Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Não é Meia Noite Quem Quer, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
Resgatados – Os Bastidores da Ajuda Financeira a Portugal, de David Dinis e Hugo Filipe Coelho (A Esfera dos Livros), por Cristina Figueiredo
Os Anos Devastadores do Eduquês, de Guilherme Valente (Spleen), por Virgílio Azevedo
Os Cães de Tessalónica, de Kjell Askildsen (Ahab), por Pedro Mexia
Bem Dita Crise!, de António Jorge Gonçalves (Documenta), por José Mário Silva
– Escolhas de José Luís Peixoto

Diário Americano

Objectivo: Washington. Daqui a nada, parto para a capital dos EUA. Até dia 8 de Novembro, o Bibliotecário de Babel andará por lá, com um eventual saltinho a Nova Iorque. Na medida do possível, relatar-se-á o que for acontecendo de mais interessante, numa espécie de diário americano.
Até daqui a não sei quantos fusos horários.

CCB no CCB

Que é como quem diz: Camilo Castelo Branco no Centro Cultural de Belém. Até dia 27.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

José, de Rubem Fonseca (Sextante), por Pedro Mexia
O Número de Ouro, de Mario Livio (Gradiva), por Luís M. Faria
Aristides Pereira – Minha Vida, Nossa História, de José Vicente Lopes (Spleen), por José Pedro Castanheira
Os Ciganos, de Sophia de Mello Breyner Andresen e Pedro Sousa Tavares, com ilustrações de Danuta Wojciechowska (Porto Editora), por José Mário Silva
Contos Naturais, de Carlos Fuentes (Porto Editora), por José Guardado Moreira
– Escolhas de António Jorge Gonçalves

Jovens Criadores 2012 – Literatura

Acabam de ser conhecidos os oito trabalhos seleccionados para a Mostra Nacional de Jovens Criadores, organizada pelo Clube Português de Artes e Ideias, na categoria de Literatura:

A vida mais longa de todas, de Ana Pessoa
Uma saca cheia de andorinhas, de Inês Bernardo
“Pião” e “Cinco Dias com Mireia”, de José Trigueiros
Pormenores da Guerra, de Manuel Abrantes
Sobre Silvério Silva, de Mariana Maia de Oliveira
Dias de Delírio, de Marina Preguiça Ribeiro
O Relógio, de Samuel Pimenta
16:09, de Tiago Ramalho

O júri foi composto por Carla Oliveira, Eurídice Gomes e Fernando Espadinha.

Manuel António Pina (1943-2012)

Morreu um homem bom, um cronista certeiro, um cidadão exemplar, um dos maiores poetas da nossa língua (e um grande sportinguista). Que dia tão, mas tão, tão triste.

Maravilhas da paternidade

Uma brincadeira tão simples. Na cama, virado para baixo, eu sou um navio. Eles fincam-se ao convés, mãos nos meus ombros, peito contra costas. À volta, sobre os lençóis, vagas imensas, tempestades, tubarões. Eu rolo para um lado e para o outro. Eles agarram-se. Eu rolo para um lado e para o outro. Eles agarram-se. Salvo-os do naufrágio com abraços.

Entrevista com Vítor Silva Tavares, tirada do baú (parte 3 e última)

[Nota prévia – Esta conversa foi publicada no suplemento DNA, do Diário de Notícias, a 24 de Fevereiro de 2001. Primeira parte, aqui; segunda, aqui]

Em que circunstâncias se deu o regresso a Portugal?
Bom, é preciso ver que eu chego a Angola em 1959. As eleições presidenciais tinham sido em 58, sendo que em Benguela, e também no Lobito, o Humberto Delgado ganhara nas urnas, oficialmente. Quer isto dizer que havia um grupo de activistas políticos muito forte. Às duas por três, vejo-me enfronhado até à raíz dos cabelos na política local. Por causa disso, sofro dissabores e mais dissabores que culminam naquilo que poderia apelidar de rico pontapé no cu cá do vosso amigo. Certamente para evitar males maiores, chutaram-me para dentro de um navio, recambiado para a metrópole.

Foi difícil, o reencontro com a «pátria»?
Foi, muito. Quando chego ao meu país, tenho uma grande dificuldade de adaptação. Mas vinha com uma convicção, uma só, inabalável: nunca mais, na puta da vida, vou fazer aquilo que não quero e aquilo de que não gosto; nunca mais, na puta da vida, vou ter um patrão. Se para isso tiver que morrer depois de amanhã, não me importo: conheço já a cor e o cheiro da morte. Sim, conheço já a cor e o cheiro da morte. (pausa longa) Esta convicção inabalável permaneceu – e permanece – inabalável.

Estávamos portanto em Lisboa, no princípio dos anos 60. Qual era o seu ganha-pão? Escrevia para os jornais
Sim senhor, começo a escrever nos jornais e não só. Colaborava na Flama, do Rolo Duarte, com críticas de cinema. Escrevia contos para o Diário Popular, crónicas à borla para o República e até textos para a Crónica Feminina – a troco de ir comer umas bifanas e um caldinho do dia aos Irmãos Unidos, ali na Praça da Figueira. Era um pardal, andava por todo o lado.

É então que surge a oportunidade de trabalhar na Ulisseia?
Sim. É aí que funciona a tal teoria dos acasos. De um momento para o outro, deixo uma situação de vagabundagem e passo a dirigir uma editora como a Ulisseia. Mero acaso. Comecei então a fazer o gosto ao dedo, publicando quem eu gostava. Tenho muito orgulho de ter publicado o Mário Cesariny de Vasconcellos, o Herberto Helder, o Alexandre O’ Neill, o Pacheco e por aí fora. Mais tarde, saí pelas circunstâncias que já lhe disse, numa altura em que até ganhava bastante bem.

E então surge o suplemento & Etc?
Exacto. É aí que começa a nascer o primeiro & Etc. Porque o primeiro & Etc foi um magazine de artes, letras e espectáculos do Jornal do Fundão. O que é que se tinha passado? Aquando da atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco ao Luandino Vieira, a PIDE prendeu os membros do júri, além de ter destruído a sede da Associação Portuguesa de Escritores. Ora bem, um dos membros do júri era o Alexandre Pinheiro Torres, que paralelamente era o responsável pelo suplemento cultural do Jornal do Fundão. Depois do escândalo, é óbvio que o Pinheiro Torres fez publicar, no dito jornal, o que muito bem entendeu sobre o assunto. Foi o suficiente para a censura mandar fechar aquilo tudo durante seis meses. E é então que o António Paulouro e o José Cardoso Pires pensam em retomar um suplemento de cultura, assim que a censura permitisse a reabertura do jornal. O Cardoso Pires falou comigo e começou a nascer a ideia de um suplemento com outro espírito, um magazine mais abrangente onde podia caber tudo: um filme (no primeiro número foi o Pierrot, le Fou, do Godard), um fadista (o Alfredo Marceneiro, por exemplo) ou um bar que tivesse acabado de abrir (na altura, foi o Snob). Era um outro conceito de cultura. E naquele suplemento, chamado & Etc, já estava presente muito do espírito do que veio a ser, mais tarde, esta casa.

Pode dizer-se que o suplemento foi uma aventura relativamente efémera?
Depende. Eu não sei as datas precisas do início e fim da publicação, sei apenas que durou 25 números (o que não é tão pouco como isso) e que morreu de morte macaca. De 15 em 15 dias, eu ia para o Fundão fazer o suplemento. Metia-me na auto-motora da Covilhã, inverno ou verão, e lá fazia o caminho. Lembro-me que por vezes chegava muito tarde, duas ou três horas da manhã, já com as instalações fechadas, e o Paulouro deixava-me uma porta da oficina aberta para eu entrar. Depois, no gabinete dele, dentro de um cestinho, estava sempre um bife com ovo a cavalo ou coisa parecida, para eu matar a fome. Na manhã seguinte, começava a compor o jornal na tipografia.

E a tal morte macaca, como é que se deu?
Ora bem, um dia o suplemento foi à censura de Castelo Branco e quando o contínuo voltou trazia as oito páginas do suplemento cortadas. Além disso, tinha havido umas fricções causadas pela acusação de que atacávamos os escritores de esquerda. Pudera, dos de direita nem sequer falávamos! Agora, com os de esquerda éramos exigentes, lá isso éramos. A associação das duas coisas ‑ por um lado a censura, por outro as tais fricções – precipitou a morte do projecto. Disse ao Paulouro que é preciso saber pôr pontos finais, mas acrescentei: «eu seja cão se não for para Lisboa fazer um escabeche do caraças na censura, para que se salve alguma coisa e então que este seja o último & Etc». Foi.

Logo a seguir, passa a coordenar o suplemento literário do Diário de Lisboa.
Sim. Pouco depois, o Cardoso Pires convida-me para o DL e como ele foi ocupar um lugar de leitor de português numa universidade inglesa, deixou-me aquele filho nos braços. É na passada desse trabalho que nasce a ideia, minha e de mais 15 pessoas, de fazer então uma revista cultural autónoma, também chamada & Etc, e que foi a mãe, digamos assim, da editora. Era aquilo a que nós chamávamos «folheca cultural q.b.». A revista durou o que durou, com uma periodicidade muito irregular: saía quando saía. Ou seja, quase nunca saía.

Voltando um pouco atrás. Nunca escondeu a sua admiração por Almada Negreiros, a quem dedicou um belíssimo texto na revista «Ler». É verdade que chegou a trabalhar com ele?
Com ele e com o dr. Fernando Amado.

Em que circunstâncias?
No teatrinho da Casa da Comédia, que era uma antiga carvoaria. Começámos com uma adaptação do Regresso ao Paraíso, de Teixeira de Pascoaes, encenado pelo dr. Fernando Amado, sendo eu o cenógrafo, figurinista, carpinteiro, mulher-a-dias, isso tudo. O dr. Fernando Amado era um grande amigo do Almada Negreiros. É então que nasce a ideia de se levar pela primeira vez à cena o Deseja-se Mulher, do Almada. Foi uma aventura extraordinária. Vou dar-lhe um exemplo. Eu era o cenógrafo e figurinista. E aquela peça tinha tudo: sereias, anjos, pombas, essas coisas. Com pouco orçamento, quase nenhum, tínhamos que improvisar. Se não há dinheiro para tule, compra-se rede de pescador, ali no Cais do Sodré. Já se sabe, a dificuldade aguça o engenho. Ora bem, um dos meus problema era como fazer os anjos. O Almada não queria daqueles anjinhos com asas, das procissões. Queria estar sentado em frente ao palco, ver uma coisa a passar da esquerda para a direita e perceber logo que aquilo só podia ser um anjo. Eu andava às voltas com o problema quando um dia vejo, ali para os lados do Conde Barão, um homenzinho a vender cabides. Olhei para os cabides e vi logo que eram anjos. Porquê? Com cartolina faz-se uma cabeça, pega-se em papel cortadinho à tesoura, mais uns bocadinhos de prata e lantejoulas e já temos vestido. Depois, desenham-se asas enormes feitas de cartolina, aplica-se no cabide e já está. O actor só tinha que se agachar dentro do vestido de papel e atravessar o palco a correr. Tudo aquilo abanava e brilhava, era uma visão feérica. Isto é só para lhe dar uma ideia do clima em que decorreu todo o erguer daquele espectáculo. Com um Almada e um Fernando Amado hiper-excitados, muitas vezes zangados, trocando diálogos interessantíssimos entre eles. O Almada a berrar: «oh, Fernando, tu desculpa mas não percebes nada disto». E o Fernando Amado a responder: «oh, Zé, tu é que não percebes nada daquilo que escreveste». Foi um momento triunfal. O espírito da Casa da Comédia era, também ele, um espírito maravilhosamente amador. Com uma exigência ética e estética total. Uma pureza absoluta.

E, parece-me, com uma atenção enorme ao lado humano…
Evidentemente que sim. Com toda a gama de alegrias, de emoções, de medos, de angústias. Era uma actividade totalmente humana, é evidente que sim. Sentíamos muito o lado sagrado do teatro, da representação, do verbo, da palavra, do corpo do actor.

Almada era considerado um artista de vanguarda. Que importância é que poderiam ter as vanguardas, hoje?
O problema é que as manifestações artísticas que passam por vanguardistas também estão sujeitas a uma lógica do espectáculo que lhes retira a independência e o voluntarismo, sem os quais não entendo que possa haver verdadeira vanguarda. Existem certos movimentos espontâneos que querem romper com cânones, tradições, etc, mas em breve são absorvidos pelo próprio sistema e entram na lógica do sistema. Então passam por vanguardas mas não o são. Chamemos-lhes vanguardas virtuais.

Acha que ainda há espaço para uma ruptura?
Eu queria é que houvesse uma ruptura com a subordinação da própria arte à ditadura económica. Que houvesse uma ruptura sobretudo aqui. Depois logo se veria o que é que iria dar, que forma iria assumir.

Quer dizer que, apesar das ressacas todas, das desilusões, das esperanças perdidas, ainda faz sentido acreditar em algo a que possamos chamar revolução?
Tudo o que possa contribuir para a ideia de revolução é útil. Mas por revolução não estou tanto a pensar num sistema social, mas muito mais numa revolução do espírito e, já agora, do espírito de cada qual. Porque revoluções sem revolucionários, já vimos no que deram.

Também há revolucionários sem revolução. É o seu caso?
Só me posso considerar revolucionário por comparação com aqueles que não o são de todo. O mais natural é não revolucionar coisa nenhuma. No entanto, percebi desde as minhas primeiras indignações que a luta contra a injustiça é uma progressão revolucionária. Não sei é se através do meu trabalho eu consigo ver estendida aos demais esta pulsão, este desejo. Não me imagino enquadrado em partidos políticos, mas apelo, isso sim, para a transformação da mentalidade do homem, no sentido em que o leve a fazer da sua vida aquilo que entende que deve fazer. E a recuperar toda a sua dignidade de homem, a sua palavra de homem. De homem livre.

Aquela convicção inabalável que assumiu no regresso a Portugal, vindo de Angola, vai continuar a ser cumprida?
Não faço retrospectivas nem penso demasiado no futuro, mas acho que tenho sido coerente com esses propósitos iniciais. As sinuosidades da minha vida não têm impedido essa coerência de base. Posso mesmo afirmar que não me tenho traído. Não traí o puto que fui, o puto que dentro do eléctrico lia Dostoievski e Zola. Não, nunca traí esse miúdo.

[Fim]

O que aí vem (Planeta)

O Agente da Catalunha, de Cesário Borga; Sedução, de Bella Andre; Tranformar-se em Maria Antonieta, de Juliet Grey; Êxtase, de Lauren Kate; Cinder, de Marissa Meyer; Divas Rebeldes, de Cristina Morató.

Estados de suspensão

O anjo Esmeralda – Nove histórias
Autor: Don DeLillo
Título original: The Angel Esmeralda – Nine Stories
Tradução: Paulo Faria
Editora: Sextante
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-0-07172-9
Ano de publicação: 2012

Não deixa de ser sintomático que Don DeLillo só tenha publicado em 2011 a sua primeira recolha de contos, rigorosamente quatro décadas depois do seu primeiro romance (Americana, de 1971). Embora tenha escrito ao longo dos anos cerca de uma vintena de short stories (em revistas como a New Yorker, Granta ou Esquire), DeLillo não consegue despir o fato de romancista. Mesmo quando parte de observações microscópicas da realidade quotidiana, ou dos dilemas existenciais das personagens, a sua escrita tende para uma abrangência e desmesura que dificilmente encaixam nos limites da narrativa curta.
Um bom exemplo é o conto que dá título a este volume, no qual acompanhamos duas freiras que lidam diariamente com as misérias e despojos humanos de uma das zonas mais degradadas do Bronx, onde bandos de marginais pintam anjos nas paredes, simbolizando as crianças que morrem no bairro. Quando Esmeralda, uma rapariguinha arredia e quase selvagem, é violada e atirada de um telhado, não só surge o respectivo graffiti no sórdido mural como se inicia um culto espontâneo, e pagão, de pessoas que julgam ver o rosto da menina num painel publicitário, quando nele incidem as luzes dos comboios que passam. É uma história brutal, em que DeLillo não julga ninguém nem moraliza, antes mostra um cenário urbano apocalíptico, o lado negro da grandeza americana. Mas não poderia este fragmento fazer parte de um panorama maior? Claro que sim. Aliás, faz mesmo. Publicado inicialmente em 1994, O anjo Esmeralda veio a ser incorporado em Submundo (1997), romance gigantesco em que o tal panorama nos surge em todo o seu esplendor.
À excepção de Meia-noite em Dostoievski, um conto perfeito que só podia ser conto (é espantosa a sua acuidade descritiva, o modo como articula os vários ritmos da narração, a mestria dos diálogos e a força do desenlace), estas histórias aspiram a ser capítulos de histórias maiores. Uma constatação que em nada as diminui ou enfraquece, mas deixa no leitor a suspeita de que haveria talvez um antes e um depois, uma qualquer continuação necessária que o autor, por preguiça ou bravata, nos sonegou. Ao contrário de Tchekov ou Alice Munro, DeLillo não é um contista por natureza. A forma do conto fica-lhe como que apertada, há nos materiais que trabalha um desejo de expansão que acaba quase sempre por ser reprimido. O resultado é paradoxal: chegamos ao fim simultaneamente saciados e com fome para mais.
No primeiro conto, Criação, um casal tem dificuldade em abandonar uma ilha das Caraíbas. O caos no aeroporto leva a um kafkiano esquema de listas de espera e desmarcações sucessivas. Quando a mulher consegue finalmente embarcar, o marido fica para trás e aproveita os atrasos para se envolver com outra passageira, também em trânsito. O que os une é um estado de suspensão, uma bolha de incerteza no curso normal do tempo, ao qual se abandonam com mais desespero e melancolia do que exaltação amorosa. Esse estado de suspensão, sempre à beira de uma epifania que se escapa por entre os dedos, é comum a personagens de outros contos. Em Momentos calorosos na Terceira Guerra Mundial, dois soldados em órbita deixam-se comover pela beleza do planeta Terra, enquanto afinam as armas laser que podem destruir milhares de vidas num segundo. Em dois dos contos (Baader-Meinhof e A Faminta), a relação entre homem e mulher parte da experiência estética (observação de quadros numa galeria de arte e cinefilia compulsiva, respectivamente) para desaguar num frustrante e frustrado crescendo de tensão erótica.
Ainda outro tipo de suspensão é a que se vive num estabelecimento prisional para criminosos de colarinho branco (Foice e Martelo, publicado em 2010). Ali se juntam os autores morais da tragédia financeira e económica em curso. Um espectáculo a que os responsáveis assistem pela TV, como se estivessem fora da História. Que a verdade seja dita no ecrã por crianças, anunciando alegremente o colapso das ilusões capitalistas, é DeLillo puro. Ficamos à espera do romance em que esta história, mais tarde ou mais cedo, se haverá de incorporar.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Lembrete

Lançamento de O Concerto Interior – Evocações de um poeta, de António Osório (Assírio & Alvim), logo à tarde, a partir das 18h30, na Bertrand Picoas Plaza. A apresentação será feita por José Manuel de Vasconcelos e Pedro Mexia.

She did it again

Hilary Mantel volta a ganhar o Man Booker Prize, com Bring Up the Bodies, três anos depois da primeira vitória, com Wolf Hall.

Primeiras frases

Em francês. O blogue literário do Nouvel Obs quer eleger as melhores de 2012.

Não peçam haikus a romancistas

O resultado pode deixar muito a desejar.

Festival Literário de Castelo Branco

De 24 a 26 de Outubro, decorrerá a primeira edição do Festival Literário de Castelo Branco (FLCB), com a participação de mais de duas dezenas de escritores e ilustradores, que se deslocarão às escolas do concelho. Entre os convidados estão Ana Maria Magalhães, Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Mário Zambujal, José Jorge Letria e Isabel Stilwell (escritores); Alex Gozblau, André Letria, Danuta Wojciechowska e Yara Kono (ilustradores). O principal objectivo da organização é «trazer a um concelho do interior um contacto mais íntimo com a literatura». Os debates acontecerão no Instituto Politécnico de Castelo Branco e no Cine-Teatro Avenida. Haverá ainda concertos de guitarra clássica e viola beiroa.

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Eis o booktrailer deste conto infantil inédito de Sophia de Mello Breyner, terminado pelo seu neto Pedro Sousa Tavares:

São Pedro do Sul

Eu devia ter uns oito ou nove anos. Era Verão e os meus avós paternos levavam-me com eles para as termas, no Norte. Pelo caminho, lembro-me perfeitamente de ir no banco de trás do Peugeot 204, tomando nota dos automóveis estrangeiros que nos ultrapassavam. Todos os miúdos têm as suas manias e a minha era contar matrículas. Durante a viagem, fazia relatórios de dez em dez minutos: «Vinte e dois franceses, quinze espanhóis, onze alemães, oito holandeses, cinco luxemburgueses, quatro italianos, dois ingleses, um suíço.» Era no tempo em que a padronização comunitária ainda não tinha uniformizado as cores das placas e os porta-bagagens ostentavam autocolantes ovais com as iniciais dos países (levei algum tempo a associar a Suíça ao misterioso CH, da designação latina Confoederatio Helvetica). Quando entrávamos em São Pedro do Sul, ao fim de longas horas por estradas nacionais (ainda estava para chegar a fúria do asfalto cavaquista), eu anunciava orgulhoso o meu balanço final: «Setenta e nove franceses, trinta e quatro espanhóis, vinte alemães, quinze holandeses, oito luxemburgueses, seis italianos, três ingleses, um suíço.» O que mais me intrigava era a superioridade dos franceses face aos espanhóis, geograficamente mais próximos, até que a minha avó me explicou que a maioria daqueles franceses eram afinal portugueses como eu, só que emigrantes em Paris ou Toulouse, de regresso à terra nas suas bagnoles de alta cilindrada.
Na imagem que guardo do Hotel Vouga, havia um toldo azul sobre a porta de entrada, uma cadeira de verga cá fora, no passeio estreito (onde me sentava por vezes a olhar os carros que passavam, contendo-me para não dar início a outra obsessiva contabilidade de matrículas), um muro baixo com vasos de loiça branca, um portão de ferro com pontas afiadas, um telheiro escondido por uma buganvília. Ficávamos sempre neste hotel e creio que sempre no mesmo quarto. Fecho os olhos e vejo a minha avó estendida na cama, a dormir a sesta. As tardes longas. O silêncio. Eu ia buscar os meus livros e durante umas horas perdia-me na ilha do tesouro de Stevenson, nas aventuras dos heróis de Júlio Verne, nas corridas imparáveis do Michel Vaillant, nas histórias divertidíssimas da dupla Astérix/Obélix (cuja piada só apreciei devidamente mais tarde). Outras vezes, acompanhava o meu avô ao café, no centro, para lá da ponte. O tempo esticava muito, mas eu nunca me aborrecia. Gostava especialmente dos passeios junto ao rio, de atirar pedrinhas à água lisa, de comer as sandes de queijo e marmelada que a minha avó preparava à mesa do pequeno-almoço e trazia na mala de mão, embrulhadas em guardanapos de papel.
Os restantes hóspedes deviam andar pelos cinquenta, sessenta anos, e pareciam-me muito velhos. Ao serão, os meus avós socializavam um pouco com eles, à espera, entre outras coisas, de ouvir os louvores que me eram dirigidos, enquanto menino ajuizado e paciente, que sabia esperar, não fazia barulho a comer no restaurante do hotel, não corria pelos corredores, nem mostrava repugnância quando as senhoras muito maquilhadas o enchiam de beijos e festinhas no cabelo. Havia um senhor que sabia truques com palitos aos saltos debaixo de um guardanapo e um outro que era especialista em adivinhas. «Vais a conduzir um carro, como fazes para virar?» Se eu respondesse «uso o volante», ele dizia «não, abres a janela» (para «vir ar»). Se eu respondesse «abro a janela», ele dizia «não, usas o volante» (para «virar»).
Ignoro porquê, mas sou incapaz de recordar o edifício onde se faziam os tratamentos. Recordo-me é do jardim que tinha no centro uma taça circular – cheia de água borbulhante e vapores – de que eu me aproximava a medo. Penso nela e o cheiro fortíssimo, como de enxofre, regressa para me atordoar, e atrás dele vem a nitidez das noites cálidas, naqueles verões dos meus oito, nove anos. Entretanto, o meu avô Mário morreu. Entretanto, a minha avó Lucinda morreu. Nunca mais voltei a São Pedro do Sul. Há dias, fui procurar os livros do Astérix e do Michel Vaillant. Não os encontrei. No seu lugar, quase esvaecidas, estavam estas memórias.

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]

‘Clube da Palavra’

Com Margarida Ferra, Ana Sofia Paiva, B Fachada e, logo a abrir, quatro versos meus.

Primeiros parágrafos

«Era uma vez um menino
que não era nada feio.
O que tinha de extraordinário
era um feitiço no meio.

Foram estes os primeiros versos que se conhecem do menino Rómulo Vasco da Gama Carvalho. Tinha cinco anos quando os escreveu. Nessa altura ainda estava longe, muito longe o nascimento do seu amigo António Gedeão. Desse ser imaginado, amigo tão verdadeiro que um dia nasceu e um dia, ainda novo, morreu. Rómulo deu-lhe a vida suficiente, amou-o, fê-lo crescer. E ele cresceu e rondou-lhe os passos mais secretos, a sua vida mais íntima; a seu lado conheceu o dia e conheceu a noite, sussurrou-lhe as mais belas palavras, invadiu-lhe o pensamento a ponto de fazer com que algo mais que letras e palavras o acompanhassem de perto. Vigiou-o. Lembrou-lhe o que devia fazer e fez com que ele, Rómulo, se deixasse envolver por ele, António, a ponto de, nesses momentos, se esquecer de si. Mas, realmente, não era fácil esse esquecimento. Era um e era o outro, indissociáveis, unos. Até um dia. Até um certo dia em que um, o primeiro, declarou a morte do outro, o segundo.»

[in Rómulo de Carvalho/António Gedeão – Príncipe Perfeito, de Cristina Carvalho, Estampa, 2012]

Entrevista com Vítor Silva Tavares, tirada do baú (parte 2)

[Nota prévia – Esta conversa foi publicada no suplemento DNA, do Diário de Notícias, a 24 de Fevereiro de 2001. Primeira parte, aqui]


Vítor Silva Tavares ao centro, com Rui Caeiro à esquerda e Alberto Pimenta à direita (clique para aumentar a imagem)

Como é o relacionamento com os autores que vai publicando?
O que é que acha?

Eu consigo imaginar, mas preferia que me dissesse.
São relações de enorme companheirismo, que às vezes evoluem para amizades que valem uma vida. Amizades fortíssimas, tão fortes como certas paixões. Firmes, sólidas, à prova de bala.

E que tipo de contacto é que mantém com as outras editoras portuguesas?
É um contacto muito esporádico. Conheço alguns editores e às vezes cruzo-me com eles, embora não faça vida social. Não tenho nada contra as editoras comerciais. Eu próprio, muitos anos antes de ter entrado nesta aventura, já estive à frente de uma casa editora prestigiada e bem implantada no mercado.

A Ulisseia.
Exacto. Era uma editora que funcionava nos moldes tradicionais. Eu, ao ir para lá, é que não sei se funcionava nos moldes tradicionais, mas isso é outra história. Fui para lá com o mesmo espírito com que estou aqui. Para fazer só aquilo que me dava na gana. E foi o que fiz…

Permitiram-lhe assim tanta liberdade?
Permitiram, sim senhor. Gozei de toda a liberdade para fazer o que muito bem entendia. Olhe, a liberdade era tanta que tive a PIDE sempre à perna…

Quanto tempo durou essa passagem pela Ulisseia?
Não sei ao certo, tenho fraca memória para datas, mas admito que entre dois e três anos.

E qual foi a razão para sair?
Saí porque estava muito tempo sentado, tinha gravata e para publicar os livros nem precisava de os ler. Quer dizer, o sistema estava a rodar por si mesmo e eu já não estava lá a fazer nada.

Na & Etc, pelos vistos ao contrário do que se passava na Ulisseia, não há programação nem um calendário para as obras a publicar. Como é que faz a escolha? É caso a caso?
É caso a caso. E acaso a acaso. A porta está aberta a esses acasos. Nós lemos sempre todos os manuscritos. E quando gosto de um determinado livro, atiro-me imediatamente de cabeça, avanço logo de olhos fechados. Muitas vezes, ainda nem sequer conheço o autor. Ou melhor, passei a conhecê-lo a partir daquilo que está escrito. É uma coisa que acontece com bastante frequência.

Disse que nasceu num meio pobre. Mais propriamente no bairro da Madragoa…
Exacto. Sou lisboeta da Madragoa, onde ainda vivo.

E como é que o lisboeta da Madragoa olha para a sua cidade?
É uma relação de amor-ódio. Amo muito a minha cidade, sobretudo os bairros populares. E, vá lá, também a zona da Lisboa romântica: Chiado, Bairro Alto. O resto, para mim, já é estrangeiro.

Consegue imaginar-se a viver fora de Lisboa?
Não, não me concebo fora dela nem longe das suas gentes, das suas pessoas. Nada me tira a minha bicazinha, de manhã, na pequena leitaria da Rua da Esperança. Agora, à força de amar tanto esta minha cidade, é evidente que sofro tremendamente com ela, nomeadamente com os atentados a que tem sido submetida, quase sempre em nome de falsas noções de modernidade e do bimbismo dos decisores.

Inclui o projectado elevador para o Castelo de S. Jorge no rol desses atentados?
Claro que sim. É inconcebível. Como é que isto pôde passar pela cabeça de alguém? Porque isto teve que nascer nalguma cabeça, não é?

Sim. Nasceu numa cabeça mas depois passou por outras…
Pois, nasceu numa e depois alastrou, já se vê, um mal nunca vem só. É inconcebível. Como é possível que em plena baixa pombalina se vá erguer aquela torre de betão, com uma passerelle, que nos vai roubar a vista das muralhas do castelo? E o que acontecerá às pessoas que agora podem contemplar, das suas janelas, toda a baixa e o convento do Carmo na outra colina? Vão ficar emparedadas por aquela porcaria, é o que é.

Que outros atentados o têm chocado?
Histórias destas são às montanhas, são umas atrás das outras. Veja o bimbismo nacional da roda gigante: só porque Paris e Londres também têm, então punha-se aquela porcaria ali ao alto do Parque Eduardo VII, a dar cabo do jardim do Ribeiro Teles e tornando o monumento-pilinha do Cutileiro ainda mais pequenino, por causa da escala. E há mais: entra na cabeça de alguém que o largo do Chiado tenha ido para o maneta por causa da bocarra do metropolitano? A lista é interminável, infelizmente. E eu fico a ferver com estas coisas. Anda para aqui um desvario qualquer.

No seu discurso existe sempre, de forma latente ou explícita, um impulso de rebeldia…
Sim, sim, mas atenção, só assumo essa rebeldia se acrescentar que é uma rebeldia com causa.

Muito bem. E quando é que essa rebeldia com causa começou a manifestar-se na sua vida?
Quando li os primeiros livros do Alves Redol, do Maximo Gorki, do Zola. Com eles, comecei a ter consciência de um mundo cruel e injusto, feito de poderosos e de miseráveis. Nascia assim um movimento de rebeldia para o qual não podia dar vazão. O meu pai era marítimo e, como andava sempre em viagem, gostava de ler e comprava indistintamente as «Selecções do Reader’s Digest» e romances dos autores que estavam em voga na altura: Blasco Ibañez, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro. Eu, lá em casa, mal comecei a gostar de ler, devorei essa literatura toda.

Era mais parecido com o seu pai ou com a sua mãe?
Era uma mistura de ambos. A minha mãe era uma espécie de Ana Magnani, uma magnífica fera, de uma frontalidade a toda a prova, sem qualquer verniz ou diplomacia. O meu pai era um ser muito mais interiorizado, mais reflexivo, mais diplomata. A minha natureza mais profunda vem mais da minha mãe, até porque eu vivi sempre num universo de mulheres.

O que é que ela fazia?
Tinha um trabalho medonho, de carga e descarga de peixe e de carvão. Também trabalhou na fábrica de anchovas, no outro lado do rio. De modo que eu ficava em tudo quanto era casa de vizinhas e sobretudo com a minha avó, mãe dela, que praticamente me criou. Mas a extrema miséria, miséria mesmo, em que eu nasci e cresci, nunca a senti enquanto miúdo. Era muito protegido por ser magrinho, na altura as crianças morriam como tordos e aquelas que não morriam – a mim aconteceu-me não morrer – eram extremamente acarinhadas. Eu vivia na rua, a brincar com os outros putos do bairro, e lembro-me da dificuldade tremenda que tive em calçar os primeiros sapatos.

E essa avó protectora, que imagem guarda dela?
Essa minha avó era uma maravilha de mulher, não houve nada que ela não fizesse e eu acompanhava-a sempre. Desde empalhar cadeiras até lavar roupa no lavadouro municipal da Travessa do Pasteleiro, passando pelo fado, cantado pelas tabernas com um irmão. Às cantorias noite dentro não me levava, claro, mas cheguei a assistir a cegadas. E participei, ao colo dela e de umas tias, nas marchas populares. Ainda hoje, quando a Madragoa ganha, eu rejubilo. Estou à janela, olho para baixo, está a marcha a passar e lá fico todo contente.

Não renega, portanto, o seu passado.
Pelo contrário, tenho muito orgulho. Ao fim e ao cabo, e depois de tantos anos no meio artístico, sei de ciência certa que onde encontro mais carácter, solidariedade e bondade humana é entre a gente pobre do meu bairro. Isto apesar da invasão dos bárbaros. E chamo bárbaros àquela gentalha, normalmente com popó, que entra no bairro para frequentar os bares e as discotecas. Este bairro que tinha má fama – de gente agressiva, muito putedo, artistas e outras coisas que tais – era, meu deus, um autêntico eden comparado com o que se passa agora. Esses novos bárbaros partem tudo, instalam a violência onde ela não havia e até reacenderam os conflitos raciais.

Embora seja um lisboeta dos sete costados, houve uma época em que viveu em África, mais propriamente em Angola. Como é que foi lá parar?
É uma longa história. Olhe, passados aí uns seis ou sete meses do meu primeiro casamento, vejo-me metido no porão de um navio, ao lado de ciganagem, tipo Tarzan a caminho das Áfricas. Isto foi em finais dos anos 50, à volta de 1959. Eu ia lá ter com um amigo que comprara uma máquina Paillard, de 16 mm. Eu queria fazer filmes e também, se possível, formar um pequeno grupo de teatro itinerante. A aposta principal era nos documentários, no cinema de levantamento antropológico. Acontece que levava pouco dinheiro e mesmo esse foi roubado no barco. Ou seja, chego a Luanda sem conhecer ninguém e sem um tostão no bolso.

Não tinha combinado encontrar-se com um amigo?
Tinha. Mas esse amigo, que era suposto estar à minha espera em Luanda, falhou, não estava. Passei logo ali um primeiro susto, porque ele era de Benguela e aquilo é um país enorme, a distância de Luanda a Benguela é como daqui a Paris. Mas lá acabei por chegar.

E os projectos que levava na cabeça, sempre se concretizaram?
Não. Em pouco tempo, os sonhos desfizeram-se. Por exemplo, a máquina Paillard estava lá mas não havia película. Depois, o tal amigo acabou por morrer, foi dos primeiros portugueses a morrer no norte de Angola, ainda a guerra mal começara. Aliás, ou morreu ou suicidou-se. Parece que se suicidou, não aguentava ser militar.

O que é que decidiu fazer, nessa altura?
Fiquei para ali transplantado, longe de tudo. Entretanto o casamento foi à vida, já se sabe, e eu peguei no que havia, porque precisava de comer. Foi assim que, durante dois ou três meses, o meu trabalho consistiu em dactilografar o cadastro de tudo o que era carro entrado na colónia desde mil novecentos e troca o passo. Por ordem alfabética, AB-59-63, AC-24-72, etc, etc, etc. E lá estive eu a fazer aquela porcaria, com uma temperatura média de quarenta e tal graus centígrados e pelo menos 90% de humidade. Era o chamado «cemitério dos brancos».

As actividades culturais ficaram entre parênteses?
Não, não. Paralelamente, lá fui animar o cineclube local e comecei a escrever, à borla, no jornal de esquerda do sítio, que se chamava «O Intransigente». Às tantas, um camarada lá da repartição vai de férias, ou transferem-no, e é aí que durante alguns meses vou ocupar o lugar dele como examinador das cartas de condução. Logo eu, que não tenho carta nem nunca soube guiar!

Devia ser complicado.
Nem por isso. É que a maior parte dos candidatos que apareciam eram gajos com aqueles camiões enormes que levavam peixe seco para o interior, gajos que quando nasceram já sabiam conduzir. Esses tipos estavam automaticamente passados e íamos depois comemorar para o restaurante, comendo uns baldes de camarão, bebendo umas cervejolas, etc. Era uma festa.

Presumo que a festa não durou muito…
Claro que não durou muito. Estava eu descansadinho a fazer esta vida quando vem o engenheiro da repartição e diz que finalmente me ia tirar dali, para me colocar noutra sala qualquer. Percebi logo tudo e saí porta fora, sem dizer boa tarde. A não ser aos colegas, claro, para os quais me virei dizendo: «Até já, a gente encontra-se ali na esplanada». Ou seja, nunca mais voltei a pôr lá os pés.

Tinha para onde ir?
Não, não tinha. Durante uns quatro ou cinco dias fui para a praia, deitava-me, comia uns caranguejos e pensava: agora vou morrer aqui. Não morri. Voltei a não morrer. Ao sexto dia, o director do tal jornal onde eu já escrevia à borla, velho republicano maçon, convidou-me: «Oh Vitorzinho, gostava muito que viesses trabalhar comigo mas o jornal é pobre, só te posso pagar cinco contos». Eu nem hesitei. Pedi-lhe logo que me indicasse onde ficava a minha secretária. E assim fui parar à vida de jornalista.

[Continua]

O que aí vem (Bizâncio)

O Perfeito Cavalheiro – Maomé, Jesus e James Bond – Um rapazinho muçulmano encontra o Ocidente, de Imran Ahmad; A Cidade da Saúde, de Artur Portela; «Eu Faço Sexo Amoroso» – A Sexualidades dos Jovens pela Voz dos Próprios, de Cristina Pereira Vieira; Repensar Portugal – Apontamentos Político-Económicos, de António Marques-Mendes.

Poemas inéditos de Mário Castrim

No dia em que passam dez anos sobre a morte de Mário Castrim, Alice Vieira partilhou, no seu mural do Facebook, três poemas inéditos do jornalista e crítico televisivo do Diário de Lisboa. Transcrevo aqui os dois primeiros:

No retrato velho hoje cinzento
estava toda a família reunida.
– Este aqui és tu.
Este tu era eu – três anos, caracóis, calções
colete, botas.

Este sou eu.
É preciso guardar as provas. Os documentos.
Se um dia me fecharem as cancelas e
não me deixarem passar, aponto logo:
– Este sou eu.

– Passe – dirá o guarda que deve haver
na eternidade – e boa viagem, sim?

– Claro – dirá o menino
que entretanto busca em mim
as sete diferenças
como costuma fazer no desenho
do suplemento do jornal

***

Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa
que logo desde o início se entendeu
não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.
Daqui donde estou se vê que o Cabo é
perfeitamenhte ocidental o mais
ocidental possível.

Mais do que ele, só os nossos olhos.

Eles, para quem a terra não acaba nunca.
Eles, que tocam o ponto exacto onde
um sol de fogo prova que ela é redonda.

A única diferença é o farol. Mas se fores tu
de noite a olhar o mar, os barcos
podem ir à confiança.

Obrigado, Alice.

Lançamento de ‘O Concerto Interior’


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É já na quarta-feira, a partir das 18h30.

Faz hoje dez anos que nasceu, para mim, a blogosfera

Nasceu com a Coluna Infame. Dois meses e meio depois, criei o meu próprio blogue, para dialogar com a Coluna, para refutar a Coluna, para polemizar com a Coluna. Que saudades. Muito ao seu jeito, o Pedro Mexia, blogger entre os bloggers, aproveitou a efeméride para fechar mais um blogue. Esperemos já pelo próximo.

Um comunicado da Fundação José Saramago

Recebido no meu e-mail esta manhã:

«A Fundação José Saramago não recebe dinheiro da administração pública, seja ela central ou municipal. É sustentada pelos direitos de autor de José Saramago, que decidiu compartilhar uma parte do património acumulado ao longo de uma vida de trabalho com os seus contemporâneos. Sublinhamos estes dados, que persistentemente temos referido, na sequência de opiniões divulgadas sem qualquer consulta ou informação prévia de fácil acesso através da Fundação ou da administração pública.
Os estatutos da Fundação deixam claro que a sua atividade se desenvolve no âmbito da promoção da cultura, dos valores cívicos e dos direitos e deveres humanos, nos planos nacional e internacional.
A Casa dos Bicos é gerida pela Fundação José Saramago de acordo com uma concessão administrativa por dez anos, com possibilidade de ser ou não renovada. Até ao momento, e paradoxalmente, é a Fundação José Saramago que sustenta um edifício público emblemático de Lisboa, pela primeira vez aberto ao público. Não é a administração pública que sustenta a Fundação.
As contas da Fundação José Saramago são públicas e podem ser consultadas na sua página oficial, para além de entregues regularmente ao Conselho de Ministros, cumprindo, neste segundo caso, o legalmente exigido.
O trabalho da Fundação José Saramago pode ser acompanhado no dia-a-dia através da sua página web. Nela se dá conta de tudo o que a Fundação faz para o bem comum, ou se realça o que com o mesmo objectivo outros fazem.
No próximo dia 16 de novembro, José Saramago cumprirá 90 anos. A Fundação coordena uma série de atividades em Portugal e em diversos países.
Anunciaremos no dia 23 de outubro, às 11h00, em conferência de imprensa a realizar na Casa dos Bicos, o programa das comemorações do 90.º aniversário de José Saramago, que terão lugar em Portugal e em diferentes países do mundo, começando já em outubro nos Estados Unidos.»

Entrevista com Vítor Silva Tavares, tirada do baú (parte 1)

[Nota prévia – Esta conversa foi publicada no suplemento DNA, do Diário de Notícias, a 24 de Fevereiro de 2001. Na altura, Vítor Silva Tavares tinha 63 anos; agora, tem 75.]

Cercado de livros, chega a parecer um anjo rendido, um animal feliz. Chama-se Vítor Silva Tavares, é um tímido expansivo, tem 63 anos e o dom da conversação. A sua vida é fazer livros – na cave da & Etc – mas não gosta que lhe chamem editor. Não gosta, aliás, de muitas outras coisas, como as liberdades ilusórias e as leis do mercado. É também um intelectual de uma estirpe antiga, sempre à margem – por princípio e por vocação. Quase com pudor, concedeu esta entrevista, gravada numa tarde de chuva, entre baldes, alguidares e pingos de água que caíam do tecto

Vítor Silva Tavares não costuma dar entrevistas, muito menos quando são longas, como as do DNA. A razão é simples. Acha que não tem nada de relevante para dizer, «nada que possa interessar às pessoas». Além disso, é avesso à exposição pública e receia sempre que a conversa seja entendida como uma forma de se promover – logo ele, que abomina a lógica comercial, os lobbies e os esquemas de marketing que impõem gostos, tendências e modas.
Talvez por isso, fizemos um acordo. Antes da entrevista propriamente dita, falaríamos sem gravadores por perto. Para quebrar o gelo. Para conhecermos os gestos, a voz um do outro. Para aferirmos caminhos possíveis, áreas reservadas, zonas de cumplicidade. E assim aconteceu. No fim, já com a entrevista marcada, deixou-se a porta aberta ao eventual recuo de uma das partes. «Vamos a isto», disse Vítor Silva Tavares. «Se ficar bem, publica-se. Se não ficar, amigos como dantes.» A verdade é que a entrevista está aqui, à espera de olhos que a percorram, embora o último julgamento seja sempre do leitor.
A editora & Etc fica numa cave, ao Bairro Alto, na Rua da Emenda (uma toponímia plena de sugestões). Lá em baixo, à porta, Vítor Silva Tavares espera de esfregona, limpando a água do chão. Espaço minúsculo, não mais de 30 metros quadrados sob um tecto em abóbada, o subterrâneo assistiu a todas as pequenas glórias e angústias que a & Etc viveu ao longo de 27 anos. Ali se desenharam os livros, ali se discutiu até altas horas da noite (política, literatura e o que mais houvesse para discutir), ali se fumou e sonhou e sofreu e, tantas vezes, se dormiu.
Os livros da & Etc – no seu formato pouco ortodoxo (15,5 por 17,5 centímetros) – ocupam as enormes estantes de ferro encostadas às paredes, ou não fosse este igualmente o armazém da editora. Vítor Silva Tavares faz questão de explicar que ali ninguém recebe tostão: nem os escritores, nem os artistas gráficos, nem nenhuma das muitas pessoas que fazem com que os livros existam (em edições nunca inferiores a 300 e nunca superiores a 500 exemplares). É uma outra forma de dizer que as obras da & Etc são fruto de uma generosidade colectiva. São livros feitos com amor. Únicos. E por isso nunca reeditados – tal como não se reedita um filho, faz-se outro.
Finalmente, o gravador começa a enrolar a fita castanha (ficará assim durante quase três horas). Eu sabia que poderíamos começar de muitas maneiras. Calhou ser assim.

A & Etc funciona numa cave, esta cave onde conversamos agora, rodeados de livros, e que a morada torna ainda mais enigmática, ao chamar-lhe subterrâneo 3. Será que este é, literalmente, um espaço para a literatura underground?
Enquanto rótulo, não. Não é. Podemos obviamente extrair uma quantidade de conotações símbólicas do facto de estarmos instalados num subterrâneo – ainda por cima o 3, número mágico. Mas o que aconteceu com a descoberta deste espaço foi aquilo que eu poderia chamar uma teoria dos acasos. Que quer dizer mais ou menos o seguinte: o acaso nunca acontece por acaso. Talvez por isso, viemos parar aqui, ao sítio certo. Para nós, que nunca pretendemos qualquer tipo de visibilidade ou mediatismo, é evidente que um espaço desta natureza, colocado onde ele está, corresponde perfeitamente ao nosso gosto e à nossa maneira de ser.

Ao espaço do subterrâneo pode associar-se também uma certa ideia de subversão: fazer as coisas pela calada, na sombra, de forma clandestina, um pouco contra o que se passa cá fora, à superfície.
A verdade é que não houve determinação da nossa parte, porque nesse caso íamos também cair no rótulo. Era um rótulo ao contrário, mas ainda um rótulo. Aconteceu assim porque somos assim. Não foi preciso refugiarmo-nos neste subterrâneo e fazer disso uma bandeira.

E o espírito com que estão aqui, hoje, é o mesmo que vos animava quando fundaram a editora, nos finais de 1974?
Exactissimamente o mesmo.

Como é que se trabalha nesta editora? Quais são as regras de funcionamento?
É melhor irmos pela ausência de regras. Como é que funciona? Vamos lá ver: às vezes não funciona.

Mas, ao fim de 26 anos, este espaço mantém-se e continuam a sair livros…
Sim, o espaço existe, a renda paga-se, os livros fazem-se. No entanto, se virmos a coisa em termos do que é uma actividade regular – industrial, comercial, etc, etc –, ah bom, então digo-lhe que nesse aspecto não funciona. Vai funcionando. Há livros quando pode haver, não há livros quando não pode haver. Trabalhamos quando nos apetece; quando não nos apetece, não trabalhamos. Não há programa. Se me perguntar agora que livros é que vou fazer em Maio, Junho ou Julho, não sei responder. Não faço a mínima ideia. Só sei uma coisa: hão-de sair livros. Isso sei. Agora, que livros e exactamente quando? Logo se verá.

E se não aparecerem livros que o entusiasmem?
Não há problema nenhum. Ficamos à espera. Normalmente o que obriga as editoras a publicarem de forma contínua são encargos, responsabilidades, dívidas, empréstimos, por aí fora. É o mercado que obriga. É o mercado que puxa. É o mercado o motor. Aqui não é o mercado o motor. Nem pensar. O motor é a nossa vontade e disponibilidade, ou a ausência delas.

É possível subsistir assim?
A prática prova-o. É claro que temos de levar em linha de conta a minúscula dimensão da editora. É mesmo minúscula: não tem encargos, não tem pessoal. Deve ser concerteza das mais pequenas editoras do mundo. E é a nossa própria pequenez que nos livra dessa escravidão do mercado. Se não sair, não sai. Assim como assim, tudo parece indicar que é muito maior a oferta de livros do que a procura. E é óbvio que o tipo de obras que nós publicamos não se destinam a públicos alargados. São livros para uma minoria das minorias das minorias. Por vezes entra aqui alguém que diz: «Ah, lá comprei aquele livro do não sei quantos que tu publicaste». E eu respondo sempre: «Ah, foste tu!?»

Isso não o inquieta?
Nada.

Quer dizer que escolheram ficar fora do sistema? Foi essa a vossa opção?
Foi uma opção e é uma aptidão.

Mas como é que dois ou três «saudáveis malucos» podem pretender ficar do lado de fora e resistir tanto tempo, coisa que algumas das editoras que estão dentro do sistema não conseguiram?
Está a falar de economia?

Em última análise, sim.
Como está a falar de economia, não lhe sei responder em economês. Porque nós recusamos toda e qualquer forma de subordinação aos ditames da economia. Quando faço um livro, faço-o porque gosto dele, mais nada. Haja leitores ou não haja. Depois, se se vender, óptimo, porreiro, posso fazer mais. Se não se vender, não me arrependo nada de o ter feito. Na pior das hipóteses, olhe, em vez de fazer outro logo a seguir, espero mais algum tempo. Não nos vergamos, não senhor, a essa nova ditadura que invade tudo, que esmaga tudo.

Se, por absurdo, só fosse possível vender 50 exemplares de uma obra…
Sim senhor, se eu achasse que valia a pena… (Toca o telefone. Pára o gravador. Três minutos de conversa, a despachar). Sabe quem era?

Quem?
O João César Monteiro. Ligou-me para dizer que recebeu ainda agora um livro em que o João de Deus, seu «alter ego», aparece como personagem. Um livrinho publicado por uma pequena editora francesa, numa tiragem de 303 exemplares. Portanto, como vê, à escala global nem sequer estou sozinho.

À escala de França, até diria que essa editora consegue ser ainda mais pequena que a & Etc.
Pois é.

O não estar sozinho, como disse ainda agora, traz-lhe alguma espécie de conforto?
Sim. E é preciso acentuar o seguinte: a & Etc não é, nem deseja ser, uma editora profissional. Aqui nós somos amadores, no sentido primeiro da palavra.

No sentido em que amam os livros.
Exactamente. Somos amadores. A parte profissional é entendida do ponto de vista meramente técnico. Ou seja, sabemos trabalhar o lado material dos livros, mas o espírito com que as coisas são feitas, o espírito com que estamos dentro disto, é um espírito amador. Fazemos isto por gozo. Embora o gozo tenha a outra face da moeda. Passamos por muitos tormentos e angústias, porque a debilidade económica faz com que o nosso trabalho esteja permanentemente em risco. Sei que, a curtíssimo prazo, posso ter que fechar a porta. Mas admiti isso desde a primeira hora e a verdade é que já temos quase 30 anos disto.

Uma das características do mercado é que nunca vê com bons olhos gestos de rebeldia como o vosso.
Eu também não vejo com bons olhos o mercado, pá. E amor com amor se paga!

É um ódio mútuo?
Não lhe chamarei ódio, não é preciso chegar a tanto. Ou se calhar é. Se estivermos a falar do mercado como sistema, e até como ideologia, então sim, ponha aí a palavra ódio. Há uma recusa tão compulsiva que pode tomar as características do ódio.

A hipotética falência da & Etc não lhe tira o sono?
Repare numa coisa: mesmo se vendesse todos os livros de cada edição, nunca teria lucros. À partida, os livros estão condenados a dar prejuízo. Mas atenção, é um prejuízo calculado. Quer que lhe dê um exemplo, com números? Lá vamos nós falar economês. Supunhamos que esta casa chega ao fim do ano e tem um prejuízo de 1200 contos. Dividido por 12, dá 100 contos por mês. Bom, somos aqui uns tantos, podemos sempre repartir os gastos. Não era uma pena fecharmos a porta por tão pouco? Esse dinheiro não podia ser gastos numas quantas noitadas nas Docas, hum? Então pronto, em vez de gastarmos 100 contos nesses alegres vícios, gastamos os mesmos 100 contos neste outro alegre vício, nesta nossa amante. Porque a & Etc é uma amante.

Das exigentes?
Das exigentes, é verdade. Daquelas que puxam por muita lágrima.

Já lhe deu alguns desgostos?
Muitos, muitos. Tantos. Há sempre uma ilusão e sempre uma grande tristeza, quando sabemos que fizemos uma coisa bela e a vemos entrar no mais absoluto dos silêncios. Isso custa muito. Mas já lá dizia o Camões: aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes.

Não teme ser visto como um D. Quixote, alguém que luta contra gigantes mesmo quando já se percebeu que não passam de moinhos?
Bom, eu não entendo o D. Quixote como um tonto.

Nem era isso que eu queria dizer.
Eu sei, mas não me importo de aplicar a mim mesmo o termo de idiota. E há aí uma componente que em parte justifica esta maneira de estar e de ser. A verdade é que eu li desde bastante cedo, li muito e à maluca, li tudo o que me vinha parar à mão. E mercê dessas leituras, de miúdo e depois de adolescente, criou-se em mim um idealismo fortíssimo. Andando a pé ou de eléctrico, exactamente como hoje, eu levava sempre comigo livrinhos e romances que me emocionavam e me faziam olhar para a cidade como se ela estivesse dentro de uma ficção, uma aprazível ficção. Por um lado tinha que enfrentar a dureza da vida – aos 13 anos já era paquete de um escritório –, mas por outro lado refugiava-me nesses outros universos imaginários.

Tal e qual como D. Quixote, que também se refugiava nos livros…
Exacto. O que acontece é que as pessoas, quando têm de entrar na chamada idade adulta, com responsabilidades, mulher, filhos, essas coisas todas, deixam esses idealismos escondidos algures, como o Mário Soares deixou o socialismo dele na gaveta. Nesse aspecto, posso afirmar que não cresci. Não me vejo como um adulto cheio de responsabilidades. Posso até dizer que o meu trabalho é de uma muito alegre irresponsabilidade. Além do mais, pude garantir com isto um estatuto económico muito idêntico àquele que tinha quando nasci e cresci. Nasci pobre, muito pobre. E hoje continuo a ser pobre.

Provavelmente nunca quis ser rico.
Nunca quis, nem pensar nisso. Nunca tive tal apetência. Não senhor. São parcas as minhas necessidades e estou couraçado contra vícios aos quais sei que jamais poderei chegar.

Uma dessas parcas necessidades é viver com livros à volta, não é?
Sim, isso sim. E não apenas os livros. Longe disso. Olhe, eu também faço a minha comida e gosto muito de ir comprar os carapaus e de arranjá-los, fritá-los, isso tudo. E viver com as pessoas de que osto, com as pessoas que amo. E conversar. E se não me apetecer pôr aqui o pé, nem ponho. Esta casa não me obriga a nada, nem a mim nem a ninguém. É outra coisa espantosa: da porta para dentro, aqui vive-se em liberdade. E desta porta para fora, não.

Essa falta de liberdade de que forma é que o atinge?
Angustia-me. Não esqueça que tenho 63 anos e que comecei a ser lúcido, politicamente, a partir dos meus 17, 18 anos. Portanto, pude sofrer com a situação da ditadura política que tínhamos em Portugal. A sensação que eu tenho hoje, é de que se saíu dessa ditadura, política e policial, para uma outra ditadura. E como ditadura que é, ela oprime multidões e multidões e multidões, que até podem não dar por isso.

Porque existe uma ilusão de liberdade, é isso?
Existe uma ilusão de liberdade, chama-se-lhe democracia como um processo formal, mas as pessoas continuam obviamente oprimidas. Se é evidente que se garantiram uma quantidade de liberdades, ao mesmo tempo criaram-se novas formas, ainda mais complexas, de escravização das sociedades. No que é fundamental, acho que não se têm dado tantos passos como isso no sentido da libertação do homem.

Olhando para o seu caso, eu diria que há uma espécie de teimosia, uma persistente recusa de baixar os braços…
Talvez tenha alguma teimosia. Mas vejamos: acho que nunca tive a pretensão de mudar o mundo. Não quero é que o mundo, o mundo de que eu não gosto, me mude a mim. Ai isso não deixo. A haver teimosia, é só esta.

Por que é que a & Etc nunca tentou obter apoios financeiros do Estado? Foi para não ficar refém?
Olhe, foi por vergonha e por orgulho. Teria vergonha de estender a mão. E tenho orgulho em não o fazer.

[Continua]

Dois Dias

E de repente aparece do nada uma editora com ganas, capaz de ir recuperar um magnífico texto perdido de Vítor Silva Tavares, em tempos espalhado um pouco à balda pelas mesas do Café Montecarlo, quando esse ainda era um lugar de tertúlias e não uma loja da Zara. A prosa sempre a desconfiar de si própria, escrita em 1972 mas fresquinha que nem uma alface, está aí para quem a quiser apanhar. E em homenagem à heróica recuperação editorial desta maravilha, vou eu também recuperar qualquer coisa do baú: uma entrevista longa que o Vítor Silva Tavares me concedeu há uns anos, para o DNA (não sei a data exacta). Vou dividi-la em três partes. Espero que vos faça bom proveito. A mim, tanto na altura como agora, fez-me.

Apostas para o Man Booker 2012

As odds valem o que valem, mas segundo a Ladbrokes os apostadores parecem preferir Will Self, com Hilary Mantel logo atrás. Já a William Hill coloca Self e Mantel empatados na frente, com Alison Moore e Tan Twan Eng (também empatados) um pouco mais abaixo. Terça-feira ao fim da tarde se saberá.

Os pés pelas mãos

«Só que eu, e não é para contrariar, sou um muito mau (vamos, nada de exageros: um medíocre) trabalhador da escrita. Não tenho paciência. Não aprendi técnica literária. Não percebo puto de semiologia, nossa senhora. Chateei-me sempre de ler os professores de linguística e o como-deve-ser dos gramáticos. Não consigo levar um texto direito do princípio ao fim. Distraio-me, sabem? Brinco e falo a sério, meto os pés pelas mãos, já não sei onde vou, que burrices deixei atrás, que asneiras direi daqui a bocado. Acresce que não me importo nada com tais defeitos, se trejeitos ou efeitos do risco. Não sei, nesta instabilidade, se sou um anarquista ou um desesperado ou ambas as coisas ou mais ainda, como por exemplo um homem dividido por tantas multiplicações. À falta de melhor, direi que sou um poeta – embora o texto o não comprove devidamente. Sou um poeta que não sabe escrever mas escreve o seu não saber. (O leitor não tem nada com isso e o compositor, esse, compõe. Compõe isto, ó sorte malvada! Vai daqui um abraço para o senhor compositor. Amigo que estás aí com os dedos nas teclas, cautela com as gralhas, não te enganes. Para enganos, basta este.) Aqui para nós, estou-me nas tintas para a literatura, ou melhor, para as belas-letras. Artifício por artifício, prefiro o meu. Sempre é mais limpo. Digamos que tem os truques mais à vista. Até escrevo na primeira pessoa do singular, eu que sou uma pessoa do plural! Que fazer? Arrumar a bic, ir lá fora ver se chove? Isso faço eu quando não suporto mais o ridículo da situação, tal como ouço a rádio e almoço na Dona Felicidade e discuto política com os amigos e desço a pé a Avenida da Liberdade e atravesso o rio e vou ao cinema e subo no elevador a Calçada da Glória e paro nos Restauradores a ver as pessoas muito atarefadas e assim formiga vivo no monstruoso intestino urbano, tão poluídos ele e eu. Cumpro a minha dose de “realidade” e sei não houvera de saber que há um caixão desconhecido que espera por mim (lagarto lagarto lagarto). Mas cumprir a “realidade” é uma coisa e cumprir a escrita outra.»

[in Para já, Para já, de Vítor Silva Tavares, Dois Dias edições, 2012]

Uma infância rural

Trás-os-Montes
Autor: Tiago Patrício
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-898-616-478-2
Ano de publicação: 2012

Com o seu primeiro romance, Trás-os-Montes, Tiago Patrício (n. 1979) ganhou a edição de 2011 do Prémio Agustina Bessa-Luís e, desde já, um lugar de destaque na nova geração de ficcionistas portugueses. O que mais surpreende neste livro, para além da arquitectura narrativa perfeita, é a solidez estilística e a capacidade de recuperar, com extrema nitidez, a imagem de um certo Portugal à beira da mudança, imediatamente antes da integração europeia. Neste mundo rural fechado, os rebanhos ainda atravessam as ruas no seu percurso diário «entre os currais e os lameiros», a luz eléctrica é um luxo recente, os telefones em casa uma raridade, mas já se anuncia a abertura trazida em breve pelas auto-estradas (pagas pelos fundos comunitários) na morte simbólica do comboio a carvão.
Contra este pano de fundo social, marcado pela emigração, pelo peso da igreja, e por uma série de atavismos culturais, Tiago Patrício conduz-nos desassombradamente pelos labirintos da infância, esse tempo de experimentação e incerteza, de espanto e desamparo, de fascínio pelo que é proibido (a violência física, os primeiros cigarros, as revistas pornográficas) e resignação contrafeita diante do poder autoritário dos adultos. No centro do torvelinho que conduz à fatídica «última semana de aulas» – com o seu facto quase trágico (cujas consequências levam, depois, a um acontecimento verdadeiramente fatal) – está Teodoro, um rapaz ensimesmado, com «memória excessiva», tão «permeável» que corre o risco de se «dissolver». Ele está «quase sempre atrasado em relação às coisas», exposto à desordem de uma realidade que vai perdendo a simetria original e sujeito à humilhação de perceber que não há «resguardo» materno ou escolar que lhe valha. Através dele e dos seus companheiros mais desenvoltos (Edgar, Oscar e Raquel), vemos o território infantil desenhar-se com sombras, vertigem e crueldade. Não se chega a saber o que acontece a estas crianças depois de crescerem, mas intuímos que a «culpa demasiado grande» caída sobre uma delas é fardo que todas carregarão a vida inteira.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 115 da revista Ler]

O que aí vem (Casa das Letras)

O Bairro da Estrela Polar, de Francisco Moita Flores; O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto, de Deana Barroqueiro; Citações e Pensamentos de Camilo Castelo Branco, de Paulo Neves da Silva; D. Maria – A Vida Notável de Uma Rainha Louca, de Jenifer Roberts.

Democratas vs. Republicanos: diferenças e semelhanças nos seus hábitos de leitura

Segundo o site GoodReads.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

O anjo Esmeralda, de Don DeLillo (Sextante), por José Mário Silva
David Golder, de Irene Nemirowsky (Sistema Solar), por Ana Cristina Leonardo
Se Fosse Fácil Era para os Outros, de Rui Cardoso Martins (Dom Quixote), por Pedro Mexia
– Escolhas de Manuela Gonzaga

E ainda, na secção de Ideias e Debates, uma entrevista com Michel Zink, filólogo, especialista em literatura medieval e professor no Collège de France, por José Mário Silva

Alexandre Vasconcelos e Sá abre uma nova editora

O anúncio foi feito na Feira do Livro de Frankfurt, através da Publishers Weekly. A nova editora, chamada Divina Comédia, aponta para a publicação de 100 títulos por ano, tanto de ficção como de não-ficção. Alexandre Vasconcelos e Sá abandonou há poucas semanas a direcção da Objectiva.

A mecânica da coisa

A funcionária primeiro ficou calada, com os olhos muito esbugalhados, depois tamborilou os dedos e encolheu os ombros. Eu limitara-me a fazer uma pergunta. Uma simples pergunta, logo repetida para criar ênfase oratória. «Minha senhora, acha que isto tem alguma lógica? Vá lá, ponha-se no meu lugar e diga-me: acha que isto faz algum sentido?». Após o encolher de ombros, a funcionária esbugalhou ainda mais os olhos e dignou-se finalmente a dar uma resposta. «Eu cá não sei se tem lógica ou não tem lógica, eu estou aqui para cumprir ordens e as ordens que me deram foram estas.»
Recuemos um passo e expliquemos melhor o contexto deste diálogo de surdos. O palco é o balcão de uma junta de freguesia, a freguesia para a qual me mudei recentemente. Temendo ser multado pela EMEL, ao estacionar perto da nova casa, encetei uma verdadeira odisseia burocrática com vista à substituição do «selo de residente». Coisa complicadíssima, está bom de ver. Entre outras obrigações, tinha que alterar o domicílio fiscal nas Finanças e a morada em todos os meus documentos (BI, carta de condução e contrato de ALD). Depois de muito esforço – duas sessões de três horas de espera na DGV e cinco idas à repartição de Finanças, porque «o sistema continua em baixo» – lá juntei a papelada. Faltava, porém, um item: o atestado de residência.
Se há burocracia que me põe os nervos em franja, é esta. A burocracia que só serve para nos arreliar e nos fazer perder tempo, a burocracia preguiçosa, inútil e estúpida. Eu bem que tentei mostrar o contrato de arrendamento, com o meu nome e a nova morada lá escarrapachados, mais o recibo dos dois primeiros meses. Mas nada disso, ao que percebi, é suficiente. «O que o senhor tem que fazer», disse-me a tal funcionária, «é pedir o carimbo e a assinatura de dois comerciantes da zona, está a ver?». Eu não estava a ver. E foi então que fiz a tal pergunta. E obtive a tal resposta. Resumindo: o contrato de arrendamento não chega como prova, mas a assinatura de duas pessoas que nunca vi – e que nunca me viram antes, uma vez que acabo de chegar ao bairro – serve perfeitamente. Repeti argumentos, esbracejei, indignei-me uns bons minutos. A funcionária continuou de olhos esbugalhados e voltou a encolher os ombros. «São as ordens que tenho, o que é que quer que eu faça?» «Não faça nada», disse em voz baixa enquanto descia as escadas, «não faça nada que realmente não é preciso».
Enervações à parte, é óbvio que voltei dois dias depois, com todos os carimbos e assinaturas bem legíveis. Mas não foi fácil. A princípio, olharam-me de lado num café e num oculista, aparentemente «escaldados» com más experiências anteriores. No mini-mercado, disseram logo que não tinham tempo nem paciência para me atenderem. O que me safou foi o ar de bom rapaz, acho eu. Isso e a compreensão do gerente de uma loja de móveis da minha rua, bem como a simpatia do dono de uma boutique de roupa que fica mesmo ao lado. Safei-me com sorrisos e muitos salamaleques. «Por favor, é mesmo aí que tem de assinar, obrigadinho, afinal de contas vamos ser vizinhos, não é?». Pois é. E se eu tivesse outra cor de pele, um aspecto menos composto, umas olheiras de toxicodependente, um sotaque ucraniano? Será que conseguiria os malditos carimbos? Não perguntei isto à funcionária, claro, mas tenho a certeza que ela encolheria, mais uma vez, os ombros.
A odisseia não ficou por aqui, talvez porque existe uma espécie de lei de Murphy a pairar na minha relação com os trâmites burocráticos: o que pode correr mal, corre mesmo mal. Veja-se o caso da nova carta de condução. Quando me chegou às mãos, vinha errada: mantendo a minha morada antiga (aquela que eu pedi para mudar) mas com o código postal da nova! E casos destes repetem-se com uma frequência assustadora. Ao abrir conta num banco, por exemplo, pedi o respectivo cartão. As semanas passaram; nada. Fez-se uma segunda via e uns dias depois chegaram, quase ao mesmo tempo, os dois cartões: o pedido e o perdido. Ou seja, houve mais plástico cunhado em vão, mais desperdício, mais lixo e mais energias desperdiçadas, a juntar à nova carta de condução que não chegou a servir para coisa nenhuma.
Só porque a paciência tem limites, poupo-vos aos detalhes de outras desventuras porque passei, desde a transferência bancária que ficou bloqueada porque alguém digitou mal o meu número de conta (mas por que raio haveremos de arcar sempre com a incompetência dos outros?) ao mês e picos que fiquei à espera de gás – com manhãs e tardes perdidas por conta das equipas de peritos que estudaram, pormenorizadamente, a fuga oculta, e das empresas sub-contratadas para fazerem outra canalização, e das fiscalizações que nunca, mas nunca, podem ser para o dia seguinte.
Talvez eu tenha muito azar. Ou então uma espécie de malapata com os aspectos materiais da vida. Não me parece, contudo, que seja o único. À minha volta, ouço muitas histórias semelhantes. Histórias de pessoas perdidas em labirintos de papel, lutando pela sobrevivência em notários, repartições e conservatórias, abrindo garrafas de champanhe sempre que conseguem resolver o mais insignificante e mínimo dos assuntos. Histórias de desespero perante a máquina pesada do Estado, histórias da fúria legítima de cidadãos cumpridores a que ninguém dá ouvidos, histórias dos muitos dias que se esfumam com a senha n.º 578 na mão.
Certa vez, para me acalmar, um zeloso manga-de-alpaca apelou ao meu bom-senso, ao meu conformismo: «A mecânica da coisa é mesmo assim, amigo, não vale a pena exaltar-se.» Acontece que o problema é precisamente esse. Existe uma mecânica da coisa pública que serve apenas para esmagar o cidadão. Uma mecânica perversa, alimentada há muitos anos por um desleixo congénito que só conduz à mediocridade e ao imobilismo. Uma mecânica capaz de castigar quem não preencheu convenientemente – e com tinta preta – a alínea f) do modelo B («alto lá, olhe que assim não lhe posso dar seguimento ao processo»); ao mesmo tempo que fecha os olhos aos mais inconcebíveis crimes de colarinho branco (recorde-se o escândalo das prescrições judiciais ou a nunca travada evasão fiscal, que deixa impunes os que ganham muito e nada declaram).
Quando se lêem os relatórios da Comissão Europeia sobre as fragilidades da economia portuguesa, quando se questiona o porquê da baixa produtividade nacional e da lentidão com que respondemos às crises, era bom que alguém se lembrasse desta «mecânica da coisa», terrível e oculta como a fuga de gás da minha casa. Enquanto não se fizer algo que a elimine de vez, bem podem os candidatos a primeiro-ministro passear-se pela Europa, orgulhando-se da pronúncia de Tony Blair quando os chama pelos nomes próprios. Não conseguirão absolutamente nada. Portugal é como a funcionária da junta de freguesia. Não quer chatices, só cumpre ordens. No intervalo para almoço, faz malha enquanto debica uma carcaça com queijo e descasca as três tangerinas guardadas num saco de plástico, dentro da gaveta. Pica o ponto às cinco em ponto, Portugal. Só não quer que o chateiem. E se alguém reclama ou lhe pede satisfações, encosta-se ao balcão e repete que a «mecânica da coisa, amigo, é mesmo assim».

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em 2001]

Maravilhas da paternidade

Agora que lhe caiu o primeiro dente, o Pedro repetiu a pergunta: «E quando cai um dente à Fada dos Dentes, o que é que ela faz?» Durante estes meses todos, ele deve ter andado a pensar na questão, porque desta vez saiu-se logo com a resposta: «Eu acho que a Fada dos Dentes põe o seu dente debaixo da almofada, como nós. Depois vem outra Fada dos Dentes mais pequena buscá-lo. Quando essa Fada dos Dentes mais pequena perder um dente, ela vai deixá-lo debaixo da sua almofada. Então, vem outra Fada dos Dentes ainda mais pequena buscá-lo. E se essa Fada dos Dentes ainda mais pequena perder um dente, põe-no debaixo da sua almofada, claro. E então vem outra Fada dos Dentes ainda mais pequena do que essa, mais pequena até do que os micróbios, buscá-lo. Depois isto continua assim, sempre. Até que a última Fada dos Dentes é tão pequena, tão pequena, tão pequena, que desaparece.»

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John Updike sobre Mo Yan

Em 2005, Updike escreveu uma crítica a Peito Grande, Ancas Largas na revista New Yorker. Um excerto:

«This author, born in 1955 into a peasant family in northern China, sets a groaning table of brutal incident, magic realism, woman-worship, nature description, and far-flung metaphor. The Chinese novel, perhaps, had no Victorian heyday to teach it decorum; certainly both Su Tong and Mo Yan are cheerfully free with the physical details that accompany sex, birth, illness, and violent death.»

Depois da China, os EUA?

O blogger Carriço, que acertou em cheio na aposta em Mo Yan, garante que em 2013 o vencedor do Nobel será norte-americano. Cá estaremos para confirmar o prognóstico, sendo certo que eu voltarei a apostar numa América do Norte que fica mais a norte do que os EUA.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges