O que aí vem (LeYa)

Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro (Prémio LeYa 2012, chancela LeYa); Contracorpo, de Patrícia Reis (D. Quixote); Nova Teoria da Felicidade, de Miguel Real (D. Quixote); Os Olhos de Tirésias, de Cristina Drios (Teorema); Rua de Nenhures, de Pedro Tamen (D. Quixote); Cenas da Vida de Aldeia, de Amos Oz (D. Quixote); O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo, de Haruki Murakami (Casa das Letras); Uma História de Amor em África, de Daphne Sheldrick (Casa das Letras).

Um contrabaixo (ou ‘barco baixo’) na Avenida de Roma


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Quatro poemas de Manuel Gusmão

um risco na página
um gesto furtivo
um movimento
de queda
na sombra
da sombra
de um corpo, uma boca
: alguém chama — palavras contra
o sentido, contra a direcção
do vento

***

O rio divide-te entre
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.

***

a lagartixa
o pequeno sáurio
miniatura sobrevivente
de uma adaga pré-histórica
deixa cortada
e de si separada
a cauda, a lâmina em movimento
que fica para trás e deixa fugir
o tronco e os seus velocíssimos
dois pares de pés.

***

o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do ∞ deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.

[in Pequeno Tratado das Figuras, Assírio & Alvim, 2013]

Atenção, pynchonianos

Eis uma daquelas notícias que nos deixam de água na boca. Thomas Pynchon tem novo romance anunciado para Setembro: Bleeding Edge, uma narrativa passada em 2001, entre o rebentar da bolha especulativa das dotcom e os «terríveis acontecimentos» do 11 de Setembro.

Mrs. Booker

1. Vejam a alegria desta mulher. Tentem compreender a alegria desta mulher. Chama-se Hilary Mantel. Aos 60 anos, rosto redondo, corpo enorme sob a túnica, não pertence ao grupo das escritoras que aliam, ao talento da escrita, os tão apreciados good looks. Ela não quer saber dos good looks para nada. Ela não é um rosto que se fotografa, em pose. Ela é uma escritora que escreve. Ponto. Creio aliás que a sua alegria ao receber o Man Booker Prize deste ano, pelo romance Bring Up the Bodies, não teve a ver com aquilo que todos os jornais destacaram: o ser a primeira mulher e o primeiro autor britânico a ganhar duas vezes o cobiçado prémio (os anteriores foram o australiano Peter Carey e o sul-africano Coetzee), ainda por cima no intervalo mais curto (apenas três anos depois de Wolf Hall). Nem teve a ver com o prémio de 50 mil libras, quase 62 mil euros, ou com o mais que previsível acréscimo exponencial de vendas deste livro e, por arrasto, dos anteriores. Quando agradeceu a distinção, no palco do Guildhall, em Londres, Mantel disse: «Esperas vinte anos para vencer o Booker e depois vêm logo dois de seguida.» Dois que até podem vir a ser três, quando for publicado o volume final da sua trilogia sobre Thomas Cromwell e o tempo dos Tudor, The Mirror and the Light, sobre o qual já se fazem todo o tipo de apostas. Agora que se tornou quase consensual, uma espécie de Mrs. Booker a pairar, soberana, etérea, sobre o mundo das letras inglesas («Não creio ter lido nos últimos tempos nenhum outro autor anglófono que controle tão completamente a linguagem para conseguir o que pretende fazer», resumiu Sir Peter Stothard, presidente do júri do Man Booker, além de editor do The Times Literary Supplement), agora que se instalou no trono do establishment, o que se deve sublinhar é a primeira parte da sua frase: «Esperas vinte anos…» Foi longo o caminho. Um caminho com travessias do deserto e zonas de sombra que a escritora evidentemente não esqueceu.

2. No final dos anos 70, Mantel entregou-se à escrita da sua primeira narrativa, um romance histórico de 800 páginas sobre a Revolução Francesa (A Place of Greater Safety), obra que foi recusada e só viu a luz muito mais tarde, em 1992. Enquanto o escrevia, aconteceu algumas vezes enganar-se ao datar os cheques: em vez de 1978, escrevia 1798. Era a História a impor-se na sua vida, mesmo se literariamente acabou a circular por outros lados, mudando de estilo e género de livro para livro, até se fixar novamente, em 2009, na ficção histórica, seguindo os passos do maquiavélico conselheiro do rei Henrique VIII.

3. Antes de chegar aos trinta anos, quando vivia no Botswana com o marido, geólogo, Hilary descobriu por si mesma, lendo livros de Medicina e fazendo autodiagnóstico, a explicação para o seu estado de constante sofrimento: uma doença chamada endometriose. As células do útero migram para outras partes do corpo e provocavam hemorragias. Operada em Inglaterra, na mesma altura em que A Place of Greater Safety era recusado, saiu do hospital sem ovários, sem útero, desfeito o desejo de ser mãe. Depois, ganhou peso devido a um tratamento hormonal intenso, a forma do corpo que nunca mais perdeu. No seu lugar, muita gente colapsaria. Mantel seguiu em frente, reinventou-se, atravessou o deserto, esperou o que teve de esperar. «Agora levanta-te», a primeira frase de Wolf Hall, é talvez um dos mandamentos da sua vida.

4. No começo do livro que lhe deu o primeiro Booker, o protagonista, Thomas Cromwell, ainda criança, está a ser espancado pelo pai. Pontapés, murros, sangue por todo o lado. Antes de perder os sentidos, deitado por terra, ele sente uma espécie de movimento, o «chão nojento» a tornar-se líquido como o Tamisa. O resto do romance é extraordinário, mas bastaram-me aquelas páginas iniciais para saber que descobrira uma grande escritora. Dois Bookers depois, ela sabe que muitos partilharam esta descoberta. Será essa, mais do que a glória efémera, a razão da sua alegria.

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler, Novembro de 2012]

Entre literatura e cinema

«Sinto-me escritor quando filmo, cineasta quando escrevo», diz Atiq Rahimi, o escritor franco-afegão, num artigo sobre a adaptação cinematográfica que fez do seu romance Pedra-de-Paciência, com o qual ganhou o Goncourt em 2008.

Como um pequeno felino paciente

Baixo-Relevo
Autora: R. Lino
Editora: Companhia das Ilhas
N.º de páginas: 37
ISBN: 978-989-8592-19-4
Ano de publicação: 2013

R. Lino (n. 1952) é uma autora mais do que bissexta. Depois de alguns livros publicados na década de 80, e da significativa inclusão numa célebre antologia organizada por Al Berto, Rui Baião e Paulo da Costa Domingos (Sião, Frenesi, 1987), houve um hiato que durou até 2012, quando : Predação :/ Urânia, Nós e as Musas surgiu em edição de autor. Baixo-Relevo, oitavo título da colecção de poesia da micro-editora açoriana de Carlos Alberto Machado, é um livrinho que se escora nas «paredes da memória». Iniciado em 1984, foi «posto em sossego» e lentamente acrescentado ao longo de quase três décadas, «como um pequeno felino paciente no quotidiano da sua ‘impublicação’».
A demora conferiu aos poemas uma espécie de serenidade ontológica, a da sobrevivência ao passar do tempo, o mais implacável dos crivos (já o dizia Horácio). Esta é uma poesia discreta, esquiva, felina no modo como segue «o movimento dos pássaros» e das coisas, próxima do «silêncio das palavras» rasgado pelos «ossos da voz», atenta aos «leves acasos que acenam», mas também ansiosa por se misturar com «essas terras de aluvião» em que confluem todas as escritas do passado, de Li Po e Bashô a Camões, Sá de Miranda ou Kavafys.
Alguns poemas inclinam-se para «os que querem ver ainda / nesta vida outro fervor», enquanto as «réguas de assomo e segredo» procuram o que talvez não se possa medir: «não só a um país / e ao que fica por dizer / pelos gostos pertencemos / mas só esta é essa língua // em que estamos a tecê-los: / mar, medo, aquele jogo / guerra, glória e aviões / império, tratos d’água // bons e maus, risos / e as alegrias que eu vi / quando em cheio lhe acertavam / todas as horas da fantasia».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Maravilhas da paternidade

– Pai, eu nasci de dia ou de noite?
– De noite, Pedro. Aliás, de madrugada. Foi quase às três da manhã.
– Eh, pá. Três da manhã é muito tarde.
– Pois é.
– E acordaram-me?
– Se te acordámos?
– Sim. Quando eu nasci. É que a essa hora devia estar a dormir.

Primeiros parágrafos

«A tragédia do Largo do Rato conduziu a que muitos jornalistas e outras pessoas tenham insistido comigo para os ajudar a compreender aquilo que se passou. Profissionalmente não devo – e pessoalmente não quero – trazer a público elementos do meu trabalho que possam permitir mais especulação acerca do comportamento, da personalidade e das motivações do meu paciente. O Verão de 2012 foi terrível para ele. Aquilo que o atormentava estava, receio bem, muito para além dos meus fracos poderes, dos diálogos que oriento ou acompanho, dos remédios que prescrevo. Dividido como estava entre a vontade de ver claro em si e a tendência neurótica para perceber em tudo uma conjugação maléfica de factores independentes da sua vontade, o meu paciente não conseguiu integrar ou dar conta do sofrimento. Tomei muitas notas daquilo que ele me disse, do que não me disse mas adivinhei, recebi dele fragmentos de um texto, talvez uma espécie de romance, que estava a escrever e nunca terminou, palavras que acredito terem tido relação directa ou indirecta com o seu mal e com aquilo que sucedeu no decorrer do Verão. Vou utilizar aqui os textos que ele me enviou e as notas que tirei das sessões realizadas com ele, mas sem me ocupar de aspectos terapêuticos, porque o seu mapa psíquico e os meus procedimentos para navegar nesse mapa e para o ajudar a fazer o mesmo apenas podem interessar aos meus colegas, e não é a eles que este livro se dirige.»

[in O Verão de 2012, de Paulo Varela Gomes, Tinta da China, 2013]

Mais logo, ‘Cadernos Italianos’ na livraria Almedina


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Como é que seria 2666 transformado num gráfico?

Seria assim, embora eu não concorde lá muito com as percentagens.

O que aí vem (Antígona)

Os Javaneses, de Jean Malaquais (tradução de Luís Leitão).

Books & Bars

Para quem está ressacado das Correntes, isto até que parece uma boa ideia.

Livros velhos, site novo

Loja alfarrabista, a In-Libris passa a mostrar o seu catálogo aqui.

A ressaca

Volta-se a Lisboa. Volta-se à rotina. Mas é como se ainda estivéssemos lá, junto ao mar da Póvoa.

Bye bye Correntes


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Voltaremos, como sempre, em 2014.

Noites longas

As noites no Hotel Axis Vermar, onde dormem os participantes nas Correntes d’Escritas, costumam ser longas e animadas. No bar do hotel, ouvem-se conversas sobre livros já lidos e por ler, romances já escritos ou por escrever, campeonatos de futebol já perdidos ou por ganhar, além de tricas laborais, reflexões sobre o calamitoso estado da nação e outros temas prosaicos a que os literatos também se entregam com entusiasmo (quem julga que os escritores só falam de literatura, desengane-se). Este ano, com algum álcool à mistura, voltou a haver cantoria até às tantas, mas com o inevitável upgrade que os tempos entroikados exigem: várias abordagens à Grândola, Vila Morena, claro, mas também o Acordai, de Lopes-Graça, e até a Internacional. Grande revelação: Nuno Camarneiro, Prémio LeYa 2012, que surpreendeu toda a gente com uma voz de belo timbre e repertório ecléctico (embora se notasse um particular empenho na exploração do cancioneiro alentejano).

Prémios de Edição LER/Booktailors 2012

Ontem ao fim de tarde, foram anunciados e entregues os Prémios de Edição LER/Booktailors 2012. Destaque para o Prémio Especial da Crítica, atribuído a Todas as Palavras – Poesia reunida, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim), para o Prémio Especial de Carreira (Vítor Silva Tavares, da &Etc), Prémio Especial Tradutor (Nina Guerra e Filipe Guerra), Prémio Especial Livreiro (José Pinho, da Ler Devagar) e Prémio Especial Blogosfera e Internet de Edição (Cadeirão Voltaire, de Sara Figueiredo Costa). Lista completa dos premiados, aqui.

Hélia Correia, ao receber o Prémio Casino da Póvoa

Imagens desta tarde, no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, durante o encerramento das Correntes d’Escritas, um acontecimento cultural que Hélia comparou à ágora grega, acrescentando que «não pode acabar», nem que seja preciso «fazer a revolução aqui».

O mistério da Póvoa

Escrevo este post sentado no chão de madeira do segundo balcão do Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, enquanto lá em baixo Ana Luísa Amaral, António Victorino D’Almeida, Domingo Villar, Onésimo Teotónio de Almeida, Susana Fortes, Vasco Graça Moura e Maria Flor Pedroso (moderadora) falam na sétima mesa das Correntes d’Escritas. Escrevo no chão de madeira, no meio de dezenas de outras pessoas sentadas junto à porta, porque não há um único lugar livre no auditório, sentado ou de pé, nos degraus das escadas ou ao longo das paredes laterais. E isto aconteceu em quase todas as sessões. As Correntes sempre foram isto, um extraordinário e quase inexplicável sucesso de público, mas nunca vi tanta gente como este ano.
Em tempo de depressões e cortes, valham-nos as Correntes, iniciativa cultural resistente a todas as crises. Parabéns, Manuela Ribeiro e Francisco Guedes. Chega-se à Póvoa para matar saudades. Sai-se daqui cheio de esperança.

Mesa 6


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Da esquerda para a direita: Possidónio Cachapa, Jaime Rocha, Cristina Carvalho, Onésimo Teutónio de Almeida (moderador), Andréa Del Fuego, João Tordo e Joel Neto.

O que não se sabe

(glosa oblíqua de um verso de Ferreira Gullar)

Murmuras
Só o que não se sabe é poesia
e eu vejo-te à janela,
observando o movimento das coisas
na rua Duvivier, seu lento desfile,
sua prodigiosa vertigem, sua incerta glória,
uma miríade de coisas simples e pequenas
que desembocam numa grandeza cósmica,
coisas que se agitam, que se inflamam,
que brilham, coisas já matéria verbal
a aninhar-se no poema ainda no limbo,
esse novelo crescendo algures no
labirinto das circunvoluções cerebrais,
acendendo-se na tua consciência durante
o simples acto de olhar a rua, o poema
à espera de encontrar quem não saiba
o suficiente para o escrever, para o dizer.

Estás à janela, com o poema
expandindo-se dentro da cabeça,
poema silencioso, pés de lã, a erguer-se
do nada para uma espécie diferente
de silêncio, o som áspero das palavras
agora no papel, andaimes de tinta, carena
de um navio invisível mas que flutua
e avança leitor adentro, com os porões
carregados da melancolia que julgavas
só tua, mas que cedes agora ao
estranho comércio da poesia,
esse tráfico de ouro e pólvora,
brilho e deflagração.

Estás à janela, a cabeleira branca
reflectida no vidro, consciente
de cada um dos teus ossos,
e sobre os telhados do Rio de Janeiro
o céu que escurece é o de São Luiz
do Maranhão, paira no ar o cheiro
das bananas apodrecendo na tua infância,
a sombra das mil faces da miséria, a violência
venenosa do jasmim, o passado inteiro
com a sua carga ora sublime, ora abjecta,
e tudo isso cai no buraco do poema ainda
por existir, ainda buscando a sua forma
mas já em aproximação brusca
a quem um dia o lerá, compreendendo
ou não todos os sinais, a ordem
dentro da desordem, as asas da mosca
pousada no parapeito e a espiral
da mais longínqua das galáxias.

A rua Duvivier, não a conheço.
Fica numa cidade, o Rio de Janeiro,
onde nunca estive. Por isso, o teu
prédio, a tua janela, assumem na minha
imaginação uma forma que nasce
dos prédios todos de que me lembro
(prédios que não ficam na rua Duvivier)
e de todas as janelas que não são janelas
de prédios que fiquem na rua Duvivier.
É imaginária a janela em que te imagino,
no alto de um prédio também ele imaginário,
mas reais ambos, janela e prédio, porque
és tu e a tua cabeleira branca que se
reflectem no vidro enquanto o poema
ganha forma no labirinto das minhas
circunvoluções cerebrais.

Agora sou eu que murmuro:
Só o que não se sabe é poesia.
Não há poucos poetas porque
saibamos pouco. Há poucos
poetas porque sabemos demais.
Escrever é levantar uma cerca,
arame farpado na planície:
para cá da cerca, as nossas certezas;
para lá da cerca, o que desconhecemos.
Se tivermos sorte, o poema vem ter
connosco quando insones,
sonâmbulos, abrimos o portão
sem fazer barulho e nos perdemos lá
fora, nessa noite que escurece sobre
a nossa ignorância, sobre o Rio,
sobre a verdadeira rua Duvivier
e sobre a que imagino, sobre ti
e sobre mim, perdidos os dois
no reflexo da janela que não há.

[Poema escrito anteontem à noite, na Póvoa de Varzim, e lido ontem à tarde, na mesa 3 das Correntes d’Escritas]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Laços de Família, de Clarice Lispector (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Robert Enke – Uma Vida Curta Demais, de Ronald Reng (Lua de Papel), por Luís M. Faria
Baixo-Relevo, de R. Lino (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva
Estado de Guerra, de Clara Ferreira Alves (Clube do Autor), por Alexandra Carita
Inferno, de Marcel Ruljters (Mmmnnnrrrg), por Sara Figueiredo Costa
– Escolhas de António Cabrita

Grandolar nas Correntes

Muito ao seu estilo, quase no fim da mesa 5, Rui Zink, que havia elogiado o verbo grandolar, divulgado por Sara Figueiredo Costa no Facebook, chantageou o público: «Eu não sou menos do que o ministro Relvas. Se ele, só com uma licenciatura, foi interrompido pela Grândola, eu, que sou doutorado, também quero ser. Vou continuar a falar durante mais três horas se vocês não me interromperem com a canção do Zeca.» O público, que enchia até à porta o Auditório Municipal, respondeu logo, levantou-se e cantou, maravilhosamente desafinado, os versos que tanto incomodam o governo da nação. Era inevitável. Tinha de acontecer. Neste tempo em que nos apequenam, é preciso grandolar em grande. E grandolámos.

Mesa 3

De onde vem o verso

O mote para a mesa 3 saiu do primeiro texto do livro Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (edição portuguesa da Ulisseia). Eis esse magnífico poema, sem a devida formatação gráfica (que o WordPress, hélas, não permite):

FICA O NÃO DITO POR DITO

o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco

ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer

e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?

por isso é que
dizê-lo
é não dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo

do andar
do galo
no quintal
e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
(e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse –
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
(o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele o sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite

O mea culpa do Jornal de Notícias

Como não podia deixar de ser, o Jornal de Notícias pede hoje desculpa aos seus leitores pela absurda notícia falsa a que se agarrou obstinadamente durante quase uma semana, segundo a qual Manuel António Pina teria vencido o Prémio Casino da Póvoa, antes mesmo da reunião do júri. Só agora, quando a realidade desmentiu a conjectura de uma fonte supostamente «da maior credibilidade» e que «parecia lidar com informação muito restrita», veio finalmente o autor da notícia assumir que errou. Compreende-se que proteja a sua fonte, mesmo se a fonte não o protegeu a ele, expondo-o ao embaraço de uma humilhação pública. Mas há algo que não se compreende: como é que um jornalista aceita a informação de uma fonte e não a confirma? Neste caso, bastaria telefonar à organização das Correntes d’Escritas e averiguar quando é que o júri se reuniria. Porque nunca pode haver fuga de informação sem informação, nem se pode anunciar antecipadamente o que ainda não aconteceu. Depois de publicar a sua notícia no sábado e de ler o desmentido no domingo (explicitando que o júri só se reuniria na quarta-feira), porque insistiu o jornalista na dica de uma fonte que estava visivelmente equivocada? Só ele o poderá dizer. O problema é que a insistência implicou uma natural suspeita sobre a idoneidade do júri e a lisura dos seus procedimentos. Uma suspeita tão grave e insidiosa como infundada.
Fica bem a Agostinho Santos dar a cara pelo seu erro, pela sua má conduta profissional, e pedir desculpa aos leitores do Jornal de Notícias. Antes, porém, devia pedir desculpa a quem mais lesou com todo este caricato e infeliz episódio: o júri do prémio, do qual fiz parte com muita honra e prazer, a organização das Correntes d’Escritas, e o próprio Manuel António Pina, que merece todas as homenagens menos esta.

“só o que não se sabe é poesia”

Logo à tarde, a partir das 15h00, na mesa 3 das Correntes d’Escritas (Auditório Municipal da Póvoa de Varzim), este verso de Ferreira Gullar servirá de mote à sessão em que participo com Aurelino Costa, Ivo Machado, João Luís Barreto Guimarães, Lauren Mendinueta e Vergílio Alberto Vieira. Moderação de Francisco José Viegas.

Dois fragmentos finais (de A Terceira Miséria)

32.

Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos,
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou.
Oh, os amigos, os abandonados,
Esses, os destinados ao extermínio,
Esses os belos despojados, nus,
Os que, mesmo nascendo no Inverno,
Pouco sabem do frio, gente que dorme
Na sombra do meio-dia, ouvindo o canto
Das cigarras, o canto sobre o qual
Hesíodo escreveu. Gente do Sul,
Gente que um dia se desnorteou.

33.

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Hélia Correia

E o vencedor do Prémio Literário Casino da Póvoa é…

Hélia Correia, pelo livro A Terceira Miséria (Relógio d’Água). O júri decidiu por maioria.

Elas aí estão, as Correntes d’Escritas

Já começaram hoje e continuam até sábado. A programação completa pode ser consultada aqui.
Acabadinho de chegar à Póvoa, não prometo grandes reportagens, mas tentarei dar conta, com apontamentos e imagens, do que for acontecendo nas sessões (e fora delas).

Carreira de tiro

Maria dos Canos Serrados
Autor: Ricardo Adolfo
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 218
ISBN: 978-989-672-157-2
Ano de publicação: 2013

Quase no fim de Maria dos Canos Serrados, a protagonista dá finalmente sentido ao título, quando espalha chumbo com uma caçadeira Baikal, arma potentíssima e de coice valente, mas tão maneirinha que cabe inteira na mala de contrafacção (Louise Vittone). A violência, porém, começa por ser verbal: «Velhinho, Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho.» O livro abre assim e nunca mais volta atrás. Com as cartas em cima da mesa, pelo menos os leitores já sabem ao que vão.
O «velhinho» é o amante de Maria, um gigolô mulato que «faz» turistas flácidas em Armação de Pêra. Ausente, negligente, sempre mais preocupado com o meio-irmão, Jesus, do que com a sua «dama», a ele se dirigem as dezenas de mensagens (chamar-lhes cartas talvez seja um exagero) que compõem este muito irónico romance epistolar, uma narrativa tão alucinante e alucinada que faz figura de corpo estranho na pacatez da ficção literária portuguesa.
Ali para os lados da Linha de Sintra, consome-se muito «chocolate» (do que se fuma), muitos «tirinhos» de cocaína e smarties (pastilhas de todo o tipo, das anfetaminas aos speeds). Um dos cenários principais em que a acção decorre é um Bar e Salão de Fogo instalado num terceiro andar de um prédio de habitação, em Rio de Mouro, onde se pode disparar à vontade entre dois copos. Neste submundo, circulam marginais, raparigas que vão para bares de alterne em Espanha, malta que anda de autocarro no «IC» mas também actualiza o perfil no «Face», aproveitando o tempo livre do desemprego (porque «o único trabalho que há praí é o de procurar o trabalho que não há»).
Em paralelo com a crise afectiva de Maria, assistimos à crise maior, económica, laboral. Ela trabalha numa empresa à beira da falência, das que já não pagam a ninguém. No palco da tragicomédia, sucedem-se uma «doutora» aldrabona, um sindicalista que não é melhor do que a «doutora» aldrabona e se arma em «grande líder», além dos vários credores (com a Segurança Social à cabeça). Ocupações e greves estão longe de resolver o assunto para os mais fracos e os salários em atraso, que é impossível cobrar a bem, acabam por ser cobrados a mal. Eis a imagem, extremada, em traço grosso, de um país insolvente.
O que torna singular a obra de Ricardo Adolfo é a linguagem: corruptelas, pontapés na gramática, palavras que se fundem umas com as outras, neologismos («orgasmar», «vacabra»). Enfim, a oralidade suburbana em todo o seu esplendor. Encontramos igualmente alguns ecos da Crónica dos Bons Malandros, mas em versão mais áspera, mais suja, mais violentamente explícita e explicitamente violenta, talvez até com genes cinematográficos de Quentin Tarantino (atente-se na cena em que há cinco armas de fogo versus duas navalhas). Mas se os gatunos no livro de Mário Zambujal queriam roubar jóias na Fundação Gulbenkian, agora o objecto do roubo são milhares de cartões pré-pagos com chamadas telefónicas. Sinal dos tempos.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘Blimunda’, #9

O nono número da revista da Fundação José Saramago já está disponível para download, aqui.

José Eduardo Agualusa troca Dom Quixote pela Quetzal

Publicado há muitos anos pela Dom Quixote, José Eduardo Agualusa acaba de transferir-se da LeYa para o grupo Bertrand/Círculo (parte do universo Porto Editora). O seu novo romance, A Vida no Céu, aparecerá em Junho na Quetzal, chancela que lhe reeditará, ainda em 2013, o romance Um Estranho em Goa.

O regresso dos periféricos

A malta que fazia a excelente revista Periférica, uma espécie de New Yorker de Trás-os-Montes, está de volta ao activo. O blogue chama-se Iniciação ao Tédio, mas entediados é que os saudosos leitores de Rui Ângelo Araújo, Fernando Gouveia et al decerto não vão ficar.

Uma notícia falsa

Anunciou o Jornal de Notícias, em página inteira, a atribuição póstuma do Prémio Casino da Póvoa a Manuel António Pina. A notícia é absolutamente falsa, uma vez que o júri, de que faço parte, só reunirá no dia 20, à noite, sendo o resultado da escolha divulgado publicamente no dia seguinte. Ignoro se esta facada na deontologia jornalística se deve a incompetência, desleixo, má-fé, ou a todas estas razões juntas. O que sei é que uma informação errónea deste calibre põe em causa a idoneidade do júri e lança suspeitas que envenenarão o seu veredicto, seja ela qual for. E isso é inadmissível. Manuel António Pina, o grande poeta e cronista que tanto dignificou o JN com as suas prosas, não merecia que o seu jornal lhe fizesse isto.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Maria dos Canos Serrados, de Ricardo Adolfo (Alfaguara), por José Mário Silva
Groto Sato, de Raquel Nobre Guerra (Mariposa Azual), por Pedro Mexia
– Escolhas de Marcelo Teixeira

Livreiro da Esperança 2013

Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira, da Livraria Galileu (Cascais) são os vencedores deste ano.

‘Trás-os-Montes’ no Porto

No sábado, o Hotel ROSA ET AL (Rua do Rosário n.º 233, Porto), acolhe a partir das 17h00 uma apresentação do romance Trás-os-Montes, de Tiago Patrício (Gradiva), a que se seguirão «leituras e conversas com chá e bolinhos», além de uma pré-apresentação do livro O Estado de Nova Iorque, escrito por T. Patrício durante a residência literária que fez na Ledig House, no Outono de 2012.

Palavras que o vento não levará

«ler em voz baixa e em voz alta
falar, ouvir, ler e contar
dizer de sua justiça
conhecer mais pessoas
procurar nas estantes
livros para ler
passar aos outros
o que sim
o que não
fazer um espectáculo com muita gente, ser filmado
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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges