Um cerco em Veneza

Os Manuscritos de Aspern
Autor: Henry James
Título original: The Aspern Papers
Tradução: Aníbal Fernandes
Editora: Sistema Solar
N.º de páginas: 157
ISBN: 978-989-8566-07-2
Ano de publicação: 2012

Depois de vendida a marca e o catálogo ao grupo Porto Editora, a empresa anteriormente conhecida como Assírio & Alvim passou a designar-se Edições Documenta e a distribuir três novas chancelas: Pedra Angular (temas religiosos), Documenta (artes visuais) e Sistema Solar (ficção). É nesta última que reencontramos as sempre confiáveis escolhas de Aníbal Fernandes, desta vez em dose generosa, com a publicação simultânea de cinco verdadeiras preciosidades por ele esmeradamente traduzidas e apresentadas: Os Génios seguidos de Exemplos, de Victor Hugo; No Sentido da Noite, de Jean Genet; Com os Loucos, de Albert Londres; O Senhor de Bougrelon, de Jean Lorrain; e Os Manuscritos de Aspern, de Henry James.
Prestemos atenção, para já, ao magnífico relato do escritor norte-americano, uma das suas ficções curtas mais admiradas (o biógrafo Leon Edel considerava-a mesmo «a melhor de quantas escreveu»), novela publicada inicialmente na revista Atlantic Monthly, entre Março e Maio de 1888. A «anedota» em que se inspira, escutou-a James em Florença, na casa da escritora Vernon Lee. Antiga amante de Lord Byron, uma octogenária chamada Miss Clairmont vivia na companhia de uma sobrinha com o mesmo nome e menos 30 anos. Sabendo-as na posse de manuscritos importantes (de Byron, mas também de Shelley), o industrioso capitão Edward Silsbee engendrou um plano para se apropriar dos documentos, estratagema que consistia em fazer-se hóspede das senhoras, ganhar-lhes a confiança e esperar pela morte da mais velha, para depois convencer a mais nova. Quando os seus desejos se cumpriram, abriu por fim o jogo com a sobrinha, mas esta tinha na manga uma surpresa desagradável: «Dou-lhe todas as cartas se o senhor se casar comigo!» Silsbee não pensou duas vezes e desapareceu de cena à velocidade do relâmpago, esse raio de luz fulminante tão caro aos românticos ingleses deixados para trás.
Neste «curioso tema», James sentia-se atraído pela ideia do confronto entre duas mulheres «decrépitas», agarrando-se com unhas e dentes ao seu bem mais precioso (as cartas) e tentando resistir às manobras de um homem muito mais novo: «O interesse estará no preço que o herói terá de pagar – o preço que a solteirona, ou a sobrevivente, fixará para os manuscritos. As suas hesitações – o seu combate – porque o herói estará disposto a dar quase tudo o que lhe for pedido.» Quando finalmente escreveu a história, James transferiu-a para um palácio veneziano, com duas Miss Bordereau (tão decadentes e fechadas sobre si mesmas como as Clairmont da «anedota» original), sendo a mais velha a fiel guardiã das cartas e textos inéditos de Jeffrey Aspern, um imaginário poeta norte-americano de quem teria sido em tempos amante e musa. A fazer de Silsbee, o intruso que cobiça os manuscritos, temos um narrador nunca nomeado que se assume como o editor actual de Aspern, ávido de descobrir quaisquer vestígios, mesmo se estritamente do foro pessoal, deixados pelo poeta.
Ao chegar a Veneza, o narrador sabe que as Bordereau vivem «obscuramente» num «velho e degradado palácio» de um canal secundário, mas «muito comme il faut», sem visitas, praticamente reclusas, longe do mundo, limitadíssimas pelos seus parcos meios de subsistência. A estratégia para entrar em tão agreste território é-lhe sugerida por uma amiga que o incita a propor-se como hóspede, atraído pela beleza e recato do jardim. O admirador de Aspern excita-se sobretudo com a perspectiva de conhecer a única pessoa viva que foi vista e tocada, em tempos, pelo objecto da sua adoração literária. Mas o entusiasmo é mitigado ao encontrar a figura real, de carne e osso, uma idosa sinistra que o recebe com frieza e cupidez, dando ao dinheiro e às questões financeiras uma primazia pouco poética. Tolerado na enorme mansão, o narrador monta lentamente o seu cerco, com infinita paciência, infiltrando-se aos poucos na vida daquelas mulheres e desarmadilhando, uma a uma, as suas muitas desconfianças. Toda a novela funciona como um jogo psicológico de alta tensão, em que até as figuras mais cândidas acabam por revelar-se menos inocentes do que parecem. No espaço confinado da casa, vence quem for mais astuto, mesmo se a astúcia tem aqui, quase sempre, «os alinhavos à mostra».
James mostra-se absolutamente exemplar na forma como constrói o mecanismo da sua narrativa. O ritmo da prosa, a perfeição das frases, o desenho das personagens, a densidade do que é dito (e sobretudo do que não é dito, do que paira nas entrelinhas, implícito), nada fica aquém ou além da justa medida. Quanto a Veneza, nunca se resume a um pano de fundo. O narrador compara-a a uma esplêndida «habitação familiar, doméstica e sonora», lugar «onde as vozes soam como nos corredores de uma casa» e «as criaturas humanas circulam a pé como se contornassem os ângulos de uma mobília». Veneza é como os seus palácios lúgubres mas também como um teatro: «Se nos sentarmos numa gôndola, os passeios que em determinados pontos ladeiam os canais assumem ao nosso olhar a importância de um palco (…) porque as figuras venezianas, que andam de um lado para o outro contra o cenário muito gasto das suas pequenas casas de comédia, surgem como membros de um infindável grupo dramático.» Que esta peça de câmara termine em tom de tragédia menor, tão exacta quanto irónica, não espantará ninguém.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

As cinquenta farpas de LA

Como é que uma pessoa aguarda a prometida análise da Livreira Anarquista às Cinquenta Sombras de Grey? Resposta: ansiosamente (os calmantes não fazem efeito).

Um kosovar que lê Kavafis em francês no meio do Atlântico

Estórias Açorianas
Autor: Carlos Alberto Machado
Editora: Companhia das Ilhas
N.º de páginas: 45
ISBN: 978-989-8592-04-0
Ano de publicação: 2012

Surgida em Maio deste ano, na vila de Lajes do Pico (Açores), a Companhia das Ilhas é mais uma microeditora que pretende fintar a crise, maximizando os escassos meios de que dispõe. As edições são pequenas – quer no formato, quer na tiragem – mas graficamente muito cuidadas e com preço acessível (abaixo de cinco euros). Entre os seis livrinhos lançados no arranque do projecto, dividido em duas colecções (a transeatlântico e a azulcobalto), estão as singelas Estórias Açorianas de Carlos Alberto Machado, 19 vinhetas insulares publicadas há uns anos no Jornal do Pico.
São textos breves e desenvoltos que captam momentos na vida da comunidade ou traçam o retrato de figuras carismáticas. Se por um lado se busca um efeito de reconhecimento social, por outro é criada uma certa distância em relação aos factos narrados, que advém do recurso aos instrumentos da ficção. Logo no primeiro relato, o «Autor» intromete-se na conversa de duas vizinhas coscuvilheiras, fazendo uma espécie de exegese erudita do que elas vão discutindo, só para se ver expulso com uma reprimenda: «E olhe, não acrescente mais nada, para depois os leitores não se porem a pensar que a estória quer dizer uma coisa diferente do que afinal diz.»
Por muito que nos troquem as voltas, as estórias de facto não se afastam desta premissa: a de dizerem apenas o que dizem, mesmo quando não dizem nada. O que as traz à página, no fundo, é o desejo de fixar seres humanos na sua singularidade, concreta ou imaginária: regressados das Américas, maridos cornudos, baleeiros com segredos que não partilham, uma idosa de «flamejante cabelo vermelho», aldrabões e miseráveis, Penélopes resignadas, um kosovar que lê Kavafis em francês.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Blurbs: como os reconhecer e catalogar

Uma análise interessante dos elogios aos livros feitos de propósito para caberem numa frase redonda, feita por Jake Adam York na The Kenyon Review.

O que aí vem (LeYa)

Novidades para Agosto: Feitiço da Índia, de Miguel Real (Dom Quixote); A Vida Não é Aqui, de Milan Kundera (Dom Quixote); Triângulo, de Pedro Garcia Rosado (ASA); O Rei do Monte Brasil, de Ana Cristina Silva (Oficina do Livro); 1493 – A Descoberta do Novo Mundo que Colombo Criou, de Charles C. Mann (Casa das Letras); Terroristas Apaixonados, de Ken Ballen (Casa das Letras).

Um bilhete para Anchorage

Na nossa família, o Alasca era um ponto de fuga. Sempre que o meu pai desesperava com os conflitos na fábrica e o problema das dívidas, dizia: «Um dia destes pego em nós e vamos todos para o Alasca.» Começar do zero era o sonho dele. Ir para longe de tudo, para longe da vida real, tão miserável. Encontrar um princípio qualquer no fim do mundo.
Eu imaginava-nos a chegar àquele lugar demasiado grande: as montanhas, os lagos, os glaciares, tudo imenso, a natureza belíssima mas agreste, devoradora. Sonhei muitas vezes com a luz mínima do Inverno, eu e os meus irmãos a caminho de uma escola soturna, atravessando a neve, aprendendo devagar a linguagem do frio.
Um dia percebi que o meu pai dizia aquilo por dizer. Onde estava Alasca podia estar Austrália, deserto de Gobi, a Lua. O meu pai morreu há duas semanas. Um acidente na fábrica, horrível. Ficou cinco dias no hospital, a agonizar, sustido pela morfina. A minha mãe não diz nada, só murmura rezas, fechou-se dentro de um luto que é só uma forma de loucura. Nenhum dos meus irmãos voltou a casa neste momento tão triste. Um está preso, outro num cargueiro algures no meio do Pacífico, ao mais novo há muito que perdemos o rasto. Antes de ir visitar o meu pai ao hospital, na manhã em que os médicos nos roubaram qualquer esperança, despedi-me do trabalho de merda que me consumiu toda a energia nos últimos vinte anos.
«Vou-me embora, pai», disse baixinho. Mexeu-se na cama. Gemeu. Os tubos. Os sons das máquinas que respiravam por ele, que lhe purificavam ainda o sangue condenado. «Fazes bem, filho, não há aqui nada por que valha a pena lutar.» A voz muito arrastada, ruína no meio da tosse. «E vais para onde?» Pousei a mão no peito dele. Senti o estertor dos pulmões. «Ainda não disse a ninguém, mas vou para o Alasca.» Ele ficou parado, os olhos muito abertos, a estudar-me, a certificar-se de que eu falava a sério. Então tirei o bilhete do bolso e mostrei-o. O meu pai começou a tremelicar. Era uma espécie de solavanco suave, contido, abafado. Julguei que se ia desfazer. Mas então, em vez do choro, o seu corpo abriu-se à gargalhada. Uma gargalhada funda, a vencer a resistência do corpo dorido, uma gargalhada impossível, um desafio à morte, um último gesto de rebeldia desperdiçado comigo, o filho disposto a cumprir a sua antiga ameaça. Ao fim de uns minutos, exausto, parou de rir e ficou imóvel. Outra vez o quase silêncio. Só os sons das máquinas que respiravam por ele, que lhe purificavam ainda o sangue condenado.
Quando abriu novamente os olhos, a muito custo, não disse nada. Fez um gesto com a mão, para que me fosse. Eu saí do quarto, sem saber se aprovava a minha decisão ou se me considerava louco, parvo, infantil, mais um filho perdido, o último numa cadeia de desilusões. Parti para Anchorage na manhã seguinte, mais ou menos à hora a que lhe assinaram a certidão de óbito. Quando pisei pela primeira vez o solo do Alasca, foi dele que me lembrei. Acho que só trouxe da minha vida anterior a imagem do meu pai preso à cama do hospital. E a gargalhada tenebrosa. Ontem, quando olhava para um glaciar ao longe, meio escondido pela névoa, apercebi-me de que foi a única vez que o ouvi rir.

[Texto publicado no n.º 7 da revista A Sul de Nenhum Norte, 2012]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Poesia, de Daniel Faria (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Os Manuscritos de Aspern, de Henry James (Sistema Solar), por José Mário Silva
Um Verão Mágico em Cape Cod, de Richard Russo (Porto Editora), por Luciana Leiderfarb
O Rebate, de José Rentes de Carvalho (Quetzal), por Carlos Bessa
Ravengar, de Fernando Campos (Alfaguara), por Hugo Pinto Santos
O Princípio, de Paula Carballeira e Sonja Danowski (Kalandraka), por Sara Figueiredo Costa
Jukebox 3, de Manuel de Freitas (Teatro de Vila Real), por António Guerreiro
Francisco Lázaro – O Homem da Maratona, de Gustavo Pires (Prime Books), por José Pedro Castanheira
Juliana – Condessa Stroganoff, de José Norton (Livros D’Hoje), por Luísa Mellid-Franco
A Noite dos Proletários, de Jacques Rancière (Antígona), por António Guerreiro
– Escolhas de Maria João Cantinho

Grande Prémio de Literatura Biográfica da APE para Rentes de Carvalho

A edição deste ano do Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores (com o apoio da Câmara Municipal de Castelo Branco), distingue o escritor José Rentes de Carvalho pelo livro Tempo Contado, editado pela Quetzal. A decisão do júri – composto por José Correia Tavares, José Manuel Vasconcelos, Miguel Real e Luísa Mellid-Franco – foi unânime.

E se a Poesia Incompleta reabrisse na Lapa?

Isso seria uma excelente notícia (ainda à espera de confirmação), não fosse a Lapa em causa no Rio, em vez de Lisboa.

PS – Este post foi alterado depois de me aperceber do que o Rui Almeida sugere na caixa de comentários.

Quatro poemas de Nuno Costa Santos

MINEIRO

Mineiro do teu próprio abismo,
vais saindo para o dia
depois de uma eternidade de mágoas racionadas.

Não te esperam televisões.

Espera-te a luz, somente a luz,
que faz as perguntas que nenhum
repórter teria coragem de fazer.

***

PERDOA-ME

Perdoa-me esta tristeza
de súbito revelada

(já passa
como passam as nuvens
e as notícias em rodapé).

este ar de passarão triste
estes olhos de boga
este contrato a termo incerto com o pensamento.

Não é nada

sou só eu
de vez em quando.

***

NEM AS NUVENS

Ali está ele,
orgulhoso e mudo,
abrindo por vezes o olho
ao vento e à indiferença.

Sobrevoamo-lo
como quem passa por um velho esquecido na doca,
estremecendo, sem expressão, entre os barcos.

Sim, até o mar das ilhas
vai envelhecendo.

Nem a máscara das nuvens lhe disfarça a idade.

***

LOJA DO CIDADÃO

Povo de roupa lavada
que arrumas os assuntos da vidinha
nestes algarvios dias de Agosto,
dança comigo um melancólico kuduro,
festeja comigo
como, na Praça do Chile,
vi festejar um golo de Espanha
um grupo de russos e de chineses.

Trata por igual os que já cá estão e os
que ainda hoje de manhã
chegaram ao Aeroporto da Portela
para vender camisolas do Brasil no Martim
Moniz. Olha por este pequeno rapaz
nascido em Portugal,
chama-se Jairson, como o pai e o avô,
e traz no bolso dos calções o desejo, generoso e insensato,
de ser português
como tu.

[in às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, Companhia das Ilhas, 2012]

Pessoa e os pessoanos

Em torno do mais vasto e complexo dos espólios da literatura portuguesa, uma reportagem de Maria João Costa (Rádio Renascença).

Longlist do Man Booker Prize 2012

Já se conhecem os 12 romances escolhidos para a longlist do Man Booker Prize:

The Yips, de Nicola Barker (Fourth Estate)
The Teleportation Accident, de Ned Beauman (Sceptre)
Philida, de André Brink (Harvill Secker)
The Garden of Evening Mists, de Tan Twan Eng (Myrmidon Books)
Skios, de Michael Frayn (Faber & Faber)
The Unlikely Pilgrimage of Harold Fry, de Rachel Joyce (Doubleday)
Swimming Home, de Deborah Levy (And Other Stories)
Bring up the Bodies, de Hilary Mantel (Fourth Estate)
The Lighthouse, de Alison Moore (Salt)
Umbrella, de Will Self (Bloomsbury)
Narcopolis, de Jeet Thayil (Faber & Faber)
Communion Town, de Sam Thompson (Fourth Estate)

À excepção de Mantel e Self, o júri preferiu ignorar os pesos-pesados (Martin Amis, Ian McEwan, Peter Carey, Zadie Smith) e apostar em autores novos, quatro deles estreantes. Uma decisão corajosa e arriscada, mas com potencial para se revelar mais estimulante do que as escolhas dos últimos anos. Dos doze, ainda só li Swimming Home, de Deborah Levy, que é muito, muito bom.
A shortlist será conhecida a 11 de Setembro.

Dezanove maneiras de usar uma pedra

Roda-a nas mãos, como um objecto religioso. Atira-a para longe (à espera de que voe como os pássaros). Coloca-a, delicadamente, no centro geométrico de um jardim de areia. Deixa-a cair num poço. Guarda-a num dos bolsos do casaco (no outro, livros de Virginia Woolf). Esconde-a entre os ovos da capoeira, depois de a arredondares, baralhando as galinhas. Transforma-a no vértice mais distante de uma propriedade disputada por três irmãos quezilentos. Fecha os olhos e experimenta a sua textura, a sua aspereza (Braille mineral). Segue com o dedo cada veio, cada aresta, como se tocasses ao de leve as curvas do corpo amado. Atenta no brilho da luz reflectida, observa o esplendor dos minúsculos cristais. Sente-lhe o peso, a força da gravidade nos músculos do teu braço. Imagina-a lançada pela funda de David, a ferida aberta na cabeça de Golias. Parte a janela mais alta do tribunal onde te condenaram injustamente. Devolve-a ao muro caído no extremo da aldeia, de onde a tiraste numa tarde ominosa, a meio da infância. Procura na sua superfície marcas de sangue, verdadeiro ou imaginário. Supõe que se trata de um planeta e traça-lhe a geografia, com papel vegetal e grafite. Faz dela a pedra do poema de Drummond, a pedra concreta que Drummond viu na sua cabeça ao escrever o poema (mesmo que fosse imaterial, arquetípica) e todas as pedras que todos os leitores do poema viram na sua cabeça, ali no meio do caminho. Afia nela a faca com que cortarás o pão para os teus filhos ou a carne do inimigo, na batalha final. Enterra-a no solo húmido e começa a construir uma casa.

[Texto publicado no n.º 7 da revista A Sul de Nenhum Norte, 2012]

O que aí vem (Esfera do Caos)

A Vida Repercutida: uma leitura da poesia de Gastão Cruz, de Luís Maffei e Pedro Eiras; Contos do Nosso Tempo (coordenação de Miguel Almeida); O Transplantado e o Fim|gimento, de José Baptista Coelho; Uma Solução para a Crise Nacional e Europeia, de Ventura Leite; Da Origem Popular do Poder ao Direito de Resistência, de Pedro Calafate.

Fenómeno Grey

As Cinquenta Sombras de Grey
Autora: E. L. James
Título original: Fifty Shades of Grey
Tradução: Ana Álvares e Leonor Marques
Editora: Lua de Papel
N.º de páginas:
547
ISBN: 978-989-23-1995-7
Ano de publicação: 2012

Posto à venda em Portugal no dia 9 deste mês, As Cinquentas Sombras de Grey, de E. L. James, o romance erótico que é já considerado o grande fenómeno editorial de 2012, esgotou a primeira edição (15 mil exemplares) em apenas cinco dias, entrando directamente para o primeiro lugar do top em quase todos os principais pontos de venda: FNAC, Sonae, Corte Inglés (e para o segundo lugar na rede de livrarias Bertrand). Um sucesso comercial que replica, sem surpresa, o que tem acontecido por todo o mundo. Lançada em Abril deste ano, a trilogia vendeu 20 milhões de exemplares nos EUA em apenas quatro meses e um total de 31 milhões só nos países anglófonos. Traduzida em 40 países, lidera os tops em muitos deles (Alemanha, Espanha, Holanda, Itália, Reino Unido, etc.). É um êxito à escala global, muito na linha do que aconteceu há uns anos com o feiticeiro Harry Potter, de J. K. Rowling, e com os vampiros assexuados de Stephenie Meyer. Desta vez, porém, o público-alvo não é composto por adolescentes ávidos de mundos fantásticos ou romantismo kitsch, mas por mulheres adultas, de todas as idades, atraídas pelas tórridas cenas de sexo. Houve quem lhe chamasse «pornografia para mamãs», sobretudo nos EUA, mas o epíteto peca por exagero. E. L. James limitou-se a materializar, tudo indica na medida certa, as fantasias de um número significativo de pessoas que estão habituadas às elipses do costume (a porta que se fecha, a luz que se apaga) e nunca devem ter lido na vida um livro de Henry Miller ou Anaïs Nin.
O mais espantoso neste fenómeno editorial é o modo como surgiu do nada. E. L. James, pseudónimo de Erika Leonard, uma produtora televisiva britânica de 49 anos, começou a escrever num site de fanfiction, género literário que consiste em copiar o estilo, o universo e as personagens de um determinado autor. No caso de James, a escritora imitada era Stephenie Meyer, a criadora da saga Twilight. E se a fonte de inspiração já não augurava nada de bom, o nom de plume trazia, em si mesmo, uma antecipação do desastre: Snowqueens Icedragon (mais na linha do que se esperaria, por exemplo, de um imitador de George R. R. Martin). Ao contrário de Meyer, James introduzia muito sexo nas suas histórias, o que suscitou críticas e a levou a transferir o material para outro site. No processo de reescrita, deixados para trás os nomes originais das personagens, apareceram Anastasia Steele (ex-Isabella Swan) e Christian Grey (reconversão do vampiro Edward Cullen em milionário controlador), figuras centrais do que viria a ser As Cinquenta Sombras de Grey. Estávamos em Maio de 2011 e o primeiro volume da trilogia foi posto à venda em versão e-book por uma modesta editora virtual, sediada na Austrália. A história podia acabar aqui, como acabam 99,99% dos livros escritos por pessoas com o perfil e o talento literário quase nulo de E. L. James. Acontece que o passa-palavra funcionou um pouco por todo o lado, com reflexo directo nas vendas, e foram surgindo cada vez mais referências, na Internet, ao livro que andava a deixar literalmente excitadas muitas leitoras. Quando o terceiro volume da trilogia foi lançado, em Janeiro deste ano, várias reportagens nos principais meios da comunicação social norte-americana destacaram o marketing viral espontâneo associado à série e o facto de muitas mulheres andarem nos transportes públicos a ler «o romance escaldante de que se fala», tranquilas porque os seus leitores de e-books as deixavam a salvo do escrutínio indiscreto que os outros passageiros fazem, quando podem olhar para a lombada. O resto – edições em papel, traduções para o mundo inteiro, venda dos direitos cinematográficos – aconteceu à velocidade da luz, deixando a autora num estado de compreensível incredulidade.
«Não consigo perceber como é que se tornou tão popular», disse E. L. James em entrevista ao Expresso (revista Única, 30 de Junho), referindo-se à sua obra. Trata-se de uma frase honesta, honra lhe seja feita. Porque nós também não conseguimos perceber como é que se tornou tão popular. Histórias destas – fáceis de ler e de esquecer; cheias de lugares-comuns e banalidades; mal escritas de uma ponta à outra – existem aos milhares. O que há de diferente em As Cinquenta Sombras de Grey é apenas a natureza das cenas de sexo, mais numerosas e descritas de forma mais explícita do que será habitual nas edições mainstream. Mas se a isto, mais às incursões pífias no domínio do sadomasoquismo, se resume o alvoroço provocado por estes livros, então é caso para concluir que não só o sexo continua a vender (como sempre vendeu) mas encontrou novos nichos de consumo, infelizmente menos abertos à experimentação erótica e libertos de condicionantes morais do que se poderia pensar. Na sua essência, a abordagem de E. L. James é profundamente conservadora. O tema central do livro não é o carácter negro de Christian Grey, personagem que noutras mãos poderia revelar alguma profundidade, mas o esforço hercúleo de Anastasia, a heroína inocente, para o resgatar aos seus demónios, à «sua própria escuridão», e «trazê-lo para a luz». Não se escapa aqui a um único dos estereótipos femininos: do fascínio pelo príncipe encantado ao impulso salvífico. E a suposta perversão de Grey – materializada em práticas sadomasoquistas que só podiam ser consequência, claro está, de traumas infantis profundos – também é um logro. Cedo compreendemos que o «dominador» vai sendo gradualmente dominado por quem era suposto dominar, incapaz de lhe fazer, chegada a hora decisiva, o que fez às quinze «submissas» precedentes. Por «amor», Anastasia sujeita-se a ser algemada, a levar açoites e a sentir no corpo o peso de uma chibata. Mas o «castigo» é sempre relativamente soft: sem sangue, sem dor extrema. Quando Anastasia desafia Grey a forçar os limites do contrato de submissão, várias vezes discutido (aliás, com excessiva minúcia) mas nunca assinado, tudo acaba.
Na prática, As Cinquenta Sombras de Grey não passa de um conto de fadas clássico, só que sem happy end (quase de certeza guardado para o final da série). Christian Grey é o príncipe encantado, misterioso e emocionalmente “volátil”, cuja obsessão pelo controlo trai a natureza sombria a que o título do romance alude. Aos 27 anos, é riquíssimo, poderoso, e uma idealização do homem de sucesso. Nas palavras da autora, muito dada às hipérboles, ele «não era só atraente – era o suprassumo da beleza masculina, deslumbrante». Os seus dotes são quase infinitos: toca ao piano peças melancólicas de Chopin e transcrições de Bach, colecciona arte contemporânea, sabe pilotar o seu helicóptero particular, voa em planadores e, mais importante do que tudo o resto, é um verdadeiro deus do sexo, sempre preocupado com a satisfação da sua companheira (nunca chega ao orgasmo antes dela) e aparentemente bafejado pela completa ausência de período refractário. Por seu lado, Anastasia, quando conhece Grey aos 21 anos, prestes a completar o ensino superior, é a própria imagem da inocência. Virgem, raras vezes foi beijada, nunca teve namorado, nunca se embebedou, nunca se masturbou. A partir da página 128, tudo isso muda drasticamente, mas o grau de inverosimilhança destas criaturas, e do que fazem e dizem, mantém-se até ao fim.
Na primeira visita a casa de Grey, Anastasia fica desde logo a conhecer a «sala de diversões» de Christian, com uma grelha de ferro suspensa do tecto, uma cruz presa à parede, cordas, correntes, algemas e um «sortido assombroso de palmatórias, chicotes, chibatas e instrumentos com penas de aspecto curioso». Aquele aparato todo parece destinado a infligir dor à pobre rapariga, mas na verdade ela só passa por ali duas vezes (e um pouco de fugida). Mais do que o antro de um torturador, a sala é uma metáfora do que E. L. James faz à literatura. Às mãos de Grey, Anastasia fica, no máximo, com o rabo vermelho e dorido. Às mãos de E. L. James, a literatura esvai-se em sangue até à morte.
Quase tudo na escrita desta autora é mau. O que não é mau, é péssimo. A «voz» de Anastasia, narradora na primeira pessoa, rapidamente se torna insuportável (sobretudo quando abusa de interjeições como «Uau!», «Bolas!» e «Oh não!»). Alvoroçada pela ideia que faz do amante, mesmo quando ele não está por perto, Anastasia sente o corpo como o palco de um «frenesim», de um «carnaval de emoções». Daí a repetição até à náusea dos sintomas clássicos do enlevo amoroso: joelhos a tremer, borboletas na barriga, pernas com «consistência de gelatina», o «sangue a zunir nas veias», o coração «a tentar fugir pela boca». A frequência cardíaca acelera sempre, a respiração suspende-se, há descargas eléctricas, há olhos revirados e lábios mordidos. Protagonista do livro não é Anastasia, é o seu corpo. É nele que se desenrolam os «avassaladores» orgasmos, que tanto alarido provocam nos grupos de discussão na Internet, é através dele que Anastasia diz o que as palavras não podem (ou não sabem). Corando, por exemplo. Nunca, na história da literatura universal, uma personagem terá corado tanto. E de tantas formas diferentes: «furiosamente», «ligeiramente», «violentamente». À sua melhor amiga, Anastasia diz a dada altura: «Oh, Kate, tu sabes que estou sempre a corar. É inevitável.» Deve ser mesmo: no total, acontece 152 vezes em 547 páginas. Uma vez a cada três páginas e meia.
No fundo, quem devia corar a sério não era Anastasia, era quem a criou. Como se o relato pormenorizado de todas as alterações fisiológicas da heroína não fosse suficientemente penoso, James ainda nos oferece o espectáculo grotesco da cabeça confusa de Anastasia, onde se digladiam o «subconsciente» (sempre céptico) e uma «deusa interior» (sempre eufórica), ambos antropomorfizados e dispostos a opinar sobre cada escolha ou dilema da rapariga. Pior mesmo só os arremedos poéticos de E. L. James, que redundam em imagens extraordinárias como estas: «a voz dele era quente e sedutora como brigadeiro de caramelo derretido»; «estava de tronco nu e eu bebi-o com os olhos, como se estivesse doida de sede e ele fosse água fresca de uma nascente da montanha»; «a expectativa borbulhava-me nas veias como um refrigerante». Ao pé disto, Margarida Rebelo Pinto soa a Virginia Woolf.
A Lua de Papel prevê editar o segundo volume da trilogia (As Cinquenta Sombras Mais Negras) em Outubro e o último (As Cinquenta Sombras Livre) em Fevereiro de 2013. Não exijam é a este crítico o sacrifício de os ler. Como diria Grey, com este primeiro já foram ultrapassados todos os limites toleráveis de sofrimento.

Avaliação: 0,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘Blimunda’, n.º 2

O segundo número da revista da Fundação José Saramago aborda o tema “Futebol” («a forma como esse fenómeno de massas afecta a sociedade, condiciona resultados políticos ou é tratado pela literatura») e já está disponível online. Aqui.

Primeiros parágrafos

«Eu abrira-me em confidência a Mrs Prest; e é verdade que poucos progressos teria feito sem ela, porque dos seus lábios amigos saiu a frutuosa ideia de todo este caso. Foi ela quem inventou a solução expedita, quem desatou o nó górdio. Acha-se, em geral, que não ascende da natureza feminina nenhuma vista larga nem dotada de grande liberalidade; refiro-me a uma solução prática; mas por vezes tive a sensação de que sabe afoitar-se a arrojadas concepções — de que nenhum homem seria capaz — e com singular serenidade. “Limite-se a pedir-lhe que o aceite na condição de hóspede.» — Sem ajuda, penso que não teria lá chegado. Eu andava com rodeios, esforçava-me por ser engenhoso, por pensar que combinação de artes seria capaz de fazer-me chegar a um relacionamento, quando me deu esta feliz sugestão: para chegar ao seu relacionamento eu teria, primeiro, de ser considerado um familiar da casa. Naquela altura ela não conhecia muito mais do que eu as Misses Bordereau; e eu até trouxera da Inglaterra alguns factos precisos que lhe eram desconhecidos. Em épocas remotas tinham tido o nome ligado a um dos maiores nomes do século, e naquela altura viviam obscuramente em Veneza e com muito reduzidos meios, sem visitas, inabordáveis num velho e degradado palácio de um canal retirado dos circuitos habituais: era o mais concreto que a seu respeito a minha amiga sabia. Há cerca de quinze anos ela própria se instalara em Veneza e tinha-se entregue a uma grande quantidade de obras caridosas; mas o círculo da sua benificência não incluía as duas americanas tímidas e misteriosas (era por assim dizer susposto que no seu longo exílio tivessem perdido todas as características nacionais; para além de terem na sua origem, como o nome denunciava, um qualquer ramo francês) que não pediam favores e desejavam passar despercebidas. Nos primeiros anos em que ali residiram, Mrs Prest fizera uma tentativa para as encontrar, mas só tivera êxito com a “pequena”, chamava assim à sobrinha, apesar de ser a maior das duas como verifiquei pouco depois. Soubera que Miss Bordereau estava doente e suspeitava de que vivesse com dificuldades; fora lá a casa oferecer os seus préstimos para não ficar, ao fim e ao cabo, com um caso de penúria (uma penúria americana) a pesar-lhe na consciência. A “pequena” recebeu-a na grande, fria e embaciada sala veneziana, a divisão central da casa com pavimento de mármore e tecto de escuras vigas cruzadas, e nem sequer lhe tinha dito para se sentar. Isto não me encorajava muito porque desejava lá ter com rapidez um assento e, tanto quanto pude, fi-lo saber a Mrs Prest. Foi no entanto com profunda argúcia que me respondeu: “Ah, mas toda a diferença está aí; eu ia fazer-lhes um favor, e o meu amigo vai pedir que lhe façam um. Se forem orgulhosas, surgir-lhes-á do lado favorável.” E começou por se oferecer para ir mostrar-me a casa — levar-me até lá na sua gôndola. Fiz-lhe saber que já tinha ido vê-la meia dúzia de vezes, mas aceitei o convite porque me encantava vaguear por aqueles sítios. Logo um dia depois de chegar a Veneza eu tinha lá ido (antes, na Inglaterra, fora-me descrita por um amigo, e fui convencido de que elas estavam na posse dos manuscritos), e com o olhar assaltara a casa enquanto meditava no plano de ataque. Que fosse do meu conhecimento, Jeffrey Aspern nunca lá estivera mas a sua voz parecia ter ali, como indirecta consequência, o eco fraco de uma ressonância.»

[in Os Manuscritos de Aspern, de Henry James, trad. de Aníbal Fernandes, Sistema Solar, 2012]

Virar o poema para cima

Margarida Vale de Gato com António Poppe, Diana Almeida, Ibu Galissá, Miguel-Manso, Nuno Moura, Paulo Raposo, e textos de Rui Costa. No Centro de Artes O Século (R. do Século, 68, Lisboa), hoje, a partir das 22h00.

Samsa

Gregor Samsa sonhava muitas vezes com insectos. Eram sonhos agradáveis, em que ele saía pelas ruas a exibir a sua bela carapaça e sucumbia ao apelo das feromonas, entregando-se à lascívia e à fornicação com fêmeas em cujos élitros se reflectia o arco-íris. O problema era de manhã. Na casa de banho, ao espalhar a espuma na cara, via-se ao espelho e deparava com o rosto anguloso daquele colega esquisito lá da repartição, o Franz. Era como se durante a noite se tivesse transformado naquele homenzinho opaco e vagamente sinistro. Depois de se barbear, o espelho devolvia-lhe o verdadeiro rosto: arredondado, lustroso, banal. Mas os pequenos golpes da navalha, na bochecha ou no queixo (mesmo por baixo do lábio inferior), prolongavam pelo dia fora o desconforto da sensação matinal, semelhantes a marcas feitas por um escultor que hesitasse e, tendo já iniciado a obra, preferisse deixar o trabalho para mais tarde.

[Texto publicado no n.º 7 da revista A Sul de Nenhum Norte, 2012]

Afonso Cruz na FNAC Chiado

Mais logo, às 17h00, Afonso Cruz lança os seus dois últimos livros (Jesus Cristo bebia Cerveja e Enciclopédia da Estória Universal – Recolha de Alexandria, publicados pela Alfaguara) na FNAC do Chiado. Eu estarei por lá, a falar da Enciclopédia. Apareçam.

Um poder imenso, quase espantoso

Fogos
Autor: Raymond Carver
Título original: Fires
Tradução: João Tordo e João Luís Barreto Guimarães
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 248
ISBN: 978-989-722-027-2
Ano de publicação: 2012

A epifania que acabou por determinar a vida literária de Raymond Carver (1938-1988), um dos melhores contistas norte-americanos do século XX, aconteceu em meados dos anos 60, «numa lavandaria repleta de gente em Iowa City». Ao disputar a utilização de uma das máquinas, o escritor foi atingido pela consciência de que estava preso a uma vida de responsabilidades parentais imediatas que o obrigavam, por exemplo, a passar tardes inteiras a lavar roupa e a discutir com pessoas tão ou mais infelizes do que ele. «Os sonhos teriam de ser refreados», concluiu. Sobretudo os literários. Optou então por escrever apenas contos e poemas, textos que fosse capaz de concluir de uma vez só, nos intervalos dos seus trabalhos de subsistência. A epifania é explicada num dos quatro ensaios deste livro, curtos esboços biográficos e de reflexão sobre o ofício de escritor, a que se juntam algumas dezenas de poemas e sete contos – constituindo, no seu conjunto, uma excelente introdução à obra de Carver.
Entre as várias «influências» discriminadas nos ensaios, estão Gordon Lish, o editor da Esquire que o projectou no mundo das letras americanas (mesmo se à custa de cortes implacáveis nos textos originais), e sobretudo John Gardner, o romancista e professor de escrita criativa que lhe apontou o caminho. Como estes mestres, Carver abominava a escrita «confusa» e «aleatória», a prosa «embaçada», vaga, «cheia de fumo». Interessava-lhe «escrever sobre coisas e objectos quotidianos usando linguagem quotidiana mas precisa, e dotar essas coisas – uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, os brincos de uma mulher – de um poder imenso, quase espantoso». E é precisamente isso que acontece nos poemas e contos deste volume.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

As Cinquentas Sombras de Grey, de E. L. James (Lua de Papel), por José Mário Silva
Os Fantasmas do Rovuma – A Epopeia dos Soldados Portugueses em África na I Guerra Mundial, de Ricardo Marques (Oficina do Livro), por António Loja Neves
Prosa, de Álvaro de Campos (Ática), por António Guerreiro
Estórias Açorianas, de Carlos Alberto Machado (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva
Partida de Sofonisba às Seis e Doze da Manhã
, de Vasco Graça Moura (Quetzal), por Pedro Mexia
Cama de Gato, de Kurt Vonnegut (Bertrand), por José Guardado Moreira
Histórias de Londres, de Enric González (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
Cosa Nostra – Um Século de História da Máfia, de Eric Frattini (Bertrand), por Luís M. Faria
Mulheres de Armas – Histórias das Brigadas Revolucionárias, de Isabel Lindim (Objectiva), por José Pedro Castanheira
Para Onde Vai o Nosso Dinheiro, de Lurdes Feio (Ésquilo), por Luísa Meireles
– Escolhas de Margarida Vale de Gato

‘A Sul de Nenhum Norte’, n.º 7


Já saiu mais um número, desta vez com três contos meus lá dentro. O download da revista faz-se aqui. E o mínimo que posso dizer é que estou em excelente companhia.

O que aí vem (Presença)

Acabem Com Esta Crise, Já!, de Paul R. Krugman; Soluções Espirituais – Respostas Para os Maiores Desafios da Vida, de Deepak Chopra; O Vento dos Outros, de Raquel Ochoa; O Clube dos Viajantes Imaginários, de Ulysses Moore.

Jardins da carne

De Amore
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 72
ISBN: 978-972-0-79306-5
Ano de publicação: 2012

Em De Amore, Armando Silva Carvalho explora dois tipos de sentimento amoroso: o erótico, na primeira parte (intitulada Os que fazem o amor); e o fraternal, nas espantosas 42 Canções entre 2 Portas (exercício de luto pela sua irmã, Genoveva, recentemente desaparecida). Não surpreende por isso que o registo seja muito diferente nas duas secções. Ao tom maior dos poemas em que descreve a atracção da matéria pela matéria, o choque dos corpos cegos que se devoram na «geometria do desejo exposto», sucede o tom menor de quem sinaliza o apego à «doente acamada» mas muito «desenvolta» a «orquestrar as arestas diárias», essa mulher com quem partilhava muito mais do que «o mesmo sangue» da herança familiar.
Logo na epígrafe a Os que fazem o amor, sob o signo de Agustina Bessa-Luís, Armando Silva Carvalho alude à impossibilidade de fixar objectivamente o tema a que se propôs: «O que fica aqui dos amorosos, lembrados ou surgidos no discursar do invento, será sempre a imagem dos dois lados inseparáveis, ignotos». Na verdade, o amor nunca mostra completamente o seu rosto, há nele uma dimensão incognoscível com a qual o poeta se conforma, não deixando por isso de tentar sucessivas aproximações à sua essência. Por estes poemas desfilam então «figuras mentais» que assumem as muitas faces do júbilo ou do tormento amoroso: viúvas e adolescentes («no corpo que cresce só e se repete na noite / numa fala só»), onanistas e velhos «insensatos», assassinos passionais.
Este é um «mundo mudo», atravessado por uma energia visceral que se liberta em imagens fulgurantes: o «coração amarrado às patas turbulentas / do desejo», os «jardins da carne», os «gritos / de álcool». O amor propriamente dito, esse, é visto como um «exército / que conquista as idades, derrota o pó do tempo, / e avança pelo país dos mortos / montado na delicadeza dos murmúrios, / na leviana / argúcia musical, na dor exacta». Mas por muito que os poemas pretendam subir «à condição sublime», dificilmente se desfazem da sua condição animal, terrena, próxima do corpo perecível de quem «paga o tributo / antes do massacre». É como se os versos, muitas vezes emergindo de brumas e neblinas, tivessem consciência dos seus limites: mesmo recolhidos os vocábulos certos, «deles resulta um escasso ouro / de luz, de sémen escrito». A «tímida vertigem da invocação» está assim condenada ao fracasso num tempo em que tudo arde, o horror é planetário e um «manto que se diz babélico cobre de silêncio / a maravilha do crime organizado».
Mas nem todas as abordagens tendem para a abstracção. Silva Carvalho também convoca amantes concretos, que tanto podem ser os anónimos jovens sujos que nas escadas do metro formam um «novelo», do qual se desprende um «halo amarrotado», de «carne sôfrega / exposta à multidão», como os inevitáveis Pedro e Inês, cuja tragédia «abre a flor dos sentidos, desfeita / a golpes de espada, / de traição». Há ainda um belo poema sobre «os dois de Lanzarote», Saramago e Pilar del Río: «(…) Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica. / E o ar que acolhe os seus impulsos / com a firme decisão de fazer estremecer / o mundo».
É porém na segunda parte, no comovente «ofício de treva» sobre o definhar da irmã, que a escrita de Silva Carvalho sobe mais alto. Sem artifícios, o poeta assume o papel do «vivo de serviço», o sobrevivente, algures «entre fantasma e mendigo», atentíssimo às minúsculas reverberações de uma existência que se apaga. A dor surge inteira, brutal, mas não rompe o recato da intimidade. Fica algures no quarto, olhada de fora com infinita delicadeza: «O sol, largo animal de lume, encolhia-se / junto das janelas / e tudo era uma sombra, calada, sôfrega de sinais, / suspensa, à tua cabeceira».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Momento zen

Há dias, recebi este e-mail:

«Prezado José,
Meu nome é Arlete e sou brasileira, graduada em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Envio esse e-mail para questionar o título do seu blog (ou blogue).
Se deseja ser chamado de Bibliotecário, faça o curso em Biblioteconomia. Acho injusto e sem fundamento uma pessoa que escreve sobre literatura e afins ser chamado assim.
Por favor, não se ofenda. Mas eu fiquei bem chateada.
Bibliotecário é quem tem curso superior em Biblioteconomia.
Grande abraço.
Atenciosamente,
Bibliotecária e brasileira, Arlete Inocência Menezes»

Pronto, lá terei de completar outro curso superior. Mas talvez me despache num ano, quem sabe, se me derem umas quantas equivalências à la Relvas. Não gostava mesmo nada de ser forçado, pela verdadeira bibliotecária Arlete Inocência, a interromper este blogue até 2015.

Make. Good. Art.

Primeiros parágrafos

«Isto que agora começo começou quando fui viver para o Parque de Laureles. Até esse momento eu não sabia que no terceiro andar do prédio em que me instalei vivia Bernardo Davanzati, talvez se lembrem dele, o escritor que na década de sessenta publicou um romance que não foi muito bem recebido pela crítica, Diário de um Impostor, e que anos mais tarde publicou outro livro que passou despercebido, Adeus à Juventude. O mais provável é não se lembrarem dele, pois o seu primeiro romance, embora tenha sido publicado por um editor comercial, praticamente não se vendeu, e os volumes que restaram (e que estavam a ser vendidos a preço de saldo, a mil pesos cada exemplar) ficaram sepultados sob o entulho da Feira do Livro quando o telhado do pavilhão das exposições desabou, num desastre que se deu há já alguns anos. Quanto ao Adeus à Juventude, devo dizer que em nenhuma biblioteca pública de Medellín se conserva um só exemplar do livro, e que este, se se encontrasse, seria uma verdadeira curiosidade bibliográfica, se é que se podem considerar curiosidades bibliográficas as obras desconhecidas de um desconhecido. Até onde pude averiguar, foi o próprio Davanzati que custeou a edição, limitadíssima, pois consistia apenas numas poucas dezenas de cópias (ignoro se impressas ou fotocopiadas) que o escritor distribuiu pelos amigos, vá-se lá saber quem são. Até ao dia de hoje nunca vi um só exemplar do Adeus à Juventude, mas várias pessoas garantiram-me que existe, que já o folhearam, e afiançaram-me mesmo que não carece de uma certa qualidade literária. Enfim.»

[in Os Dias de Davanzati, trad. de Margarida Amado Costa, Quetzal, 2012]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Sugestões de Verão (28 livros)
De Amore, de Armando Silva Carvalho (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz (Alfaguara), por Pedro Mexia
Paliativos, de Fernando Pinto do Amaral (Língua Morta), por Manuel de Freitas
O Meu Sangue é Fado, de João Paulino (Todas as Letras), por Alexandra Carita
Caríssimas 40 Canções, de Sérgio Godinho (Abysmo), por João Lisboa
Boomerang, de Michael Lewis (Lua de Papel), por Luís M. Faria
Ironias do Destino, de Karen Blixen (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
– Escolhas de Teolinda Gersão

Gerrit Komrij (1944-2012)

Já passaram vários dias sobre a morte do escritor holandês Gerrit Komrij, um homem setentrional que primeiro estranhou e depois se habituou a Portugal, observando-nos com atenção e desvelo, lá dos recantos transmontanos onde vivia desde a década de 80. O funeral acontecerá em Vila Pouca da Beira, no próximo dia 19. Em jeito de homenagem, partilho com os leitores deste blogue o comunicado de imprensa da sua editora holandesa, que Arie Pos e Fernando Venâncio traduziram «para os amigos portugueses»:

«MORREU GERRIT KOMRIJ

Também em nome da família, a editora neerlandesa De Bezige Bij informa que Gerrit Komrij faleceu ontem à noite, em Amesterdão, após um curto período de hospitalização.
Com ele perdemos um importante poeta, um autor e tradutor multifacetado, um grande estilista, um polemista mordaz e, sobretudo, um amigo querido. Gerrit Komrij foi um inspirador para gerações de poetas, escritores e jovens conquistadores dos céus, e continuará a sê-lo.
Gerrit Komrij (Winterswijk, Países Baixos, 30 de março de 1944) estreou-se em 1968 com o volume de poesia Maagdenburgse halve bollen en andere gedichten (Hemisférios de Magdeburgo e Outros Poemas), que atraiu logo a atenção pela poesia contra a corrente, rimada em formas fixas e um humor absurdista. Komrij manter-se-ia sempre fiel ao ofício de poeta. No total, publicou uma boa dúzia de livros de poesia, reunida em Alle gedichten tot gisteren (Todos os Poemas até Ontem, 2004). Em português, foi publicada a antologia poética Contrabando (Assísiro & Alvim, 2005). Sobre a secretária em Portugal deixou o volume Boemerang (Bumerangue), pronto para uma última revisão. O livro será publicado postumamente, neste outono.
Foi um crítico e colunista ímpar, compilador de antologias ‘definitivas’ de poesia neerlandesa e sul-africana, um tradutor produtivo (da obra dramática de Shakespeare, por exemplo) e autor de teatro, ensaio e romances.
Durante o ano de 1976, Gerrit Komrij foi um crítico impiedoso de televisão para o jornal NRC Handelsblad; as controversas críticas foram reunidas, em 1977, em Horen, zien en zwijgen (Ouvir, ver e calar). Enquanto crítico literário sentia afinidade com o espírito da época, de procura da verdade e sarcasmo. Nas décadas de setenta e oitenta, ganhou sobretudo fama como ensaísta, não se esquivando de qualquer tema que fosse, desde o feminismo à arquitetura. Também aqui, o seu estilo mordaz mostrou-se a sua arma mais importante. Os ensaios foram reunidos em, entre outros títulos, Heremijntijd (Minha Nossa, 1978), Papieren tijgers (Tigres de Papel, 1978), Averechts (Avesso, 1980), Het boze oog (O Mau Olhado, 1983), Humeuren en temperamenten (Humores e Temperamentos, 1989), Met het bloed dat drukinkt heet (Com o Sangue chamado Tinta, 1991), Morgen heten we allemaal Ali (Amanhã, todos nos chamamos Ali, 2010) e Kunstwonderen (Milagres Artificiais, 2011).
Em 1980, publicou o primeiro romance (autobiográfico), Verwoest Arcadië (Arcádia Destruída). Seguiram-se os romances Over de bergen (Atrás dos Montes, 1990; trad. portuguesa ASA, 1997), Dubbelster (Estrela Dupla, 1993), De klopgeest (O Poltergeist, 2001), Hercules (Hércules, 2004) e De loopjongen (O Moço de Recados, 2012).
Extremamente bem conseguidas e influentes foram as suas colossais antologias poéticas, nomeadamente De Nederlandse poëzie van de 19de en 20ste eeuw in duizend en enige gedichten (A Poesia Neerlandesa dos Séculos XIX e XX em mil e um poemas, 1979) e De 21ste eeuw in 185 gedichten (O Século XXI em 185 poemas, 2010). Hilariante é a sua antologia caprichosa Kakafonie. Encyclopedie van de stront (Cacafonia. Enciclopédia da Merda, 2006).
Komrij ganhou muitos prémios, entre os quais o prémio nacional P.C. Hooft 1993 pelos seus ensaios e o Mocho Dourado (Gouden Uil) 1999 pelo volume de ensaios poéticos In Liefde Bloeyende (Florescendo em Amor). Em 2000, foi-lhe concedido o doutoramento honoris causa da Universidade de Leiden.
De 2000 a 2004, foi o primeiro poeta laureado neerlandês, papel que desempenhou com muito brilho.
Gerrit Komrij viveu em Amesterdão até 1984, ano em que se mudou para Portugal, que evocou magistralmente em Een zakenlunch in Sintra (Um Almoço de Negócios em Sintra, ed. portuguesa ASA, 1999), Atrás dos Montes e Vila Pouca (2008), título nomeado para o prémio Gouden Uil 2009.
Durante décadas, Gerrit Komrij conseguiu, com a sua alegria desenfreada e perspicácia, criar movimento na paisagem literária. Ajudou a mudá-la e agora partiu dela. ‘De papel sois e a papel voltareis.’ (De: Da Capo, Morgen heten we allemaal Ali).

TUDO CONTINUA

Aí se erguia uma parede em que toquei.
A parede foi demolida. O entulho
Serviu mais adiante de fundamento.
Uma árvore plantei no meu jardim.

Que foi asfaltado. A cinco metros
De fundo, a raiz contém-se, amuada.
Meio milénio se preciso. Um dia
Chega a Marte a pneumónica porque tossi.

Houve um amigo a quem escrevia,
Uma rocha onde gravei o meu nome.
Somos parte de tudo enquanto vivemos
E tudo continua quando morremos.

(de: Luchtspiegelingen [Miragens], 2001)»

Quatro poemas de Armando Silva Carvalho

OS DOIS DE LANZAROTE

Eram um casal aéreo, cruzavam aeroportos,
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.

Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.

Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.

Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.

***

O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.

Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.

***

6

Este amor está preso aos pés da terra,
o seu caule é de ferro,
cresce na minha boca, estremece e resiste
nas frágeis construções
da nossa antiga, privada, fiel
arquitectura.

***

34

É com mãos, olfacto, dentes, boca
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.

[in De Amore, Assírio & Alvim, 2012]

15/25 em debate na Bertrand Chiado

Logo à tarde, a partir das 18h00, na Bertrand do Chiado (Lisboa), estarei à conversa com João Pombeiro (director da Ler) e José Riço Direitinho sobre a iniciativa 15/25, que a revista Ler lançou recentemente para assinalar os seus 25 anos de vida e que recupera, noutros moldes, o espírito do antigo suplemento DNJovem. A entrada é livre e aguarda-se a presença de muitos dos jovens aspirantes a escritores revelados nesta secção, que venho editando com muito gosto.

Oferenda

O blogue Poesia & Lda. de vez em quando oferece-nos, sem estarmos à espera, pequenas grandiosas maravilhas. É o caso deste post, com seis poemas de Wisława Szymborska ainda inéditos em português, traduzidos por Teresa Swiatkiewicz. São todos magníficos e de leitura obrigatória, mas eu não resisto a transcrever os que mais me impressionaram:

ADOLESCENTE

Eu – adolescente?
Se, de repente, aparecesse aqui, agora, diante de mim,
saudá-la-ia como pessoa que me é próxima,
embora seja, para mim, estranha e distante?

Verter uma lágrima, beijar-lhe a testa
pela simples razão de termos
a mesma data de nascimento?

Tão poucas semelhanças entre nós,
quiçá, apenas os ossos são os mesmos,
a caixa craniana, as órbitas.

Já que os olhos dela parecem maiores,
as pestanas mais compridas, ela mais alta
e todo o seu corpo revestido
com uma pele lisa, sem mácula.

Na verdade, ligam-nos parentes e conhecidos,
no mundo dela, porém, quase todos estão vivos,
enquanto no meu já não há quase ninguém
deste círculo que tínhamos comum.

Somos tão diferentes uma da outra,
pensamos e falamos sobre coisas tão diferentes.
Ela pouco sabe –
mas com uma teimosia digna de melhores causas.
Eu sei muito mais –
mas sem nada saber ao certo.

Mostra-me uns poemas,
escritos com letra clara e cuidada,
como já há muito eu não escrevo.

Leio esses poemas e leio.
Bem, talvez este daqui,
se o reduzirmos
e corrigirmos aqui e ali.
O resto nada de bom augura.

A conversa está difícil.
No seu pobre relógio,
o tempo ainda é vacilante e barato.
No meu, já é muito mais caro e preciso.

Na despedida nada, um breve sorriso
e nenhuma comoção.

Somente quando se afasta
e, apressada, se esquece do cachecol.

Um cachecol de pura lã,
às riscas coloridas
feito em croché para ela
pela nossa mãe.

Ainda hoje o tenho.

***

VERMEER

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.

***

A MÃO

Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever ‘Mein Kampf’
ou ‘A Casinha do Ursinho Puff’.

Quando a vida descarrila

Sonhos e Comboios
Autor: Denis Johnson
Título original: Train Dreams
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 87
ISBN: 978-989-641-291-3
Ano de publicação: 2012

Publicada pela primeira vez há uma década, na Paris Review (em versão ligeiramente diferente), esta novela de Denis Johnson narra o fim de uma época: a da subjugação dos grandes espaços geográficos pela força civilizacional, na América das primeiras décadas do século XX. O protagonista da história, Robert Grainier, é um suposto órfão (na verdade, ignora o que terá acontecido aos progenitores) que foi despachado de comboio para o Idaho, em 1893, e ali cresceu, ali se fez homem. Com milhares de outros operários, participa nos «empreendimentos de grande dimensão» que vão alterando a paisagem. Tanto contribui para a reparação de pontes ferroviárias, «gigantescas estruturas de madeira sobre abismos cada vez mais largos e profundos», como se junta aos lenhadores que desbastam as densas aglomerações de abetos e atam os toros uns aos outros. «Grainier adorava aquele trabalho, o esforço, a capitosa exaustão, o profundo repouso ao fim do dia.» É um labor «comparável à construção das pirâmides», porque muda o perfil das montanhas e leva os homens ao limite das suas forças (terminada a jornada, «caíam para o lado e adormeciam no primeiro sítio onde se deitavam»).
Quando morre com mais de oitenta anos, «bem entrada a década de 60», este homem viu «o mundo dar muitas voltas» mas a sua existência resume-se facilmente em meia dúzia de frases: «Conheceu uma única amante (a sua mulher, Gladys), foi proprietário de um acre de terra, uma carroça e dois cavalos. Nunca se embebedou. Nunca teve uma arma de fogo nem usou um telefone. Viajou de comboio regularmente, de automóvel muitas vezes e de avião uma vez. (…) Não fazia ideia de quem tinham sido os seus pais, nem deixou herdeiros.» Com mestria, Johnson demonstra que por detrás desta aparente simplicidade se escondem abismos tão largos e profundos como as gargantas dos rios no norte dos EUA, por sobre as quais passavam as locomotivas, apitando, símbolos em movimento do triunfo humano.
De certa forma, o instante decisivo na vida de Grainier corresponde a um descarrilamento pessoal. Ao regressar a Idaho, após uns meses a trabalhar noutro estado, encontra a casa destruída por um grande incêndio. Da família, mulher e filha, nem uma sombra por entre o negrume das cinzas. Esta perda, estas mortes nunca confirmadas, mantêm primeiro acesa uma esperança absurda e assolam depois, com devastadora tristeza, o resto dos seus dias. A memória do amor transforma-se em fantasmagoria: Robert tem visões e sonhos em que Gladys reaparece, enquanto a filha Kate assume, a seus olhos, a forma de uma criança-lobo, saída do imaginário selvagem das populações índias da região (os Kootenai). Mas há outros momentos que assombram Grainier: acidentes de trabalho, mortes súbitas, histórias bizarras (a do homem alvejado pelo próprio cão, por exemplo) e ignomínias do passado impossíveis de apagar – a participação activa no quase linchamento de um operário chinês ou a sua recusa de auxílio a um vagabundo agonizante, deixado a «morrer sozinho».
Perto do fim, Johnson descreve a primeira e única viagem aérea de Grainier, paga a quatro dólares entre outras atracções de feira. No instante em que o aeroplano mergulhava «num voo de falcão, com o motor quase em silêncio», ele «viu a mulher e a filha a beberem salsaparrilha Hood’s na cabana, numa noite de Verão; depois, a imagem de outra cabana que não recordava, e lugares da sua infância esquecida, uma vasta seara de trigo dourado, calor a tremular sobre uma estrada, uns braços a abraçá-lo e uma voz feminina a cantarolar». É também assim que esta novela funciona: em voo picado através das várias idades do protagonista, acumulando sensações e atmosferas, despertando no leitor um «imenso assombro».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Saída de Emergência)

Portugal, Rating AAA, de Alexandra Silva Malta; Excalibur, de Bernard Cornwell; A Anatomia do Segredo, de Leslie Silbert; Medusa, de Clive Cussler & Paul Kemprecos; Legião, de Simon Scarrow; A Saga de Alex 9, de Bruno Martins Soares; O Diabo Também Chora, de Sherrilyn Kenyon.

Um barco perdido no deserto

Descobri Craig Thompson há uns meses, quando a Biblioteca de Alice – uma nova editora de BD, chancela da Devir – arriscou a publicação em Portugal de Blankets, a muito extensa (591 páginas) e celebrada novela gráfica que mereceu os principais prémios atribuídos a este género de livro nos EUA (três Harvey, dois Eisner e dois Ignatz), elogios ditirâmbicos da crítica e o acolhimento entusiástico de mestres mais velhos (entre os quais Art Spiegelman). Como muitas das novelas gráficas mais interessantes surgidas na última década (e estou a pensar em Persépolis, de Marjane Satrapi), esta também parte das experiências autobiográficas do autor. Nascido no Michigan, em 1975, Thompson mudou-se em criança para o Wisconsin, onde viveu até sair de casa para a universidade, no final da adolescência. Em traços gerais, Blankets é um bildungsroman passado no interior de uma comunidade rústica que faz do fundamentalismo cristão o único cimento social. O protagonista, Craig, atravessa os dilemas próprios da idade, confrontando-se com os êxtases e desilusões do primeiro amor, mas sobretudo com uma crise de fé que altera a percepção do seu lugar no mundo. Nada disto é novo, nada disto é raro. Novo e raro é o modo como Thompson nos conta esta história quase anódina – criando uma estrutura narrativa em forma de mosaico (à semelhança da manta de retalhos que dá título ao livro) – e o esmero com que desenha os mínimos detalhes de cada página, explorando de forma brilhante os limites e as potencialidades da representação numa prancha de BD.

Entretanto, chegou-me às mãos Habibi (Faber & Faber, 671 páginas), publicado nos países anglo-saxónicos em finais de 2011 – ainda sem edição portuguesa, embora a Biblioteca de Alice tenha em vista o seu lançamento por cá, talvez no próximo Natal. Se Blankets já era um festim para os olhos, que dizer desta extraordinária prova do virtuosismo obsessivo de Thompson? Apostando desta vez na ficção pura e dura, Craig conduz-nos a um imaginário país oriental, onde se desenrola uma intrincada saga de amor e sacrifício, que une, afasta e volta a unir dois órfãos: Dodola e Zam. Juntando voluptuosamente as curvas da caligrafia árabe aos padrões geométricos da arte islâmica, Thompson consegue efeitos plásticos poderosíssimos e eleva a ideia de requinte gráfico a uma outra dimensão. Iniciado na ressaca do 11 de Setembro, tendo como objectivo mostrar ao público norte-americano a riqueza cultural e estética da religião muçulmana (abundam as transcrições do Corão e os exemplos das raízes comuns entre o Islão e o Antigo Testamento), Habibi é sobretudo um livro de uma inteligência visual assombrosa. Se algumas soluções nos esmagam pela sua força expressiva (caso do mergulho/fuga na página 429), outras fascinam-nos por serem tão simples. Quase no início, há uma prancha em que Dodola tenta iluminar a noite cerrada com a sua lanterna. Ela e Zam olham para a escuridão na proa de um barco e tudo nos leva a crer que estão algures no mar alto. A página seguinte, porém, mostra-nos que o navio está perdido num imenso deserto, «à tona num oceano de areia».


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É nesse abrigo que eles viverão nove anos, durante os quais Dodola, quase uma década mais velha, passa de figura maternal a irmã substituta de Zam, e depois a objecto de um desejo que as circunstâncias rocambolescas da narrativa nunca permitirão que se cumpra. Antes de ser raptada, vendida como escrava, violada e entregue ao harém de um sultão, Dodola aprende do pai, escriba, a arte de contar histórias. Não por acaso, há algo da atmosfera e desmesura ficcional das 1001 Noites neste livro que nos baralha as referências (coexiste um orientalismo paródico, fora do tempo, com visões concretas da sociedade contemporânea, em que as grandes cidades criam à sua volta um rasto de miséria humana e ambiental). Mais ambicioso do que Blankets, Habibi também está dividido em nove capítulos. Mas em vez de imitarem os retalhos de uma manta, eles correspondem aos elementos que compõem o místico quadrado mágico. Apurada e abrangente, a arte de Thompson, essa, continua essencialmente a mesma.

[Texto publicado no n.º 113 da revista Ler]

Ainda e sempre o ‘Great American Novel’

A enésima abordagem ao tema, desta vez do ponto de vista de uma escritora americana, nascida e criada na Rússia (Maria Konnikova).

Dicionário visual de palavras invulgares

Está aqui. E é uma delícia.
Alguns exemplos:


Biblioclasm: the practice of destroying, often ceremoniously, books or other written material and media


Cacodemonomania: the pathological belief that one is inhabited by an evil spirit


Montivagant: wandering over hills and mountains


Scripturient: possessing a violent desire to write

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Sonhos e Comboios, de Denis Johnson (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Canção da Vida, de Jorge Roque (Averno), por António Guerreiro
O Último Solteiro, de Jay McInerney (Teorema), por Pedro Mexia
– Escolhas de Afonso Cruz

Paris Literary Prize

Organizado pela lendária livraria Shakespeare & Co. (frente ao Sena, em Paris), eis um prémio para escritores estreantes que se atrevam a escrever uma novela em inglês. O regulamento pode ser lido aqui.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges