Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Teolinda Gersão, por José Mário Silva
Passagens, de Teolinda Gersão (Sextante), por José Mário Silva
O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman (Presença), por José Guardado Moreira
O Fim do Poder, de Moisés Naim (Gradiva), por Luís M. Faria
Vidas Instáveis, de António Mega Ferreira (Abysmo), por Pedro Mexia

Do sítio das palavras

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Tudo são histórias de amor
Autora: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 161
ISBN: 978-989-671-198-6
Ano de publicação: 2014

No novo livro de contos de Dulce Maria Cardoso – Tudo são histórias de amor: título enganoso e de uma ironia amarga, como o leitor rapidamente perceberá – os textos são quase sempre construídos a partir de um núcleo central ocupado por uma imagem muito poderosa, cuja carga dramática, ou poética (ou ambas), se expande depois ao resto da prosa, contaminando-a; isto é, iluminando-a. Pode ser a aparição de uma beleza angélica num «além-mundo azul», a ilha do primeiro conto, com a população de faroleiros e suas famílias a devorarem a cesta de cerejas trazida pela forasteira («O sumo vermelho escorria-lhes pelos queixos e pelas mãos»), prenúncio de uma carnalidade que destruirá a inocência do narrador, inclinando-o de vez para o exercício do mal. Pode ser um cão habituado a roubar nacos de carne ao talhante e que um dia aparece em casa com a perna de um bebé, uma «perna rechonchuda que terminava num pé gordo com cinco dedos perfeitos». Pode ser uma mosca a debater-se dentro de um copo com resto de vinho rosé, durante uma tépida disputa conjugal.
Duas destas imagens fortes são protagonizadas por automóveis. Em Os anjos por dentro, a história de tensões familiares contidas, na sequência de um piquenique junto ao rio, desemboca numa situação fantástica quando o narrador, acompanhado pelo irmão e pela mãe, avança por um atalho, a subir, e depara com um Opel Kapitan em sentido contrário, «animado por vontade própria», sem ninguém ao volante, pronto a esmagá-los. De repente, o carro parou, «simplesmente», impossivelmente, «como se se tivesse esquecido de como as coisas são». Esta espécie de milagre torna-se um tabu («Nunca falámos sobre o que aconteceu naquele dia ao voltarmos do rio»), mas a sua força reverbera e dá sentido à «violência do amor» que pressentimos, subterrânea, por baixo do que é dito. «Talvez não tenha acontecido tudo exactamente como contei», admite ainda assim o narrador.
E alguma vez contamos as coisas exactamente como aconteceram? Veja-se a narrativa inspirada no célebre caso do desaparecimento de Joana, a menina algarvia de oito anos cuja mãe foi condenada por homicídio. Há elementos que nos aproximam do hediondo crime (alguns factos, a brutalidade dos interrogatórios policiais, a confissão, os impulsos da justiça popular), mas Dulce Maria Cardoso logo introduz uma dimensão quase onírica que anula qualquer tentação realista, justamente através da imagem de um automóvel, um Volkswagen carocha amarelo, brinquedo preferido da menina. Esta, antes de desaparecer sem deixar rasto, escondera-o debaixo de terra como se fosse «uma boa semente», da qual virá a nascer, no arrepiante final do conto, um «carocha amarelo verdadeiro». Em Não esquecerás, o ponto de partida é outra história real: a do acidente de Entre-os-Rios, quando um dos pilares da Ponte Hintze Ribeiro ruiu, arrastando dezenas de pessoas para as águas do Douro. «Tu, leitor, vem cá, caminha comigo na berma desta estrada», diz-se logo de início, e assim somos levados debaixo de chuva até ao autocarro que parou ali adiante, resgatando quem procura escapar da intempérie. Lá dentro, alegres por terem visto as amendoeiras em flor, estão as futuras vítimas. Pessoas normais, gestos normais, vidas normais. A tragédia está aqui, nesta normalidade ameaçada, a poucos minutos de mergulhar no abismo da morte. Transformados em personagens sem nome, os passageiros são como que redimidos do destino que a negligência do Estado lhes teceu. E aqueles cabelos de rapariga, «suspensos no ar quando a cabeça se volta», pairarão assim para sempre na memória do leitor que, como a história, não chega a atravessar a ponte.
Num texto autobiográfico, em que conta como «matou» uma parte de si mesma para poder ser ficcionista, Dulce Maria Cardoso afirma: «Escrever é espreitar outras vidas. É contar mentiras e acreditar que isso é bom.» Neste livro, as vidas espreitadas estão muitas vezes sujeitas ao império da maldade, própria ou alheia, essa «planta carnuda» que lança «ramos vigorosos para todo o lado». Num dos contos mais negros, Humal, um ser monstruoso só comove os aldeões com a beleza do seu canto quando é sujeito a torturas físicas: «Para que as criaturas fornecessem o bem de que eram capazes era preciso infligir-lhes sofrimento. Mas isso sempre foi um trabalho simples: há sofrimento em abundância neste mundo de Deus e consegui-lo é das coisas mais fáceis.» São vários os contos do livro (por exemplo, Este azul que nos cerca ou Iguais) em que esta brutalidade visceral se manifesta. Entregues ao «martírio de pensar» e incapazes de «domar o tempo», as personagens são como pequenos animais indefesos, à mercê tanto da «solidão do que envelhece» como da «impiedade do que é novo». Acima deles, a autora monta as armadilhas e observa com rigor clínico. Quanto à escrita, exemplar, é sempre feita a partir do «local do crime». Isto é, «do sítio das palavras».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com José Rentes de Carvalho, autor de Portugal, a Flor e a Foice (Quetzal), por José Mário Silva
Tudo são histórias de amor, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China), por José Mário Silva
O Vidro, de Luís Quintais (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
A Guerra que Acabou com a Paz, de Margaret MacMillan (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Últimas pétalas da metralha

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Os Memoráveis
Autora: Lídia Jorge
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 342
ISBN: 978-972-20-5436-2
Ano de publicação: 2014

Numa casa de madeira e vidro, em Washington, Frank Carlucci, o antigo embaixador americano em Lisboa, tenta convencer uma repórter portuguesa, de 28 anos, a participar numa série da CBS, com coordenação do seu afilhado, Robert Peterson. Em A História Acordada, a ideia é reunir um conjunto de narrativas edificantes, «luminosas», próximas do «júbilo», sobre transições pacíficas para a democracia: na República Checa, na Hungria, na Alemanha quando caiu o Muro, e, antes de todas essas, em Portugal, a cuja Revolução dos Cravos será dedicado o primeiro episódio. Esta cena, a primeira de Os Memoráveis, decorre no final de 2003, a poucos meses do trigésimo aniversário do 25 de Abril.
Aceitando regressar à pátria em trabalho, depois de ter vivido experiências traumáticas em cenários de guerra, Ana Maria Machado tem como missão «recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa». Fazendo equipa com dois colegas de curso, também já nascidos em liberdade (uma jornalista instintiva, capaz de aprender depressa; e um operador de câmara a tender para o distanciamento cínico), ela começa a sua busca das «últimas pétalas da metralha» tendo como bússola uma fotografia encontrada em casa do pai. Nessa imagem, captada durante um jantar em Agosto de 1975, sentam-se à mesma mesa vários pesos-pesados da Revolução, escondidos atrás de alcunhas que são fáceis de descodificar: El Campeador é Otelo Saraiva de Carvalho; Charlie 8 é Salgueiro Maia; Vasco Lourenço, o Oficial de Bronze. Mas há mais gente: um castiço da rádio com «olhar guevarista» (Salamida, responsável por um incidente, ao benzer de forma imprópria o conteúdo de uma terrina, que envenenará a noite), o próprio fotógrafo, o cozinheiro, três barbudos «esguedelhados», o pai e a mãe de Ana Maria, um casal de poetas.
A força da fotografia está na «dimensão testemunhal de um momento acontecido nas costas da história» – isto é, no lugar onde se esboçou o que poderia ter sido e não foi. Naquela noite de desavenças e reconciliações, os oficiais presentes traziam papéis dobrados no bolso da camisa, documentos que mudariam, se assinados por todos, «o rumo deste país». Mas não mudaram coisa nenhuma, como se perceberia definitivamente três meses depois. Ao entrevistar uma a uma aquelas figuras, a equipa de jovens jornalistas vai entrando no labirinto da revolução, «fábula» contada por quem a viveu. Além de se evocarem as contingências, acasos, «milagres» e mitos daquele dia em que cinco mil heróis anónimos derrubaram um regime podre, surgem – dolorosas – as marcas de um falhanço colectivo que condenou estes homens «à perda e à desilusão». No seu desamparo, eles assemelham-se à imaginária vigésima quinta coluna, um «comboio de carros militares que durante trinta anos não encontra o objectivo, e apesar de se ir desfazendo, perdendo rodas, espelhos, torres, traves, condutores, não desiste do seu propósito, e vai avançando ruas fora, sem parar».
Lídia Jorge articula, com mestria narrativa e requinte estilístico, os vários ângulos desta investigação, na procura de uma verdade a que talvez seja impossível fazer justiça, como se comprova no guião final do episódio (terceira e última parte do romance). O esteio de Os Memoráveis, que lhe dá consistência e espessura, é a história da difícil relação entre Ana Maria e o pai, António Machado, «figura de papel», antigo cronista de referência, «profeta em relação ao mundo» mas «cego em relação a si mesmo». Na sua decadência, no seu penoso processo de desligamento e clausura, ele simboliza todos os derrotados, mesmo os póstumos. E é dele que emana a melancolia que atravessa o livro de ponta a ponta.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Para Isabel, de Antonio Tabucchi (Dom Quixote), por Pedro Mexia
Génio, de Harold Bloom (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Os Memoráveis, de Lídia Jorge (Dom Quixote), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Lídia Jorge, autora de Os Memoráveis (Dom Quixote), por José Mário Silva
A Porta para a Liberdade, de Pedro Prostes da Fonseca (Matéria Prima), por Alexandra Carita
Microenciclopédia de micro-organismos, microcoisas, nanocenas e seus amigos de A a Z, de vários autores (Associação Prado), por José Mário Silva
Kassel não convida à lógica, de Enrique Vila-Matas (Teodolito), por Pedro Mexia
Obras Escolhidas I, de Virginia Woolf (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Mário e o Mágico, de Thomas Mann (Dom Quixote), por José Guardado Moreira

Um todo a partir de muitas vozes

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Teoria dos Limites
Autora: Maria Manuel Viana
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-989-8580-19-1
Ano de publicação: 2014

No funeral de um grande Escritor, reúne-se o seu círculo mais íntimo: a filha, Mariana; as sobrinhas (Ana Sofia e Ana Lúcia); o irmão mais velho; a mãe. Cada um deles assumirá, a seu tempo, o primeiro plano da narração, através de uma rede apertada de monólogos interiores, sonhos, segredos, factos remotos que subitamente se acendem na memória, um novelo que dá sentido à história de uma família ao mesmo tempo tão complexa e tão vulgar como outra família qualquer.
O vértice da ficção é carregado por Mariana: a hipótese de existir um livro póstumo do Escritor, de quem foi secretária e que nunca a tratou como filha – sendo que a mãe, desaparecida de cena quando ela era bebé, permanece um mistério familiar. Nesse livro, com título escolhido (Teoria dos limites), tudo remeteria para as ideias de Leibniz e a sua «concepção do mundo», nomeadamente a monadologia, a «pirâmide dos mundos possíveis» e a língua universal imaginada pelo filósofo alemão.
Mais interessante do que a suspeita de que esse livro vago e por completar, cujo material se resume a oito páginas A4 cheias de esquemas enigmáticos, possa ser o próprio romance que estamos a ler; mais impressionante do que a subtil assimilação dos princípios leibnizianos (sobretudo o que defende a «construção de um todo a partir de muitas vozes»); mais entusiasmante ainda do que a perfeição estrutural da ficção labiríntica é a escrita de Maria Manuel Viana, o fulgor de uma prosa que atravessa, como um cometa, os lugares sombrios ou precários das personagens. Este é um romance denso, melancólico, belíssimo, sobre o que há de mais profundo e frágil 
na condição humana.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges