Esculturas feitas de livros

São criações do artista Jonathan Callan. Mais aqui.

Resistentes

«Apesar de as principais editoras já seguirem o AO, o levantamento feito pelo JN junto de alguns dos dos mais destacados autores portugueses não deixa dúvidas: pelo menos dois terços não o aplicam e nem fazem tenção de fazê-lo tão cedo.»
Por uma vez, estou com a maioria.

Primeiros parágrafos

«As insónias assaltavam-no agora com mais frequência, não uma ou duas vezes por semana, mas quatro, cinco vezes. Que é que ele fazia nessas ocasiões? Não dava longos passeios à luz da alvorada, que subia no céu como um texto num ecrã de computador. Não tinha nenhum amigo de quem gostasse o suficiente para incomodar com um telefonema. Que é que havia para dizer? Era uma questão de silêncio, não de palavras.
Tentou ler até lhe vir o sono, mas a leitura deixava-o ainda mais desperto. Lia livros de ciência e poesia. Gostava de poemas concisos dispostos minuciosamente no espaço branco, fiadas de marcas alfabéticas gravadas a ferro em brasa no papel. Os poemas tornavam-no consciente da sua própria respiração. Um poema desvendava a cada momento coisas em que, normalmente, não estava preparado para reparar. Eis o subtil cambiante de cada poema, pelo menos para ele, de noite, durante aquelas longas semanas, um fôlego atrás do outro, no quarto rotativo no alto do triplex.
Uma noite tentou dormir de pé na sua cela de meditação, mas não era versado que chegue, monge que chegue para consegui-lo, longe disso. Contornou o sono e fechou o círculo, alcançando o equilíbrio, uma calma sem luar em que cada força é contrabalançada por outra. Isto proporcionava-lhe o mais fugaz dos alívios, uma breve pausa no tropel das identidades irrequietas.
Não havia resposta à pergunta. Experimentou sedativos e hipnóticos mas criavam-lhe dependência, fazendo-o mergulhar dentro de si mesmo em espirais apertadas. Todos os actos por ele executados eram sintéticos e tinham a persegui-los o próprio reflexo. O pensamento mais apagado trazia consigo uma sombra ansiosa. Que fez ele? Não consultou um psicanalista sentado num cadeirão de couro. Freud já deu o que tinha a dar, Einstein quase. Naquela noite estava a ler a Teoria da Relatividade Restrita em inglês e alemão, mas por fim pousou o livro e ficou deitado, completamente imóvel, tentando mobilizar a energia suficiente para proferir a única palavra que desligaria as luzes. Nada existia à sua volta. Havia apenas o ruído dentro da sua cabeça, a mente no tempo.
Quando morresse, não acabaria. O mundo é que acabaria.»

[in Cosmópolis, de Don DeLillo, trad. de Paulo Faria, Relógio d’Água, 2012]

Revista ‘Ler’, n.º 114

Já nas bancas.

Debate na Feira do Livro do Porto

Logo à tarde, a partir das 18h00, participo num debate intitulado “Os Livros e a Revista Ler”, incluído na programação da Feira do Livro do Porto. Tendo o 25.º aniversário da Ler como mote, conversarei com o Bruno Vieira Amaral, a Dóris Graça Dias e a Filipa Melo, no auditório da APEL. A moderação do debate estará a cargo de João Pombeiro.

Livros a Oeste

Até 6 de Junho, na Biblioteca Municipal da Lourinhã, com a participação de André Letria, Afonso Cruz, David Machado, David Soares, João Ricardo Pedro, Joel Neto, Mário Zambujal, Pedro Vieira e Rui Zink, entre outros.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Do Natural – Um Poema Elementar, de W. G. Sebald (Quetzal), por José Mário Silva
Compreender as Relações Internacionais, de Chris Brown e Kirsten Ainley (Gradiva), por Luís M. Faria
A Mente Louca dos Grandes Líderes Mundiais, de Nassir Ghaemi (Matéria Prima), por Luísa Meireles
O Sistema Periódico, de Primo Levi (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa (Dom Quixote), por Pedro Mexia
– Escolhas de Valério Romão

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges