O que aí vem (Planeta)

Pecados Escondidos, de Emma Wildes; Halo, de Alexandra Adornetto; Ampulheta, de Michael Grant; Quem Sofre são as Crianças, de Donna Leon.

Bataille no Porto

Corações de Papel

Um blogue sobre livros e as pessoas que os amam, escrito por Inês Espada, livreira.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Fernando Pessoa – uma quase auto-biografia, de José Paulo Cavalcanti Filho (Porto Editora), por António Guerreiro e Richard Zenith
Macau, de Antoine Volodine (Sextante), por José Mário Silva
A Palavra do Mudo, de Julio Ramón Ribeyro (Ahab), por Pedro Mexia
Religião, República, Educação, de Tomás da Fonseca (Antígona), por Hugo Pinto Santos
– Portugueses no Holocausto, de Esther Mucznik (Esfera dos Livros), por Luciana Leiderfarb
– Escolhas de José Luís Peixoto

Dulce, condecorada

Dulce Maria Cardoso vai ser Cavaleira da Ordem das Artes e Letras, em França.

Um livro que se auto-destrói em dois meses (estilo Missão Impossível, mas em slow motion)

Título: El Libro que No Puede Esperar. Na verdade, o que se auto-destrói não é o livro mas o texto, impresso em tinta que desaparece em 60 dias. Quem não o coloque logo na pilha das leituras urgentes, arrisca-se a encontrar só folhas em branco.

Maravilhas da paternidade

O calor acentua o nonsense. Eis algumas frases vindas do banco de trás, durante a viagem de carro.

Pedro: «Já jogámos com a República Checa. Hoje é contra a Cinemateca, não é?»

Alice: «Allô, TeleSapatos, queria uma pizza de solas, se faz favor.»

Pedro: «Allô, TeleMicróbios, queria uma pizza de vírus, se faz favor.»

Jerusalém no meio do Alentejo

Jesus Cristo bebia cerveja
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 248
ISBN: 978-989-672-133-6
Ano de publicação: 2012

As primeiras páginas de Jesus Cristo bebia cerveja parecem indiciar uma brusca mudança de rumo na obra ficcional de Afonso Cruz. Em vez de uma fantasia erudita borgesiana (como a que encontramos nos dois volumes da Enciclopédia da Estória Universal), de uma complexa estrutura narrativa (A Boneca de Kokoschka) ou de uma sofisticada biografia imaginária (O Pintor Debaixo do Lava-Loiça), eis uma abertura quase neo-realista. No Alentejo profundo, parado no tempo, passa uma patrulha da GNR; uma velha urina na rua, agarrada à neta; ouvem-se histórias de infidelidades e de suicidas que se atiram para dentro de um poço.
Gradualmente, porém, vamos compreendendo que o autor decidiu apenas transpor para uma paisagem que conhece bem (pois vive num monte alentejano) os seus temas habituais, as suas idiossincrasias estilísticas e a sua mundividência. Afonso Cruz pode ter pedido o cenário de empréstimo a Manuel da Fonseca, mas tudo o resto é fruto da sua exuberante imaginação. A começar pela figura de uma milionária inglesa que comprou a aldeia inteira e a restaurou, mulher de porte aristocrático que dorme numa cama com um dossel esculpido na ossada de um cachalote. Ao acordar, Miss Whittemore «bebe um chá de jasmim-pérola importado de Singapura, com duas gotas de leite: uma gota de leite de burra e outra de leite de porca» – e não é essa a maior das suas extravagâncias. Gosta, por exemplo, de discutir tudo e mais alguma coisa, à refeição, com um sábio hindu, um feiticeiro africano e um materialista ateu, contratados especificamente para esse fim.
Esses debates, cujo arco é tão amplo que abrange de uma só vez as premissas do budismo, a cabeça de Berkeley (com «todo o universo» lá dentro) e a importância do ADN (o «ácido impronunciável» que codifica em quatro letras apenas – A, T, C, G – a essência dos seres vivos), levam a narrativa para o território preferido de Afonso Cruz: o das ideias. Aliás, todos os pretextos são bons para evocar pensadores de outros séculos. Assim surge uma parede que se enche subversivamente de versos do epicurista Diógenes de Oenoanda (pintados pela calada, num acto de puro «vandalismo filosófico»), ou até uma mulher que fica sexualmente excitada ao ouvir citações de Nicolau de Cusa.
O materialista ateu, «operário da Ciência» nas suas próprias palavras, é o septuagenário professor Borja, caricatura do sábio ostracizado e algo confuso, incapaz de lidar com o facto de ninguém lhe dar a importância de que se julga merecedor. Quando abandona o seu isolamento, de tremenda solidão e desvario teórico, torna-se o principal impulsionador do projecto que vira do avesso a aldeia. Ao perceber que o grande desgosto da avó de Rosa, a rapariga por quem se apaixonou, é morrer sem ter ido à Terra Santa, engendra uma farsa monumental em que se finge tudo: a aldeia passa a ser Jerusalém; uma barragem, o mar Morto; o bar de strip em forma de avião, uma aeronave capaz de voar; e os habitantes mascarados, judeus ortodoxos com kipah e caracóis nas patilhas. Se a velha Antónia acredita na encenação – durante a qual se defende que Jesus Cristo bebia cerveja, o «pão líquido», acessível a todos, em vez de vinho, a bebida dos ricos e dos romanos, os invasores – isso já é outra história.
Afonso Cruz é quase perfeito na caracterização das personagens (de um PIDE, diz-se que era «um homem baixo, também fisicamente»), na articulação das histórias e na voluptuosidade da escrita, pródiga em aforismos e achados poéticos. O único devaneio meta-literário (a inclusão, num livrinho à parte, do breve western que Rosa cita amiúde) também faz todo o sentido. Lamenta-se apenas que o final algo frouxo, sobre o triste destino da protagonista depois de ir para Lisboa, não esteja à altura do grande romance que “Jesus Cristo bebia cerveja” é.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quando um autor estrangeiro repudia o Acordo Ortográfico português

Creio que é uma situação inédita. Na ficha técnica do romance Macau, do escritor francês Antoine Volodine, editado por estes dias pela Sextante (do grupo Porto Editora, que aplica com raras excepções o Acordo Ortográfico), pode ler-se: «Por decisão do autor, o presente livro não segue o novo Acordo Ortográfico.»
É certo que Volodine tem uma relação forte com Macau e com alguns portugueses que conheceu por lá, mas não deixa de ser extraordinário que um autor de língua francesa seja mais aguerrido na defesa das nossas consoantes mudas do que muitos escritores portugueses, indiferentes ou cúmplices perante as amputações e alterações absurdas à grafia da língua.

Pessoa-Tabucchi-Llansol na ‘Letra E’

Um resumo.

O que aí vem (Assírio & Alvim)

Histórias de um Raciocinador e o ensaio ‘História Policial’, de Fernando Pessoa; Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz (organização de Manuela Parreira da Silva); Assim Seus Olhos, de Pedro Strecht.

Primeiros parágrafos

«Quando o velho acendeu a lamparina de petróleo, a escuridão pouco ou nada se alterou, mas o barco parecia ter recomeçado a baloiçar. No junco mesmo ao lado, alguém cozinhava peixe com alho e molho de soja. Reactivado pelos movimentos do velho, o cheiro, já de si poderoso, tornou-se ainda mais forte. As sombras não paravam de hesitar. Assim que o velho se voltou a sentar, a um metro do minúsculo círculo de luz difundido pela lamparina, o seu rosto arruinado de pescador, decorado por três reles torcidas de pêlo acinzentado, logo se desvaneceu.
As vigas da armação rangiam, ou talvez fosse apenas uma coisa qualquer que rangia contra o casco do barco, talvez uma das estacas da doca a raspar na madeira.
O velho fumava.»

[in Macau, de Antoine Volodine, trad. de Ana Isabel Sardinha Desvignes, Sextante, 2012]

Daniel Oliveira na ‘Avenida de Poemas’

Terça-feira à noite, a partir das 22h00 (no palco do Teatro Tivoli), Daniel Oliveira, o cronista e comentador político, falará com a Raquel Marinho e comigo sobre os poemas que mais o marcaram ao longo da vida. Entre os escolhidos para leitura, estão versos de Herberto Helder, António Gancho, Mário Cesariny, Alexandre O’Neill, Mário Henrique Leiria, Adília Lopes e Fiama Hasse Pais Brandão.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Carlos Ruiz Zafón, autor de O Prisioneiro do Céu (Planeta), por Cristina Margato
– Ensaio sobre os 200 anos dos Contos Infantis, dos Irmãos Grimm, por António Guerreiro
Jesus Cristo bebia cerveja, de Afonso Cruz (Alfaguara), por José Mário Silva
A Arte da Viagem, de Paul Theroux (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
O Afável Monstro de Bruxelas ou a Europa sob Tutela, de Hans Magnus Enzensberger (Relógio d’Água), por António Guerreiro
Grandes Conflitos da História da Europa, de João Gouveia Monteiro (Imprensa da Universidade de Coimbra), por Rui Cardoso
O Homem que Sonhou, de Tomaz de Figueiredo (Parceria A. M. Pereira), por Pedro Mexia
A Foto. E o reencontro meio século depois, de vários autores (Âncora), por José Pedro Castanheira
– Revista Cão Celeste, n.º 1, Abril de 2012, por Carlos Bessa
O Animal Social, de David Brooks (Dom Quixote), por Luís M. Faria
– Escolhas de João Paulo Cotrim

A. M. Pires Cabral e San Juan de la Cruz numa rua de Segóvia

História de uma descoberta literária, contada no blogue da Cotovia.

Afonso Cruz: lançamento duplo

É mais logo, ao fim da tarde, no Cais do Sodré. Eu já li os dois livros (e gostei muito), mas falarei apenas do novo volume da Enciclopédia da Estória Universal. Apareçam.

Pessoa Plural

Dirigida por Onésimo Almeida, Paulo de Medeiros e Jerónimo Pizarro, Pessoa Plural é uma revista académica internacional dedicada a estudos pessoanos. Está disponível online, aqui.

As pequenas coisas, sem Deus

O Novíssimo Testamento e outros poemas
Autor: Jorge Sousa Braga
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 47
ISBN: 978-972-0-79303-4
Ano de publicação: 2012

No seu novo livro, Jorge Sousa Braga revisita, em modo irónico, a linguagem bíblica e as suas simbologias. Os dois primeiros versos («Escrevi este testamento com sangue / de galinha») afastam logo, pelo efeito de estranheza do enjambement, quaisquer resquícios de solenidade religiosa. Ao apropriar-se de um universo semântico conhecido (matriz da nossa cultura judaico-cristã), o autor reinventa-o à luz de um lirismo singular e pessoal. Na sua versão do Génesis, Deus está ausente (no princípio, não há verbo divino) e a cosmogonia é substituída pela cosmologia: o universo «continua a arrefecer e a expandir-se a expandir-se e a arrefecer / e a condensar-se para formar galáxias estrelas planetas nebulosas // e este ramo de rosas» (a aridez da explicação científica salva pelo carácter inesperado do último verso). Se de um baptismo laico – no rio Cávado, em vez do Jordão – o poeta retém apenas, muitos anos depois, o «calafrio» da água gelada; no Sermão da Montanha limita-se a enumerar, como numa litania, os 14 picos mais altos do planeta («Cho Oyo / Dhaulagiri / Evereste / Gasherbrum II (…)», etc.), concluindo com um lapidar mandamento: «Quando chegares ao cimo da montanha / continua a subir».
Após uma sequência de poemas sobre a morte e o luto (pelo pai, mas também pelo seu antigo editor), o livro fecha no território de eleição de Sousa Braga: o das pequenas coisas, ilhas de beleza submersas na realidade quotidiana e resgatadas por um olhar atento. Podem ser os agapantos, que «explodem» como «se fosse / um fogo-de-artifício rente / ao chão». Ou a insistência de um semáforo. Ou a «luta inglória» contra as ervas daninhas: «corriola», «escalracho» e, pior de todas, «a poesia».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Festival Silêncio

Está a chegar. Em Lisboa, de 26 de Junho a 1 de Julho, no cinema São Jorge, Pensão Amor, Fundação José Saramago e MusicBox. Programação completa aqui.

Álvaro de Campos, prosador

Lançamento da prosa completa do heterónimo pessoano, logo à tarde.

Seis verbetes de Afonso Cruz

BABEL

A maldição de Babel não foi os homens desentenderem-se por falarem línguas diferentes, mas sim desentenderem-se falando a mesma língua.
(Dovev Rosenkrantz)

***

(A) CONTRADIÇÃO DO SOBREIRO

A vida descreve-se pela contradição do sobreiro: o jovem não tem paciência para esperar meio século para que a árvore cresça e seja adulta. Por isso, não a planta. Quando chega a velho e, finalmente, tem paciência para esperar, planta-a, mas já não tem tempo para a ver crescer.

***

CORVOS

Aos homens que tentavam sedentarizar-se, os Ubitatã cortavam-lhes os pés: «se não caminham, não precisam deles». E davam os pés a comer aos corvos.
O rei da Assíria, Sardanapalo, pelo contrário, cortava os pés dos nómadas para que estes se tornassem sedentários. Depois, dava-os a comer aos corvos.
Em ambos os casos, os corvos é que ficavam a ganhar.

***

LER

Podem não existir livros a mais, mas existe tempo a menos.
(Wilhelm Möller)

***

ÓCIO

O ócio não é o contrário de trabalho. A felicidade é que é o contrário de trabalho.
(Marian Bibin)

***

(RELAÇÃO ENTRE O) TELHADO E A DÚVIDA

Por mais andares que uma casa tenha termina sempre no telhado. É assim a vida do homem: por mais certezas que tenha, termina sempre na dúvida.
(Malgorzata Zajac)

[in Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria, de Afonso Cruz, Alfaguara, 2012]

Idade do gelo

Este Frio e outras histórias de amor
Autora: Paola d’Agostino
Tradutor: Miguel Serras Pereira
Editora: Fenda
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-603-044-5
Ano de publicação: 2012

Aproveitando o buraco virtual do fuso horário entre Portugal e Espanha, um arquivista aéreo organiza as memórias de que os passageiros se desfazem durante a viagem de avião entre as duas capitais ibéricas (acontece tudo no interior de uma nuvem usada como «vazadouro» de informação descartável, mas uma nuvem das verdadeiras, não a famosa cloud partilhada dos gadgets digitais). Num prédio lisboeta, desenreda-se o drama da violência entre amantes, todo contado do ponto de vista da vítima que hesita em libertar-se de uma prisão afectiva auto-infligida. O namoro entre um electricista que mudou de nome inspirado por John Fante (passou a chamar-se Arturo, como o protagonista de Pergunta ao Pó) e uma rapariga prestes a mudar-se para a Turquia, à distância de um voo da Easyjet, vai-se desfazendo em dia de aniversário, mais por inércia e tédio do que por desilusão.
As narrativas de Paola d’Agostino (n. 1975), agora reunidas em Este Frio e outras histórias de amor, são crónicas subtis, mas amargas, sobre o modo como a temperatura de uma relação pode cair de repente abaixo de zero, gerando à sua volta uma idade do gelo emocional. Elípticos, cortantes, por vezes ásperos, estes contos nem sempre encontram o tom certo (veja-se a simetria forçada de O Pai Natal e outros viajantes ou a metáfora simplista de Desassossego dos Peixes Vermelhos). Nos seus melhores momentos, porém, a escritora revela um domínio surpreendente das frases de efeito: «Quando se movia, era como se empurrasse uma carga de raiva»; «A sua beleza era sempre imprevista».
Da meia dúzia de textos, o que dá título ao volume é manifestamente superior aos outros, no modo como descreve o processo de arrefecimento existencial e o solipsismo agudo de um homem fechado em casa, para quem «a imobilidade é uma vertigem» e «um hábito», a solidão «uma contingência» e a liberdade «um estado mental» – tudo palcos para medos à solta, cujos nomes de etimologia latina impressionarão o leitor incauto mas infelizmente não servem sequer para esconjuro.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Romance Português Contemporâneo – 1950-2010, de Miguel Real (Caminho), por Pedro Mexia
Temperamentos Filosóficos – Um Breviário de Platão a Foucault, de Peter Sloterdijk (Edições 70), por António Guerreiro
A Informação, de Martin Amis (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
Lisboa – A Guerra nas Sombras da Cidade Luz, 1939-1945, de Neill Lochery (Presença), por Luísa Meireles
Ai Wei Wei Interlacing, de Urs Stahel e Daniola Janser (Steidl), por Alexandra Carita
Os Melhores Anos – Churchill 1940-45, de Max Hastings (Civilização), por Luís M. Faria
Entre a Carne e o Osso, de Luís Filipe Parrado (Língua Morta), por Manuel de Freitas
O Novíssimo Testamento e outros poemas, de Jorge Sousa Braga (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
– Escolhas de Joana Bértholo

Mr. Pynchon goes digital, at last

Uma excelente notícia (sobretudo para quem pretende levar os camalhaços das férias todos dentro do Kindle).

Maravilhas da paternidade

Alice: «Quando for grande vou ser escritora porque tenho uma cabeça cheia de ideias.»

O que aí vem (Dom Quixote)

Escutando o Rumor da Vida seguido de Solidões em Brasa, de Urbano Tavares Rodrigues; Uma Manhã Perdida, de Gabriela Adamesteanu; Flores Caídas no Jardim do Mal (Primavera), de Mons Kallentoft; Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado (reedição); O Som e a Fúria, de William Faulkner (reedição).

Pessoa em Festa

Além de dia de Santo António e Dia da Cidade de Lisboa, hoje também é o aniversário de Fernando Pessoa, facto devidamente assinalado na casa do poeta.


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Fundação José Saramago abre hoje as portas na Casa dos Bicos

Eis o comunicado de imprensa sobre este momento decisivo na vida da Fundação José Saramago:

«A Fundação José Saramago abre as portas ao público às 14h00 de 13 de junho, finalizada que está a primeira fase das obras de readaptação da Casa dos Bicos.
O presidente da Câmara Municipal de Lisboa e a presidenta da Fundação inauguram nessa manhã oficialmente a nova sede, numa sessão que começa às 11h30 e que, devido a constrangimentos de espaço, é destinada a convidados e à comunicação social. Na breve cerimónia, será emitido uma gravação em vídeo de José Saramago sobre os objetivos da Fundação, e seguem-se intervenções de Fernando Gómez Aguilera, comissário da exposição “José Saramago. A Semente e os Frutos”, e do presidente da CML. Seguir-se-ão uma visita pelo interior do edifício e a inauguração da exposição, que ocupa todo o primeiro andar.
A exposição “José Saramago. A Semente e os Frutos” ilustra a vida e a obra de José Saramago enquanto cidadão e escritor. O percurso passa pelas origens na aldeia ribatejana da Azinhaga, com a evocação dos avós Josefa e Jerónimo, e pelos anos de escrita jornalística e militância cívica e política. Os frutos referidos no título da exposição estão patentes nos manuscritos, nos livros em edições em diferentes línguas e na consagração trazida pelo Prémio Nobel da Literatura de 1998. Estarão expostos objetos pessoais de José Saramago, como a reconstituição do primeiro escritório onde escreveu, as agendas minuciosas em que organizava o dia-a-dia, fotografias com amigos de todos o mundo.
Parte da biblioteca pessoal de José Saramago está guardada na Casa dos Bicos – o essencial ficou na Biblioteca em Lanzarote – e fica disponível para investigadores, que disporão de áreas de trabalho no edifício. É possível aceder à Biblioteca de Lanzarote a partir de equipamento eletrónico instalado no edifício de Lisboa.
A Casa dos Bicos, cedida à Fundação Saramago pela Câmara Municipal de Lisboa em 2008, conclui agora a primeira fase das obras de restauro e adaptação deste edifício seiscentista. A segunda fase incidirá sobretudo na jazida arqueológica inestimável existente a nível substerrâneo. Em 1983, por ocasião da XVII Exposição de Artes, Ciência e Cultura, a Casa dos Bicos foi reconstruída, pois o Terramoto de 1755 tinha-a destruído parcialmente e durante muito tempo serviu de armazém de bacalhau. As obras feitas no último ano são da responsabilidade dos arquitetos Manuel C. Vicente, que já tinha sido autor da profunda reconstrução de 1983, e pelo arquiteto João Santa-Rita, filho do coautor de então, José Santa-Rita. Quase todo o mobiliário foi concebido, executado e oferecido por Paredes Polo de Design de Mobiliário.
A Casa dos Bicos ficará aberta todos os dias úteis das 10 às 18 horas, e aos sábados das 10 às 14 horas, com entrada gratuita até ao final de junho. Contará com uma loja onde os visitantes podem comprar livros de José Saramago em várias línguas e artigos com a marca da Fundação.»

Esquinas e quedas

Prémio Nacional de Poesia
Autor: Nuno Moura
Editora: Mia Soave
N.º de páginas: 44
ISBN: 978-989-97215-1-7
Ano de publicação: 2012

Nuno Moura é um dos elementos mais desalinhadamente activos da poesia portuguesa contemporânea. Ex-jogador de pólo aquático, ex-publicitário, tem sido um declamador todo-o-terreno de versos seus e de outros – a solo, em dupla (COPO, com Paulo Condessa) ou em grupo (Ventilan) –, além de responsável por projectos editoriais arriscados, sempre à margem dos circuitos estabelecidos. Depois da Mariposa Azual, fundou recentemente a Mia Soave – assumidamente uma «editora de vão de escada», que se estreou a publicar um livro de poemas de Alberto Pimenta (Reality Show ou a alegoria das cavernas, acompanhado por um CD com temas originais de Ana Deus e Alexandre Soares).
Agora, em Prémio Nacional de Poesia, igualmente com um disco de bónus (14 temas musicados por José Ferreira, a partir de textos antigos de Nuno Moura, ditos pelo próprio ou cantados por Beatriz Nunes, a nova voz do Madredeus), volta a prevalecer a dimensão oral desta escrita: «O que aqui se lê em silêncio foi escrito para ser lido ao vivo.» Performativa e surrealizante, a prosa poética de Nuno Moura é um mecanismo imparável de sabotagem e rebeldia, um exercício de liberdade livre em doses generosas.
«Entre o pensamento e a fala, dentro do dicionário completo de sons, dois amantes abraçam-se.» O resto é caos, espalhafato, provocação (farpas a rodos; tiro ao alvo a tudo o que mexe, de musas a críticos), uma energia que muitas vezes acende a página, mas outras vezes se dissipa, palavrosa, no abismo da escrita automática. É um poema «de esquinas e de quedas», sempre a fugir, desobediente, «rasando o canteiro cheio de terra e de folhas». Com ele, diz o poeta, «as miúdas vão voltar a gritar nos recitais». Esperemos que sim.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Jorge Sousa Braga

BARRAGEM DA BEMPOSTA

As águas que alimentam estas
turbinas não se reconhecem

quando são devolvidas ao leito
do rio Algo da sua essência

navega agora nos cabos de
alta tensão Quase precisam

– essas águas – de serem agora
conduzidas pela mão

***

AGAPANTOS

Quem desce a avenida até à
praia nos canteiros entre os

prédios nos recantos mais
sombrios do meu cérebro

por todo o lado explodem
os agapantos… É como se fosse

um fogo-de-artifício rente
ao chão como se inteiros

os dias te explodissem na mão

***

O POEMA DO CORTADOR DE RELVA

Lê-me disse ela o poema do
cortador de relva mas eu já

me esquecera do poema
apenas que era de manhã

havia um rasto de erva cortada
de fresco e o cortador de relva

eléctrico no meio do jardim sem que
ninguém conseguisse explicar

como fora ele lá parar

***

O LIVRO

Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou

da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua

atenção ou alguém o arrumou
em segunda fila na estante…

Tu não o sabes – como o poderias
saber? – mas esse livro descreve

como e quando vais morrer

[in O Novíssimo Testamento e outros poemas, Assírio & Alvim, 2012]

‘A Sul de Nenhum Norte’

Eis uma bela revista online, disponível em pdf (downloads gratuitos).

Primeiros parágrafos

«Estava a escrever um artigo sobre as últimas fusões empresariais, quando notei um tremor no bolso direito do roupão, de onde tirei, misturados com vários bocados de pão, quatro ou cinco homenzinhos que atirei para cima da mesa, por cuja superfície desataram a correr, à procura de um buraco para se esconderem. Nesse momento, entrou a minha mulher, que nesse dia não fora trabalhar, para me perguntar se me apetecia um café. Quando chegou ao pé de mim, já não havia nenhum homenzinho à vista, só os pedaços de pão e algumas migalhas.
– Que mania! – disse, referindo-se ao meu hábito de guardar nos bolsos bocadinhos de pão, cuja côdea roía com os mesmos efeitos relaxantes com que outros fumam, ou bebem um copo.
Este costume metia-lhe nojo, embora os meus bocados de pão não fizessem mal a ninguém e, a mim, me dessem prazer. Em geral, depois de escrever um parágrafo com que me sentisse satisfeito, tirava um do bolso e dava-lhe três ou quatro dentadas, enquanto pensava no seguinte. Por qualquer razão, associava o exercício de roer à produção de pensamento.»

[in O que Sei dos Homenzinhos, de Juan José Millás, Planeta, 2012]

Em tempo de indigência

A Terceira Miséria
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 41
ISBN: 978-989-641-281-4
Ano de publicação: 2012

No seu regresso à poesia, com A Terceira Miséria, Hélia Correia parte da famosa e devastadora pergunta de Friedrich Hölderlin: «para que servem os poetas em tempo de indigência?» Uma questão que faz tanto sentido hoje como fazia há dois séculos, porque mesmo «sem deuses» ou o «sentimento / sequer da sua falta», mesmo reduzidos agora à condição de «pobres confortáveis», sofremos de «idêntica indigência». Ameaçada por Persas que desta vez chegam do Norte, é na Grécia que se volta a jogar o nosso futuro enquanto civilização.
A par de Hölderlin, o da «meiga loucura», Hélia convoca Nietzsche, outro germânico condenado a enlouquecer, porque «uma vida / não chegaria para tanto adeus». E se o primeiro Friedrich «falava com fantasmas», o segundo foi o «anunciador», o que «caminha / sobre águas estagnadas e parece, / ao afundar-se, desenhar no lodo / Um mapa para o qual não há leitura». O que há é o «rasto extraordinário» da beleza, a imagem de uma Grécia idealizada, ardente, esplendorosa, que também chamou Byron e os «jovens da Europa», a Grécia da «rápida alegria / que levanta o cavalo em plena guerra», onde os sábios eram «enfurecidos gloriosos» que muito bebiam e cantavam, recitando a Ilíada de cor e desdenhando da paciência.
A helénica Hélia lamenta os «amados vestígios entretanto / pisados, arrastados pelos becos, / os véus de outrora presos na imundície» e enumera as três misérias que se foram abatendo umas sobre as outras. Primeiro, a «deserção dos deuses». Depois, a «miséria da interpretação / que tudo trai». E por fim a miséria actual: «A de quem já não ouve nem pergunta. /
 A de quem não recorda. E, ao contrário / Do orgulhoso Péricles, se torna
/ Num entre os mais, num entre os que se entregam, / Nos que vão misturar-se como um líquido / Num líquido maior, perdida a forma, / Desfeita em pó a estátua.»
Esta é uma poesia do desencanto e da revolta diante do «apetrecho dos destruidores», essa «arrogância / pela qual o ocidente se perdeu». Há nestes versos muita melancolia, uma tristeza face às ruínas (hoje mais simbólicas do que literais), um sentido agudo do que ficou perdido talvez para sempre, mas também uma vontade de escapar ao abismo da resignação. Por baixo do «ferro retorcido», acredita a autora dos «exercícios» sobre Antígona e Medeia, esconde-se uma Atenas que se mantém oculta, à espera de novos mensageiros que esvoacem pelo éter, alimentando a «ardência do improvável».
Como as ágoras de há 2500 anos, as praças voltaram a ser lugares onde se escuta a «fervilhante / palavra própria da democracia» e a «gente do Sul» que um dia «se desnorteou» encontrará decerto formas novas de se orientar. Uma esperança que se materializa, inteira, no poema final:

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
a ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Ilha de Caribou, de David Vann (Ahab), por Ana Cristina Leonardo
N.º 44, Um Estranho Misterioso, de Mark Twain (QuidNovi), por José Guardado Moreira
Música de Câmara, de James Joyce (Relógio d’Água), por Hugo Pinto Santos
Glória, de Vladimir Nabokov (Teorema), por Pedro Mexia
Religião para Ateus, de Alain de Botton (Dom Quixote), por Cristina Peres
As Origens da Ordem Política, de Francis Fukuyama (Dom Quixote), por Luís M. Faria
Prémio Nacional de Poesia, de Nuno Moura (Mia Soave), por José Mário Silva
– Escolhas de Isabela Figueiredo

Eu também fiquei “a arder”

O que aconteceu à Sónia, também me aconteceu. É, infelizmente, a triste sina de quem trabalha como freelancer. É um escândalo que se repete com excessiva frequência e impunidade. Um escândalo que se vai tornando habitual mas nem por isso menos escandaloso.

Mais logo

No terraço da galeria Zé dos Bois, apresentarei o livro Havia, de Joana Bértholo, a partir das 19h00.

O efeito Amazon

«(…) In 1995, the year Bezos, then 31, started Amazon, just 16 million people used the Internet. A year later, the number was 36 million, a figure that would multiply at a furious rate. Today, more than 1.7 billion people, or almost one out of every four humans on the planet, are online. Bezos understood two things. One was the way the Internet made it possible to banish geography, enabling anyone with an Internet connection and a computer to browse a seemingly limitless universe of goods with a precision never previously known and then buy them directly from the comfort of their homes. The second was how the Internet allowed merchants to gather vast amounts of personal information on individual customers. (…)»

Eis um excelente artigo de Steve Wasserman sobre o cada vez maior poder da Amazon e a forma como este gigante está a moldar o futuro da produção e comercialização do livro.

O que aí vem (Presença)

Cristiano Ronaldo – A perfeição é o limite, de Luca Caioli; A Cidade Impura, de Andrew Miller; Matar à Portuguesa, de Vários Autores; Guia das Tascas e Tabernas de Portugal, Orlando Leite; A Última Aula, de Randy Pausch e Jeffrey Zaslow.

Uma catástrofe silenciosa

Do Natural – Um Poema Elementar
Autor: W. G. Sebald
Título original: Nach der Natur. Ein Elementargedicht
Tradução: Telma Costa
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 107
ISBN: 978-989-722-025-8
Ano de publicação: 2012

No nosso país, W. G. Sebald tem vindo a ser editado no sentido inverso da sua publicação original. A Austerlitz, o último dos romances e obra-prima do escritor alemão (lançado pela Teorema em 2004), foram sucedendo-se os livros anteriores, numa espécie de progressão às arrecuas. Não espanta por isso que só agora nos chegue o seu trabalho literário mais antigo: Do Natural (Nach der Natur), de 1988 – primeiro volume de uma nova colecção que a Quetzal vai dedicar ao escritor germânico, precocemente desaparecido num acidente de automóvel em Dezembro de 2001, aos 57 anos, no auge das suas capacidades criativas. Na verdade, a ordem cronológica pouco importa. Saúde-se antes o facto de finalmente ficar completo o arco essencial de uma obra importantíssima, das mais originais e poderosas da literatura europeia contemporânea.
Definido por Sebald como um «longo poema em prosa», este é um texto estranho, um tríptico que convoca, quase isoladamente (não fora algumas subtis e subterrâneas conexões entre elas), três figuras muito distanciadas no tempo, mas igualmente sujeitas ao «fardo da melancolia»: Matthaeus Grünewald, pintor de retábulos do século XVI; Georg Wilhelm Steller, um explorador e naturalista do século XVIII; e o próprio Sebald, que escreve «entre as ruínas», enquanto evoca e relaciona vários episódios da sua vida.
Embora o texto se disponha em versos livres, a linguagem é efectivamente a da prosa: uma prosa lenta, complexa, meticulosa, cheia de anfractuosidades e ressonâncias, desdobrando-se em frases buriladíssimas que se propagam como ondas, com as orações a encaixarem-se umas nas outras de forma perfeita. O lirismo surge nos contrastes rítmicos, nas imagens inesperadas, nos detalhes muito nítidos que assumem de repente um carácter revelador. A escrita parece capaz de abranger tudo – paisagens, acontecimentos históricos, ideias – na formulação exacta de um achado verbal. Uma característica que encontramos também nos outros livros de Sebald, mesmo nos mais assumidamente ficcionais, pelo que não será talvez descabido pensar toda a obra deste autor como um majestoso «poema em prosa» que procura, de vários modos, resgatar a memória de existências perdidas (ou em risco de se perderem) sob o imenso poder destrutivo do esquecimento.
De Grünewald sabe-se pouco, a sua biografia é esquiva, por isso Sebald procura-o nos seus quadros, onde por vezes se figura em autorretratos. No famoso retábulo de Isenheim, representando as tentações de Santo Antão, descobre uma espécie de apocalipse humano, uma tenebrosa «imagem da nossa louca presença / à superfície da Terra», um retrato da «falta de equilíbrio da natureza» que logo «desfaz o que acaba de fazer». No pintor de grotescas crucificações de Cristo, Sebald encontra «a construção de uma metafísica», uma visão extrema do «desgaste» que «acabará por corroer até as pedras». Já na viagem de Steller, que acompanhou Vitus Bering na exploração dos confins siberianos, surge um confronto com os limites da experiência humana que torna clara «a diferença entre natureza e sociedade». Há, no mundo natural, uma beleza «inapreensível» que Sebald, nascido sob o signo do «frio planeta Saturno», cedo intuiu, quando em criança, à janela de casa, se punha a «imaginar / uma catástrofe silenciosa / que chega ao observador sem aviso». Nele mesmo, como em Grünewald e Steller, Sebald assinala um desamparo sem consolo. Por muito que emane uma «luz rara» dos versos de Hölderlin, o «desvario vai até onde / alcança o coração».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

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