Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Paul Auster, sobre o seu último livro (Diário de Inverno, ASA), mais a respectiva recensão, por Luciana Leiderfarb
Deitar a Língua de Fora, de Vários Autores (Língua Morta), por António Guerreiro
Cavaco versus Cavaco, de Frederico Duarte Carvalho (Vogais), por Luísa Meireles
A Sorte de Jim, de Kingsley Amis (Quetzal), por Pedro Mexia
Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba, de António Cabrita (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva
– Escolhas de Tatiana Faia

O que aí vem (Presença)

The Casual Vacancy, de J.K. Rowling; 21.12, de Dustin Thomasson; Desordem Financeira na Europa e nos EUA, de George Soros; O Inverno do Mundo, de Ken Follett; Deus Existe?, de Padre Carreira das Neves.

Palavras Andarilhas 2012


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Depois de muitas dificuldades e uma «improvável» conjunção de esforços, o Festival de Narração de Beja está de volta. Arranca hoje, entre a Biblioteca Municipal e o Jardim Público. Programação e informações úteis, aqui.

Primeiros parágrafos

«A linguagem é traiçoeira mas permite-nos recortar o inexprimível e contar como o Zibelina bateu com os ossos no céu. Embutido na transparência azul. Bastou um tiro com uma carabina para caça grossa.
A arma deu um coice no ombro do guarda-fronteiriço, que se aproximou do morto a massajar a omoplata. Antes de o virar com um pé, cuspiu.
A arma era potente, a cratera sanguinolenta devorava-lhe metade do peito. Mirou os canos da carabina, à cata de fumo. Nada.
Feio como as cobras, aquele morto. Tinha um cabelo à rasta, cãs que se afundavam na cara chupada, duas verrugas, uma em cada aleta (nunca tinha visto igual simetria), e um colete de fotógrafo que lhe ficava a boiar.»

[in Ficas a dever-me uma noite de arromba, de António Cabrita, Companhia das Ilhas, 2012]

As cores dos escritores

Há gente com muito tempo livre. Tempo para imaginar, por exemplo, a que paleta de Pantone correspondem as obras de 13 autores, de Robert Louis Stevenson a David Foster Wallace.

Também não é caso para tanto

British charity calls for ’50 Shades of Grey’ book burning.

Cinco poemas de Rui Baião

Perder tudo ao jogo das ofensas,
ser ravina, antiga noiva dos céus.
Ter o mal à mão, a foice no sangue,
a gárgula que o auge dissesse
a nenhuma divindade: sub-
trair o nada ao nada, subsistir,
buscar razia e razão, acreditar: hoje
menos que ontem, amanhã
menos que hoje…

***

Os dois sem palavras, a noite sem luvas nem nuvens,
o ruído à ponta da corda. O gelo fulmina, cerca
a fêmea e o erro, a boca fula a entrar
numa lua de pedra.

***

Entre arames e ruínas até ao carreiro das formigas.
Sempre uma última vez: mesa posta sem um único idioma
ou a glória de nada querer. À noite,
com os dentes na cal. À noite,
com a força das ancas. À noite,
com feridas lácteas pela pequena face,
ou bátegas quase gestos.

***

O homem é o medo com uma dor altiva lá dentro.
Um homem é tudo e nada, tão próximo de não saber.
Um homem não se lembra de desaparecer.
Depois, as dúvidas e o nojo. Depois, é só tu quereres
o rude rigor em acção.

***

Três janelas e um pântano.
Falemos de casas devolutas,
das muitas pontes especulativas,
da renovação das veias e dos gritos,
do dedo no gatilho dentro da cabeça,
dos fungos que escureçam tudo à volta.
Falemos de nós, do rastilho que do pulso vá
à idade do olhar, e daí à sebenta da infâmia.

[in Rude, Averno, 2012]

O manifesto de um crítico

E não é um crítico qualquer. Vale muito a pena ler o texto que Daniel Mendelsohn publica hoje no blogue de livros da New Yorker. Eis um pequeno excerto:

«The serious critic ultimately loves his subject more than he loves his reader—a consideration that brings you to the question of what ought to be reviewed in the first place. When you write criticism about literature or any other subject, you’re writing for literature or that subject, even more than you’re writing for your reader: you’re adding to the accumulated sum of things that have been said about your subject over the years. If the subject is an interesting one, that’s a worthy project.»

No terraço de Antímio

Não Há Vozes Não Há Prantos
Autor: Mário de Carvalho
Editora: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
N.º de páginas: 74
ISBN: 978-972-27-2066-3
Ano de publicação: 2012

Embora Mário de Carvalho situe esta peça em um acto «numa cidade indeterminada de um tempo indeterminado, de uma vaga antiguidade, porventura oriental», é natural que a imaginemos numa qualquer província romana, pouco antes da queda do império (como fez Maria do Céu Guerra na sua recente encenação do texto, no teatro d’A Barraca). Mais do que uma comédia de enganos, esta é uma comédia de não-ditos e hipocrisias, em que toda a gente adequa milimetricamente o seu discurso a circunstâncias pessoais e políticas sempre em mutação.
Um pequeno conclave de «súbditos cumpridores» está reunido no terraço de Antímio, a meio caminho entre o palácio do imperador Ariman, no alto da colina, e a cidade que se derrama «como uma escorrência de lixeira», olhada de cima e «com desdém». Tanto Antímio como Rópico, e as respectivas esposas, querem preservar a sua posição na escala social e não se poupam a alfinetadas mútuas (mais subtis as deles; mais ostensivas, as delas). Única voz dissonante, Filates não perdoa ao imperador a morte do seu pai (o general Crátilo) e cedo lembra que «as palavras, uma vez proferidas, não podem ser mudadas», tal como o vinho não volta para a ânfora – uma verdade que os seus comparsas fingem ignorar.
Com estes elementos mínimos, constrói Mário de Carvalho um estudo precioso sobre a miséria moral de que se alimentam, desde sempre, as tiranias. No fim, ao destruir a «quarta parede», implicando os espectadores («Vós não sois assim! Nem viveis perto de gente como esta. Nem conheceis, sequer, alguém semelhante!»), o jogo irónico é levado ao limite, tornando evidente que aquele terraço da «vaga antiguidade» é afinal de todos os tempos – e também, fatalmente, do nosso.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Junot Díaz, um perfil

Na revista New York, a poucas semanas de ser lançado o seu novo livro de contos: This Is How You Lose Her (Riverhead Hardcover).

“Escrever é como cuidar de um bonsai”

Estreia na próxima quinta-feira, no Corte Inglés (Lisboa), a adaptação cinematográfica de Bonsai, uma novela do escritor chileno Alejandro Zambra, realizada por Cristián Jiménez. O livro foi editado em Portugal pela Teorema, em 2008, e sobre ele escrevi aqui.

Leitores voluntários, cheguem-se à frente

Há um projecto em que podem ser úteis.

Boa nova

Os contabandistas da Terra Incógnita conseguiram obter as verbas de que precisavam e o I Festival Internacional de Contos de Lisboa vai mesmo para a frente (consultar programa aqui). Uma excelente notícia.

O que aí vem (Dom Quixote)

Se Fosse Fácil Era Para os Outros, de Rui Cardoso Martins; Joseph Anton – Uma Memória, de Salman Rushdie; Já Então a Raposa Era o Caçador, de Herta Müller; Verão Sem Homens, de Siri Hustvedt.

Mário de Carvalho ‘transfere-se’ para a Porto Editora

A Porto Editora anunciou hoje, em comunicado, que Mário de Carvalho passa a fazer parte do seu catálogo. A partir de 2013, toda a obra do autor de Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto será reeditada pela PE em colecção própria. Para assinalar a nova relação, será lançado a 6 de Setembro o novo livro de originais: O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel (duas novelas).

Primeiros parágrafos

«O Inverno de 1890 foi dos mais ásperos que flagelaram a Europa durante o século findo, e na Holanda, então — onde eu o passei quase todo —, país relativamente temperado e malissimamente preparado para as baixas temperaturas, morria-se de frio. Mas morria-se deveras, isto é: apareciam com frequência, nas ruas das cidades populosas, criaturas humanas inteiriçadas e mortas de frio.
O fleumático holandês clamava nos jornais contra a inclemência celeste, tal qual o exuberante napolitano — na desgraça todos se parecem —, anos depois vendo o Vesúvio toucar-se de gelo e a Riviera di Chiaia atascada em neve, se insurgia, também nas gazetas — como se a culpa fosse do governo —, contra a Providência que ordenava ou permitia aqueles rigores de temperatura em região a eles tão pouco afeita.
Foi o caso que nos Países Baixos todo o mês de Dezembro a temperatura se manteve entre 25º e 30º centígrados de frio; gelaram completamente os canais, os rios e até o Zuider-Zee, o seu pequeno Mediterrâneo. Mas os holandeses, em todo o caso melhor petrechados do que os napolitanos para resistir a semelhantes intempéries, aproveitaram a situação para dela tirarem algum partido, e metidos em peles, caras ou baratas conforme as posses de cada um, puseram-se na rua a patinar, e como grandes mestres que são nesse género de divertimento insensivelmente se transformaram de sorumbáticos, mazorros e grotescos em gente comunicativa, desempenada e alegre, dando ao país uma animação extraordinária e nunca atingida em Invernos normais.
Nos bairros populares das grandes cidades, como Amesterdão, o movimento durava, com intensidade quase igual, dia e noite, pois a qualquer hora o mesmo formigueiro humano cobria os canais, gente de todas as idades deslizando sobre o gelo em caprichosas evoluções e agitando os braços para atear o calor no corpo. Seria difícil encontrar-se alguém na rua que não levasse consigo um par de patins.»

[in Novelas Eróticas, de M. Teixeira-Gomes, Relógio d’Água, 2012]

A minha escolha

Da lista de «50 livros que toda a gente deve ler», coube-me escrever sobre nove. Ei-los:

DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes (Dom Quixote)

Numa terra de La Mancha, de que o narrador prefere não se lembrar, vive Alonso Quijano, um homem que por excesso de leituras passou a linha que separa a sanidade da loucura. Ao sair da sua biblioteca, ele só consegue apreender o mundo com os olhos da literatura: a bacia de barbeiro é um elmo; o decrépito jumento parece-lhe um cavalo a sério (Rocinante); em prostitutas vê castas donzelas; numa estalagem manhosa, um palácio. Transforma-se assim o «engenhoso fidalgo» num «cavaleiro da triste figura», partindo estrada fora na companhia de um escudeiro que não o compreende (Sancho Pança) mas lhe alimenta a ilusão. Lado a lado, arremetem contra moinhos que para Quixote são gigantes e para Pança nunca deixam de ser moinhos. Raras vezes foi tão nítido, como nesta dupla picaresca, o contraste entre a imaginação à solta e a materialidade concreta das coisas, entre a utopia e o pragmatismo.
Publicada em 1605, a primeira parte do Quixote, com os seus elementos paródicos, fazia a transição entre modelos narrativos antigos (novelas pastoris, romances de cavalaria) e a literatura moderna. Mas a genialidade intemporal de Cervantes manifesta-se dez anos mais tarde, em 1615, com a edição da segunda parte da obra. Tendo o primeiro livro obtido um êxito enorme em toda a Espanha, as personagens que se cruzam com a dupla Quixote/Pança leram-no; ou seja, já conhecem os seus feitos, os seus falhanços, e aproveitam esse conhecimento para lhes criarem novos embaraços. Dito por outras palavras, Cervantes inventou, há quatro séculos, a meta-ficção. Querem algo mais moderno do que isto? Aliás, ainda na primeira parte, quando o barbeiro revista a biblioteca de Quijano, para lhe queimar os livros, encontra o primeiro romance de Cervantes (A Galateia) e poupa-o. A multiplicação dos narradores, bem como o seu carácter ambíguo, é outra marca de modernidade. El Ingenioso Don Quijote de La Mancha foi provavelmente o primeiro de todos os romances dignos desse nome. Podia ser o último.

MOBY DICK, Herman Melville (Relógio d’Água)

«Call me Ishmael» («Chamem-me Ishmael»). Uma frase, três palavras, e já estamos presos no sortilégio de Melville. Antigo mestre-escola, Ishmael é um jovem que decide trocar uma vida segura em terra pela experiência da aventura no mar alto. Após algumas experiências na marinha mercante, embarca num baleeiro de Nantucket: o Pequod. Em Moby Dick, é ele que narra a viagem do navio e a loucura do seu capitão, Ahab, um homem obcecado pela ideia de vingança. A grande baleia branca, monstro do oceano que escapa a todos os perseguidores, levou-lhe há muito tempo uma perna e a paz de espírito. Enquanto não a reencontrar, enquanto não lhe cravar o arpão fatal que tinja as águas de vermelho, Ahab não descansa. Mesmo que isso implique enfrentar uma tripulação que só quer fazer o seu trabalho – a faina de sempre – e voltar para casa. Melville publicou este livro portentoso a meio do século XIX (1851) e a recepção foi fria ou negativa. Para alguns críticos da época, Moby Dick era um livro desequilibrado, lento, com problemas estruturais e de escrita. O que umas décadas mais tarde seria visto como antecipação do que aí vinha (o hibridismo entre vários géneros, o olhar caleidoscópico sobre a realidade, o fôlego de uma empresa ficcional que rebenta com os espartilhos romanescos), na altura foi entendido como defeituosa execução de um escritor ambicioso. Melville sabia que tinha escrito o seu magnum opus, mas morreu sem o ver no cânone da literatura norte-americana e universal, onde está hoje de pleno direito. A sua baleia branca é a metáfora perfeita porque pode ser tudo o que quisermos que ela seja: a morte, Deus, o Mal. A bordo do Pequod vai a humanidade inteira. E no fim, consumada a tragédia, só sobrevive um. Ishmael, o que ficou para contar.

FICÇÕES, Jorge Luis Borges (Teorema)

Argentino de cultura anglófona, Borges viveu a infância na biblioteca do pai e atravessou a vida como se nunca de lá tivesse saído. O seu universo é livresco no melhor sentido da palavra, erudito, especulativo, fantástico, reinventando permanentemente os grandes temas (o tempo, o infinito, a ordem secreta do mundo). Em vez de «compor vastos livros», preferiu «simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário». Poeta maior, ensaísta agudíssimo e enciclopédico, escreveu dezenas de contos perfeitos, atravessados por tigres, espelhos, labirintos, simulacros e parábolas. Alguns dos mais geniais estão em Ficções: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius; Pierre Menard, autor do Quixote; O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam; A Biblioteca de Babel.

A VIDA MODO DE USAR, Georges Perec (Presença)

Figura maior do movimento OuLiPo, Perec explorou como ninguém os «constrangimentos» formais autoimpostos da chamada Literatura Potencial. La Disparition, por exemplo, é um romance lipogramático de 300 páginas sem uma única ocorrência da letra ‘e’ (a vogal mais frequente na língua francesa). Em A Vida Modo de Usar, de 1978, imaginou uma série de «romances» imbricados num único prédio, o n.º 11 da imaginária rue Simon-Crubellier, em Paris. Não podendo abarcar a realidade toda do mundo, Perec oferece-nos a dissecação exaustiva de um edifício e da vida dos seus habitantes – quer no espaço, quer no tempo (um arco de cem anos). Imenso puzzle a que falta sempre a peça decisiva, este é um tour de force que testa, com imenso brio literário e génio linguístico, os limites da arte narrativa.

RAYUELA – O JOGO DO MUNDO, Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Logo de início, numa «tábua de orientação», Cortázar explica que este romance é «muitos livros», porque a ordem dos seus 155 capítulos (99 dos quais considerados «prescindíveis») fica ao critério de quem lê: pode seguir-se a sequência da paginação, saltar para a frente e para trás, avançar em ziguezague, ou obedecer às sugestões do autor. Nesta narrativa não-linear, com dois hemisférios (Paris e Buenos Aires) que se complementam, há milhares de caminhos possíveis e todos são legítimos. Cortázar experimenta das mais variadas formas: funde dois textos num só, narra uma cena erótica com palavras inventadas (o «gíglico», dialecto dos amantes), parodia, rebenta com as regras, reinventa. Rayuela é um dos mais belos exercício de desmesura: lírico, caótico, infinitamente livre.

AUSTERLITZ, W. G. Sebald (Teorema)

Erudito alemão com carreira académica em Inglaterra, Sebald (n. 1944) foi um escritor tardio que depressa se impôs nos círculos mais exigentes. Quando morreu, em 2001, num acidente de automóvel, acabara de publicar a sua obra-prima, Austerlitz, romance que é uma espécie de apoteose da sua peculiar técnica narrativa. Algures entre a ficção e o ensaio, o relato de vidas alheias e a reflexão autobiográfica, escrevia num estilo digressivo, com frases muito longas de arquitectura perfeita, aqui e ali intercaladas por fotografias a preto-e-branco, cheias de grão, difusas como fantasmas. Austerlitz, o protagonista deste livro crepuscular, é uma figura tipicamente sebaldiana: um desterrado que procura o registo oculto das suas origens, inseparável da memória da Europa e dos seus traumas históricos.

AUTO-DE-FÉ, Elias Canetti (Cavalo de Ferro)

O professor Peter Kien, sinólogo, existe em função da sua biblioteca. «Homem-livro», ele é um erudito misantropo que olha o mundo através do prisma dos seus milhares de volumes, mantendo-o cuidadosamente à distância. Até ao dia em que decide, num impulso, casar-se com a governanta, convencido de que ela o ajudará a manter o equilíbrio entre o seu recolhimento e as ameaças da realidade exterior. As consequências funestas cedo se materializam, quando o casal se incompatibiliza e Kien acaba expulso de casa. Forçado a confrontar-se com a sociedade que tão diligentemente evitara, o professor desce aos infernos e entra numa espiral destrutiva que culmina no apocalipse livresco que o título sugere. Único romance de Canetti, este é um dos mais extraordinários estudos sobre as glórias e malefícios da bibliofilia.

OS DETECTIVES SELVAGENS, Roberto Bolaño (Teorema)

Sabendo que o seu fígado tinha os dias contados, Bolaño (1953-2003) entregou-se na última década de vida a um autêntico frenesim de criação literária, de forma a garantir o futuro sustento dos filhos. Transformado em fenómeno editorial, sobretudo após a edição póstuma do gigantesco e magnífico romance 2666 (mais de mil páginas), Bolaño já atingira um ponto altíssimo nas letras hispânicas em Os Detectives Selvagens (1998), que segue de forma elíptica, a partir dos relatos de pessoas que com eles se cruzaram, a demanda de Arturo Belano e Ulisses Lima – fundadores do realismo visceral, “duas sombras cheias de energia e velocidade” – em busca de Cesárea Tinajero, poeta dos anos 20 que desapareceu misteriosamente no deserto de Sonora, esse locus horribilis que é o centro do mal em 2666.

SUBMUNDO, Don DeLillo (Sextante)

Na origem deste monumental romance, forte candidato ao estatuto de «great american novel», estão dois acontecimentos quase simultâneos, ocorridos em Outubro de 1951: por um lado, o improvável home run de Bobby Thomson que deu aos New York Giants uma vitória mítica no basebol; por outro, um teste nuclear soviético que foi o prenúncio das décadas paranóicas da Guerra Fria. Destes dois factos emanam os inumeráveis fios que Don DeLillo cruza na sua narrativa, oscilando entre as grandes escalas da História e o quotidiano banal de uma imensa galeria de personagens. Épico na descrição das grandes cenas colectivas, mestre na arte do diálogo, DeLillo conseguiu fazer, com esta ficção panorâmica, uma síntese da América na segunda metade do séc. XX.

[Textos publicados no suplemento Actual do jornal Expresso]

“50 livros que toda a gente devia ler”

No dia 18, o suplemento Actual do Expresso apresentou uma lista de 50 livros essenciais, imperfeita e incompleta como todas as listas.
Eis as obras seleccionadas:

Odisseia, Homero
Dom Quixote, Miguel de Cervantes
Crime e Castigo, Fiódor Dostoievski
Moby Dick, Herman Melville
Guerra e Paz, Lev Tolstoi
Macbeth, William Shakespeare
Os Miseráveis, Victor Hugo
Madame Bovary, Gustave Flaubert
A Montanha Mágica, Thomas Mann
O Grande Gatsby, Scott Fitzgerald
1984, George Orwell
O Monte dos Vendavais, Emily Brontë
Ulisses, James Joyce
Os Maias, Eça de Queiroz
Poesia, Álvaro de Campos
A República, Platão
Confissões, Santo Agostinho
Divina Comédia, Dante
Ensaios, Montaigne,
Candide, Voltaire
O Vermelho e o Negro, Stendhal
O Som e a Fúria, William Faulkner
O Processo, Kafka
Terra Sem Vida, T.S. Eliot
O Ofício de Viver, Cesare Pavese
À Espera de Godot, Samuel Beckett
Poeta em Nova Iorque, Federico García Lorca
O Homem Sem Qualidades, Robert Musil
Tristram Shandy, Laurence Sterne
O Coração das Trevas, Joseph Conrad
Retrato de uma Senhora, Henry James
Elegias de Duíno, Rainer Maria Rilke
Obra Poética, Sophia de Mello Breyner Andresen
Quando tudo se desmorona, Chinua Achebe
As Aventuras de Augie March, Saul Bellow
Poesia, Ungaretti
Ficções, Jorge Luis Borges
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago
A Vida Modo de Usar, Georges Perec
Rayuela – O Jogo do Mundo, Julio Cortázar
As Ondas, Virginia Woolf
Lolita, Vladimir Nabokov
Debaixo do Vulcão, Malcolm Lowry
Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust
Auto-da-Fé, Elias Canetti, Cavalo de Ferro
Austerlitz, W. G. Sebald
Os Detectives Selvagens, Roberto Bolaño
Se Isto é um Homem, Primo Levi
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
Submundo, Don DeLillo

Pela internet fora, não faltou quem apontasse lacunas, falhas e ausências graves a esta lista, o que é perfeitamente compreensível. Qualquer lista de 50 títulos teria forçosamente lacunas, falhas, ausências graves, e não há nada pior do que uma lista unânime. Nesta, a preponderância vai para os clássicos, as obras que já passaram o teste do tempo e entraram para aquilo que se convencionou chamar o cânone ocidental. Mas também não nos coíbimos de fazer escolhas pessoais. A ideia foi lançar propostas de leitura que nos parecem válidas (e os livros até podem ser encomendados online na Wook, que aproveitou a boleia para os disponibilizar a preços especiais) mas não únicas.
Se quiserem prolongar o debate na caixa de comentários, são bem-vindos. Que livros acrescentariam e que livros retirariam da lista?

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Novelas Eróticas, de M. Teixeira-Gomes (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Não Há Vozes Não Há Prantos, de Mário de Carvalho (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por José Mário Silva
Do Lado de Canaã, de Sebastian Barry (Bertrand), por José Guardado Moreira
Safira e a Luta Contra o Cancro, de Patrícia Fonseca (ASA), por Filipe Santos Costa
As Primeiras Mulheres Repórteres, de Isabel Ventura (Tinta da China), por António Loja Neves
– Escolhas de André Simões

‘The Art of the Literary Fake (with Violin)’

Um ensaio brilhante de Jeff VanderMeer.

O senhor F.

O senhor F. não sabe que as outras pessoas o tratam por senhor F., quando ele não está presente. Se soubesse que as outras pessoas o tratam por senhor F., o senhor F. ficaria furioso. «Mas quem é que vocês pensam que eu sou? Alguma personagem do Gonçalo M. Tavares?», perguntaria, aos berros. Depois, de chapéu na cabeça, guarda-chuva na mão, sairia para a rua, encolhendo os ombros e murmurando impropérios.

***

O senhor F. gosta muito de poucas coisas e gosta pouco de muitas. Quais as poucas coisas de que gosta muito e quais as muitas coisas de que gosta pouco, eis o que se torna difícil de determinar – sobretudo porque falar nisso é justamente uma das muitas coisas de que o senhor F. gosta pouco.

***

O senhor F., em tempos, foi um excelente nadador. Bruços, crawl, mariposa, costas – dominava os vários estilos. Hoje o senhor F. continua a frequentar piscinas, mas fica na bancada, a ver pessoas de todas as idades, com as suas toucas coloridas, avançando a diferentes ritmos nas várias pistas, separadas por fios com flutuadores. Se perguntarem ao senhor F. por que razão já não vai para dentro de água, ele responderá com evasivas. A verdade é que o senhor F. aprecia sobretudo os movimentos pendulares dos corpos que vão e vêm, vão e vêm, vão e vêm através do feérico brilho azul da piscina. Se insistirem muito, ele explicará: «Prefiro assistir aos movimentos pendulares do que ser eu próprio um pêndulo.»

***

O senhor F. frequenta livrarias às terças e quintas. Às segundas, quartas e sextas, bibliotecas. Nas livrarias, faz listas das obras que gostaria de comprar. Nas bibliotecas, lê os livros que em tempos gostaria de ter comprado. Ao fim-de-semana fica em casa, entretido com jornais e revistas.

***

O senhor F. considera que a cinefilia exige solidão. Quando um amigo o convida para a matinée, ele desculpa-se com tarefas de última hora e vai à noite. Quando a namorada sugere um determinado filme em sessão nocturna (o filme que ela quer mesmo, mesmo ver, e nenhum outro), adia a resposta, mete-se no cinema logo a seguir ao almoço e à saída responde com uma SMS: «Não vai dar, querida, esse já vi.»

***

O senhor F. sente-se mal nos supermercados. Na verdade, o senhor F. sente-se mal em quase todos os lugares, mas particularmente nos supermercados. A aflição começa com a escolha do carrinho. O senhor F. acha que as compras só podem correr mal, vão correr inevitavelmente mal, se o carrinho não estiver em óptimas condições. Por isso experimenta vários até encontrar o perfeito (com as rodas oleadas, sem sacos do cliente anterior, impecavelmente limpo). Mas o carrinho perfeito muitas vezes não existe. Ou então está no fundo da série de carrinhos enganchados uns nos outros. Nas poucas vezes em que encontra o carrinho perfeito e entra com ele no dédalo do supermercado, depara-se com um problema ainda mais bicudo. Que percurso seguir? Começa-se pela fruta, passa-se depois ao talho, à charcutaria, à secção das bebidas e acaba-se na área dos produtos de limpeza, ou é ao contrário? Certeza, só uma: os congelados, por razões óbvias, devem ser a última paragem antes de seguir para a caixa. Mas um homem, mesmo um homem coriáceo e abnegado como o senhor F., não se pode agarrar a uma única certeza. Por isso o senhor F. acaba por retroceder, deixando o carrinho escolhido com tanto critério no parque de estacionamento (nem sequer recupera a moeda), e faz as suas compras na mercearia do bairro.

***

O senhor F. é um melómano a sério, daqueles que considera a música tocada ao vivo insubstituível. As gravações, sejam elas analógicas ou digitais, exigem sempre uma reprodução mecânica em que há sons que ficam pelo caminho e para ele, purista como é, se um som se perde, um ínfimo som que seja, a música torna-se incompleta, amputada como a Vénus de Milo ou a Vitória de Samotrácia, e deixa de valer a pena. Se um dia ganhasse a lotaria, o senhor F. talvez se dispusesse a pagar bom dinheiro a um quarteto de cordas para que este subisse os instrumentos até ao seu quinto andar, sem elevador (coitado do violoncelista), de forma a proporcionar-lhe, em condições acústicas ideais, a fruição das obras mais extraordinárias de Schubert, Beethoven e Béla Bartók. Como provavelmente nunca ganhará a lotaria, nem qualquer outro jogo de azar, o senhor F., que também não tem dinheiro para comprar as assinaturas das grandes salas de concerto e ópera, contenta-se em procurar pela cidade os jardins em que os estudantes do Conservatório tocam de graça para a população.

***

O senhor F. admira muito os funcionários das Finanças. Ao contrário dos outros contribuintes, acabrunhados enquanto esperam como reses em fila para o matadouro, temerosos das multas ou silenciosamente fervendo de indignação diante da máquina do Estado (especialista em apropriar-se de uma fatia generosa dos seus rendimentos), ao contrário de toda a gente que protesta mesmo quando não tem razão nenhuma para protestar, o senhor F. sente-se na repartição de Finanças como peixe na água. «A burocracia, quando bem exercida, é um espectáculo admirável», pensa ele. E deixa-se estar, deliciado, a assistir à consulta das matrizes prediais e a ouvir o som dos carimbos, sem sequer tirar senha porque na verdade não tem nenhum assunto para tratar ali.

***

O senhor F. fala muito com os seus botões. Levanta-se do sofá, vai ao armário do quarto buscar a caixa de costura, pousa-a em cima da mesa da sala, abre-a e tira lá de dentro vários saquinhos de plástico com os botões, separados por cores e tamanhos. Assim que ficam todos alinhados em cima da toalha de linho que foi da sua trisavó materna, começa a falar e nunca mais se cala.

***

O senhor F. só assistiu a um jogo de futebol na vida – e foi por engano. Era Fevereiro, estava frio e o senhor F. saiu à rua com um cachecol de lã amarelo e vermelho. No momento em que passava junto a um estádio, cruzou-se com dezenas de adeptos que envergavam cachecóis amarelos e vermelhos. Havia adeptos à sua frente, atrás de si e dos lados. De repente, sem perceber bem como, ficou no meio daquela multidão que se dirigia para os torniquetes, abertos naquele dia para que toda a gente apoiasse a equipa num dos jogos mais decisivos da temporada. O senhor F. assistiu à partida no meio de uma claque ululante, que exibia faixas, gritava os cânticos, rebentava petardos. Mesmo sem perceber nada do que acontecia sobre a relva, o senhor F. ficou satisfeito com o espectáculo. No fim, eufórico, um dos adeptos dos cachecóis amarelos e vermelhos deu-lhe uma cotovelada amistosa: «Então, foi bom, não foi?» Ao que o senhor F. respondeu: «Foi bom, sim senhor, foi muito bom, mas continuo a preferir a dança clássica.»

***

O senhor F. desenvolveu, com os anos, um certo medo das alturas. Mas não tem sempre medo. Umas vezes tem, outras vezes não tem. Depende, justamente, das alturas.

***

O senhor F. queria muito escrever um romance. Para ganhar rotinas de escrita, um certo embalo, uma certa disciplina, decidiu escrever mil palavras todos os dias, durante um mês. De início, alcançava o objectivo diário com relativa facilidade, numa hora e meia, duas no máximo. Mas a partir de certo momento o exercício tornou-se penoso. O que fora uma alegria, era agora um sacrifício. Já não era ele que escrevia as mil palavras, eram as mil palavras que o escreviam a ele. Quando apagou do computador os textos tão esforçadamente arrancados à sua escassa imaginação, o senhor F. pensou que ia sentir pena, desânimo, arrependimento. O que sentiu foi alívio das ilusões desfeitas.

***

O senhor F. é muito friorento, mesmo no Verão. É por isso que anda sempre com um casaco de malha e o seu cachecol de lã amarelo e vermelho. Dito isto, não se pode acusar o senhor F. de insensibilidade absoluta às condições meteorológicas quando escolhe o seu guarda-roupa. Nos dias em que os termómetros se aproximam dos quarenta graus centígrados, o senhor F. não deixa de usar o seu cachecol de lã amarelo e vermelho, mas deixa cair o casaco de malha, saindo para a rua, ó ousadia, em camisa – uma camisa de mangas compridas, azul escura, com o colarinho abotoado, claro.

***

O senhor F. indigna-se facilmente. Se a indignação for muito grande, pega num caixote de madeira, vai até à esquina da rua e imita os oradores londrinos do Speakers Corner, lançando-se em jeremiadas que podem durar até cinco horas. Se a indignação for moderada, faz o percurso das mercearias do bairro, começando sempre as suas queixas com um vocativo: «Ó dona Albertina, então já viu isto?»; «Ó senhor Alfredo, eu sei que parece mentira mas…»; «Ó dona Belinha, a senhora não vai acreditar no que acabei de ouvir no ‘Jornal da Tarde’…»; etc. Se a indignação for pequena, o senhor F. escreve mais um dos seus posts crípticos, publicados no seu blogue anónimo e completamente desconhecido, cujas únicas visitas são as que faz todas as noites para confirmar que ainda continua a existir (o blogue e ele próprio).

***

O senhor F. deixou de ter namorada. Ou melhor, a namorada do senhor F. é que deixou de o ter a ele. Abandonou-o. O senhor F. ficou de rastos e transporta uma tristeza no peito semelhante a uma bomba-relógio programada para explodir de minuto a minuto. Quando o senhor F. perguntou à namorada «porquê?», ela não lhe soube responder. Ou melhor, respondeu-lhe que havia um problema grave de desfasamento. Para ela, o que mais importava era o futuro, o que estava para vir (e, no futuro, ela não conseguia imaginar-se ao lado do senhor F.). Para o senhor F., o importante era o presente, o que estava a acontecer agora (e, no presente, ele não conseguia imaginar-se sem a namorada junto de si). Fora esta discrepância, o entendimento entre os dois era perfeito, uma espécie de milagre do amor, melhor ainda do que nos livros. Mas a namorada, por muito que gostasse do senhor F., era incapaz de lidar com o tal desfasamento, com o tal absurdo medo do futuro. E um dia desapareceu mesmo. O senhor F., que se estava nas tintas para o futuro, sentiu o presente a ser-lhe arrancado como se fosse uma perna ou um braço, e transporta agora o passado como um tesouro cruel que lhe dá cabo das costas.

***

O senhor F. juntou muitos mapas ao longo da vida. Coleccioná-los é a sua maior obsessão. Tem mapas de todos os tamanhos e feitios. Mapas de ilhas remotas, minúsculas e desabitadas. Mapas das estradas que são como sistemas circulatórios de um país ou de um continente inteiro. Mapas históricos com geografia ainda imprecisa, áreas vazias de terra incognita, monstros na orla do planeta e baleias de cauda escamosa no meio do mar. Mapas dos grandes desertos com a posição relativa das dunas no momento em que o mapa se imprimiu e a sua provável evolução (a tracejado). Mapas de grandes capitais que ocupam uma sala inteira, com os bairros identificados por cores diferentes, mas também os prédios, um a um, e os pátios, os saguões, as garagens subterrâneas, os bancos dos jardins, as antenas, os quiosques, os ecopontos, as sarjetas, os toldos dos cafés, os baloiços dos parques infantis, os parquímetros. Mapas de glaciares, desactualizados ainda antes de terem saído da gráfica, mas belíssimos nos seus vários tons de branco, cinzento e azul. Mapas atravessados por fronteiras que já não existem. Mapas económicos. Mapas demográficos. Mapas de terras que nunca existiram a não ser na imaginação de certos escritores. E o mapa mais importante de todos: o mapa das dezenas de gavetas do seu arquivo de mapas, sem o qual não conseguiria chegar de forma tão expedita ao mapa que lhe interessa num determinado momento.

***

O senhor F. enerva-se muito a ler jornais. Todos os sábados e domingos, recorta os artigos com erros factuais ou ortográficos, assinala-os, corrige-os, e cola-os em folhas A4 brancas. Depois, sai discretamente de madrugada, quando ninguém passa na rua, e vai afixando esses papéis à porta das redacções que deixaram passar os inadmissíveis erros. Já houve, aliás, reportagens feitas pelos jornais visados sobre este justiceiro anónimo. Mesmo actuando pela calada, o senhor F. devia sentir orgulho do seu cada vez mais mencionado e influente jornal de parede. O problema é que ele descobre alguns erros nas próprias denúncias que escreve. Ou seja, em vez de orgulho, o que ele sente é vontade de fazer um segundo jornal de parede que corrija o seu primeiro jornal de parede, sabendo perfeitamente que ao fazê-lo só estaria a abrir a porta a um terceiro jornal de parede, etc. «Não tenho vida para isto», resume o senhor F.

***

O senhor F. é um visitante frequente do Jardim Zoológico. Nunca espreita as jaulas dos tigres, nem o fosso dos leões, nem o espaço dos macacos, nem as girafas, nem os elefantes, nem as crias do rinoceronte branco, nem o espectáculo com golfinhos que voam a grande altura e focas que batem palmas. Assim que atravessa o portão, o senhor F. dirige-se logo para o Reptilário, onde fica tardes inteiras junto a uma das enormes caixas de vidro, à espera de ouvir a música tão discreta e preciosa da cascavel.

***

O senhor F. tentou suicidar-se três vezes. Uma corda à volta da garganta. Comprimidos. Um salto da janela. A corda partiu-se. Fizeram-lhe uma lavagem ao estômago. O toldo de um café e um colchão abandonado na rua amorteceram-lhe a queda. Morrer é mais complicado do que parece à primeira vista. Resignado, o senhor F. costuma dizer que se à terceira não foi de vez, então é porque não vale a pena tentar a quarta.

***

O senhor F. detesta finais infelizes (a tragédia grega), mas detesta mais ainda finais felizes (Hollywood). O que o senhor F. detesta mesmo é a própria ideia de final. Para ele, o final é o momento em que chegamos ao futuro e acaba tudo. Se dependesse do senhor F., nunca haveria final para nada, muito menos para a forma como ele, senhor F., mal ou bem, se vai inscrevendo no mundo. É por isso que aproveito o facto de o senhor F. ter ido à repartição de Finanças para, à sua revelia… enfim, vocês sabem.

Maravilhas da paternidade


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Depois da Terra, os ET’s ocupam o sistema solar, por Alice Ferra Silva, 2012

Em defesa da literatura parisiense

Com Rivegauchez-vous!, um panfleto que se insurge contra a decadência literária de Saint-Germain-des-Prés e a perda de aura intelectual da rîve gauche, a autrice (auteur + actrice) Natacha Braque agita as águas do meio literário francês. Eis um excerto da sua entrevista ao blogue literário do Nouvel Observateur:

«Pourquoi la littérature parisienne est-elle en danger?
Parce que c’est une littérature aussi fragile qu’un macaron de Pierre Hermé. Elle a un besoin vital d’être lue pour exister. Car à peine a-t-on finit de la lire qu’on l’oublie aussitôt. Et c’est pour cela qu’il faut encore et toujours la relire. D’où le cri d’urgence que je lance à nos lecteurs et lectrices en cette rentrée de tous les dangers: Lisez-nous! Relisez-nous! Re-relisez-nous. Re-rerelisez-nous… Et je suis prête à continuer ainsi autant qu’il le faudra même si je n’ai pour me battre que mes phrases courtes et mes petits points…
D’où vient la menace?
Nos livres (rudes, intelligents, pénibles, comme tout ce qui se mérite) sont de plus en plus concurrencés par des ouvrages plus intéressants, plus épais que les nôtres, aux couvertures plus colorées, aux titres plus aguicheurs. La plupart sont étrangers ou, pire, écrits dans les régions.
Vous demandez l’instauration d’une couverture médiatique garantie et d’un quota de littérature parisienne… Pouvez-vous en dire plus?
En cette ère du post-Pivot, les masses, livrées à elles-mêmes, pensent n’importe comment et lisent n’importe quoi. Nous exigeons donc une visibilité médiatique minimum garantie (V.M.G). Par exemple, une chaîne gratuite de la TNT consacrée à la vie littéraire parisienne… Quant aux quotas de littérature parisienne, je dirai ceci: on protège les poulets du Gers derrière un label rouge et on noie nos livres dans des rentrées littéraires de plus en plus pléthoriques où le meilleur côtoie le plus provincial.
Nous demandons donc la création d’un label “Ecrivain Parisien d’Origine Contrôlée” (E.P.O.C) et la mise en place, comme on le fait pour la viande porcine ou le lait, d’un nombre maximum de livres autorisés à paraître entre fin août et début septembre (une vingtaine, par exemple), le surplus étant directement pilonné sans encombrer les journalistes spécialisés ou les rayons de nos libraires. Dans un tel cadre, la littérature parisienne retrouverait toute sa visibilité et toutes ses chances.»

Trata-se, como é óbvio, de uma brincadeira, criada por Pascal Fioretto, um «pasticheur récidiviste». Mas é a brincar que se levantam questões muito sérias.

O homem do lixo

Os Dias de Davanzati
Autor: Héctor Abad Faciolince
Título original: Basura
Tradução: Margarida Amado Costa
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 205
ISBN: 978-989-722-031-9
Ano de publicação: 2012

Em 2009, o escritor colombiano Héctor Abad Faciolince esteve na Póvoa de Varzim para participar num dos debates das Correntes d’Escritas e lançar Somos o Esquecimento que Seremos (publicado na Colômbia em 2006), um comovente tributo à memória do pai, médico que lutava contra a desigualdade social em Medellín e foi assassinado a tiro por paramilitares. Os ecos das suas empolgantes intervenções nas Correntes, ou talvez o efeito boca a boca, fizeram do livro um inesperado êxito de vendas – inesperado mas justíssimo. Três anos depois, é provável que alguns desses leitores ganhos por Faciolince se desiludam com Os Dias de Davanzati (de 2000), não porque o romance seja de deitar fora (fazendo jus ao título original: Basura), mas porque está uns bons furos abaixo da qualidade revelada em Somos o Esquecimento que Seremos.
Ao mudar de casa, um jornalista com vagas aspirações literárias apercebe-se de que o vizinho de cima é um tal Bernardo Davanzati, escritor há muito fora do circuito, depois do insucesso a que foram votados os seus dois livros (o primeiro recebeu más críticas; o segundo, nem isso). Dirigindo-se aos eventuais leitores numa majestática segunda pessoa do plural, o jornalista explica como um dia descobriu por acaso, no lixo do prédio, várias folhas A4 manuscritas por Davanzati. Tem assim início uma verdadeira obsessão por parte do narrador, que não só recolhe todos os dias os textos que o vizinho decidiu eliminar, como estuda os seus hábitos e idiossincrasias, espiando-lhe cada movimento ou acção. Numa fase inicial, ainda sente alguns escrúpulos: «eu sei perfeitamente que, quando um escritor se desprende de algum papel, não o faz para alguém o resgatar ou ler a seguir, pelo contrário, fá-lo para que ninguém, jamais, o leia». Mesmo consciente de que o seu gesto é uma «intromissão», um abuso, não consegue resistir: «a curiosidade era muito mais forte que eu, a vontade de saber muito mais profunda que o respeito pela intimidade».
Durante quase um ano, desenterra os textos da pilha de imundícies, alisa as folhas e arquiva-as por ordem cronológica. Ele é, nas suas próprias palavras, um «comedor de restos», o «homem do lixo» de Davanzati. Sem nunca haver comunicação directa entre os dois, afeiçoa-se àquele velhote sombrio e antipático que vai conhecendo cada vez melhor, à sua revelia. Um homem de horizontes estreitos, consumido pelo passado. Um homem que escreve mal mas não consegue parar de escrever. «O que me intrigava e também fascinava era a fidelidade de Davanzati em relação ao seu ofício solitário, silencioso, inédito, e eu sentia-me ao mesmo tempo traidor e salvador, o Max Brod de Davanzati, um Max Brod crioulo e anónimo que coleccionava os restos de um Kafka medíocre.»
A ideia de assistirmos à revelação progressiva de um autor desinteressante é, em si mesma, interessante. O narrador de Faciolince intercala no seu relato os textos recuperados do lixo, analisa-os, aponta as respectivas limitações, e especula sobre o que haverá de autobiográfico em todos aqueles esforços narrativos inconsequentes. A verdade sobre Davanzati nunca emerge, porque ele esgueira-se «com um fingimento, com um desvio», e mesmo as pessoas que o conheceram têm informações sempre incompletas, ou contraditórias.
Se quase nada ficamos a saber de Davanzati, menos ainda sabemos do narrador. E é essa a principal fragilidade do romance. Mais do que na vida vazia do escritor aborrecido, queríamos entrar na vida (aparentemente também vazia) do homem que o espiava. Mas Faciolince nunca nos dá esse prazer. Na página 177, quando decide comer qualquer coisa antes de ir dormir (actividades nunca antes referidas), o narrador deixa o aviso: «porque eu também como e também durmo». Apetece perguntar: a sério?

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘Blimunda’ #3

Sobre uma relação literária transatlântica: José Saramago e Jorge Amado. Para descarregar aqui.

Será que um dia guardaremos os nossos livros em moléculas de ADN?

Using next-generation sequencing technology and a novel strategy to encode 1,000 times the largest data size previously achieved in DNA, Harvard geneticist encodes his book in life’s language.

Quatro poemas de Gaio Valério Catulo

Pássaro, delícia da minha miúda,
com quem brinca, que aperta contra o seio,
a quem dá a ponta do dedo,
e provoca valentes bicadas,
quando, ardendo de desejo por mim,
lhe agrada divertir-se com não sei quê de querido
como pequeno consolo para a sua dor,
julgo, para assim acalmar o ardor intenso –
pudesse eu, como ele, contigo brincar
e do coração afastar os tristes cuidados.

***

Vivamos, Lésbia minha, e amemos.
A má-língua dos velhos mais sisudos
para nós não valha mais do que um tostão.
Podem os dias morrer e nascer:
quando a breve luz de vez morrer
noite perpétua devemos juntos dormir.
Dá-me beijos mil, e depois cem,
e depois mil outros, e depois mais cem,
e depois ainda mais mil, e depois cem.
Depois, quando muitos dermos,
baralhá-los-emos para não sabermos quantos,
ou não possa homem mau invejar-nos
ao saber que tantos beijos demos.

***

O cu e a boca vos foderei eu,
Aurélio, minha bicha, Fúrio, meu paneleiro,
que pelos meus versinhos me julgais
pouco virtuoso, por tão delicadinhos serem.
É que casto deve ser o bom poeta,
não têm de o ser os seus versinhos,
que além do mais têm picante e graça,
sendo tão delicadinhos e pouco virtuosos,
e porque podem provocar comichões,
não digo aos miúdos, mas a estes peludos
que não conseguem mexer as duras piças.
Vós, lá por “muitos milhares de beijos”
terdes lido, achais que sou pouco macho?
O cu e a boca vos foderei eu!

***

Diante do marido tão mal de mim diz Lésbia:
isto para aquele idiota é alegria enorme.
Burro, não percebes nada: se esquecida de nós se calasse,
estaria curada. Agora, porque gane e ofende,
não só se lembra, como, o que é muito pior,
está furiosa: isto é, de amor arde e fala.

[in Carmina, trad. de André Simões e José Pedro Moreira, Cotovia, 2012]

‘The Writer’s Room’

Tools and strategies for a writing life.

Um espanto oculto

Ensinar o Caminho ao Diabo
Autor: Miguel-Manso
Editora: edição de autor
N.º de páginas: 95
ISBN: 978-989-96644-2-5
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 8/10

Um lugar a menos
Autor: Miguel-Manso
Editora: edição de autor
N.º de páginas: 90
ISBN: 978-989-96644-1-8
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 7/10

Colocado voluntariamente à margem do mundo editorial, Miguel-Manso é um caso singular na literatura portuguesa contemporânea. Desde 2008 vem publicando, a expensas próprias, os seus livros de poemas: volumes simples, brancos, com grafismo sóbrio e paratexto fotográfico, uma série em curso (são já cinco) que o poeta apelidou «Os Carimbos de Gent», porque nas capas são reproduzidas imagens de carimbos comprados numa loja de velharias daquela cidade belga. Embora razoavelmente diferentes entre si, os livros partilham um mesmo tom, uma escrita atentíssima à pulsação caótica do mundo, pródiga em «entusiasmos verbais», em «proezas de linguagem», e com uma certa queda para as palavras raras (um verdadeiro festim para quem gosta de vocabulário arcaico, daquele há muito enterrado no fundo dos dicionários). Com edição simultânea, Um Lugar a Menos e Ensinar o Caminho ao Diabo são as obras mais recentes de Manso, confirmando as qualidades que já lhe reconhecíamos nos três primeiros livros.
Um Lugar a Menos é composto por algumas dezenas de textos curtos, em prosa, parágrafos bem lapidados que estão mais perto da reflexão aforística do que do lirismo. O título é um trocadilho com o locus amoenus, tópico da literatura clássica, mas os lugares que aqui se revelam e questionam são os da própria escrita, na sua difícil tarefa de olhar pela janela «os vestígios do mundo» e esconjurar a paisagem. Afirma Miguel-Manso: «A qualquer poemário devemos atribuir uma estrutura que permita todas as perplexidades.» É o que acontece neste livro exigente, umas vezes opaco, outras irónico (a variação de Cesariny para autarcas: «Ama como a rotunda começa»), outras tangencialmente próximo da realidade quotidiana (a história da mulher que esteve nove anos morta em casa). «Que o texto seja não o texto consumado mas o caminho para a consumação do texto», sugere o início de um dos fragmentos. E os outros fragmentos obedecem-lhe.
Menos hermético, Ensinar o Caminho ao Diabo é o livro de um poeta nocturno e invernal, um flâneur que «caminha de um lugar que não sabe / a um lugar que não pode», saltando de cidade em cidade (Lisboa, São Paulo, Londres, Évora, Veneza), rabiscando versos e suas cicatrizes («o caderno é a máquina fotográfica»), em busca do «espanto oculto» do poema, esse amontoado de palavras em deslocação que «é a coisa mais triste que há». Coisa triste mas necessária, capaz de dizer tudo com quase nada. Como prova este dístico escrito no Mindelo, Cabo Verde: «estão a construir um bar / e começaram pela música».

[Texto publicado no n.º 113 da revista Ler]

O que aí vem (Presença)

A Coroa, de Nancy Bilyeau; Nunca é Tarde Demais, de Fern Michaels; Trash – Os Rapazes do Lixo, de Andy Mulligan; O Último Lobisomem; de Glen Duncan; As Coisas Impossíveis do Amor, de Ayelet Waldman.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Dossier “50 livros que toda a gente deve ler”, por Ana Cristina Leonardo, Clara Ferreira Alves, Henrique Monteiro, José Mário Silva, Luísa Mellid-Franco e Pedro Mexia
Carmina, de Gaio Valério Catulo (Cotovia), por António Guerreiro
50 Poemas, de Tomas Tranströmer (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Voltar, de Sarah Adamopoulus (Planeta), por Luís M. Faria
Os Dias de Davanzati, de Héctor Abad Faciolince (Quetzal), por José Mário Silva
Arde o Musgo Cinzento, de Thor Vilhjámsson (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
– Escolhas de José Rentes de Carvalho

‘Terra Incógnita’

Faltam 2500 euros para que seja possível um festival internacional de contos em Lisboa, já no mês de Setembro. Toca a ajudar.

Aldeia Olímpica

O porta-bandeira de Chipre torceu um pé ao sair do autocarro, estatelando-se ao comprido no chão. Atrás dele saiu uma nadadora do Suriname que nada fez para o ajudar. Três canoístas canadianos passavam por ali no momento da queda mas também nada fizeram. Assistindo à cena a vinte metros de distância, o chefe da comitiva grega abanou a cabeça e murmurou para o chefe da comitiva norueguesa: «Não foi para isto que o Barão Pierre de Coubertin, esse grande francês, reinventou os Jogos». Meia hora antes, quatro ginastas ucranianas foram apanhadas a roubar ganchos para o cabelo numa loja de souvenirs. A mesma loja em que se venderam dezenas de postais com os cinco anéis, remetidos nessa tarde ou no dia seguinte para países tão remotos como a Arménia, Nova Zelândia, Belize, Samoa, Tadjiquistão ou Zimbabué. Na cafetaria, os velocistas da Jamaica sentaram-se à parte para beber café, o que motivou comentários jocosos dos velocistas de Saint Vincent e Grenadines, Saint Kitts e Nevis, Trinidad e Tobago, Granada, República Dominicana e Ilhas Virgens Britânicas. Uma halterofilista turca assumiu o seu relacionamento amoroso com uma jogadora de hóquei em campo argentina, ao publicar no Facebook uma foto em que as duas se beijam, no intervalo do jogo de pólo aquático entre a Hungria e a Eslovénia. A melhor dupla chinesa de saltadores para a água, favorita à vitória, desentendeu-se momentos antes da prova e ofereceu ao mundo um inesperado e violentíssimo espectáculo de pancadaria sincronizada. Nos dias de folga, o atirador com pistola livre do Cazaquistão organiza simultâneas de xadrez no jardim, mas se os atletas dos países balcânicos (croatas, albaneses, sérvios, montenegrinos) têm correspondido, os outros tendem a preferir os seus iPods, iPads e playstations. Meio desorientada, a judoca do Chade pediu ajuda a um basquetebolista nigeriano mas ele não ouviu, talvez porque as palavras têm alguma dificuldade em chegar lá acima. Com os fatos de treino vestidos, ninguém repara nas duas esculturais brasileiras do volley de praia, enquanto elas discutem, na fila da farmácia, qual a cachaça certa para fazer a melhor caipirinha do planeta. O lançador do dardo checo traz hoje uma t-shirt com o rosto de Zátopek (tem no quarto outra, muito parecida, com a efígie de Kafka). Feitas as apresentações, alguém se apercebe que no grupinho formado espontaneamente só estão desportistas de países começados pela letra M (Madagáscar, Malawi, Malásia, Maldivas, Mali, Malta, Mauritânia, Maurícia, México, Micronésia, Moldova, Mónaco, Mongólia, Marrocos, Moçambique e Myanmar), o que provoca, sem que se perceba bem porquê, uma enorme gargalhada colectiva. Um pugilista nicaraguense enorme (categoria peso super-pesado; ou seja, com mais de 91 quilos) desabafa com um pugilista lingrinhas do Panamá (categoria peso mosca-ligeiro; ou seja, com menos de 49 quilos) que tem muitas, mas mesmo muitas, saudades da sua filha de dois anos e meio, a Carmen, «tão pequenina, tão doce, tão bonita», luz dos seus olhos que já não vê há três semanas. O saltador em comprimento da Serra Leoa lê o jornal com um ar preocupado, à procura de notícias sobre o seu país (quando aparecem nos jornais internacionais, é mau sinal; quando não aparecem, também é mau sinal). No terraço do edifício onde está alojado, o lutador cubano mais velho fuma um charuto às escondidas e observa, de longe, a equipa de perseguição em bicicleta alemã e os remadores austríacos a caminharem, em amena cavaqueira, até ao ponto em que divergem para os respectivos centros de treinos. «Saltar à vara é bom, saltar à vara é maravilhoso, saltar à vara é a única coisa que eu quero fazer na vida, mas já chega de me chamarem o ‘holandês voador’», pensa o holandês voador. Depois de ter sido candidata a Miss Mundo aos 18 anos, a velejadora venezuelana de 27 anos (classe Laser) aspira a um outro tipo de glória, uma glória sem o martírio dos vestidos de noite, das tiaras, das lágrimas obrigatórias e dos desejos profundos de paz no mundo e de felicidade para todas as crianças, especialmente as abusadas, as abandonadas, as subnutridas. Agora a sério, parem de pedir ao trampolinista das Ilhas Caimão conselhos sobre a melhor forma de abrir uma conta bancária off-shore porque ele não acha mesmo piada nenhuma à brincadeira. Sem aviso, um repórter irlandês pergunta maldosamente ao representante chileno no triatlo se sabe mostrar no mapa-mundi onde ficam Aruba, a Samoa Americana, Antígua e Barbuda, Kiribati, Tuvalu, Guam, Nauru, Palau, Vanuatu e Santa Lucia, ao que o representante chileno no triatlo responde, com honestidade e candura, que nunca sequer ouviu falar de tais lugares. Entre as voleibolistas turcas, há uma especialmente tímida, incapaz de dizer «Bom dia» com voz que se oiça, mas cuja personalidade se metamorfoseia durante os jogos, ao ponto de gritar os impropérios mais obscenos às colegas de equipa, se uma delas não se esforça na recepção ou falha o tempo de salto para o bloqueio. Se o especialista estónio dos 5000 metros mal consegue andar por causa das bolhas nos pés, a dupla sueca dos 1000 metros em K2 mal consegue pegar nas cervejas por causa das bolhas nas mãos. O norte-americano apontado como principal favorito à vitória nos 400 metros planos tem todos os dias o mesmo pesadelo, no qual dá o seu máximo e está certo de bater o recorde do mundo, só para descobrir ao cortar a meta que ficou em segundo lugar, atrás de uma figura difusa a que o seu psicanalista chamaria uma materialização do seu medo de perder. Para descomprimir entre as várias provas, há quem jogue ténis de mesa a tarde toda, mas os representantes de Hong Kong no torneio de ténis de mesa, compreensivelmente, preferem ver televisão. Apesar de tão óbvia, a velha ordem alfabética tem sempre os seus admiradores, que o digam os 24 atletas de Andorra, Bahamas, Cambodja, Djibouti, Eritreia, Fiji, Granada, Haiti, Indonésia, Jordânia, Kuwait, Letónia, Macedónia, Niger, Oman, Papua Nova Guiné, Qatar, Ruanda, San Marino, Tanzânia, Uganda, Vietname, Yemen e Zâmbia a quem pediram que se perfilassem ao lado uns dos outros. Quando a ciclista búlgara quase atropela o maratonista costa-marfinense, aumentam muitíssimo as probabilidades de nascer, cerca de um ano mais tarde, um belíssimo bebé mulato intercontinental. As opiniões valem o que valem, mas toda a gente acha que o treinador da selecção de ginástica rítmica polaca anda triste demais (como se lhe tivesse morrido um familiar próximo) e o ex-campeão de tiro ao arco sul-coreano excessivamente eufórico (como se tivesse arrebatado o maior prémio de sempre na lotaria). Na zona do controlo anti-doping, o afegão que está inscrito nos combates de Taekwondo olha com alguma desconfiança para um halterofilista russo, pensando: «Será que foi o pai dele a matar o meu no ataque a Kandahar ou terá sido, antes desse dia negro, o meu pai a matar o dele nas montanhas que cercam Cabul?» O marchador colombiano começou por responder com indiferença aos comentários mordazes sobre o grau de masculinidade (ou falta dela) da disciplina a que se dedica há 15 anos com o máximo empenho; depois, ao ver que os comentários persistiam, lembrou em voz alta aos gozadores que o seu irmão mais velho é um dos cabecilhas do cartel de Medellín e foi, como se costuma dizer, remédio santo. Quem gosta de couscous sabe que a argelina lançadora do peso faz um tajine de chorar por mais, embora as suas actividades gastronómicas, necessariamente clandestinas, nunca tenham dia ou hora certos. Ao meio-fundista boliviano tudo parece mais fácil cá em baixo, onde o oxigénio não falta e os caminhos não são íngremes, nem de terra, nem se arriscam a desaparecer no meio das nuvens. Cinco futebolistas hondorenhos saíram à noite e só voltaram, de manhã, «com um ar esquisito», segundo alguns compatriotas da delegação que os conhecem bem. O esgrimista do Bahrain trouxe consigo uma considerável biblioteca (uma mala cheia com mais de 50 volumes de estudos corânicos), o que fez sorrir o seu adversário finlandês na segunda ronda, também ele leitor voraz, mas de romances policiais escandinavos (umas quantas dezenas, comodamente guardados na memória do seu Kindle). A estafeta australiana de 4 x 100 metros livres nada em conjunto há tanto tempo que se consideram uma família e como todas as famílias por vezes discutem, incompatibilizam-se, amuam, proclamam o seu afecto uns pelos outros, zangam-se outra vez e reconciliam-se no fim (o extraordinário é que tudo aconteça durante um único treino). À representante das Comores o anonimato não deve custar muito porque, assinala com manifesto prazer um comentador televisivo que se tornou conhecido pelo seu cinismo, «afinal de contas ela vem das Comores». O maratonista islandês tem literalmente inscrita no corpo a distância que percorre há oito anos (é uma tatuagem simples, a dizer 42,195 kms, um pouco acima do calcanhar). De comum, os atletas da República Democrática da Coreia do Norte e da República Democrática do Congo só têm o facto de representarem países que não são democráticos. Toda a gente se queixa do excesso de controlo na aldeia, menos o judoca palestiniano, que vive em Jenin, tem uma avó doente que mora em Jerusalém e sabe o que sofre, diariamente, para ultrapassar os checkpoints à ida e à volta. Com os seus modos mansos, a sua mosquinha no queixo e os olhares dengosos, o porto-riquenho especialista em 110 metros barreiras tem fama de gigôlo (e talvez algum proveito). Para a delegação saudita, qualquer movimento de súbditos nacionais no exterior representa um enorme perigo de contaminação cultural, pelo que foram já accionados os mais mirabolantes mecanismos de vigilância e controlo, nem sempre tão eficazes quanto os responsáveis dão a entender nos relatórios que enviam de hora a hora para Riade. O tenista suíço sabe que há torneios mais importantes para ganhar do que este, uma vitória aqui não substitui um triunfo em Melbourne ou Roland Garros, e isso talvez o desmotive um pouco, ou se calhar são as enxaquecas, não tem bem a certeza. O nadador de Tonga sabe que o Tonga só é bom em râguebi, mas infelizmente o râguebi é um dos desportos que não se pratica nos Jogos. Para o tapete onde se decidem os combates de luta greco-romana, o lutador indiano gostava de levar muitos braços, como os da deusa Kali, mas não só não os tem como sabe que os regulamentos nunca permitiriam uma tal extravagância. O peso galo (isto é, menos de 56 quilos) do Uzbequistão nem sempre andou aos murros com luvas de boxe; houve um tempo em que andou aos murros com as mãos nuas e os muitos narizes partidos dos seus colegas de escola são a marca viva de um talento na altura ainda em bruto. Por razões não especificadas, o lançador do disco angolano e o roupeiro de Cabo Verde, ambos visivelmente embriagados, envolveram-se numa rixa com navalhas e garrafas partidas, da qual saíram miraculosamente ilesos, salvo algumas escoriações superficiais e golpes pouco profundos nos braços (de uma das janelas, o delegado da Guiné Bissau gritou bem alto: «Até aqui fazem cenas dessas? Não têm vergonha?»). Ao entrar na cantina, um velejador belga da classe 470 trauteia com certo orgulho uma canção de Brel e parece feliz ao perceber que as batatas fritas fazem parte dos acompanhamentos para o almoço. Jaz o jocoso judoca japonês, justapondo júbilo e jasmim. Estavam quatro – um andebolista espanhol, um cavaleiro egípcio, o dinamarquês do windsurf e o italiano do decatlo – quando ela passou, ela a praticante libanesa de ginástica rítmica, mais as suas ancas rítmicas, os seus seios rítmicos, o seu rosto rítmico, o seu corpo rítmico, toda ela rítmica e os quatro como que enfeitiçados. Num computador portátil, alguém consulta a lista de todos os países participantes e vai transcrevendo para um moleskine, com caligrafia trémula e por vezes quase ilegível, alguns deles: Azerbaijão, Bangladesh, Barbados, Bielorrússia, Benin, Bermudas, Butão, Bósnia-Herzegovina, Botswana, Brunei, Burkina Faso, Burundi, Camarões, República Centro Africana, Congo, Ilhas Cook, Costa Rica, Dominica, Equador, El Salvador, Guiné Equatorial, Etiópia, Gabão, Gâmbia, Geórgia, Gana, Guiné Conakri, Guiana, Irão, Iraque, Israel, Quénia, Quirguistão, Laos, Libéria, Líbia, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Namíbia, Nepal, Paquistão, Panamá, Paraguai, Filipinas, Roménia, São Tomé e Príncipe, Senegal, Seycheles, Singapura, Eslováquia, Ilhas Salomão, África do Sul, Sri Lanka, Sudão, Suazilândia, Síria, Taipé, Tailândia, Timor-Leste, Togo, Turquemenistão, Uganda, Emirados Árabes Unidos, Uruguai. Um comissário britânico repara no afã do escriba e pergunta-lhe porque anota ele aqueles países no seu caderninho. Responde o português: «Escrevo para os cortar da lista. Já não tenho histórias e situações que cheguem para todos.»

Dez milhões de utilizadores

É a marca que a Goodreads, uma rede social em que as pessoas partilham as suas leituras e gostos literários, acaba de atingir. Notável.

A última mãe

Acabadora
Autora: Michela Murgia
Título original: Accabadora
Tradução: Diogo Madre Deus
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 180
ISBN: 978-972-25-2417-9
Ano de publicação: 2012

Em O Alma-Grande, primeiro dos Novos Contos da Montanha (1944), Miguel Torga narra a história de um «abafador» que precipita o fim dos moribundos – asfixiando-os – em Riba Dal, «terra de judeus». Homem prático, ele cumpre a sua função como outros cavam a terra, conseguindo assim encurtar a agonia e o sofrimento das famílias, mas sobretudo poupá-las aos ritos fúnebres católicos. Espécie de anjo exterminador que os habitantes da aldeia olham «com terror e gratidão», o Tio Alma-Grande está entre as personagens mais memoráveis de Torga e é impossível não nos lembrarmos dele quando deparamos, neste belíssimo primeiro romance da italiana Michela Murgia, com a figura de Ti Bonaria Urrai.
Costureira de profissão, Ti Bonaria não só sabe tirar as medidas às pessoas (em todos os sentidos) como resolve o drama de quem necessita de um empurrão para pôr fim à vida, quando a esperança se foi de vez. Em Soreni, na Sardenha dos anos 50, ela é a «acabadora», a mulher chamada pelas famílias a meio da noite para dar ao moribundo a morte rápida que a todos liberta, o repentino cessar da respiração alheia que nunca a perturbou, talvez por não saber distinguir a «piedade» do «delito». Chamam-lhe «a última mãe» porque entrega corpos às trevas como outras mulheres dão à luz os seus bebés.
Além de «última mãe» às escondidas, ela é também, de forma assumida diante da comunidade, a segunda mãe de Maria Listru, uma menina que teve dois nascimentos: um «errado», enquanto quarta filha de uma viúva sem meios para sustentar tanta prole; e um «certo», quando Bonaria a resgata, aos seis anos de idade, para a transformar na sua «filha de alma». Em tempos de miséria, ninguém estranha que a pobreza de uma mulher compense a esterilidade de outra. E a vida em Soreni prossegue com os seus atavismos, os seus códigos sociais rígidos, entre o falatório das más-línguas e as disputas de terrenos (haverá sempre quem seja capaz de matar ou morrer por causa de um muro desviado meia dúzia de metros), os gritos das carpideiras e as festas populares, os rituais das vindimas e a memória dos homens que um dia foram à guerra, na flor da juventude, para nunca mais voltarem.
Michela Murgia (n. 1972) concentra o foco da narrativa na relação entre Maria e Bonaria, desde a primeira hora ameaçada pelo segredo das escapadelas nocturnas da mais velha. Com uma escrita de grande rigor estilístico, muito inventiva na forma como utiliza os objectos domésticos e as actividades das mulheres (coser, limpar, cozinhar) para definir as respectivas psicologias, a autora nunca perde o controlo da história e mesmo na passagem mais arriscada (o episódio de Turim, quando Maria procura uma nova vida longe da ilha natal) consegue evitar os escolhos que tantas vezes comprometem o esforço dos romancistas estreantes. Um dos seus grandes trunfos é a forma como constrói os diálogos, de um ritmo e desenvoltura exemplares. Veja-se, por exemplo, a violenta troca de argumentos entre o padre da aldeia e Nicola Bastíu – um rapaz que não se conforma com a amputação de uma perna e deseja morrer, pedindo por isso a misericórdia da «acabadora». Ou a decisiva discussão entre Bonaria e Maria, quando esta descobre a verdade durante tantos anos escondida.
O mais espantoso no livro, porém, é a delicadeza da escrita de Murgia (há momentos em que a prosa faz lembrar filigrana) e a obsessiva atenção aos detalhes. Uma colcha com cupidos desenhados, por exemplo, gera «entre as pregas do froco a ilusão ótica de uma dança histérica e infantil». Uma saia ajusta-se ao corpo «como as pétalas de uma flor preta». E depois há a cena fulcral, quase no fim do romance, em que percebemos porque escolheu Bonaria aquela «filha de alma» e não outra. Na mercearia, viu a criança roubar cerejas e escondê-las no bolso do vestido branco, sem ninguém se aperceber. Quando o «vermelho revelador» dos frutos a denuncia, alastrando como uma «obscena menarca», ela percebe que «o tempo da esterilidade acabara». Tamanho poder simbólico e de evocação sinaliza, sem margem para dúvidas, a chegada de uma grande escritora.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Trocar a laranja por uma maçã

E se o Orange Prize (que distingue romances escritos por mulheres) se transformasse no Apple Prize?
Tinha a sua piada.

Três poemas de Tiago Patrício

O MEDO

O vento abeira-se das grades
cresce por debaixo das pedras
e pode ser a qualquer momento
um comboio que abranda
ou uma acidez que corrompe o tempo

Dentro da casa
a fisiologia da noite
propaga-se em vibrações
e movimentos peristálticos
na transmutação da sombra

Duas voltas à porta e à respiração
uma para o medo e a outra para o vento
para a sombra das árvores
ou para uma coisa mais terrível
como o recomeço do Inverno

***

TINHA UMA MULHER A CAMINHAR EM FRENTE QUE

desfiava páginas inteiras de uma geografia visceral
e ocultava os tecidos internos numa pálpebra
sublinhada de vermelho

Era uma mulher leve de cabeça emplumada
a inspirar a gradação no homem
e a pedir que soletrasse a cor do sexo
E ele a compreender tudo
e a retirar uma dioptria excessiva
para explicar o peso tremendo
dos olhos num alfabeto anguloso
cheio de figuras angustiadas
e polígonos manchados de sémen

Mas a mulher discorria pela sala cheia de imprudência
subia à tona e desaparecia com as mãos lúcidas
gravadas na cordilheira do homem intumescido
Separava o corpo do corpo e interrompia a tradução
quando ele se inclinava para aclarar os cabelos

E o homem gelado pela insuportável suavidade
daquelas sílabas a repousar os olhos dentro dela
a procurar o lábio no sangue ofendido
e a sucumbir como figos secos em Dezembro

***

A ABOLIÇÃO DAS FRONTEIRAS

As fronteiras eram belas
cheias de mulheres fardadas
de cores fortes e madeixas imperativas
que ansiavam por ser atravessadas
Fronteiras solenes quando cobertas de frio
no aperto da multidão
como trincheiras forradas a papel em triplicado
e semeadas de vida em trânsito

Eram fábricas de nacionalidades
com carimbos espalhados pela periferia
em linhas acidentais entre as montanhas
Eram a máxima descentralização de um estado
a exterioridade até às costuras
para conter a implosão do território
Essas mulheres a desfiar um sorriso de vidro
e a ordenar um amor impuro aos expatriados

[in Cartas de Praga, Clube Português de Artes e Ideias, 2012]

‘Cloud Atlas’ no grande ecrã

Já foi divulgado o trailer, invulgarmente longo, da adaptação cinematográfica que os irmãos Wachowski e Tom Tykwer fizeram do romance Cloud Atlas, de David Mitchell:

Acho que se percebe a expectativa toda em volta do filme, com estreia marcada para 26 de Outubro, nos EUA. Por estas primeiras imagens, das duas uma: ou é uma obra de génio, ou uma monumental pepineira.

Notícias de uma morte exagerada

A do livro: «Every generation rewrites the book’s epitaph; all that changes is the whodunit

O que aí vem (Saída de Emergência)

As Aventuras de Hornblower, de C.S. Forester; O Mistério de Charles Dickens (volume 2), de Dan Simmons; O Diabo do Rio, de Patricia Brigs; Anjo Sombrio, de Cinthia Hand; O Rei Veado, de Marion Zimmer Bradley.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges