Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Timur Vermes, a propósito do romance Ele Está de Volta (Lua de Papel), por José Mário Silva
A Liberdade de Pátio, de Mário de Carvalho (Porto Editora), por Pedro Mexia
Chiado em Detalhe, de Álvaro Siza (Câmara Municipal de Lisboa/Babel), por Valdemar Cruz
O Estado de Nova Iorque, de Tiago Patrício (Gradiva), por José Mário Silva
– Escolhas de David Machado

Onde o vento não sopra

zero_esquerda

Zero à Esquerda
Autor: Manuel Jorge Marmelo
Editora: Edição de autor
N.º de páginas: 125
ISBN: 978-148-40-8797-8
Ano de publicação: 2013

A pretexto da crise económica, muitas editoras vêm reduzindo de forma drástica o número de livros que publicam. Sem surpresa, as principais vítimas são os géneros comercialmente menos interessantes, como as recolhas de contos ou crónicas. Consciente do problema, Manuel Jorge Marmelo procurou uma solução alternativa e acaba de publicar dois livros fora do circuito habitual das livrarias, em edições de autor, distribuídas através da Amazon. As Crónicas do Autocarro existem apenas em versão electrónica (com uma pequeníssima tiragem em papel, de 100 exemplares assinados), enquanto Zero à Esquerda, uma recolha de contos dispersos, foi impressa nos EUA e é vendida nas lojas americana e francesa da maior livraria online do mundo.
Os textos mais longos e interessantes de Zero à Esquerda têm Cabo Verde como cenário. Logo na primeira história, um fotógrafo dispara a sua máquina ao acaso, procurando captar no tecido caótico da realidade as subtilezas que escapam a um primeiro olhar. No fundo, ele deseja «ver para além do que pode ser visto»; ele quer desvendar o que «a aparência oculta». Este impulso é comum a quase todos os narradores deste livro, no modo como procuram descrever, ora com subtileza, ora com ironia, amores impossivelmente líricos e devaneios sensuais, movimentos de fuga ou de isolamento, dilemas identitários, alegrias insulares e outras aproximações ao cerne da vida cabo-verdiana (a sua paisagem, a sua música, o seu falar crioulo). No conto que dá título ao livro, um homem esconde-se debaixo de um cobertor «velho e puído», a ler e a escrever com a pouca luz que entra pelos buracos feitos pelas traças. É uma figura que procura desaparecer do mundo, apagar-se, e utiliza a literatura como instrumento para esse eclipse. Marmelo cita Walser e Pynchon, há quase sempre uma auto-consciência do fazer literário, mas depois a escrita solta-se quando as mulatas agitam as noites do alto da sua beleza, inclinando a prosa para a toada das mornas e para a melancolia que se mistura com o desejo.
Num dos seus romances, Enrique Vila-Matas criou um personagem, Federico Mayol, que empreende uma «viagem vertical», do Porto à Madeira, passando por Lisboa. MJM imagina que essa viagem continuou e coloca Mayol ainda mais a sul, numa esplanada de São Vicente, a ler um livro que talvez seja «infinito» ou «inesgotável». Numa ilha ventosa, o septuagenário é conhecido pelo facto de nunca correr uma brisa nos sítios por onde anda. O mistério talvez se explique pelo facto de ele não existir realmente, de ser uma figura inventada por Vila-Matas, preso «num limbo onde nada acontece e o vento não sopra», e talvez isto suceda «com todos os personagens de todos os livros quando as histórias chegam ao fim». Uma ideia que nos dá esperança quanto ao destino, por exemplo, do saxofonista Quentin Maschado (Crescendo and diminuendo in blue), da Anita vendedora de compota de fruta (A doçura), da Benvida que não vem à janela ouvir uma serenata, ou do futebolista que todas as noites sonha que pode qualificar Cabo Verde para o Campeonato do Mundo e falha o golo decisivo. Pode ser que se sentem todos à mesa com Mayol, na esplanada onde o vento não sopra, do outro lado da ficção. E bebam à saúde de quem tão bem os inventou.
Os contos mais curtos, guardados para o fim, ficam aquém das histórias cabo-verdianas. São exercícios divertidos, vinhetas provocatórias ou absurdas (algumas demasiado esquemáticas, outras dispensáveis), um complemento que a densidade dos textos longos não pedia. Ainda assim, Um insecto muito repugnante e António espanta os peixes são miniaturas preciosas.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Franzen vs. Rushdie

Jonathan Franzen, um dos mais celebrados romancistas norte-americanos dos nossos dias, acaba de lançar as suas traduções anotadas de alguns ensaios fundamentais de Karl Kraus (The Kraus Project, na Farrar, Straus and Giroux). Ora acontece que Franzen vê nas diatribes que o satirista vienense publicava, no início do século XX, contra a tecnologia desumanizadora e o consumismo capitalista, um rasgo visionário que se pode aplicar ao estado do mundo actual, em as pessoas vivem em função dos seus perfis no Facebook e escravizadas pelos smartphones. Entre as muitas farpas lançadas em várias direcções, o autor de Liberdade (D. Quixote) escreveu que Jeff Bezos, o criador da Amazon, «pode não ser o anti-Cristo, mas assemelha-se muito a um dos quatro cavaleiros do Apocalipse» e lamentou que um escritor com o estatuto de Salman Rushdie tenha «sucumbido» à febre do Twitter. Previsivelmente, a internet em peso caiu-lhe em cima, com bloggers a chamarem-lhe de «ludita» e snob para baixo. Fleumático, Rushdie respondeu à longa prosa de Franzen (pré-publicada pelo Guardian) com os poucos caracteres de um tweet: «pois que faça bom proveito da sua torre de marfim».

António Ramos Rosa (1924-2013)

António Ramos Rosa

PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

Amanhã, na secção de Livros do ‘Actual’

Conversa com Valter Hugo Mãe, a propósito do romance A Desumanização (Porto Editora), por José Mário Silva
Zero à Esquerda, de Manuel Jorge Marmelo (Edição do autor), por José Mário Silva
Culpa, de Ferdinand Von Schirach (D. Quixote), por Ana Cristina Leonardo
Contos Sobrenaturais, de Carlos Fuentes (Porto Editora), por José Guardado Moreira
Bruges-a-Morta, de Georges Rodenbach (Sistema Solar), por Pedro Mexia
Os Segredos do FBI, de Ronald Kessler (Bertrand), por Luís M. Faria
– Escolhas de Valério Romão

Mostrar o invisível

aniki

Aniki-Bobó
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 96
ISBN: 978-972-37-1659-7
Ano de publicação: 2012

Inédito durante quase duas décadas, Aniki-Bobó, o ensaio de Manuel António Pina sobre o filme realizado por Manoel de Oliveira em 1942, foi uma encomenda do British Film Institute para uma colecção sobre clássicos da história do cinema. O livro nunca chegou a ser publicado no Reino Unido, embora uma parte do texto tenha aparecido no catálogo do ciclo ‘Odisseia nas Imagens’, ao tempo do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Agora em versão integral, a leitura de Pina mostra-nos uma faceta talvez menos conhecida da sua abrangente mundividência: a de cinéfilo atento e apaixonado.
Na introdução, após um breve resumo dos primeiros anos do cinema português, com referências ao pioneirismo de Aurélio Paz dos Reis e à «primeira tentativa séria de montar em Portugal uma grande indústria cinematográfica» (a Invicta Filmes, do Porto), M. A. Pina não esconde o fascínio pelo improvável percurso artístico de Manoel de Oliveira. Filho de um industrial próspero, o então muito jovem desportista (campeão de salto à vara, piloto de aviões e automóveis, além de ás do trapézio) convenceu o pai a comprar-lhe uma câmara com película de 35 mm, portátil, e pôs-se a filmar os gestos, o trabalho e a dura vida quotidiana das «gentes ribeirinhas». Tinha 21 anos. Desta «vontade de fazer cinema» nasceria a sua primeira obra, Douro Faina Fluvial, um «filme de montagem», entre documentário e ficção, terminado em 1931 com o empenho de António Lopes Ribeiro, uma das mais influentes figuras do establishment cultural da época.
Na estreia, os críticos portugueses não suportaram o «ritmo inquieto» e menos ainda a rudeza das imagens que exibiam a vergonhosa miséria do Porto («aquelas mulheres esfarrapadas, com carretos de carvão à cabeça, de pé descalço…»), manifestando o seu desagrado com assobios e uma monumental pateada. Pelo contrário, um crítico do jornal Le Temps empolgava-se: «Nunca o patético novo da arquitectura do ferro e a poesia eterna da água foram traduzidos com tanta força e inteligência.» A obra de Oliveira nascia sob o «signo da controvérsia»: aplaudido lá fora, questionado cá dentro. «E assim continuou» até aos nossos dias, resume Pina.
Aniki-Bobó, rodado nas margens do Douro com «pequenos actores amadores», descobertos por Oliveira nos locais de filmagem, também foi mal-recebido de início, tanto pela crítica como pelo público, mas ocupa hoje um lugar central na história do cinema português. Pina comenta o filme quase plano a plano, levando-nos para o coração desta história de amores infantis que espelham o «mundo real dos homens (…), reduzido (…) à sua mais funda e descarnada estrutura: Bem e Mal, justiça e injustiça, esperança e medo, felicidade e infelicidade, desejo e morte, amor e ódio». Com o seu «realismo poético», o filme é um hino à infância enquanto território das grandes descobertas e revelações. Um território visto de dentro, em oposição à autoridade normativa dos adultos. Com os seus contre-plongées, Oliveira obriga mesmo o espectador «a olhar o mundo e as coisas através dos desmedidos olhos originais das crianças». Pina lembra ainda que neste filme «tempo e câmara, duração e découpage, enquadramentos e raccords, bastam-se para, conjugadamente, mostrar o invisível» – característica essencial do cinema futuro de Oliveira, que só voltaria a realizar uma longa-metragem de ficção (O Passado e o Presente, 1972) após um inacreditável hiato de trinta anos.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 119 da revista Ler]

E se o Man Booker Prize fosse alargado aos escritores norte-americanos?

A hipótese está a ser equacionada, com a previsível resistência dos autores britânicos.

Uma editora que expõe arte

abysmo_galeria
Clique para aumentar

A abertura é hoje, a partir das 19h00.

Benite

1. Quando penso no Joaquim, a primeira coisa que recordo é a voz. Ao contrário da fisionomia, na minha memória a sua voz nunca mudou. Era uma voz escura, ao mesmo tempo áspera e de veludo, uma voz de tabaco. Voz teatral, das que se fazem ouvir no outro lado do palco, voz a erguer-se do fundo da plateia, a encher a sala quando é preciso avisar o actor de que a marcação não é assim, de que falta qualquer coisa num gesto, de que o silêncio naquela cena de Tchékhov devia durar mais (ou menos). Agora, o silêncio durará para sempre. A voz calou-se. E ainda não me habituei à sua ausência.

2. Em Julho de 1984, eu tinha 12 anos. A poucos metros de minha casa, no coração de Almada Velha, ficava o Beco dos Tanoeiros. Chão empedrado, casas baixas, janelas abertas, bancos corridos, um palco de madeira ao fundo da rua estreita. Por cima, o céu de verão. Eu já sabia o que era o teatro, já vira algumas peças, mas foi ali que me tornei espectador. Ali, no berço do Festival de Teatro de Almada, esse projecto que cresceu como uma planta ávida de luz, alastrando pela cidade, ganhando corpo e dimensão internacional, até se tornar um dos maiores acontecimentos da cultura deste país. Na minha cabeça, acende-se um mapa: Pátio do Prior do Crato, Palácio da Cerca (de onde se aprecia a mais bela vista de Lisboa, Tejo e tudo), o minúsculo Teatro Municipal antigo (de colunas vermelhas à entrada), o moderníssimo e amplo Teatro Azul, as bancadas íngremes da Escola António da Costa (onde em tempos fiz o chamado Ciclo Preparatório). Em todos esses lugares fui assistindo ao milagre da criação de um público, essa «obra-prima» do Joaquim, como lhe chamou Jorge Silva Melo, e não podia estar mais certo. Quando trocou Campolide pela margem Sul, Benite seguiu de certa forma o que Bernard Sobel fizera nos anos 60 em Paris, ao sair do centro para a periferia suburbana (Gennevilliers), com o propósito de começar do zero um teatro que nascesse da comunidade, ao serviço da comunidade. Era uma tarefa difícil, muito difícil, mas passo a passo cumpriu-se.

3. Ao longo dos anos, nos convívios após os espectáculos, quando os actores já haviam deixado as personagens e a adrenalina cénica nos camarins, aparecendo à nossa frente como quem sai cansado do emprego e bebe um copo com os amigos, nesses encontros em que o Joaquim sorria muito, feliz de ver a máquina do teatro a mostrar as suas entranhas, falei muitas vezes com ele sobre o que acabara de acontecer no palco. Nem sempre estávamos de acordo e creio que isso o animava. Perdia-se em discussões longas, argumentativas, apaixonadas, porque não entendia o teatro como um lugar de consensos. Exigente por natureza, consigo e com os outros, agradecia a exigência do seu público. Respeitava-a. E partilhava a sua visão dramatúrgica, explicava as suas escolhas, justificava a vinda de um determinado encenador ou daquela companhia andaluza. Sempre tive a sensação de que para ele o teatro começava muito antes do primeiro ensaio e continuava muito depois da última representação. O teatro era a própria matéria dos dias, uma forma de respirar.

4. Quando olho para trás, vejo uma amálgama de espectáculos. Personagens de Brecht num cenário de Beckett. Monólogos e coros gregos. A história dos homens, contada do princípio, uma e outra vez. Palavras ditas à boca de cena, murmúrios e gritos. O mundo inteiro atrás da cortina que se abre, interrompe a vida, reinventa a vida, e depois se fecha. Lá atrás, na sombra, o Joaquim.

5. Na tarde em que desci a alameda do cemitério, uma multidão enterrava os pés na lama, por baixo de um céu diluviano. Eram centenas de pessoas: amigos, companheiros de ofício, espectadores agradecidos. Houve quem falasse do Joaquim, quem lembrasse a sua obra. Não consegui ouvir essas despedidas. Ao sair do Alto de São João, debaixo da chuva, acompanhou-me a voz de veludo e tabaco: «Depois apagam-se as luzes e tudo acaba, não é?»

[Texto publicado no n.º 120 da revista Ler, Janeiro de 2012]

Juan Luis Panero (1942-2013)

panero

EPITAFIO FRENTE A UN ESPEJO

Dura ha de ser la vida para ti,
que a una extraña honradez sacrificaste tus creencias,
para ti, cuya única certidumbre es tu recuerdo
y por ello, tu más aciaga tumba.
Dura ha de ser la vida, cuando los años pasen
y destruyan al fin la ilusa patria de tu adolescencia,
cuando veas, igual que hoy, este fantasma
que tiempo atrás te consoló con su belleza.
Cuando el amor como un vestido ajado
no pueda proteger tu tristeza
y motivo de burla, de piedad o de asombro,
a los ojos más puros sólo sea.
Duro ha de ser para tu cuerpo ver morir el deseo,
la juventud, todo aquello que fuiste,
y buscar sin pasión tu reposo
en la sorda ternura de lo débil,
en la gris destrucción que alguna vez amaste.
«Es la ley de la vida», dicen viejos estériles,
«y nada sino Dios puede cambiarlo», repiten,
a la luz de la noche, lentas sombras inútiles.
Dura ha de ser la vida, tú que amaste el mundo,
que con una mirada o una suave caricia soñaste poseerlo,
cuando la absurda farsa que tú tanto conoces
no esté más adornada con lo efímero y bello.
Dura ha de ser la vida hasta el instante
en que veles tu memoria en este espejo:
tus labios fríos no tendrán ya refugio
y en tus manos vacías abrazarás la muerte.

“Esqueçam a educação sexual, leiam os clássicos”

Eis o que defende Pavel Astakhov, provedor russo para as crianças, muito em sintonia com o obscurantismo de Putin, cujo governo aprovou recentemente leis duríssimas para discriminar e punir os homossexuais, mais próprias de um estado medieval do que de uma sociedade do século XXI. Refira-se que a intenção de abrir aos jovens o acesso aos universos de Tolstoi, Tchéckov ou Turgueniev é mais do que louvável. Pensar que isso os habilita a viver no mundo moderno, sem o mínimo de informação sobre métodos contraceptivos ou doenças sexualmente transmissíveis, é que revela um grau de estupidez que talvez só um clássico dos bons, como Gogol, seria capaz de satirizar com o merecido requinte.

Era uma vez um optimista

indice_medio_k

Índice Médio de Felicidade
Autor: David Machado
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 255
ISBN: 978-972-20-5276-4
Ano de publicação: 2013

Na vida de Daniel, um português médio igual a milhões de outros, as «coisas ficaram muito difíceis muito depressa». Após anos de ilusória prosperidade, a crise atingiu em cheio o país e o que parecia sólido começa a ruir. Perdido o emprego numa agência de viagens, o cenário torna-se negro. A mulher, também desempregada, arranja trabalho no café do pai e instala-se em Viana do Castelo com os filhos. Sozinho em Lisboa, Daniel resigna-se a vender aspiradores, mas até esse biscate acaba por perder ingloriamente. Sem dinheiro para pagar a prestação, o banco fica-lhe com a casa e ele vê-se forçado a passar as noites no banco traseiro do carro. Quando este se incendeia, resolve invadir de noite o escritório onde trabalhava (ficou com as chaves) e dormir debaixo da antiga secretária.
Durante anos, Daniel encheu um caderno de capa preta com aquilo a que chamou o «Plano», uma espécie de «diário do futuro» onde esquematizava o que deveria acontecer lá mais à frente. Como é óbvio, nunca imaginou chegar aos 37 anos numa situação tão difícil e precária. «O que é que falhou? Onde é que as costuras não ficaram bem apertadas?» Ninguém sabe. E o mais difícil é encontrar forma de encaixar as expectativas do caderno de capa preta nos «novos limites da realidade». No lugar de Daniel, qualquer pessoa cairia no desespero, na depressão ou no cinismo. Acontece que ele é o mais resiliente dos optimistas. E por isso não desiste, não baixa os braços. Acredita que tudo se pode resolver, que ainda é possível «agarrar de novo as partes da minha vida que se tinham soltado, ajustá-las mais e melhor ao meu corpo».
Só que essas partes insistem em desligar-se. À distância, a relação conjugal entra num impasse e os filhos vão-se tornando estranhos (Flor, a mais velha, desiludida com o mundo, a sublinhar as palavras negativas dos jornais; Mateus, alienado pela internet). Os dois maiores amigos também lhe dão problemas: Xavier, um recluso voluntário, incapaz de sair de casa há 12 anos; e Almodôvar, recluso literal, preso depois de assaltar uma estação de serviço. Em tempos, os três criaram uma rede social «através da qual pessoas que precisam de ajuda e pessoas dispostas a ajudar» poderiam encontrar-se, uma ideia excelente que redundou num inexplicável fracasso. É a Almodôvar, o amigo inacessível (não aceita ser visitado na prisão), que Daniel se dirige em diálogo mental, falando-lhe das suas lutas e dilemas, mas também dos problemas em que Vasco, o filho de Almodôvar, se anda a meter por falta de acompanhamento familiar (faz parte de um gangue que humilha mendigos e sem-abrigo, publicando os respectivos vídeos online).
David Machado criou um protagonista improvável no qual somos capazes de acreditar. E fez da sua história – escrita num tom justo, sempre adequado à natureza do que descreve – uma espécie de hino à esperança, uma demonstração de que nós, os seres humanos, embora imperfeitos e falíveis, talvez não sejamos, afinal, um caso perdido. Numa narrativa em que os bons sentimentos prevalecem, e em que o Índice Médio de Felicidade das personagens oscila, mas com tendência a subir à medida que fazem o que deve ser feito, o risco de dulcificação da prosa era enorme. Quando Daniel sobe para uma carrinha de nove lugares, com os filhos, Vasco, Xavier e um motorista patusco, dispostos os seis a percorrer 2500 quilómetros para cumprir a vontade de uma senhora paraplégica de Genebra, que pediu, no site, para ver uma última vez o irmão moribundo num hospital de Marselha, teme-se o pior: um retrato lúcido do nosso tempo dissolvido por um final lamechas. Temor infundado. A viagem é redentora, sim, mas por razões oblíquas. E raras vezes um final feliz fez tanto sentido como este faz.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Livros de Milton Hatoum em promoção na Cotovia

As principais obras do escritor brasileiro, que estará no próximo sábado na Gulbenkian, vão estar à venda até ao fim do mês, na livraria da editora Cotovia, a preços mais do que mínimos (entre dois e quatro euros). É aproveitar.

Henri Michaux vai ao Porto

Michaux_Gato Vadio
Clique para aumentar

Bartleby no Teatro do Bairro

De 19 a 22 de Setembro, no Teatro do Bairro (Rua Luz Soriano, 63, Lisboa), estará em cena o espectáculo Bartleby, um experimento de Melville, adaptação da célebre novela sobre o escrivão que «preferia não o fazer» pela companhia Artivício, com encenação de Rosa Coutinho Cabral. Bilhetes a cinco euros.

Primeiros parágrafos

«Nós, os mirones, praticamos, às vezes, formas muito rebuscadas do nosso vício. Não nos basta espiar e ser indiscretos, não nos contentamos em indagar a vida dos outros – necessitamos absolutamente de ver para além do que pode ser visto, aquilo que a aparência oculta, e até de construir acontecimentos mesmo quando e onde nada parece existir. É por isso que, enquanto caminho pela cidade, gosto de fotografar dissimulada e aleatoriamente as pessoas à minha volta, a ver se, por acaso, o disparo da máquina capta algum movimento interessante, um gesto ou um meneio de cabeça que, uma vez congelados numa só fracção de segundo, mereçam, depois, que perca tempo a reenquadrar e redistribuir as sombras e a luz até ao ponto em que uma imagem banal e desinteressante se transforma num instantâneo fotográfico que possa vender a alguma revista de actualidades (ou de mexericos).
O mais comum é que as imagens assim captadas sejam totalmente desinteressantes e que fiquem tremidas ou desfocadas, sem nenhum préstimo. Quase sempre as apago logo a seguir, assim que as vejo no pequeno monitor da parte de trás da máquina e confirmo que não há ali nada que se aproveite. Mas não esta manhã. A fotografia que tirei perto do mercado, quando aquela moça bonita atravessou a rua entre o movimento das carrinhas para o Tarrafal e para a Assomada, ou para a Cidade Velha, acabou por me baralhar o dia, por esticá-lo e torcê-lo como se as horas tivessem adquirido uma qualidade elástica, mole, semelhante à massa de um bolo quando termina de ser batida. Isto, porém, só o percebi mais tarde, muito mais tarde, depois que regressei a casa, descarreguei as imagens para o computador e comecei a perceber as coisas que me tinham acontecido, e que talvez não fosse tudo um acaso e tivesse existido, afinal, um nexo qualquer entre factos aparentemente sem importância nenhuma.»

[in Zero à Esquerda, de Manuel Jorge Marmelo, edição do autor, 2013]

Uma aula obrigatória

p_futuro
Clique para aumentar

Dois monstros literários na Gulbenkian. No próximo sábado, a pensar no Próximo Futuro.

Franzen vs. ‘mundo moderno’

Num artigo publicado pelo The Guardian, o autor de Liberdade continua a sua cruzada contra uma contemporaneidade hipertecnológica, na qual vê a antecâmara de um desastre civilizacional. Eis um excerto:

«In my own little corner of the world, which is to say American fiction, Jeff Bezos of Amazon may not be the antichrist, but he surely looks like one of the four horsemen. Amazon wants a world in which books are either self-published or published by Amazon itself, with readers dependent on Amazon reviews in choosing books, and with authors responsible for their own promotion. The work of yakkers and tweeters and braggers, and of people with the money to pay somebody to churn out hundreds of five-star reviews for them, will flourish in that world. But what happens to the people who became writers because yakking and tweeting and bragging felt to them like intolerably shallow forms of social engagement? What happens to the people who want to communicate in depth, individual to individual, in the quiet and permanence of the printed word, and who were shaped by their love of writers who wrote when publication still assured some kind of quality control and literary reputations were more than a matter of self-promotional decibel levels? As fewer and fewer readers are able to find their way, amid all the noise and disappointing books and phony reviews, to the work produced by the new generation of this kind of writer, Amazon is well on its way to making writers into the kind of prospectless workers whom its contractors employ in its warehouses, labouring harder for less and less, with no job security, because the warehouses are situated in places where they’re the only business hiring. And the more of the population that lives like those workers, the greater the downward pressure on book prices and the greater the squeeze on conventional booksellers, because when you’re not making much money you want your entertainment for free, and when your life is hard you want instant gratification (“Overnight free shipping!”).
But so the physical book goes on the endangered-species list, so responsible book reviewers go extinct, so independent bookstores disappear, so literary novelists are conscripted into Jennifer-Weinerish self-promotion, so the Big Six publishers get killed and devoured by Amazon: this looks like an apocalypse only if most of your friends are writers, editors or booksellers. Plus it’s possible that the story isn’t over. Maybe the internet experiment in consumer reviewing will result in such flagrant corruption (already one-third of all online product reviews are said to be bogus) that people will clamour for the return of professional reviewers. Maybe an economically significant number of readers will come to recognise the human and cultural costs of Amazonian hegemony and go back to local bookstores or at least to barnesandnoble.com, which offers the same books and a superior e-reader, and whose owners have progressive politics. Maybe people will get as sick of Twitter as they once got sick of cigarettes. Twitter’s and Facebook’s latest models for making money still seem to me like one part pyramid scheme, one part wishful thinking, and one part repugnant panoptical surveillance.
I could, it’s true, make a larger apocalyptic argument about the logic of the machine, which has now gone global and is accelerating the denaturisation of the planet and sterilisation of its oceans. I could point to the transformation of Canada’s boreal forest into a toxic lake of tar-sands byproducts, the levelling of Asia’s remaining forests for Chinese-made ultra-low-cost porch furniture at Home Depot, the damming of the Amazon and the endgame clear-cutting of its forests for beef and mineral production, the whole mindset of “Screw the consequences, we want to buy a lot of crap and we want to buy it cheap, with overnight free shipping.” And meanwhile the overheating of the atmosphere, meanwhile the calamitous overuse of antibiotics by agribusiness, meanwhile the widespread tinkering with cell nucleii, which may well prove to be as disastrous as tinkering with atomic nucleii. And, yes, the thermonuclear warheads are still in their silos and subs.
But apocalypse isn’t necessarily the physical end of the world. Indeed, the word more directly implies an element of final cosmic judgment. In Kraus’s chronicling of crimes against truth and language in The Last Days of Mankind, he’s referring not merely to physical destruction. In fact, the title of his play would be better rendered in English as The Last Days of Humanity: “dehumanised” doesn’t mean “depopulated”, and if the first world war spelled the end of humanity in Austria, it wasn’t because there were no longer any people there. Kraus was appalled by the carnage, but he saw it as the result, not the cause, of a loss of humanity by people who were still living. Living but damned, cosmically damned.»

Revista ‘Ler’, n.º 127

Layout 1

Nas bancas, de cara nova.

‘Jerusalém’ sobe à cena em Atenas

Editado recentemente na Grécia, pela editora Kastaniotis, o romance Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares foi adaptado para teatro por Vana Pefani e Yannis Karkanevatos. A peça, encenada por Pefani, estará em cena até 2 de Outubro, na sede da Fundação Michael Cacoyannis, em Atenas.

Elefante Salomão chega hoje a Lisboa

Praça do Município, 21h30. Mais informações aqui.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

Rentrée editorial 2013, por José Mário Silva
Índice Médio de Felicidade, de David Machado (D. Quixote), por José Mário Silva
A Felicidade em Albert Camus, de Marcello Duarte Mathias (D. Quixote), por Pedro Mexia
Paraíso e Inferno, de Kalman Stefánsson (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
– Escolhas de Manuel Jorge Marmelo

Bem parado

Nem só o crédito é malparado. O novo blogue do Pedro Mexia também é. Mas malparado num sentido só dele: o de estar em todo o lado, não estando em lado nenhum. Os posts perfeitos, esses continuam a aparecer a ritmo certo:

VIDAS
«Perdi duas vidas», confessa o rapaz, tranquilo, referindo-se talvez à PlayStation.

David Machado: “Ou és optimista ou não és. E se és, dificilmente mudas essa maneira de olhar para as coisas”

david_machado

O protagonista do novo romance de David Machado, Índice Médio de Felicidade (Dom Quixote), é um optimista obstinado. Por muitas desgraças que lhe aconteçam, ele não desiste, não desanima, não baixa os braços. Desempregado, sem perspectivas de melhorar a sua situação económica, afastado da família, Daniel perde a casa, dorme no carro (e depois debaixo da antiga secretária, na agência de viagens em que trabalhava, entretanto falida), zanga-se com os amigos que não consegue abandonar à sua sorte, e teria, somado tudo isto, boas razões para não acreditar no futuro. Mas acontece precisamente o contrário. Aliás, ele acredita tanto no futuro que está sempre a moldá-lo, num caderno onde esboça o seu Plano (com maiúscula), muitas vezes emendado mas nunca posto de parte. No fim do livro, esta resiliência vai levá-lo numa viagem de carrinha, com algumas das outras personagens, pelas estradas da Europa até à Suíça, viagem que acaba por ser um momento de redenção – prova de que vale a pena manter a esperança, mesmo nos tempos mais negros.
Cercado de árvores, num dos parques mais discretos de Lisboa, David Machado explica que a sua intenção, embora a realidade do Portugal pós-troika seja palpável no livro, nunca foi escrever sobre a crise do país. «Interessou-me, isso sim, retratar um homem em crise. Esta figura do Daniel, cujo optimismo é continuamente posto em causa, mas resiste ao desânimo, mesmo quando a sua vida implode.» O facto de ele se mover na sociedade portuguesa contemporânea é circunstancial: «Podia transportá-lo para outro tipo de cenário: a Inquisição, uma guerra. Mas acabamos por escrever sobre aquilo que conhecemos melhor, e eu vivo aqui, eu vivo agora.» O protagonista surgiu antes de a história ganhar os primeiros contornos: «Já andava a pensar no Daniel. Ao contrário de todas as outras personagens que inventei, ele parece-se comigo, identifico-me com ele. Basta dizer que tenho na costas uma tatuagem do caracter mandarim que corresponde à palavra ‘feliz’.»
Ao escrever sobre Daniel, ao expô-lo a situações-limite, o escritor projectou-se no seu difícil percurso: «Queria perceber até que ponto é possível uma pessoa manter-se optimista. Sempre me senti optimista, mas não sei se isto um dia não pode ficar tão mal que eu perca a esperança. Queria muito pensar sobre isso. No fim, acho que fiquei a conhecer-me melhor.» Uma das conclusões a que chegou foi a de que se pode orientar uma pessoa para ser mais feliz, mas não é possível ensinar alguém a ser optimista. «Isso ou és ou não és. E se és, dificilmente mudas essa maneira de olhar para as coisas.» Uma maneira de olhar que ultrapassa o racionalismo objectivo que dá quase sempre razão aos cínicos: «O optimismo leva-nos a acreditar que o futuro pode ser melhor. É claro que sabemos que também pode ser pior, mas existe pelo menos a possibilidade de que seja melhor. Se acreditarmos nisto, estamos sempre prontos a esperar mais um bocadinho e a não desistir.»
No final do livro, Daniel só consegue vencer os seus bloqueios porque leva outros com ele na viagem de superação. «Curiosamente, e embora não tivesse consciência disso enquanto escrevia, o desenlace é corroborado pelas teorias da chamada Economia da Felicidade. Até há pouco tempo, a felicidade era vista como um objectivo individual, mas estas novas teorias dizem que só conseguimos ser plenamente felizes em sociedade, como parte de um todo, em conjunto com outros. E é isso que o meu romance acaba por dizer: o Daniel, que nunca quer deixar ninguém para trás, só consegue avançar se os outros se lhe juntarem.» David Machado gosta de acreditar que «o Daniel nos representa a todos». Podemos andar mais ou menos zangados com o mundo, ou connosco, mas de uma forma ou de outra mantemos alguma esperança, tentamos afugentar o medo do futuro. «Caso contrário, já tínhamos dado um tiro na cabeça. E, se virmos bem, as pessoas que se suicidam, as que desistem mesmo, são uma ínfima parte da humanidade.»
Em Deixem Falar as Pedras (Dom Quixote, 2011), o romance anterior de David Machado, um rapaz transcrevia as histórias do avô num caderno, resgatando assim não apenas o passado de um homem como a memória do Portugal salazarista. Em Índice Médio de Felicidade, Daniel também recorre a um caderno, mas desta vez para fixar o futuro que deseja para si e para o país. David Machado assume que os livros se complementam: «Pode dizer-se que formam um díptico. São os dois sobre a importância que o passado e o futuro têm para o nosso presente. Só podemos viver o agora se estivermos conscientes do que houve antes e soubermos o que queremos que aconteça depois.»
O Valdemar de Deixem Falar as Pedras era um adolescente problemático: obeso (mas com uma namorada anoréctica), família instável e um historial de maus tratos aos colegas de escola. No novo livro, a galeria de adolescentes complexos aumenta: há Vasco, um rapaz que pertence a um grupo que espanca e humilha vítimas indefesas (sobretudo sem-abrigo alcoolizados), colocando na internet os vídeos dos seus crimes; há Flor, uma rapariga que sublinha nos jornais as palavras negativas, sinalizando uma descrença cada vez maior quanto ao mundo que a espera; e há Mateus, o filho mais novo de Daniel, ainda pré-adolescente, mas já perdido no mundo alienante dos jogos online, mais preocupado com a gestão de aviários virtuais do que com os problemas das pessoas ao seu lado. «A adolescência interessa-me muito. Aliás, em princípio, o meu próximo livro será só sobre a adolescência. Interessa-me porque é a fase da vida em que estamos a descobrir tudo. De repente, percebemos que o mundo é mil vezes maior do que imaginávamos. E a descoberta leva a que se queira testar essa nova realidade, o que implica ultrapassar alguns limites. Interessa-me, no fundo, ver como se pode ultrapassar os limites e depois encontrar um lugar na complexidade do mundo. Perceber como é que se forma o carácter de alguém.»
Enquanto narrador, Daniel não fala para o vazio, ou para o leitor, mas para um destinatário concreto: Almodôvar, um amigo que foi detido depois de assaltar uma estação de serviço, e que se recusa a recebê-lo em visita na prisão. Dentro da sua cabeça, Daniel dirige-se ao amigo não só para recapitular a história, que não lhe pode contar de viva voz, mas também para provar que ele afinal não estava errado ao ter a ideia de um site que pretendia cruzar pessoas a precisar de ajuda com outras dispostas a ajudar. O site fracassou por falta de interessados mas a viagem final prova que o princípio que o sustentava tem razão de ser. Das muitas formas possíveis de narrar a história, David Machado escolheu esta, uma espécie de diálogo mental entre os dois amigos desavindos, porque não gosta dos livros em que não se percebe a razão porque uma determinada história está a ser contada, ou para quem.
A única investigação que fez para o romance consistiu em ver, no YouTube, dezenas de vídeos das TED Talks sobre felicidade. A dada altura, deparou com as tabelas que medem o índice médio de felicidade por país, no mundo inteiro, e decidiu explorar o conceito. «Quando encontrei o índice, achei que encaixava bem na personagem do Xavier, obcecado com números e estatísticas e deprimido por causa disso. Só depois é que a ideia cresceu, ao ponto de influenciar a estrutura do livro e chegar ao título – que é da Maria do Rosário Pedreira, depois de um grande esforço para encontrar uma expressão que incluísse a palavra felicidade, sem correr o risco de ser confundido com as charlatanices da auto-ajuda.» O índice parte das respostas individuais a uma pergunta: «Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?» Daniel começa por se atribuir um 8, mas depois vai corrigindo, sempre para valores mais baixos. «Eu não respondi à questão porque neste aspecto sou muito parecido com o Xavier. Só é possível responder se quantificarmos tudo, se dissecarmos a nossa vida em todos os seus aspectos. Levada a sério, é uma tarefa infinita. E eu não estou disposto a empreendê-la.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

João Tordo goes to Xangai

João Tordo está neste momento em Xanghai (China), a participar na Residência de Escritores da Shanghai Writer’s Association. Tordo é o primeiro escritor português a quem é dada esta oportunidade. Durante dois meses, participará em sessões de leitura, debates sobre literatura e outros acontecimentos culturais, dos quais talvez venha a dar conta no seu blogue.

‘Índice Médio de Felicidade’ (booktrailer)

“Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?”
Eu diria 8,2.

Primeiros parágrafos

«Antes de mais, repara, Almodôvar, tu não estavas cá.
As coisas ficaram muito difíceis muito depressa. Ou talvez tenha sido sempre assim, talvez o mundo tenha sido sempre um lugar complicado. Não creio que tenha começado quando foste preso, ainda que, de alguma forma, isso me pareça o início de tudo. E a tua ausência reforçou as nossas dores, a tua decisão de não quereres ver ninguém teve consequências. O que é o mesmo que dizer: não estávamos preparados para não te ter
aqui. Deixaste demasiado espaço vazio e nenhum de nós sabia muito bem mover-se na amplitude desse abandono. Mas tu não estavas cá, nós não podíamos fazer mais do que tentar. Ainda não sei se falhámos. Sei apenas isto: não serás tu a decidir sobre os nossos fracassos. Em algum momento da história, a coerência do teu silêncio tornou-se uma condição.
Imagino-te aí dentro. Um lugar que não é teu, no qual tiveste de aprender a encaixar o corpo e entender leis que estão escritas apenas nos olhos dos homens à tua volta. Foi difícil? Doeu-te a força das paredes em redor? Sentiste o terror de encarar o olhar armado dos teus novos companheiros? Cá fora, todos crêem que sim. Na primeira semana que passaste aí, a Clara ligava -me todas as noites, depois do jantar, a chorar, a respiração destravada, quase a sufocar, a chamar-te “coitadinho” como se estivesse a falar de uma criança ainda leve de culpas, como se tivesse enviuvado cedo demais, a suspirar “o meu amor”, a perguntar-me “e se lhe fazem mal?”. O teu filho, o pequeno Vasco que já é mais alto do que eu, chegava a casa da escola e trancava-se no quarto a tocar violino, as pautas espalhadas pelo chão, o vibrar agudo das cordas a subir pelas paredes do prédio. E o Xavier a estudar os códigos penais na Internet, à procura de uma cláusula qualquer que te tirasse daí, a repetir “o gajo não aguenta, Daniel, o Almodôvar não foi feito para estar atrás
das grades”. Os teus amigos reunidos à mesa em cafés, restaurantes, cozinhas, a chocarem os copos com entusiasmo em tua honra para disfarçarem o pressentimento de que alguma coisa má te estava para acontecer. Ninguém entendia nada. Como é que aquilo podia ser? Um homem bom, sorriso honesto, palavras sempre justas. Marido. Pai. Amigo. Qualquer explicação parecia uma fantasia. E eu passava a vida a desculpar-te diante de todos, a dizer “ele teve os seus motivos, nós conhecemo-lo, ele não é outra pessoa por estar numa prisão”. Nessa altura eu ainda não estava zangado contigo.»

[in Índice Médio de Felicidade, de David Machado, D. Quixote, 2013]

O vento que se levanta

sala-vip

Sala VIP
Autor: Jorge Silva Melo
Editora: Livrinhos de Teatro (Cotovia/Artistas Unidos)
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-989-20-3972-5
Ano de publicação: 2013

Na Sala VIP de um aeroporto internacional, quatro cantores líricos (soprano, mezzo, barítono, tenor), acompanhados pelo seu empresário, esperam noite dentro por uma ligação aérea, a caminho de uma récita que está em risco de ser cancelada. É neste não-lugar – um espaço de transição, neutro, anódino e despojado (até a máquina distribuidora de snacks está vazia) – que Jorge Silva Melo instala as personagens da peça que escreveu a convite do encenador Pedro Gil, mas atravessada, como o dramaturgo admitiu nas notas de produção do espectáculo (estreado na Culturgest, em Julho), por «aquilo que me interessa, aquilo que me inquieta, este meu mundo que termina em breve».
Nas falas sobrepostas dos cantores decadentes e do empresário embrutecido pelo álcool, vemos de facto desfilar muitos dos temas caros a Silva Melo: o poder do dinheiro, a desconstrução da memória, os jogos sexuais, os vasos comunicantes com outras obras (através de um labirinto verbal de referências e citações), a nostalgia política, a amargura das ilusões que se esfumam, tudo numa atmosfera de desencanto crepuscular. “Já não há tiradas, árias, apartes, solilóquios, já não sabem o que é esquerda baixa nem projectar a voz, alexandrinos, já não há lustres, nem caixa do ponto, nem rosas nos camarins…»
O teatro acaba – mas não só o teatro. Na sala de espera do aeroporto, no SPA de um hotel de luxo ou numa clínica privada (quando a tragédia se instala), estas figuras perdidas de si mesmas dançam a melancólica valsa do fim da esperança, tentando resistir ao vento que se levanta, agreste, numa paisagem tão desolada como o deserto em que morre a Manon Lescaut de Puccini, o alicerce oculto desta peça subtil.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Valter Hugo Mãe finalista do Prémio PT de Literatura

Em 2012, Valter Hugo Mãe foi o vencedor absoluto do Prémio PT de Literatura, com o livro que ganhou a categoria de romance (A Máquina de Fazer Espanhóis). Este ano volta a ser finalista, com a edição brasileira de O Filho de Mil Homens. Eis a lista completa dos finalistas nas três categorias do prémio:

Romance
O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe (Cosac Naify)
A máquina de madeira, de Miguel Sanches Neto (Companhia das Letras)
Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Companhia das Letras)
O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos (Alfaguara)

Poesia
Formas do nada, de Paulo Henriques Britto (Companhia das Letras)
Porventura, de Antonio Cícero (Record)
Sentimental, de Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras)
Um útero é do tamanho de um pulso, de Angélica Freitas (Cosac Naify)

Conto
A verdadeira história do alfabeto, de Noemi Jaffe (Companhia das Letras)
Essa coisa brilhante que é a chuva, de Cíntia Moscovich (Record)
O tempo em estado sólido, de Tércia Montenegro (Grua Editora)
Páginas sem glória, de Sérgio Sant’Anna (Companhia das Letras)

Os vencedores serão anunciados em Novembro.
Sobre O Filho de Mil Homens, conversei com o autor aqui.
O novo romance de Valter Hugo Mãe, A Desumanização (Porto Editora), chega às livrarias no próximo dia 20.

Fernando Pessoa em Espanha

fp_espanha

Abre na quinta-feira e pode ser vista até ao fim do ano. Comissários: Antonio Sáez Delgado e Jerónimo Pizarro.

Noli timere

«Não tenhas medo», em latim. Foram estas as últimas palavras de Seamus Heaney, numa SMS enviada à mulher, poucos minutos antes de morrer, contou o filho, Michael Heaney, no serviço fúnebre do grande poeta irlandês, Prémio Nobel de Literatura em 1995.

Jornadas Llansolianas

As quintas Jornadas Llansolianas de Sintra, organizadas pelo Espaço Llansol, reúnem este ano «seis tradutores de Llansol (de Espanha, França, Alemanha, Áustria e Estados Unidos), vários artistas que “traduziram” o texto de Llansol para outras linguagens (pintura, desenho, cinema, música) e escritores, professores e actores que comentarão e lerão as singulares versões de poetas franceses por Maria Gabriela Llansol». As Jornadas decorrerão nos dias 12 e 13 de Outubro, no Palácio Valenças. Programa e informações adicionais, aqui.

Anunciada a shortlist do Man Booker Prize

Ficou hoje a ser conhecida a lista final do Man Booker Prize. Eis os seis candidatos:

we_need
We Need New Names, de NoViolet Bulawayo (Chatto & Windus)

luminaries
The Luminaries, de Eleanor Catton (Granta)

harvest
The Harvest, de Jim Crace (Picador)

lowland
The Lowland, de Jhumpa Lahiri (Bloomsbury)

tale
A Tale for the Time Being, de Ruth Ozeki (Canongate)

testament
The Testament of Mary, de Colm Tóibín (Penguin)

Dos seis, apenas um já foi editado em Portugal: O Testamento de Maria, de Colm Tóibín, edição Bertrand, sobre o qual escrevi aqui.

Novos Talentos FNAC Literatura

São dez contos de dez jovens autores. Podem ser lidos e votados aqui.

Charles Bukowski segundo o FBI

Eis 113 páginas com informações sobre o tantas vezes paranóico Bukowski (pelo vistos, com alguma razão para isso), recolhidas quando o Federal Bureau of Intelligence andava à procura do Unabomber e incluiu o autor de Ham on Rye na lista de potenciais suspeitos.

Sozinha, perdida, abandonada

A extraordinária Renata Scotto no final da ópera Manon Lescaut, de Puccini, trave mestra da peça Sala VIP, de Jorge Silva Melo, que pode ser vista no Teatro da Politécnica até 19 de Outubro e lida na colecção de Livrinhos de Teatro, editada em cooperação pela Cotovia, Culturgest e Artistas Unidos.

Maldito spam

No últimos dias, uma forma mais elaborada de spam tem passado das caixas de comentários, onde os filtros a custo vão contendo a enxurrada de lixo electrónico, para uma engrenagem qualquer do blogue, com a embaraçosa consequência de transformar este local de livros e literatura numa montra para pílulas que prometem amplificar a libido masculina. Pelo facto, a que sou alheio, e que a minha incompetência informática não ajuda a banir, peço desculpa aos leitores.

PS – A bem da verdade, não excluo a seguinte hipótese: esta inusitada praga pode ser um castigo para o estado quase comatoso em que tenho deixado o blogue nos últimos meses (e seria um castigo mais do que justo). Infelizmente, nem sequer a desculpa das férias tenho, mas ainda assim me penitencio, prometendo retomar quanto antes o ritmo habitual (ou pelo menos um ritmo mínimo que se aproxime aos poucos do ritmo habitual), até porque já estamos em plena rentrée e o BdB não quer perder de forma nenhuma os muitos leitores que levou tanto tempo a fidelizar.

Hoje, na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com David Machado, a propósito de Índice Médio de Felicidade (Dom Quixote), por José Mário Silva
Relatório do Interior, de Paul Auster (ASA), por Luciana Leiderfarb
As Mulheres dos Césares – Sexo, poder e política no Império Romano, de Annelise Freisenbruch (Texto), por Luís M. Faria
Grandes Perguntas de Gente Miúda com Respostas Simples de Gente Graúda, de Gemma Elwin Harris (Presença), por Ana Cristina Leonardo
Como uma flor de plástico na montra de um talho, de Golgona Anghel (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
Sala VIP, de Jorge Silva Melo (Livrinhos de Teatro, Cotovia/Artistas Unidos), por José Mário Silva
– Escolhas de Pedro Almeida Vieira

Dentro da casa

amada vida

Amada Vida
Autora: Alice Munro
Título original: Dear Life
Tradução: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-989-641-355-2
Ano de publicação: 2013

Na página 213, depois de dez histórias que voltam a revelar, em todo o seu esplendor, a mestria narrativa de Alice Munro, o leitor de Amada Vida depara com a seguinte nota: «Os últimos quatro trabalhos deste livro não são propriamente contos. Formam um conjunto à parte, autobiográfico no sentimento, embora nem sempre no que concerne aos factos. Penso que são as primeiras e últimas – e mais íntimas – coisas que tenho a dizer sobre a minha vida.» O que mais surpreende nestes fragmentos biográficos, construídos a partir das memórias de infância, é a afinidade evidente com os temas, situações e personagens da sua escrita ficcional, por muito que a autora procure estabelecer uma barreira entre os dois domínios.
Ao evocar uma prostituta muito vistosa que viu certo dia num baile, Munro acrescenta: «Penso que se estivesse a escrever ficção em vez de recordar algo, eu nunca lhe teria dado aquele vestido.» Mais à frente, ao referir os primeiros sintomas de Parkinson na mãe, coincidentes com o falhanço profissional do pai, assume uma certa inverosimilhança na acumulação de infortúnios: «Talvez pensem que isto era excessivo. O negócio arruinado, a saúde da minha mãe arruinada. Em ficção não daria resultado.» A ironia é que os contos de Munro fazem questão de desmentir esta última frase. Os pais da escritora não são assim tão diferentes das personagens que sofrem, se perdem ou se agigantam nos seus textos. Ela própria, ao escrever sobre os conflitos surdos com a mãe, sobre insolências e respectivos castigos, sobre demónios inconfessáveis (houve uma altura em que sentiu o impulso de estrangular a irmã mais nova), coloca-se num lugar de espanto e desalento, fúria de seguir em frente e melancolia, que é o lugar ocupado por quase todas as suas protagonistas. Muitas delas transportam uma «falha», uma «falta», ou então um «peso» que se desloca «à volta do coração». São «peritas em perdas» e conhecem demasiado bem o vazio «espantoso» de quando subitamente tudo acaba, mas a vida continua. Umas superam-se, outras afundam-se, outras nunca saem do «buraco» em que se meteram na infância – e «continuam a cavar».
Quando uma destas mulheres explica ao amante a verdadeira razão da morte do pai (atirou-se para debaixo de um comboio, depois de contemplar a nudez da filha e não saber lidar com isso), há uma súbita leveza associada à partilha do segredo e à eliminação da culpa: «Sinto um alívio tão grande. Não é que tenha deixado de sentir a tragédia, mas é como se a visse de fora. São simplesmente os erros da natureza humana.» Os erros inevitáveis da natureza humana: eis a matéria-prima de Alice Munro. Nas suas histórias, há como que uma cartografia dos abalos que transfiguram a existência das pessoas comuns, criando inesperadas zonas de luz ou de sombra. De repente, algo acontece que não era suposto acontecer e duas pessoas ligam-se, envolvem-se, separam-se, partem para nunca mais voltar, regressam quando já ninguém as espera. Ou então, muitos anos depois, reencontram-se a atravessar uma rua cheia de gente, descobrindo no outro a verdade dos seus «rostos deteriorados pelo tempo» e a forma como se foram fechando, uma a uma, «as possibilidades da vida».
Na introdução a Selected Stories (Vintage, 1996), Munro explicou que uma história não é tanto um caminho que se segue. É antes uma casa: «Entramos e ficamos ali um bocado, a deambular, descobrindo como as salas e corredores se relacionam, como o mundo exterior fica diferente se contemplado daquelas janelas. (…) Podemos voltar muitas vezes, mas a casa, a história, conterá sempre mais do que vimos da última vez.» As casas de Amada Vida – talvez o derradeiro, e belíssimo, livro da escritora canadiana (n. 1931) – são inesgotáveis.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges