Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Os Transparentes, de Ondjaki (Caminho), por António Loja Neves
O Comboio das Cinco, de Luís Afonso (Abysmo), por José Mário Silva
– Revista Relâmpago n.º 29/30, Poesia e Revolução (Fundação Luís Miguel Nava), por António Guerreiro
A Civilização do Espetáculo, de Mario Vargas Llosa (Quetzal), por Pedro Mexia
António e Cleópatra, de Adrian Goldsworthy (Esfera dos Livros), por Luís M. Faria
– Escolhas de José Afonso Furtado

As mulheres que dominaram a edição britânica em 2012

Para o The Guardian, são seis: Hilary Mantel, J.K. Rowling, Kate Mosse (não confundir com a supermodelo), Julia Donaldson, Amanda Hocking e E.L. “50 Shades” James.

Dia das Livrarias

É hoje.

‘Blimunda’ e os 90 anos de Saramago


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O número 6 da Blimunda, revista digital da Fundação José Saramago, é integralmente dedicada ao autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis, assinalando o 90.º aniversário do seu nascimento. Com um novo grafismo, concebido pelo atelier Silva Designers, esta edição acolhe textos ensaísticos de pesos-pesados da crítica (Harold Bloom, James Wood, John Updike, Eduardo Lourenço, Manuel Gusmão, Luciana Stegagno Picchio, entre outros), além das rubricas habituais. Na secção infantil e juvenil, Luísa Ducla Soares e Andreia Brites analisam o livro que Saramago escreveu para crianças (A Maior Flor do Mundo). O download, gratuito, pode ser feito aqui.

Quatro poemas de Maria Teresa Horta

TUA ESPIA

Sou tua espia
Sou tua neta
Tua vigia

Sou tua asa
Sou tua guia
Tua passagem

Crio-te a fresta
Abro-te a porta
Teço-te a aura

***

RETRATO

Tinha uma silhueta
esbelta e quebradiça

O desassossego
no espelho das palavras

Olhos de anil
a boca indefinível
Andar audaz de culpa recusada

Tinha um trejeito
de pressa leve e esguia

Odes, sonetos
sonhos, verso e lava

Tinha paixões
que sempre rasurava

***

INFÂNCIA

Tabuinha de carvalho
menina de pulso
fraco

Língua de ouro e anis
branca de pele
e de nardo

***

PARTIR

Não sei
se te deixei partir

Mas num segundo
já não estás na minha mão
nem à minha frente no papel

Ficando eu sem saber
quem eras
quando te encontrei

Se o retrato que de ti
tracei te é fiel

Ou se de tanto te inventar
eu te perdi, por entre
as florestas das histórias

Penumbras dos palácios
Pensamentos, poesias e diários
Oceanos e ventos

Pois nem sequer
percebo se por mim
te afastei ou te larguei

Se obstinada fugiste
ou te esqueci
Se a Torre onde te pus é de Babel

E dela partirás
para viver a única
paixão da tua vida

Não, nem sequer sei
qual foi o meu olhar
pousado em ti

Se com ele te espiei
te persegui
E no espelho onde te vias

Eu te olhei

[in Poemas para Leonor, Dom Quixote, 2012]

Logo à tarde


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Uma nova editora que é uma Ilha

No Porto, há ilhas que são bairros dentro de outros bairros, geralmente bolsas de pobreza junto a zonas residenciais abastadas. Agora, no Porto, passa a haver outro tipo de ilha. Uma Ilha com maiúscula, apesar da natureza «pequena, muito pequena» do projecto. A nova editora nasceu em Outubro e propõe-se editar «obras de autores cuja qualidade, independentemente do seu muito ou pouco reconhecimento público, seja inegável». A estreia é com o volume Mulheres de Armas – Doze histórias sobre o sexo fraco, antologia de contos sobre mulheres, alguns inéditos em português, «marcados por personagens femininas insubmissas, de carácter por vezes sombrio».
Por enquanto, os contornos da Ilha podem ser descobertos numa página do Facebook, aqui.

Matéria raríssima

Ephemeras
Autora: Inês Lourenço
Editora: Companhia das Ilhas
N.º de páginas: 44
ISBN: 978-989-8592-14-9
Ano de publicação: 2012

As efémeras são insectos que «eclodem à superfície de alguns rios, nos limos ou nas algas, pelos fins de Junho ou Agosto». Criaturas frágeis, de «ínfimo corpo», duram apenas 24 horas – «curta existência» onde cabe, comprimida, uma vida inteira (acasalam e põem ovos, voam freneticamente agitando as suas asas verticais, acendem-se e logo se apagam no «grande final aéreo», para o qual se prepararam em lenta metamorfose, durante cerca de dois anos, antes da eclosão). Os textos breves de Inês Lourenço assemelham-se às efémeras na urgência e na delicadeza. Falam de coisas preciosas mas voláteis, coisas que se foram perdendo: o misterioso latim das missas (substituído por uma «liturgia pimba»); as casas como lugares onde já não se nasce, nem morre; o peso do nome que nos dão; os prazeres tácteis (a «comunhão erótica» com os livros em papel, inexistente nos sofisticados e-books; ou a «luxúria apoteótica» dos frutos e suas «polpas macias», «arredondadas promessas de sumo»); as cartas de amor ridículas, em envelopes de forro violeta, brevemente enfiadas no decote «como para lhe transmitir algo da própria pele»; fotos de família em caixas de sapatos, «de que já ninguém lembrava os sapatos».
A maioria destas micro-histórias, no seu exercício da melancolia, está no limiar do poema em prosa ou da crónica (mas uma crónica que não quer ir a lado nenhum, antes se suspende na observação de detalhes ou súbitas fulgurações). Há também esboços ficcionais com desfechos irónicos, cruéis, surpreendentes ou de escolha múltipla. Inês Lourenço tem a noção exacta do que é a arte da miniatura: trabalhar as palavras como matéria raríssima que não se pode desperdiçar.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O blogue das aspas desnecessárias

Ele há quem use aspas por tudo e por nada. E ele há quem se dê ao trabalho de o assinalar.

Mäelstrom

1. No meio do mar, um vórtice. É como um buraco negro, um monstro de boca imensa e sôfrega, capaz de devorar navios de quatro mastros. Mesmo quando se inspiram em fenómenos verdadeiros, como o Moskstraumen (nas ilhas Lofoten, Noruega), remoinhos deste calibre só existem na ficção. O mäelstrom que ali se forma, uma conjunção de correntes fortes com marés de grande amplitude, é deveras impressionante mas nada tem a ver com as descrições bíblicas que dele fizeram Jules Verne, em 1870, nas Vinte Mil Léguas Submarinas (já perto do fim, quando o capitão Nemo permite que o Nautilus seja apanhado pela imensa espiral aquática), ou Edgar Alan Poe, muito antes, em 1841, num conto literalmente vertiginoso intitulado Uma Descida ao Mäelstrom.

2. No início da história, Poe coloca o seu narrador no topo de uma falésia altíssima, frente às Lofoten, junto a um velho marinheiro que três anos antes «desceu» ao coração do mäelstrom e sobreviveu para contar. Logo descobrimos que este segundo narrador afinal não é velho, antes viu o cabelo enbranquecer em poucas horas devido ao impacto de uma experiência-limite, como «a nenhum mortal alguma vez foi dado viver». Velejador corajoso, ele costumava pescar com os dois irmãos em águas a que poucos se atreviam, nomeadamente nas proximidades do mäelstrom, a que sempre escapavam por saberem a hora certa em que o dito se formava e ganhava ímpeto. Uma tarde, porém, as circunstâncias propiciam a catástrofe. Um furacão aparecido do nada deixa-os à deriva e ao alcance do remoinho. Um dos irmãos é logo projectado borda fora, enquanto os outros dois assistem, transidos de horror, ao modo como o que resta do seu navio vai percorrendo circularmente as paredes do grande vórtice. A dado momento, acontece uma espécie de suspensão do pânico. Consciente de que não se vai salvar, perdida a esperança, o marinheiro ganha uma súbita lucidez: «Comecei a pensar em como era magnífico morrer desta maneira, (…) diante de uma tão maravilhosa manifestação do poder de Deus». Entrega-se então à beleza assustadora do mäelstrom, quando a lua cheia (aparecendo numa súbita clareira entre as nuvens) ilumina as lisas paredes de água e forma um arco-íris no ar saturado de vapor e espuma, bem no fundo do turbilhão.

3. É esse desprendimento que o salvará. O irmão que restava faz o que se espera de um ser humano normal. Agarra-se ao que pode, incapaz de raciocinar, paralisado de medo, e acaba por ir ao fundo com o navio. O sobrevivente, esse, surpreende-nos com a sua frieza e capacidade de discernir o que se passa à sua volta. Enquanto assiste, resignado, ao modo como as águas giram em torno de um eixo, apercebe-se do diferente comportamento dos objectos apanhados pelo remoinho. Os maiores descem mais depressa, o que é questão de bom senso. Menos óbvia será a dedução decisiva: para objectos de massa igual, os de forma esférica descem mais depressa; os de forma cilíndrica, mais devagar. Ele agarra-se então a um barril e lança-se às águas, o que lhe permite aguentar o tempo suficiente para o mäelstrom perder a força, trazendo-o de novo, exausto mas vivo, até à superfície refeita do mar. O detective Dupin resolvia os casos assim: atento aos detalhes, deduzindo, raciocinando. Que o narrador consiga a mesma coisa, sobretudo em circunstâncias tão extremas, já desafia a imaginação e a verosimilhança. Nas linhas finais, ele admitirá que ninguém acreditou na sua história e que também não espera que o primeiro narrador acredite. Tem razão. Nós, leitores, que assistimos a tudo pelo olhar tíbio desse ouvinte assustado, nunca chegamos a acreditar. Mas a força da história e das suas esmagadoras imagens não é menor por causa disso.

4. É irresistível ver no mäelstrom uma metáfora. O caos que não controlamos e nos devora. Um país em crise, um amor falhado, a ausência de futuro. Queríamos todos perceber o que nos pode salvar. Os barris estão talvez ali, à nossa frente, mas não os vemos, cegos com a perspectiva do abismo.

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]

Três poemas de Joana Serrado

‘Doem-me os cafés da minha cidade
os que fecham ao domingo
os que fecham para obras
os que fecham para férias
os que fecham indefinidamente

os que fecham por fechar
os que não precisam de fechar e se trespassam trespassando-me.

Sei que vou morrer com eles, sei que vou morrer sem eles.

Sei que o teu corpo é um corpo perecível, corruptível.
Sinto a tua morte nos meus ossos e não consigo salvar-te.
A tua frigidez, a tua alvura apodrecida
a maneira como os teus maxilares se adormecem um no outro.

Só o perfume das violetas que brotam do teu corpo me faz acalmar.’

in Autonecrografia de uma Península

Dói-me a cidade que escolhi para morrer.
Não tenho lugar para escrever um poema de amor.

***

BOXES

Vejo do topo das escadas os 140 lugares indisponíveis
para as palavras de amor.

Como o que eu procuro não se encontra catalogado
ando aqui por cima,
entre o gás
as nuvens
e os pequenos sofás verdes
à espera de entrar.

Encontro o meu lugar vago
todos os lugares vagos com livros que ninguém lê.

***

OS ESTATUTOS DO AMOR

1. (Direito à Possibilidade)
Que todo o abraço seja tão contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão nos meus cabelos.

2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que a minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.

3. (Direito à Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume e sobreviver à sua acidez sem as desflorar.
Que o prazer não precisa de extrema-unção mas que a unção do prazer seja extrema.

4. (Direito à Perfeição)
Que a palavra “amor” nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.

[in Guarany, 4Águas Editora, 2012]

O que aí vem (Orfeu Negro)

Presos, de Oliver Jeffers (trad. de Rui Lopes, Orfeu Mini); Intervalos do Cinema, de Jacques Rancière (trad. de Luís Lima).

Formas de cair

In Situ
Autora: Inês Dias (com ilustrações de Daniela Gomes)
Editora: Língua Morta
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-989-97718-4-0
Ano de publicação: 2012

Editora da Averno e da revista Telhados de Vidro, Inês Dias publicou o seu livro de estreia no final de 2011: Em Caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado (tea for one). Logo no primeiro poema dessa recolha, ao aperceber-se da passagem do tempo sobre a rua da infância, o sujeito poético sente «o sol a queimar o futuro / e o desmoronar tímido / da última casa em que podia / deixar confiadamente o coração». O tom de lamento atravessa o livro inteiro, é uma espécie de música em que a autora se compraz, enquanto olha de frente a morte que tudo cerca e da qual foge, aceitando a inevitabilidade da perda e a natureza tão perecível da beleza.
Esta toada melancólica mantém-se no segundo livro, In Situ, mas as imagens tornaram-se mais duras, mais cortantes: «Quero um amor que tenha / a lealdade de um cancro, / que alastre apenas dentro de mim / e me escolha os ossos / com dedos ligeiros mas demorados / de nódoa negra». Há também o «coração no fio», «sangue emparedado» e uma delicadeza que magoa: «Aprendi a bordar / iniciais, às vezes na própria pele, / a construir diques cada vez mais frágeis / de palavras».
A morte volta a circular por estas páginas como uma ameaça, sempre à espreita «para reclamar o seu rebanho de sombras». À margem da vida – e dos seus «dias armados de pedras» – fica a aguda consciência de estar «do lado errado», esse território onde ninguém parece capaz de suster «o avanço das águas». Se os «compromissos com o absoluto» estão fora de questão, é preciso procurar «um sentido codificado dentro de / outro sentido como um tiro no escuro». A indeterminação contamina tudo, espalhando-se como as metástases de um «tumor enferrujado».
Inês Dias procura novas «formas de cair», outras aproximações possíveis à matéria negra de uma realidade despida de mistério. Mas, no meio de tanta desolação, de tanto desconsolo, não deixa de entrever a recôndita e talvez inesperada força de um gesto poético que «perturbasse destinos, / acordasse motins serenos, fosse o grão / de pólen no mecanismo sensível do mundo».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Sugestões de Natal, por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa
A Esquerda Radical em Portugal e na Europa – Marxismo, Mainstream ou Marginalidade?, de Luke March e André Freire (Quidnovi), por António Guerreiro
Primeiros Poemas – As Mãos e os Frutos – Os Amantes Sem Dinheiro, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
As Vozes da Diferença – A Vaga Democrática Árabe, de Álvaro de Vasconcelos (Bizâncio), por Luísa Meireles
Quem paga o Estado Social em Portugal?, coord. de Raquel Varela (Bertrand), por Rosa Pedroso Lima
Ephemeras, de Inês Lourenço (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva
– Escolhas de Francisco Frazão

Outono dos Livros


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Na Biblioteca Nacional, para a semana (de terça a sexta-feira).

Bad Sex Awards 2012

É cada um pior do que o outro. E as Cinquenta Sombras de Grey nem sequer conseguiram chegar à shortlist.

Primeiros parágrafos

«Eu entendia o ódio com que o guarda da alfândega me olhava. Era um oficial de farda nova e completa, botas engraxadas, patentes brilhantes, talvez sessenta anos, talvez pai de alguém da minha idade. O compartimento tinha quatro lugares. A minha mala estava sobre a cama de cima, à esquerda. Eu estava à espera no corredor do comboio, entre toda a gente que também esperava. Quando chegou a minha vez, entrei. Ele estava de pé, a segurar o meu passaporte aberto à sua frente, como se me comparasse com a fotografia mas sem olhar para ela, apenas a fixar-me, severo, de ferro.
O seu olhar punha o meu corpo inteiro em tensão. Eu entendia essa tensão. Ali, significava ordem. Esse era também o motivo para o aparente ódio, ou desprezo, com que me olhava. Afinal, não era ódio, era disciplina.»

[in Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto, Quetzal, 2012]

Passos em falso

Há Dias
Autores: Bénédicte Houart e João Filipe Marques
Editora: &Etc
N.º de páginas: 81
ISBN: 978-989-8150-38-7
Ano de publicação: 2012

Este livro nasce do diálogo tenso entre duas linguagens, uma espécie de toca-e-foge entre os curtos poemas em prosa de Bénédicte Houart e as fotografias estilizadas de João Filipe Marques. Os poemas falam-nos da passagem do tempo como «puro terror» que destapa a fragilidade última da experiência humana. O discurso avança aos tombos, tacteando, suspendendo-se à beira do vazio: «Dias em que não terminamos nenhuma frase, como se nos arrependêssemos até da primeira que pronunciámos, e se não nos lembramos dela, que importa, lembramo-nos bem de todas aquelas que guardámos para nós até as gengivas sangrarem.»
Qualquer coisa ata a língua, faz com que se torça. A voz ergue-se de um lugar estilhaçado. Pelo contrário, as imagens exibem um certo rigor geométrico que impõe ordem ao mundo: quatro pedras soltas criam um plano cartesiano, uma cama desfeita exibe a ausência de quem nela dormiu, há sombras estendendo-se no chão, texturas metálicas, persianas, um copo caído, portas trancadas ou entreabertas, efeitos de luz, uma página de O Coração das Trevas (Joseph Conrad) na língua original.
O sujeito poético enumera «passos em falso» – uma arte de fracassar – como quem se resigna a «morrer logo de susto e de beleza». Tudo o que se diz é «impropriamente dito», por isso mais vale esperar que os objectos falem «em seu próprio nome». Mas eles são meras assombrações, fantasmas na página. Então o que sobra é uma forma de silêncio. A língua desata-se só para ficar «encostada ao céu da boca»: «Somos sobreviventes. A vida que quisemos, não a tivemos. Aquela que temos, não a escolhemos. Veio-se-nos. Faltou-nos uma vocação, essa para vivermos a única vida que realmente nos importava.»

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto (Quetzal), por Cristina Margato
Crónicas dos (Des)feitos da Guiné, de Francisco Henriques da Silva (Almedina), por José Pedro Castanheira
Há Dias, de Bénédicte Houart e João Filipe Marques (&Etc), por José Mário Silva
Rumor Branco, de Almeida Faria (Assírio & Alvim), por António Guerreiro
Axilas & Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante), por Pedro Mexia
– Escolhas de Pedro Dias de Almeida

Lançamento de ‘A Piada Infinita’


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É o acontecimento editorial do ano: a obra gigantesca de David Foster Wallace (1200 páginas e infindáveis notas de rodapé), finalmente em português. Oportunidade para celebrar também os 25 anos da editora Quetzal.

O que aí vem (Bizâncio)

Os Cinemas de Lisboa – Um Fenómeno Urbano do Século XX, de Margarida Acciaiuoli; Alerta!! Pelos Burros, de Paulo Caetano; A Quinta Musa, de José Sasportes; Tudo nos Separa, de Cecily von Ziegesar.

Colóquio Eduardo Prado Coelho na Gulbenkian

Acaba hoje.

Divina Comédia estreia-se com livro do novo Prémio Nobel

Para marcar o nascimento da sua nova editora (Divina Comédia), que só começará a publicar regularmente em 2013, Alexandre Vasconcelos e Sá apostou no Prémio Nobel da Literatura 2012, o chinês Mo Yan, de quem será dado à estampa o romance Mudanças. Assinale-se também que o único livro de Yan editado até agora em Portugal, Peito Grande, Ancas Largas, acaba de ser reeditado pela Ulisseia.

Primeiros parágrafos

«Estou sentado numa sala, rodeado de cabeças e de corpos. A minha postura é conscientemente congruente com a forma da minha dura cadeira. É uma sala fria do edifício da Administração da Universidade, com paredes apaineladas em que havia quadros à maneira de Remington e janelas duplas que a defendiam do calor de novembro, protegida de sons administrativos pela zona de receção na qual o tio Charles, o senhor DeLint e eu tínhamos sido recebidos.
Eu estou aqui.
Três caras ocuparam lugar em cima de casacos desportivos de verão e largas gravatas de seda do outro lado de uma mesa de conferências de pinho polido que brilha com a luz – que parece uma teia de aranha – do meio-dia do Arizona. São os três deões: o das Admissões, o dos Assuntos Académicos e o dos Assuntos Desportivos. Não sei a qual corresponde cada cara.»

[in A Piada Infinita, de David Foster Wallace, trad. de Salvato Telles de Menezes e Vasco Teles de Menezes, Quetzal, 2012]

Lançamentos do dia

A estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens:


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E o primeiro passo de um novo projecto editorial (a Parsifal, de Marcelo Teixeira, ex-Oficina do Livro):


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Quatro poemas de António Carlos Cortez

ARGILA DO SONO

A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos

Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)

***

ARTE POÉTICA E NÃO

A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.

***

POESIA

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças

***

AO LEITOR

Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?

E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és

ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos

aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)

[in Linha de Fogo, Licorne, 2012]

Vila-Matas lê textos seus, logo à tarde, em Lisboa

Vai ser no Anfiteatro de Química do Museu de História Natural e da Ciência, na Rua da Escola Politécnica, a partir das 18h00. Enrique Vila-Matas e os seus textos, lidos em voz alta. Em dia de greve à austeridade, esta é uma forma de dar vivas à literatura.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Contos, de Luigi Pirandello (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Quando a China Mandar no Mundo, de Martin Jacques (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Uma Cultura da Informação para o Universo Digital, de José Afonso Furtado (Fundação Francisco Manuel dos Santos), por José Mário Silva
– Escolhas de Patrícia Portela

Election Day

Do alto da minha sapiência analítica, aposto que o mapa eleitoral dos EUA vai ficar azul o suficiente (297 votos no Colégio Eleitoral contra 241) para que Barack Obama possa cumprir o seu segundo mandato na Casa Branca.

Energia Clinton para o motor de Obama

Com os seus cobiçadíssimos 13 votos no Colégio Eleitoral, a Virginia pode ser um dos «campos de batalha» eleitoral onde se desempatará, amanhã, uma das Presidenciais mais renhidas de sempre nos EUA. A média das muitas sondagens feitas nas últimas duas semanas apontam para uma ligeiríssima vantagem de Barack Obama sobre Mitt Romney (48% contra 47,7%), uma diferença ainda mais curta do que a verificada nos outros principais swing states: Ohio (2,9% para Obama), Florida (1,8% para Romney) e Colorado (0,6% para Obama). Acresce que este estado relativamente pequeno – oito milhões de habitantes – só se tornou azul (democrata) nas últimas eleições, em 2008, depois de ter sido vermelha (republicana) desde 1964.
Compreende-se assim a forte aposta no último comício de campanha na Virginia, sábado à noite, com a presença de dois presidentes dos EUA: o actual, em luta por um segundo mandato; e Bill Clinton, que governou o país em tempos de prosperidade (1993-2001) e se tornou um dos principais trunfos políticos de Obama, desde o seu galvanizador discurso na convenção democrata, em Setembro. No enorme anfiteatro ao ar livre de Jiffy Lube Live, em Bristow (Prince William County), 24 mil apoiantes levantaram cartazes azuis com a palavra-chave da campanha deste ano («Forward!») e não se cansaram de gritar «Mais quatro anos! Mais quatro anos!», colocando momentaneamente em suspenso a ideia, cada vez mais generalizada, de que a onda popular em torno de Obama é muito menos intensa este ano do que foi em 2008.
Em noite de temperaturas muito baixas (o termómetro desceu aos quatro graus, com rajadas de vento gélido), o comício começou por oscilar entre o religioso – uma oração dita por um pastor baptista – e o profano: o hino nacional cantado pela Miss América 2010, com toda a gente de mão no peito. Seguiu-se o primeiro discurso forte da noite, com ataques a Mitt Romney por parte do ex-governador e candidato ao Senado Tim Kaine, e o momento por que muitos espectadores esperavam: o mini-concerto acústico de Dave Matthews, que apareceu em palco de guitarra em punho, sem a sua banda, mas com repetidos apelos à necessidade de convencer toda a gente a votar em Obama.
A primeira grande explosão de euforia deu-se com a entrada em cena de Bill Clinton. Muito rouco, o antigo presidente começou por ironizar, encolhendo os ombros: «desculpem-me, mas perdi a voz ao serviço do meu presidente». Se perdeu a voz, não perdeu os dons de oratória, nem a capacidade de desferir golpe atrás de golpe a Mitt Romney e aos seus planos, que ameaçam «destruir tudo o que de bom foi feito por Obama até agora»: 5,5 milhões de novos empregos, a retirada das tropas do Iraque, os sucessos diplomáticos («conseguiu aumentar os nossos amigos no plano internacional e diminuir os nossos inimigos»), a aposta na reforma do sistema educativo (com a contratação de mais professores), a ampliação dos cuidados de saúde para todos, o salvamento da indústria automóvel. A propósito deste último tema, Clinton aproveitou para fazer um dos ataques mais duros a Romney, assinalando que o candidato republicano não só nada fez para salvar as grandes empresas de Detroit da falência como mentiu ao apoiar um anúncio em que se dizia que a Jeep ia deslocalizar postos de trabalho para a China (na realidade, vai fazer uma nova fábrica no Oriente, mantendo ou ampliando a força laboral nos EUA). Pior ainda, reincidiu na mentira em anúncios posteriores, lamentou Clinton. «Quando eu era pequeno, se me apanhavam a meter a mão na jarra dos bolinhos, corava e desaparecia dali para fora, envergonhado. Mitt Romney não só não cora como volta a meter a mão na jarra.» Pelo contrário, Obama tem carácter e «a filosofia certa», sendo o único que merece ganhar, resumiu no fim da sua intervenção, depois de garantir que está mais entusiasmado agora do que há quatro anos. Uma frase com algum grau de ambiguidade, diga-se, já que nas primárias de 2008 começou, naturalmente, por apoiar Hillary Clinton. Há de resto quem veja neste seu empenhamento uma forma de preparar o terreno para que a actual Secretária de Estado se lance na corrida à nomeação democrata em 2016.
Quando subiu por fim ao palanque, após um dia cansativo em que passou por três outros estados (Ohio, Wisconsin, Iowa), Obama não se esqueceu de agradecer a energia motriz que Bill Clinton confere à campanha: «Ele é o grande explicador (explainer-in-chief), o homem que nos mostra as coisas como elas são.» E lembrou que o rival republicano se opôs nos anos 90 ao plano económico de Clinton (cujo mandato terminou com um excedente orçamental histórico, logo depois desbaratado por George W. Bush): «A aritmética de Romney funcionou tão mal na altura como funciona agora.» Num discurso em crescendo, Obama reapropriou-se de um lema de 2008 («só nós sabemos o que a verdadeira mudança quer dizer»), recapitulou as suas promessas cumpridas e garantiu que irá fazer no segundo mandato o que não conseguiu no primeiro, muitas vezes por obstrução da maioria republicana no Congresso. «Não me importo de ficar ainda com mais cabelos brancos e estarei ao lado de todos os que, nos dois partidos, mostrarem vontade de resolver os problemas que enfrentamos» – uma referência indirecta ao governador republicano de Nova Jérsia, Chris Christie, com quem acompanhou esta semana os efeitos devastadores do furacão Sandy na costa atlântica.

De capuz amarelo na cabeça e manta vermelha sobre os joelhos, para se proteger do frio, Kindness Pigford sorria, exultante, a ouvir as palavras de Obama. Aos 45 anos, esta funcionária dos caminhos de ferro, na Virginia desde 2006 (antes vivia em Newark, numa casa alugada a um senhorio português), disse ao Expresso que os apoios sociais são um factor essencial da sua opção pelos democratas, até porque a filha de 26 anos, licenciada mas no desemprego, ainda não saiu de casa e depende dos seus parcos rendimentos. «Em caso de desinvestimento nos transportes públicos, eu posso ser despedida e não sei o que vai ser de nós. Tenho medo que o Romney ganhe, porque se ele ganhar vamos voltar ao século passado, com uma sociedade para os ricos e outra para os pobres.»

De calções, sweatshirt e boné de basebol, Daniel Marshall, 35 anos, admite que veio sobretudo pela música. «O Obama foi esperto em trazer o Dave Mathews. Muitos dos que vieram hoje são fãs. Ele é da Virginia, é um dos nossos.» Marshall trabalha numa estação de rádio especializada em programas desportivos e sempre viveu em Manassas, a poucos quilómetros de Bristow. «Não digo que seja perfeito, porque também cometeu erros, mas Obama é a nossa melhor escolha. Estamos aqui a ouvi-lo e vê-se que é alguém em quem se pode confiar.» Ao contrário de Romney: «Esse já mudou tantas vezes de opinião, e em tantos assuntos, que não consigo levar a sério nenhuma das suas propostas.»

Nos momentos finais do discurso, Obama pede um último esforço aos seus apoiantes: «Agora é a vez dos voluntários. É a vez de quem vai bater às portas. É a vez de quem faz os últimos telefonemas para convencer os indecisos. É a vossa vez. Porque, numa democracia, são vocês que têm o poder.» Sentada na plateia em êxtase, ajeitando a manta vermelha, sorrindo sempre, Kindness não podia concordar mais.

[Texto escrito em Washington, ao abrigo do programa José Rodrigues Miguéis, da FLAD, e publicado na edição online do jornal Expresso]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Concerto Interior – Evocações de um poeta, de António Osório (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
– Verão Sem Homens, de Siri Hustvedt (Dom Quixote), por Luís M. Faria
– Contos Escolhidos, de Carson McCullers (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
– A Ilha, de Sandor Márai (Dom Quixote), por Pedro Mexia
– Escolhas de Paola D’Agostino

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges