Uma escrita da gratidão

O Concerto Interior – evocações de um poeta
Autor: António Osório
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 120
ISBN: 978-972-0-79320-1
Ano de publicação: 2012

Em 2008, António Osório publicou um livro (Vozes Íntimas, Assírio & Alvim) sobre os amigos e artistas que mais admirou: António Sérgio, Cristovam Pavia, Sebastião da Gama, Mário Botas, entre outros. O Concerto Interior vem completar essa primeira incursão memorialística, direccionando desta vez as «evocações» do poeta para a esfera familiar. Trata-se, no fundo, de uma «breve autobiografia» heterodoxa, escrita ao «correr da vida». Heterodoxa porque não segue quaisquer regras quanto à delimitação de grandes temas ou à ordem cronológica dos factos. Osório alterna capítulos descritivos com reconstruções líricas, vai e vem no tempo, recorre a uma simples mudança de parágrafo para passar da intimidade ao espaço público, do particular ao geral – e vice-versa. Quase a chegar aos 80 anos, o poeta-advogado procura afastar a «velhice funesta». Por isso convoca as «fundas alegrias» e deixa as más vivências «à porta do Inferno». Na sua estrutura fragmentária, o livro é atravessado pela «luz fraterna» que sempre iluminou os versos deste autor e deu título, com a força de uma divisa, à reunião da poesia completa (Assírio & Alvim, 2009).
António Osório começa por recordar a infância na região de Setúbal, o «espanto pela natureza», a estima por quem trabalhava a terra, fixado mais tarde em poemas à senhora que amassava o pão ou ao carroceiro José da Vaca («um dente único, / trémulo de gaguez»), septuagenário que escolhia para o rapazinho de oito anos os melhores cachos do seu pequeno vinhedo. Esta é uma escrita da gratidão, do reconhecimento às pessoas que lhe foram abrindo, vida fora, caminhos e portas. No centro da vasta galeria, como num altar, pairam as figuras da mãe e do pai. A mãe florentina e «lutadora» que conseguiu fazer chegar aos familiares italianos, durante a II Guerra Mundial, carne e manteiga dentro de latas de conservas. A mãe que aplicava preceitos estritos de um curso de puericultura e lhe leu, quando ele ficou de cama por causa de uns «gânglios» potencialmente fatais, os grandes clássicos: primeiro a Ilíada e a Odisseia; depois a Divina Comédia, em italiano. Aliás, a mãe nunca lhe falou em português, instaurando nele um bilinguismo que lhe seria útil mais tarde, tanto no campo literário como no profissional. Menos impositivo, discreto e delicado, o pai representava o «amor telúrico» e o apego à cultura portuguesa. Para compensar a influência de Dante, dizia em voz alta, «com um acento melancólico e sofrido», Camões, Cesário Verde, Camilo Pessanha.
Além destes pilares, de cujo amor ele foi o «fiel da balança», Osório evoca outras figuras de «doçura» e generosidade. A tia Egeria que o levou a ver pela mão, com três anos, a Porta del Paradiso de Ghiberti. O Dr. Heliodoro Caldeira, apoio essencial no início do seu percurso na advocacia. O caseiro doente, internado em São José, a quem um dia levou laranjas como se comungasse do corpo de Cristo. Ou a poeta Maria Valupi, amiga íntima de Cecília Meireles, que tinha «sempre razão na sua ternura». Numa elegia, António Osório escreveu sobre esta mulher excepcional, que para ele era a tia Dulce: «Antiquários / por onde caminha, / cornaca / de outras casas, / móveis que respiraram / seus donos, lanternas / de carruagens ainda / com suor a cavalo, / lucernas de azeite extinto, / espelhos de Veneza / que devolvem / o estanho das imagens, / rostos puídos». Os «rostos puídos» ganham nitidez na prosa, mas é a poesia que os decifra, tornando «mais clara» a sua condição. Como nos versos finais do poema dedicado a Maria Emília, companheira durante seis anos de namoro e 52 de casamento, depois da sua morte em 2011: «Covas abertas / na terra espessa e dolorosa. / Não te queria aí – sai, / meu Amor, regressa.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘Ler em todo o lado’

Durante o mês de Abril, a rede de Bibliotecas Municipais da Câmara Municipal de Lisboa vai promover uma série de iniciativas para captar novos públicos, sobretudo junto dos leitores mais jovens. Informações e programação, aqui.

Primeiros parágrafos

«1.
Meu avô não gostava de falar do passado. O que não é de estranhar, ao menos em relação ao que interessa: o fato de ele ser judeu, de ter chegado ao Brasil num daqueles navios apinhados, o gado para quem a história parece ter acabado aos vinte anos, ou trinta, ou quarenta, não importa, e resta apenas um tipo de lembrança que vem e volta e pode ser uma prisão ainda pior que aquela onde você esteve.»

[in Diário da Queda, de Michel Laub, Tinta da China, 2013]

Noam Chomsky dirige-se aos leitores portugueses

A propósito do lançamento por cá do livro Occupy, editado pela Antígona.

Escritores na primeira pessoa

A Casa da América Latina vai exibir quinzenalmente, à segunda-feira, pelas 19h00, entre 1 de Abril e 21 de Outubro (com uma paragem em Agosto), a série de documentários Escritores en Primera Persona, sobre algumas das principais figuras da literatura latino-americana, as suas obras e o modo como se inserem na cultura dos seus países. Os filmes têm uma duração de aproximadamente meia hora.
Eis a lista completa:

1 de Abril: Elena Poniatowska (México)
15 de Abril: Luis Sepúlveda (Chile)
29 de Abril: Antonio Skármeta (Chile)
13 de Maio: Mario Vargas Llosa (Peru)
27 de Maio: Alfredo Bryce Echenique (Peru)
3 de Junho: Ariel Dorfman (Argentina/Chile)
17 de Junho: Isabel Allende (Chile)
1 de Julho: Quino (Argentina)
15 de Julho: Carlos Fuentes (México)
2 de Setembro: Mario Benedetti (Uruguai)
23 de Setembro: Juan Villoro (México)
7 de Outubro: Rigoberta Menchú (Guatemala)
21 de Outubro: Eduardo Galeano (Uruguai)

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Mário Soares – Uma Vida, de Joaquim Vieira (Esfera dos Livros), por Luísa Meireles
O Estranho Dever do Cepticismo, de Mário Mesquita (Tinta da China), por José Pedro Castanheira
Occupy, de Noam Chomsky (Antígona), por José Mário Silva
O Repórter de Kiribati, de Henrique Monteiro (Gradiva), por Alexandra Carita
Os Alferes, de Mário de Carvalho (Porto Editora), por Pedro Mexia
– Escolhas de João Tordo

A consagração da Planeta Tangerina, em Bolonha

Na Feira do Livro Infantil de Bolonha, a Planeta Tangerina foi eleita a melhor editora europeia de livros para a infância. Que bela notícia. Um prémio justíssimo.

Quatro poemas de Eugénio de Andrade

OS FRUTOS

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.

***

METAMORFOSES DA CASA

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

***

CANTE JONDO

A mão onde pousava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada pousava
do que a noite trazia.

***

DESPEDIDA

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

[in Ostinato Rigore, Assírio & Alvim, 2013]

Catarina ou o saber dos livros

Ficar na prateleira não é necessariamente mau, sobretudo quando a prateleira se vai enchendo de livros. Bem-vinda à faina dos bloggers literários, CHM.

No túnel do tempo

Amuleto
Autor: Roberto Bolaño
Título original: Amuleto
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 139
ISBN: 978-989-722-088-3
Ano de publicação: 2013

Publicado em 1999, Amuleto é um romance breve que funciona como uma ponte entre as duas monumentais obras-primas de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (1998) e o póstumo 2666 (2004). Os livros do escritor chileno, embora autónomos, estão imbricados uns nos outros. Têm vasos comunicantes. Partilham temas, obsessões e personagens. Compreendem-se melhor se lidos em conjunto. Nas mais de mil páginas de 2666 não se encontra uma única frase que justifique o título, mas numa cena nocturna deste Amuleto, com três personagens à deriva pela Cidade do México, a explicação surge quase como um prenúncio: no desamparo da madrugada, a Avenida Guerrero parece-se com «um cemitério de 2666, um cemitério esquecido sob uma pálpebra morta ou nascida morta, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer uma coisa acabou por esquecer tudo».
Tal como fizera em Estrela Distante (versão ampliada da história do poeta-aviador Ramírez Hoffman, contada no último capítulo de A Literatura Nazi nas Américas), Bolaño recupera e desenvolve em Amuleto um dos 52 testemunhos que compõem a parte central do romance Os Detectives Selvagens. Ou seja, a história de Auxilio Lacouture, uma uruguaia que ficou fechada quase duas semanas, sem comer, numa casa de banho do quarto andar da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autónoma do México, em Setembro de 1968, quando o exército e a polícia anti-motim invadiram o campus, esmagando à força a contestação estudantil. Auxilio, figura alta e magra, «versão feminina do Quixote», conta como chegou à capital em data incerta e explica o seu estranho modo de vida, os trabalhos ocasionais (dactilografia, traduções), as limpezas voluntárias em casa de dois poetas espanhóis exilados e os encontros boémios em cafés com os escritores mais novos entre os novos. Ela lê o que eles escrevem, incentiva-os, discute. E talvez por isso se auto-intitule «mãe da poesia mexicana».
A felicidade desta vida simples suspende-se durante a reclusão na casa de banho, um acto de resistência com o seu quê de martírio. Encostada aos mosaicos onde o luar se reflecte, Lacouture cria mentalmente um «túnel do tempo», em que este deixa de ser linear e se estica («como a pele de uma mulher adormecida na sala de operações de um cirurgião plástico»), depois desdobra-se «como um sonho», parte-se, fragmenta-se (ou então abdica do seu continuum, que «sofre um arrepio»). Misturam-se assim acontecimentos passados e futuros, factos reais e imaginados, devaneios e profecias – todo um delírio onírico que Bolaño transforma num fascinante labirinto de memórias. Nas páginas finais, Auxilio vê, num pesadelo, os «fantasmas» de «uma geração inteira de jovens latino-americanos sacrificados», caminhando «inevitavelmente» para o abismo. Eles eram utópicos. Eles cantavam. Bolaño sabe isso, sabe muito bem, porque esteve nessa multidão. Mesmo depois de engolida pela História, lembra-nos, o seu canto «continuou no ar». E esse canto é «o nosso amuleto».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Notícias que assustam

O actor Jim Carrey vai auto-publicar um livro infantil «metafísico».

‘O Cavaleiro Coragem’ (booktrailer)

Um livro-jogo de Delphine Chedru, editado pela Orfeu Negro.

O que aí vem (LeYa)

Tudo É e Não É, de Manuel Alegre (D. Quixote); A Imensa Boca Dessa Angústia e Outras Histórias, de Urbano Tavares Rodrigues (D. Quixote); Tieta do Agreste, de Jorge Amado (D. Quixote); O Redentor, de Jo Nesbo (D. Quixote); Enquanto Lisboa Arde, O Rio de Janeiro Pega Fogo, de Hugo Gonçalves (Casa das Letras); A Mulher do Legionário, de Carlos Vale Ferraz (Casa das Letras); Melo e Castro: o Provedor Que Dizia Sim à Democracia, de Joana Reis (Casa das Letras).

Línguas inventadas

«(…) We all live in the land of invented languages, and they matter as much now, though perhaps differently, as they did in the seventeenth century. You may not have heard of Paul Frommer, but you probably remember Na’vi, the language he invented for James Cameron’s Avatar (2009). You may be blissfully unaware of the Language Creation Society and David J. Peterson, yet not ignorant of Dothraki, the language Peterson developed for HBO’s Game of Thrones, from kernels of it planted in George R. R. Martin’s series of epic fantasy novels, A Song of Fire and Ice (1991–2011). Israelis speak a revitalized language, that is to say, partly invented rather than historical, namely, Modern Hebrew. Hawaiian is also a revitalized or reconstructed language; it is an emblem of Hawaiian heritage, and just one of many such revitalized languages around the world.
Inventing a language is arduous, and no one attempts it without a serious purpose or aspiration. As Suzanne Romaine, one of the world’s leading linguists, argues in From Elvish to Klingon: Exploring Invented Languages, “A similarity of purpose and motivation drives inventors of all new languages, whether in the real or fictional world. The perceived need for them arises from dissatisfaction with the current linguistic state of affairs. Recognition that language can be used for promoting or changing the social, cultural, and political order leads to conscious intervention and manipulation of the form of language, its status, and its uses.” The quality of that dissatisfaction, however, and the language in which it’s reflexively expressed, is particular to the case. We are probably all dissatisfied to some extent with the language we’re given. The question is, What do our responses say about the human condition?»

O texto completo de Michael Adams, na revista Humanities, pode ser lido aqui.

Desenhos que pensam

Bem Dita Crise!
Autor: António Jorge Gonçalves
Editora: Documenta
N.º de páginas: 118
ISBN: 978-989-8618-01-6
Ano de publicação: 2012

Um Cavaco Silva ligeiramente curvado estende a sua língua pelo chão como uma passadeira vermelha para José Eduardo dos Santos pisar (título: «a importância da língua portuguesa»). O Papa Bento XVI carrega uma cruz em forma de pénis. A meio do segundo mandato, George W. Bush utiliza uma carta do presidente iraniano, Ahmadinejad, como papel higiénico. O Dalai Lama transfigura-se num panda, animal raro, preso em gaiola made in China. A lentidão da ONU no Líbano materializa-se na imagem de um capacete azul condenado a ser casca de caracol. Os cartoons que António Jorge Gonçalves vem publicando no suplemento Inimigo Público há uma década (começou em 2003) são quase todos assim: intensos, provocadores, ácidos, rudes, desbragados, politicamente incorrectos e capazes de sabotar, com requintes de malvadez, a lógica informativa que é servida todos os dias nos telejornais.
Os desenhos de AJG não servem para fazer rir. Servem para fazer pensar. Se há riso, é um riso nervoso, de quem se sabe à mercê de forças demasiado violentas e incontroláveis. Num meio tão ameaçado como a imprensa portuguesa, louve-se tamanho desassombro. Diz o autor, num texto muito lúcido que acompanha a sequência de trabalhos e comenta a sua génese: «Os jornais morrem todos os dias: um cartoon de imprensa tem apenas uns segundos de vida, morrendo com o virar da folha. Esta volatilidade é frustrante quando julgo ter feito um bom desenho, mas também é uma bênção quando estou desinspirado.» Tudo menos voláteis, os trabalhos de António Jorge Gonçalves raramente precisam de bênçãos e ganham até novos sentidos com o passar do tempo. Não haverá talvez maior glória ao alcance de um cartoonista.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«(…) Claro que eu, como leitor incansável, tinha as minhas ambições. Também queria escrever um livro. Sentava-me frequentemente em frente de uma máquina de escrever e escrevia coisas que deitava fora. Raramente ia além da segunda página. Cheguei mesmo a pensar escrever um livro só com inícios. Inícios de romances. Sempre gostei dos primeiros parágrafos dos livros e até achei que poderia ser uma boa ideia: um livro feito de inúmeros livros que não acabavam, um livro feito de começos. No fundo, um livro como a nossa vida. Sabemos mais ou menos como começou, mas não fazemos ideia de como acaba. Seria mais realista se escrevêssemos a vida só com primeiros parágrafos, pois os finais, no que respeita a nós mesmos, são uma fantasia.»

[in Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner, de Afonso Cruz, Alfaguara, 2013]

Dia da Poesia no CCB

Hoje, dia 24, a poesia volta a invadir o CCB. São muitas as iniciativas: debates, exposições, homenagens (a Ruy Belo), ateliers, concertos, maratonas de leitura, uma Feira do Livro. À semelhança do que aconteceu o ano passado, eu lerei poemas na sessão “De Viva Voz” (apresentada por Beatriz Batarda), na Sala Luís de Freitas Branco, a partir das 16h45. A programação completa, aqui.

Óscar Lopes por ele próprio

«Eu sei que não sou Napoleão, nem talvez doido, nem crítico, nem ensaísta, nem mesmo essencialmente professor, linguísta ou político, assim como nunca me revejo, num estilo ou numa visão pessoal do mundo, a não ser pelas limitações ou pontos mortos a que se sujeita tudo aquilo a que temos o ensejo e a gana de fazer algum dia. Não confio em qualquer título de auto-reconhecimento, porque tanto as nossas imagens a um espelho polido como as nossas imagens que os olhos alheios nos devolvem estão, não apenas erradas na sua simetria axial, mas medusadas pelo reflexo inverso do nosso próprio olhar que fita, e fixa, essas imagens.
Nunca me senti a fazer crítica: apenas se trata de obedecer a uns impulsos, sempre complicados e em conflito, no sentido de continuar, de algum modo, os movimentos também conflituais de que um texto é feito, ou de que mais evidentemente participa. Não faço linguística: trata-se apenas de, com a mais rigorosa metodologia disponível, reflectir sobre certos gestos do nosso espontâneo modo de falar, gestos que têm que ver com relações especiais de tempo, de atitude e de referência da comunicação social possível. Também não sou político por vocação: apenas nasci num povo em que a luta de classes só não será evidente para uma certa cegueira de espírito, e comungo de uma nação periodicamente renegada por classes dirigentes, que há precisamente seis séculos ardiam em fidelidade dinástica castelhana, há quatro séculos se queriam integrar no grande império pluricontinental dos Habsburgos, e que hoje se pretendem entusiasmados por uma Europa problemática, uma Europa muito diferente daquela que, no Canto III d’Os Lusíadas, avança, em 15 estrofes, desde os Urales até “onde a terra acaba e o mar começa”, ao passo que a nova Europa, a que afinal ainda não pertencíamos detém-se no Oder e ainda parece ter a capital militar no Pentágono.»

[Excerto da alocução na entrega do Prémio Jacinto do Prado Coelho (1984), atribuída pela Associação de Críticos Literários em Maio de 1985, transcrita e actualizada in Cifras do Tempo, editorial Caminho, 1990; roubado ao Rui Almeida, que o partilhou no Facebook]

Bilingue

Poemas meus em português e castelhano, numa revista cultural online venezuelana (obrigado, Raquel Molina!).

O que aí vem (Sinais de Fogo)

A Virtude nas Organizações – Fonte de Progresso e Sustentabilidade, de Neuza Ribeiro, Arménio Rego e Miguel Pina e Cunha; O Guardião do Tempo, de Mitch Albom.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Amuleto, de Roberto Bolaño (Quetzal), por José Mário Silva
O Visitante Paralelo, de José Carlos Soares (Língua Morta), por Pedro Mexia
– Escolhas de Afonso Cruz

O cordame invisível

De mim já nem se lembra
Autor: Luiz Ruffato
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 133
ISBN: 978-989-671-132-0
Ano de publicação: 2012

Em De mim já nem se lembra, um relato de cariz autobiográfico, Luiz Ruffato começa por narrar um regresso à casa da família em Cataguases, a cidade de Minas Gerais onde nasceu em 1961. Os pais continuavam a fazer o que sempre fizeram: ele pipoqueiro («revirava os recônditos da cidade vendendo caramujos, caramelos e rosquinhas-amanteigadas»), ela lavadeira («mãos queimadas de água-sanitária»), ambos analfabetos. Apesar de o pai ter sido diagnosticado, 25 anos antes, com uma tuberculose que deveria levá-lo em seis meses, mas não levou, é a mãe que se está a apagar com um cancro: «a morte a contatara antes e desesperada minha mãe procurava agarrar-se ao cordame invisível que nos move e ele desfazia-se podre em suas mãos suadas». Melancólico, lírico, este intróito funciona como «explicação necessária» para a secção epistolar do livro. Após a morte da mãe, Luiz organiza os seus «parcos haveres» e encontra, debaixo da cama, uma pequena caixa rectangular de madeira. Lá dentro, intacto, a progenitora «abrigara seu coração esfrangalhado», na forma de um maço de 50 cartas, «cuidadosamente enfeixadas com barbante». São essas 50 cartas, enviadas pelo filho mais velho, de 1971 a 1978, desde que partira para São Paulo à procura de uma vida melhor até às vésperas do fatal acidente de viação, que o narrador revela, na íntegra e em ordem cronológica.
No seu jeito linear, «relatando ninharias, reclamando novidades», as cartas são quase banais. José Célio descreve as agruras de quem chega da província à grande cidade; dá conta do trabalho numa fábrica em Diadema; aflora sem grandes detalhes os seus namoros, solidões, tristezas; assume o desenraizamento («não sou de lugar nenhum»); e os complexos de inferioridade («lá no fundo eu continuo um pé-rapado, um zé-ninguém, com medo de tudo e de todos»). Mas por trás desta vida dura, sempre em esforço, desenha-se um retrato do Brasil da época: o crescimento urbano, os relacionamentos sociais, o futebol, a situação política («a gente vive debaixo de uma ditadura que prende e mata trabalhadores, que a única coisa que querem é mudar a situação injusta do país»). Verdadeiras ou ficcionadas, não importa: as cartas são verosímeis. Mostram um rapaz normal que morreu cedo demais, abrindo na família «uma chaga nunca mais cicatrizada». A beleza do livro está toda na forma delicadíssima como Ruffato se aproxima do tal «cordame invisível que nos move» e desse irmão que «permanece com 26 anos, ardendo inexoravelmente em minhas lembranças».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]

E se ‘The Waste Land’ fosse um rap?

Seria analisado, como qualquer outra canção hip hop, pelo blogue Rapgenius. O mais curioso é que foi mesmo, como se pode comprovar aqui (é de supor que T.S. Eliot tenha dado umas quantas voltas na campa).

Óscar Lopes (1917-2013)

Morreu um Mestre, um homem bom, um sábio.

Bendito Festival Mal Dito

É um festival de poesia, em Coimbra. Começou ontem e continua até domingo. Programação completa aqui.

Memória de uma residência

Em Setembro do ano passado, eu, a Margarida Vale de Gato e o Jaime Rocha participámos numa residência poética inserida no encontro ‘Poesia, Um Dia‘, organizado pela Biblioteca Municipal José Baptista Martins (Vila Velha de Ródão). Na aldeia de Foz do Cobrão, deambulámos, conversámos muito e escrevemos alguns poemas que foram lidos numa sessão aberta ao público.
Desta experiência nasceu o documentário Portugal: Poema em Construção, produzido pela Biblioteca, para o qual contribuí (sem saber na altura o destino que teriam aquelas imagens) na qualidade de interveniente e de operador de câmara. Eis o resultado final:

Quatro poemas de Gastão Cruz

3

Fotografia de uma personagem
de ti inseparável: nela pesa
essa parede a arder que sem querer ao
procurar ainda ver-te
vi, já não corpo deitado
somente a luz informe da passagem

***

5

Tornara-se perfeita a coincidência:
sobre a mesa puseras os braços e subia
o teu olhar; ameaçavas mas eras
o ser ameaçado, por um tiro talvez;
nesse momento não podias
nem mesmo suspeitar de como era tão breve
a personagem
de que não te separaras

***

13

Os mortos estão
mortos? Onde existe o seu
tempo de vivos? Há dias em que
o traço desses dias
morre infinitamente e todavia o filme
de actos findos
continua a passar numa tela vazia

***

33

Eu vivi nesses anos mas não sei
o que foi por exemplo ter vivido
em mil novecentos e setenta e sete
embora lembre bem a face e o
movimento de cada actor
no palco de cimento,
e o que fora de cena era a alegria
e a dor da minha noite e do meu dia

[in Fogo, Assírio & Alvim, 2013]

Sophia na Assírio

O Grupo Porto Editora escolheu o Dia Internacional da Poesia para anunciar que a Assírio & Alvim, depois de Eugénio de Andrade, vai também passar a editar a obra poética completa de Sophia de Mello Breyner Andresen. Os primeiros títulos a recuperar, ainda este ano, são Poesia (1944), Coral (1950), No Tempo Dividido (1954) e Mar Novo (1958). Recorde-se que em 2012 a Porto Editora já assegurara os direitos para reeditar a obra em prosa de Sophia.

Festival Literário da Madeira com programação fechada

No início de Abril, entre dia 1 e 7, decorre no Funchal o terceiro Festival Literário da Madeira. A programação pode ser consultada aqui. Destaque para a presença de Naomi Wolf e Zygmunt Bauman, que serão entrevistados por Rui Tavares e José Rodrigues dos Santos, respectivamente. Haverá cinco mesas: “A Arte de Morrer Longe” (Mário de Carvalho), moderada por Cláudia Rodrigues, com João Tordo, Raquel Ochoa, Tiago Patrício e Tiago Salazar; “A Arte de Lidar Com as Mulheres” (Schopenhauer), moderada por Paula Moura Pinheiro, com Ana Luísa Amaral, Filipa Leal, Inês Fonseca Santos, João Paulo Cotrim e Waldir Araújo; “A Arte da Guerra” (Sun Tzu), moderada por Ricardo Miguel Oliveira, com Antonio Scurati, Carlos Vaz Marques, João Luís Barreto Guimarães e Pedro Mexia; “A Arte da Libertação” (Krishnamurti), moderada por Sílvio Fernandes, com Anselmo Borges, Gina Picart, Lídio Araújo e Tabish Kahir; e “A Arte de Pagar as Suas Dívidas” (Balzac), moderada por Carlos Vaz Marques, com Carlos Quiroga, Maria do Rosário Pedreira, Raquel Varela e Rui Zink.

Nascimento de uma editora

Chama-se Parsifal e tem a cara do seu pai: Marcelo Teixeira, durante muitos anos editor da Oficina do Livro, grande amigo e principal responsável pela existência do meu segundo livro (Efeito Borboleta e outras histórias). Depois de sair do grupo LeYa, o Marcelo regressa ao activo com um projecto que teve um primeiro momento no final de 2012 – o livro História(s) do Estado Novo, com palavras e factos compilados a partir de uma extensa investigação nas hemerotecas – mas que abrirá portas a sério no início de Abril. Mais concretamente a 4 de Abril, data em que chegarão às livrarias os primeiros exemplares de Contos Capitais, uma antologia de histórias inéditas em que 30 escritores escrevem sobre 30 cidades diferentes (a mim coube-me Washington).
Eis, em «rigoroso exclusivo mundial» (como lhe chama ironicamente o Marcelo), a capa do livro:


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Longa vida, então, à Parsifal. Que publique muitos e bons livros. Cá estaremos para os ler.

Poema inédito de José Luiz Tavares

DÚVIDA SOBERANA
(À memória de Wislawa Szymborska)

Não seremos puros, anuncia o poema.
Grão de areia havemos de conter,
o zumbido das moscas, música propícia
do âmago das infinitas brumas declararemos.
Das estrelas apenas o pulsar negro
havemos de saudar.

Grande calamidade a dor de um único
homem. Por isso odes não cantaremos
às esferas, mas as perturbações geológicas
saudaremos com grave equilíbrio,
se bem que com considerável afoiteza
rodopie dentro de nós o tempo zombador.

Se forças nos faltarem para gizar os grandes
voos, um murmúrio seco será então o penhor
da nossa vontade, porquanto mais amamos
o instante em que o espírito sangra
que as fileiras de preciosos pensamentos
dispostos em camadas seculares.

Certamente os olhos brilharão quando o rude chão
os pés tocarem e um oh soltarmos diante
do mundo que se revela. Morte, definitivamente
sim, mas só aos bocados deglutiremos,
talvez à espera do olvido impossível.

O privilégio do silêncio proclamaremos
diante das pedras cujos milénios não contaremos.
O infinito tocaremos só ao de leve, que nossos
curtos braços são precisos para dar à manivela
à celeridade triunfante.

Ressonância terá acolhimento em nosso
seio, mas não debateremos se será matéria
reciclável, pelo menos enquanto nos interrogar
a face esfolada de um único vivo. Alta metafísica,
devolver à procedência. Contrato rescindir com
o desassossego que não seja o eco
da própria vida a debater-se.

Beleza, só a lacerada daremos guarida,
a que emerge dos escombros que dão nome
à derrota, atiça a fome do que não há,
improviso irrepetível, fagulha em extinção,
oração que não redime, mas persiste
impertinente como maleita gerada pela nossa
retumbante miséria.

No entanto, generosos seremos sempre
com as barrigas inchadas, os olhos esbugalhados,
as falanges sem ardor, e por vós testemunharemos,
silenciosas musas, tudo o que é indigno da vossa
majestade, e à vossa presença o levaremos em inefáveis
vestes envolto, sem nada que provoque riso ou cólera.

Contudo, eternidade alguma almejaremos,
sequer a simples verdade, tributos por demais
pesados para as nossas frágeis canelas,
mas bem vinda seja um pouco ou toda a vivaz
liberdade brotada da carne da pura imaginação,
ainda que amiúde rendida à vénia conveniente.

No entanto permiti que protestemos
contra a alegre despreocupada cor azul
à ilharga das pancadas que o escuro arreia
em nossas junturas, não sabendo nós
com que intenções, salvo que nos salta ao caminho
com um alforge de incontáveis repenicantes ruídos.

Uns soluços amealharemos, mas paisagem
de sentimentos não seremos. Um momento
de deslumbramento, e é tudo — voltamos à inicial
mudez da pedra que fala, se interrogada com
os instrumentos convenientes. Não recriminaremos
a pressa se for o vento golfando sobre os povoados.
Abraçar a chuva é excepção permitida, conquanto
nos deixe o hirto pescoço à flor do dilúvio assomado.

Não remiraremos nas águas lustrais o perfil
primitivo ou a felina destreza com que saltávamos
de constelação em constelação, quando com delicadas
luvas o cosmos acolhedor afagávamos e em nosso
cálido regaço o mundo nem ao de leve cedia
ao apalpar inclemente; porém a máscara mais
esfarrapada afilaremos não para o fingimento
nos entreactos em que com esbracejante vigor
alinhavávamos os grandes temas — tempo, solidão,
eternidade —, mas para o desconsolo nosso
ocultarmos e não ofendermos a glória farejada,
a alta omnisciência que escarnece do nosso
desabrochar impuro, ou do assomo farfalhante
de um oceano de dúvidas.

Um bom dia de carantonha ressequida embora
acolheremos quando inferno de pó abraça
a cintura do território, mas não usaremos coloridas
lentes de ler da pedra o movimento, porquanto
confiamos na imobilidade primordial,
e um estremecer fortuito é normal,
seja vivo ou inanimado o assediado pelo temporal.

O sol consentiremos bem repartido pelas
unhas, cabelos e pele, inda que momentaneamente
uma nuvem escale o topo das preocupações
sensíveis. Daí termos a alma de prevenção,
mas bem trancada, que se insinua em tudo, a danada.

A mudança e a metamorfose aplaudiremos,
mesmo se com elas trazem a defenestração fatal.
Motivo de profundo regozijo será para nós
o olhar desdenhoso dos circunstantes
quando arribados à soleira declararmos
«saudações, senhores, somos a peregrina poesia».

Infinitamente compreensivos seremos
com o desiludido que logo se retira grunhindo
«isto não é um poema», mas milagres não
prometeremos, pelo menos nesta estação ou safra:

nas costas corsárias na flibusta outrora embrenhados,
até o ar expelir agora nos custa. Mas asas e bico
de rapina na imaginação teremos e, eia avante
agigantados ante a treva, com lume nos ossos
e bocejo rangente às lacustres moradas então
retornaremos (as sublimes mansões derruídas
foram pela mão do tempo), ao imo do primeiro
ovo, e seremos pão do povo, se pólvora já não
podemos, sequer a simples pedra que se atira
ao cocuruto do destino, aos fundilhos do infinito.

De borco, com o suor do esforço,
ergueremos já não as cidades futuras
onde o passado é longo e refulgente
e batedores trazem novas dos feitos imorredoiros,
mas um sítio apenas onde poisar a cabeça
espreitando o milagre corriqueiro.

Por isso mensageiros já não somos do estertor
dos tiranos nas praças do mundo enforcados,
mas reflectimos logo de manhã a taxa de madrugada
lançada sobre o nascente raio de sol, sobre a viela
que pisamos, e o abraço retribuído com um
entusiasmo de caveiras nas fileiras dos crematórios.
Decerto baixará o rating da dívida, mas aumentará
a soberana dúvida sobre nosso poder de esconjuro e dolo.

Um último suspiro porém guardaremos para gritar
«poesia ou morte», de tal sorte que nosso retorcido
esqueleto em mil estilhas se espalhará. Nossa eterna
tristeza, nossa definitiva derrota porém seria
todo o leitor aqui chegado não declarar
«algo aqui há a acrescentar».

José Luiz Tavares

Primeiros parágrafos

«Era uma vez um homem chamado Albinus que vivia em Berlim, na Alemanha. Era rico, respeitável, feliz; certo dia abandonou a mulher por causa de uma amante jovem; amava; não era amado; e a sua vida acabou em desastre.
Isto é a história toda e podíamos tê-la deixado por aqui se não fosse o proveito e o prazer no contar; e embora haja numa pedra tumular espaço de sobra para conter, encadernada em musgo, a versão resumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem-vindos.»

[in Riso na Escuridão, de Vladimir Nabokov, trad. de Telma Costa, Relógio d’Água, 2013]

Novos dicionários online da Linguee

Português-Espanhol, Português-Francês e Português-Alemão. Criado em 2010, o Linguee é o dicionário online com a maior base de dados do mundo, tendo já respondido a mais de mil milhões de consultas.

Um certo Yunior

É Assim Que a Perdes
Autor: Junot Díaz
Título original: This is How You Lose Her
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 153
ISBN: 978-989-641-299-9
Ano de publicação: 2013

Junot Díaz apresentou-nos pela primeira vez a figura de Yunior no seu livro de estreia, escrito num inglês vibrátil, contaminado por palavras espanholas e pelo calão dos subúrbios de New Jersey. Drown (1996) forma um conjunto de contos interligados que alterna vinhetas sobre as dificuldades de integração dos imigrantes caribenhos nos EUA com episódios da infância miserável na República Dominicana (inesquecíveis, as duas histórias sobre um rapaz que usa uma máscara de couro, para esconder o rosto devorado por um porco). Yunior foi depois o narrador do segundo livro – o extraordinário romance A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao (Porto Editora, 2009), vencedor do Pulitzer de Ficção – e volta a ser a personagem principal de É Assim Que a Perdes, um volume de contos com uma estrutura semelhante à de Drown. Ou seja, cada texto funciona por si mesmo, mas também faz parte de um mosaico cronologicamente fluido dos vários momentos essenciais da vida de Yunior, que pode perfeitamente ser um alter ego de Díaz, tendo em conta as muitas coincidências biográficas (além da origem comum, ambos estudaram na Universidade de Rutgers, são escritores e dão aulas em Boston).
Em Invierno, um dos melhores contos do livro, Díaz descreve, com uma subtileza feita de silêncios, o desamparo daqueles que se vêem subitamente transplantados para outro país, diametralmente oposto ao que conheciam. Após anos a trabalhar nos Estados Unidos, onde arranjou uma amante, o pai de Yunior consegue finalmente mandar vir a família: mulher e dois filhos. Eles passam a viver num bairro ainda em construção, junto a um aterro de lixo, sempre fechados em casa por causa do frio. O pai é um estranho que impõe as suas regras. Quando percebe que o cabelo demasiado «africano» do filho mais novo não cede aos tratamentos de um barbeiro porto-riquenho, manda cortá-lo rente. Na belíssima cena final, em que a mãe desobedece ao jugo paterno e sai com os filhos durante uma tempestade de gelo, Yunior tira o gorro, «só para sentir os flocos de neve a caírem dispersamente na minha cabeça dura, rapada».
Díaz chega a ser genial neste tipo de detalhes, que resumem tudo numa frase ou numa expressão. Lemos «Grandes nuvens brancas paradas no céu, gente a lavar carros com mangueiras, música na rua» e não é preciso mais para imaginarmos um bairro latino. Depois de o amante sair, uma mulher vê que no lavatório «os pêlos da barba dele estremecem sobre gotas de água, agulhas de bússola». De regresso à ilha para visitar a família, uma dominicana pousa os presentes sobre os joelhos, «como se levasse ali os ossos de um santo». Quem a observa esta última imagem é Yunior, que viaja no mesmo avião, a tentar desesperadamente reconciliar-se com uma namorada. Ele avisa logo que «se isto fosse outro tipo de história», falaria de Santo Domingo, do mar com «aparência de prata rasgada» e da rua onde nasceu, ainda indecisa sobre «se quer ser um bairro-de-lata ou não». Nada disso acontece porque o «tipo de história» que Yunior nos pretende contar gira praticamente em torno de um único tema: a sua infidelidade compulsiva.
Uma atrás de outra, vamos conhecendo as muitas namoradas traídas e a forma como Yunior não consegue lidar com elas. Ao perdê-las, quase sempre por incompetência emocional (um misto de insensibilidade e desleixo), é ele que se perde, pondo em causa a imagem que faz de si mesmo: um tipo «fraco, cheio de falhas, mas basicamente bom». Quando uma das ex lhe envia, encadernados, os e-mails e fotos que provam as suas traições, dizendo que são «material para o teu próximo livro», ele espanta-se com a «vastidão» da sua «desonestidade» e vê-se finalmente como é: «um cobarde e um cagarolas do caralho». O «próximo livro» – pessoal, doloroso – talvez seja este que lemos. E nunca relatos sobre as ruínas da paixão amorosa foram tão honestos, tão brutais, tão no osso, tão na pele.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Saldos na Cotovia

De 1 a 5 de Abril, na livraria da Cotovia (Rua Nova da Trindade, 24, em Lisboa) todos os livros do catálogo desta excelente editora terão um desconto de 40%.

A voz de Virginia

Bela voz, grande mulher, enorme escritora. «Words do not live in dictionaries; they live in the mind.»

O que aí vem (Gradiva)

A Vida Inútil de José Homem, de Marlene Ferraz (Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2012); Sobre a Dificuldade e Outros Ensaios, de George Steiner; Cartas de Amor de António José Saraiva a Teresa Rita Lopes, edição de Ernesto Rodrigues; Ciclos de Tempo – Uma Visão Nova e Extraordinária do Universo, de Roger Penrose.

Prémio para histórias digitais ilustradas

Quem promove o prémio é a Nave Especial (uma parceria entre a editora Pato Lógico e a Biodroid). O regulamento pode ser consultado aqui.

Euratória

É um blogue sobre «a defesa da integração europeia e do seu principal instrumento, a União Europeia». Chama-se Euratória: oratória sobre a Europa. E nunca precisámos tanto disso como agora.

O poeta na cidade

Obra Poética – Vol. 1
Autor: Jorge Luis Borges
Tradução: Fernando Pinto do Amaral
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-989-722-071-5
Ano de publicação: 2012

Quando em 1923 escreveu o seu primeiro livro de poesia, pouco depois do regresso à Buenos Aires natal, após longa permanência na Europa, Jorge Luis Borges ainda não era o escritor que viria a ser: o Borges das grandes especulações metafísicas, dos labirintos reais e imaginários, das fantasias eruditas, da literatura enquanto matéria que se alimenta da sua condição livresca. Em vez disso, temos alguém que canta uma cidade mítica, deambulando pelas ruas, pelos cemitérios, pelos pátios, entrevendo grandeza obscura, porque decadente, na paisagem urbana, limitada por arrabaldes onde o perigo espreita, antes da pampa e sua desmesura. Ao voltar a Fervor de Buenos Aires em 1969 (versão agora reeditada pela Quetzal no volume 1 da Obra Poética, a que se juntam os dois livros seguintes: Lua Defronte, de 1925, e Caderno San Martín, de 1929), Borges mitigou «excessos barrocos» mas admitiu que «aquele rapaz» de 1923 já era «essencialmente» o «senhor que neste momento se resigna ou corrige».
Os dois primeiros versos do livro não podiam ser mais explícitos: «As ruas de Buenos Aires / são já as minhas entranhas.» Borges ama a sua cidade visceralmente: respira-a, sonha-a, evoca-a com o corpo tímido (uma carnalidade feita de palavras e metáforas: «A tua ausência cerca-me / como a corda à garganta. / O mar ao que se afunda»). O tom é elegíaco. O poeta lembra os antepassados, exalta uma rosa, fixa os ritmos da natureza e os cambiantes da luz (lentos entardeceres, crepúsculos, a alba). Aqui e ali, irrompe o sentimento amoroso, mas quase sempre condenado: «Em ti mora o prazer / tal como a crueldade nas espadas». Surgem também, antecipando temas recorrentes no futuro, a «suspeita geral e confusa / do enigma do Tempo», aproximações ao mistério da morte, ao «silêncio que habita nos espelhos», ao «medo unânime da sombra». No prólogo, Borges é categórico: «Para mim, Fervor de Buenos Aires prenuncia tudo o que faria depois.» Talvez haja menos exagero nesta frase do que parece à primeira vista.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges