Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Servidões, de Herberto Helder (Assírio & Alvim), por Clara Ferreira Alves, Pedro Mexia e José Mário Silva
– Revista Granta, edição Portugal, n.º1 (Tinta da China), por José Mário Silva
Uma Caneca de Tinta Irlandesa, de Flann O’Brien (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
Armadilha, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por Manuel de Freitas
Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico, de Pedro Correia (Guerra & Paz), por Ana Cristina Leonardo
A Física do Futuro, de Michio Kaku (Bizâncio), por Luís M. Faria
– Escolhas de Rosa Alice Branco

Logo à tarde, na Feira

Apareçam. O livro é muito bom (o apresentador nem por isso).

Primeiros parágrafos

«Tocaram. Abri. Nunca o fizera. No patamar das escadas, com o olhar feroz e o gesto intrépido adquiridos após longos anos de disciplina férrea sob o comando de sargentos desumanos, um funcionário dos correios brandia uma carta registada dirigida à minha pessoa e à minha morada. Antes de receber o envelope, confirmar a minha identidade e assinar o talão, tentei safar-me alegando que ali não vivia tal pessoa, que se tivesse vivido ali estaria agora morta e que, como se isso fosse pouco, o defunto tinha ido de férias na semana anterior. Nem assim.»

[in O Enredo da Bolsa e da Vida, de Eduardo Mendoza, trad. de João Pedro George, Sextante, 2013]

A invenção do passado

Luz Antiga
Autor: John Banville
Título original: Ancient Light
Tradução: José Vieira de Lima
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 264
ISBN: 978-972-0-04593-5
Ano de publicação: 2013

Luz Antiga é o livro final de uma trilogia de John Banville, iniciada com Eclipse (2000) e Shroud (2002) – ambos publicados pela Ulisseia, em 2006 (com os títulos Eclipse e O Impostor). No primeiro livro, Alexander Cleave, um actor em crise, retira-se para a casa da sua infância, impregnada de memórias e premonições fantasmáticas, que se materializam numa tragédia final (o suicídio da filha, Cass). No segundo, tornam-se perceptíveis as eventuais razões para esse gesto extremo, quando acompanhamos a aproximação de Cass à figura de Axel Vander, um teórico da literatura sobre cuja verdadeira identidade ela descobriu um segredo comprometedor. No terceiro, já passaram dez anos sobre a morte da filha, mas os Cleave ainda não se apaziguaram. Lydia, a mãe, continua a acordar de noite, em sobressalto: «É uma espécie de sonambulismo, só que em vez de andar, ela corre, num estado em que ela se convence de que a nossa Catherine, a nossa Cass, ainda está viva e é de novo uma criança e se perdeu algures na casa.»
Embora a perda da filha esteja sempre presente, em fundo, como uma ferida que não sara, Alexander Cleave entrega-se, com evidente deleite, à recordação do seu primeiro (e talvez único) amor, vivido no verão dos seus 15 anos, quando se envolveu num tórrido romance com Mrs. Gray, a mãe do seu melhor amigo, vinte anos mais velha. Enquanto avança «aos tropeções pela Rua da Memória», recapitula os numerosos encontros sexuais, no banco de trás de uma carrinha ou numa casa abandonada no meio dos bosques, com buracos no telhado por onde entrava a luz. Em toda a descrição do processo amoroso, com os seus êxtases agigantados pela ameaça de um fim súbito (os amantes correm, uma e outra vez, sérios riscos de serem expostos), há como que uma dimensão de fantasia. É difícil perceber o que aconteceu de facto e o que corresponde à efabulação de um adolescente transtornado pelo desejo. Até que ponto podemos confiar na memória, quando até as cenas primaveris são contaminadas por motivos outonais? Ao recordar, reconstruímos. E quando olhamos para o que fomos, inventamo-nos.
Não por acaso, o filme no qual Alexander é convidado a desempenhar o papel de protagonista intitula-se A Invenção do Passado. No ecrã, cabe-lhe encarnar justamente a figura de Axel Vander, alguém que assumiu a identidade de outrém (como fazem os actores), um homem que ele pressente próximo da filha, quanto mais não seja porque estava em Portovenere, na costa da Ligúria, quando Cass ali pôs fim à vida, lançando-se para a falésia do alto da torre de uma igreja. A estrela de cinema com quem contracena, Dawn Devonport, lida com um luto mais recente: a morte do pai, fulminado por um ataque cardíaco, há menos de um mês. Frágil, desamparada, ela tenta suicidar-se com uma overdose de comprimidos, falha e acaba por encontrar em Alexander um refúgio. Tal como ele substitui a figura paterna, também ela tenta ocupar o lugar de Cass, acompanhando Cleave numa viagem a Portovenere que não chegará ao destino.
À excepção de Cleave e de Mrs. Gray, perfeitamente desenhados no abismo da sua carnalidade e no desamparo de uma relação impossível, as personagens deste livro são demasiado esquivas, difusas, escapam-se por entre os dedos. Nos livros de Banville, a história que se conta nunca é o mais importante. O que importa é a linguagem, que neste romance volta a ser de uma exuberância, plasticidade e requinte nabokovianos. Numa das muitas e pormenorizadas descrições de Mrs. Gray, diz o narrador: «Parece que estou a vê-la à mesa da cozinha, depois de ter arrumado a chávena, mas com a mão ainda levemente pousada nela, como que para reter a exata sensação, a sua exata textura, enquanto, com os dedos da outra mão, fazia girar o rebelde cacho de cabelo atrás da orelha.» A prosa de Banville funciona da mesma maneira: toca nas coisas ao de leve, retém sensações e texturas, capta atmosferas que já se desfizeram, ou que talvez nunca tenham existido, mas que depois de as lermos adquirem uma aura que não somos capazes de esquecer.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Gradiva)

Da Corrupção à crise – Que fazer?, de Paulo de Morais; Um Rei na Manga de Hitler – Conspiração em Lisboa, de José Goulão; Ciência e Liberdade – Democracia, Razão e Leis da Natureza, de Timothy Ferris; O Universo de Carl Sagan, de Y. Terzian e E. Bilson (org.); Repensar a Europa – Europa de Longe, Europa de Perto, de José Eduardo Franco, Béata Cieszynska e Teresa Pinheiro (coord.); Corro para a Eternidade – A Trágica Ambição de F. Lázaro, de André Oliveira.

Prémio Camões 2013 para Mia Couto

Nem Portugal, nem Brasil. O Prémio Camões deste ano, no valor de 100 mil euros, vai para Moçambique e fica muito bem entregue a Mia Couto, um daqueles escritores que não se limita a escrever numa língua (a nossa, comum), antes inventa o seu próprio idioma literário. Em 25 anos do prémio, o único moçambicano distinguido fora Craveirinha, em 1991.
A propósito do seu último romance publicado em Portugal, A Confissão da Leoa (Caminho), tive a oportunidade de entrevistar o escritor, que entre outras coisas me disse: «Há uma parte de mim que termina quando termina a história. Sei que estou a romantizar o assunto, sei que isto é ilusório, mas de alguma forma eu sinto que não sou o autor do livro, que apenas transcrevo e a minha mão é usada para dar expressão a outras vozes. Agora, há qualquer outra coisa que eu tenho de procurar, porque isto é um vício. Eu só me sinto vivo se estiver inventando a minha própria vida.»

Tesouro ou fardo

Juntam-se pessoas e atrás delas vêm as suas vidas. Atrás delas, não. Com elas vêm as suas vidas. Com elas, também não. Dentro delas. Dentro delas vêm as suas vidas. Assim é que é. Milhares de histórias e de momentos, uns bons, outros maus, outros mais ou menos, um novelo de fios impossíveis de desentrançar. A vida toda enroscada, como um gato ao canto da sala. A vida um tesouro ou um fardo que se carrega no peito, queiramos ou não. E depois uma manhã aparece alguém que nos pergunta por isso que carregamos, esse tesouro que às vezes é fardo, esse peso imenso que às vezes também brilha, e os fios soltam-se. Não todos, só alguns, memórias que são frestas, janelas entreabertas para o passado que se fecham logo de seguida, para não cegarmos com tanta luz ou tanta dor.
Vejamos V. Sou 100% lisboeta, diz ela, nascida e criada entre a Mouraria e S. Vicente. Mas o sorriso de orgulho é coisa breve, esmorece logo que se põe a recordar os primeiros anos, difíceis, tão difíceis que se torna difícil imaginar hoje o difícil que eram. A mãe, peixeira, passava os dias todos fora, voltava tarde, precisava dela em casa, escola nem vê-la, nunca aprendeu a ler nem a escrever, só o nome para o bilhete de identidade. Aos seis anos já cuidava de dois irmãos mais novos, fazia a sopa com feijão esmagado e hortaliça, mais um chouricinho para dar sabor, fruta é que não havia, nunca, moravam todos num sótão, pequeno, apertado, às vezes os irmãos pequeninos viravam-se para ela e suplicavam-lhe, mana, tenho fome, lágrimas agora só de lembrar aquelas vozinhas, e a menina de seis anos deixava-os sozinhos, na casa quase vazia, metia-se rua acima até Sapadores, até ao bairro América, onde umas senhoras lhe davam sempre qualquer coisa, mesmo que fosse só pão. Na idade de irem à escola, os irmãos foram aprender letras e números, seguiram os rumos deles. Ela entrou para um atelier de costura, muita linha, muito dedal, e anos mais tarde as flores, vendidas às freguesas em bancas de rua. Desde o funeral da mãe, há 16 anos, nunca mais os viu, aos irmãos, e não sabe porquê. Não houve partilhas, não houve zangas, só um afastamento que não consegue explicar, uma amargura (dela) do tamanho da ingratidão (deles). Do filho, é melhor nem falar. Aproveitou-se do seu analfabetismo, deu-lhe a assinar papéis que a prejudicavam, deixou-a quase sem nada depois do divórcio, em proveito do pai. E olhe que eu não mereço, que sempre fui uma mulher digna e boa mãe. Embora ele nunca a contacte, V. sabe que o filho mora na Moita, só que a Moita é muito grande.
A história de G. é diferente, quase cómica. Uns sofrem com amor de menos, outros com amor a mais. Nascida numa aldeia perto da Guarda, veio aos 19 anos para Lisboa, em fuga de um namorado que a enganou. Ele andava ao mesmo tempo com uma rapariga de outra aldeia, mas não era homem de desistir. Em troca de 25 tostões, conseguiu que o irmão mais novo de G. lhe desse a morada dela em Lisboa. A trabalhar na casa de uns senhores, à Penha de França, um dia estava à janela a bater tapetes e aparece-lhe ele lá em baixo, na rua, a fazer sinais. Ela ignorou-o. Como o ignorou nas férias, quando voltou à aldeia e ele se punha à porta da casa dos pais a noite toda, impedindo-a de sair para apanhar fresco. Nada parava aquela obsessão. Quando foi para França trabalhar, enviava-lhe cartas e postais. Quando ela se mudou para o Campo Mártires da Pátria, punha-se ao pé da estátua do Dr. Sousa Martins, à espera de a ver passar. Era uma teima: Ou a bem ou a mal, hás-de ser minha mulher. Mas ela nunca cedeu. Anos a fio de resistência até ele desistir. Numa festa da terra, há uns anos, soube que ele acabou por casar com a outra, a antiga, a rapariga da outra aldeia. Aquela com quem podia ter ficado logo na altura. E o que se teria poupado em arrelias e embaraços…
Aos 10 anos, na Guiné, H. tornou-se escuteiro. O meio-irmão comprou-lhe a farda obrigatória, muito cara (150$00), porque sempre tratou dele como se fosse um filho, órfãos que eram os dois do pai verdadeiro. Muito mais tarde, foi guarda-florestal de segunda classe na região de Bafatá. Ainda hoje sabe os nomes científicos, em latim, das árvores que protegia. Era espantosa a flora, ali. Mas também a fauna: leões, javalis, gazelas. Os caçadores não se fartavam daquela abundância. Um deles, português, perdeu numa batida a sua carteira, com tudo lá dentro: documentos, dinheiro, cartões de crédito. H. encontrou-a e devolveu-a, intacta. Gratos, os portugueses deram-lhe um contacto: Se alguma vez precisar. Em 1996, quando aterrou na Portela, magro, quase cadavérico, depois de sete meses sem receber salário, ele precisou. Era na altura em que havia fartura de trabalho na construção civil. Arranjaram-lhe emprego numa firma grande: primeiro a entregar ferramentas aos trabalhadores, depois a fazer betão, depois a pintar. Por muito tempo, foi isso que fez: pintar. Paredes, tectos, fachadas. Só não lhe peçam para pintar uma porta, porque isso não sei, isso não consigo. Aos sorrir, nota-se mais a cicatriz que lhe atravessa o lado direito do rosto, da orelha quase até à boca. Aconteceu no Intendente, numa noite má. Uns rapazolas atravessaram-se no caminho, a pedir dinheiro. Assim que disse que não, um x-acto desenhou-lhe o sangue na cara. Meses depois, a mesma mão matou à facada um homem. E ele nunca mais pôs o pé naquela rua.
I. e M. H. falam menos porque têm vidas mais próximas do tesouro do que do fardo. Vidas sem demasiados sobressaltos, só com aquilo que todas têm: nascimentos, mortes, alegrias, trabalho, tédio, a fotografia de duas filhas no mostrador do relógio. Em várias épocas, fui um bocado feliz, admite I. Ser um bocado feliz: eis algo a que já vale a pena aspirar.

José Mário Silva, com Isaura Almeida, Violeta Quintas, Maria Helena Luís, Gracinda Gregório e Helder Pina, no Centro Social S. Cristóvão

[Texto criado durante o projecto Leitura Furiosa 2013]

Leitura Furiosa 2013

Esta tarde, a partir das 15h00, na Casa da Achada, serão lidos/cantados textos feitos por escritores em Lisboa, Porto, Beja, Guimarães e Amiens, a partir de conversas com pessoas zangadas com a leitura e/ou com o mundo. Imagens do que aconteceu na sexta-feira e ontem, aqui.

Último dia de LeV

A edição de 2013 do encontro Literatura em Viagem (na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos) termina hoje, com os debates “A Língua Portuguesa é uma festa” (15h30), em que participam João Luís Barreto Guimarães, Carla Maia de Almeida, Onésimo Teotónio de Almeida e Teolinda Gersão; e “A Europa em tempos de cólera” (17h30), com Christiane Rösinger, Lucian Vasilescu, Manuel Jorge Marmelo, Nuno Camarneiro, Miguel Miranda e Luís Caetano (moderador).

A armadilha da falsificação

O Condottiere
Autor: Georges Perec
Título original: Le Condottière
Tradução: António Mega Ferreira
Editora: Sextante
N.º de páginas: 156
ISBN: 978-989-676-166-0
Ano de publicação: 2013

É impossível falar desta obra de juventude de Georges Perec (1936-1982) sem explicar o contexto em que surgiu. Após algumas experiências literárias no final da adolescência, Perec trabalhou arduamente, durante três anos (1957-1960), no manuscrito de um romance que foi assumindo diversas formas e títulos até se fixar no texto que agora nos é revelado. Fechadas as portas na Seuil, Perec tentou a Gallimard e conseguiu um adiantamento de direitos: 75 mil francos. Estava à beira de cumprir o sonho de ser um escritor publicado (escritor tout court já ele se sentia), mas o idiossincrático comité de leitura da Gallimard torceu o nariz ao que qualificou de «imperícia» e «tagarelice», adiando por cinco anos a sua entrada no território da literatura francesa (uma entrada triunfal, diga-se, com Les Choses, que venceu o Prémio Renaudot em 1965).
Na ressaca das recusas, Perec prometeu ao amigo Jacques Lederer retomar o livro «daqui a dez anos, altura em que isto se tornará uma obra-prima», ou «esperar no túmulo que um fiel exegeta o encontre numa mala velha que te pertenceu e o publique». Proféticas palavras. Tresmalhado numa mudança de casa e dado como perdido, o livro só foi redescoberto na década de 90 e publicado em 2012, quando se assinalaram os 30 anos da sua morte. E se O Condottiere não ganhou estatuto de obra-prima, a verdade é que também não se trata de uma mera curiosidade literária. Neste policial heterodoxo – uma narrativa selvagem; ramificada; claustrofóbica; reiterativa; não-linear; obscura e luminosa ao mesmo tempo – já está muito do que Perec fará mais tarde, tanto no plano temático como estilístico. Claude Burgelin, no prefácio, assinala que «as pontas que saem de todos os lados são as mesmas pelas quais continuamos hoje a puxar: são elas que nos conduzem à sequência posterior da sua obra».
O livro abre com o protagonista, Gaspar Winkler, um falsificador profissional, a assassinar o homem que lhe encomendou o último trabalho: uma versão do retrato de um mercenário, pintado no século XV por Antonello da Messina. Winkler tenta compreender o encadeamento de factos e de histórias que o conduziram até ali, procura uma explicação para o falhanço do seu trabalho e para a necessidade de matar o patrão, mas quanto mais se aventura pelos túneis e subterrâneos do seu passado, mais cresce a certeza de que se enredou numa armadilha. Ao entrar no mundo da contrafacção e do engano, essa «ratoeira demasiado perfeita», iludido com «a criação autêntica de uma obra-prima do passado», ele mergulhou num mundo de sombras e fantasmas.
Mais do que uma cópia exacta do Condottiere, o que ele pretende fazer é um outro Condottiere, tão verdadeiro como o de Antonello, mesmo se aquém do seu «génio» e «precisão» (a capacidade de sugerir o carácter de um homem pela musculatura do maxilar). No «rosto-espelho», o falsificador descobre, uma vez caídas todas as máscaras, «o equívoco perturbante do seu próprio olhar». Mas a noção de um fracasso total, de uma absoluta incapacidade de exercer, pela pintura, o «domínio do mundo», conduzem-no a uma «explosão de ódio e loucura» (o homicídio, a tentativa de fuga) que é também uma forma de ganhar consciência. E de procurar um caminho para a liberdade. Tornar-se pintor, em suma. Como Perec, à sua maneira, se tornou escritor, ao procurar neste texto uma «liquidação definitiva dos espectros do passado».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Luz Antiga, de John Banville (Porto Editora), por José Mário Silva
Agosto, de Rubem Fonseca (Sextante), por Pedro Mexia
Fala, Memória, de Vladimir Nabokov (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
O Regicida, de Camilo Castelo Branco (INCM), por Hugo Pinto Santos
A Habitação de Jonas, de Inês Fonseca Santos (Abysmo), por José Mário Silva
Crónica, Saudade da Literatura, de Manuel António Pina (Assírio & Alvim), por Luís M. Faria
Novas Coisas da China – “Mudo, logo existo”, de António Caeiro (Dom Quixote), por Cristina Peres
– Escolhas de João Morales

Lydia Davis: Man Booker International Prize 2013

Lydia Davis, a minha querida Lydia Davis, consagrada como deve ser. Não que ela precise de prémios, mas é sempre bom ver uma grande, enormíssima escritora, tão cá de casa, receber o justo reconhecimento pelo assombroso trabalho literário que é o conjunto da sua obra.

Tempo de Feira

Céu azul, primeiras flores dos jacarandás e muitos livros. Até 10 de Junho.

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Se há o lado materno e se há o lado paterno, também há o lado avô terno, não é?»

Memórias do inferno tropical

Que Importa a Fúria do Mar
Autora: Ana Margarida de Carvalho
Editora: Teorema
N.º de páginas: 239
ISBN: 978-972-47-4639-5
Ano de publicação: 2013

Há ficções que vão direitas ao assunto, sem rodeios, contando logo o que têm para contar, e há outras que precisam de prolegómenos, circunlóquios e outras procrastinações narrativas. Para não deixar dúvidas ao leitor de que pertence a esta última categoria, o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho, jornalista da Visão, abre com uma personagem marginal que se alonga em queixumes sobre o seu estatuto. Embora lhe caiba o gesto que fecha o círculo maior da narrativa, ele sabe que vai ser rapidamente posto de parte, «como um figurante dispensado, que ainda permanece no set, à cata dos restos do catering». Por isso recusa dizer o que o levou a passear junto à linha do comboio, «numa madrugada húmida e mal amanhecida», descobrindo no meio do mato, embrulhado em meias de seda, um pacote de cartas que um homem insubmisso enviou à mulher amada.
Esse homem insubmisso chama-se Joaquim e naquele dia de 1934 está a caminho do campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, então ainda por estrear. Com ele seguem outros resistentes que participaram na revolta da Marinha Grande, onde por algumas horas existiu, nas barbas do Estado Novo, um soviete. Mas se os camaradas pensam na revolução, Joaquim só pensa em Luísa, a destinatária das cartas lançadas pela janela, a mulher que prometeu esperar por ele e que servirá de bálsamo mental para todas as provações que o esperam: os espancamentos da polícia (que na altura se chamava PVDE e não PIDE, como o texto sugere); a tormentosa viagem de barco; o «inferno tropical», com nuvens de pó amarelo, insectos, malária, fome e tortura; a crueldade dos algozes; o sofrimento inimaginável da «frigideira» (uma caixa de cimento rectangular, exposta ao sol, onde os prisioneiros enlouqueciam de calor extremo e solidão).
Lá mais para a frente, esta «infâmia do passado» acaba por ser evocada, em toda sua brutalidade, mas a autora coloca esse centro negro no final de um labirinto que é preciso percorrer. Quem ergue o labirinto é Eugénia, uma jornalista televisiva que entrevista Joaquim, na sua qualidade de sobrevivente do Tarrafal, e depois se deixa fascinar pela figura de um velho que tem, além de uma história de amor por resolver, uma farpa no coração desde os cinco anos (um sentimento de culpa terrível, associado a uma tragédia familiar). A narrativa avança então aos saltos, aos tombos, entre a caótica «tecedura dos pensamentos» de Eugénia, «em que a malha de um logo se cose com a de outro», numa vertigem que chega a ser cansativa, e a memória precária do idoso, narrador lento, lacunar, obsessivo. A jornalista atribui-se o papel de uma «Ariadne ao contrário», na missão de retomar «os vários fios das várias meadas que Joaquim ia desatando».
Entre verdade e verosimilhança, Eugénia escolhe a verosimilhança, porque «nunca sabemos o que sabemos, onde começa a nossa recordação e acaba a dos outros», nem até que ponto somos traídos pelo que julgamos ter acontecido. A memória é uma esponja, «cheia de lapsos e interstícios, e às vezes quando se espreme sai uma gota a custo, outras, um jorro torrencial». Aos poucos, porém, os dois acabam por acertar os seus ritmos, partilhando o tempo, os silêncios, até um gato. E a história de amor interrompida, com Luísa, é transfigurada pela improvável cumplicidade entre Joaquim e Eugénia, onde se projectam e entrelaçam as histórias e traumas dos dois.
Se a primeira parte do livro é marcada por um excesso de artifícios literários e de referências culturais, a segunda revela uma escrita muito mais despojada – o que só beneficia um romance que é tanto mais inteligente quanto menos exibe a sua inteligência.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Billy Gray era o meu melhor amigo e eu perdi-me de amores pela mãe dele. “Amor” é capaz de ser uma palavra demasiado forte, mas não conheço nenhuma mais fraca que sirva. Tudo isto aconteceu há meio século. Eu tinha quinze anos e Mrs. Gray trinta e cinco. Estas coisas são fáceis de dizer, visto que as palavras não sentem vergonha e são imunes à surpresa. Se calhar, ela ainda é viva. Teria… quê?, oitenta e três, oitenta e quatro? Nada de especial nos tempos que correm. E se eu tentasse encontrá-la? Isso é que seria uma grande façanha. Gostaria de estar de novo apaixonado, gostaria de voltar a apaixonar-me, só mais uma vez. Podíamos fazer um tratamento à base de injeções de glândulas de macaco, ela e eu, e ficávamos como há cinquenta anos, rendidos a êxtases passionais. Pergunto-me como é que ela estará, quer dizer, partindo do princípio de que ainda habita este mundo. Ela era tão infeliz naquela época, só pode ter sido infeliz, apesar da sua corajosa e persistente boa disposição, e espero do fundo do coração que as coisas tenham melhorado.»

[in Luz Antiga, de John Banville, trad. de José Vieira Lima, Porto Editora, 2013]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Que importa a fúria do mar, de Ana Margarida de Carvalho (Teorema), por José Mário Silva
Contos Capitais, de vários autores (Parsifal), por ALexandra Carita
O Essencial sobre Marcel Proust, de António Mega Ferreira (Imprensa Nacional Casa da Moeda), por Pedro Mexia
O Condottiere, de Georges Perec (Sextante), por José Mário Silva
Irmão Lobo, de Carla Maia de Almeida (Planeta Tangerina), por Sara Figueiredo Costa
– Escolhas de Golgona Anghel

Resposta a um crítico que responde a uma crítica

Quem não se sente, não é filho de boa gente. Bruno Vieira Amaral sentiu-se. Fez ele muito bem. Eu escrevo regularmente sobre livros há 15 anos, o que continua a não ser muito tempo, se compararmos com a actividade crítica de um João Gaspar Simões ou de um Eduardo Prado Coelho. Mas também eu, inevitavelmente, me apercebi do «fenómeno curioso» a que se refere Bruno Vieira Amaral (vou passar a referi-lo pelas iniciais, sem desprimor). É de facto muito raro ver um autor português a comentar por escrito textos críticos que tenham sido publicados sobre os seus livros, sobretudo se forem negativos. Já sem ser por escrito, basta almoçar numa mesa de escritores num qualquer festival literário para perceber como há gente que transporta, anos a fio, cargas tóxicas de azedume e ressabiamento.
Diz BVA: «[Os escritores] podem evitar directas referências aos críticos – seja com o valoroso intuito de não alimentar polémicas, seja para retirar importância pública àquilo a que eles intimamente dão valor – mas eles sabem que nós sabemos que eles lêem as críticas. E dão-lhes tanto valor que alguns chegam a ligar para as redacções a queixar-se das críticas negativas, outros queixam-se por não terem tido uma crítica que fosse neste ou naquele jornal, outros, magoados com o que consideram ser uma injusta machadada, murmuram em jantares e encontros ocasionais contra os pérfidos perpetradores do crítico crime.» A tudo isto já assisti. E até a telefonemas por causa das odiosas estrelas, que só criam equívocos e são o menos fiável dos métodos para avaliar ou comparar obras literárias. No meu caso, houve até um autor indignado que confessou ter tido vontade de me atropelar, na semana em que uma crítica supostamente «destrutiva» lhe «arruinou a carreira» (e ainda hoje não sei até que ponto estava a falar a sério ou a hiperbolizar a sua frustração).
Quero por isso louvar a atitude de BVA, que se deu ao trabalho de «descer do seu olimpo de autor e vir cá abaixo trocar dois dedos de conversa com o crítico». É assim que se faz. O autor tem todo o direito de responder a um crítico, mas é bom que a resposta chegue ao destinatário, em vez de circular como veneno nos mentideros. Até porque assim o crítico pode por sua vez responder à resposta. Chama-se a isto diálogo, um hábito saudável entre pessoas civilizadas, pelo menos desde o tempo de Sócrates (o grego). Quando dialogamos, não só ouvimos o outro como nos arriscamos a aprender com ele. E podemos também explicar porque dissemos o que dissemos. Ou porque não dissemos o que na verdade queríamos dizer.
Na sua divertida diatribe, BVA defende o seu trabalho e louvo-o por isso. Não só está no seu direito, como consegue fazê-lo com graça, inteligência e panache. Gostava apenas de esclarecer alguns pontos:

– Como é óbvio, eu li as 229 páginas do livro e não apenas a introdução e o índice (sei que BVA sabe isto, justamente porque levamos os dois a sério o nosso trabalho, mas há efeitos retóricos que não se podem desperdiçar)
– Admito que há na minha crítica uma desproporção entre o espaço que dedico à questão do critério de escolha (dois parágrafos grandes) e a avaliação propriamente dita da escrita de BVA (um parágrafo pequeno). Devia ser ao contrário.
– Nos jornais, hoje em dia, os textos críticos são tremendos exercícios de síntese. Mal começamos a desenvolver uma ideia e já temos que concluir a prosa. Nem sempre é fácil. Nem sempre se consegue. Desta vez, manifestamente, não consegui. O texto tem 2800 caracteres. Funcionaria se fosse o início de um texto maior, com uns 4000 ou 5000 caracteres. Mas não é. Invejar o espaço que é dado aos críticos da New Yorker ou do TLS não serve de nada. As coisas são o que são. Quando percebi que a crítica ia ficar coxa, com uma perna muito maior do que a outra, já não tive tempo de a refazer. Contingências das deadlines jornalísticas.
– Sendo impossível voltar atrás no tempo, tentarei fazer aqui no blogue o que já não posso fazer no jornal. Ainda esta semana, escreverei a tal crítica de 4000 ou 5000 caracteres que o livro pedia e não lhe pude dar.
– Ao contrário do que pensa BVA, eu gostei que as 50 personagens fossem afinal 51, ou 55. Só tive pena que não houvesse mais personagens retiradas de contos. Por mim, as 50 personagens até podiam ser 74 ou 92. Quantas mais, melhor.
– Quanto à vexata quaestio da não inclusão de António Lobo Antunes, percebo que BVA estrebuche, porque não foi manifestamente um esquecimento mas um acto deliberado. Já suspeitava. Pelas razões invocadas, BVA tem todo o direito de deixar de fora Lobo Antunes. Não pode é esperar que a sua escolha pessoal não seja susceptível de comentário. Havendo um elefante na sala, é estranho ignorar que há um elefante na sala. E eu não referiria sequer o assunto se BVA tivesse escolhido, digamos, dez personagens do Eça, nove do Camilo, oito do Saramago, sete do Aquilino, seis do José Cardoso Pires, cinco da Agustina, três do Carlos de Oliveira e duas do Mário de Carvalho. Mas quando o crivo é suficientemente largo para dar passagem, como eu assinalei, a Fernando Namora, João Aguiar e Miguel Sousa Tavares, mas também a outros autores menores, como Fernando Dacosta, Ricardo Adolfo, Clara Pinto Correia ou António Alçada Baptista, acho que a ausência de Lobo Antunes pode e deve ser questionada.

Ah, as saudades que eu já tinha de uma polémica literária.

PS – Já agora, anotem: o lançamento do Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa será esta quinta-feira, 16 de Maio, às 18h30, na Bertrand do Picoas Plaza (Lisboa), com apresentação de Ana Cristina Leonardo e João Bonifácio.

Pessoas imaginárias

Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa
Autor: Bruno Vieira Amaral
Editora: Guerra e Paz
N.º de páginas: 229
ISBN: 978-989-702-067-4
Ano de publicação: 2013

Há 23 anos, Alberto Manguel e Gianni Guadalupi publicaram um luxuriante Dicionário de Lugares Imaginários, sobre as múltiplas geografias ficcionais inventadas ao longo dos séculos pelos mais extraordinários ou obscuros escritores. Neste Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, Bruno Vieira Amaral (n. 1978) assume ter-se inspirado no belíssimo cartapácio da dupla Manguel/Guadalupi. Também ele quis criar um «divertimento que parasita e prolonga o jogo da literatura». Em vez de lugares imaginários, porém, catalogou «pessoas imaginárias». Ou seja, personagens: essas figuras capazes de se instalar na imaginação e na memória dos leitores, chegando a parecer mais reais do que a própria realidade.
Num livro com estas características, o mais problemático é sempre o estabelecimento de um critério. Porquê estas 50 personagens e não outras? Simples: porque são estas as personagens que marcaram Bruno Vieira Amaral. Cada pessoa tem o seu cânone, a sua lista de imprescindíveis e dispensáveis, pelo que a escolha do autor Bruno Vieira Amaral apenas coincide com a do leitor Bruno Vieira Amaral. Aos outros, a todos nós, sempre causará desconforto uma ausência gritante ou a inclusão de uma personagem que nos parece menor. Mas se «questões de preferência pessoal» foram «soberanas na selecção», fica o assunto resolvido. Pode discordar-se da escolha; não da honestidade intelectual de quem a fez.
Dito isto, há uma desconcertante flexibilidade em todo o exercício, que talvez denuncie o facto de BVA não se levar demasiado a sério. As 50 personagens são afinal 51 (se contarmos Léah, a única retirada de um conto, de José Rodrigues Miguéis); ou melhor, 55, porque quatro das entradas correspondem a casais. E se é legítimo que alguns escritores estejam representados por mais do que uma personagem (Eça, com quatro; Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, José Cardoso Pires e Saramago, com duas), essas reincidências como que sublinham a exclusão mais notória: António Lobo Antunes. Não escolher Maria Velho da Costa, Ana Teresa Pereira ou A.M. Pires Cabral pode ser uma questão de gosto, ignorar escritores das gerações mais novas (Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz) talvez revele prudência, mas deixar de fora Lobo Antunes assemelha-se mais a uma provocação do que a um esquecimento, sobretudo quando o crivo é suficientemente largo para que passem Fernando Namora, João Aguiar e Miguel Sousa Tavares.
Ainda assim, este é um livro que se recomenda. Principais trunfos do autor: a argúcia na análise e o rasgo estilístico. Do romantismo a O Que Diz Molero, passando pelo neo-realismo, Bruno Vieira Amaral resgata personagens ao respectivo habitat literário e mostra-nos, em prosa vívida, concisa e por vezes exaltante, todas as suas grandezas e defeitos. Ou seja, toda a sua humanidade.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

A Luz é Mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
A Trombeta do Anjo Vingador, de Dalton Trevisan (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
O Dia de Amanhã, de Ignacio Martinez de Pisón (Teodolito), por José Guardado Moreira
Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral (Guerra e Paz), por José Mário Silva
A Perseguição dos Judeus e Muçulmanos em Portugal – D. Manuel e o Fim da Tolerância Religiosa (1496-1497), de François Soyer (Edições 70), por Luís M. Faria
– Escolhas de Helena Pitta

Maravilhas da paternidade

Pedro: «Pai, inventei uma canção e acho que tu vais gostar: “Paaaaaaaaassos Coelho, ôôôôôôôô, tu-tu-tu-tu-tu és parvo!”»

Lançamento de ‘Cidades Capitais’

convite_cidadescapitais
Clique para aumentar

É já amanhã, terça-feira.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

– Reportagem na Feira do Livro de Bogotá, por José Mário Silva
O Ano Sabático, de João Tordo (Dom Quixote), por Luís M. Faria
Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner, de Afonso Cruz (Quetzal), por Pedro Mexia
Os Demónios de Álvaro Cobra, de Carlos Campaniço (Teorema), por Hugo Pinto Santos
Breve História da Música Ocidental, de vários autores (Bizâncio), por Luís M. Faria
Os Últimos Presos do Estado Novo, de Joana Pereira Bastos (Oficina do Livro), por Alexandra Carita
– Escolhas de Paulo Moreiras

‘Blimunda’ #11

blimunda_11

Download aqui. Destaque para o acompanhamento que Sara Figueiredo Costa fez do Festival ‘Rota das Letras’, em Macau.

Primeiros parágrafos

«Receoso do ímpeto da sua montada, um orgulhoso baio espanhol, Pierre Roger de Beaufort pôs pé em terra queixando-se do mau tempo. É estimulante ouvir como blasfema num latim puríssimo e diáfano um dos homens mais poderosos da cristandade, sobretudo se considerarmos que este servidor de Deus tem apenas vinte anos. Embora, com efeito, a queixa do cardeal diácono, futuro Gregório XI, não pareça desproporcionada, porque chove ininterruptamente há duas semanas, concretamente desde que De Robertis se trancou na torre de menagem do castelo de Sansepolcro para completar a sua última obra.
Beaufort entrega a um fâmulo as rédeas do seu cavalo com mão habituada a conceder e a tirar. É a mão de um príncipe da Igreja, órgão que unge e condena, sinédoque do objetivo ecuménico que representa, mão que no futuro será recordada nos livros de texto como a do último francês que guardou entre os mortais as chaves do Céu.
Entretanto, na parede norte da torre de menagem do castelo de Sansepolcro, como uma oferenda inscrita num cubo de pedra, outras mãos, as de De Robertis, concluíram o fresco que, ocupando apenas quatro metros quadrados, ameaça derrubar um antigo mundo de princípios.
Aos pés da pintura, vestígios de uma tarefa tão humilde como imperecível, podem ver-se pedaços de parede, cachos de uvas e caroços de cerejas, umas sandálias rebentadas, uma ânfora com azeite grego que destila lágrimas perfumadas.»

[in A Luz é Mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón, trad. de Helena Pitta, Assírio & Alvim, 2013]

A casa do fim

ala_2012

Não é Meia Noite Quem Quer
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 455
ISBN: 978-972-20-5094-4
Ano de publicação: 2012

Num ensaio recente, As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes – (In)variantes do feminino (Texto Editora), a professora Ana Paula Arnaut (Universidade de Coimbra) associa ao sexto ciclo romanesco de Lobo Antunes, iniciado com O Arquipélago da Insónia (2008), um progressivo suavizar da «confusão e estranheza causadas por intrincadas redes polifónicas». Nos romances mais recentes, garante a investigadora, «parece mais fácil identificar a voz que fala e, em consequência, diferenciá-la de outras verbalizações que ocorrem num mesmo trecho». A publicação, quase em simultâneo, do 24.º romance de Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, confirma esse processo de simplificação formal que permite ao leitor seguir, mesmo com interrupções e elipses, o fluxo narrativo das múltiplas histórias e respectivos planos cronológicos.
Em vários aspectos, a estrutura deste livro assemelha-se à do romance anterior (Comissão das Lágrimas, 2011). Tudo volta a girar em torno de uma personagem principal feminina, uma dessas que «permanecem, de forma irremediável, em gaiolas de grades inexistentes», segundo Ana Paula Arnaut. Mulheres que se fecham sobre si mesmas e concentram no próprio corpo, dentro da cabeça, as histórias que as atormentam. Se em Comissão das Lágrimas encontrávamos Cristina, internada numa clínica psiquiátrica, perseguida por um círculo de vozes que «se acotovelam, vociferando», conjunto de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», em Não é Meia Noite Quem Quer a protagonista narra os três dias que leva a despedir-se da casa de férias familiar «onde nunca põe os pés», cenário das memórias de uma infância agora transformada em «ruínas moribundas».
Na casa que tantos anos depois «diminuiu de tamanho, sem espaço para eco algum», invadida pelo «bolor do silêncio», cria-se uma espécie de limbo onde ela pode confrontar-se definitivamente com os seus fantasmas e os «desabamentos do tempo». A sua cabeça é como o carrossel das feiras, «girafas e cavalos de madeira» sempre à roda, à roda, desentranhando «a quantidade de tralha, sepultada na gente, que ressuscita». E não só a sua «tralha», também a dos outros, «silhuetas sem nome que me chamam, ao chamarem-me reconheço-as, mal emudecem perco-as». Aos 52 anos, com o casamento desfeito, o trauma de um filho perdido, a experiência de um cancro que lhe levou um dos peitos, desorientada e vulnerável («tudo me aleija, hoje, tudo me fere»), ela deixa-se atravessar pela «melancolia longa», pelas «imensidões comovidas» das vidas alheias («em quantas vozes a minha voz se dividia»), e até pelas interpelações de objectos inanimados (uma maçaneta, um tapete «puído»), da própria casa e do mar que a convida para um encontro fatal.
Se na família ninguém se despede («vamos embora e pronto»), a protagonista tenta ainda perceber «qual a razão de as pessoas se apartarem». E surgem assim, uma a uma, essas figuras que iluminaram ou ensombraram a sua existência: a mãe controladora, sempre a queixar-se dos filhos; o pai fraco que não cumpriu as expectativas nele colocadas e se afunda no alcoolismo; um «irmão surdo», incapaz de se fazer compreender; outro «não surdo», perseguido pelas memórias terríveis da Guerra Colonial, em particular a imagem de uma aldeia africana a arder, num dia de massacre; o «irmão mais velho» que se atirou da falésia e como que chama por ela do fundo das águas; o marido que a trocou por uma vizinha; a colega da escola onde é professora, com quem se envolve numa relação lésbica; etc. Todas estas figuras se chegam à frente e se penduram nas girafas e cavalos de madeira do seu carrossel mental, umas só durante uma voltinha, outras o tempo todo, algumas até com direito a narração própria (como a amante ou o irmão «não surdo»).
Lobo Antunes arrisca pouco neste livro? Talvez. Parece recusar-se a sair da sua zona de conforto? Sim. Mas isso não é necessariamente mau, sobretudo num autor de tamanha exuberância estilística. Se a progressão narrativa se revela algo mecânica e previsível (para quem já conheça bem a obra anterior), atentemos nas muitas frases que apetece recortar: «Tu de roupa caída aos pés num charco de algodão aos quadradinhos»; «um metrónomo para a esquerda e para a direita numa angústia cardíaca»; «daqui a pouco chove porque a terra parece erguer-se ao encontro das nuvens, uma exaltação nas plantas como antes de um beijo». Lobo Antunes continua a ser inigualável na descrição da mediocridade suburbana, rodeada de bibelôs («chinesices, pontezinhas, pagodes, a arca com relevos de árvores anãs e dragões»), e na obsessiva atenção aos pormenores: o homem que carrega uma bilha de gás com uma serapilheira a proteger o pescoço; o outro que na paragem do autocarro «ajeitava o chinó» e «conforme a testa maior ou menor uma cara diferente»; esse animal feito de «sombra sem matéria, capaz de atravessar paredes num assobiozinho subtil e a que as pessoas chamam gato». Mais um exemplo: «olha a maré a encher, olha os leques de espuma, os pescadores a enrolarem as canas com limos nos anzóis, não peixes, que peixes há nestas ondas, há ossos de afogados, roupinha desfeita, despedidas que a água dissolveu». E ainda esta visão desencantada do que nos faz a morte: «existimos à mesma só que não dão por nós, somos um centro de mesa que se entorta ou um preguear de cortina».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 118 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges