nesse caso, tratava-se de um único país. Agora, a totalidade das finanças europeias e norte-americanas estão em risco de sucumbir em conjunto, sem salvador possível.
Em que momento o crash da bolsa deixará de ser uma notícia que conhecemos pelos media para ser um facto perceptível mal saímos à rua? Resposta: quando o dinheiro perder a sua função habitual. Quer tornando-se raro (deflação), quer circulando em quantidades enormes, mas desvalorizadas (inflação). Nos dois casos, a circulação das mercadorias e dos serviços desacelerará até eventualmente parar por completo: os seus proprietários não encontrarão quem as possa pagar em dinheiro, em dinheiro “válido” que lhes permita, por sua vez, comprar outras mercadorias e serviços. Por isso, eles vão guardá-las. Teremos armazéns cheios, mas sem clientes, fábricas em condições de funcionar perfeitamente, mas sem ninguém que nelas trabalhe, escolas onde os professores deixam de comparecer, porque ficaram durante meses sem salário. Dar-nos-emos então conta de uma verdade que é de tal modo evidente que não a víamos: não existe nenhuma crise na produção em si. A produtividade de todos os sectores aumenta continuamente, as superfícies cultiváveis da terra poderiam alimentar toda a população do globo, e as oficinas e fábricas produzem até muito mais do que é necessário, desejável e sustentável. As misérias do mundo não se devem, como na Idade Média, a catástrofes naturais, mas a uma espécie de feitiço que separa os homens dos seus produtos.
O que já não funciona é a “interface” que se ergue entre os humanos e o que eles produzem: o dinheiro. Na modernidade, o dinheiro tornou-se a “mediação universal” (Marx). A crise confronta-nos com o paradoxo fundador da sociedade capitalista: a produção de bens e serviços não é para ela um fim, mas apenas um meio. O único fim é a multiplicação do dinheiro, é investir um euro para conseguir dois. E quando esse mecanismo se avaria, é toda a produção “real” que sofre e que pode mesmo bloquear por completo. Então, como o Tântalo do mito grego, encontramo-nos perante riquezas que, quando lhes queremos deitar a mão, se afastam: porque não podemos pagá-las. Esta renúncia forçada foi sempre a sina dos pobres. Mas agora, situação inédita, isso poderia chegar a toda a sociedade, ou quase. A última palavra do mercado é assim a de nos deixar morrer de fome rodeados de alimentos empilhados por todo o lado, a apodrecer, mas em que ninguém deve tocar.»

[in Sobre a Balsa da Medusa – Ensaios acerca da decomposição do capitalismo, de Anselm Jappe, Antígona, 2012]

Queres que te faça um desenho?

Ao lado de outros excelentes ilustradores que se reuniram na Casa da Achada no sábado de manhã, o Nuno Saraiva ilustrou o meu texto (sem conhecer os meninos que o inspiraram, como se nota):

A última noite do mundo

São oito meninos que estão juntos e decidem contar uma história, só não sabem como. Uns ainda têm sete anos, outros já chegaram aos oito. A Ysabel («com i grego») nasceu no Brasil, em Minas Gerais, mas fala sem sotaque porque veio para Lisboa ainda bebé. Das visitas a Belo Horizonte, recorda os gelados de côco e uma piscina gigante. Um dia gostava de voltar, talvez para ser cabeleireira, talvez professora de polícias. A Joana não tem dúvidas, nem talvez: quando for crescida será arquitecta, quer desenhar prédios e escolas melhores. Se tiver tempo aprenderá karaté, porque «é bom para uma pessoa se defender». A Beatriz usa óculos cor-de-rosa. Encolhendo os ombros, admite que só lê quando não tem mais nada para fazer. E ela tem sempre muitas coisas para fazer. Por exemplo, fingir-se mais velha ao espelho, para aí uns 23 anos, com a roupa e os sapatos de salto alto da mãe. A mãe nasceu em São Tomé, o pai em Angola, terras que já visitou nas férias e que cheiravam a chuva, mas em que não gostava de viver porque é difícil, ou até impossível, encontrar um McDonald’s. Quando chegar mesmo aos 23 anos, já sabe: se não for modelo, será fadista. A Cátia é da Madeira mas agora vai de eléctrico para a escola todas as manhãs. O melhor dia da sua vida foram dois: o dia em que a levaram pela primeira vez ao circo e o dia em que o seu pai voltou de Abidjan. O Alexandre é muito tagarela e muito sportinguista (vejam a sua camisola às riscas verdes e brancas, com o leão ao peito). No futuro, dê lá por onde der, vai ser cozinheiro em Hollywood, mas por enquanto entretém-se a forrar o quarto com posters do Faísca McQueen. Enquanto exibe a tatuagem de uma caveira voadora a desvanecer-se no braço, garante que já fez com papel e cartolina um pequeno livro de receitas. «Só coisas esquisitas», explica. Esquisitas como? «Hmmmm, deixa cá ver. Ovo estrelado, por exemplo. E panquecas com doce, panquecas com chourição, panquecas com marmelada.» Mais tímido, o João fala muito menos, mas explica que também está a pensar em abrir um restaurante, onde servirá «comida automática» feita por «máquinas ajudantes». Se pudesse, ia 500 vezes ao Algarve e voava até às nuvens como fazem as fadas, a bater um grande par de asas transparentes. Faltam só duas meninas: a Aurora e a Ana Francisca, melhores amigas que se abraçam muito e às vezes se chateiam, só para se reconciliarem logo a seguir. A Aurora aprende violoncelo no Conservatório e já teve um hamster. A Ana Francisca precisa de controlar a vontade de bater nas pessoas (sobretudo num primo mais velho que mora no Luxemburgo) e diz que o seu maior sonho é ver o FMI fora de Portugal.
Mas a história? Que história será? Comecemos pelo título. Quase todos levantam o braço: Cadela Voadora; A Lua Sombria; A Casa Louca; O Livro sem Cor. É difícil chegar a um consenso. O João esboça no papel, linha a linha, a «menina que gostava muito de dançar e depois acordou», a Beatriz lembra-se de uma composição que escreveu para a escola sobre uma estrada que falava e também ria, a Ana Francisca vai buscar o caderno onde guardou as desventuras de um lobo «velhinho e pobrezinho» que se alimentava a sopas de legumes. Não, não, não, nada disso, o grupo quer fazer uma história nova e de todos, uma história que seja dos oito. Uma história de terror, sugere alguém. «Sim, sim, sim, uma história de terror», respondem quase todos. E assim começa a nascer A Última Noite do Mundo, em que se cruzam lobisomens e lobimulheres, vampiros e vampiras, vários tipos de zombies. De repente os monstros levantam-se, ao fundo da sala não há cenário mas há teatro, a Ysabel («com i grego») e o João representam, sozinhos, o género humano acossado, assustado, encurralado. «Agora os monstros destroem tudo», propõe a Ana Francisca, «e depois fazem uma festa». Finda a festa, fartos de destruição, os monstros viram costas, regressam ao mundo deles. E depois? Meio escondida debaixo de uma mesa, como se ainda temesse os inimigos que já desapareceram, a Ysabel («com i grego») olha para o João, ali a seu lado, erguendo-se junto ao quadro de ardósia como se fosse o primeiro homem, e diz: «Depois recomeçamos.»

José Mário Silva, com Alexandre Monchique, Ana Francisca Teixeira, Aurora Gomes, Beatriz Almeida, Cátia Conceição, Joana Matos, João Alves e Ysabel Silva, alunos da Escola n.º 10 (Castelo)

Oito meninos juntos decidem contar uma história

Na Leitura Furiosa de 2010, couberam-me seis alunos do ensino básico. Na de 2011, cinco homens a quem a vida pregou rasteiras. Este ano, voltei à escola e trabalhei com oito crianças da Escola n.º 10 do Castelo (Lisboa).
Ei-las:


Cátia Conceição, 7 anos


Aurora Gomes, 7 anos


Ana Francisca Teixeira, 8 anos


Alexandre Monchique, 7 anos


João Alves, 7 anos


Beatriz Almeida, 7 anos


Joana Matos, 8 anos


Ysabel Silva, 7 anos

E a fotografia de grupo:

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges