O que aí vem (Ahab)

Os cães de Tessalónica, de Kjell Askildsen; Postais de Inverno, de Ann Beattie.

Dilemas de um trânsfuga

Os Sítios Sem Resposta
Autor: Joel Neto
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 192
ISBN: 978-972-0-04402-0
Ano de publicação: 2012

Em Os Sítios Sem Resposta, Joel Neto parte de uma premissa tão absurda que se torna perfeita para o exercício da ficção. E se um belo dia um sportinguista dos quatro costados decidisse mudar de clube, ainda por cima para o maior rival (o Benfica)? É precisamente isso que acontece a Miguel João Barcelos, agente de seguros que, nas suas próprias palavras, se transformou num «cliché urbano»: um divorciado abúlico, desprendido e cínico, capaz de jantar pipocas em frente à TV quase todos os dias e habituado à solidão (até ao dia em que uma misteriosa mulher o converte em gigolô involuntário). A abstrusa mudança de clube surge como uma espécie de desafio à lógica da «última imutabilidade do homem português» e corresponde a uma «incontrolável necessidade de mudar de pele, de metamorfosear-me em alguém diferente». Miguel quer desligar-se do homem falhado que vê no espelho, perdido no caos da sua vida afectiva, tanto amorosa como familiar. Se conseguisse o impossível (mudar de clube), o resto (tornar-se uma pessoa melhor) viria por arrasto.
Sob a capa de um desprendimento em relação às coisas do mundo e aos aspectos mais ridículos das existências alheias, Barcelos é um nostálgico preso à pureza do passado – o mundo da infância feliz, em São Bartolomeu dos Regatos, ilha Terceira, quando um velho portão de madeira se transformava numa «óbvia e milagrosa baliza de futebol» –, um passado mítico que só torna mais triste a realidade de um presente enfadonho e medíocre. O futebol de hoje, por exemplo, dissecado ao milímetro nos programas de debate em que se repetem dezenas de vezes, em câmara lenta, os lances mais polémicos, já não lhe interessa quase nada. Para ele, o futebol «era o dos golos de bandeira e dos penáltis roubados, dos festejos pela noite dentro e das zangas à segunda-feira de manhã», um futebol que albergava «a mais delirante euforia e a mais miserável angústia», em que «cabiam a gritaria, a sede de vingança e a matreirice». É por isso que cedo pressentimos que a lenta e progressiva conversão futebolística de Barcelos (que vai quase ao ponto de se tornar sócio do SLB) não passa de um logro à espera de um desenlace catártico, um gesto final que reponha tudo nos seus devidos lugares.
Com prosa escorreita e recursos de cronista (sentimental nas passagens açorianas; mordaz na crítica das modas lisboetas), Joel Neto assina um romance fluido e sem pontas soltas, em que o futebol é só o pretexto para falar de coisas muito mais essenciais, como a amizade ou o amor entre pai e filho (assente na linguagem cúmplice da devoção clubística).

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Pedro Rosa Mendes “transfere-se” para a Tinta da China

Depois de a Porto Editora se ter reforçado com um dos melhores escritores portugueses da actualidade (Mário de Carvalho), eis que a Tinta da China desvia outro craque do grupo LeYa. Segundo o Público, Pedro Rosa Mendes, autor publicado até agora pela Dom Quixote, vai mudar-se de armas e bagagens para a editora de Bárbara Bulhosa, onde já sairá o seu próximo romance, O Julgamento do Morto, mais uma vez de temática política, «sobre a Guiné-Bissau e as traições aos sonhos da independência».

The Moby Dick Big Read

Eis um belíssimo projecto: desde 16 de Setembro, este elegante site está a oferecer o download diário de um capítulo, em ficheiro áudio, de Moby Dick, esse «great american novel» que é a obra-prima de Herman Melville. Durante 135 dias, teremos 135 vozes diferentes, quer de actores famosos (como Tilda Swinton ou Stephen Fry), quer de anónimos. Cada leitura é acompanhada pelo trabalho conceptual de um artista plástico.

‘Escritaria’ 2012 homenageia António Lobo Antunes

Entre 26 e 28 de Outubro, Penafiel receberá a quinta edição do festival literário Escritaria, este ano dedicado a António Lobo Antunes, que verá o seu último romance (Não É Meia Noite Quem Quer, Dom Quixote) ser apresentado por Ana Paula Arnaut. Como nas edições anteriores, em que foram homenageados Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís e Mia Couto, haverá teatro, arte de rua, colóquios e inúmeras actividades em torno da obra de Lobo Antunes.

Novo site da Assírio

O site oficial da editora Assírio & Alvim foi reformulado. Está mais simples e funcional, com bons destaques e navegação fácil. Destaque para a secção ‘Poemário‘, onde será colocado um poema novo todos os dias.

Feira do Livro de Poesia e BD

Livros de poesia, banda desenhada, revistas literárias, fanzines, livros de teatro. Todos os sábados. Em Campolide. Organização de Inês Ramos.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O Banquete, de Patrícia Portela (Caminho), por José Mário Silva
Todas as Palavras – Poesia Reunida, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
1493, de Charles C. Mann (Casa das Letras), por Luís M. Faria
Os Primos da América, de Ferreira Fernandes (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
Ninguém disse que isto ia ser fácil, de Paulo Farinha (Clube do Autor), por Nelson Marques
– Escolhas de Bruno Margo

Jornadas Llansolianas

É já no próximo fim-de-semana. Mais informações aqui.

Microficção no Facebook

Foi criado há cerca de seis meses e tem 200 pessoas inscritas (embora apenas 30 escrevam regularmente). Eis o Grupo de Escrita de Microficção criado no Facebook por Óscar Enrech Casaleiro. A qualidade é desigual, como seria de esperar, mas no meio de esforços banais encontram-se alguns fragmentos bons e até uma pérola ou outra. Vale a pena passar por lá.

Bibliotecário de Babel goes to Washington

Entre 22 de Outubro e 7 de Novembro estarei na capital dos EUA, a frequentar um curso intensivo de jornalismo na Universidade de Georgetown e a assistir in loco à reeleição de Barack Obama (espero bem). Vão ser duas semanas memoráveis, talvez com um saltinho a Nova Iorque pelo meio. Na medida do possível, manterei a actividade do BdB e procurarei fazer um diário americano, provavelmente na linha do blogue de viagem que o Luís Ricardo Duarte, jornalista do Jornal de Letras, empreendeu por estes dias.

Um palimpsesto incompleto

Sandokan & Bakunine
Autor: Bruno Margo
Editora: Teorema
N.º de páginas: 183
ISBN: 978-989-698-000-9
Ano de publicação: 2012

Na ficção portuguesa recente, é notória uma quase completa ausência de risco narrativo. Se olharmos para a maioria dos romances publicados nos últimos dez anos, encontramos estruturas clássicas ou razoavelmente lineares. Livros capazes de experimentalismos e audácias metaficcionais contam-se pelos dedos. Temos Alexandre Andrade, Patrícia Portela, Luís Rainha, Joana Bértholo, José Luís Peixoto (nalguns contos e na segunda parte do romance Livro). Pouco mais. A este grupo de ficcionistas que ousam, mesmo se com resultados díspares, fugir aos modos tradicionais de contar uma história, junta-se agora Bruno Margo.
Sandokan & Bakunine é um romance sobre os limites ténues que separam a realidade da ficção; ou, melhor dizendo, sobre a inevitável canibalização da primeira pela segunda. No capítulo introdutório, deparamos com a suposta história verdadeira por trás do romance. Exasperada pela relação patológica que o marido mantém com o texto que está a escrever e reescrever, num processo «que parecia não ter fim», a mulher do narrador simula o roubo do computador portátil e coloca o livro online. Depois, sobre esta obra inacabada escrevem-se comentários, artigos e outros livros. Quando o narrador é por fim convencido a publicar, em papel, o texto entretanto retirado da net, esses «comentários, cartas, notícias e críticas» são adicionados em notas de rodapé, passando a fazer parte do corpo do romance, que assim leva a cabo a sua própria exegese.
Estamos, como já se percebeu, diante de um objecto literário com várias dimensões sobrepostas. Na base, temos a história das férias de Artur, um adolescente asmático e dado à fantasia, em Agosto de 1985, numa estância balnear agitada pelo desaparecimento misterioso de uma rapariga. Há depois toda uma série de narrativas que emanam da difícil relação de Artur com a realidade: as aventuras de Brandon Aston Barrow, um explorador irlandês na Papua-Nova Guiné, cujos diários o rapaz lê sofregamente; projecções (um detective-samurai imaginário, mas capaz de desvendar um crime real); sonhos; conjecturas; e velhas histórias de família, como a da tia Lurdes, que inventou toda uma viagem até aos Alpes, «sugerida» por um autocolante numa mala (narração a preto-e-branco, porque da «informação sobre comboios, clima, gastronomia e até trajes tradicionais da Suíça» só constavam fotos «desprovidas de cor»). Curiosamente, a tia abstivera-se de «imaginar, por exemplo, a cor das flores à entrada do hotel e, contudo, não sentira pudor em mentir sobre tudo o resto».
Mais do que sob o espectro da mentira, ou da falta de verosimilhança, Sandokan & Bakunine avança numa corda bamba, como se fizesse questão de mostrar a sua instabilidade. Sem aviso, as linhas narrativas irrompem subitamente umas das outras e sobrepõem-se. O resultado é um palimpsesto fascinante mas por vezes confuso, ambíguo, cheio de simbologias e ecos. Como assinala um dos vários comentadores exteriores à narrativa, os vários elementos do romance «geram um encadeamento de histórias sem fim, organizado como um puzzle incompleto, e isto porque, mesmo quando encaixadas umas nas outras, as peças, se observadas em conjunto, não parecem construir uma imagem com sentido”. Mas provavelmente o sentido é mesmo esse: o da inevitável incompletude de qualquer esforço humano.
Há momentos em que Margo se perde um pouco neste sofisticado labirinto, e nós com ele. De tão trabalhada, a prosa chega a parecer solene. Mas logo irrompe a ironia, o delírio, a dissonância, um humor retorcido. E uma inteligência literária que dá solidez às ideias mais esquivas, mais fugidias. Este é um livro sem medo de se questionar, consciente tanto dos seus rasgos como das suas imperfeições. Tivessem todos a coragem de se olhar, assim, ao espelho.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Assírio & Alvim)

Estação Central, de José Tolentino Mendonça; Concerto Interior, de António Osório; Teoria da Heteronímia, de Fernando Pessoa.

Revista ‘Colóquio’ com novo site

Do press-release enviado pelos serviços da Fundação Gulbenkian:

«Os 61 números da revista Colóquio, Revista de Artes e Letras (1959-1970) vão ficar disponíveis em versão digital a partir de 24 de setembro, num site precioso para todos os investigadores, nacionais e estrangeiros. Nas suas páginas podem encontrar-se textos de praticamente todos os grandes nomes do ensaio, da crítica, da arte e da literatura da segunda metade do século XX.
Em 1970, a revista seria desdobrada em duas publicações: Colóquio/Artes e Colóquio/Letras.
No primeiro editorial da Colóquio, Revista de Artes e Letras, pode ler-se: «Não são os iniciadores que justificam a necessidade e a utilidade de uma revista, artística ou literária, ou fazem a sua fama, mas sim os seus colaboradores e a continuidade e regularidade da sua publicação. / Lançando esta revista — Colóquio —, a Fundação Calouste Gulbenkian julga concorrer com mais um poderoso instrumento para a realização dos seus fins culturais na sociedade portuguesa. Assim se procura continuar a cumprir, sob mais uma modalidade, o pensamento do Fundador, que soube em vida — e quis que a sua obra continuasse após a morte — fomentar iniciativas ou auxiliar empreendimentos susceptíveis de dilatar as fronteiras do espírito humano.»
Aquilo que desde o início definiu o projeto de Colóquio foi a diversidade e a pluralidade de abordagens «sem dependência de escolas, de sectarismos ou de proselitismos», procurando afirmar-se como «um espelho da sociedade do nosso tempo». A revista dedica ensaios a todas as áreas da Arte e da Literatura, não exclusivamente portuguesas. Mas se há que encontrar matéria de base para uma história da arte em Portugal, desde o lado mais conservador, passando pelos movimentos modernistas (sobretudo a obra de Almada e o surrealismo), até aos artistas que se revelam na década de 60 do século XX, é nesta revista que ela se manifesta.»

O novo site pode ser consultado aqui.

Três poemas de Catarina Barros

KAIROS

Não é ainda amor, amor
como Heródoto na refeita iteração da história
‘délicieux': um pequeno-almoço em visita
ao inverno do descontentamente alheio

Ao meu lado a tribo francesa
tece loas ao pastel de nata
enquanto o mais pequeno enfia num dente
o dedo universal

e não é ainda amor, amor
deitar-me lavada, olhar-te de lado, falar-te de ti
‘super’

Ensaiámos a vida cumprindo
um por um os erros filiais (por vezes
ao fundo: «the pirate gospel» e a mãe numa carta
desaconselhando tudo)

mas não pudemos esperar o ‘kairos’
um clássico para momento certo
metidos no trânsito de Copenhaga (ou
de Campo de Ourique)

porque não é ainda amor
mesmo que lembremos o que nunca se esclarece
uma letra em singular iluminura
uma seta para alvo nenhum

TRIVIALIS

Porque a diegese não começou esta manhã
depois do cigarro à janela, quando lhe pedi
que a mim voltasse

Façamos o esforço de inverter a marcha
atravessando de novo a estepe desta dificuldade
e perscrutar (haverá palavra mais difícil?)
alguma espécie de princípio

Partindo de um astro muito quente
acharemos finitude nos vincos de um lençol
o tempo todo-coração nunca foi matéria
nas lições de História e Geografia de Portugal
nem o bordel do porvir admite reis e costureiras

Ao atributo etimológico do título nada corresponde
sou noviças e gratuita em tempo de delírio
(o topless no pátio é a recompensa por tudo isto)
luminosa afogada que rouba à fome sentido
histórico nenhum

Pois que não haja mais que uma referência
que se inaugura e se repete
(Atlântida, Poseidon, Walt Disney) ou que para trás
vá sempre dar ao soalho da concepção
sobram ‘snapshots’ de um verão em verso livre
a proto-geografia biográfica, toda uma profecia
por abjurar

HOW TO BE ALONE

não foi em Kalkbreite nem sequer em Lochergut
mas na Zähringerstrasse, junto à biblioteca. vinha
de uma dessas avenidas que há em todas as cidades
onde lojas de moda convivem com livrarias, casas
de chocolates e um grupinho de punks

na memória uma ideia de pássaro, meu atributo
e uma gratidão quase solene

à minha volta os homens pousavam no lugar vazio
da imaginação e eu olhava, nunca mais de três segundos
a fim de manter o anonimato

a felicidade era as palavras de um poeta
no balcão da despedida: «a Dickinson tem um verso
sobre Zurique e não é triste»

era a Europa de ipod nas orelhas, era eu peninsular
agora ilha desconsolada com aquele livro ‘compelling
and invigorating’ (cf. Times), no fundo, era
essa missa de corpo presente onde nenhum
pater me levava pela mão

rapariga sem flor na transparência da língua

[in Quinteto, Artefacto, 2012]

O grande navio da melancolia

Fórmulas de uma Luz Inexplicável
Autor: Nuno Júdice
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 109
ISBN: 978-972-20-5025-84
Ano de publicação: 2012

No seu novo livro de poemas, Fórmulas de uma Luz Inexplicável, Nuno Júdice volta a deambular, com a habitual proficiência, por algumas das suas obsessões temáticas: a lírica amorosa; o «pensamento queimado pela memória»; as argumentações lúdicas; a autoconsciência poética; os exercícios eruditos; a aproximação irónica à realidade. A facilidade enunciativa e os amplos recursos estilísticos permitem ao poeta escrever sobre praticamente tudo, em vários registos, o que nem sempre favorece a consistência e equilíbrio do livro como um todo. Resultado: neste volume deparamos mais uma vez com poemas dispensáveis (repetitivos ou redundantes), embora em menor número do que na obra anterior (Guia de Conceitos Básicos, 2009).
Esta é uma escrita atenta às limitações e ambiguidades da linguagem: «Procuramos o sentido. Andamos às voltas. Por / vezes, aparece um significado, mas tudo é vago, / como se as palavras já não dissessem o que / dizem». Ao mesmo tempo, reafirma-se o poder transfigurador da imaginação, que permite a metamorfose súbita de uma rua num «imenso campo», com searas a ocupar o asfalto e a trazer para o meio da cidade os camponeses do Angelus de Millet. «O que vemos oculta o visível; e o que não / vemos revela o que podemos adivinhar», resume Júdice.
Os melhores poemas são os que recuperam uma «infância antiga», a partir de evocações nostálgicas, despertadas pela visão de um «coreto vazio» numa praça de província ou pela imagem da mesa à volta da qual se reunia a família. Há ainda casas carregadas de tempo, figuras extintas que só existem numa «caixa de fotografias», lugares que mudam ou desaparecem, histórias de desencontro, acasos que criam bifurcações e desvios cruciais nas nossas vidas. Júdice também brinca em quadras rimadas (Almoço Cosmopolita) e compara a angústia de Schopenhauer com a de Sartre ou o Fernando Pessoa de Mensagem com o Oscar Wilde do De Profundis. Mas o que passa no horizonte é sempre o «grande navio da melancolia», naufragando com os «porões esvaziados do seu lastro de frases».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista exclusiva para Portugal com Salman Rushdie, autor de Joseph Anton – uma memória (Dom Quixote), por Clara Ferreira Alves
Sandokan & Bakunine, de Bruno Margo (Teorema), por José Mário Silva
Great Jones Street, de Don DeLillo (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
Os Diários Secretos, de Camilla Läckberg (Dom Quixote), por Luís M. Faria
Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, de Mário de Carvalho (Porto Editora), por Pedro Mexia
Cartas Familiares, de Almeida Garrett (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por Hugo Pinto Santos
– Escolhas de Marta Lança

Primeiros parágrafos

«Morar numa cidade acidentada pode ser divertido quando se é novo e rampas e ladeiras convocam os músculos juvenis ao exercício. Mas, à medida que a idade declina, aplica-se a cidade a lograr os velhos. E sempre que eles retomam o fôlego no fio das esquinas, oferece-lhes ela mais caminho, tropeços e cansaços, como se os punisse por insistirem nos dias.
Não é que o víuvo Zoltan Tremlich, com a idade, tivesse passado ao estado de ingratidão, com respeito à casa ampla, soberanda de vista sobre a enseada, legado tardio duma parente longínqua. Mas começava a ter pena de que a falecida tia, que não era, aliás, uma bondade de mulher, lhe não houvesse antes deixado em testamento um modesto rés-do-chão na Rua dos Lojistas, perto do cais e da praça, sobretudo do Clube dos Valetes de Paus, onde não era desagradável entreter umas tardes de doce subalternidade.»

[in O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, de Mário de Carvalho, Porto Editora]

No dédalo da ficção

Na génese de Sandokan & Bakunine, o romance com que Bruno Margo se estreia na literatura, aos 39 anos, está um falhanço cinematográfico. Formado em Ciências da Comunicação, variante de Cinema, Margo trabalhou durante algum tempo como assistente de realização e guionista. Em 2004, resolveu fazer um filme, uma curta-metragem intitulada A Árvore. Sem subsídios do ICAM (actual ICA), decidiu avançar com o seu próprio dinheiro e algum emprestado. Opção de risco, porque um passo em falso equivalia a perder tudo: o investimento, o tempo, a possibilidade de tentar de novo. Embora profissional, a equipa trabalhou quase toda de borla, dos maquinistas aos iluminadores. «O problema é que eu tinha de coordenar tudo. Era realizador e produtor. Não funcionou bem. Sobretudo a direcção de actores, que foi péssima.» Ao perceber que era impossível salvar o filme, Bruno desistiu: «Nem sequer terminei a montagem.»
Fechada a porta da realização, Margo virou-se para a escrita de guiões. Um deles foi Sandokan & Bakunine. Só que «em Portugal, como não há uma indústria a sério, ou eu fazia o filme ou ninguém pegava nele». Ocorreu-lhe então que a única forma de a história ver a luz do dia era sob a forma de romance. «Pensei: bem, se isto vai ficar na gaveta, sempre posso tentar fazer qualquer coisa a partir deste material.» Com o apoio da mulher («que me sustentou, e sustenta, para eu poder escrever, e merece sem dúvida um lugar no céu»), lançou-se à transformação romanesca. Da ideia original, sobrou pouco. «Não mais do que o esqueleto: as férias do Artur, os encontros na praia.» Começaram então a sobrepor-se vários planos narrativos, interligados numa estrutura complexa. «Este romance, no fundo, são vários romances.» Há, por exemplo, uma dimensão que consiste na crítica e exegese do próprio texto, feita através de profusas notas de rodapé. «Eu sei que não é um dispositivo original, mas interessou-me explorar a ideia do livro que faz o comentário de si próprio. Quando encontrei um caso desses, em Pinóquio: um livro paralelo, de Giorgio Manganelli (Cavalo de Ferro), fez-se um clique na minha cabeça. Era a porta que se abria para eu ironizar, para não levar demasiado a sério o projecto ficcional.»

Bruno Margo nunca escrevera, antes de Sandokan & Bakunine, um único texto literário. Por isso mesmo, o romance acaba por ser o palco de uma espécie de iniciação e da luta pela conquista de uma voz, não escondendo as marcas desse combate. «O livro é o espelho de um processo de aprendizagem, o meu processo de aprender o que é a ficção e a própria escrita.» A forma labiríntica e não-linear reflecte, por exemplo, o modo como o autor pensa, raciocina e comunica com os outros. «Eu estou sempre a fazer parêntesis na conversa, e parêntesis dentro dos parêntesis, e a abrir janelas na minha cabeça.» Algo que comprovámos durante a entrevista com o EXPRESSO, numa das esplanadas do Terreiro do Paço, sob um céu crepuscular. Se fosse transcrita no formato habitual de pergunta e resposta, o leitor dificilmente encontraria o fio à meada num discurso fragmentado como um puzzle.
À medida que aprendia os mecanismos da escrita pela prática, «fazendo e desfazendo, fazendo e desfazendo», Margo construiu um labirinto, fechou-se lá dentro, e houve momentos em que não soube se seria capaz de lá sair. O narrador de Sandokan & Bakunine tem uma «relação patológica» com o seu texto, porque não o consegue terminar. «Arrisquei-me a cair nesse inferno. Fiz versões atrás de versões, cortes e mais cortes, revi, revi, revi. Podia ir por esse caminho até ao infinito.» A dado momento, Margo quis publicar. Enviou o livro para uma dúzia de editoras, mas só a Caminho teve a gentileza de uma carta de recusa. Não deixando de trabalhar em sucessivas versões, tentou depois o Prémio LeYa, também sem sucesso. Já em desespero de causa, pensou entregar o manuscrito em mão ao escritor António Lobo Antunes: «Eu naquela altura morava perto, no Conde Redondo. Ia para o café em frente à casa dele, ficava a ler o jornal durante horas, a ver se o via sair à rua. Outras vezes passava de carro por ali, na esperança de o encontrar. Parecia um detective privado. Felizmente, não deu em nada. Caí na razão. Percebi que era um completo absurdo. E desisti.»
Antes de arrumar definitivamente o romance na gaveta, Margo ainda pensou em disponibilizá-lo online. Afinal de contas, essa é uma das linhas com que o livro se cose: alguém rouba o romance inacabado do narrador e coloca-o na internet. «Mas depois pensei que estava a perder demasiado tempo e preferi dedicar-me a outra coisa, começar um projecto novo.» Nessa altura, já vivia em Itália, na pequena vila de Cadrezzate, perto de Ispra (junto ao Lago Maggiore), onde a mulher, Paula, faz o doutoramento no JCR (Joint Research Centre) da Comissão Europeia. Sem distracções, «muitas vezes isolado numa paisagem coberta de neve», continuou a escrever coisas novas e a reescrever Sandokan & Bakunine.
Foi então que entrou em cena Maria do Rosário Pedreira. Tendo tido acesso aos finalistas do Prémio LeYa, a editora, que lançou alguns dos principais romancistas sub-40 portugueses, contactou-o. Ao qualificar a relação de trabalho que estabeleceram, Margo não poupa nas palavras: «Uma maravilha. A Maria do Rosário nunca impôs nada, embora tivesse autoridade para o fazer. Deu-me aquilo de que eu precisava: um outro olhar, crítico, atento, esclarecedor. Dizia-me: ‘isto não percebo, esta passagem não é clara.’ Ajudou-me a estabelecer uma relação com a realidade.» As sucessivas versões foram encurtando o texto final: «só desde Janeiro, perdeu oito mil palavras em 56 mil».
Neste momento, Bruno Margo está a escrever o segundo romance, também ele desenvolvido a partir de um guião. «Ainda não está muito estruturado na minha cabeça. Posso dizer que a personagem principal é a cidade de Lisboa. E sei que há muitos erros cometidos no primeiro livro que não voltarei a cometer.» Embora pareça pseudónimo, Margo é um apelido verdadeiro, herdado da mãe. «Gosto do som. Além disso, a alternativa era usar o do meu pai: Alves. E talvez não fosse boa ideia assinar o romance com nome de futebolista.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Bertrand)

O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon; A Nova República, de Lionel Shriver; A Segunda Guerra Mundial, de Anthony Beevor; Sua Santidade, de Gianluigi Nuzzi; Imperatriz Isabel de Portugal, de Manuela Gonzaga; e A Livreira Anarquista (recolha de posts da Livreira Anarquista).

Enclaves de desespero

A Ilha de Caribou
Autor: David Vann
Título original: Caribou Island
Tradução: José Lima
Editora: Ahab
N.º de páginas: 305
ISBN: 978-989-97228-5-9
Ano de publicação: 2012

Em A Ilha de Sukkwan, David Vann narrou uma daquelas histórias que perduram muito tempo na memória de quem as lê. Num canto isolado do Alasca, onde só se chega de hidrovião, pai e filho fazem um pacto de sobrevivência, fechados numa cabana, preparando-se para o Inverno, até que a tragédia empurra um deles para o suicídio e o outro para o abismo da dor, culminando na dissipação física e mental. A essa novela intensa, de escrita poderosa, retirada do primeiro livro de ficção do escritor norte-americano, Legend of a Suicide, segue-se agora o primeiro romance – A Ilha de Caribou – igualmente editado pela Ahab. São muitos os pontos de contacto entre os dois textos, nomeadamente o tom da prosa e a forma como Vann recorre a extraordinárias descrições da paisagem ou da fúria dos elementos para sugerir o estado emocional das personagens.
A narrativa volta a centrar-se num par, desta vez um casal que em vez de ocupar uma cabana a precisar de obras (como o pai/filho de Sukkwan) decide construir uma nova, de raiz. E é nesse momento que começam os problemas. Face à obstinação de Gary, decidido a mudar-se a todo o custo para o meio do nada, Irene questiona um casamento com mais de três décadas, suspeitando que o projecto insensato do marido há-de ser o primeiro passo para a deixar. Logo na viagem de barco inicial, sob uma tempestade bíblica, ela percebe que os troncos «nunca hão de encaixar uns nos outros», como compreenderá, mais tarde, que a casa em construção é uma «espécie de metáfora» da vida em comum: «se eles pudessem pegar em todas as suas existências anteriores e pregá-las umas às outras, juntar aquilo que eram há cinco anos àquilo que tinham sido há vinte e cinco, talvez conseguissem ter a sensação de alguma coisa de sólido». Ora solidez é tudo o que falta à cabana e ao próprio Gary, incapaz de planear as coisas, mau construtor, um «campeão do arrependimento» que não se perdoa ter abandonado uma tese de doutoramento em estudos medievais, na universidade de Berkeley, para se enfiar ainda novo no Alasca, esse «lugar de exílio», destino dos que «não se sentiam bem noutro sítio», território hostil com cidades pequenas e provincianas, «enclaves de desespero» onde as pessoas se deixam encurralar na sua própria mediocridade.
Enquanto o casal se entrega a uma lenta auto-destruição (só acelerada pelo colapso nervoso de Irene, incapaz de dormir devido a umas misteriosas enxaquecas sem aparentes causas médicas), vão surgindo histórias paralelas: a de Rhoda, filha mais velha e mais próxima, assistente veterinária que sonha casar com Jim, o namorado dentista; a de Jim e a sua traição a Rhoda, prenúncio de infidelidades futuras; a de Mark, o filho mais novo, um caso perdido; a dos amigos de Mark; etc. Tudo personagens falhadas ou em vias de falhar. Protagonistas de misérias banais e quotidianas, retratadas por David Vann com a mesma minúcia descritiva que aplica a uma faina de pesca ou ao processamento de salmões numa fábrica de conservas.
À medida que o Outono avança, trazendo o frio, a neve e o gelo, cresce a tensão entre Gary e Irene, torna-se mais nítida a impossibilidade do sonho dele, mais profundo o esgotamento dela, mais concreta a aproximação ao lado negro da experiência humana. O leitor que se prepare para um sobressalto, um soco no estômago, não a meio da narrativa (como sucedia em A Ilha de Sukkwan), mas no assombroso desenlace, essas páginas finais de uma beleza absolutamente terrível e sem esperança, que nos atordoam e nos perseguem.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Poemas da Foz do Cobrão

No dia das grandes manifestações que varreram o país, com centenas de milhares de pessoas a saírem à rua contra o estado das coisas e o sufoco da austeridade, a Margarida Vale de Gato, o Jaime Rocha e eu deambulámos pela aldeia de Foz do Cobrão, no concelho de Vila Velha de Ródão, a convite da Biblioteca Municipal e da sua principal dinamizadora, Graça Batista. À tarde, numa casa que em tempos foi uma escola primária, partimos do poema de Ruy Belo que o Jaime Rocha encontrou por acaso naquela manhã (num marcador, dentro de um livro de Paul Celan) e cada um escreveu uma aproximação a O Portugal Futuro.
Eis a da Margarida Vale de Gato:

O senhor por exemplo o que é que o leva a participar numa manifestação numa tarde
tão quente?

Era ontem um peixe sufocado o meu país,
hoje súbito tanta gente buscando brilho de água
que se move

Não sei onde fica, não é um lugar no mapa
É um espaço na boca com sede da gente

numa tarde a mover-se com muito calor, o meu país
Um peixe, um sítio pouco evidente,

ou corpo
exangue, coalho, desabituado de saber

como se juntam os membros, respira-se aqui
com dificuldade, desenvolve-se vocação de submerso

Precisamos de ar
que é uma pergunta a que não se teria de responder logo
porque de princípio devia haver em toda a parte
como O que faremos nós?

O que havemos de fazer
com este peixe? Peixe era cristo e repartiu-se
para se tornar maior – disseram-me que isso era amor
mas eu não sei se creio
De manhã lembrei-me de um país para todos
onde no interior voltassem a crescer crianças
a arregaçar as fraldas das velhotas, esta tarde na TV parece
que meu país é mais que peixe, mas não vou chamar-lhe frota nem mar
pois basta hoje a poesia dos fenómenos pouco óbvios
de quando se juntam pessoas e há sempre alguma coisa,
acontece

Eu fiz este:

Da forma breve desenhada
– peixe, pássaro, pequeno país –
não guardar mais do que o sobressalto,
o desmanchar do tempo
que nos desmancha,
a fúria infantil do giz nos dedos.
O negro asfalto impenetrável
devora até a luz do verão
imaginado um dia, à sombra
da ideia mais vaga de futuro.
Como desinclinar
as vozes
curvadas pela incerteza
é o que não sabemos.
Mas os dias
abrem-se
ao espanto,
como sempre se abriram,
têm degraus infinitos,
corrimões, ângulos agudos.
A grande corola das possibilidades
só se encolhe quando ficamos quietos.

Do poema do Jaime Rocha não tenho registo porque ele escreveu-o à mão, num caderno.
Depois desta primeira fase, decidimos fazer um poema que nos aproximasse das imagens e ideias dos poemas escritos pelos outros dois participantes.
Eis o resultado:

Poema a partir de Jaime Rocha e de José Mário Silva a partir de Ruy Belo

Sobressalto.
Desmanchar do país, do tempo
à sombra da ideia mais vaga
onde faz ainda escuro.
Desinclinadas as vozes
um peixe agoniza

Agoniza no duro asfalto um país pequeno,
está virado para as casas e esquece
que tem sombra para o mar e faz calor na rua

E pessoas a quem acontece
querer terminar a sede do espaço na boca
aberta neste dia as vozes
desinclinadas
Onde no interior faz a criança a descoberta
do peixe e de um cântico ainda inseguro
a descompasso de degraus
e de um inteiro futuro.

Margarida Vale de Gato

Poema a partir de Margarida Vale de Gato e Jaime Rocha, a partir de Ruy Belo

Inventamos espaço na boca
para fenómenos pouco óbvios,
como as palavras que nos levam
para dentro da multidão, entre
outras formas subtis de desenvolver
a vocação de submerso.
À sombra dos crimes inesperados,
reivindiquemos a dança
no cimo das árvores, a beleza
áspera de um sítio pouco evidente.
No brilho de água que se move
o país é um peixe de guelras abertas,
a respirar com dificuldade,
brilhando à luz do asfalto
que arde na noite,
um peixe que lá
nas alturas decifra,
desenhado a giz, o contorno
da sua vocação de pássaro.

José Mário Silva

Mais uma vez, não posso partilhar aqui o poema escrito por Jaime Rocha, porque ficou no seu caderno manuscrito. E foi nesse caderno manuscrito que começou a nascer o poema colectivo com que quisemos manifestar-nos à distância:

Poema ingénuo comprometido
15 de Setembro 2012

O que é um país à procura de futuro?
Coitado de um país que procura um futuro
e só encontra muros e cinza.

Um país sem luz, sem geografia,
com uma mágoa metida no tronco.
Um país doente que rói os ossos
e bebe água por um tubo pequeno.
Um país invadido por um deserto,
sem palavras, um país final.

O que é um país à procura de futuro?
Um país que se levanta inteiro
numa tarde quente.

Alguém disse: «Se tivessem ficado em Lisboa, seriam apenas mais três numa manifestação gigantesca. Pelo contrário, a vossa presença em Foz do Cobrão vai ter um impacto muito mais importante e duradouro.» Olhando para a sessão pública de leitura e apresentação do projecto, que reuniu mais de 40 espectadores (numa aldeia com 49 habitantes), é capaz de haver alguma verdade nesta afirmação. O tempo o dirá. Indiscutível foi a gentileza e extraordinária hospitalidade de todas as pessoas de Vila Velha e de Foz do Cobrão. Sentimo-nos, os três, em casa. E tão depressa não esqueceremos os dias magníficos que ali passámos.

Fonte de inspiração

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Bruno Margo, autor de Sandokan & Bakunine (Teorema), por José Mário Silva
Tanto Mar, de Pedro Adão e Silva (Clube do Autor), por Ricardo Marques
A Economia dos Pobres, de Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo (Temas e Debates), por Virgílio Azevedo
Eu Sou Bolaño, de Celina Manzoni (Clube do Autor), por Carlos Bessa
Gosto Disto Aqui, de Kinsgley Amis (Quetzal), por Pedro Mexia
– Escolhas de Pedro Piedade Marques

Jogos de Ícaro

Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar
Autora: Alison Bechdel
Título original: Fun Home – A Family Tragicomic
Tradução: Duarte Sousa Tavares
Editora: Contraponto
N.º de páginas: 239
ISBN: 978-989-666-084-0
Ano de publicação: 2012

Publicada em 2006, após sete anos de um minucioso trabalho de escrita e ilustração, a «tragicomédia familiar» de Alison Bechdel integra-se num subgénero das novelas gráficas: o que faz da autobiografia um exercício de investigação sobre o lugar do autor no mundo. Exemplos maiores são o monumental Blankets, de Craig Thompson (Biblioteca de Alice, 2011), e Persépolis, a obra-prima de Marjane Satrapi (Contraponto, 2012). Em qualquer destes casos, o relato da própria vida e das suas incidências, muito focadas na transição problemática para a idade adulta, permitia uma visão panorâmica de realidades sociais concretas. Thompson mergulha-nos na asfixiante atmosfera religiosa da América profunda (Wisconsin), difícil para um adolescente em crise de fé; enquanto Satrapi traça um memorável fresco da sociedade iraniana na década de 80, quando o fundamentalismo islâmico instaurou a sua lei (posta em causa pela rebeldia da jovem Marjane, num registo que oscila entre o humor corrosivo e a denúncia crua dos factos). Ao narrarem os seus processos de crescimento e libertação, tanto Thompson como Satrapi descrevem um movimento centrífugo (Craig perde o primeiro amor e sai de casa dos pais; Marjane instala-se na Europa, falha a adaptação, regressa à pátria, desilude-se, e parte de vez para França). Pelo contrário, o movimento descrito por Alison Bechdel em Fun Home é centrípeto, virado para dentro, fixando-se na procura de um sentido para a relação complexa entre a autora e o pai.
A cena inicial determina desde logo os termos desta relação. Deitado num tapete da sala, Bruce Bechdel sustém o peso da filha pequena com os pés, uma acrobacia a que se convencionou chamar «jogos de Ícaro». Ao equilíbrio precário e desconfortável, Alison contrapõe a alegria pelo «raro contacto físico» e estabelece a primeira de muitas inversões simbólicas que atravessam o livro: ao replicarem o mito de Dédalo e Ícaro, «não fui eu mas sim o meu pai quem se despenhou do céu». Esta queda consubstancia-se num acontecimento trágico: a morte de Bruce, atropelado por um camião. Sem ter elementos que o provem, Alison suspeita de suicídio. Havia duas semanas que a mãe lhe pedira o divórcio. E meses antes fora ela a fazer o coming out, anunciando por carta a sua homossexualidade. Um anúncio ofuscado pela revelação de que o pai sempre fora gay, mantendo relações secretas com alunos e outros rapazes. Enquanto ela afirma a sua identidade, mesmo antes de experimentar o sexo com mulheres, Bruce mostra-se incapaz de sair do armário – e Alison vê na tensão entre estas duas atitudes, tão díspares, um gatilho possível para o gesto fatal.
De certa forma, é em volta deste nó, desta dúvida, que o livro se organiza. Tanto a mãe como os irmãos ficam em segundo plano, são figuras apagadas, difusas, dando todo o espaço a Bruce e às suas idiossincrasias. Professor de inglês que herda uma agência funerária, obcecado pela decoração da casa vitoriana, ele cultiva uma «fria distância estética» que o desliga emocionalmente da família («tratava os móveis como se fossem filhos, e os filhos como se fossem móveis»), passando o tempo a ler, tal como Alison. É aliás nesse território comum, o da leitura, que a verdadeira comunicação entre os dois se dá, quer pela troca directa de livros, forma de expressar o que nos diálogos fica só implícito, quer pelo recurso a elaboradas referências literárias (Camus, Wallace Stevens, Proust, Scott Fitzgerald ou Joyce) que se entranham na estrutura do relato, iluminando-o.
Bechdel consegue uma coisa rara: o equilíbrio perfeito entre o texto – poderoso, de grande força evocativa, embora por vezes demasiado denso – e um trabalho gráfico que parece linear, mas na verdade é bastante complexo (repare-se na atenção maníaca aos detalhes, nos muitos planos que cabem numa mesma prancha, na integração orgânica de elementos reais: mapas, diários, fotografias). Sendo excelente o trabalho do tradutor, lamenta-se apenas que a aguada verde-cinza do original, com a sua «qualidade sombria e elegíaca» (nas palavras da autora), se tenha perdido pelo caminho.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

DFW pelo seu biógrafo

Durante esta semana, D. T. Max, jornalista que acaba de lançar uma biografia de David Foster Wallace (Every Love Story is a Ghost Story), escreverá uma série de posts sobre os «documentos e artefactos» com que se foi deparando ao investigar a vida do autor de Infinite Jest (A Piada Infinita, a publicar pela Quetzal em Novembro).

Já há shortlist para o Man Booker Prize 2012

Ei-la:

The Garden of Evening Mists, de Tan Twan Eng (Myrmidon Books)

Swimming Home, de Deborah Levy (And Other Stories/Faber & Faber)

Bring up the Bodies, de Hilary Mantel (Fourth Estate)

The Lighthouse, de Alison Moore (Salt)

Umbrella, de Will Self (Bloomsbury)

Narcopolis, de Jeet Thayil (Faber & Faber)

O presidente do júri, Peter Stothard (editor do Times Literary Supplement), comentou assim a escolha feita:

«After re-reading an extraordinary longlist of twelve, it was the pure power of prose that settled most debates. We loved the shock of language shown in so many different ways and were exhilarated by the vigour and vividly defined values in the six books that we chose – and in the visible confidence of the novel’s place in forming our words and ideas.»

A 16 de Outubro, o vencedor será anunciado no Guildhall (Londres). Até lá, como nos últimos anos, conto ler os seis finalistas. Ou seja: 1827 páginas. Aliás, 1700, porque já posso abater o livro de Deborah Levy à lista.

Primeiros parágrafos

«”Ouviu ruídos e, de súbito atento, procurou o lamento mecânico. Aproximou‑se do armário, desacelerando a passada, até que descobriu um inesperado silêncio. Depois, ao afastar os cabides, viu uma passagem.” Mas, perdoem a interrupção, este romance não começa assim. Aliás, o parágrafo nem é meu, transcrevi‑o de um jornal. A notícia mencionava que, ao constatar que a sua obra fora plagiada e repetindo aquelas frases sem cessar, um escritor agredira várias pessoas. E fiquei tão impressionado com o episódio que, mal iniciei esta obra, decidi precaver‑me e instituir uma rotina diária. Guardava o manuscrito num disco externo e, em seguida, escondia‑o numa caixa em forma de livro. Explicaram‑me mais tarde como, apesar de eliminar o ficheiro do computador, era possível recuperá‑lo, bastava ter as ferramentas apropriadas. Mas, infelizmente, foi tarde demais.
Passo a explicar: certa noite, Paula, a minha mulher, acordou‑me. Disse‑me que ouvira ruídos e quis que eu investigasse. Ao entrar no escritório, vi que a clarabóia estava aberta e o portátil
desaparecera. Era estranho não terem levado mais nada e, por momentos, admiti que buscavam o romance – de qualquer forma, estava a salvo, pensei.
Pouco depois, contudo, descobri que Sandokan & Bakunine se encontrava disponível na Internet. Soube‑o pelo meu editor, que se pôs a discorrer, com optimismo despropositado (julgo que me tentava acalmar), sobre o potencial daquele tipo de publicação. E quem sabe o que diria a seguir, levando a minha paciência aos limites, se não tivéssemos sido interrompidos.
A bateria do meu telemóvel acabara de se esgotar. Estava no carro com a família, prestes a iniciar a viagem de férias e sem forma de aceder à Internet. Além do mais, começara a chover, o que acrescentaria uma hora ao caminho. Ou seja, teria de esperar bastante até esclarecer as palavras do meu editor e, conhecendo‑me, sabia como era importante não antecipar hipóteses. Porém, a minha imaginação pôs‑se logo a fabricar conspirações. De maneira que, no momento em que perdi o controlo do carro, matutava ainda no telefonema.»

[in Sandokan & Bakunine, de Bruno Margo, Teorema, 2012]

O que aí vem (Companhia das Ilhas)

Uma Viagem Romântica a Moscovo, de Carlos Alberto Machado (poesia); Ephemeras, de Inês Lourenço (micro-histórias); A minha gata, de João Paulo Cotrim (micro-histórias); O papel de prata, o reflexo e outros contos pelo meio, de Nuno Dempster (contos); Picolândia, de Manuel Tomás (crónicas).

Poesia em Vila Velha de Ródão

De 14 a 19 de Setembro, a Biblioteca Municipal José Baptista Martins, em Vila Velha de Ródão, vai receber uma série de espectáculos, exposições e ateliers centrados em textos poéticos. Uma das iniciativas é uma residência literária, na aldeia de Foz de Cobrão, em que fui convidado a participar na companhia de Margarida Vale de Gato e Jaime Rocha. Ecos e imagens do que se passar nesses dias chegarão, mais tarde ou mais cedo, a este blogue. Mais informações sobre o ‘Poesia, Um Dia’ e a programação completa, aqui.

A verdade de um romancista

Na entrada da Wikipedia sobre o seu romance A Mancha Humana (The Human Stain), Philip Roth encontrou uma referência a uma suposta pessoa real na qual se teria inspirado para criar o protagonista do livro, informação que chegou, nas suas palavras, «not from the world of truthfulness but from the babble of literary gossip». Quando se queixou ao administrador da Wikipedia, foi-lhe dito que embora ele, Philip Roth, seja obviamente a maior autoridade no que diz respeito às suas ficções, seriam sempre necessárias «fontes secundárias». Sem esconder um certo espanto e impaciência, o escritor decidiu então assinar uma carta aberta no blogue literário da revista New Yorker. O texto, extenso e detalhado, é de leitura obrigatória para quem queira saber como funcionam os mecanismos criativos e os «empréstimos» biográficos na obra de um grande romancista.
Eis um excerto:

«My protagonist, the academic Coleman Silk, and the real writer Anatole Broyard first passed themselves off as white men in the years before the civil-rights movement began to change the nature of being black in America. Those who chose to pass (this word, by the way, doesn’t appear in “The Human Stain”) imagined that they would not have to share in the deprivations, humiliations, insults, injuries, and injustices that would be more than likely to come their way should they leave their identities exactly as they’d found them. During the first half of the twentieth century, there wasn’t just Anatole Broyard alone—there were thousands, probably tens of thousands, of light-skinned men and women who decided to escape the rigors of institutionalized segregation and the ugliness of Jim Crow by burying for good their original black lives.
I had no idea what it was like for Anatole Broyard to flee from his blackness because I knew nothing about Anatole Broyard’s blackness, or, for that matter, his whiteness. But I knew everything about Coleman Silk because I had invented him from scratch, just as in the five-year period before the 2000 publication of “The Human Stain” I had invented the puppeteer Mickey Sabbath of “Sabbath’s Theater” (1995), the glove manufacturer Swede Levov of “American Pastoral” (1997), and the brothers Ringold in “I Married a Communist” (1998), one a high-school English teacher and the other a star of radio in its heyday. Neither before nor after writing these books was I a puppeteer, a glove manufacturer, a high-school teacher, or a radio star.
Finally, to be inspired to write an entire book about a man’s life, you must have considerable interest in the man’s life, and, to put it candidly, though I particularly admired the story “What the Cystoscope Said” when it appeared in 1954, and I told the author as much, over the years I otherwise had no particular interest in Anatole Broyard. Neither Broyard nor anyone associated with Broyard had anything to do with my imagining anything in “The Human Stain.”
Novel writing is for the novelist a game of let’s pretend. Like most every other novelist I know, once I had what Henry James called “the germ”—in this case, Mel Tumin’s story of muddleheadedness at Princeton—I proceeded to pretend and to invent Faunia Farley; Les Farley; Coleman Silk; Coleman’s family background; the girlfriends of his youth; his brief professional career as a boxer; the college where he rises to be a dean; his colleagues both hostile and sympathetic; his field of study; his bedeviled wife; his children both hostile and sympathetic; his schoolteacher sister, Ernestine, who is his strongest judge at the conclusion of the book; his angry, disapproving brother; and five thousand more of those biographical bits and pieces that taken together form the fictional character at the center of a novel.»

A mão que arde

Nada Está Escrito
Autor: Manuel Alegre
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-972-20-4958-0
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 7,5/10

Desde o tempo em que escrevia versos contra a mordaça e o negrume do regime salazarista, o poeta Manuel Alegre fez sempre questão de reflectir, nos seus textos literários, as ideias e princípios do homem político que também é. Não espanta por isso que abra o seu mais recente livro de poesia, Nada Está Escrito, com uma Balada dos Aflitos – retrato fiel destes dias de troika e austeridade, em que os «irmãos humanos» estão à mercê da crise, dos «mercados» e da «mão invisível» que «nos tem aqui proscritos», no «desconcerto» de um mundo «tão diferente daquilo que se queria».
O poeta indignado rapidamente dá lugar ao poeta que se questiona sobre a própria essência da poesia. De onde vêm as palavras e os versos que «rompem como cactos»? A escrita é um mistério insondável, matéria que antes de existir já ensina, a quem a cria, o seu caminho. E Alegre curva-se diante desse sortilégio que o domina e o ultrapassa, essa «mão que escreve e arde e é só lume». O poema impõe-se como revelação e «eco de uma ausência», empurrando quem o escreve para uma busca do sentido das coisas que é mais metafísica do que propriamente lírica: «Quem sabe o que na página se esconde / e se dentro do branco está um muro / e se depois do muro não há onde / e se depois do branco é tudo escuro?»
A partir da segunda de sete partes, as temáticas tornam-se mais abrangentes: memórias de infância, cenas quotidianas, nocturnos, evocações da Grécia Antiga e da Índia mítica, feitos desportivos (Carlos Lopes em Los Angeles, Jesse Owens contra Hitler), litanias sobre os perdedores da História (Trotsky, António Prior do Crato), deambulações lisboetas, devaneios fadistas. Mudam os registos, mantêm-se a destreza prosódica e a cadência musical tão características de Alegre. Depois, a última parte como que fecha o círculo. Regressa a visão de um país ameaçado, volta a poesia que reflecte sobre si mesma: «O poema há-de emergir da sombra / florir no zero e no silêncio / o poema que está dentro / da forma por nascer / o poema que já é / antes de ser.»

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Pai, tu sabes coser?»
Eu: «Hmmmmm, não muito bem.»
Pedro: «Então? És machista?»

Jovens Criadores 2012

Depois de um interregno de cinco anos, regressa um dos concursos que mais artistas revelou nas últimas décadas em Portugal, mais uma vez organizado pelo Clube Português de Artes e Ideias. Na área da Literatura, serão seleccionados até oito participantes, a reunir numa colectânea intitulada “Jovens Escritores 2012″. Os trabalhos podem ser enviados até dia 14. O regulamento completo está disponível aqui.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Fun Home, de Alison Bechdel (Contraponto), por José Mário Silva
O Príncipe e o Pobre, de Mark Twain (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
A Porta do Sol, de Elias Khoury (Quetzal), por Luís M. Faria
Curso de Filosofia em Seis Horas e um Quarto, de Witold Gombrowicz (Teodolito), por António Guerreiro
Oficiais e Cavalheiros, de Evelyn Waugh (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
– Escolhas de Jerónimo Pizarro

Quando Bret Easton Ellis ataca David Foster Wallace

Aconteceu no Twitter. Ao ler a biografia de David Foster Wallace, de D. T. Max, o autor de Menos que Zero decidiu descarregar a sua fúria sobre o autor de Infinite Jest. Além de ver em DFW o escritor mais entediante, sobreavaliado e pretensioso da sua geração, Easton Ellis chega ao ponto de o considerar uma «fraude». A bílis recai também sobre os admiradores de DFW. Pela minha parte, os seis tweets resumem-se em três palavras: dor de cotovelo.

Uma piscina na Riviera

De vez em quando, faço um pequeno exercício. Levanto-me do sofá, olho para as estantes da sala e tento lembrar-me do que me levou até um determinado livro, ou do que o trouxe até mim. Há romances enviados pelas editoras; volumes de poesia comprados em livrarias independentes (algumas já falidas); literatura estrangeira que chegou um dia pelo correio, embrulhada no cartão castanho da Amazon. Mas o que me levou concretamente a escolher aquela obra, aquele autor? Na maior parte dos casos, a resposta é óbvia. Escolhi-os porque sim. Porque um clássico é um clássico. Porque dos escritores preferidos queremos sempre a obra completa. Porque alguém nos diz, à mesa do café: «Tens mesmo de ler isto.» Mas também há livros que não sei de onde vieram, que caminho percorreram, por que raio acabaram cá em casa, no meio dos outros. Alguém mos emprestou? Não faço ideia. Quando dou por eles, têm o ar comprometido dos passageiros clandestinos.
Swimming Home, de Deborah Levy, não é um desses aliens. Pertence a uma outra categoria: a dos livros que se atravessam à minha frente, que se impõem de súbito, sem que os procure, e me fazem dar graças pelos insondáveis mecanismos da serendipidade.

A primeira coisa em que reparei foi na capa. Simples, gráfica – como eu gosto. Em fundo branco, uma barra azul sugerindo a superfície da água e o título na diagonal, amarelo. Depois, intrigou-me o nome da editora: and other stories. Bom nome. Trata-se de um projecto muito recente, lançado no Outono de 2011, e que funciona por subscrição dos leitores. Quem subscreve tem direito ao nome na lista de agradecimentos, a um exemplar numerado da primeira edição de cada livro e pode ainda fazer sugestões para o plano editorial. É uma forma inteligente de criar um catálogo alternativo, capaz de assumir os riscos que as editoras mainstream não estão dispostas a correr. Por fim, o factor decisivo para lhe pegar na livraria: um texto introdutório de Tom McCarthy, sucinto mas entusiástico. Acontece que um dos romances que mais me encheu as medidas nos últimos tempos, e ao qual também cheguei por portas travessas, foi Remainder, de McCarthy (do qual já falei nesta crónica), pelo que o elogio funcionou como aqueles algoritmos dos sites que vendem livros on-line: se gostou deste, também vai gostar deste. Se o Tom diz que é bom, deve ser bom. E lá trouxe o livro de Deborah Levy, um pouco às cegas, disponível para descobrir uma autora nascida na África do Sul em 1959, igualmente dramaturga e poeta, bastante respeitada no Reino Unido mas pouco conhecida no resto da Europa.
Na verdade não me arrependi, muito pelo contrário. Sem saber ao que ia, entrei a medo, como quem experimenta a água de uma piscina. Ao fim de umas páginas, porém, quase sem dar por ela, já estava completamente mergulhado na linguagem sofisticada de Levy. A piscina, de resto, é o lugar e a metáfora central do livro. É na piscina de uma villa da Riviera francesa que se joga o equilíbrio de forças entre as personagens. De um lado, uma família inglesa de férias (Joe, o pai, poeta consagrado e bem na vida; Isabel, jornalista e mãe muito ausente, porque enviada para cenários de guerra; e Nina, a filha que aos 14 anos está prestes a ter a primeira menstruação), mais o casal amigo (patuscos donos de uma loja de antiguidades) e uma velha médica que vive na casa ao lado e assiste a tudo da varanda. Do outro, Kitty Finch, uma rapariga escultural que pinta as unhas de verde, estuda botânica, tem aspirações poéticas (veio ao sul de França para mostrar um poema a Joe) e toma banho nua na piscina insalubre, perfilando-se como uma ameaça erótica que só Isabel, ao convidá-la a ficar num quarto vago, aparentemente não vislumbrar. Dito assim, parece uma colecção de estereótipos. E é. Só que Levy pega nesses estereótipos, um a um, para os fazer implodir, vira a lógica narrativa do avesso, espalha o caos dentro e fora das personagens (sobretudo dentro). As coisas acabam mal, sabemo-lo desde as primeiras páginas, mas a forma como a tragédia se desenrola é tudo menos linear.
E os outros livros de Levy, serão tão bons como este? É o que tenciono descobrir em breve, já sem precisar dos acasos da sorte para nada.

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«Sabia-se na terra que a Menina Florinda falava com as imagens da igreja. Havia muito quem tivesse ouvido. Nem ela se escondia de ninguém para o fazer: fazia-o com a maior das naturalidades. E o que dizia? Coisas geralmente amistosas, do género “ora vamos lá então acender esta velinha” ou “passaste bem a noite, Santa Catarina?”
Já isto, por si só, era caso para estranhezas. Mas alguns asseveravam que, quando estava mal-disposta, a Menina Florinda não se limitava a falar com elas, também ralhava. E era ainda fama que não só falava e ralhava, como, umas vezes por outras, em momentos de impaciência extrema, exacerbada pelas instabilidades da menopausa, lhes dava estaladas exactamente como fazia na catequese aos meninos mal comportados ou distraídos ou incapazes de papaguear a salve-rainha de fio a pavio. Mas isso já era claramente do domínio da fábula e não merecia crédito, nem de resto interessa muito a esta história verídica. Nunca ninguém viu.»

[in Os Anjos Nus, de A. M. Pires Cabral, Cotovia, 2012]

Uma escrita da urgência

Ficas a Dever-me uma Noite de Arromba
Autor: António Cabrita
Editora: Companhia das Ilhas
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-989-8592-01-9
Ano de publicação: 2012

Um traficante transporta na mochila – entre a barra de haxixe, a máquina fotográfica e latas de atum – dois frascos com fetos de elefante. Um sagui trepa por Brad Pitt acima, depois de ter provavelmente roubado um memorando que trama a existência, até então idílica, de uma fã da estrela americana (alta dirigente cultural cuja única qualificação é ser amante de ministro). Um homem «espanca» com um remo as águas do mar, vingando-se do afogamento da mulher amada, para quem lê repetidamente o Cântico dos Cânticos na frequência de um rádio submerso. Um filme de Visconti traz energia e perturbação à vida amorosa de um casal. Certa piscina ladrilhada, semelhante a quadro de Vasarely, é o palco de uma tragédia absurda, em que a picareta talvez leve a melhor sobre a «fusca» pronta a disparar.
Além da atmosfera moçambicana, estas cinco histórias de António Cabrita têm em comum uma espécie de volúpia narrativa, um puro gozo de contar que faz com que os textos muitas vezes levantem voo, libertos das amarras do realismo, mas também os entrega a uma deriva que nalguns casos não leva a lado nenhum (Morte em Veneza, Reprise, por exemplo, cria uma tensão inusitada entre os amantes, sem ser capaz de a resolver). O que empurra este livrinho é sobretudo a prosa de Cabrita – ágil, envolvente, minuciosa, deslumbrada com a variedade das coisas do mundo – e uma certa urgência de fixar as histórias no tempo certo. Se escrito «a posteriori», o texto arrisca-se a sair requentado, «como as respostas ao fundo da escada». Por isso, «a sede própria para o conto acontecer» é «esta página dobrada pelo instante único em que uma pedra parte um vidro e uma corrente de ar engolfa a casa».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Sistema Solar)

A Freira no Subterrâneo, de autor incógnito francês (traduzido por Camilo Castelo Branco); Paul Cézanne, de Élie Faure, seguido de O que ele me disse, de Joachim Gasquet; O Romance de Tristão e Isolda, renovado por Joseph Bédier.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges