Memórias de 74

lembro-me

Lembro-me que
Autor: Ferreira Fernandes
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 127
ISBN: 978-989-722-092-0
Ano de publicação: 2014

O conceito deste livro, Ferreira Fernandes foi buscá-lo a Georges Perec (Je me Souviens, 1978), que já o tinha colhido do americano Joe Brainard. A ideia é recuperar o passado através de flashes, pequenos fragmentos de prosa acesos por uma invocação («Lembro-me que…») – ao mesmo tempo um trabalho da memória e um «exercício poético». Recorrendo a este mecanismo narrativo, Ferreira Fernandes não enveredou pelas reminiscências pessoais (como Brainard) nem pelas impalpáveis nostalgias quotidianas (como Perec). O objectivo era outro: «Pretendo contar uma bela data de Portugal, o 25 de Abril de 1974, lembrando pequenos e menos pequenos instantes que imediatamente a antecederam.» Ou seja, episódios ocorridos num período de quase quatro meses, entre 1 de Janeiro e o «grande dia». Dez anos após a primeira edição (Oficina do Livro), Lembro-me que volta em boa hora para nos mostrar como era Portugal em vésperas da grande mudança.
Cronista exímio, capaz de fixar e enquadrar num só parágrafo um detalhe retirado da actualidade, Ferreira Fernandes transpõe essa sua arte para os 327 fragmentos que compõem o livro. O segredo está na atenção aos factos aparentemente insignificantes que tantas vezes sinalizam metamorfoses em curso. Como os exemplos de escrita cifrada em que os jornalistas portugueses da época se especializaram, ao falarem de meteorologia ou futebol. Também há aproximações, à vol d’oiseau, ao lado mais prático ou trivial do dia-a-dia: «Lembro-me que ir ao café ficava por 4$50. Três vezes 15 tostões assim divididos: 1$50 para o café, 1$50 para o jornal e 1$50 para engraxar os sapatos»; «Lembro-me que os autocarros do Porto mudaram do verde para o laranja». Eis a vidinha do cidadão comum; a crise do petróleo que aumentou a galope o preço da gasolina (e não só: «Nas ourivesarias já não havia benzina para reparar os relógios»); a publicidade; os desmandos da Justiça; as delações mesquinhas; a criação da DECO (era vice-presidente «um engenheiro de bigodinho, de 24 anos, António Guterres»); as artimanhas para enganar a censura; a euforia com o Festival da Canção, esse «vício anual». O retrato é o de um país em que já era possível ler, nas entrelinhas, o que aí vinha, tornando ridículas as ilusões públicas de quem – exercendo o poder – não via, ou fingia não ver, que esse poder estava a chegar ao fim.
Ferreira Fernandes não escreve a partir da sua memória directa, porque durante o período em causa vivia exilado em França, de onde regressou na madrugada do 1.º de Maio de 1974, num comboio «com as bandeiras vermelhas e negras ao vento, atravessando a Espanha franquista». A distância até lhe confere, porventura, uma maior lucidez na selecção do que admite serem «falsas recordações», assumidamente «escolhas de jornalista compulsadas em jornais da época». Quando escreve «LEMBRO-ME», em maiúsculas, no fragmento final, sem mais nada, escreve no fundo: «LEMBRAMO-NOS». Porque estas memórias não são de um indivíduo, mas de todos nós.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Lembro-me que, de Ferreira Fernandes (Quetzal), por José Mário Silva
O Futuro da Mente, de Michio Kaku (Bizâncio), por Luís M. Faria
Vida após Vida, de Kate Atkinson (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
No Limite da Dor, de Ana Aranha e Carlos Ademar (Parsifal), por Valdemar Cruz
Lusitânia, de Almeida Faria (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Literatura infantil em Portugal: boom ou bang?

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Auto-retrato de Catarina Sobral (clique para aumentar)

Depois de um primeiro livro, Greve (2011), sobre pontos – ortográficos, verdes, de fuga, de encontro, etc. – que se recusam a fazer o que deles se espera, e de um segundo que funciona como um elegante «travelling urbano» (Achimpa, 2012), Catarina Sobral lançou, já este ano, O Meu Avô, uma história de duas pessoas que se cruzam no dia-a-dia, cada uma no seu tempo. Foi com as ilustrações desta obra que a autora, nascida em 1985, participou na exposição da Feira do Livro Infantil de Bolonha, no final de Março. Entre 41 candidatos de todo o mundo, a organização da Feira decidiu atribuir-lhe o prémio internacional de ilustração para jovens com menos de 35 anos, no valor de 21 mil euros, um reconhecimento que colocou a literatura infantil portuguesa sob os focos da atenção mediática.
Para Catarina Sobral, os efeitos do prémio já se fazem sentir: «A venda de direitos vai levar um empurrão. Há mais editoras estrangeiras atentas ao meu nome. E acho que isto me pode abrir portas lá fora.» Carla Oliveira, responsável pela Orfeu Mini, editora dos três livros, corrobora com entusiasmo, orgulhando-se da aposta feita. «Pela primeira vez, apercebemo-nos de uma relação de causa-efeito, porque as vendas de O Meu Avô nas livrarias aumentaram efectivamente na semana que se seguiu à atribuição do prémio.» Já vendido para França, Brasil, Suécia e Itália, o livro começa também a ser procurado por muitos editores estrangeiros que até aqui não tinham manifestado interesse, «talvez por desconhecimento».
Ana Castro, da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, vê neste sucesso mais uma etapa de um processo de internacionalização que teve início em 2005, com a criação de um programa anual de apoio à edição de ilustradores portugueses no estrangeiro. «Os resultados têm sido muito melhores do que nós esperávamos. De início, as editoras ficavam expostas no nosso pavilhão, em Bolonha. Hoje, a Planeta Tangerina já tem um espaço próprio. E há uma espécie de moda em torno da ilustração portuguesa. É um boom de oferta e sobretudo de qualidade. Um boom que se alimenta de si mesmo, com o êxito de uns a abrir caminho para os outros.»
Em 2013, a Planeta Tangerina também saiu de Bolonha com razões para sorrir, ao receber o prémio de melhor editora europeia do ano no segmento infantil. De então para cá, Isabel Minhós Martins, fundadora do projecto, assinala que o volume de negócios cresceu ligeiramente, muito à custa das vendas de direitos para o estrangeiro, que subiram 50% depois da atribuição do prémio, passando a incluir mercados asiáticos (China, Taiwan e Coreia do Sul). De resto, a venda de direitos para o estrangeiro já representa 40% do total da facturação. A expansão internacional deve-se sobretudo «ao salto qualitativo gigante revelado pelos ilustradores portugueses», nem sempre acompanhado pela escrita. «É mais difícil encontrar bons textos. Temos excelentes escritores, mas nem todos escrevem para a infância/juventude. Não é uma coisa que se decida por decreto.»
Apesar do êxito internacional, a Planeta Tangerina continua a publicar poucos livros (sete por ano) e as vendas em livraria não cresceram. O mesmo se passou com a Orfeu Mini. «Os dois últimos anos foram de contenção. Entre novidades e reedições, publicámos uma média de cinco álbuns ilustrados por ano.» Sediada na Figueira da Foz, a Bruaá regista uma actividade ainda mais restrita: três livros por ano. Miguel Gouveia, um dos dois sócios da editora, tem uma noção muito concreta do modo como a crise económica afecta o consumo dos livros: «Nem de propósito, estou neste momento a desempacotar uma devolução enorme feita pela FNAC. A realidade é esta que tenho aqui à minha volta e não permite grandes expectativas para o futuro próximo.» Se a estrutura leve das pequenas editoras lhes permite, apesar de tudo, manter o ritmo de publicação, o mesmo não se pode dizer das grandes editoras, que reduziram de forma significativa o lançamento de novidades. «Curiosamente, a esse decréscimo da oferta correspondeu um aumento de qualidade», defende Miguel Gouveia. «Passaram a publicar menos mas melhor, também porque o público, em parte devido ao bom trabalho das pequenas editoras, se tornou mais exigente.»
Ao boom de qualidade da literatura infantil portuguesa corresponde um boom comercial ou um bang? É difícil responder porque faltam, para este segmento, estatísticas e dados concretos, aliás como para o mercado livreiro no seu todo. Contactadas pelo EXPRESSO, as várias entidades que poderiam eventualmente fornecer números – da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) às empresas responsáveis pelos tops semanais, e às principais redes livreiras – ou recusaram a informação, ou ignoraram os pedidos, ou foram omissas. A rede de livrarias Bertrand, por exemplo, assume que «os livros infantis têm vindo a ganhar importância e peso nas nossas vendas, sendo hoje a nossa segunda maior temática», um «crescimento sustentado», fruto de uma «oferta maior e mais diversificada» que nasce também de «programas de promoção da leitura como o Plano Nacional de Leitura, entre outros». Sem números concretos, porém, não é possível avaliar a natureza e dimensão do referido «crescimento sustentado». Da mesma forma, o grupo Porto Editora garante apostar em «títulos de grandes autores portugueses, cujas obras são obrigatórias e/ou recomendadas nas escolas, com especial atenção para as crianças entre os seis e os nove anos, acompanhando assim o período fundamental de iniciação à escrita e criação de hábitos de leitura». Desde 2012, quando Sophia de Mello Breyner foi integrada no catálogo, a Porto Editora lançou livros de Luísa Ducla Soares, Manuel António Pina e Eugénio de Andrade. E quanto a vendas? A resposta de sempre: «Estamos a registar um crescimento muito interessante neste segmento, que, contudo, não podemos neste momento precisar.»
Especialista em literatura infantil, Ana Margarida Ramos, investigadora da Universidade de Aveiro, diz que esta área cultural vive um «momento muito interessante» e talvez irrepetível, na medida em que coexistem no tempo duas gerações muito diferentes. De um lado, autores com 30 ou 40 anos de carreira, como António Torrado, Luísa Ducla Soares, António Mota ou Alice Vieira; do outro, jovens que apostam em novas linguagens (Afonso Cruz, Isabel Minhós Martins, Carla Maia de Almeida, David Machado, entre outros), o que gera uma «imensa variedade de estilos e temáticas», com qualquer coisa de «caleidoscópico». O reconhecimento em festivais estrangeiros também é importante, mas Ana Margarida Ramos recusa euforias ou leituras demasiado positivas, porque «promover os ilustradores não chega» e é preciso «solidificar o trabalho que tem sido feito». Acabada de chegar de um congresso sobre literatura infantil em Atenas, garante que o conhecimento internacional em relação à produção portuguesa ainda é diminuto e «há muito por fazer».
Se as pequenas editoras conseguem manter o seu ritmo de edição, apesar da gravíssima crise económica, Isabel Minhós Martins vê nisso um sinal de resiliência. Logo, de esperança. «É preciso não esquecer o impacto do Plano Nacional de Leitura, mais o trabalho da Rede de Bibliotecas Escolares e da Rede de Bibliotecas Municipais, além do esforço imenso de alguns professores.» E das famílias, claro. »Elas continuam, apesar das imensas dificuldades, a valorizar muito o livro para a infância e a dar muita importância ao facto de as crianças lerem. Talvez por isso, mesmo as que se encontram em apuros continuem a esforçar-se para comprar alguns livros para os filhos.» Carla Oliveira acrescenta ainda, nas iniciativas que podem valorizar a ilustração infantil, exposições que ponham o grande público em contacto com o trabalho dos artistas, como a Ilustrarte (bienal que decorre na Central Tejo) ou a exposição “Como as Cerejas”, que esteve patente no CCB.

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Ilustração de Catarina Sobral para a capa do suplemento Actual (clique para aumentar)

Formada em Design, Catarina Sobral, que lançará uma nova obra durante a Feira do Livro (desta vez com chancela da Pato Lógico), sentiu-se atraída pela liberdade formal que a criação de livros infantis lhe permite. Em Greve, com o seu ambiente alusivo a lutas políticas e sindicais, explorou uma linguagem visual que remete para o construtivismo russo (colagens e sobreposição de fotografia com desenho), «uma coisa muito século XX». Já em O Meu Avô abundam as referências cinematográficas e literárias, algumas só acessíveis aos pais das crianças a que supostamente se dirigem. Supostamente, porque Isabel Minhós Martins garante que «são muitos os adultos que compram os livros da Planeta Tangerina (e outros do género) para consumo próprio».
Debruçada sobre o estirador, como se representou no auto-retrato, Catarina Sobral acredita que há de facto um boom da literatura infantil portuguesa, pelo menos em termos de qualidade artística. E promete continuar o seu caminho, tranquilamente, passo a passo. Controlando se possível, como acontece na Orfeu Mini, todas as fases do processo criativo, da planificação das páginas à escolha do papel e à verificação das cores na gráfica. «O livro de imagens não existe antes de se transformar num objecto físico. Um pdf ainda não é nada. Não se pode tocar. São os aspectos técnicos que determinam o que o livro será.» E é por isso que Catarina gosta de acompanhar tudo, até ao acabamento final. «Estou lá, quando as primeiras folhas impressas começam a sair da máquina.»

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

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No Dia Mundial do Livro, a Biblioteca Nacional oferece um e-book

A obra em formato digital, sobre gravuras chinesas da colecção de A. E. Maia do Amaral, pode ser descarregada aqui, até dia 25.

Movimento contínuo

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Inércia
Autor: André Carrilho
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 150
ISBN: 978-989-8688-07-1
Ano de publicação: 2014

André Carrilho (n. 1974) é um dos ilustradores portugueses mais premiados e reconhecidos internacionalmente, pelos trabalhos que publica amiúde em publicações de grande prestígio: New Yorker, The Independent on Sunday, Harper’s, Vanity Fair, New York Times, entre outras. Quem conheça o traço elegante das suas caricaturas e cartoons, ficará decerto surpreendido com as imagens que reuniu em Inércia, um belíssimo diário gráfico que cobre cerca de ano e meio de deambulações pelo mundo (Janeiro de 2012 a Agosto de 2013) – editado primorosamente pela Abysmo, em capa dura e com magníficas reproduções em papel couché mate.
Ao invés da sua produção para a imprensa, em que recorre aos mais sofisticados recursos tecnológicos, «os desenhos deste livro foram feitos presencialmente no local que retratam, à mão, com canetas, tintas acrílicas, grafite solúvel e aguarelas», nas páginas de um pequeno caderno, reproduzidas à escala real. O resultado é sempre deslumbrante, oscilando entre a abundância de detalhes (perspectivas urbanas) e uma apropriação difusa de atmosferas (paisagens rurais ou marinhas), servidas por uma paleta forte: vermelhos para as falésias da Costa Vicentina, amarelos para as margens do Douro, tons pastel para as praias de Moçambique, sombras e luzes para a noite de Macau.

A surpresa maior, porém, está na qualidade dos textos em que Carrilho descreve as suas derivas geográficas. Prosa atenta, desconcertante, por vezes irónica, mas sobretudo reflexiva – e saudavelmente avessa a lugares-comuns. A inércia a que o título alude não é a dos corpos que se mantêm estacionários, mas a dos que revelam tendência para «continuar em movimento». É sobre isso que o autor escreve, sobre o movimento contínuo a que se entrega, deslocando-se em permanência, de continente em continente, de voo em voo, de escala em escala, levando consigo o trabalho que envia por e-mail, fazendo questão de circular a «contra-ciclo» dos seus desenhos, numa espécie de «pendularidade simétrica». Precisa de se afastar de casa, onde fica «mais lento, mais ancorado», para ganhar «claridade e leveza». Mas dificilmente se encaixa na dicotomia clássica, a do turista versus viajante. «Ambos têm algo que eu não tenho: disponibilidade para o que encontram no caminho. A minha é limitada, continuo a trabalhar, muitas vezes não tenho tempo para olhar a paisagem.» Será talvez um nómada, alguém que se desloca mas não cria raízes.
Mesmo no outro lado do planeta, em cidades desconhecidas, Carrilho procura criar hábitos de familiaridade, «como se sempre lá tivesse estado». É capaz de passar dias inteiros na mesma esplanada, no mesmo beco, ignorando as dicas dos guias de viagem, até sentir que pertence àquele sítio, até ser capaz de o compreender na sua nudez quotidiana. E o instrumento dessa apropriação nunca deixa de ser o caderno: «Desenhar tem o poder de abrandar tudo, de me tornar mais imerso num canto particular da realidade. Não penso em mais nada a não ser no que estou a ver. Aliás não penso, olho. E é o desenho que encontra por mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Reportagem sobre a situação da literatura infantil em Portugal, por José Mário Silva
Inércia, de André Carrilho (Abysmo), por José Mário Silva
Eureka, de Puig Rosado (Documenta), por Alexandra Carita
Cartas de Cuba, de Ana Glória Lucas (Alêtheia), por Cristina Margato
Correspondência Agustina-Régio (1955-1968), org. de Alberto Luís e Lourença Baldaque (Guimarães), por Pedro Mexia
O Tigre e a Serpente, de Noreena Hertz (Lua de Papel), por Cristina Peres

Quatro poemas de Juan Manuel Roca

ARENGA DE UM QUE NÃO FOI À GUERRA

Nunca vi nos corrimões de uma ponte
A doce mulher com olho de assíria
Enfiando uma agulha
Como se fosse remendar o rio.
Nem mulheres sozinhas à espera nas aldeias
Que a guerra passe como se fosse outra estação.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Porque desde menino
Sempre perguntei como se ia à guerra
E uma enfermeira bela como um albatroz,
Uma enfermeira que corria por longos corredores
Gritou com grasnido de ave sem olhar para mim:
Já estás nela, rapaz, já estás nela.
Nunca fui ao país dos hangares,
Nunca fui porta-bandeira, hussardo, mujique de alguma estepe.
Nunca viajei de balão por eriçados países
Povoados de tropa e cerveja
Não escrevi como Ungaretti cartas de amor nas trincheiras.
Nunca vi o sol da morte a arder no Japão
Nem vi homens de grande pescoço
A repartir a terra num jogo de cartas.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Para ver a soldadesca a lavar os brancos estandartes
E de seguida a ouvi-los falar da paz
Ao pé da legião das estátuas.

***

CANÇÃO DO QUE FABRICA ESPELHOS

Fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de azougue:
O céu reflecte-se nos espelhos
E os telhados bailam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar noutra casa
Apagará os rostos conhecidos,
Porque os espelhos não contam o seu passado,
Não denunciam antigos moradores.
Alguns constroem prisões,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.

***

PARÁBOLA DA SOLIDÃO

Quando se desdobrava a solidão,
Quando descia a sua máscara de proa,
Convidava-a para um passeio na praia.
Muitas vezes
Levei a solidão aos bailes
Ou ao grande concílio de solidões
Que se agride nos estádios.
Para não a ver maltratada
Uma vez levei-a ao alfaiate
No meio de fatos vazios.
O costureiro
Com a boca cheia de alfinetes
Como um boneco vudu,
Desdobrou na sua mesa um pano negro.
Tirou as medidas à arisca solidão
E traçou a giz o seu molde.
Tinha a mesma medida da minha sombra.

***

POEMA INVADIDO POR ROMANOS

Os romanos eram maliciosos.

Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.

Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.

Os romanos, Cassandra, eram manhosos.

Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.

Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.

Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristão,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.

Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.

O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.

Os romanos dão muito em que pensar.

Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.

Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.

O tempo é romano.

[in Os Cinco Enterros de Pessoa, selecção e prólogo de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice, Glaciar, 2014]

Logo à tarde

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Clique para aumentar

Maratona poética com alguns excelentes e desalinhados poetas, a partir das 17h00, na Zona Franca (R. de Moçambique, 42, Lisboa).

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Gabriela Ruivo Trindade, autora de Uma Outra Voz (LeYa), e crítica ao livro, por José Mário Silva
O Enredo Conjugal, de Jeffrey Eugenides (Dom Quixote), por Pedro Mexia
Lava de Espera, de Fátima Maldonado (Companhia das Ilhas), por Manuel de Freitas
Cartas entre Marcello Caetano e Laureano López Rodó, de Paulo Miguel Martins (Alêtheia), por Manuela Goucha Soares
Plutocratas, de Chrystia Freeland (Temas e Debates), por Luís M. Faria

O eco dos fantasmas

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Biografia involuntária dos amantes
Autor: João Tordo
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-989-672-259-3
Ano de publicação: 2014

Desde que se estreou em 2004, com O Livro dos Homens sem Luz, João Tordo vem apurando, de romance para romance, uma das dimensões tradicionalmente mais frágeis na ficção literária feita por autores portugueses: o enredo. Fiel a uma linha anglo-saxónica, Tordo é um bom contador de histórias que domina a arte do diálogo, sabe gerar e gerir conflitos entre as personagens, conhece a estrutura dos arcos narrativos, coloca os plot points no sítio certo; enfim, aplica sem mácula um vasto conjunto de técnicas que aprendeu (e ensina) em cursos de escrita criativa. A principal consequência é uma espécie de legibilidade absoluta, sem escolhos. Por muito complexas que se tornem as tramas, por muito retorcidos que sejam os dilemas dos protagonistas, tudo bate certo, tudo se explica, tudo se justifica. E até a ambiguidade, quando existe, assume a forma de um imperativo racional. Ao escritor interessa levar cada história ao seu limite, desdobrá-la e estendê-la até onde ela consiga chegar. O trabalho sobre a linguagem, esse, é secundário, embora venha ganhando importância nos livros mais recentes. Em Biografia involuntária dos amantes é notório o salto na qualidade estilística, mas muitas das descrições de lugares, estados atmosféricos ou ambientes domésticos ainda se limitam a cumprir, com certo grau de artificialismo, uma função utilitária (de transição entre cenas, por exemplo).
O narrador deste romance é um professor universitário que vive em Pontevedra, na Galiza. Divorciado, com uma filha adolescente muito problemática, ele avança a passo de caracol na sua tese de pós-doutoramento sobre Harold Pinter e Sarah Kane, tem um programa de rádio com um nome beckettiano (Dias Felizes), e uma existência bastante monótona, para não dizer banal. Tudo muda quando se cruza com um poeta mexicano desterrado, Miguel Saldaña Paris, de quem se torna amigo. Quando este lhe pede, após um acidente em que atropelam um javali, para ler o manuscrito deixado pela ex-mulher, Teresa, recentemente falecida, vítima de cancro, inicia-se uma verdadeira descida aos infernos. Saldaña Paris não tem coragem de ler o texto deixado pelo objecto do seu amor obsessivo porque sabe que o «problema das palavras» não está no que permitem recordar mas no que «podem ajudar a destruir». A melancolia extrema do mexicano contamina então o narrador, ao descobrir no tal texto as primeiras memórias de Teresa, indiciadoras de um negrume tremendo que a investigação subsequente confirmará.
Decidido a «averiguar o passado para que este não se transformasse no monstro do futuro», o professor universitário pede uma licença sem vencimento e dedica-se a tempo inteiro ao amigo (entretanto internado no hospital, em estado catatónico), procurando solucionar aquela vida e dar-lhe sentido, para assim solucionar e dar sentido à sua. Parte então numa demanda, a de compreender a relação amorosa condenada de Saldaña Paris e Teresa, o que o leva a descer degraus atrás de degraus, até ao fundo de uma realidade duríssima e escabrosa, onde reverbera o «grito contínuo dos velhos terrores» de que fala um poema de Dylan Thomas. Pelo caminho, encontra muitas sombras e equívocos, uma corte de fantasmas e seus ecos. Vai da Galiza a Londres, depois ao Canadá e a Lisboa, seguindo pistas e indícios, sob o signo dos acasos, que o levam, entre outros, a questionar personagens que vêm de romances anteriores de Tordo, como Luís Stockman (de O Ano Sabático) ou Raul Cinzas (de Anatomia dos Mártires).
À semelhança de O Ano Sabático, este é um livro sobre o poder redentor da amizade. Na sua busca incansável para compreender a história de Saldaña Paris, o narrador não deixa pedra por virar nem ponta por unir. Infelizmente, essa exaustividade nem sempre joga a favor do romance. Há demasiadas conversas à mesa e ao telefone; quase sempre excelentes diálogos, mas muito parecidos uns com os outros. As melhores páginas do livro são as 80 do «manuscrito de Bríon», supostamente escritas por Teresa sobre a sua adolescência, a descoberta da sexualidade com um adulto, a obsessão por um tio e a fuga a uma família claustrofóbica. É um texto arriscadíssimo na temática e no tom, mas surpreendentemente bem conseguido – um sinal de que Tordo pode e deve sair da sua zona de conforto. No fim, ficamos com pena de que esse capítulo não seja mais longo e o resto do livro mais curto.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Autobiografia, de Thomas Bernhard (Sistema Solar), por Pedro Mexia e Ana Cristina Leonardo
Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo (Alfaguara), por José Mário Silva
Tenho o Direito de me Destruir, de Kim Young-ha (Teorema), por José Guardado Moreira
Canadá, de Richard Ford (Porto Editora), por Luís M. Faria

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges