2013

Ao contrário do que desejei há um ano, houve em 2012 mais austeridade do que esperança. Para 2013, não faço vaticínios. Olhando para o estado do país (e, já agora, do Sporting), seria fácil dizer que a situação não pode ficar pior do que está. Mas todos sabemos que pode ficar pior. Aliás, todos sabemos que vai mesmo ficar pior. Por isso, desejo apenas que consigamos todos resistir o melhor possível a este apocalipse económico (e, já agora, desportivo). Em 2014 cá estaremos, espero que já com um futuro digno de ser vivido no horizonte.
Também por isso, porque não deixo de acreditar no futuro dos meus filhos, pedi à Alice para desenhar o desejo de bom ano para todos os leitores deste blogue. Ei-lo:

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Balanço do ano 2012, por Ana Cristina Leonardo, António Guerreiro, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa
– Conversa com Susana Moreira Marques, a propósito do livro Agora e na Hora da Nossa Morte (Tinta da China), por José Mário Silva
A Colecção Henrique de Carvalho: Memórias de um Explorador, de Manuela Cantinho (Sociedade de Geografia de Lisboa), por António Loja Neves
A Cortina dos Dias – Fotografias 1970-2012, de Alfredo Cunha (Porto Editora), por Cristina Margato

A nobre arte do caminhante que se perde nos bosques

Caminhada
Autor: Henry David Thoreau
Título original: Walking
Tradução: Maria Afonso
Editora: Antígona
N.º de páginas: 83
ISBN: 978-972-608-225-5
Ano de publicação: 2012

A 23 de Abril de 1851, no Concord Lyceum, em Massachusetts, Henry David Thoreau proferiu uma palestra que viria a fixar-se como um dos textos essenciais da sua filosofia da Natureza. Esse discurso, breve mas categórico, é agora recuperado em magnífica tradução de Maria Afonso, juntando-se no catálogo da Antígona a Walden ou a Vida nos Bosques (1854), obra maior de Thoreau e corolário de algumas das ideias propostas nesta Caminhada.
A tese principal é bastante prosaica: «Deixai-me viver onde quero. De um lado, fica a cidade; do outro, a natureza; e eu cada vez mais me afasto da cidade para me embrenhar na natureza.» No fundo, sugere-se o regresso a um estado original de comunhão com o mundo, anterior aos excessos destrutivos do progresso civilizacional e à lógica de submissão das leis sociais, que domesticam o homem e amaciam os seus instintos. A caminhada, para Thoreau, exige o imprevisto dos atalhos que nos levam onde nunca fomos, uma entrega quase religiosa ao acto de andar, um alheamento «de todas as preocupações terrenas» (ou seja, uma absoluta liberdade espiritual) e, sobretudo, a «nobre arte» de saber perder-se nos bosques.
Patriota, Thoreau canta a magnificência e superioridade dos grandes espaços da América do Norte («O Atlântico é como o rio Letes: na sua travessia tivemos oportunidade de esquecer o Velho Mundo e as suas instituições»). Provocador, diz preferir o «pântano sombrio» ao «jardim de bairro mais belo alguma vez concebido pelo engenho humano», porque «o mais vivo é o mais selvagem». A elevação que Thoreau procura não se alcança com palavras, mas trepando ao topo das árvores: vendo lá de cima as coisas que não se avistam cá de baixo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Bom Natal

Etc. e tal

O que aí vem (Documenta)

Deutsch Hefte – cadernos de alemão, de Lourdes Castro (para Manuel Zimbro); Beatles em Portugal, de Luís Pinheiro de Almeida e Teresa Lage; Caravana Doors – Uma viagem luso-americana, de Rui Pedro Silva; Roll Over – Adeus Anos 70, de José Paulo Ferro (fotografia); Livro da Luz, de António Poppe.

Quatro poemas de Susana Araújo

MÁTRIA

Puxada pela cabeça, no reverso do
que tínhamos ensaiado, costuras
raspadas e cerzidas, na tentativa de
expelir um país em chamas onde o
Tecnocrata ternamente rege, ruge e cospe.

Pela clareira púrpura, os mesmos escrevem as
mesmas palavras nos mesmos jornais. Pátria,
puta hipócrita, porque falas de mim pelas costas?
Comprei o bilhete de regresso por engano.

***

RAIVA

Ladraste-me ao ouvido (rugidos em forma
de cálculo) e dizes agora que a rima é cáustica.
Morderam fundo: eu seco bem a pele,
(para ressequir zoonoses, nevoeiro em nódoa)
o barco em que dormimos
vela sobre o fel

Por onde andámos, membros fechados
de corporação em corporação, sonhando
com o mel de uma amputação, partilhámos
Raiva: porta perfeita para
o nervo periférico.

E assim, prenunciados,
rendidos a um estado
sem graça nem jurisdição
vadiamos pelo branco adentro,
bocas espumando
tinta em papel

***

SPREAD

A colcha branca conhece o lucro do
diluído acervo que se estende anguloso
sobre mar incerto. Reúne no húmido centro
os resultados do nosso câmbio (como aliás
ficou demonstrado em extrato integrado)

Na performance da métrica que
nos torna igual à diferença entre
o custo do capital (total) e a reposição do
seu investimento (impossível), arquejam
dobradas as tuas pernas dispersas
partidas, abaladas (i.e. das minhas
já desenlaçadas).

***

PROGRAMA DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO

Tu vacilas, não queres ouvir e eu
não vou ter contigo a meio caminho
deposta, abandonada e irrisória
a ponte de ferro quebra-se
assim que o FMI avança

Um casal ainda criança
já refinancia
os seus juros

Não há compensação
para quem sonha severamente
enquanto espera pelo autocarro
durante o horário de Inverno

Vê agora, lá fora: uma
família que forja falsetes
tenta agarrar-se à rede,
frívolos esforços em que
os nossos filhos falham

O estímulo ao investimento
de iniciativa privada promove
a utilização proveitosa dos nossos
recursos: como esta faca de cozinha
que avança para nós com serrilha, sorrindo
combinação certeira entre a ergonomia
o melhor design e a qualidade

Todas as domésticas suturas serão
submetidas a uma rigorosa
análise de sensibilidade

Dorme bem, meu amor e
deixa a manhã reestruturar
a nossa dívida.

[in Dívida Soberana, de Susana Araújo, Mariposa Azual, 2012]

‘Nativos Digitais’ sobre e-books

Para ver aqui.

A enleia invisível

Os Anjos Nus
Autor: A. M. Pires Cabral
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 268
ISBN: 978-972-795-331-8
Ano de publicação: 2012

Na «memória justificativa» de Os Anjos Nus, A. M. Pires Cabral explica que só dois dos oito contos são inéditos, tendo sido os outros recuperados de minúsculas edições (cada uma com circulação mais restrita do que a anterior) e do suplemento de Natal do Jornal do Fundão. Ao ler os textos, em que reconhecemos a perfeição de estilo característica dos clássicos, agiganta-se o espanto: como puderam andar estas prosas tão afastadas de olhos que as mereçam, apodrecendo dentro de caixotes num armazém? É um mistério. Mas, lá diz o ditado, antes tarde do que nunca.
Os contos, «vagamente inspirados em acontecimentos verídicos» (mas prontos a questionar a sua própria veracidade), têm a uni-los uma mesma geografia: as paisagens de Trás-os-Montes, onde desfilam as vidas e as tragédias de pessoas apertadas «contra os muros da pobreza», presas à terra em que nasceram por uma «enleia invisível». Num cenário de romarias, falsos milagres e cultos a santinhas (sempre em ânsias de converter a Rússia), há abundância de padres e dos homens que nas aldeias os antagonizavam: médicos, farmacêuticos ou professores com costela jacobina e aversão a «sotainas retrógradas».
Pires Cabral é particularmente eficaz no modo como desvenda os rígidos códigos sociais em acção, seja no luto das viúvas «de um marido vivo» (os homens que emigravam), seja no castigo das infidelidades amorosas, afrontas «lavadas com sangue» ou resolvidas pela ingestão de veneno do escaravelho. Subjacente a tudo, a ideia de que mesmo agindo mal se podem fazer boas coisas e de que não vale a pena insistir no escudo do racionalismo, porque há sempre «uma porta das traseiras por onde entram coisas irracionais como a fé, a crendice, o palpite».
Vilar Frio e O salvo-conduto são histórias exemplares, escritas com garbo e verve camiliana, mas o ponto mais alto do livro é o último texto, O Diário de C*, espantosa exegese do tosco diário de um namoro vulgar, supostamente encontrado numa Agenda Grandella de 1914. Depois de descrever em pormenor o próprio objecto («híbrido de almanaque e agenda»), o narrador assume «uma agridoce nostalgia por tudo quanto foi» e mergulha na «sintaxe tortuosa» de C*, analisando a fundo as suas breves entradas, lendo nas entrelinhas, criando hipóteses, supondo aquilo que não se pode saber. Trata-se aqui de exumar a memória de duas pessoas naufragadas no mar do olvido, não «à maneira do sociólogo que friamente observa e deduz, mas como quem ama e desculpa e quer compreender». Belo desígnio, cumprido com um zelo todo feito de «compaixão e teimosia».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Richard Zenith, Prémio Pessoa 2012, por António Guerreiro
O Último Dia de um Amor Eterno, de Francisco Goldman (Matéria Prima), por Luciana Leiderfarb
Portugueses da América, de Margarida Marante e Rui Ochôa (FLAD/Tinta da China), por Alexandra Carita
Arte Nenhuma – Poesia (1987-2012), de Carlos Poças Falcão (Opera Omnia), por António Guerreiro
O Próximo Outono, de João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas
Bordercrossings – Leituras Transatlânticas, de Vamberto Freitas (Letras Lavadas), por Carlos Bessa
O Vampiro de Curitiba e Novelas Nada Exemplares, de Dalton Trevisan (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch, de Aleksandr Soljenítsin (Sextante), por Hugo Pinto Santos
Caminhada, de Henry David Thoreau (Antígona), por José Mário Silva
– Escolhas de Ana Pessoa

Um livro por minuto

Foi quanto vendeu E. L. James em Portugal, desde que os livros da sua trilogia erótica (As Cinquenta Sombras de Grey e etc.) começaram a ser vendidos por cá, a 9 de Julho. Foram mais de 250 mil exemplares, em pouco mais de cinco meses. Assustador.

Memória das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian

Numa reportagem da TSF, de Ricardo Oliveira Duarte (com sonorização de Paulo Jorge Guerreiro).

Ver desaparecer

Agora e na Hora da Nossa Morte
Autora: Susana Moreira Marques
Editora: Tinta da China/Fundação Calouste Gulbenkian
N.º de páginas: 166
ISBN: 978-989-671-134-4
Ano de publicação: 2012

Acontecimento raríssimo: um livro capaz de criar a sua própria forma, inventando de caminho um novo género literário (ou perto disso). A jornalista Susana Moreira Marques acompanhou, entre Junho e Outubro de 2011, o trabalho de uma equipa de cuidados paliativos no Planalto Mirandês, em Trás-os-Montes. Apoiados pela Fundação Gulbenkian, uma médica, enfermeiros e outros profissionais de saúde andaram de aldeia em aldeia, ajudando dezenas de doentes «a passar o final de vida com o maior conforto possível, e a morrer, acompanhados, em casa». O que SMM narra são as histórias desses pacientes e o impacto avassalador das doenças terminais no espaço da intimidade familiar. A violência da morte próxima, pairando em círculo como as águias sobre as escarpas do rio. A partir deste material – dias inteiros de observação directa, horas e horas de conversas gravadas – a jornalista podia ter feito um conjunto de reportagens fortes, mas decerto semelhantes a outras que já vimos e lemos sobre o tema. Felizmente, preferiu fazer outra coisa. Aqui as pessoas guardam o seu nome mas não têm apelido. Quando aparecem, em poses hirtas, nas fotografias de André Cepeda (guardadas para o final do volume), nunca são identificadas. Não há legendas, nem nada que situe as imagens. A explicação é simples: João, Maria, Paula, Sara e Elisa são seres humanos reais, com sofrimentos reais, mas também personagens que se elevam acima das suas circunstâncias e adquirem uma densidade literária. Nada do que vivem e contam é ficção, mas SMM sabe aproximar-se delas com o olhar, a profundidade e a linguagem de um romancista.
O livro abre com uma sequência de «notas de viagem sobre a morte». Não é fácil entrar na noite escura das agonias, das esperas, da preparação para o luto inevitável, mas estes fragmentos falam disso com infinita delicadeza e um recato que é muito mais do que simples pudor. A autora descreve as estradas, os pequenos rituais de sobrevivência nas aldeias quase desertas («de onde desapareceram as crianças»), a paisagem agreste, as suas dúvidas e inquietações («Se não quiseres saber a resposta não faças a pergunta»). Outras vezes isola vinhetas de um quotidiano assombrado pela morte – essa presença implícita que ninguém nomeia – e inventa mecanismos para se proteger de tanta dor: «Manual de sobrevivência: 1 – Parar. Escutar o bater do coração. Olhar os cerejais selvagens carregados de fruto.» Com definições de dicionário explica, por exemplo, o que é a «conspiração do silêncio» ou a «boa morte». A mesa e as cadeiras de uma sala de jantar, «embrulhadas em plástico», contam só por si o que se passa. A «solidão sobre a terra» surge inteira numa piscina vazia, vista da janela. E há frases que podiam ser versos: «Uma ilha, mas em vez de mar, terra.» SMM escreve «contra as imagens acumuladas», tanto na cabeça como nos cadernos manuscritos, e talvez por isso as palavras aparecem tão nítidas, tão exactas: «Querem apenas um pouco mais de vida, querem um pouco mais de tempo para acreditar que o corpo vence; todos querem, com uma força desproporcionada, talvez delirante, continuar de olhos abertos.»
Na segunda parte do livro, oferece-nos «retratos», casos concretos. E a estrutura volta a ser inesperada, original. Primeiro, SMM entra pé ante pé no dia-a-dia familiar, ganha confiança, habitua-se e habitua-nos àquelas pessoas, participa em almoços de domingo, regressa mais tarde para as vindimas, ouve com a atenção minuciosa de quem sabe que o desaparecimento futuro já se instalou dentro da casa. O «retrato» nasce assim, imperfeito, quase de viés, para depois ser completado pela viva voz das figuras retratadas, um discurso directo (em itálico) tão em bruto que nos esmaga com a sua verdade. Há quem recuse teimosamente a derrota; há quem se sente no alpendre, ao crepúsculo, recordando a vida em Angola; há quem ajuste contas com a memória de um pai muito amado, sentindo que «ele está dentro de mim». São outros de que SMM se apropria através da escrita – e só da escrita. Porque «os outros somos nós».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«O corpo da mulher rola para dentro de casa como um embrulho, as roupas encardidas pela humidade. O cabelo está de tal modo entrelaçado que nem a água quente o conseguirá desembaraçar com a lavagem. Estende-se no chão da sala, exausta. O primeiro movimento que faz é mostrar as cicatrizes dos braços e apontar para alguns sinais junto do umbigo. A carpete fica molhada ao contacto com a roupa, desenhando uma pequena silhueta, uma mancha que há-de ficar para sempre gravada naquele espaço do chão. Mateus está de pé junto a ela, descalço, incapaz de dizer ou fazer o que quer que seja. Sente o calor subir-lhe pelas pernas e as mãos trémulas. Deixa a porta aberta. Das escadas vêm uns grunhidos, alguém grita para que acendam a luz, alguém apanhado na escuridão entre dois andares. Um dos vizinhos abre a porta e pergunta se querem que ele desça com uma pilha. Quem grita é a mesma mulher que ali passa diariamente cheia de sacos de plástico e que agora ameaça deitar fogo ao prédio.»

[in A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha, Relógio d’Água, 2012]

Prémio Leya 2012 para Nuno Camarneiro

O sucessor de João Ricardo Pedro é Nuno Camarneiro, a quem o júri presidido por Manuel Alegre decidiu atribuir o prémio de cem mil euros. O romance distinguido, Debaixo de Algum Céu, «exploração da ideia de purgatório», será publicado em Março. A primeira ficção do vencedor, No Meu Peito Não cabem Pássaros, foi publicado em 2011 e sobre ele escrevi uma recensão cujo título, curiosamente, é quase igual ao deste segundo livro.

Vislumbre do livro que Lena Dunham, a nova wondergirl da TV americana, vendeu por um montante a tender para o obsceno

O livro intitula-se Not That Kind of Girl, foi vendido por quase quatro milhões de dólares à Random House e ainda não está escrito. A proposta de 66 páginas com a ideia do livro e os primeiros capítulos pode ser lida aqui. Ou melhor, podia. Porque entretanto entrou em cena o advogado da realizadora, actriz e futura escritora.

O mais pessoano de todos os Prémios Pessoa

Richard Zenith.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Agora e na Hora da Nossa Morte, de Susana Moreira Marques (Tinta da China), por José Mário Silva
A Vitória de Orwell, de Christopher Hitchens (Verbo), por Luís M. Faria
Os Superficiais, de Nicholas Carr (Gradiva), por Ana Cristina Leonardo
Jorge Sampaio – uma biografia, de José Pedro Castanheira (Porto Editora), por Valdemar Cruz
Entre os Actos, de Virginia Woolf (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
– Escolhas de Oriana Alves

Uma voz nova que se anuncia


Clique para aumentar

Confesso que tenho uma enorme expectativa em relação a este primeiro livro.

O que aí vem (QuidNovi)

Lendas do Porto II, de Joel Cleto e Sérgio Jacques; Porto Sentido, de Valéria Wiendl e Pedro Camelo; 12.12.12 (fotografia), de Adriana Morais, Adriano Miranda, Duarte Sá, José António Rodrigues, José Carlos Carvalho, José Manuel Ribeiro, Lara Jacinto, Nuno Fox, Nuno Veiga, Ricardo Meireles, Rodrigo Cabrita e Vasco Célio.

Camiões, bocarras e a nova China

Mudanças
Autor: Mo Yan
Título original: Change
Tradução: Vasco Gato (a partir da versão inglesa)
Editora: Divina Comédia
N.º de páginas: 155
ISBN: 978-989-863-3002
Ano de publicação: 2012

Vencedor do Prémio Nobel de Literatura deste ano, o escritor chinês Mo Yan, até agora praticamente desconhecido no Ocidente, está longe de ser consensual – sobretudo entre os compatriotas que têm coragem para levantar a voz contra o governo de Pequim. Quando a Academia Sueca anunciou a sua escolha, houve logo quem apontasse Yan como um autor alinhado com o poder. Ao contrário de outros artistas, forçados ao exílio ou sujeitos a prisão domiciliária (como Ai Weiwei, não por acaso um dos críticos mais ferozes da atribuição do Nobel), Yan nunca levantou ondas nem manifestou solidariedade com as vítimas de perseguição política. Em 2009, afirmou: «Alguns poderão querer gritar nas ruas, mas devemos tolerar aqueles que se escondem nos seus quartos e usam a literatura para transmitir as suas opiniões.»
Uma obra como Mudanças, autobiografia romanceada escrita em 2010 para a colecção “O que foi o comunismo?” (dirigida por Tariq Ali), podia trazer mais luz sobre o percurso de Yan e o modo como se posiciona na sociedade chinesa. Em vez disso, este livrinho que marca a estreia de uma nova editora portuguesa (a Divina Comédia, de Alexandre Vasconcelos e Sá, ex-director editorial da Objectiva), só consegue aprofundar as dúvidas. Miúdo «inseguro», muitas vezes «demasiado esperto para o seu próprio bem», bode expiatório das asneiras alheias, acabou expulso da escola, por ter supostamente inventado uma alcunha para o professor de matemática que sublinhava a dimensão da sua bocarra (logo ele, Yan, que também sofria dessa desproporção física). Na mesma altura, um outro aluno farta-se do «controlo asfixiante», desafia a autoridade dos professores, rasga os livros e vai-se embora. «Quase parecia que havia feixes de luz dourada a irradiar do corpo do He e, embora eu não soubesse o que iria na cabeça dos demais, na minha cabeça, naquele momento, ele era uma personagem decididamente heróica à medida que avançava, instigado pela honra a não voltar para trás.» O paradoxo é este: ao ver a atitude de He, Yan sonha «com a concretização de proeza semelhante um dia», mas quando o expulsam da escola ele fica «destroçado» e admite que foi um suplício «ter de a abandonar».
O livro acompanha dois tipos de mudanças, intercaladas numa narrativa ágil, rápida, mas dispersa, cheia de derivações, saltos no tempo e uma assumida «verbosidade» («Tenho a cabeça atulhada de lembranças variegadas que, não sendo minha intenção anotá-las, brotam de moto próprio»). Por um lado, acompanhamos as muitas incidências da vida de Yan: o trabalho numa fábrica de algodão; o receio de ficar «entalado no degrau mais baixo da sociedade»; o fascínio infantil por camiões (sobretudo um certo Gaz 51, de fabrico soviético e «rápido que nem uma flecha»); o alistamento no exército, sempre com funções menores; e por fim a redenção pela escrita literária. Para Yan, «os acontecimentos estão em fluxo permanente», num cortejo de «acidentes», «estranhezas» e «curiosidades», narrado com a volúpia dos melhores contadores de histórias. As outras mudanças são as de um país que nos anos 60 não tinha um único quilómetro de auto-estrada mas se transformou, em poucas décadas, numa potência económica à escala mundial. Yan lembra-se de temer a «perdição» da China após a morte de Mao Tsé-Tung. Pelo contrário, não só a China continuou a existir «como começava a prosperar». Onde antes havia apenas restaurantes públicos («com o seu abominável serviço») e cooperativas de abastecimento, apareceram pequenos empresários e bancas privadas despontaram «como o bambu após um aguaceiro primaveril». Dito isto, quando em 1990 se vê forçado a dormir num depósito de sucata, à mercê das ratazanas, o que ele dispõe na soleira da porta e junto da cama, à laia de sentinelas, são estatuetas do Presidente Mao.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Cinco anos

Foi há cinco anos, também numa segunda-feira.

Primeiros parágrafos

«Há coisas sobre as quais não se pode escrever como sempre se escreveu. Algo muda. Primeiro os olhos, depois o coração – ou os nervos ou aquilo a que os antigos chamavam alma – e finalmente, as mãos.

***

As primeiras notas que tiro são sobre um homem que nasceu, cresceu, trabalhou, casou, teve uma filha, envelheceu e morreu na mesma aldeia. Na verdade, as notas não são sobre o homem ou sobre a sua vida mas sobre a sua morte. Assim:
A vida da casa e da família acontece toda nesta sala térrea, fresca e escura de uma maneira agradável, com uma grande mesa, um escanho – o típico banco corrido de madeira de Trás-os-Montes –, um fogão e uma porta para o armazém onde se guardam os produtos da terra.
Era Abril, a lareira não estava acesa, mas era junto da lareira que o homem costumava contar histórias, e contou nessa noite, subitamente animado. Despediu-se da família – a filha e a neta tinham vindo da cidade –, disse-lhes boa-noite. À mulher com quem esteve casado sessenta anos disse que não se esquecesse de tomar os medicamentos.
A aldeia onde o homem nasceu, cresceu, trabalhou, casou, teve uma filha, envelheceu e morreu é bonita, com as suas casas de pedra recuperadas e um belo cruzeiro talhado. É bem arranjada, limpa. Está quieta, muito vazia. Parece um museu.
A viúva, com o seu lenço preto e o rosto fechado, move-se devagar, curvada pela artrose. Anda pelas ruas como uma sombra. Ela sabe que vive no fim de uma época, de um modo de vida. Quando nos formos todos, diz, querendo dizer os velhos, as sombras, lentamente as casas, desertas, caem, e não haverá mais aldeia.»

[in Agora e na Hora da Nossa Morte, de Susana Moreira Marques, Tinta da China, 2012]

Logo à tarde

A partir das 15h30, na sala Montepio do Cinema S. Jorge, haverá um debate sobre o concurso de novos talentos 15/25 da revista Ler. Na mesa estarão João Pombeiro (director da revista), eu (coordenador da secção), o crítico e escritor José Riço Direitinho (antigo colaborador do DNJovem), e o professor e cronista Onésimo Teotónio Almeida. Apareçam, mesmo se tiverem mais de 25 anos.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Mudanças, de Mo Yan (Divina Comédia), por José Mário Silva
Somos Todos um Bocado Ciganos, de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal), por Hugo Pinto Santos
O Sino da Islândia, de Haldór Laxness (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
A Poesia do Pensamento, de George Steiner (Relógio d’Água), por António Guerreiro
Memórias – Um Combate pela Liberdade (vol. III), de Edmundo Pedro (Âncora), por José Pedro Castanheira
Aniki-Bóbó, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Jornalistas-Escritores – A Necessidade da Palavra, de Fátima Lopes Cardoso (MinervaCoimbra), por Alexandra Carita
– Escolhas de Jorge Reis-Sá

Futuro

De repente, mostram-te o futuro. E tu vês. Um corredor longo, muitas portas, todas a fecharem-se com estrondo.

Prova cega

Não é de vinhos, é de literatura. Eu, o Bruno Vieira Amaral e o Jorge Reis-Sá vamos estar nas mãos do Nuno Costa Santos, a tentar adivinhar quem é que escreveu os excertos de livros que ele nos vai dar a ler. Logo à noite, a partir das 21h45, no Cinema S. Jorge (uma iniciativa do Festival LER 25 Anos). Apareçam.

Joaquim Benite (1943-2012)

Estou demasiado triste para escrever sobre a morte deste homem extraordinário que fez uma coisa extraordinária: inventou um público para o teatro onde o teatro é mais necessário. Isto é, do outro lado do rio, na outra margem, na periferia da grande cidade e dos poderes instituídos. Ele fez outras coisas magníficas, mas só esta chega e sobra para dar a medida da sua importância na cultura portuguesa das últimas décadas. Lembro a voz do Joaquim, grave (de nicotina e vida vivida até ao tutano), lembro o desassombro com que falava das peças, dos actores, do mundo à sua volta. Há quase uma década, escrevi: «É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos (…) e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras». Foi sempre isso, o Joaquim. As coisas continuarão, porque tudo continua sempre. A Companhia de Teatro de Almada. O Festival. A alegria milagrosa do teatro. Mas vamos sentir tanto a tua falta.

Golpes

Há dias que nascem para golpear. Telefonam-me a dizer que morreu alguém conhecido, um rapaz demasiado novo (27 anos) para tudo o que não chegou a fazer. Horas depois, sei por e-mail da morte de um amigo de outra geração (69 anos) que fez muito, muitíssimo, um homem de rasgo e sabedoria, capaz de reinventar o teatro (o dele, o dos outros, o nosso) uma e outra vez. Eu estive lá. Eu vi. Eu não esqueço. Golpes a mais para um dia só.

O Festival

Eu estava sentado na terceira fila. Por baixo de mim, a dureza do banco de madeira, a ser mais um degrau da grande plateia erguida na Escola D. António da Costa, desde há muitos anos o «coração» do Festival de Teatro de Almada. Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite. À minha volta, o silêncio do público. O silêncio de quem está preso ao que se passa em cima do palco e gosta de se sentir assim: preso. À minha frente, o palco. O palco iluminado. Luzes de projectores como se fossem o sol na Inglaterra do séc. XVI. O palco sem nada. Nenhum cenário, nada, nem sequer uma cadeira. Só um homem e a sua mala. Um homem mais a sua mala (de vez em quando pousada no chão; de vez em quando aberta para tirar, lá de dentro, um pano ou uma máscara). E as palavras. As palavras de Tubal – a personagem – ditas por Manel Barceló, o actor.
Eu não conhecia Tubal e creio que o público silencioso – muitas cabeças no escuro, à minha volta – também não. Porque Tubal é uma das mais obscuras personagens de Shakespeare, com um papel ainda menos importante, no enredo do Mercador de Veneza, do que o de Rosencrantz e Guildenstern na trama de Hamlet. Antes de ser resgatada por este brilhante monólogo de Gareth Armstrong, Tubal era uma sombra fugaz que durava oito réplicas. Oito frases num diálogo com Shylock, o judeu que empresta dinheiro a António, o mercador, exigindo uma libra da carne deste como penhor. Tubal não é apenas o melhor amigo de Shylock. «Sou o único», diz com orgulho, uma e outra vez. É talvez por ser seu amigo que tenta mostrar-nos outra imagem do «judeu maldoso», livrando-o do labéu diabólico e aproveitando para fazer a exegese desta peça de Shakespeare (devidamente enquadrada na restante obra do bardo, bem como no contexto do teatro isabelino), isto enquanto narra as desventuras e tragédias da História dos judeus na Europa.

Estava portanto sentado na terceira fila, contemplando Tubal a desmultiplicar-se em narrativas dentro de narrativas, transfigurando-se em 43 personagens diferentes – actores, bispos, soldados, o próprio rei – quando aquilo aconteceu. E não sei sequer explicar o que cabe na palavra «aquilo». Foi talvez uma frase dita num murmúrio, um gesto brusco, uma risada, o som da enorme mala a poisar nas tábuas. Foi qualquer coisa que accionou subitamente os mecanismos da memória, uma versão teatral da madalena de Proust. Sei apenas que me ausentei por momentos dali, da terceira fila. E regressei aos meus 12 anos.
Em 1984, eu tinha 12 anos e assisti ao primeiro Festival de Teatro de Almada. Era outra coisa, muito mais pequena, muito mais modesta. Um palco diminuto, ao fundo do Beco dos Tanoeiros, cadeiras de café em ferro (emprestadas daqui e dali), cem pessoas no máximo a assistir, mais as que espreitavam das janelas. Grupos amadores, erros e ingenuidades, uma alegria imensa de ver o mundo a ganhar forma sobre o palco. Depois, fui crescendo e o Festival também. Recordo todos os lugares por onde passou, por onde passámos: o Pátio do Prior do Crato (sempre à cunha; e mais ainda quando lá foi o Mário Viegas), o Largo da Boca do Vento (com as primeiras companhias estrangeiras), o Palácio da Cerca (inclinado sobre Lisboa, recebendo as brisas frescas que sobem do Tejo), o Teatro Municipal e, por fim, a Escola D. António da Costa. A minha antiga escola, a escola onde fiz o ensino preparatório. Abre-se uma memória dentro da memória e revejo as tropelias, as corridas, os cromos com as caras feias dos futebolistas, o jogo do alho, o cerco às raparigas (na fase dos apalpões), as conversas com o meu amigo Prakash Pratapsi Udeshi, um matulão indiano que viera de Moçambique (às vezes ainda tomava banho com leite de cabra, dizia ele) e que foi o meu adversário, vencido, na final do campeonato escolar de xadrez.
Recordo-me depois dos espectáculos que me marcaram. E foram tantos. De alguns perdi as referências: aqueles quatro actores que simulavam um quarteto de cordas (como se chamava a peça? de onde vinham eles?) ou o grupo que interpretou magistralmente a peça O Aumento, de Georges Perec. De outros lembro-me bem: o actor Rafael El Brujo Alvarez a levar ao rubro o Palácio da Cerca, com o seu esfomeado Lazarillo de Tormes; os Touros, Majas y otras Zarandajas, do colectivo Margen (Oviedo), a incendiarem as ruas de Almada; a hipnótica Viagem ao Centro da Terra no comboio transfigurado dos chilenos La Troppa; a poesia de Lorca dita por Núria Espert; as principais peças das grandes companhias portuguesas; ou os trabalhos recentes dos melhores encenadores europeus (Peter Brook, Joan Font, Bernard Sobel; a lista é longa).
Em todos estes anos – sou testemunha credível, porque não falhei uma edição que fosse – há uma figura que permanece no centro das operações e é a própria essência do Festival, mesmo quando se esconde atrás das cortinas para dar a ribalta aos actores. É um homem tenaz, obstinado, teimoso, um homem que insiste em tornar real a matéria dos sonhos. Chama-se Joaquim Benite e ama o teatro da única forma possível: com a inteligência e a sensibilidade, mas também com o sangue, com as vísceras. Quando o encontro, junto ao portão da escola, dando as boas-vindas aos espectadores, orgulhoso das peças que lhes vai oferecer logo a seguir, percebo que nem todos os caminhos da cultura estão condenados a terminar no deserto da frustração. Eu vi a barba deste homem a ficar branca com o passar do tempo, esse rio feito de júbilos, sustos, dúvidas, esperanças, inquietações. Mas vi também que o brilho dos seus olhos nunca esmoreceu. É hoje mais intenso do que nunca.
Intenso como a voz – agora triste, agora carregada de melancolia – do actor Manel Barceló, aliás Tubal. A peça está a terminar e ele acaba de explicar-nos a forma repentina como Shylock desaparece dos diálogos finais do Mercador de Veneza. O judeu, vencido no tribunal, mergulha no seu próprio infortúnio, cai na sombra da perdição. E eu desperto da minha viagem no tempo, enquanto Tubal se afasta com a sua mala, desaparecendo aos poucos na penumbra do palco. À minha volta, o silêncio do público desfaz-se. Aplausos, pessoas de pé, mais aplausos. Eu continuo na terceira fila, levanto-me, grito «bravo». Por cima, o céu muito escuro, poucas estrelas, a luz vagabunda de um satélite.

[Texto publicado no suplemento DNA, do Diário de Notícias, em Julho de 2003]

Moda para maluquinhos dos livros

Há para todos os gostos. A minha preferida é a t-shirt em que o texto integral da Alice no País das Maravilhas desenha a dita Alice em plena queda pelo buraco do coelho abaixo.

Estação Portugal

O comboio das cinco
Autor: Luís Afonso
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 83
ISBN: 978-989-98019-0-5
Ano de publicação: 2012

Radicado em Serpa há 24 anos, Luís Afonso é um dos cartoonistas mais regulares da imprensa escrita portuguesa, com trabalhos publicados no Público (o célebre Bartoon), no desportivo A Bola, no Jornal de Negócios e na revista Sábado. Para autor do seu primeiro livro de ficção inédita e não desenhada (ou, pelo menos, não exclusivamente desenhada), escolheu uma das suas personagens mais carismáticas: Lopes, o escritor pós-moderno. Fazendo jus ao estatuto, o dito Lopes dá a ler, a um cineasta, seis cenas por si escritas. Argumentação: «Um realizador enfrenta sempre problemas quando tem de adaptar um livro ao cinema. Mas se conhecer o livro antes de ele estar concluído, pode ajudar a escrevê-lo de forma a ser mais facilmente adaptado.» Simples. Ou nem por isso.
Entre cada cena, Lopes discute com o realizador o rumo a dar à história (melhor, às histórias), a caracterização dos protagonistas e opções estéticas (onde usar preto-e-branco ou tons de sépia). Há também artifícios intelectualóides, como o assinalar de «indicadores de qualidade literária» dentro do texto, mas a estrutura pós-moderna – usada por Luís Afonso em modo paródico – é o que o livro tem de menos interessante. A graça está toda na prosa dúctil (a lembrar por vezes Mário de Carvalho) e na ironia com que são desenhadas personagens caricatas, vivendo situações de um absurdo delirante. O capítulo esquizofrénico sobre um presidente da Junta em guerra com o presidente do clube da terrinha, que é ele próprio, merece entrada directa para as antologias de humor. Depois há ainda essa bizarra estação de comboios onde os comboios nunca chegam, onde tudo é a fingir. E o nome da estação podia ser Portugal.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Depois da desgraça, ler também é urgente

A organização Bibliotecas sem Fronteiras lançou um apelo para incluir os livros entre os bens de primeira necessidade quando ocorrem catástrofes humanitárias. O documento, já assinado por Tahar Ben Jelloun, Noam Chomski, J.M. Coetzee, Antoine Gallimard, Alain Mabanckou, Toni Morrison, Joyce Carol Oates, Erik Orsenna e muitos outros escritores, pode ser consultado aqui.

Primeiros parágrafos

«A mulher está nua, o que neste instante a ocupa é mais prático sem roupa – quando tocam à campainha.
A mulher fica transida. Imóvel: veado encadeado por faróis na estrada. O coração acelera. A mulher pensa. Ou tenta pensar.
Tocam novamente à campainha. A primeira coisa que ocorre à mulher é que tem de se calçar. Não de se vestir; de se calçar. É estúpido? É assim. Uma pessoa nunca sabe como reage. E é ainda nua, e descalça, que vai espreitar.
A mulher não sabe o que fazer. Será publicidade? Um vizinho? O carteiro? Pior: serão eles?
O menino. A mulher vai buscá-lo ao quarto, acorda-o, põe-lhe um dedo nos lábios. Chiu, meu querido, vais ter de ficar em silêncio. Achas que consegues? Como já fizemos das outras vezes.
A mulher sorri perante o assentimento obediente da criança e diz-lhe para se esconder na casa de banho. E, sobretudo, não fazer barulho. A mulher quase se perde num banho de ternura, mas esta não é a ocasião. Tocam novamente à campainha. Depois de assegurar que ele está escondido e que não irá fazer barulho, a mulher hesita e pega num pé-de-cabra e encosta-o à dobra da porta. Depois vai pé ante pé à cozinha, encontra uma bata e um avental, veste a bata e coloca o avental por cima, à cintura. Depois percebe que é redundante e tira o avental. A campainha toca de novo, desta vez mais insistente. A mulher vai para abrir. Lembra-se de que está descalça. A campainha toca de novo. A mulher corre a pôr uns chinelos e espreita pelo óculo.
Ainda tinha esperanças de que estivessem lá em baixo, mas não, estão já cá em cima. Alguém lhes abriu a porta do prédio. Ou terão uma chave-mestra, para abrir as portas da rua? Tudo é possível, a mulher sabe por experiência própria. Tudo é possível, nos tempos que correm. O mundo está de pernas para o ar. E não é para proceder a uma simpática cópula carnal que está de pernas para o ar. O mundo está de pernas para o ar porque está de pernas para o ar.
A campainha toca uma vez mais. Há um bater de nós dos dedos na porta. Como que a dizerem, os nós dos dedos na porta:
Abra, sabemos que está em casa, tudo o que disser pode ser usado contra si…»

[in A instalação do medo, de Rui Zink, Teodolito, 2012]

Começa hoje o Festival da ‘Ler’

Não é todos os dias que se fazem 25 anos. No caso da Ler, a data redonda tem servido de pretexto para uma série de iniciativas (as páginas 15/25; conferências; encontros com leitores; etc.), culminando agora no Festival LER 25 anos, que ocupará o cinema S. Jorge durante seis dias. Além de um ciclo de cinema «literário» (escolhas de Pedro Mexia), haverá debates, encontros, leituras, programas de rádio ao vivo, uma «prova cega de literatura» (em que serei uma das cobaias), um «passeio noctívago-literário», apresentações de livros, concertos e tertúlias. Uma verdadeira festa.
A programação completa pode ser consultada aqui.

A abertura oficial é logo à noite, com a ante-estreia exclusiva do filme Pela Estrada Fora, de Walter Salles (trailer aqui), inspirado no mais célebre romance de Jack Kerouac.

O ‘think tank’ do livro

Eis um blogue colectivo que merece entrada directa para o topo da lista de favoritos, na dieta informativa de quem acompanha o mundo do livro no nosso país. Mais do que dar notícias sobre o que se passa no meio editorial, o Edição Exclusiva apresenta-se como um «think tank»; ou seja, um lugar de reflexão sobre os rumos a seguir, os dilemas do presente e os desafios do futuro. Não creio que a ideia passe por descobrir fórmulas mágicas ou soluções imediatas para os problemas do sector (em grande parte dependentes do estado da economia portuguesa em geral, que é o que sabemos), mas por lançar questões e debates que possam ajudar-nos a compreender melhor o que se passa. Se conseguirem isso, já conseguiram muito.
A qualidade dos colaboradores (entre os quais Hugo Xavier, João Carlos Alvim, João Costa, Jorge Silva, José Afonso Furtado, Nuno Seabra Lopes, Rui Beja e Rui Zink) não deixa margem para dúvidas: o Edição Exclusiva vai tornar-se rapidamente um referência absoluta. Para começar, assinale-se um ‘Especial Infantil’ sobre o universo da edição dos livros para crianças, uma das áreas mais dinâmicas e rentáveis nos últimos anos. Hoje escreve Luísa Ducla Soares. Amanhã, Alice Vieira. Mas o dossier continuará durante o mês de Dezembro.

Lançamento de uma nova colecção sobre “protagonistas da edição”


Clique para aumentar

É na Casa Fernando Pessoa, quarta-feira à tarde.

Biblioteca Digital DN

Excelente ideia: contos inéditos de autores portugueses (Luísa Costa Gomes, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Mário de Carvalho, Dulce Maria Cardoso e outros) em formato e-book. Ainda por cima, disponibilizados gratuitamente (basta fazer o registo no site do Diário de Notícias). Uma iniciativa da editora Escrit’orio.

Twitter Fiction Festival

Acabou ontem e teve projectos para todos os gostos (em suaves prestações de 140 caracteres, ou menos).

Cinco fragmentos felinos de João Paulo Cotrim

A minha gata faz-se equilibrista em mim.
Ainda não caiu, mas guardo a memória
dos arranhões.

***

A minha gata sabe ser só um olho, rente ao chão,
ao dobrar de uma esquina. E de nada faz uma
esquina.

***

A minha gata enche-nos de pêlo.
Acha estranho que, pertencendo à
mesma família, tenhamos tão pouco.

***

A minha gata abre as garras como navalhas
em flor. Sabe fazê-lo surgindo do nada.

***

A minha gata não dorme nunca sem deixar
activa uma pequena orelha trémula, periscópio
das sonolências. E o meu olhar não a protege,
incomoda-a.

[in A minha gata, Companhia das Ilhas, 2012]

O que aí vem (Babel)

Correspondência 1952-1971, de Jorge de Sena e António Ramos Rosa (edição de Mécia de Sena e Jorge Fazenda Lourenço, com a colaboração de Agripina Costa Marques e Inês Espada Vieira); Cividade, de Agustina Bessa-Luís (conto inédito); A Sombra dos Lugares, de Luís Felício (poesia, Prémio Literário Cidade de Almada); A Arte Sem História – Mulheres e cultura artística, de Filipa Lowndes Vicente;

Página seguinte »

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges