Mater dolorosa

testamento

O Testamento de Maria
Autor: Colm Tóibín
Título original: The Testament of Mary
Tradução: Tânia Ganho
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 109
ISBN: 978-972-252-602-9
Ano de publicação: 2013

Sentindo a morte próxima, Maria, mãe de Jesus, conta-nos a sua versão da história. É o seu testamento, o seu testemunho, o seu evangelho íntimo – narrado na primeira pessoa com raiva, mágoa e arrebatamento lírico. Colm Tóibín já escreveu antes sobre a problemática relação entre mães e filhos, sobre os extremos de amor ou ressentimento que o mais visceral dos vínculos humanos pode desencadear. Aqui vai mais longe e questiona directamente um dos mais poderosos arquétipos civilizacionais da maternidade: a figura de Maria, mater dolorosa, chorando o filho pendurado na cruz. Sem grande surpresa, descobrimos que a Maria deste livro não é a figura resignada e submissa do Novo Testamento, mas uma mulher que se revolta com o martírio e se recusa a cumprir o papel que lhe destinaram, mostrando a têmpera de uma heroína grega.
Quando a narração começa, muitos anos após a morte de Cristo, Maria vive em Éfeso, numa casa visitada regularmente por dois dos evangelistas, que cuidam dela, alimentam-na, vestem-na, protegem-na. Ela vê neles «uma espécie de fome e rudeza». Quando lhe pedem que relembre o que se passou, exasperam-se ao compreender que a sua história não encaixa na narrativa com que querem fundar um novo mundo, um novo tempo, uma nova religião. Tentam vergá-la, mas ela não se verga. A memória que lhe preenche o corpo, «da mesma maneira que o sangue e os ossos», não é matéria moldável. Por isso, recusa-se a «acrescentar o que eles querem que acrescente» e não cede aos seus «esforços para darem um sentido simples a coisas que não são simples».
Nunca nomeando o filho («algo se quebrará dentro de mim se eu disser o nome dele»), Maria recorda com especial doçura os momentos em que ele ainda «precisava do meu peito para beber leite, da minha mão para se equilibrar enquanto aprendia a andar e da minha voz para o reconfortar até adormecer». O estranhamento começa mais tarde, quando o rapazinho «frágil» dá lugar ao homem «radiante», que passou a falar às multidões com «voz falsa» e «tom empolado». O caminho messiânico de Jesus afasta-o da mãe e esta parece condoída com esse afastamento. Nas bodas de Caná, embora se sentem lado a lado, quase não falam. E Maria demonstra ainda reticências diante dos proclamados milagres de Cristo, não escondendo um certo desprezo pelos seus seguidores (um bando de «inadaptados») e uma aberta indignação com a ideia de que ele seja «Filho de Deus».
Inevitavelmente, as memórias acabam por convergir para o dia fatal da crucificação, essa «coisa feroz e exata», cuja «sombra maldita» nunca mais a abandonará, como um coração que bombeia trevas «de uma ponta à outra do meu corpo». Se é dura com os evangelistas que tentam forçá-la a uma verdade construída, mais dura ainda se mostra consigo própria. «Não gritei nem corri para o salvar, porque não teria mudado nada. Teria sido afastada para o lado como uma coisa que o vento arrastou. Mas o que é igualmente estranho, o que parece estranho passados estes anos todos, é o facto de eu ter tido a capacidade, naquela altura, de me controlar, de pesar as coisas, de ver e não fazer nada.» A esta racionalização de uma dor que «era dele e não minha», junta-se o facto de ter fugido antes de tudo estar terminado, antes do último suspiro. Nesta versão da história, não há Pietà, só o arrependimento de quem sobreviveu à visão do horror supremo, sem sequer o consolo de um desígnio maior. Quando os evangelistas lhe explicam que o filho morreu para redimir o mundo e libertar a humanidade do pecado, ela usa todo o seu fôlego para lhes responder: «Eu estive lá. Fugi antes do fim, mas se querem testemunhas, eu sou uma delas e posso dizer-vos que, enquanto vocês afirmam que ele redimiu o mundo, eu direi que não valeu a pena. Não valeu a pena.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com John LeCarré, por Cristina Margato
A Pedra Ainda Espera Dar Flor – Dispersos 1891-1930, de Raul Brandão (Quetzal), por Pedro Mexia
Cenas da Vida de Aldeia, de Amos Oz (Dom Quixote), por Luciana Leiderfarb
Manucure, de Rosalina Marshall (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva
– Escolhas de Maria João Cantinho

A caminho da Colômbia

Lisboa-Madrid. Depois, Madrid-Bogotá. E em Bogotá, a FILBo. Parto daqui a nada, regresso na terça. Tentarei dar conta, aqui, do que se por lá se passar.

Um dever de memória

presos
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O livro que Joana Pereira Bastos, jornalista do Expresso, escreveu sobre o sofrimento dos presos políticos em Portugal, nas vésperas do 25 de Abril de 1974, é lançado esta tarde.

Quatro poemas de Rosalina Marshall

VELOZ FAÚLHA ATMOSFÉRICA

atrás dos comboios que passam
não fica nada
o ar que lá estava
lá fica
porta invisível
eternamente chiando

***

CALOTES SUSPENSAS

numa cama
enquanto lá fora chilreavam pássaros
coloquei os dedos na jugular
precipício
sobre um jardim
onde nunca mais
se teme a morte

***

NA SENSAÇÃO DE ESTAR POLINDO AS MINHAS UNHAS

sei que morrerei no dia do aniversário da minha morte
ainda há coisas certas na vida
o dia do aniversário da minha morte apresenta tamanha discrição

que nem dou por ele
portanto não mudarei de roupa
talvez passe o dia deitada
no displicente descanso
de não atender telefones
nem me levantarei para ir ver o correio
e se alguém se lembrar de me acender
as inconsequentes velinhas
deixarei que derretam e estraguem o bolo
no dia do aniversário da minha morte
nem me penteio

***

DAS BANCADAS

muito bem
serei a barata tonta
não quero dum-dum
ao menos matem-me
com pancadas de molière

[in Manucure, Companhia das Ilhas, 2013]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Junot Díaz, por José Mário Silva
O Testamento de Maria, de Colm Tóibín (Bertrand), por José Mário Silva
Um Homem de Partes, de David Lodge (ASA), por Luís M. Faria
Como Manter a Sanidade Mental, de Philippa Perry (Lua de Papel), por Cristina Peres
A Estátua e a Pedra, de José Saramago (Fundação José Saramago), por José Mário Silva
Fogo, de Gastão Cruz (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
– Escolhas de Minês Castanheira

Nos bastidores de Obama

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Logo à tarde, a política americana invade as Amoreiras.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Perfil de Nuno Camarneiro e crítica a Debaixo de Algum Céu (LeYa), por José Mário Silva
Rugas, de Paco Roca (Bertrand), por José Mário Silva
Guerra Conjugal, de Dalton Trevisan (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
– Escolhas de Fernando Venâncio

Missão em Washington

Para além de tudo o resto, havia uma missão a cumprir em Washington. Uma missão à antiga: procurar um certo livro, comprá-lo, trazê-lo para Portugal. Aceitei o desafio porque gosto de desafios (mais ainda se envolvem livros) e porque havia uma certa aura analógica em torno daquela demanda. Na era da internet, dos sites que disponibilizam tudo e mais alguma coisa, dos motores de busca poderosíssimos, das aplicações multimédia nos smartphones e tablets, andar de livraria em livraria à procura de um romance em papel, ainda por cima obscuro, esgotado, quase clandestino, pareceu-me uma aventura mais estimulante do que percorrer outro museu da Smithsonian Institution, ou assistir às sempre animadas partidas que os xadrezistas de Dupont Circle, transidos de frio, insistem em jogar mesmo depois do cair da noite.
O livro era um romance mastodôntico (quase 1200 páginas): Women and Men, de Joseph McElroy, «tão esquisito» que «nem a Amazon o vende». Isto garantiu-me o amigo que escreveu um e-mail assim que soube da minha estadia na capital dos EUA. Fui verificar. Efectivamente, junto dos vendedores sugeridos pela maior livraria online do mundo, os preços oscilavam entre os 126 e os 317 dólares. «Enfim, és a terceira pessoa a quem faço o pedido, sem grande esperança: se tropeçares nele em algum alfarrabista a menos de 50 dólares, prometo reembolsar-te ao câmbio actual e ainda acrescentar um café, um bagaço, e um agradecimento histérico», concluía ele. Pela minha parte, prometi apenas dar o meu melhor.
Comecei a procura pela Kramerbooks & Afterwords, na Connecticut Avenue. É uma livraria simpática. Todas as novidades expostas em destaque, mas com critério. Numa sala lateral podem encontrar-se bons livros de poesia e teatro. Na parte de trás, um café: atmosfera vagamente europeia, raparigas loiras barrando doce de morango nos scones, rapazes de sobretudo a que associamos imediatamente a palavra hipster. Quando lhe perguntei por McElroy, a funcionária da caixa principal foi sincera: «Nunca ouvi falar desse autor, mas deixe-me ver se temos algum exemplar.» Não tinham. Depois, antes de atender outro cliente, fez-me um sinal com a cabeça: «Pergunte na caixa da outra sala.» A tal da poesia, do teatro, da literatura underground. Segui o conselho. Atrás da máquina registadora, um negro muito cool, com óculos de massa e uma boina a cobrir a carapinha encanecida, ergueu as sobrancelhas: «O Women and Men, do McElroy? Esse livro é extraordinário.» Fez uma pausa, como se recordasse ali mesmo, no meio da azáfama, as longas noites de leitura até o sol raiar. «Infelizmente, está fora de circulação, o melhor é encomendá-lo na internet ou procurar em alfarrabistas.» Não muito longe, numa esquina da P Street Northwest, há um, disse-me ele. «Experimente.» E eu experimentei.
Na montra, escrito a néon azul: Second Story Books. Livros em segunda mão, com uma segunda história, uma segunda vida. Estantes de madeira clara, altas, labirínticas. Frases nas paredes («There are worse crimes than burning books. One is not reading them», Joseph Brodsky). Ao fundo, num poster, Lenine de boina e laço vermelho, em tamanho real, a 650 dólares. Perguntei mais uma vez por McElroy. Um sorriso cúmplice: «Esse é dos difíceis. Já o tivemos. Agora não temos.» O computador confirmou: o último exemplar foi vendido em Novembro de 2011, por 24 dólares.
Dias depois, andava eu pelo bairro de Georgetown, à procura de uma mesa de voto na Duke Ellington School of the Arts (foi na terça-feira em que os americanos reelegeram Obama), deparei com a Books Used & Rare, uma cave poeirenta a abarrotar de livros antigos. McElroy? O dono da loja abanou a cabeça e encolheu os ombros. «Sabe, o melhor é mesmo procurar na internet.» Eu também encolhi os ombros, finalmente vencido. Sem ser histérico, o agradecimento do meu amigo não deixou de ser um agradecimento. E ele sempre encontrou consolo no facto de um negro muito cool achar que o tão desejado livro é mesmo uma maravilha. Quanto ao resto, digo apenas que há um certo prazer na demanda pela demanda. Assim como assim, eu nem gosto de bagaço.

[Texto publicado no n.º 119 da revista Ler, Dezembro de 2012]

Primeiros parágrafos

Esta é a história de uma derrota. Esta é a derrota de uma história. As minhas mãos tremem. Olho para elas com desconfiança. Já não me servem. Já não me obedecem. Um dia julguei que seriam o instrumento de coisas maiores. Palavras a descerem da cabeça até aos dedos. Ou então uma peça suspensa sobre o tabuleiro, pairando sobre o roque adversário como um falcão. A minha mãe alimentou, talvez desde o útero, os meus sonhos de grandeza. “Vais ser um grande escritor, como o teu avô”, dizia ela. “Ou então um grande xadrezista, como o teu pai.” A minha mãe já não está cá para ver a dimensão do meu falhanço. Morreu quando eu ainda mal sabia desenhar as letras do alfabeto. Desapareceu da minha vida (após meses fechada no quarto, a mirrar de cancro e melancolia) quando eu era apenas mais um pequeno prodígio do xadrez, igual a tantos outros que parecem génios aos seis anos e se afundam na vulgaridade assim que chegam à adolescência.

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Em frente à estátua do presidente Lincoln, um rapaz fotografa a namorada com o iPad. Sorriem os dois, muito. O brilho do ecrã fere a penumbra do memorial. A felicidade alheia, mesmo a falsa, perturba-me. Há demasiado espaço aqui, um vazio que esmaga o visitante, como se não bastasse a brancura imaculada do mármore, o gigantismo da figura, a dizer-nos que somos minúsculos, desprezíveis, indignos do que os heróis do passado nos legaram. No cadeirão, com os braços pousados, Lincoln contempla, por entre as colunas, o imenso plano de água que se estende à sua frente. Nuvens reflectidas, pessoas como formigas ao longo do lago rectangular, na distância o obelisco. Saio para a luz do meio-dia. Ponho a mão em concha à frente dos olhos. É tarde demais para o que vim aqui fazer, sei-o bem. Alguém procura finalmente o bosque que devia ter procurado no tempo certo, mas o tempo certo passou e agora só restam as cinzas do incêndio.

[Início do conto Dupont Circle, a minha contribuição para o antologia Contos Capitais, editada no início deste mês pela Parsifal]

Sinestesia escaquística

Já houve quem associasse cores a palavras (Rimbaud, Nabokov), à música (Liszt, Rimsky-Korsakov) e até a equações matemáticas (Richard Feynman). São manifestações daquilo a que se chama sinestesia, dois planos de percepção sensorial que se fundem. No meu caso, a sinestesia não tem a ver com cores. Em bom rigor, nem sei se o termo se aplica, mas a verdade é que associo paisagens ou atmosferas a certas posições das partidas de xadrez que jogo na internet. Há uns dias, fui saltando de um palácio oriental na penumbra para um deserto americano com muitos cactos e rastos de cascavel, depois para uma alcova setencentista com perucas pousadas em cima do toucador, depois para um baldio entre prédios degradados num bairro social nos arredores de Birmingham, etc. Sem surpresa, ganhei o jogo do palácio oriental e o da alcova, perdi o do deserto e o do bairro problemático.

Três vidas

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Diário da Queda
Autor: Michel Laub
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 193
ISBN: 978-989-671-149-8
Ano de publicação: 2013

Ao quinto romance, Michel Laub, um gaúcho nascido em Porto Alegre (1973), ascendeu à primeira linha da ficção brasileira contemporânea. Além do reconhecimento crítico, Diário da Queda ganhou os prémios Bravo e Brasília de Literatura, tendo sido finalista de mais uns quantos. Laub fez ainda parte da selecção de 20 escritores brasileiros com menos de 40 anos escolhidos pela revista Granta, em Outubro de 2012. É sabido que as consagrações súbitas reflectem por vezes um certo exagero, mas neste caso há pouca margem de risco. A segurança estilística e a maturidade narrativa reveladas neste Diário da Queda são como o algodão: não enganam.
Habilmente estruturado em capítulos muito curtos, fragmentos que se vão encaixando como peças de um puzzle montado em várias partes (e vários tempos) na cabeça do leitor, este romance é um palimpsesto das memórias de três homens: o narrador, o seu pai e o seu avô. Em comum, eles têm a experiência de trazer aos ombros o peso da herança judaica. O avô é um sobrevivente de Auschwitz que chegou ao Brasil finda a II Grande Guerra, «num daqueles navios apinhados», decidido a começar do zero sem olhar para trás, de tal forma que nunca se referirá à passagem pelo campo de extermínio, onde morreram todos os seus familiares e amigos. Mas o silêncio sobre o horror não significa uma abolição do horror. Muitos anos depois, suicidar-se-á, como aconteceu, tarde na vida, a tantos outros sobreviventes do Holocausto. O pai do narrador, com 14 anos na altura, fica traumatizado com esta morte violenta, que o empurra de súbito para a vida adulta (começa a trabalhar nos negócios da família) e para um discurso obsessivo sobre a ameaçada condição judaica e os perigos do anti-semitismo. Um discurso contra o qual o filho se há-de revoltar, quando se apercebe que a realidade de Auschwitz, por terrível que seja, é uma abstracção que colide com a realidade do que ele próprio está a viver.
Chegamos assim à cena central do romance, um acto de cobardia que marcará a existência do protagonista. Na escola judaica, há um rapaz, João, vítima sistemática de bullying. Por ser o único aluno pobre, o único não judeu, enterram-no na areia, humilham-no, chamam-lhe nomes. Ao comemorar os seus 13 anos, faz uma espécie de Bar Mitzvah, em que os colegas o atiram 13 vezes ao ar, como é da tradição. Só que na última vez deixam-no cair de costas, desamparado. É esta a «queda» de que fala o título, um acto de maldade que podia ter sido fatal e que deixa marcas no narrador. Arrependido e consciente da fina linha que separa as vítimas dos opressores, torna-se amigo de João, um gesto que acabará por não redimir nem um nem o outro.
Antes de se matar, o avô encheu cadernos com «letra miúda» em que fala do mundo ideal, de como «ele deveria ser», ignorando a realidade. Ao descobrir que tem Alzheimer, o pai fixa o passado, tão frágil como a memória que se desmorona. O narrador cruza essas duas vidas com a sua, narrando a superação do alcoolismo, antes da chegada de uma quarta geração. Auschwitz é a ferida original, essa «espécie de prova da inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares». O livro que o neto do sobrevivente escreve, para se compreender melhor e saber de onde vem e para onde vai, é a tentativa de refutar essa inviabilidade.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O meu nome não é Dóris

É daqueles erros que só não acontecem a quem não faz revistas. Na edição de Abril da LER, a minha recensão ao livro Laços de Família, de Clarice Lispector (Relógio d’Água), foi atribuída a Dóris Graça Dias. Fica feita a ressalva: para o bem ou para o mal, o que ali está escrito só a mim compromete. E mesmo sem ter culpas no lapso, peço desculpas à Dóris pela involuntária usurpação da identidade.

Todos os vandalismos são estúpidos, mas há vandalismos que são mais estúpidos do que outros

Que raça de energúmenos é que se diverte a destruir painéis evocativos da obra de um dos nossos maiores escritores?

Revista ‘Ler’, n.º 123

Já nas bancas.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Diário da Queda, de Michel Laub (Tinta da China), por José Mário Silva
Breve História da População Mundial, de Massimo Livi Bacci (Edições 70), por Luís M. Faria
Serão Inquieto, de António Patrício (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
As Armas de Papel, de José Pacheco Pereira (Temas e Debates), por Rui Cardoso
– Escolhas de Tiago Salazar

Destino: Bogotá

De dia 25 a dia 30, vou acompanhar, para o jornal Expresso, a presença portuguesa na Feira Internacional do Livro de Bogotá (Colômbia), que abre portas já a 18 de Abril. Como sempre, das minhas andanças sul-americanas haverá alguns reflexos neste blogue (dependendo do acesso à net).

O que aí vem (Gradiva)

O Romper das Cordas – Ascensão e Queda de uma Teoria e o Futuro da Física, de Lee Smolin; O que é a Arte?, de Lev Tolstói; Os Militares e o Poder seguido de O Fim de Todas as Guerras e a Guerra Sem Fim, de Eduardo Lourenço; Toda a Ciência (Menos as Partes Chatas), de Cientistas de Pé (coordenação de David Marçal)

A crónica e o peixe do dia seguinte

A propósito do lançamento de um livro de crónicas de Manuel António Pina, tenho lido, em vários lados, que o poeta vincava o carácter efémero dos seus textos jornalísticos referindo que, no dia seguinte a serem publicados, eles já só serviam para embrulhar o peixe. A referência vem sempre com aspas e atribuição («como Manuel António Pina costumava dizer»), o que se me afigura um completo disparate. É que esta frase, desculpem lá, oiço-a eu desde que meti o pé numa redacção. Não é uma frase que o Manuel António Pina costumava dizer; é uma frase que todos os jornalistas mais velhos, nomeadamente os da geração do Pina, disseram (e ainda dizem) aos novatos que chegam aos jornais, convencidos que vão desvendar o próximo Watergate e mudar o curso da História. É um lugar-comum que tem o carácter definitivo e certeiro da maior parte dos lugares-comuns, mas não se deve colar a um homem que inventou centenas de frases maravilhosas (as melhores, em forma de verso) que são só dele. Essas merecem o «como o Manuel António Pina costumava dizer» ou «como o Manuel António Pina escreveu». A metáfora fácil sobre o utilitarismo do papel de jornal, não.

Manifestos da ocupação

occupy

Occupy
Autor: Noam Chomsky
Título original: Occupy
Tradução: Maria Afonso
Editora: Antígona
N.º de páginas: 114
ISBN: 978-972-608-232-3
Ano de publicação: 2013

No final de 2011, o activismo anti-capitalista instalou-se na rua, primeiro em Wall Street, depois em dezenas de cidades pelo mundo fora. Um dos intelectuais que deu a cara pelo movimento Occupy foi Noam Chomsky, o linguista famoso pelas suas críticas à política externa americana. Neste livro de protesto, reúnem-se alguns dos seus discursos e diálogos mantidos com os manifestantes, o que explica o carácter generalista e pouco aprofundado das intervenções.
Em seu entender, até à década de 70 do século passado havia a sensação de que era sempre possível «dar a volta por cima» (mesmo nos momentos mais duros, como a Grande Depressão dos anos 30), mas o que veio depois, com a desregulação dos mercados e a canibalização da esfera económica pela financeira, não permite qualquer esperança. Os empregos que se perdem já não se recuperam, o proletariado deu lugar ao «precariado», e a concentração de riqueza numa ínfima minoria (1% da população, ou menos ainda) instaura um círculo vicioso de que é difícil sair: os mais ricos influenciam o poder político (financiando os partidos) e o poder político aprova legislação que os beneficia, acelerando o «processo circular» que transforma o fosso da desigualdade social num abismo.
Para Chomsky, o movimento Occupy, com os seus «inúmeros pequenos gestos de anónimos» (como diria Howard Zinn), foi a primeira grande reacção popular a este «retrocesso histórico». Uma reacção prontamente reprimida, mas que conseguiu transmitir a sua mensagem no espaço mediático, levando à discussão pública de temas até então ignorados. Para crescer, precisa agora de se integrar em estruturas comunitárias, articulando-se com as «redes à nossa volta».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Raquel Nobre Guerra

BÍLIS NEGRA

aqui morro muitos anos convosco
estremecendo à sabedoria dos tolos
aqui certo clima de nojo e uma galeria viva
de absurdos para a visão integral da coisa
solene
peçam-se óculos para ver melhor, peçam-se janelas
para ver o mar
eu estarei certa à chuva própria desse estado
adequada e a direito despejando-me aqui
chamo a minha mãe ao corpo, não tenho nada
preparado, tenho um telegrama visual e chamo
alto e chego para provar que este mote é só um meio
de porte
há-de encastelar em areia o finalismo rente aos dedos
subir-me à boca subir em bando à do louco onde
terei posto a minha
e aí na ervinha de um passeio restar
à perseguição da luz como um animal deslumbrado
que atravessou

***

VIR ÀS MÃOS / Aforismos terceiros

subindo rei no horizonte sou rei de luzes apagadas
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu

***

PURA

esta gente que colhe água para derramá-la
compassivamente sobre a chaga
esta virtuosa carraça da solidão pública
com redentor cigarro público também
esta solidão assediando cretinos e sábios
esta deserta implausível cartada
grande força erguida a prumo
esta gente sobre esta imperial e sopa à frente
esta gente que se levanta de peito e escreve
para não matar ninguém

***

SEM TÍTULO

deus por cima
o grande abandono

[in Groto Sato, Mariposa Azual, 2012]

Maravilhas da paternidade

Durante a aula de xadrez, cá em casa:

Alice – Agora posso fazer o roll?
Eu – O roll?
Alice – Sim, aquela coisa em que o rei anda duas casas para o lado e a torre lhe passa por cima.
Eu – Ah, o roque.
Alice – Isso.
Eu – Mas olha que é roque, não é rock.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges