Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Passageiro frequente, de Daniel Jonas (Língua Morta), por José Mário Silva
Teatro de Rua, de Tatiana Faia (Do lado esquerdo), por Pedro Mexia
Flúor, de Andreia C. Faria (Textura), por José Mário Silva
Hav, de Jan Morris (Tinta da China), por Luís M. Faria
As Portas da Percepção, de Aldous Huxley (Antígona), por Ana Cristina Leonardo

Festival Literário de Castelo Branco começa no próximo dia 5

castelo branco

Mais informação aqui.

Descobrir ‘Os Lusíadas’ no Museu do Oriente

No Museu do Oriente, crianças entre os seis e os 12 anos poderão «embarcar na epopeia dos Lusíadas e redescobrir o caminho marítimo para a Índia numa viagem narrativa com passagem até pelo Olimpo». Haverá duas sessões: dias 8 e 22 de Fevereiro, das 15h00 às 17h00. O preço é de cinco euros por participante. Necessária marcação até 3 de Fevereiro (1.ª sessão) ou 17 de Fevereiro (2.ª sessão).

Cinco poemas de Andreia C. Faria

SABÃO OFFENBACH

Rugoso e maciço, fatiado e vendido
ao balcão de madeira de qualquer mercearia,
o sabão Offenbach é recomendado pelas autoridades
para lavagem de espaços comuns
sempre que surge a ameaça de uma epidemia

Modernas donas de casa têm pudor em comprá-lo, por lembrar
a barrela das lavadeiras – o linho, os lençóis
e a higiene íntima dos antigos
Com os novos sabonetes perfumados
a perfeição química da pele e a pura lã virgem
extinguem-se
pelo ralo da comunidade

Mas eu trago no bolso um pedaço de bom sabão azul e dispo-me
para lhe ser amável

e que uma fome insaciável se apodere de mim
quando o esfrego nos lábios faz-me pensar
na enxaguada misericórdia de Deus

***

Sou a mulher que se mata por amor a ti
e a mulher por amor de quem se morre
Sou o rapaz que há como uma água turva
na mulher por quem se morre
o bucal húmido do telefone onde ela expia
pensamentos violentos como plumas
Sou a pluma que lhe abre os lençóis
a lasca de madeira sobre a mesa
a lâmina à espera
que a nudez dê frutos
Sou aquilo que fere o rapaz
e a roupa que o tapa
Sou o brilho da janela onde a mulher
se balança

***

PORNO

A mulher dispõe-se equestre
Justaposto
o homem relata o cavalo

***

ESTEREOGRAMA

Ouvi dizer que um cão
e algumas senhoras com saias de balão
sobreviveram ao lançar-se da ponte
O rio quebrou-os mal
e se ao cair não fecharam os olhos libertou-se-lhes o cérebro
da membrana em que dormia
como se libertam as cores de um caleidoscópio
ou ressuma de uma noz o ranço ou um óleo essencial
Talvez tenham enlouquecido como os olhos de um falcão
livre do seu capuz, meditando
se entre o falhanço e o milagre existirá uma diferença estrutural
Às senhoras que se matavam por amor talvez
alguém novo tenha amado o sangue estropiado
Talvez o cão tenha voltado a obedecer
à crueldade de um rapaz. Serenamente
a vida volta a ser uma ilusão de óptica um estereograma
em que às vezes o cérebro se cansa de acreditar

***

No regresso, despi-me em frente à minha mãe
A nudez dir-lhe-ia das paisagens,
das fracturas, solitários minerais
que nos ossos se engastam, da viagem
O que ela viu
era pouco mais que o esforço de dunas,
suave e compacto para emergir
do chão, a flora acidental
Pedi-lhe
que me procurasse os flancos,
o ligeiro afundar da anca, ou debaixo
dos braços, o principiar de um vale,
qualquer sobejo de me ter
contornado o mundo, mas também aí
ela sentia a fragrância
impúbere do que já não cresce

[in Flúor, Textura, 2013]

Uma coça bem dada

pleno_emprego

Pleno Emprego
Autor: Miguel Cardoso
Editora: Douda Correria
N.º de páginas: 21
ISBN: 978-989-20-4383-8
Ano de publicação: 2013

Não é fácil construir um discurso sobre a poesia de Miguel Cardoso porque ela nunca abandona a sua condição de objecto em fuga, de coisa que se ergue assim, de repente, do nada, com uma energia cinética espantosa, e nos leva pela longa escadaria dos versos, ou pelos labirintos da prosa (como neste caso), sem que saibamos muito bem o que é isto afinal, ou para onde se dirige a imparável torrente de palavras, ideias e imagens.
Os seus poemas – quase sempre longos, feitos de acumulações, derivas, apartes, coloquialismos, interrupções – são paredes verbais a ir de encontro ao leitor para o derrubar. São uma coisa física. Um encontrão valente. Lê-los é levar porrada, é não conseguir agachar-se, à la Álvaro de Campos, «para fora da possibilidade do soco» (e curiosamente talvez ninguém se aproxime tanto da energia do Poema em Linha Recta, hoje, como Miguel Cardoso).
Pleno Emprego, um texto que começou por ser uma instalação sonora na casa de banho do bar Purex, é mais uma coça bem dada nos que se atreverem a entrar no seu torvelinho. O lirismo nasce do real em catadupa, esmiuçado como quem não quer a coisa – mas afinal quer, por muito que se desconverse. Por baixo e por cima do alarido está a miséria, o desemprego, o pérfido minguar das vidas e dos horizontes. Mesmo quando vai por partes, e lhes dá a volta, é sempre disso que o poeta fala: «Sou pelos plenos pulmões, e por esvaziá-los até ao fim. (…) Sou pelo pleno emprego das razões, mas nunca das certas. Das revoluções, mas daquelas que, como aquele livro de poemas que andas há semanas a ler em voz alta no autocarro, podes levar a casa de amigos e de estranhos a qualquer hora».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

O que aí vem (Dom Quixote)

Ambas as Mãos sobre o Corpo, de Maria Teresa Horta; Triunfo do Amor Português, de Mário Cláudio; Livro Sem Ninguém, de Pedro Guilherme-Moreira; Mário e o Mágico, de Thomas Mann.

Já há programa para as Correntes d’Escritas 2014

Ei-lo:

Mesa 1
Quinta-feira, dia 20, 17h30
Tema: Pensamentos não são correntes de ninguém
Participantes: António Gamoneda, Eduardo Lourenço, Gonçalo M. Tavares, Lídia Jorge, Ungulani Ba Ka Khosa
Moderador: José Carlos de Vasconcelos

Mesa 2
Sexta-feira, dia 21, 10h00
Tema: palavras + correntes = x
Participantes: Afonso Cruz, Helder Macedo, Ivo Machado, Miguel Real, Patrícia Portela, Valério Romão
Moderador: João Gobern

Mesa 3
Sexta-feira, dia 21, 15h00
Tema: A ficção nos livros é corrente de verdade
Participantes: Ana Margarida de Carvalho, António Mota, Boaventura Cardoso, João Ricardo Pedro, José Ovejero, Michel Laub
Moderador: Francisco José Viegas

Mesa 4
Sexta-feira, 21, 17h30
Tema: De correntes e cont(r)a-correntes se faz a poesia
Participantes: Ana Luísa Amaral, Golgona Anghel, João Moita, Margarida Ferra, Valter Hugo Mãe
Moderadora: Isabel Pires de Lima

Mesa 5
Sexta-feira, 21, 22h00
Tema: Cada livro é a antologia corrente da existência
Participantes: Carlos Quiroga, Joana Bértholo, Manuel da Silva Ramos, Manuel Jorge Marmelo, Miguel Sousa Tavares, Ondjaki, Rui Zink
Moderador: Michael Kegler

Mesa 6
Sábado, 22, 10h00
Tema: Coração de correntes desabitado: a poesia
Participantes: Helga Moreira, Inês Fonseca Santos, Manuel Rui, Pedro Teixeira Neves, Uberto Stabile, Vergílio Alberto Vieira
Moderador: José Mário Silva

Mesa 7
Sábado, 22, 15h30
Tema: Não são minhas as correntes que escrevo é outro que as escreve em mim
Participantes: Andrés Neuman, Inês Pedrosa, José Rentes de Carvalho, Manuel Rivas, Onésimo Teotónio Almeida
Moderadora: Ana Sousa Dias

Todas as sessões decorrerão no Hotel Vermar, na Póvoa de Varzim.

Obra de José Saramago vai ser publicada pela Porto Editora

saramago

Foi hoje anunciado que a obra literária de José Saramago passará a fazer parte do catálogo da Porto Editora. No comunicado emitido pelas herdeiras do escritor, Pilar del Río e Violante Saramago Matos, pode ler-se:

«As herdeiras de José Saramago escolheram a Porto Editora para editar e distribuir a obra literária de José Saramago em Portugal e nos demais países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (à exceção do Brasil).
Ao mesmo tempo, a Fundação José Saramago e a Porto Editora vão definir estratégias conjuntas de divulgação da obra do escritor em todo o mundo, com especial atenção à comunidade lusófona.
Para além do facto de a Porto Editora ser uma empresa totalmente portuguesa que se dedica ao livro desde a sua fundação, pesaram nesta escolha duas razões de particular significado afetivo: a de o Prémio Literário José Saramago, que desde 1999 distingue jovens escritores de língua portuguesa, ser promovido pela Fundação Círculo de Leitores (que integra o Grupo Porto Editora desde 2010); e o impulso que o Círculo de Leitores deu à carreira literária de José Saramago com a edição do livro Viagem a Portugal (1981), que veio a permitir que se dedicasse a tempo inteiro à escrita.»

Embora se saiba que outras editoras manifestaram interesse, esta solução é tudo menos surpreendente. Depois da passagem de Mário de Carvalho e do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen para o grupo Porto Editora, completa-se a sangria dos principais autores da Caminho, ao mesmo tempo que o catálogo literário da PE ganha uma amplitude, densidade e peso institucional que ainda não tinha, apesar do grande crescimento dos últimos anos. Por outro lado, dificilmente outro grupo editorial apresentaria uma estrutura capaz de oferecer as condições de «divulgação da obra do escritor em todo o mundo, com especial atenção à comunidade lusófona» que as herdeiras legitimamente reclamam. A Porto Editora fez o que tinha a fazer: viu a oportunidade de ouro de ganhar um autor gigante (o único Nobel da língua portuguesa) e soube aproveitá-la.
Neste momento, porém, o meu pensamento vai para quem ajudou Saramago a ser Saramago, durante 35 anos de uma frutuosa relação de trabalho que foi sempre muito mais do que uma relação de trabalho. O meu pensamento vai para Zeferino Coelho, editor excelentíssimo que imagino a perguntar-se muitas vezes se a integração da Caminho no grupo LeYa foi o caminho certo ou um erro clamoroso. Não sei o que acharia Saramago de se ver assim transferido, mas sei que nunca se arrependeu de dar a ler os seus livros e de discuti-los desde a primeira hora com Zeferino Coelho, que tratou deles como um pai trata dos filhos.

O lápis na água

Ana Luísa Amaral pegou no copo e verteu água lá para dentro até meio. «Alguém tem um lápis que me empreste?» Estávamos, eu e ela, na Escola Básica 2/3 de Rates, perto da Póvoa de Varzim. À nossa frente, dezenas de alunos do oitavo e nono ano convocados para um encontro com autores, incluído na programação das Correntes d’Escritas. De uma das filas do meio, levantou-se um rapazinho tímido, lápis na mão. Ana Luísa agradeceu, pegou no pequeno cilindro de grafite e madeira, mergulhando-o na água. «Estão a ver?», perguntou, copo levantado no ar. «Reparem na percepção que têm agora do lápis. Ele não perdeu nenhuma das suas características, mas, devido ao fenómeno físico da refracção, parece maior. Parece outra coisa, parece diferente.» Onde está o copo com água até meio e lápis, leia-se poema e seu objecto. O poema não deve reflectir a realidade, deve refractá-la. Silenciosos, atentos, os miúdos perceberam a analogia, sem necessidade de grandes explicações.
«As Correntes d’Escritas são um lugar de resistência», lembrou Jaime Rocha, no final da sexta mesa. Resistência cultural. E resiliência. Numa altura em que os cortes orçamentais se tornaram regra e em que muitos projectos são suspensos, ou ficam congelados, ou pura e simplesmente desaparecem, porque não há dinheiro, porque as autarquias deixam de apoiar, porque os subsídios se eclipsaram (ou emagreceram tanto que deixam de ser suficientes), é admirável ver como as Correntes se mantêm de pé, firmes, com o auditório municipal ainda mais cheio do que em edições anteriores – aliás, a rebentar pelas costuras, mesmo em sessões habitualmente menos concorridas (quinta à tarde, sexta de manhã). Como sempre, os escritores foram subindo ao palco, respondendo aos motes nunca lineares que a organização sugere, desta vez versos retirados das obras finalistas do Prémio Casino da Póvoa, atribuído ao livro A Terceira Miséria, de Hélia Correia (Relógio d’Água).
Um dos aspectos mais marcantes da edição de 2013 foi a omnipresença da crise e do seu reverso: a revolta cada vez mais generalizada contra o sufoco da austeridade. Noutras edições das Correntes, já se tinham ouvido referências à situação económica e política do país, mas nunca como este ano. Volta não volta, quando algum orador se referia a um certo ministro com obscuras habilitações académicas, ou fazia uma piada sobre a obrigatoriedade de pedir factura, o público logo respondia com um burburinho cúmplice, bruáá, gargalhadas. «Já faltou mais para se ouvir a Grândola», dizia alguém na tarde de sexta-feira. E foi profético. Nessa mesma noite, Rui Zink precipitou o inevitável. No fim da sua intervenção, durante a qual se referiu à importância da acção cívica dos escritores e ao novo verbo que circula pelas redes sociais (grandolar; isto é, cantar a Grândola em sinal de protesto), lançou uma das suas provocações: «Eu não sou menos do que o ministro Relvas. Se ele, só com uma licenciatura, foi interrompido pela Grândola, eu, que sou doutorado, também quero ser. Vou continuar a falar durante mais três horas se vocês não me interromperem com a canção do Zeca.» O resultado foi o que se imagina. Apoteose, vozes ao alto e uma desculpável desafinação.
Logo no primeiro dia, ao reagir ao prémio para A Terceira Miséria, Hélia Correia dissera que os seus poemas cantam um país (a Grécia) massacrado pelo horror económico e devem ser lidos como o grito da «cantiga de alevantar», de José Mário Branco. Alevantemo-nos, então. Grandolemos. É extraordinário ver músicas quase esquecidas renascerem de um momento para o outro como instrumento de luta e mobilização. No hotel Axis Vermar, onde à noite os escritores, editores e jornalistas se juntam para conversas e copos, a Grândola teve direito a vários encores, ouviu-se ainda o Acordai, de Fernando Lopes-Graça, e até a Internacional. Na brincadeira, discutiu-se o que seria mais importante numa futura revolução: as palavras ou uma AK-47? Nas Correntes d’Escritas, o ar do tempo não fica à porta. Entra nos debates e nos momentos de lazer. É como o poema da Ana Luísa Amaral, o lápis dentro de água, refracção à espera de quem lhe dê um novo sentido.

[Texto publicado no n.º 122 da revista Ler, em Março de 2013]

Dias da transição

nada tenho

Nada Tenho de Meu
Autores: João Paulo Cuenca, Miguel Gonçalves Mendes e Tatiana Salem Levy
Editora: Jump Cut
N.º de páginas: 134 (+ DVD)
ISBN: 978-989-98769-0-3
Ano de publicação: 2013

Em 2012, Miguel Gonçalves Mendes, realizador de dois documentários sobre escritores – Autografia, em torno de Mário Cesariny (2004); José e Pilar, retrato intimista de Saramago (2010) –, voltou a aproximar-se da literatura. Em Macau, no festival Rota das Letras, encontrou dois ficcionistas brasileiros da sua idade: João Paulo Cuenca (com dois romances editados em Portugal, na Caminho) e Tatiana Salem Levy (publicada pela Cotovia e Tinta da China), ambos seleccionados pela revista inglesa Granta, no seu número dedicado aos vinte melhores autores jovens do Brasil. Aproveitando a estadia no outro lado do mundo, os três decidiram deambular pelo Sudeste asiático. De Macau passaram ao Vietname, depois ao Cambodja e à Tailândia, com regresso ao ponto de partida, via Hong Kong. Num processo criativo meio caótico, entre textos e filmagens, foi nascendo um «diário colectivo de viagem», uma espécie de «poema visual», um «quase cadáver esquisito» que se fixou numa série com 11 episódios e num livro.
O livro segue a estrutura do filme de Miguel Gonçalves Mendes, apropria-se das suas imagens, dos seus fotogramas (numa paginação que remete para as anacrónicas fotonovelas), mas não é um mero espelho em papel do que podemos ver no DVD. Há elementos da série que desaparecem no livro – e vice-versa. Certas frases soltas que vamos ouvindo, tanto de Tatiana como de Cuenca, ganham outro sentido quando as descobrimos nos textos completos de onde foram retiradas (prosas e notas de viagem reunidas no fim do volume). Ou seja, Nada Tenho de Meu assume-se como um verdadeiro objecto artístico multimedia: não basta ver, é preciso ler; não basta ler, é preciso imaginar. E depois preencher os espaços em branco de um relato pulverizado, em que a realidade se transforma sistematicamente em matéria de ficção, enquanto paira uma ameaça de apocalipse (há um asteróide chamado Portugal em rota de colisão com a Terra).
Na origem de tudo está talvez uma estadia de MGM em Macau, no ano de 1999, para assistir ao chamado «dia da transição», quando o poder no território passou de Portugal para a China. As transições tornam-se depois pessoais, à medida que os três criadores se reinventam como personagens uns dos outros, ou de si mesmos. Tatiana ficciona Miguel, os seus amores, a sua tristeza, a sua falhada busca de sentido. Por outro lado, também se questiona e à sua escrita, enquanto busca em vão sinais de Marguerite Duras nas margens do rio Mekong. Cuenca ensaia uma estética do afastamento, da perda, da desaparição. E resume de forma lapidar o que une as pontas deste mosaico imperfeito mas fascinante: «Aquilo que somos, o que vemos, o que sentimos, não tem a mínima ligação com o real. O projeto será sobre isso. Sobre projeções. Trata-se de projeções daquilo que supomos viver e sentir.»

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]


Episódio n.º 4 de Nada Tenho de Meu

Concurso da Granta Portugal adiado

Acabei de receber o seguinte comunicado:

«A Granta Portugal comunica o adiamento do concurso “Os Melhores Jovens Escritores de Língua Portuguesa“, anunciado no dia 21 de Janeiro passado.
Este concurso, que estaria aberto entre 1 de Fevereiro e 31 de Julho de 2014, e que daria origem ao primeiro número especial da Granta Portugal, a publicar em 2015, não poderá realizar-se nas datas previstas por razões contratuais. Lamentamos o transtorno causado. Oportunamente será anunciada uma recalendarização desta e de outras iniciativas da Granta.
O número 3, já em adiantada fase de preparação, será publicado, tal como previsto, em Maio, com o tema “Casa”.»

É pena, de facto, que este concurso seja adiado. Só espero que os potenciais candidatos a escritores não desanimem e continuem a trabalhar nos seus contos ou fragmentos de romances, deixando-os depois a estagiar numa gaveta ou numa pasta do computador, processo que sabemos (desde Horácio, ignorante de informática mas sábio quanto aos efeitos da passagem do tempo) não fazer mal nenhum à qualidade dos textos, muito pelo contrário.

Quatro poemas de Daniel Jonas

NOSTALGIA

Perder uma fotografia
é perder
um momento
duas vezes.

***

beslan

OSSÉTIA

Ou como uma foto de Karpukhin
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.

Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.

De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.

O inconsolável.

O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.

***

SPLEEN

Cemitério de todos os sóis
o mar, cinza
onde habita o beemote do tempo,
a grande baleia do oblívio
sob socalcos de aço,
na chapa recurva,
sucata de toda a metáfora.

Porquê dizê-lo?
Cansaço de o dizer…

O mar é uma maçada.

***

CANTONEIROS

A pura simetria dos cantoneiros
concordes na sintonia clássica
da sua dança, no modo como desmantelam
a embriaguez, induzem o vómito a caixotes
ou dispõem de bolas de plástico
e as lançam para a baliza ruminativa
sem tempo para comemorarem os golos.

Pulgas da quietude,
industriosos entre o mar de detritos,
fosforescentes noctilucos,
espectros a céu aberto,
ídolos de montureiros,
aclarando das margens as nuvens rentes
sob aguaceiros desabridos.

Acrobatas da morosidade
fúnebre do seu curso,
a cidade ignora-os
ou execra aquele féretro deletério
se apanhada no cortejo de ocasião.

[in Passageiro frequente, Língua Morta, 2013]

Escadas de incêndio

Já todos intuímos o que aí vem. A imprensa escrita, em papel, dificilmente sobreviverá a estes tempos de crise aguda. Quem julgar que se trata de uma tormenta, desengane-se: estamos perante um naufrágio. Aquilo a que assistimos – queda a pique das vendas em banca, fuga da publicidade, redacções reduzidas ao mínimo e mal pagas, desinvestimento no jornalismo de investigação, ausência de verdadeiros mecanismos de controlo da qualidade jornalística (do rigor no uso da língua à simples verificação dos factos), vulnerabilidade financeira que põe em causa a independência, etc. – é um caminho de perda progressiva e enfraquecimento radical do quarto poder, justamente quando ele seria mais necessário do que nunca para escrutinar a realidade política e económica do país. Resumindo, em bom economês, o modelo de negócio deixou de ser rentável e ainda ninguém descobriu como dar a volta ao texto. Resta saber, aliás, se há mesmo volta a dar ou se mais vale começar tudo de novo, de outra maneira. Para já, importa perceber que o prédio está a arder e ter esperança de que alguém encontre, ou invente, saídas de emergência.
Admito que o raccord é um pouco forçado, mas foi numa escada de incêndio que nasceu uma semente do que pode vir a ser a nova paisagem mediática, no que à imprensa escrita diz respeito. Uma escada de incêndio em Nova Iorque, onde Uzoamaka Maduka, uma licenciada em Princeton de origem nigeriana, agora com 25 anos, estava a fumar um cigarro, ao frio, com Jac Mullen, o seu namorado. Discutiam o que muitos outros jovens com interesses literários e artísticos discutem: a falta de espaço, no panorama editorial instituído, para escritores e leitores na faixa dos vinte/trinta anos. Toda a gente parte do princípio de que a geração Y – a dos iPhones e iPads, a do Facebook e do Twitter – não quer saber de textos longos (ensaios com muitas páginas, recensões que escapem ao formato bonsai dos jornais) ou que só toleram o que vêem num ecrã, ignorando o velho prazer da leitura em papel. Grande equívoco. O que Maduka e Mullen desejavam era uma publicação que desse a ver as realidades literárias emergentes, a nova ficção e a nova poesia, sem deixar de reflectir criticamente sobre os livros e autores que aparecem nas revistas consagradas. Como essa publicação ideal não existia, criaram-na. E assim surgiu, em 2012, a The American Reader, que alguém disse ser uma espécie de irmã mais nova, e mais cool, da New Yorker. A edição em papel, mensal, financiada por um investidor anónimo, prolonga-se num site de grafismo sofisticado e fácil de navegar. Se o sucesso chegou muito depressa, tal não se deveu a uma qualquer inovação formal (já se inventou tudo, ou quase tudo) mas apenas, e como deve ser, à qualidade dos textos. A irreverência está sobretudo na capacidade de juntar abordagens sérias a livros sérios com brincadeiras muito irónicas e inteligentes – veja-se a divertidíssima lista de «10 under 10», um inquérito imaginário a dez escritores com menos de dez anos, infantis à sua maneira, mas revelando a bagagem teórica e a linguagem de um académico de Harvard.
Maduka e Mullen não estão sós. Antes deles, já havia um excelente projecto mais ou menos com os mesmos propósitos, a n+1, e entretanto começaram a aparecer outros: The New Inquiry; Triple Canopy. O que os une é um certo sentido de comunidade. As revistas são colectivos de criadores e críticos com interesses próximos, mas nada impede cruzamentos entre elas. Sobretudo, o que estas iniciativas provam é que há vida para além dos circuitos habituais, muitos deles saturados e pouco abertos a novas formas de discurso sobre a literatura. De certa maneira, na sua leveza e agilidade, estas revistas nova-iorquinas fazem-me lembrar as microeditoras de poesia portuguesas, mais activas e interessantes, pelo menos nos últimos anos, do que as editoras clássicas. O que eu gostava era de ver surgir por cá uma revista assim. Bastava uma, que a nossa massa crítica é o que se sabe. Em 1915, há quase um século, também apareceu do nada uma revista que agitou, e de que maneira, as águas. Chamava-se Orpheu. Eu não peço tanto, claro, mas as águas precisam mesmo de ser agitadas.

[Texto publicado no n.º 121 da revista Ler]

Papagaio pousado no ombro

Na nota final de Barba Ensopada de Sangue (Quetzal) – livro que venceu o Prémio São Paulo de Literatura 2013, ficou em terceiro lugar na categoria de romance do Prémio Jabuti, e foi finalista do Prémio PT –, Daniel Galera agradece ao pai o facto de este lhe ter contado a «história de onde veio todo o resto», sendo o «resto» um exemplo de excelência narrativa, que reforça o lugar de destaque do escritor na nova vaga da ficção literária no Brasil. Em 2012, Galera, nascido em São Paulo (1979) mas de raízes gaúchas, fez parte da lista de autores escolhidos pela revista britânica Granta na sua edição dedicada aos 20 melhores romancistas brasileiros com menos de 40 anos. Apneia, o texto publicado nesse número, oferecia-nos um diálogo duro e cru entre um pai à beira do suicídio e o seu filho, a quem deixa como herança uma cadela para matar e um mistério (sobre o suposto assassinato do avô, numa terra de pescadores). O texto – breve, tenso, poderoso – era anunciado como parte de um trabalho em curso e surge por isso, sem surpresa, transformado no primeiro capítulo do seu quarto romance, agora publicado em Portugal.
«A história que o meu pai me contou girava em torno de um homicídio supostamente ocorrido na cidade de Garopaba nos anos 70», explica Galera, em conversa telefónica a partir de Porto Alegre, onde vive neste momento, depois de muitos anos em São Paulo. «Na altura, Garopaba ainda era uma povoação muito pequena, sem todo o movimento de turismo que tem hoje. O morto seria alguém que andava causando problemas e então a comunidade decidiu dar um jeito para se livrar dele: durante um baile, apagaram as luzes e um monte de gente esfaqueou o homem ao mesmo tempo.» A história pode até não ser verdadeira, pode ter sido inventada pelo interlocutor do pai, mas Galera não a esqueceu. «Ouvi-a antes de decidir ser escritor e guardei-a na minha memória durante muito tempo. Quando fui viver em Garopaba, no estado de Santa Catarina, em 2008, lembrei-me imediatamente dela. E comecei a pensar: se esse relato fosse verdadeiro, como é que poderia ter acontecido? Quem seria a pessoa assassinada? E aí me surgiu a personagem do Gaudério, esse homem rude que veio do campo, do Rio Grande do Sul, que era um forasteiro e foi morto. Depois, veio a ideia do filho dele e do neto, e toda a história do romance começou a desenvolver-se a partir desse núcleo, desse embrião dado pelo relato do meu pai.»
Embora os elementos autobiográficos do romance sejam mínimos (tal como o protagonista, o autor gosta de nadar no oceano e de correr), Galera aproveitou o facto de ter vivido um ano e meio em Garopaba para descrever, com um detalhe que pode ser exasperante para alguns leitores, a vida numa povoação marcada pela sazonalidade: verões de euforia e enchentes de turistas; invernos de letargia, frio, e casas desabitadas. No livro, alguém diz que só se vai para Garopaba para viver ao pé do mar e fazer surf, ou então para esquecer um desgosto amoroso. «No meu caso, não foram essas as razões. Eu tinha a fantasia de viver uma temporada num lugar muito pequeno, onde ninguém me conhecesse. Então, em 2007, quando vivia em São Paulo, dei-me conta de que era hora de cumprir esse sonho. Estava morando sozinho, não tinha mulher, nem filhos, nem emprego, nada que me prendesse, e pensei que talvez não voltasse a ter uma oportunidade tão boa. Peguei nas minhas coisas e fui.»

galera

O protagonista de Barba Ensopada de Sangue sofre de um problema neurológico raro: a prosopagnosia. Ou seja, por muito que se esforce, esquece passado pouco tempo (cerca de 15 minutos) todos os rostos das pessoas com que se cruza. Até mesmo os dos familiares próximos, os das mulheres amadas, o seu próprio rosto. «Quem sofre desse tipo de condição costuma ter problemas sérios de relacionamento social, porque toda a gente encara os outros com a expectativa de ser reconhecido e leva a mal se não o for. Há pessoas que ficam vários anos até serem diagnosticadas, e algumas nunca chegam a ser. Resultado: passam por mal-educadas, distraídas, arrogantes, pessoas que não querem conversar com as outras. Então a maior parte é muito tímida.» Para escrever o livro, Galera baseou-se apenas em pesquisas feitas em livros e na internet, nomeadamente em blogues e fóruns de pessoas que sofrem de prosopagnosia. «Curiosamente, só há cerca de um mês é que conheci alguém, uma rapariga, que tem o problema. Contou-me a experiência dela e é de facto muito parecida com tudo o que tinha lido e com o que está no romance.»
Um dos aspectos mais interessantes do livro tem a ver com o ritmo muito lento da narrativa. O escritor demora-se nas descrições de pessoas e lugares, não tem pressa alguma de chegar onde as histórias o levam, e mostra quase tudo o que se passa no quotidiano das personagens, ao ponto de parecer que estamos a viver com elas em tempo real. «Desde o começo, quis dar ao leitor essa sensação física da passagem do tempo. Para isso, tinha de mostrar a vida do protagonista mesmo nos seus aspectos mais banais. Na verdade, toda a sensação de tempo na ficção é ilusória. É uma construção do autor. Tanto podemos resumir uma saga familiar de cinco séculos em cinco linhas como esticar dez segundos da vida de uma pessoa em mil páginas. Quis que o leitor ficasse o mais próximo possível da sensação concreta do que é viver em Garopaba. Que o leitor sentisse aqueles nove meses, não só os momentos em que acontecem coisas, em que a acção progride, mas também os espaços vazios, os hiatos, os períodos em que nada se passa.»
Para manter esta experiência do tempo, era fundamental prescindir dos flashbacks na narração. Acontece que havia elementos da história – coisas do passado, conflitos familiares, subenredos – que teriam de ser integrados de alguma forma. «Comecei por colocar esses trechos em notas de rodapé, só para me lembrar que tinha de buscar uma solução para isso. Quando fui chegando no fim do romance, pensei: espera aí, e se essa informação fosse passada em nota de rodapé mesmo?» Galera temeu que os editores achassem a ideia «meio maluca», mas eles gostaram, e as notas (em que se incluem mensagens de Facebook, cartas, diálogos telefónicos entre personagens secundárias, etc.) acabaram por ficar. «Há coisas essenciais que o leitor vai descobrindo ali, aos poucos, e que por vezes funcionam como uma revelação.» Isto porque o narrador, embora seja omnisciente e conte a história na terceira pessoa, está fixado na perspectiva do personagem principal e por isso omite tudo o que este faz por esquecer. «No texto propriamente dito, nós vemos apenas o que ele vê, experimentamos só o que ele experimenta. É como se o narrador fosse um papagaio pousado no ombro do protagonista.»
Embrenhada na história, do princípio ao fim, está a questão filosófica do determinismo, em oposição ao livre arbítrio. «É um tema que vai surgindo de forma insinuada e vem à tona no diálogo do capítulo final. Tem a ver com leituras que eu estava fazendo durante o período da escrita do livro. Fui infiltrando isso na vida do personagem, que acaba se transformando num praticante bastante radical da ideia de que a vida é predeterminada mas ainda assim somos responsáveis pelo que fazemos, mesmo que não tenhamos escolhido fazer. Por isso, o perdão para ele é um gesto sem sentido, porque significaria continuar vivendo como se algo não tivesse acontecido. É uma visão que choca com a da ex-mulher, para quem tudo o que fazemos depende da nossa escolha e o perdão também é uma escolha, que permite libertar os outros para fazerem coisas melhores e libertar-se a si próprio. Eles diferem muito nisso. E através deles pude problematizar questionamentos meus.»
Quando terminou o romance, Galera ficou satisfeito com o resultado mas algo apreensivo quanto à recepção que teria: «Este era o livro que eu queria escrever, que eu precisava de escrever, mas pensei que era muito pessoal, talvez um pouco hermético, inacessível, uma história que poderia até aborrecer alguns leitores com a sua lentidão.» A partir do momento em que o entregou na editora, porém, houve uma reacção em cadeia que empurrou a obra para um público mais vasto. «Os editores empolgaram-se, o capítulo publicado na Granta teve bastante impacto, as críticas revelaram-se no geral muito positivas, sem serem unânimes, houve ainda todo o circuito dos prémios, e acabou vendendo mais do que qualquer dos meus livros anteriores. Foi uma grande surpresa.» Tamanho interesse por um autor de 34 anos deixa Galera animado quanto ao futuro próximo da literatura brasileira. «São bons sinais, eu acho. Não só para mim, mas para outros autores da minha geração.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Coração tão branco, de Javier Marías (Alfaguara), por Pedro Mexia
Pleno Emprego, de Miguel Cardoso (Douda Correria), por José Mário Silva
Nada Tenho de Meu, de João Paulo Cuenca, Miguel Gonçalves Mendes e Tatiana Salem Levy (Jumpcut), por José Mário Silva
A Arte dos Ruídos, de Luigi Russolo (Momo), por Manuel de Freitas
Correspondência 1969-1978, de Jorge de Sena e Carlo Vittorio Cattaneo (Guimarães), por Luís M. Faria

O que aí vem (Antígona)

A Escravatura – Subsídios para a sua História, de Edmundo Correia Lopes; Reflexões sobre a Escravidão dos Negros e Outros Textos Abolicionistas, de Condorcet; Mary Shelley – Uma Biografia da Autora de Frankenstein, de Cathy Bernheim.

A ‘Granta’ portuguesa também vai ter o seu 20/40 (e ainda bem)

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À semelhança da Granta original, a Granta portuguesa vai organizar um concurso para encontrar os 20 melhores ficcionistas lusófonos com menos de 40 anos. Podem concorrer trabalhos inéditos (dez mil a 50 mil caracteres) de escritores estreantes ou com obra publicada. O prazo limite de entrega é 31 de Julho. Em 2014, será publicado um número especial dedicado aos 20 autores seleccionados.
Parecendo-me esta uma excelente ideia, tenho dúvidas em relação a um aspecto: a abertura ao universo total dos países de língua portuguesa. Por um lado, tenho a certeza de que se encontraria matéria-prima suficiente em Portugal. Por outro, quando se fez algo de semelhante no Brasil, não se abriu a porta aos portugueses. Além de que nos arriscamos a que muitos dos autores presentes na lista brasileira repitam a presença deste lado do Atlântico.
Veremos.

Fragmento de um texto que devia ser lido em voz alta, pelas ruas

«(…) Com o abuso do estilo, fomos deixando para trás a frescura das origens, a fisicalidade da palavra, ela que é parte do real e nele se inscreve. Sei que o caminho para a abstracção foi útil e foi bom porque nos fez aceder, por exemplo, aos conceitos. Mas, mutatis mutandis, assim como Hölderlin teve certo desígnio ao traduzir Antígona, também eu gostaria de repor a primeira energia da linguagem, recordando a nudez inicial. Falemos de “catarse” — que se aplica à gritaria das manifestações. Serve a catarse para energizar? Não serve. Uma catarse é má medida. Uma catarse era concretamente vómito de ressaca. O alívio de estômago a seguir a uma bebedeira. Era deitar para fora e ficar limpo. Transposta para a lição do teatro, assim durou, implicando sempre uma transformação. É isso o que se quer saindo à rua? Que a vivência nos lave do mal-estar? Falar não deve aliviar do mal. Pelo contrário, deve torná-lo inteligível e discutível. Torná-lo, a bem dizer, manipulável. Um material exterior e que, com esforço, consigamos dobrar. Nós precisamos tanto de catarses como de sonhos. Temos de levar outra intenção para as ruas.
O que é manifestar? É dar a ver. Dar a ver com as mãos. Não necessariamente mãos em festa — a etimologia é duvidosa. Provavelmente mãos conflituantes. Há com certeza uma finalidade para juntar num desfile a multidão, mas nós não somos já gente de ritos, não somos gente de re-ligação. Temos de inaugurar tudo novamente, a começar pelas frases de incentivo, pois as que ouvimos, de tão velhas, tão usadas, perderam o vigor. Estão transformadas em ladainhas de beatitude. Aliás, as mais das vezes não serviam como motores de mobilização, fracas de rima, rastejantes de sentido. Mas enquanto se caminhou a passo forte, enquanto, a velocidades várias, se manteve uma leitura histórica das coisas, uma certeza de alma potenciava aquele vocabulário esmaecido.
Se hoje as pessoas continuam a marchar é porque, à força de repetição, os sapatos estão enfeitiçados. Não é de dança, mas de espasmo, o movimento. O grito que invectiva já não faz estremecer o seu destinatário. O seu destinatário olha para “aquilo”, chama-lhe “aquilo”, e vai à sua vida. Mostra um grande talento para apoucar. Nós que talento revelamos? O da fé? O da brava teimosia? Repetimos os nossos argumentos… “até à náusea”: assim acaba a frase que herdámos da retórica latina. Não é possível refazer a língua? É, sim.»

Hélia Correia, num artigo lido nas páginas do Público.

‘Blimunda’ #20

O novo número da revista editada pela Fundação José Saramago já está disponível para download, aqui.

A sua cara é-me estranha

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Barba Ensopada de Sangue
Autor: Daniel Galera
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 391
ISBN: 978-989-722-139-2
Ano de publicação: 2014

O protagonista de Barba Ensopada de Sangue sofre de uma doença neurológica relativamente rara (prosopagnosia) que o torna incapaz de reconhecer rostos – todos os rostos, não apenas os que foram vistos só uma vez e é natural esquecer. Para ultrapassar esta limitação, ele recorre a outras formas de perceber quem são as pessoas com quem se cruza. Fica atento às inflexões das vozes, à textura dos cabelos, às peças de roupa, ao «jeito de andar», aos adereços. «Eu tenho que estar sempre ligado no que pode identificar uma pessoa, fora o rosto dela. Eu escaneio os detalhes. (…) Quanto mais eu conheço a pessoa, mais fácil é reconhecer. Mas sempre é meio complicado.» Ao mudar-se para Garopaba, fugindo de Porto Alegre, das quezílias familiares e da imagem de um pai que se suicidou, deixando-lhe nos braços a sua cadela, ele não conhece ninguém, começa relacionamentos sociais do zero, pelo que essa dificuldade crónica se torna maior do que nunca.
A escolha de Garopaba, cidade balnear muito frequentada no Verão, mas deprimente no Inverno, não foi um mero acaso. Antes de se matar, o pai contou-lhe que o seu avô teria sido assassinado ali, no final da década de 60, em circunstâncias nunca esclarecidas. Homem de «pavio curto», brigão, sempre a puxar da faca, era visto como forasteiro indesejável pelos habitantes locais. Certa noite, num baile, alguém apagou as luzes, ouviram-se dezenas de lâminas e a escuridão apadrinhou o ajuste de contas colectivo. Só que o corpo nunca apareceu, o suposto crime não foi devidamente investigado e o nome de Gaudério tornou-se um tabu, uma lenda incómoda – mesmo quatro décadas depois, quando o neto daquele gaúcho maldito chega à cidade, ainda por cima deixando crescer a barba, ao ponto de ficar a cara chapada do seu antepassado.
Homem simples, o protagonista é um professor de educação física que dá aulas de natação e corrida, depois de ter treinado atletas para campeonatos de triatlo. Em Garopaba, as suas rotinas não mudam muito. Após um período de adaptação, ele mergulha na modorra da vida quotidiana, enquanto tenta desenterrar a verdadeira história do que terá acontecido ao avô, esbarrando quase sempre na desconfiança ou no silêncio ostensivo de quem o poderia ajudar. Há qualquer coisa de instável no círculo das suas relações mais íntimas – as duas mulheres com quem se envolve (uma garçonete de pizzaria e uma secretária de uma agência de passeios turísticos, ambas com nome de flor), além do budista engatatão que se torna o seu melhor amigo – e as ondas de choque do que deixou para trás acabam por apanhá-lo, quando a mãe, primeiro, e a ex-namorada, depois, o visitam. A certa altura, ele alude à «presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer» e essa demora estrutura todo o romance. Dito de outro modo: a passagem do tempo é em si mesma uma personagem do livro, talvez a principal. O leitor não se limita a assinalar os dias, as semanas, os meses. Vive-os por dentro, sente-lhes o peso, a sua glória, os seus vazios.
Para produzir este efeito, a escrita de Daniel Galera assume radicalmente a perspectiva do protagonista. Ou seja, é como se ela também sofresse de prosopagnosia e amplificasse ao máximo a atenção aos detalhes. Tudo merece descrição exaustiva, seja um gesto, uma paisagem, uma noite no circo, uma quermesse com show de dupla sertaneja, um bordel manhoso, um jogo de póquer (em que os participantes usam fralda geriátrica para não terem sequer de ir à casa de banho) ou um passeio de barco para avistar baleias. O romance expande-se neste movimento de contar tudo, prescindindo das elipses e dos atalhos habituais que nos levam directamente ao que interessa, mas nunca se perde nem se desequilibra. A investigação conclui-se, os problemas familiares tornam-se por fim compreensíveis, as pontas unem-se, enquanto o processo de construir uma lenda se repete. Como a miragem vista na praia, a narrativa está sempre à beira de se desfazer «sem alarde». Mas quem a tenha lido dificilmente esquecerá os contornos do seu ‘rosto’.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

O que aí vem (Tinta da China)

Hav, de Jan Morris; Traição, de Luís Mário Lopes; Hotel, de Paulo Varela Gomes; Nietszsche e o Enigma do Mundo – Arte e Niilismo, de João Constâncio.

Quatro vezes

faulkner

[in entrevista de William Faulkner à Paris Review, em 1956]

Primeiros parágrafos

«A estreia da ópera Salomé, de Richard Strauss, contra todas as aparentes probabilidades, não se fez na Ópera da Corte de Viena. Os censores imperiais, e portanto a direcção do teatro, acharam-na imoral por utilizar a personagem bíblica e, sobretudo, pela volúpia que emanava do tema e da música. Começou por ser produzida em Dresden, portanto na Alemanha, e na Áustria só em Linz viu a luz da cena. Foi um acontecimento. Na estreia compareceu muito público vindo de Viena; havia grande excitação por toda a Áustria e à laia de piada um jornal anunciou que os caminhos-de-ferro até podiam chegar a preparar comboios especiais, para ser possível chegar a tempo de assistir a um dos dois espectáculos anunciados. Entre os assistentes curiosos encontravam-se Mahler, a sua bela mulher Alma e o jovem Schoenberg; Puccini e os seus amigos tinham reservado um camarote.
Hoje também se sabe que o jovem Hitler arranjou dinheiro para poder participar na grande festa musical. Aliás, Hitler gostou muito de voltar a Linz; não era a sua terra natal, mas tinha ali passado alguns anos da sua mocidade, que ele relembrava com muita saudade. Nessa época, a cidade era menos industrial do que chegou a ser; era tipicamente austríaca, e como então se dizia o rio Danúbio gostava ali de todos os seus trezentos mil habitantes, ao passo que em Viena o danúbio era apenas folclore.
Hitler levava uma mochila de viagem cheia de pão com manteiga e queijo, para conseguir sobreviver. Uma vez em Linz sentiu-se feliz e infeliz. Feliz por estar “em casa”, infeliz porque não tinha bilhete para assistir a Salomé. Nem bilhete, nem dinheiro para o bilhete, se ainda houvesse algum disponível. A sua queixa chegou aos ouvidos de Alma Mahler. Teve pena dele; falou com o marido, que não recusava nada à sua amada esposa, e ele arranjou uma entrada para Hitler, embora só fosse um strapontin (strapuntino, em italiano). Hoje em dia, os grandes teatros raramente dispõem desse banco rebatível, de facto um assento auxiliar utilizado em ocasiões especiais e normalmente mantido dobrado. Como não é um lugar normal, é claro que só serve quando há extrema necessidade de o utilizar, e também para os polícias se sentarem. Hitler começou por agradecer a Gnädige Frau, mas ainda sem saber que não ia ocupar um lugar idêntico ao dos outros. Uma vez sentado começou a pensar se ia ficar nesse lugar humilhante, se deveria sair ainda antes do início da abertura de Salomé, ou, pelo contrário, se sairia provocatoriamente um pouco antes do fim.»

[in Remington, de Jorge Listopad, Cavalo de Ferro, 2013]

Um século de palavras cruzadas

A 21 de Dezembro de 2013 passaram 100 anos sobre a publicação, no jornal New York World, do primeiro puzzle de palavras cruzadas. Ainda não era um quadrado mas já trazia em destaque, como se fosse um mote, a palavra essencial: FUN (divertimento).

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Correntes d’Escritas no Hotel Axis Vermar

Até este ano, o epicentro das Correntes d’Escritas era o Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, onde decorriam todas as sessões de debate. Na 15.ª edição do principal encontro literário português, que decorrerá entre 20 e 22 de Fevereiro, a principal novidade será a mudança das mesas redondas para a Sala de Congressos do Hotel Axis Vermar. Tudo o resto se mantém: sessões nas escolas, lançamentos de novas edições, uma feira do livro, leituras de poesia e longas noites de convívio no bar do hotel.
A programação definitiva está quase fechada e será anunciada durante a próxima semana.

Uma boa frase

«I sometimes think of social media as being like the terrible apparatus at the center of Kafka’s ‘In the Penal Colony': a mechanism of corrective torture, harrowing the letters of the transgression into the bodies of the condemned.» Encontrei-a num artigo sobre os riscos, pânicos e arrependimentos de quem escreve no Twitter (e com uns cortes cirúrgicos, talvez coubesse num tweet).

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Daniel Galera sobre Barba Ensopada de Sangue (Quetzal) e respectiva crítica, por José Mário Silva
Ulisses, de James Joyce (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Remington, de Jorge Listopad (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
O Mundo na Escuridão, de Alan Furst (Dom Quixote), por José Guardado Moreira
Dez mil milhões, de Stephen Emmott (Temas e Debates), por Virgílio Azevedo

Quatro poemas de A. M. Pires Cabral

A GAVETA DO FUNDO

A gaveta do fundo: onde guardava
brasas e jóias de família –
ou seja, reservas de calor
para os dias do frio que aí vêm.

A gaveta do fundo:
forçada a fechadura, saqueada,
desmantelada em tábuas e ferragens.

Dada a beber às altas labaredas
que, bebendo, multiplicam a sede,
em vez de a extinguir.

***

PUNHAL EXCELENTE

Já quase não há, o punhal excelente
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos –

– esse lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.

E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.

Paz ao seu aço.

***

NORA

I

Muito tilintou esta nora.

Isso foi no tempo em que musgos,
heras, caracóis, lagartixas e ferrugem
não se tinham ainda sentado em cima dela.

Agora já não tilinta.
Secou-se-lhe o tilintar, que por sinal
era o som mais húmido do campo,
o mais quebradiço, mas também
mais apto a fecundar.

II

Mas não se extraviou nos complicados
trilhos do tempo:
limitou-se a migrar para dentro de mim.
Guardei-o num baú de que só eu tenho a chave
e donde às vezes o tiro para ouvir de novo
os pingos de prata derretida
caindo insistentes sobre a tarde esguia

que, aproximando-se do fim,
ficava de repente mais sonora
de pássaros e brisas, e de risos
e ralhos vindos da horta.

[in Gaveta do Fundo, de A. M. Pires Cabral, Tinta da China, 2013]

Aprender caligrafia japonesa

caligrafia

O Museu do Oriente organiza, no dia 5 de fevereiro, das 15h00 às 17h00, um workshop de caligrafia japonesa para adultos, com Osvaldo Andrade Neto. Preço: 12 euros.

Prémio Bang!

A editora Saída de Emergência anda à procura do George R. R. Martin português. Ou seja, um best-seller no campo da literatura fantástica. O isco é o Prémio Bang!, que oferece ao vencedor um prémio de três mil euros e a oportunidade de publicar a obra escolhida em Portugal e no Brasil. O regulamento pode ser consultado aqui.

Maravilhas da paternidade

Questões que se levantam a caminho da escola:

Alice (pergunta com resposta) – Sabes porque é que os documentos importantes da nossa História estão num sítio chamado Torre do Tombo (embora não seja uma torre) e só podem ser tocados com luvas por algumas pessoas? Porque são muito frágeis e, se não forem tratados com cuidado, desfazem-se.

Pedro (logo de seguida) – E onde é que está o manuscrito dos Lusíadas, hã? Aquele que o Camões escreveu à mão e depois salvou, a nadar com o braço de fora? Está na Torre do Tombo? Isso é que eu queria saber.

Ao fundo do jardim

a porta secreta

A Porta Secreta
Autora: Ana Teresa Pereira
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 101
ISBN: 978-989-641-383-5
Ano de publicação: 2013

Nos seus romances e novelas, Ana Teresa Pereira nunca escondeu o fascínio pelos livros de aventuras juvenis de Enid Blyton. Muitas das personagens os mencionam, chegando a procurar edições antigas em alfarrabistas. Esse suave encantamento britânico paira em cada uma das páginas de A Porta Secreta, história escrita a pensar num segmento etário específico (algures entre o fim da infância e o início da adolescência), mas que pode ser lida com proveito em qualquer idade.
Nos arredores do Funchal, Ema aluga, para si e para os dois filhos, Sara e Miguel, uma casa que fica «praticamente no meio do campo» – o oposto do «bairro tão feio onde viviam antes». Nas traseiras há um belo jardim, a mãe deixa as crianças terem um cão e um gato, a família abalada em tempos pela morte do pai parece encontrar o equilíbrio. Mesmo ao lado, uma grande quinta e respectiva mansão, propriedade de uma família inglesa, alimentam as fantasias de Sara e Miguel. Descoberto um acesso escondido, eles fazem amizade com um pintor de passagem e especulam sobre as luzes que se acendem, à noite, no torreão. Como em Blyton, os estremecimentos e receios não correspondem a um perigo efectivo e os heróis estão de volta à hora do lanche.
Outonal e serena, a história reúne muitos elementos do universo da autora: flores, cinefilia, aparições no nevoeiro, pintura (a chave é uma aguarela que pode ser de Turner e representa o princípio do mundo). A escrita é despojada, precisa, acessível, mas capaz de achados. Por exemplo, a velha casa, ao luar, surge como «uma concentração de silêncio». Mais do que para o mistério, a porta secreta ao fundo do jardim dá para a literatura.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Uma carta de Saramago

Na década de 70, durante o regime militar, o filho do poeta argentino Juan Gelman foi assassinado aos 20 anos pela polícia política. A nora, de 18 anos, estava grávida e conheceu a mesma sorte, dois meses depois de dar à luz uma menina que viria a ser registada como filha legítima de um chefe de polícia uruguaio. Muitos anos depois, o avô haveria de a encontrar e a neta lutou na Justiça para ganhar o direito de usar o apelido Gelman. Entre os intelectuais que se manifestaram durante este processo estava José Saramago. A carta que enviou ao Presidente do Uruguai, Julio Sanguinetti, a 20 de Outubro de 1999, pode ser lida aqui, no site da Fundação José Saramago, que também disponibiliza vídeos da vinda de Juan Gelman a Lisboa, em 2010.

Juan Gelman (1930-2014)

gelman

Apagou-se um imenso poeta argentino. Sobre ele escreveu o El País no seu obituário: «Maestro de un “oficio ardiente”, de versos que hablan del amor, la muerte y el dolor, combinó la poesía con la militancia política y su defensa de los derechos humanos. Sin embargo, desdeñaba el término de “poesía comprometida” porque creía que la ideología y la obra de un escritor estaban a menudo conectadas por canales oscuros.»
Eis o seu último poema, escrito a 28 de Outubro de 2013, já consciente do fim próximo:

VERDAD ES

Cada día
me acerco más a mi esqueleto.
Se está asomando con razón.
Lo metí en buenas y en feas sin preguntarle nada,
él siempre preguntándome, sin ver
cómo era la dicha o la desdicha,
sin quejarse, sin
distancias efímeras de mí.
Ahora que otea casi
el aire alrededor,
qué pensará la clavícula rota,
joya espléndida, rodillas
que arrastré sobre piedras
entre perdones falsos, etcétera.
Esqueleto saqueado, pronto
no estorbará tu vista ninguna veleidad.
Aguantarás el universo desnudo.

Primeiros parágrafos

«Quando meu tio morreu eu tinha dezessete anos e o conhecia somente a partir de fotografias antigas. Por algum motivo insondável, meus pais diziam que a iniciativa da visita deveria partir dele e se recusavam a me levar para o litoral catarinense com esse propósito. Eu tinha curiosidade em saber quem ele era e cheguei a passar muito perto da cidade de Garopaba, onde ele morava, mas no fim das contas fui sempre deixando para mais tarde. Na adolescência o resto da vida parece uma eternidade e vamos supondo que sobrará tempo para tudo. A morte dele demorou para chegar ao conhecimento do meu pai, que estava em retiro numa cabana da serra paulista tentando concluir um novo romance. Meu tio morreu afogado tentando resgatar uma banhista que caiu das pedras na praia da Ferrugem num dia de ressaca assustadora com ondas de três metros explodindo na costa. A banhista se agarrou à boia e foi socorrida em seguida por outros salva-vidas. O corpo do meu tio nunca foi encontrado. Houve um enterro simbólico em Garopaba e nós comparecemos. Minha mãe me mostrou o local onde ficava o primeiro apartamento em que ele morou, hoje demolido. Nas fotos da época se vê o predinho bege de dois andares com terraço, bem em frente ao mar, sobre as pedras. Ainda não havia prédios altos na beira da praia e as águas eram balneáveis. A população da vila histórica, que permanece tombada até hoje, ainda vivia em parte da pesca artesanal que desapareceu para dar lugar aos passeios de turismo. Conhecemos a viúva dele, uma mulher de pele muito branca coberta de tatuagens esmaecidas, e seus dois filhos pequenos, um menino e uma menina, os dois com os olhos azuis da mãe. Meus primos. O enterro tinha pouca gente. Minha mãe teve uma crise de choro incompreensível e mais tarde ficou cerca de meia hora olhando para o mar e falando sozinha, ou conversando com alguém. Havia outras pessoas olhando o mar como se esperassem alguma coisa, e tive a estranha impressão de que todas estavam pensando no meu tio, embora ele fosse descrito como uma figura reclusa e pouco conhecida, um remanescente de outra época. Tive a ideia de filmar depoimentos sobre ele, e meus pais permitiram que eu passasse uns dias sozinho na cidade. Ninguém conhecia intimamente meu tio mas parecia que todos tinham alguma coisa para dizer sobre ele. No início da década passada, ele abriu um pequeno consultório onde dava aulas de alongamento e pilates. A maioria das pessoas lembra dele como treinador de atletas para triatlo, e aparentemente meia dúzia de campeões estaduais e nacionais passaram por seu acompanhamento. Nas temporadas de verão ele abandonava suas atividades do restante do ano para trabalhar como salva-vidas. Ele era o melhor. Treinava os voluntários todo ano. Ao entardecer, após a jornada de doze horas fazendo resgates, atendendo casos de insolação e queimadura de água-viva, caminhando sob o sol brutal de uma região Sul desprovida de camada de ozônio, ele era visto nadando sozinho bem lá no fundo, ignorando mares agitados, chuvaradas e noites precipitadas. Era um homem solitário, mas em algum momento se casou com essa mulher que ninguém sabia de onde tinha aparecido e construiu uma casinha na encosta de um dos morros da chamada Volta do Ambrósio. Todo mundo que lembra do meu tio desde os velhos tempos menciona um cachorro manco que sabia nadar como um golfinho e entrava fundo no mar junto com ele. E o que podemos chamar de fatos terminam aí. O restante dos depoimentos é composto de uma sobreposição caleidoscópica de rumores, lendas e narrativas pitorescas. Diziam que ele era capaz de passar dez minutos embaixo d’água sem respirar. Que o cachorro que o seguia por toda parte era imortal. Que tinha enfrentado dez nativos ao mesmo tempo numa briga com as mãos limpas e vencido. Que nadava à noite de praia em praia e era visto saindo do mar em lugares distantes. Que tinha matado gente e por isso era discreto e recolhido. Que oferecia ajuda a qualquer pessoa que fosse procurá-lo. Que tinha habitado aquelas praias desde sempre e para sempre habitaria. Mais do que uma ou duas pessoas disseram não acreditar que ele estivesse realmente morto.»

[in Barba Ensopada de Sangue, de Daniela Galera, Quetzal, 2014]

Viver com isto

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O Filho
Autor: Michel Rostain
Título original: Le Fils
Tradução: Luísa Feijó
Editora: Sextante
N.º de páginas: 149
ISBN: 978-989-676-167-7
Ano de publicação: 2013

Encenador de ópera, Michel Rostain enfrentou, em Outubro de 2003, o mais inconcebível dos sofrimentos: a morte do filho único, Lion. Aos 21 anos, o jovem sucumbiu em poucas horas a uma meningite fulminante. O Filho é o relato detalhado de como um casal atravessou o caos da dor e o longo processo do luto, encontrando no fim do caminho motivos para dar sentido à vida e para gritar, como o pai em lágrimas à saída da morgue, «Viva o sol! Viva o sol, apesar de tudo!». Fragmentário, desamparado, por vezes brutal na sua sinceridade, este livro honesto olha-nos nos olhos. E mostra apenas, sem pathos, a paisagem depois do desastre.
Na escrita, Rostain preferiu inverter os papéis. O narrador não é o pai destroçado; é antes o filho, o morto, uma espécie de fantasma que o texto inventa e reclama. Esta projecção podia ser mero malabarismo formal – ou talvez um mecanismo de defesa. Depressa compreendemos, porém, que há neste jogo arriscado algo que permite a Rostain aproximar-se da verdade, nem sempre redutível a palavras, do que experimentou. Após o choque da perda, assistimos ao desnorte natural de quem se torna, absurdamente, «herdeiro» do filho, procurando pistas e respostas em todos os seus despojos, sejam notas em cadernos escolares, peripécias contadas por amigos ou mensagens para a namorada no telemóvel. Imerso até ao pescoço no «tempo da morte», ele rememora momentos felizes, arrepende-se do que poderia ter feito e não fez, vai num instante da racionalização ao delírio, agarra-se à infelicidade e não tem pejo em comprazer-se no choro, até porque é incapaz de vestir a pele do «estóico moderno».
Com a bússola da vida a girar «em falso», Rostain mostra as suas fúrias, as suas quebras, o desalento e o consolo, mas também o impulso mórbido que o levou a fotografar o filho enquanto «cadáver metralhado pelos impactos dos meningococos violeta», entre soluços, «na sala de reanimação onde já não reanimavam». Eis a tecnologia ao serviço do memento mori: «Antigamente faziam-se moldes da mão do morto, que depois se punham sobre o fogão de sala. Hoje fazem-se fotografias que se retocam e arquivam.» Cena assombrosa: a solidão de um homem diante do computador, a acariciar o filho «por pixels interpostos». O homem que depois se insurgirá contra o «bulldozer das exéquias» e o «horror burlesco» dos rituais funerários, encenando com a mulher um cerimonial com amigos e música, digno da memória do filho.
Embora a dor nunca desapareça, Rostain dá razão a um amigo que passou pelo mesmo: é possível «viver com isto». De que maneira? Transformando o luto em histórias. Como a das cinzas de Lion, enterradas no flanco de um vulcão islandês, o Eyjafjallajökull, que haveria de explodir, anos mais tarde, numa espécie de justiça poética: «Em certos dias, os meus pais inspiram fundo as minúsculas partículas de cinza que descem do Grande Norte até ao sul da Europa, como se elas viessem de propósito carregadas de mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O que aí vem (Bertrand)

O Jogo, de Anders de La Motte; Nós, os Afogados, de Carsten Jensen; Os Donos Angolanos de Portugal, de Francisco Louçã, Jorge Costa e João Teixeira Gomes; Mudar o Futuro (exigir o impossível), de Noam Chomsky; Introdução à Política, de Diogo Freitas do Amaral.

Um poema sobre CR7, no dia em que chorou ao receber a segunda e merecidíssima Bola de Ouro para o melhor jogador de futebol do mundo

CRISTIANO RONALDO, O Nº 7 DE PORTUGAL

Às três o árbitro apitou para o jogo começar
mas o nosso avançado não percebeu, estava a limpar
o nariz. A bola passou por ele
na maior das calmas,
o nosso defesa teve de ir à jogada,
atrapalhou-se e caiu – ninguém bateu palmas.
O guarda-redes fez-se ao lance,
parecia senhor da situação,
mas a bola passou-lhe por cima da cabeça
e entrou na baliza junto ao travessão.
Está-se mesmo a ver que vamos perder,
a selecção está em saldo.
Mas atenção porque vai entrar,
com a camisola nº 7, Cristiano Ronaldo!

Pede logo que lhe passem a bola,
levanta-a e pára-a no peito,
muda de velocidade e vai por ali fora,
faz uma finta, faz outra, até que lhe sai ao caminho
um daqueles defesas que não brincam em serviço:
Deixem-no comigo, é limpinho.
Tentou o desarme
mas não teve sorte,
porque Ronaldo aplicou-lhe uma finta de morte
e deixou-o pregado ao relvado.
E Ronaldo prossegue a jogada,
com a bola bem controlada,
ultrapassa o guarda-redes
e atira para a baliza deserta.
O estádio quase vem abaixo: Golo!
E ainda meteu mais seis,
todos de belo efeito.
Segundo Paulo Bento, começou no banco por precaução
mas mais uma vez demonstrou que é um grande campeão.

[in A Borbulha no Rabo, de Gez Walsh, versão em português de Helder Moura Pereira, edição Companhia das Ilhas, 2013]

Maravilhas da paternidade

Pedro: Hoje inventei um novo sinal de pontuação.
Eu: Ah, sim? Qual?
Pedro: O ponto final açucarado.
Eu: Explica lá.
Pedro: É um ponto final com um coração desenhado à volta.
Eu: E serve para quê?
Pedro: Serve para fechar as frases que sejam doces ou de amor.

A Urgência da Literatura

«Que livros e leitores queremos? Que país temos?», perguntam Helena Buescu e António Carlos Cortez. Algumas respostas vão ser dadas durante este fim-de-semana, no CCB, em sessões na Sala Luís de Freitas Branco, com entrada livre.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges