Primeiros parágrafos

«His children are falling from the sky. He watches from horse-back, acres of England stretching behind him; they drop, gilt-winged, each with a blood-filled gaze. Grace Cromwell hovers in thin air. She is silent when she takes her prey, silent as she glides to his fist. But the sounds she makes then, the rustle of feathers and the creak, the sigh and riffle of pinion, the small cluck-cluck from her throat, these are sounds of recognition, intimate, daughterly, almost disapproving. Her breast is gore-streaked and flesh clings to her claws.
Later, Henry will say, ‘Your girls flew well today’. The hawk Anne Cromwell bounces on the glove of Rafe Sadler, who rides by the king in easy conversation. They are tired; the sun is declining, and they ride back to Wolf Hall with the reins slack on the necks of their mounts. Tomorrow his wife and two sisters will go out. These dead women, their bones long sunk in London clay, are now transmigrated. Weightless, they glide on the upper currents of the air. They pity no one. They answer to no one.
Their lives are simple. When they look down they see nothing but their prey, and the borrowed plumes of the hunters: they see a flittering, flinching universe, a universe filled with their dinner. All summer has been like this, a riot of dismemberment, fur and feather flying; the beating off and the whipping in of hounds, coddling of tired horses, the nursing, by the gentlemen, of contusions, sprains and blisters. And for a few days at least, the sun has shone on Henry. Sometime before noon, clouds scudded in from the west and rain fell in big scented drops; but the sun re-emerged with a scorching heat, and now the sky is so clear you can see into Heaven and spy on what the saints are doing.
As they dismount, handing their horses to the grooms and waiting on the king, his mind is already moving to paperwork: to dispatches from Whitehall, galloped down by the post routes that are laid wherever the court shifts. At supper with the Seymours, he will defer to any stories his hosts wish to tell: to anything the king may venture, tousled and happy and amiable as he seems tonight. When the king has gone to bed, his working night will begin.»

[in Bring Up the Bodies, de Hilary Mantel, Fourth Estate, 2012]

O que aí vem (Relógio d’Água)

É assim que A Perdes, de Junot Díaz (tradução de José Miguel Silva); Guerra Conjugal e A Trombeta do Anjo Vingador, de Dalton Trevisan; Lolita, de Vladimir Nabokov (tradução de Margarida Vale de Gato); O Poder do Pensamento, de Giorgio Agamben (tradução de António Guerreiro); O Mistério do Coelho Pensante, de Clarice Lispector; Guerra e Paz, de Lev Tolstoi (tradução de António Pescada); As Nuvens e o Vaso Sagrado, de Maria Filomena Molder.

‘Ensaio Geral’ com Dulce Maria Cardoso


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É já na sexta-feira, no Chiado, à tardinha.

Margarida Vale de Gato sobre António Poppe

«TODOS OS MEIOS SENTIDOS DÃO À LUZ

O António é um meu amigo admirado, não só porque eu o admiro como porque ele também se admira, isto é, espanta-se amiúde. A amizade é uma admiração, e desenvolvendo mais a atenção a estes sentidos presentes das palavras nem precisamos de ter tantas, embora às vezes também seja bom termos uma reserva para variarmos e a mesma coisa passar a ser nova, o que também tem a ver com este livro. A nossa – amizade, admiração – nem precisou até agora de ser longa, mas um dia vai ser. Comecei a conhecer o Livro, e o António também, um através do outro, porque quem o conhece lembra sempre que tantas das suas elocuções são dizeres do livro, tantas também dizeres de outros livros. “A memória é uma surpresa na realidade.”
Quando, pois, o António me convidou para apresentar este livro enchi-me de orgulho e de miaúfa, porque o que aqui temos não é nada fácil de articular. Quis preparar-me e fazer toda a justiça que me permite a minha qualidade de professora de literatura e fiz o que faria qualquer académica que se preze, mergulhando no que podia ser o filão da poética do Poppe, tentando traçar-lhe um percurso, e até fases, começando pelo primeiro livro publicado – ao que ele me adiantou trabalho, dizendo que, sendo um livro onde já desde logo houve a sobreposição do desenho ao poema, como não podia deixar de ser no seu espírito plástico, o fizera também para treinar a mão, procurando que o guiassem as palavras que amava ou que o desatinavam em escritos dos outros. Posto isto, ainda que não achasse a ligação toda com Juan Abad, tipógrafo tornado dramaturgo a escrever zarzuelas em plena revolução das Filipinas no final do século XIX (falha de ligação que provavelmente é só despiste meu, mas se calhar está nos versos finais de “Um alfaiate traça na manga o corte / eu olho por dentro uma velha maneira de falar com a morte”), optei pela leviandade de passar por cima de tantos anos de estudo de teoria literária em favor da crítica impressionista que me levasse pelo coração à ponte entre Torre de Juan Abad e o Livro da Luz. E escrevi isto:

Todos os meios sentidos dão à luz. O A. escreve a ler,
escreve o Helder, escreve o Quevedo, escreve o Auden,
escreve o Pau-Chi, escreve a sorte de zarzuelas e castelos
inundando Juan Abad, e desenha montanhas moldes de
inversas cúpulas e escreve e repete e ouve o Cintra
e desenha o Belo e o escuro, o Belo ainda estava lá
no escuro, cada sentido com vários meios, e o sexto,
a luz e o seio, sentido sabor de sabedoria com gosto,
verso de saber que é verso do saber, anagrama de servo,
“de coral em vértebra / uma existência livre de vontade”.
Então o António vai a ver e traça sobre o que viu, cola
o rosto no verso, a imagem na imagem sobe às letras coradas,
a escrita no carvão e na água, a pintura com os tímpanos,
a fotografia do rosto devém caracter-Fonte de muitos membros,
uma cauda a varrer um útero aberto como grandes olhos.

Concretamente sobre o livro em apreço, e pretendendo voltar aos carris da crítica literária, digo que quis estruturar a que se segue sobre quatro palavras de significantes concatenados, roubando ao Poppe a técnica da mnemónica:

Rasura / Satura / Sutura / Sutra
O António Poppe é um rapaz, além de lido e lindo, formado em Belas-Artes pelo School of the Art Institute of Chicago. Será tentador, talvez, à primeira vista, relacionar o seu trabalho de risco com uma certa onda da rasura que terá emergido nas artes plásticas por este nosso pós-modernismo tardio adentro, com o beneplácito de Derrida e sequazes, da desconstrução, extinção e marca ou traço da tradição fragmentada e desmembrada. As pistas da citação e elisão artísticas tornam-se, porém, enganosas. Possivelmente, para a brasa da sardinha dos filósofos do pós-moderno, seria mais pertinente chamar aqui a dobra deleuziana, a pli que vai da inflexão à inclusão, e a que eu acho que o António, quando ainda lhe agrada o barroco, pisca o olho em versos como “árvore de letras e vento / plica e explica”. Mas já o António, se rasura não risca, dobra, e a dobra que é dele e não do Deleuze tende à sutura, que com mais uma dobra se torna em sutra, texto condensado para melhor se memorizar, o que também se aplica ao António, mas não o explica. Ou então sutra, escrito num livro de folhas de palmeira cozidas por um fio, que sempre parece tecer mais sentido com “árvore de folhas e vento”. Cosida pela mão, a sutura não fecha, nem sequer completamente cicatriza, tem poros, “de mão dada à pele”. Aliás, o António uma vez ensinou-me uma coisa de deixar esbugalhada boa parte da poesia portuguesa: resistir a procurar o fecho do poema, guardar-lhe a vocação de abrir.

Venho com esta conversa da rasura, porque estive Quarta-feira passada no lançamento de um livro onde se falou muito da técnica da rasura, tratando-se no caso de um livro de meu companheiro de investigação, José Duarte, que se meteu a riscar nada mais do que a Moby Dick, deixando apenas umas palavras aqui e ali, escolhidas no entanto por serem fortemente significantes, e que permitiram tornar o catrapázio de Melville num livro de poemas de 88 páginas, com um resultado singular e em muitos casos bastante pungente. Introduzi a rasura da poesia no Google (uma outra técnica, que gostava de dominar tanto como o Manso) e descobri que neste momento, no Illinois, estado fronteiro ao Michigan da Chicago onde o Poppe cursou, uma senhora chamada Julie Judkins está a dar workshops de poemas de rasura sob o título “Uma Poesia da Ausência”, e que, na Wikipedia: “Erasure poetry is a form of found poetry created by erasing words from an existing text”. Foi daí que concluí também que a poesia do Poppe não é uma poesia da rasura, pois não só não pretende limitar as suas palavras dentro das escolhas lexicais de textos anteriores, como a sua sutura não se satura de esgotamento. Sobretudo, pouca poesia será tanto de presença como a sua, de palavras que se nos apresentam e pairam ainda, simultaneamente circundadas e livres, de contextos anteriores. Tanto há para ler num verso como “Aconteceu a corda” – incitação ao despertar, à vibração, à fibra do coração, corações ao alto, o nosso coração está em Deus, livre tradução, sursum corda. Onde quer que o António tenha andado para achar os caminhos de um verso como “Aconteceu a corda”, e onde quer que tenha lido e visto e decorado, o risco dele, neste livro, a corda que cora e se espalha sobre o escrito, não é sobre o dado ou encontrado nos outros, mas sobre o que dá também, verso chegado a si, entrado no poema. O risco entra, pois, no poema, não o oblitera.
Aconteceu a corda, corações ao alto. O coração do António até pode estar no nada como estar em Deus, mas não está quieto, não tomemos este como um livro de plácida contemplação, contemplação nele é comunhão ativa, tantas vezes é tensão e, todas as vezes, a tensão (atenção!). No livro estão os mestres e os irmãos, os companheiros de viagem e os outros da paisagem, o pai e a filha, a cora, a mãe, o mundo, os seus fundos. Não apaga, sobrepõe, e o que está em cima é deferente para com o que está em baixo, não procura exatamente precedência, embora se preocupe de algum modo com o primário, forte força telúrica e dos elementos que se achem expostos, a nossos sentidos todos atentos. Nada mais errado, parece-me, do que ver no seu gesto desconstrução, senão assimilação, dirigida, lá está ela, por essa atenção que aprendeu na experiência e nos mestres do Oriente e do deserto (é pela duna que se inicia, ou se pode ver numa das leituras iniciar este livro, e a duna está distante dos aterros e dos buracos negros), experiência e mestres do Oriente e do deserto, perto da fonte da luz, a quem presta homenagem em vários degraus deste livro, seja por referências, colagens, desenhos ou fotos, além de – não esquecer – a proximidade mântrica da voz. Já a ouviremos, espero.
Há uns poucos dias, a generosidade do António presenteou-me com um caderno, “Memória Artesanal”, que veio dos anos da primeira idade adulta, escrito com uma caneta de tinta dourada, mais perto do abstrato da luz do que da matéria de cor corada que no Livro da Luz chega a tocar e não raro faz canto. Mas a memória surpreende na realidade e em “memória artesanal” encontrei já pedaços de versões do livro, com certo estrondo, medita e se dilata, mnemónicas, “uterina sábia colmeia tímpano anatomia prima”. São de mil plateias os degraus que dimanam do livro, os livros que a ele emanam. No meu, um brinde extra-texto, papel vegetal numerado, desdobrando-se da colagem, caneta preta, cópia em castelhano, calígrafo e palavras em esferográfica no verso da foto de Ramana Maharshi. Googlo e traduzo. “Nascido em 1879, no seio de uma família brâmane falante de Tamil, Ramana Maharshi parte em 1896, aos dezasseis anos e após a morte do pai, numa longa viagem e experiência de se acordar (self-awakening) para a montanha sagrada de Arunachala, onde permaneceu no cultivo do desapego além de todos os limites até à sua morte, em 1950. Sentar-se um tempo na sua santa presença era submergir na paz total. A forma mais pura do seu ensinamento era o poderoso silêncio que da sua presença irradiava, aplacando todos os espíritos que com ele se sintonizavam. Aquiescia no ensinamento verbal somente para benefício daqueles que não podiam compreender o seu silêncio.” Pessoalmente, sentar-me na presença do António é acolher o silêncio, mas sentar-me na presença das suas folhas, pranchas do traço e do risco que se iluminam, é acolher também todos os mil e mil ensinamentos, ensinamentos que se podem procurar através de bites de Google, mas que eu chego a crer também que de profecias tratam, não só verbais como visuais, vocais, tácteis. É possível que se encaminhem para o silêncio e para a brancura, mas para mim tendo a ver mais do que o branco que absorve todo o palimpsesto. Sinestesia multimediática, é uma luz de muito coração e muita cor. Se o António quisesse riscar a branco se calhar tinha usado líquido corretor. Mas eu pelo menos não creio que haja aqui outro apagamento senão o de si, a iluminura é africana e no poema entra-se a vermelho, letras coradas que só substituem na medida em que adicionam: “trouxeram-me aquela que soma e cora (….) / trouxeram-me aquela que soma o nada / derramá-lo-ás estima / ó conciliante.” Ou seja, com tudo isto o que eu quero dizer, é que, não necessariamente em paz com a história, mas já acima e contrariando qualquer asfixia ou saturação ou obsolescência ou sentimento rasteiro de crise e esgotamento que não pode fazer mais do que esta moinha em que vivemos, e que nos desgasta sempre muito mais do que a tentamos desgastar, este livro (humildemente entrado, lembre-se, na segunda fase de poeta, a de profeta) não tem pejo de tudo absorver e se encher, para que tudo se solte e abra, e se apresente novo, com uma graça afinal não tão difícil neste Solstício. E com tudo isto, também, não falei da voz, e de este livro ser para ser ouvido, sobretudo pelo Poppe, que sabe de cor e de cora as suas versões passadas e saberá as versões futuras, consoante se lhe apresentam. Palavras coradas. Obrigada e força, António Poppe.
Margarida Vale de Gato»

[Texto lido na apresentação de Livro da Luz, de António Poppe (Edições Documenta), a 21 de Dezembro de 2012]

Madeira e marfim

A Lebre de Olhos de Âmbar – Uma Herança Escondida
Autor: Edmund De Waal
Título original: The Hare with Amber Eyes – A Hidden Inheritance
Tradução: Maria Lúcia Lima
Editora: Sextante
N.º de páginas: 321
ISBN: 978-972-0-07171-2
Ano de publicação: 2012

Professor de Cerâmica na Universidade de Westminster, Edmund De Waal (n. 1964) é conhecido pelo carácter minimalista das suas peças quase indistinguíveis umas das outras («fileiras de vasos de porcelana céladon cinzento-azulado»). Se alguma dessa contenção formal passou para a escrita de A Lebre de Olhos de Âmbar, o seu extraordinário ensaio de memórias familiares, não é menos certo que estilisticamente o escritor está mais próximo da inventividade e assimetria dos netsuke, os minúsculos objectos decorativos japoneses do século XIX que recebeu em herança, do que da regularidade austera do seu trabalho de oleiro.
Quando, após a morte de um tio-avô, lhe vieram parar às mãos os 264 netsuke, primorosas miniaturas esculpidas em marfim ou madeira, representando as cenas mais díspares (uma serpente enroscada sobre uma folha de lótus; um monge adormecido sobre a escudela das esmolas; crianças a brincar com um elmo de samurai; a brancura insólita de uma lebre com olhos de âmbar), De Waal sentiu o peso do passado a cair-lhe sobre os ombros. Um dia, ao meter uma das peças no bolso, rolando-a entre os dedos, deu-se conta de que queria realmente saber como aquele «objeto tão suave e tão rijo, tão fácil de perder», sobrevivera durante um século e meio. «Deve haver uma maneira de reconstituir a sua história. Ser dono deste netsuke – herdeiro de toda a coleção – implica uma responsabilidade para com ele e para com os seus anteriores proprietários.»



Para honrar essa responsabilidade, lançou-se numa longa pesquisa sobre o percurso completo da colecção, a partir do momento em que entrou na posse da família, ao ser comprada em Paris, na década de 1870, por Charles Ephrussi, um primo do seu bisavô. Este parente, de que pouco sabia, é a porta de entrada para o labirinto da memória. Atrás deste dandy que encomendava quadros a Degas e Renoir, um janota que inspirou Marcel Proust na criação da figura de Swann, vêm os restantes Ephrussi, uma família de judeus que dominou o comércio de cereais e foi das mais ricas da Europa – antes de entrar em declínio, uma queda iniciada com o fim do Império Austro-Húngaro e concluída com a subida ao poder dos nazis. Durante dois anos, De Waal vagabundeou pelo locais onde os seus antepassados habitaram (Paris, Viena, Odessa, Tóquio), procurando o fio à meada do caminho seguido pelos netsuke na sua vitrina de vidro (com um espelho que os multiplicava até ao infinito), e descobrindo os detalhes das vidas de quem, noutros tempos, admirou as minúsculas «esculturas tácteis» vindas do Oriente.
«Não são só as coisas que têm histórias», escreve o autor. «As histórias também são uma espécie de coisas. As histórias e os objetos partilham algo, uma pátina.» É essa pátina que emerge das deambulações pelo passado, em arquivos, detendo-se em fotografias de primos do séc. XIX e em «envelopes no fundo de gavetas com os seus poucos e tristes aerogramas». A investigação, porém, nunca se fecha. Este não é um livro redondo. Quanto mais respostas consegue, mais perguntas o investigador tem para fazer. Por isso hesita muito («A realidade continua a escapar-me das mãos»; «Não consigo avançar»; «Sinto-me perdido»), duvida dos resultados que vai obtendo, recusa simbolismos e simplificações: «Sei que os meus antepassados eram judeus e assombrosamente ricos, mas não estou disposto a entrar no ramo das sagas a sépia com mais uma elegíaca narrativa da perda da Mitteleuropa. (…) Seria o género de história que se escreve sozinha, penso comigo. Alguns episódios saudosistas engastados uns nos outros, umas páginas sobre o Expresso do Oriente, claro, umas deambulações por Praga ou outro sítio igualmente fotogénico, com imagens dos salões de baile da Belle Époque tiradas do Google. Sim, daria um bonito livro nostálgico. E anémico.» Ora anémico este livro não é. Pelo contrário, todo ele vibra.
Empolgante e honesta, afectiva e rigorosa, escrita numa prosa belíssima, «A Lebre de Olhos de Âmbar» oferece-nos a admirável biografia de uma família, vista pelo prisma dos objectos que foi deixando para trás.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Man Booker International Prize – os finalistas

Foram anunciados há poucos dias os dez finalistas deste ano do Man Booker International Prize: U. R. Ananthamurthy (Índia), Aharon Appelfeld (Israel), Lydia Davis (EUA), Intizar Husain (Paquistão), Yan Lianke (China), Marie NDiaye (França), Josip Novakovich (Canadá), Marilynne Robinson (EUA), Vladimir Sorokin (Rússia) e Peter Stamm (Suíça). Se dependesse de mim, o prémio ia já para a maravilhosa Lydia, cujos Contos Completos foram publicados pela Relógio d’Água no final de 2012. Também gosto muito de Marie N’Diaye, que ganhou em 2009 o Goncourt com Três Mulheres Poderosas (editado pela Teorema), e de Marilynne Robinson, infelizmente ainda inédita em Portugal.

Salvar livrarias

Às vezes é só preciso imaginação, entreajuda e espírito de iniciativa.

ABC da Edição Digital


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É hoje. Programa e informações, aqui.

Maravilhas da paternidade

Alice: «Se já estamos no Pingo Doce, por que é que eles estão sempre a passar esta música do “Pingo Doce venha cá”?»

A Europa em risco

«L’Europe n’est pas en crise, elle est en train de mourir. Pas l’Europe comme territoire, naturellement. Mais l’Europe comme Idée. L’Europe comme rêve et comme projet.» Um manifesto em defesa da Europa, assinado por escritores europeus: Salman Rushdie, Claudio Magris, Antonio Lobo Antunes, Fernando Savater, Julia Kristeva, Juan-Luis Cebrian, Vassilis Alexakis, Umberto Eco e Bernard-Henri Lévy, entre outros.

‘Poesia à mesa’

«Porque a palavra sai da boca e entra no ouvido, como pode o ouvido ouvir o que a boca não comeu? Poesia à Mesa é um U onde se senta quem faz da poesia o que ela é.»

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

A Lebre de Olhos de Âmbar, de Edmund De Waal (Sextante), por José Mário Silva
O Assassínio de Lincoln, de Bill O’Reilly e Martin Dugard (Texto), por Luís M. Faria
7 Ensaios Sobre o Povoamento dos Açores, de José Guilherme Reis Leite (Blu Edições), por Carlos Bessa
Ruben A. – Uma Biografia, de Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz (Estampa), por Pedro Mexia
– Escolhas de Susana Moreira Marques

Primeiros parágrafos

«No dia 16 de novembro, Paulo abriu os olhos e voltou-se para a nesga de luz que passava pelas duas cortinas — a mais pesada, de um plástico cinza, e a mais leve, de um tecido branco transparente que ficava por cima da outra. Permaneceu assim por alguns momentos, antes de iniciar o preparo para que o resto todo de seu corpo pudesse acompanhar os olhos e sair do quarto escuro, pequeno e já cheio de ruídos: alguém que ligava a televisão no quarto ao lado; o carrinho da arrumadeira, ameaçador, no hall; o tlim do elevador. Primeiro, fez uma inspeção mental básica no estômago e na boca. Não, nenhum vestígio do mal-estar da noite anterior, em que, depois de comer um x-tudo no bar da esquina, vomitou e cagou a alma. E, ao falar para si mesmo essa frase, poderia ter achado engraçado: a alma. Seria oportuno, rá, rá, se livrar da alma na véspera. Mas Paulo não era uma pessoa de muitas reflexões. Isso normalmente. Naquela hora, então, é que não havia de fato lugar para elas. Depois do estômago foi a vez do joelho, e, nesse, a inspeção não poderia ser apenas mental. Então Paulo esticou a perna, dobrou e tornou a esticar. Nada de muito ruim. A dor nas costas com a hérnia de disco, estava como sempre quando ele acordava: existente. Mas, no decorrer do dia, com os movimentos, tendia a se estabilizar. E, depois disso, como se já se sentisse cansado — e o motivo do cansaço seria, então, o simples fato de ter joelhos, estômago e costas —, ele ainda ficou, os olhos agora mirando a escuridão, a ouvir o tique-taque do relógio grande, feio, da mesinha de cabeceira. Ficou ouvindo o tique e o taque e o tique e o taque, em sua previsibilidade, enquanto dava um tempo para que a arritmia se manifestasse. Esse era o único sintoma de sua cardiopatia, para a qual tomava quilos de remédios cotidianamente.»

[in Nada a Dizer, de Elvira Vigna, Quetzal, 2013]

Do cansaço

Tão longos e cheios, os dias adiam-se, adiando-nos.

O sentido do trilho

O Estado do Bosque
Autor: José Tolentino Mendonça
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 65
ISBN: 978-972-37-1663-4
Ano de publicação: 2013

Na primeira incursão dramatúrgica de José Tolentino Mendonça, Perdoar Helena (2005), surgia em palco um encenador em estado de dúvida – uma dúvida tão aguda que o levava a desistir, a poucas horas da estreia, não só do espectáculo em que vinha trabalhando mas do próprio teatro. Em O Estado do Bosque, a nova peça que poderá ser vista na Cornucópia entre 7 e 24 de Fevereiro, com encenação de Luís Miguel Cintra, há também uma personagem descrente do discurso que a engendra: «Sinto que o teatro acabou.» Mais do que autoconsciência pós-moderna, trata-se aqui de honestidade intelectual. Porque este texto só é teatro no sentido em que foi escrito em cenas, com diálogos, para ser dito por actores. Se há nele uma força dramática, essa força não tem centro, nem objecto. É uma névoa de palavras, uma imanência. Não há propriamente um enredo, uma história, antes um desígnio metafísico que se materializa, elíptico e fugidio, através das subtilezas da linguagem poética de Tolentino Mendonça.
«Qual é o sentido do trilho?», pergunta-se logo na primeira fala. «Não sei. Cada trilho conduz a mais do que um sentido», responde John Wolf, o guia cego que se orienta na escuridão («a passagem de tudo, mesmo de um sopro de vento, deixa uma luz que lhe serve de mapa»). Dois viajantes preparam-se para entrar no bosque, atrás de Wolf, procurando algo que não conseguem definir. Do passado trazem coisas impalpáveis: uma angústia repentina, uma inquietude tão difusa como a «sombra que corta rápida a superfície» das águas. Certo dia acordaram prostrados, perdidos de si mesmos, sujeitos ao estranhamento (a normalidade a tornar-se «selvagem», com «ramos e matagal por todo o lado»), um vazio que talvez só a ordem profunda da natureza, algures nos caminhos do bosque, conseguirá curar. Por isso se deixam guiar pelo cego que sabe ler os sinais de uma transcendência oculta, opaca, secreta: «continuamos a murmurar diante do que se cala».
Como grande metáfora, o bosque é o que as personagens nele projectam: para os viajantes, uma saída do labirinto existencial; para John Wolf, uma epifania que lhe permite ver «o rosto de Deus»; para a ambientalista Viviane Mars, uma hipótese de a humanidade se redimir, regressando às origens. É justamente na cena com Mars que o texto mais vacila, ferido de um prosaísmo que não encaixa no tom geral da peça. Contraponto religioso do ecologismo militante de Viviane, a figura de Wolf – crítico feroz da vertigem do progresso tecnológico que transformou o mundo num lugar «sombrio e severo» (onde o falcão «deixou de contar connosco para que o ensinemos a voar») – também se revela problemática. Sobretudo quando resvala da contemplação mística para um arremedo de oráculo zen: «Quem não apaga a meta não vê nada do que está entre o início e o fim do caminho». Ou: «Não tens de escutar. Tens de te escutar.» O melhor de O Estado do Bosque são mesmo os momentos de poesia em estado puro: «Rosas espalhadas pela neve. Chega até mim o seu perfume. As pétalas são como brasas no gelo. Não sei explicar, mas tudo ganha uma beleza que antes não tinha.»

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Os Enamoramentos, de Javier Marías (Alfaguara), por Pedro Mexia
Limonov, de Emmanuel Carrère (Sextante), por Ana Cristina Leonardo
Migalhas Filosóficas, de Soren Kierkegaard (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
O Estado do Bosque, de José Tolentino Mendonça (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
O Sítio Onde se Está, de José Azevedo Mendes (Tenacitas), por António Pedro Ferreira
– Escolhas de Raquel Nobre Guerra

Prémio Fundação D. Inês de Castro 2012 para Maria do Rosário Pedreira

A distinção, composta «por um troféu desenhado pelo escultor João Cutileiro, uma estadia de oito dias na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde viveu Inês de Castro, e por “um valor pecuniário simbólico”», foi atribuída ao livro Poesia Reunida, editado há poucos meses pela Quetzal. O júri, de que fizeram parte José Carlos Seabra (presidente), Mário Cláudio, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Pedro Mexia, distinguiu ainda a obra de Almeida Faria com um Tributo de Consagração.

Maravilhas da paternidade

Aos seis anos, o Pedro anda fascinado com a teoria do Big Bang e o início do universo. A grande explosão, o cosmos que se expande, o nascimento das galáxias, tudo isso. Sem surpresa, chegou à grande questão:

– Mas ó pai, se o universo surgiu com o Big Bang, o que é que havia antes?

Pergunta difícil. Lá lhe expliquei que os cientistas andam a estudar o assunto mas ainda não têm certezas. Então ele decidiu contribuir para o avanço do conhecimento humano:

– Acho que vou descobrir esse mistério.
– Ai sim?
– Sim. Primeiro tiro um curso de cientista, depois vou descobrir o que havia antes do Big Bang.
– Mas tu não querias ser veterinário?
– Queria e continuo a querer, pai. Primeiro, tiro um curso de cientista. Depois, descubro o que havia antes do Big Bang. E só depois disso, quando tiver resolvido o mistério, é que vou para uma clínica veterinária tratar os animais.

Presumo que o diploma de Nobel da Física vai ficar bem catita na parede do consultório.

Alerta Castanho (Brown Alert)

Uma das grandes vantagens de Dan Brown sobre José Rodrigues dos Santos, além de ser the real thing em vez do sucedâneo, é a sua frugalidade editorial. Ao contrário de JRS, Brown não publica um romance todos os anos, para bem do equilíbrio ecológico e literário do planeta. Ainda assim, volta não volta, lá nos chega mais uma variação de O Código Da Vinci. A deste ano, acaba o autor de anunciar, intitula-se Inferno e vai andar à volta da Divina Comédia de Dante. Preparem-se. O livro sairá em Maio nos EUA e em Portugal lá mais para Julho, com chancela Bertrand.

Assustar quem nos assusta

A Instalação do Medo
Autor: Rui Zink
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 177
ISBN: 978-989-580-047
Ano de publicação: 2012

Um belo dia, batem-nos à porta funcionários ansiosos por instalar na nossa casa (isto é, na nossa vida) não um qualquer electrodoméstico milagroso, ou uma internet com a velocidade da luz, mas o medo. Essa coisa bruta e sofisticada, ancestral e moderna, esse instrumento de poder que os governos sempre gostaram de administrar – mais ainda num tempo de crises contínuas, ameaças globais e austeridade à força (aquela em que todos pagam os desvarios de uns quantos). A mais recente ficção literária de Rui Zink arrisca isto: mostrar o extraordinário e medonho espectáculo da imposição do medo como «única realidade».
A vítima é uma mulher que ouve a retórica exasperante dos intrusos, temendo que eles descubram um suposto filho escondido na casa de banho (crianças e idosos, por serem «improdutivos», são alvos a abater). Junto a ela, assistimos aos diálogos abruptos da dupla perniciosa, uma espécie de maiêutica distorcida, em que no lugar da verdade se procura desenterrar os pavores e fantasmas que existem dentro de cada um de nós. Por vezes, Zink estica demasiado a corda de uma situação tão esquemática que se torna monótona, mas o certo é que consegue criar uma distopia verosímil. Verosímil porque coincide, na crueza dos factos, com o país que somos hoje, à mercê da novilíngua neoliberal das troikas e de quem lhes cumpre o programa, bem como dos intangíveis «mercados» que exigem «sacrifícios humanos», como «deuses» que tudo arrebanham e «têm sempre razão», mesmo se nem sequer existem.
No fim, o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Os oficiantes do medo provam do seu próprio veneno. Moral da história: talvez seja hora de abrir os olhos e resistir. Ou seja, assustar de uma vez por todas quem nos assusta.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Senhor Ministro, Excelência

Apenas a minha vontade de em tudo vos agradar, nunca esquecendo a temporada, aliás desafortunadamente curta, que juntos vivemos na minha querida cidade natal de Veneza, e o favor e mercês com que me haveis acolhido em Paris, nos primeiros meses deste ano, me poderia levar a pegar na pena para vos descrever as peripécias que levaram à minha inesperada viagem a esta desgraçada cidade de Lisboa, varrida por um atroz terramoto há cerca de dois anos. Asseguro-vos, Excelência, que, por muitos desconcertos da Natureza que me tenha sido dado ver, ou que ainda verei, nenhum me parece de mais incompreensível extensão ou gravidade. De tal forma que, não fosse acreditar nas obscuras justificações derivadas da vontade divina – que, a manifestar-se assim, seria de maior malevolência que os castigos de Sodoma e Gomorra –, seria tentado a admitir que apenas os muitos pecados e desmandos de um povo podem explicar a desgraça que sobre o seu destino se abateu. Aliás, os jesuítas e o povo miúdo acreditam nesta explicação e, ignorantes das causas naturais que a recta ratio é capaz de identificar, espalham aos quatro ventos a notícia de outras calamidades que a persistência do governo temível do ministro do Rei, Sebastião de Carvalho, não deixará de provocar.»

[in Cartas de Casanova – Lisboa 1757, de António Mega Ferreira, Sextante, 2013]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– O que aí vem (não-ficção, ficção e encontros literários), por José Mário Silva
Novembro, de Jaime Nogueira Pinto (A Esfera dos Livros), por Pedro Mexia
A Instalação do Medo, de Rui Zink (Teodolito), por José Mário Silva
Miramar, de Naguib Mahfouz (Civilização), por José Guardado Moreira
Justiça para Ouriços, de Ronald Dworkin (Almedina), por Luís M. Faria
A Diplomacia de Salazar (1932-1949), de Bernardo Futscher Pereira (Dom Quixote), por Luísa Meireles
De Nada, de Alberto Pimenta (Boca), por Manuel de Freitas
Rude, de Rui Baião (Averno), por Hugo Pinto Santos
– Escolhas de José Emílio-Nelson

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Anunciados os finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa

Acaba de ser conhecida a shortlist do Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, a atribuir durante a 14ª edição do encontro Correntes d’Escritas, que se realizará entre 21 e 23 de Fevereiro na Póvoa de Varzim.
Eis a lista dos oito finalistas:

A Terceira Miséria, Hélia Correia (Relógio D’Água)
As Raízes Diferentes, Fernando Guimarães (Relógio d’Água)
Caminharei Pelo Vale da Sombra, José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim)
Como se desenha uma casa, Manuel António Pina (Assírio & Alvim)
De Amore, Armando Silva Carvalho (Assírio & Alvim)
Em Alguma Parte Alguma, Ferreira Gullar (Ulisseia)
Lendas da Índia, Luís Filipe Castro Mendes (Dom Quixote)
Negócios em Ítaca, Bernardo Pinto de Almeida (Relógio D’Água)

O júri, de que faço parte, com Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Helena Vasconcelos e Patrícia Reis, reunirá no dia 20 de Fevereiro para decidir qual o livro vencedor.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– “O dramalhão perfeito”, de Clara Ferreira Alves (sobre Os Miseráveis, de Victor Hugo)
Comprimidos Azuis, de Fredrik Peeters (Biblioteca de Alice), por José Mário Silva
Dívida Soberana, de Susana Araújo (Mariposa Azual), por Pedro Mexia
Desordem Financeira na Europa e Estados Unidos, de George Soros (Presença), por Luís M. Faria
Dinheiro, de Martin Amis (Quetzal), por Ana Cristina Leonardo
– Escolhas de Nuno Camarneiro

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Maria João Costa à conversa com Maria do Rosário Pedreira. Ao vivo, na livraria Ferin. Quem não puder ir, pode ouvir na rádio.

Palavra do ano 2012

Segundo a Porto Editora, o vocábulo mais votado no concurso para a escolha da «palavra do ano» foi entroikado, que se pode considerar, com toda a propriedade, um neologismo austero. Segundo a definição do Departamento de Dicionários da PE, entroikado é um adjectivo com dois significados: 1) obrigado a viver sob as condições impostas pela troika (equipe constituída por responsáveis da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional e que negociou as condições de resgate financeiro em Portugal); e 2) coloquial, que está numa situação difícil; tramado, lixado. Em segundo lugar ficou a palavra desemprego.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges