Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Siri Hustvedt, autora de O Mundo Ardente (Dom Quixote), por José Mário Silva
Categorias e outras paisagens, de Fernando Echevarría (Afrontamento), por Pedro Mexia
Os Engenhos Necessários, de Miguel Cardoso (&Etc), por José Mário Silva
Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício, de Padre António Vieira (Círculo de Leitores), por Luís M. Faria
O Assassino do Aqueduto, de Anabela Natário (Esfera dos Livros), por Nicolau Santos

Esta coisa da alegria

joquei

Jóquei
Autora: Matilde Campilho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 135
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Eis um livro de estreia que nos esmaga com o seu desassombro. Leitora de Whitman e dos bardos da Beat Generation, Matilde Campilho lança-se, destemida, ao poema longo e de alta rotação metafórica. De Lisboa ao Rio de Janeiro, fazendo uso de um «dialecto muito novo» (a meio caminho entre o português ‘de cá’ e o do Brasil: linguagem híbrida, dúctil, coloquialíssima), Campilho revela uma ânsia de tudo abarcar – grandes gestos, pequenos objectos, a espantosa vibração das coisas que existem sobre a terra.
Cada poema funciona como um microcosmos que se expande, sem que saibamos para onde vai ou quando explodirá nas nossas mãos. O olhar da poeta é omnívoro, logo imprevisível: tanto a comovem as oscilações do sismógrafo sentimental como a estrutura do ácido desoxirribonucleico (ADN): «Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir». Tudo é susceptível de ser fixado por estes versos: um nascimento, um «rosto kodachrome», referências a poemas de Eliot e a esculturas de Chillida, invocações a santos, os «snipers das barricadas de Kiev», um imaginário nova-iorquino (verões quentes em Brooklyn e Coney Island), a bola de ouro de Cristiano Ronaldo ou as ondas de 22 metros da tempestade Hércules («e ao invés de vestir o escafandro / meu velho amor e eu / escolhemos ver a revolução aquática / a partir da bancada do bar»).
O principal mérito de Matilde Campilho é não pensar demasiado, é deixar-se ir no torvelinho, mas a sua criatividade vocabular e o modo fácil como cria imagens poderosas levam-na a perder-se, aqui e ali, nos labirintos de uma verve que às vezes se torna algo vazia, ou então ostensivamente pirotécnica. Quando acerta em cheio, porém, os seus poemas atingem um alto grau de conseguimento estético, como é o caso da toada enumerativa em Descrição da cidade de Lisboa: «Rapariga feita de átomos e sombra. (…) Rapariga de ossos partidos, rapariga dos óculos negros, rapariga em camisola de poliéster (…) Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama».
Coisa rara nos nossos dias, a poesia de Campilho é ainda de um exuberante optimismo, acreditando que o mundo se «vai salvar», que «a raça humana é toda brilho», que «esta coisa da alegria» ainda pode «dar muito certo» e que «Apesar das visitas / Breves do pavor / A beleza é tudo / O que permanece».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Matilde Campilho, autora de Jóquei (Tinta da China), e crítica ao livro, por José Mário Silva
Conservadorismo, de João Pereira Coutinho (Dom Quixote), por Pedro Mexia
História em Duas Cidades, de Charles Dickens (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Nós, os Afogados, de Carsten Jensen (Bertrand), por José Guardado Moreira
Autocataclismos, de Alberto Pimenta (Pianola), por Manuel de Freitas

Quatro poemas de Matilde Campilho

PRÍNCIPE NO ROSEIRAL

Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

***

COQUEIRAL

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

***

DESCRIÇÃO DA CIDADE DE LISBOA

A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.

***

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR

Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.

[in Jóquei, Tinta da China, 2014]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Felizes os Felizes (Quetzal), por José Mário Silva
Hamlet tinha um tio, de James Branch Cabell (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
Corpos Subtis, de Norman Rush (Quetzal), por Pedro Mexia
Homo Sacer e os Ciganos, de Roswitha Scholz (Antígona), por Ana Cristina Leonardo
A Riqueza Oculta das Nações, de Gabriel Zucman (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Escuro, de Ana Luísa Amaral (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
Véspera da Água, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Yasmina Reza, autora de Felizes os Felizes (Quetzal), por José Mário Silva
Segunda Voz, de Vítor Nogueira (Averno), por José Mário Silva
As Condições Locais, de João Almeida (Opera Omnia), por Manuel de Freitas
A História dos Judeus – Encontrar as Palavras, 1000 a.C. – 1492 d.C., de Simon Schama (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Dia do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Ir para Norte, ir para o LeV

L

A partir de hoje, e até domingo, vai ser bom regressar à Biblioteca Municipal Florbela Espanca (em Matosinhos), para assistir a mais uma edição do festival Literatura em Viagem, a oitava. A conferência de abertura, proferida por José Sócrates, está marcada para logo à noite (21h30). Haverá depois nove mesas de debate, com propostas de cartografia (mapas de conceitos); vários lançamentos e uma homenagem ao escritor José Rentes de Carvalho.
O Bibliotecário de Babel andará por lá e talvez também por aqui.

Baile de máscaras literário

baile
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Sábado à noite, no Porto. Para dançar com meninas (e meninos) que lêem.

Quatro poemas de Vítor Nogueira

REFÚGIO

Seja como for, só te podes culpar a ti mesmo.
De algum modo, sempre foste fascinado
pelas estrelas. Mas um céu nebuloso decidiu
juntar-se a ti, sombras opacas num jogo
complicado. Já não é como um vestido,
não podes espreitar por baixo. Setembro
traz consigo os dias curtos. Tens de encontrar
um refúgio, por mais pequeno que seja.

***

PAREDES

De repente não te sentes muito bem.
És a única pessoa numa sala cheia,
uma sala cheia de rostos que não se dissipam.
Estes retratos antigos deixam-te pouco à-vontade.
Ninguém sobe, ninguém desce, ninguém entra,
ninguém sai. E contudo, caro amigo,
todas as regras gerais têm excepções.
Talvez possas destruir o sistema só por gozo,
deixar os pregos sem nada, repartidos como estão
pelas paredes da sala. A memória, no entanto
(dentes grandes, aparelhos de colheita),
é mais forte e corajosa do que tu. Sentir isso
nas entranhas produz um grande vazio.

***

SEMENTES

É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

***

FORMOL

A casa por sob o sótão. O sótão por sobre
a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre
o mundo. À volta desta praça, quis o tempo
conservados em formol os edifícios, esquinas
de onde surgem cada vez mais perguntas
sem aviso. Escondida pela fachada do liceu
há-de estar ainda a velha biblioteca
onde Ulisses veio sentar-se à tua frente,
cotovelo esquerdo alicerçado no tampo
da secretária, braço servindo de coluna,
rematado em capitel pelo punho semicerrado
que lhe amparava o queixo e, acima do queixo,
o olhar e as ideias. Eras demasiado novo
para todos aqueles livros, todos aqueles ossos
arrumados nas estantes. Livros como este,
que se fecha sobre si e só dói a quem o escreve.

[in Segunda Voz, Averno, 2014]

Maravilhas da paternidade

Além de médica e paleontóloga, a Alice diz que no futuro será bailarina ao domicílio: «As pessoas telefonam-me e eu vou a casa delas dançar. É simples.» Já o Pedro mantém a ideia de ser veterinário, «mas só para tratar animais abandonados na rua». Eu pergunto: e quem é que te paga esse trabalho? «A Câmara Municipal, claro! Ou então as pessoas que no fim vão adoptar os animais, quando já estiverem bons.»

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Rui Zink, autor de A metametamorfose e outras fermosas morfoses (Teodolito), e crítica ao livro, por José Mário Silva
Gostamos tanto da Glenda, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
A Beleza e a Dor da Guerra, de Peter Englund (Bertrand), por Luís M. Faria
Livro Sem Ninguém, de Pedro Guilherme-Moreira (D. Quixote), por José Mário Silva

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges