‘Afinidades Electivas’ no Goethe Institut

Esqueçam a troika, esqueçam a Merkel. Entre a Alemanha e Portugal, também existem Afinidades Electivas. O festival literário arrancou ontem e a programação deste sábado pode ser consultada aqui.

Esta tarde, no Clube Ferroviário

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A partir das 19h30, moderarei um debate com o Sandro William Junqueira, o João Ricardo Pedro, o Afonso Cruz e o Filimone Meigos.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Bichos, Bichinhos e Bicharocos, de Sidónio Muralha (poemas), Júlio Pomar (ilustrações) e Francine Benoit (Música), edição Althum, por Luciana Leiderfarb
Madrugada Suja, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor), por Cristina Margato
O Falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Signos de Camões, de Luis Maffei (Companhia das Ilhas), por José Mário Silva
– Escolhas de Carla Maia de Almeida

Poesia no São Luiz

A partir das 23h30. Eu farei parte do contingente de «vários poetas portugueses».

O que aí vem (Dom Quixote)

A Felicidade em Albert Camus, de Marcello Duarte Mathias; O Amante Bilingue, de Juan Marsé; O Mundo na Escuridão, de Alan Furst; A Sombra da Sereia, de Camilla Läckberg.

Logo à noite

Três poetas no tanque do Bartô (Chapitô): Margarida Ferra, Raquel Nobre Guerra e Nuno Moura. A partir das 22h30.

O coelho, a serpente e o hipopótamo

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Festa no Covil
Autor: Juan Pablo Villalobos
Título original: Fiesta en la madriguera
Tradução: Tiago Szabo
Editora: Ahab
N.º de páginas: 82
ISBN: 978-989-97228-9-7
Ano de publicação: 2013

Num «palácio» que fica «no meio do nada», atrás de muros altos, com arame farpado e alarmes de última geração, Tochtli vive rodeado de animais. Verdadeiros, nas jaulas no jardim: águias, falcões, um leão, dois tigres. Mas também simbólicos, já que os habitantes do imenso casarão têm nomes de animais em náhuatl, uma das línguas indígenas do México. Tochtli, por exemplo, é «coelho»; Yolcaut, o seu pai, é «serpente». Há ainda uma outra animalidade: a da violência que se exerce sem pejo, para assegurar uma hierarquia, para marcar um território no mundo do crime. Quando alguém se intromete nos negócios, os capangas de Yolcaut matam a sangue-frio. A serpente nunca prescinde do seu veneno.
Dentro da redoma, Tochtli vive em circuito fechado. Terá uns dez anos, não mais. É um rapazinho precoce, de memória «quase fulminante» e raciocínio rápido, que usa palavras difíceis porque todas as noites passa horas a ler o dicionário. Além disso, colecciona chapéus, considera que os franceses são boas pessoas porque inventaram a guilhotina para cortar a cabeça dos reis (tendo o cuidado de lhes tirar a coroa antes, «para não ficar amassada»), sabe de cor filmes de samurais e esforça-se por interiorizar os rígidos códigos da masculinidade latina (o importante é ser «macho», aguentar tudo, porque quem chora ou tem medo é «maricas»). Para suprir a ausência da mãe, que ainda lhe provoca ataques de tristeza e dores de barriga, o pai, com os seus dedos «cheios de anéis de ouro e diamantes», típicos do traficante paranóico que é, satisfaz todos os seus caprichos.
Assim, quando o «coelho» pede à «serpente» um hipopótamo anão da Libéria, pai e filho partem para África, à procura do animal raríssimo. A partir daqui, a novela de Juan Pablo Villalobos – que já nos mostrara o «palácio» como um universo de fantasia, onde as imagens do mundo exterior chegam completamente distorcidas – entra literalmente no domínio da fábula. Com nomes falsos hondurenhos, a «quadrilha» mexicana deambula por Monróvia, divertindo-se a contar os buracos de bala nas paredes de um país saído da guerra civil. O safari improvável termina com a captura de dois espécimes do desejado hipopótamo, um macho a que Tochtli chama Luís XVI e uma fêmea (Maria Antonieta, claro), ambos condenados a um fim não muito diferente dos aristocratas a que foram buscar o nome.
O que torna este livro notável não é a descrição dos meandros sórdidos do narcotráfico, essa espécie de lugar-comum da literatura mexicana recente, mas a forma como essa realidade vai sendo percepcionada e narrada por uma criança que viveu sempre no conforto artificial de uma torre de marfim. É a voz de Tochtli, ainda inocente mas já contaminada por um cinismo que paira no ar que respira, o trunfo maior de Festa no Covil. Desarmante na sua franqueza, ele tanto divaga sobre os conhecimentos enciclopédicos que um professor privado lhe vai incutindo como sobre o facto de um tiro por vezes não ser suficiente para matar alguém («Às vezes precisam de três tiros, ou até de catorze. Tudo depende do sítio para onde disparas»). Ou sobre a diferença entre cadáveres e restos humanos: «Se forem cadáveres, dá para saber que pessoas eram antes de serem cadáveres. Se forem restos humanos já não dá para saber que pessoas eram.»
Novela sobre o México de hoje, Festa no Covil mostra-nos a violência extrema, a corrupção e as engrenagens do crime, sem recorrer ao realismo sujo do costume. Ao contar-nos a história em forma de fábula, a partir do olhar cândido de uma criança que não percebe bem o que se passa à sua volta, o efeito é igualmente brutal mas muito mais eficaz.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Miguel haverá de alertar-me para a importância das primeiras frases. Tantos os casos conhecidos. Os Cem Anos de Solidão e a fabulosa descoberta do gelo. O Quixote e o lugar de cujo nome o Autor não quer lembrar-se. A Ernestina e o binóculo capaz da transfiguração do olhar. Ninguém lê romances que começam com descabidas preocupações de estilo, a armar. Isso foi chão que deu uvas.»

[in Um Amigo para o Inverno, de José Carlos Barros, Casa das Letras, 2013]

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos (Ahab), por José Mário Silva
A Paixão, de Almeida Faria (Dom Quixote), por Pedro Mexia
Murmúrios com Vinho de Missa, de Álamo Oliveira (Letras Lavadas), por Carlos Bessa
O Instinto de Morte, de Jacques Mesrine (Antígona), por Ana Cristina Leonardo
Da Corrupção à Crise. Que fazer?, de Paulo de Morais (Gradiva), por Luís M. Faria
História da Música – Uma Introdução, de Teresa Castanheira (Arranha Céus), por Luciana Leiderfarb
– Escolhas de Bruno Vieira Amaral

Lançamento de ‘Cinerama Peruana’

Esta tarde, na Bertrand Picoas.

Logo à noite, na Covilhã

Pelas 21h30, participarei no Café Literário conduzido por Manuel da Silva Ramos, na Esplanada do Café do Jardim do Lago, na Covilhã. Apesar do frio que se anuncia, quem estiver pela Beira Interior é muito bem-vindo a uma conversa que valerá a pena, nem que seja pelo brilhantismo do meu interlocutor.

Romance ou não?

Se quisermos ser rigorosos, não faz sentido chamar romance ao livro de estreia de Rodrigo Magalhães, como eu fiz na minha recensão (ver post anterior), embora salvaguardando que as três partes que o compõem são «autónomas» e «independentes umas das outras». Num texto publicado no ípsilon, José Riço Direitinho fala em três novelas, mas essa classificação também é discutível, já que a última e maior das três partes corresponde a cerca de 120 páginas, que se fossem publicadas isoladamente seriam decerto classificadas como “romance”. Em que é que ficamos? Duas novelas e um romance? Três narrativas? Segundo o autor, entrevistado na mesma edição do ípsilon, os textos nasceram em tempos e contextos diferentes. O que os une é apenas o facto de estarem reunidos num mesmo volume. Repito: depreende-se assim que é errónea ou abusiva a classificação que lhe dei (romance). Por outro lado, há nexos muito subtis a unir as três ficções (a editora que os protagonistas da segunda história herdam tem o nome, Anamnesis, que o protagonista da primeira deu a um dos seus ensaios; há factos e ideias que ecoam ao longo do livro todo; para não falar do tema comum, que se pode resumir à necessidade de os discípulos superarem os seus mestres, aniquilando-os simbolica ou literalmente). Assim sendo, enquanto leitor eu posso discernir uma estrutura no livro, uma mesma ordem que paira acima de cada história, ligando-as subterraneamente umas às outras, o que me leva a considerar o conjunto como um todo. E se o considerar como um todo, só faz sentido atribuir-lhe o género literário mais elástico e flexível de todos. O romance, justamente.

A violência dos inúteis

Cinerama Peruana
Autor: Rodrigo Magalhães
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-989-722-111-8
Ano de publicação: 2013

Nos últimos tempos, multiplicaram-se nas livrarias os primeiros romances de escritores portugueses, em parte devido ao efeito de alguns prémios literários – sobretudo o Prémio LeYa, que abre a porta da publicação tanto ao vencedor como aos melhores finalistas. Entre tamanha oferta, não faltam tiros de pólvora seca (a maioria) nem exemplos de verdadeiro talento. Mais raro é encontrar um romancista que já domine plenamente o seu mister, um estreante que a cada frase nos faça duvidar desse estatuto de inexperiência narrativa. Aconteceu com Benoni, de Alexandre Andrade (Editorial Notícias), em 1997. Aconteceu com Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares (Caminho), em 2003. Aconteceu poucas vezes na última década. Volta a acontecer agora com Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães.
Neste livro magnético (no sentido em que o leitor experimenta em permanência uma força de atracção, densa e obscura), o que mais impressiona é o domínio absoluto do autor sobre os materiais literários. Livreiro de profissão, Rodrigo Magalhães leu decerto muitíssimo. E isso nota-se nas muitas dezenas de referências a escritores e livros ao longo do romance. Essas leituras, porém, não tolhem a arte de contar nem lhe acrescentam o peso de uma erudição artificial ou pretensiosa. Se se evoca Buzzati ou Melville, é porque o texto pede uma evocação de Buzzati ou de Melville. No fundo, o livro aglutina ideias, imagens e arquétipos que encontrámos talvez noutros lugares, mas que surgem aqui reconfigurados, sempre em fuga, sempre em movimento. Nada é fixo. Tudo flui. E o mesmo acontece com as personagens: corpos errantes, difusos, quase imateriais, com a consistência do fumo e da sombra. Uma dessas personagens, sempre a oscilar entre a «objectividade» e o «delírio», resume tudo numa espécie de lema: «Quero ser um criador de coisas secretas que, expostas ao ar, expludam.» Rodrigo Magalhães segue-lhe os passos. Expõe ao ar coisas secretas. E as explosões que assim nos oferece são magníficas.
O livro está organizado em três partes autónomas, independentes umas das outras. Na primeira acompanhamos um ensaísta falhado, Harry Heels, autor de uma obra vasta e inédita (embora sujeita a minuciosa exegese). Essa obra árida, difícil, nalguns casos quase ilegível, contrasta com a sua vida aventurosa, durante a qual foi bebé adoptado na Inglaterra da II Guerra Mundial, alfaiate, empregado de mesa num bar, pugilista e rufia do bas fond londrino nos anos 60, quando este era dominado pelos célebres irmãos Kray. Os seus crimes culminam no homicídio de um polícia nos cais de Paris, durante o festivo Maio de 68. A segunda parte é uma sucessão de vinhetas curtas sobre dois irmãos gémeos, filhos de um célebre editor, uma rapariga e um rapaz que deambulam pelo mundo e pela literatura, mais leves do que o ar. Mas a carta de alforria de RM na literatura portuguesa surge na extraordinária terceira parte. Uma história de assassinos peruanos, «pessoas inúteis ao serviço da violência», como sugere a epígrafe de Ryszard Kapuscinski. Violência brutal, «nascida do ressentimento», do despeito, de uma ordem que os ultrapassa, como se cada um destes homens – Bruno, Alvaro, Pascal, Moisés, «príncipes infernais» – trouxesse em si uma «lâmina feita de pura maldade». Complexa, a história expande-se e contrai-se em ondas que abarcam vários tempos, vários pontos de vista, uma engenhosa rede de narradores. Há mestres e discípulos, conjuras e traições, enganos e imposturas, muitos crimes, muito negrume.
Se a energia visceral desta terceira parte remete para Roberto Bolaño e a vertiginosa hipertrofia de pormenores da primeira lembra David Foster Wallace (não faltam sequer notas de rodapé às notas de rodapé, como em A Piada Infinita), Rodrigo Magalhães é tudo menos um epígono habilidoso. À semelhança das suas personagens, ele aprendeu com os melhores para depois seguir o seu caminho. Esperemos para ver, com a expectativa no zénite, até onde conseguirá chegar.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Apelo para salvar os manuscritos de Timbuctu

«Initially reported to have been destroyed by Islamist rebels in a fire, the 300,000 manuscripts were evacuated from Timbuktu by librarians and archivists. Stored in the metal boxes used for their evacuation, the texts are already showing signs of damage and exposure to moisture, and experts have launched an appeal to raise $100,000 to help preserve them.» A campanha de donativos está a ser organizada pela associação Timbuktu Libraries in Exile.

Uma saca cheia de talento

Infelizmente, a antologia literária dos Jovens Criadores 2012 circulou de forma quase clandestina, chegando a muito menos leitores do que merecia. Num momento em que se aproxima a deadline da edição 2013, vale a pena revelar o melhor conto desse livro, belíssima ficção de estreia de Inês Bernardo, uma escritora que pode vir a ser um caso muito sério na literatura portuguesa.

Traduzir com autores

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Um workshop sobre tradução literária em que estarão presentes vários autores luso-americanos, entre os quais Frank X. Gaspar, Anthony de Sa, Katherine Vaz e Brian de Sousa. Mais informações aqui.

Primeiros parágrafos

«O gesto inicial de Montaigne gerou vasta descendência, como se sabe.
De tão vasta e heteróclita prole, um dos nomes que menos se destaca é o de Harry Heels, mancuniano da safra de 1940. Filho de John Heel, diácono e bibliotecário em Levenshulme, nascido em Gorton no ano de 1916, filho de um sapateiro dessa povoação e de uma lavadeira de Longsight, e casado aos 24 anos com Rebecca Hall, daí em diante conhecida como Sra. Hall Heel.
Entregaram o seu primeiro filho à voracidade pública num dia enevoado de Novembro de 1940, mas o diácono foi tomado pelo horror ante o fruto do seu comportamento lascivo e deu para adopção aquele que viria a ser o seu único filho, atirando a responsabilidade para os braços de outros, através dos conhecimentos que lhe dispensava o sacerdócio.
Por essa falta, o seu deus acertou contas com ele.
Foi na biblioteca, a 30 de Julho de 1943. Atingiu-o na cabeça um grande vaso que um administrador achara por bem colocar na estante por trás da sua secretária. Quando estava só, John tinha a tentação de se espreguiçar, um gesto que por pudor só se permitia uma vez por dia. Impusera-se esse cilício da única espreguiçadela diária, mas o calor amolecia-lhe a fé e tornava o indolente, como ele dizia na catequese acerca dos negros, falando às crianças de Gorton, advertindo-as para o terrível pecado da preguiça, fazendo-o com verdadeira convicção, mas sem nunca lhes lembrar, apesar de tantas lições ter dado nessa paróquia, que era vítima de um pecado semelhante àquele de que dominicalmente acusava os africanos. Bocejou com vigor e começou a erguer os braços de forma tímida. Esticou-os com languidez, prolongando o bocejo. Nesse momento, as pernas traseiras do seu banco, gastas pelo muito tempo que John passava sentado, escorregaram numa zona do soalho que durante a limpeza matinal fora esfregada com maior vigor do que o habitual e que depois de almoço — quando os ditos factos se deram — permanecia ainda algo húmida. O acidente apanhou a espreguiçadela numa sorte de momento descendente. Os dedos entrelaçados do diácono tinham atingido o zénite da preguiça e preparavam-se para a descida. Assustou-se com o brusco movimento para diante do seu banco.
As suas mãos procuraram o amparo da estante, mas não encontraram senão o rebordo do naperão colocado sob o vaso, uma tentativa para salvar-se que outro efeito não teve senão fazer o vaso precipitar-se sobre a sua cabeça, o que aconteceu já depois de ter chegado ao chão, onde primeiro bateu com a nuca, fracturando de imediato o occipital e partes do parietal. No vaso crescia o que teria sido um esplêndido philodendron, que o administrador insistira em plantar ele próprio após mandar vir a semente do Brasil por posta aérea. Tinha achado a planta bela ao vê-la num catálogo, sabendo de antemão e de fonte segura que a mesma não se daria naquele clima, trazendo-a então por capricho e plantando-a, num segundo e ainda mais terrível capricho, por trás da secretária do diácono John Heel, no qual poderia depois pousar a culpa que o assolaria por a planta não ter medrado, insinuando talvez que o outro não a teria regado como era próprio, mas não se imaginando capaz de o punir com tão temível morte por tão magra ofensa, o crânio esmagado pelo pesado vaso que continha o amarelecido e raquítico philodendron e os poucos quilos de terra que o mantinham.»

[in Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães, Quetzal, 2013]

Lançamento de “E agora?”

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Reflexões de Pedro Adão e Silva sobre a crise do Euro e a catástrofe económica e social em curso no nosso país. Terça-feira à tarde, no Corte Inglés.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Geoff Dyer, por Pedro Mexia
Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães (Quetzal), por José Mário Silva
O Império de Hitler, de Mark Mazower (Edições 70), por Luís M. Faria
Yoga Para Pessoas Que Não Estão Para Fazer Yoga, de Geoff Dyer (Quetzal), por José Guardado Moreira
Rainha D. Amélia, de José Alberto Ribeiro (Esfera dos Livros), por Alexandra Carita
Ler Le Corbusier, de Alexandra Trevisan, Josefina González Cubero e Pedro Vieira de Almeida (CEAA – Centro de Estudos Arnaldo Araújo), por José Manuel Fernandes
– Escolhas de Pedro Eiras

Logo à tarde

Pelas 18h00, no Café Império (Av. Almirante Reis, Lisboa), será apresentado o mais recente livro de Manuel da Silva Ramos: Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela (Edições A23). Miguel Real falará sobre a obra e o Grupo de Jograis “U…Tópico” lerá um capítulo do livro.

O que aí vem (Planeta)

A Rapariga dos seus Sonhos, de Donna Leon; Indiscrição, de Charles Dubow; As Cinquenta Baboseiras de Toni, de Rossella Calabró.

Uma ponte no Bósforo

Fala-lhes de batalhas de reis e de elefantes

Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes
Autor: Mathias Énard
Título original: Parle-leur de batailles, de rois et d’eléphants
Tradução: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-20-5174-3
Ano de publicação: 2013

Quando desembarca em Constantinopla, em Maio de 1506, Miguel Ângelo, escultor ainda jovem (31 anos) mas já elevado a «herói da república de Florença», tem à sua espera um enorme desafio. Para trás ficou o braço-de-ferro com o Papa Júlio II. Exigente e autoritário, o Sumo Pontífice quer que ele trabalhe nos mármores do túmulo papal – «imenso monumento que iria pavonear-se mesmo a meio da nova basílica» de São Pedro, em Roma –, embora seja menos lesto na hora de pagar o que prometeu. Por isso, Miguel Ângelo aceita o convite feito pelo sultão Bayazid II: um mês de estadia junto ao estreito do Bósforo, a troco de uma fortuna (cinco vezes mais do que recebera nos dois anos anteriores), para desenhar uma ponte sobre o estuário a que chamam Corno de Ouro. O desafio torna-se ainda mais estimulante porque fora lançado antes a Leonardo Da Vinci, cujo projecto, «inventivo mas impossível de construir», o sultão considerou «bastante feio». É pela rivalidade que o convencem: «Se aceitardes ireis ultrapassá-lo [a Da Vinci] em glória, porque triunfareis onde ele fracassou».
Num primeiro momento, esmagado pela sensações que Constantinopla lhe desperta e pelo fausto da corte otomana, Miguel Ângelo recolhe-se, fica no quarto a desenhar «cavalos, homens e astrágalos», talvez consciente de que é um homem feio, pouco sociável e mal cheiroso (nunca se lava). Depois, aos poucos, vai conhecendo a cidade «perturbadora» que lhe faz lembrar Veneza, apropria-se dos seus ritmos, da sua energia, da sua «matéria». Observa «imagens, rostos e cores», tira notas, faz esboços e listas de objectos (enumerações que ganham uma qualidade poética: «gaxeta, cabrestante, varanda, portaló, carlinga»; «pórfiro, brocatelo, obsidiana, cianite»), escreve cartas ao irmão, tenta saber notícias do Papa, hesita e duvida das suas escolhas, até porque os turcos também tardam em pagar e Constantinopla arrisca tornar-se uma «dulcíssima prisão».
Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes começa por ser isto. Ou seja, um relato das indecisões e derivas de Miguel Ângelo no lugar de todas as clivagens, entre Ocidente e Oriente. Ele sabe que o chamaram para «acrescentar beleza ao mundo» e sente o peso da responsabilidade. Se a arquitectura é a «arte do equilíbrio», ele deve encontrar a conjugação ideal entre «a cadência dos arcos, a sua curva, a elegância dos pilares». Mas a ponte escapasse-lhe e os esboços ficam aquém da grandeza necessária. É então que ocorre uma transformação, à medida que se aprofunda a amizade «tão forte quanto discreta» com Mesihi de Pristina, um grande poeta de «olhar sombrio» que o leva para as tabernas, onde corre o vinho e dançam beldades andróginas. Uma destas bailarinas, vinda do Al-Andaluz (depois de os reis católicos terem destruído aquele lugar de coexistência pacífica entre muçulmanos, judeus e cristãos), acaba por enfeitiçá-lo, reduzida a «uma voz na escuridão» que o abre ao sortilégio do amor, mesmo se este não passa de um reflexo dos sentimentos de Mesihi.
Em capítulos muito curtos, de grande intensidade expressiva e lírica, acompanhamos o modo como Miguel Ângelo supera os bloqueios, conseguindo desenhar a ponte sonhada pelo sultão, mas sem se dar conta da rede apertada de maquinações e desenlaces trágicos que foi sendo urdida à sua volta, antes do regresso intempestivo a Florença. «São belas as pontes, se perdurarem», diz-se, mas esta ruirá no terramoto verdadeiro de 1509, permitindo a Énard fechar a sua realidade alternativa, sincronizando-a com os registos históricos. Ao morrer, quase nonagenário, Miguel Ângelo ainda guarda de Constantinopla «uma vaga luz, uma doçura subtil mesclada de amargura, uma música distante». É a música sublime que atravessa este romance, tão harmonioso e inesquecível quanto a ponte que nunca existiu.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Dois poemas inéditos de José Luiz Tavares

Do livro Polaroids de distintos naufrágios, ainda por publicar, um par de poemas de José Luiz Tavares, oferecidos ao BdB no dia em que o poeta faz 46 anos:

Olhas para lá das colinas,
e a idade é onda que vem,
profunda de extremo a extremo,
solene nome caindo assim opaca
em ti sozinho com a vida.

Mas vem no riso nascido na boca
do mais só, do que ganhou gosto
à fome de mais vida, sem jeito para
a melancolia nem para a vergonha
de chorar a dor dos outros.

A bem dizer, não te comovem os ademanes
metafísicos, ó criança sentada nas trevas
que protegem a infância, quando a febre
descia devagar como um dom celeste
à correnteza oculta das vidas subitamente
iluminadas.

Mas vês a demora nas mãos dos construtores,
esses que selam nas pedras os pactos com
o tempo e um sinal de eternidade deixam
sobre as cabeças comovidas por essa paciência
que não cuida do azebre desenhando
as rosáceas da extinção,

porquanto olhando para lá das colinas
o que se vê é da ordem do puro pensamento,
da iluminação mais secreta – fundas paisagens
com seus perfis trementes, posto que
o incomovível vento, que é caçador audaz,
uiva nos mastros erectos, entenebrece
nos esteios lavados pelas chuvas,

mas tudo persiste
entre queda e queda, no redemoinho de pó
restituidor da perene pensada vida.

***

(com joão vário)

Não te deram coroa alguma
para te medires com os da tua casta,
mas a pedra que conhece de antemão
o lugar da conveniência e aterra
sem o pavor da grandeza na funda
predestinada, posto que voracíssimo
é o ofício das parcas e mais esteios
não dispões tu que esse sal que preserva
a intensidade com que se amanha
esse ofício ambivalente.

E sob tal tecto vigias a calamidade,
pois para a continuidade não basta
o estrondo da exaltação, ó homem
dilacerado pelas indagações fatídicas,
habituada que a vida é à estreiteza
abnegada, à sua altiva orfandade,
sem o unguento do alívio ou qualquer
outro rumor reparador.

Estás só, medindo-te com a vara do teu
senso, e é deveras uma via estreitíssima
que não se abandona com a vinda
do escuro, pois muito esperaste pelas contas
do passado, pelos argutos conselhos
temperados de sagacidade; e ainda assim

só estás e continuarás no chão da semeadura,
e nada deves às sibilas imemoriais,
nem a coroa do espanto ou o favo
da coragem, que tudo é pedra talhada
com a abnegação que não prescinde da incerteza,
e para atravessar tal desígnio nenhuma estendida
meada existe – tudo é construção no ovo
da contingência, e quem por ti, quem por ti,
ó homem em duas metades repartido?

A biblioteca mais bela do mundo (neste momento)

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Em Istambul, no Parque Gezi, o epicentro dos protestos das últimas semanas (que fazem vacilar o governo de Erdorgan), surgiu do nada, improvisada com tijolos, uma pequena biblioteca que serve de combustível intelectual para os manifestantes. De um lado, há canhões de água e gás lacrimogéneo. Do outro, pessoas desarmadas que lutam pela preservação de um parque e lêem livros. O Bibliotecário de Babel por estes dias também é turco e não conhece biblioteca no mundo mais bela que a de Gezi, a céu aberto, debaixo das árvores, erguida contra a opressão.

Primeiros parágrafos

«O gesto inicial de Montaigne gerou vasta descendência, como se sabe.
De tão vasta e heteróclita prole, um dos nomes que menos se destaca é o de Harry Heels, mancuniano da safra de 1940. Filho de John Heel, diácono e bibliotecário em Levenshulme, nascido em Gorton no ano de 1916, filho de um sapateiro dessa povoação e de uma lavadeira de Longsight, e casado aos 24 anos com Rebecca Hall, daí em diante conhecida como Sra. Hall Heel.
Entregaram o seu primeiro filho à voracidade pública num dia enevoado de Novembro de 1940, mas o diácono foi tomado pelo horror ante o fruto do seu comportamento lascivo e deu para adopção aquele que viria a ser o seu único filho, atirando a responsabilidade para os braços de outros, através dos conhecimentos que lhe dispensava o sacerdócio.
Por essa falta, o seu deus acertou contas com ele.»

[in Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães, Quetzal, 2013]

Discutir o futuro do livro

No site da Fundação Francisco Manuel dos Santos, está em curso um debate que procura respostas para a pergunta: “No futuro, como será o livro?” Com moderação de Vasco M. Barreto, a conversa tem como convidados Bruno Vieira Amaral, Carlos Vaz Marques, Maria João Nogueira, Paulo Querido e eu próprio, mas está aberta a todos os cibernautas. Participem, questionem, polemizem.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

– “Um Camões Inédito”, por Alexandra Carita
– Entrevista com Mathias Énard, por José Mário Silva
Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, de Mathias Énard (Dom Quixote), José Mário Silva
Tojo, de Miguel-Manso (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
A Vida Inútil de José Homem, de Marlene Ferraz (Gradiva), por Luciana Leiderfarb
– Escolhas de Ana Margarida de Carvalho

A. M. Homes vence o Women’s Prize for Fiction 2013

Com o romance May We Be Forgiven (Granta), a escritora A. M. Homes venceu a edição deste ano do principal prémio literário de língua inglesa que premeia exclusivamente a escrita feminina, sucessor do Orange Prize. Entre as finalistas estavam a multipremiada Hilary Mantel (Bring up the Bodies), Zadie Smith (NW) e Barbara Kingsolver (Flight Behaviour).

As plantas de Emily Dickinson

Folhas, flores secas, etiquetas minuciosamente manuscritas: eis o herbário de Emily Dickinson, feito pela maior poeta americana aos 14 anos, quando frequentava a Amherst Academy.

O terror da beleza

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Servidões
Autor: Herberto Helder
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-37-1696-2
Ano de publicação: 2013

Há no primeiro livro de José Tolentino Mendonça (Os Dias Contados, 1990), um poema intitulado A infância de Herberto Helder que começa com o verso: «No princípio era a ilha». O que cria a tensão nesse texto é o diálogo entre a própria infância de Tolentino Mendonça – evocada explicitamente no poema – e a imaginária infância de Herberto Helder, de cuja vida sabemos sempre tão pouco (quase nada), confinadas as duas meninices a um território comum: a ilha da Madeira. Uma das muitas surpresas que Servidões nos reserva é a oportunidade de vislumbrarmos alguns fragmentos da infância real de Herberto Helder. No longo poema em prosa que abre o livro, o poeta fala-nos de como era crescer «no meio do atordoamento de flores e animais», atento «às matérias e sopros do mundo expressos em imagens e vozes autónomas».
Se a poesia é «um início perene, nunca uma chegada seja ao que for», a «interminável preparação» talvez tenha começado nesses primeiros anos, com a aprendizagem de «certas astúcias», como «apanhar a ocasional distracção das coisas, e desaparecer; fugir para o outro lado, onde elas nem suspeitam da nossa consciência», para depois «enriquecer e intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas». A «vida» que é sempre, na matéria «ferozmente parcialíssima» do poema, uma «paisagem transfigurada». Ao regressar à ilha, após muitos anos de ausência, o poeta não a reconheceu: «nenhuma imagem confirmada pelo olhar, ou esse odor de vaza marinha, de jasmins, e o vento trazido das montanhas, nada era vivo, actual, reiterado, circulatório, nada me reatava, um ímpeto do espírito, uma religação». Ainda assim, sabe que foi ali que forjou a sua liberdade («o meu espírito seria daí em diante irredutível, não me sujeitaria nenhuma regra alheia») e o esboço de uma existência «subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava».
Neste livro crepuscular, Herberto relembra-nos a cada passo que já ultrapassou os 80 anos, mas a extraordinária combustão lírica da sua escrita como que o desmente. O corpo vai ficando cego mas ainda é «sôfrego», cheio de energia sexual, «fedendo a testosterona e sangue»:

(…) farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome, (…)

Como sempre, o poeta devora o mundo e é por ele devorado. Mas se noutro tempo olhou a morte de frente, agora não: «agora sou olhado, e estremeço / do incrível natural de ser olhado assim por ela». O fim é uma ideia fixa, vai montando o cerco e insinuando-se como uma obsessão: «bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho, / e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude, / e eu de dentro o não pudesse desfazer».
Na maior parte dos poemas, aflora uma sensação de perda, a consciência de que «tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica». Pode ainda haver vontade de escrever o «poema fixo entre as palavras móveis», mas «a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora». O «passarão» a quem vai falhando o «sopro», que perdeu o ouvido absoluto para «as músicas sumptuosas do verso livre», resigna-se: «já não tenho mão com que escreva nem lâmpada, / pois se me fundiu a alma, / já nada em mim sabe quanto não sei / da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede / minha turva eternidade». Resta-lhe procurar a «perfeição de poucas linhas», os versos rápidos, o poema curto, «trémulo e severo», uma arte tão «breve» quanto «furtiva».
Herberto zanga-se, exalta-se, imagina infernos, vitupera a geração «inclitamente vergonhosa» que em testamento deixou uma «montanha de merda», procura «corpo a corpo o nada disso tudo», mas continua a elevar às alturas, como nenhum outro na poesia portuguesa, a música da língua:

até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges