Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Ensaio sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, por Pedro Mexia
Retrato de Rapaz, de Mário Cláudio (Dom Quixote), por José Mário Silva
Nas Bocas do Mundo – O 25 de Abril e o PREC na Imprensa Internacional, de Joaquim Vieira e Reto Monico (Tinta da China), por LUís M. Faria
Igor Dgah, de José Carlos Soares (Debout sur l’Oeuf), por Pedro Mexia
Mandriões do Vale Fértil, de Albert Cossery (Antígona), por Ana Cristina Leonardo
Crónica da Selva, de Tiago Salazar (A23), por José Mário Silva

Maravilhas da paternidade

Alice: Pai, sabes como é que se chama o homem que anda com o D. Quixote?
Eu: Sim. Chama-se Sancho Pança.
Alice: Pois é. Agora já sei. Mas ao princípio percebi mal o nome dele.
Eu: Então?
Alice: Pensava que se chamava Sem Esperança. Dom Quixote e Sem Esperança.

Uma agenda de catástrofes

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No Céu Não Há Limões
Autor: Sandro William Junqueira
Editora: Caminho
N.º de páginas: 415
ISBN: 978-972-21-2674-8
Ano de publicação: 2014

À semelhança do que acontecia nos dois primeiros romances – O Caderno do Algoz (2009) e Um Piano para Cavalos Altos (2012) –, depressa percebemos que a acção de No Céu Não Há Limões decorre num território puramente literário, de geografia e tempo indeterminados, que Sandro William Junqueira vai construindo, pacientemente, livro a livro. Se em Um Piano… tudo se passava numa cidade cercada por um muro de oito metros de altura, desta vez o cenário ganha a escala de um país dividido como um «pão de quilo cortado ao meio por uma faca de serrilha». Entre o Sul miserável, fustigado em permanência por calamidades naturais, e o Norte, aprazível, próspero, está em curso uma guerra que se disputa na Terra do Meio, o «paralelo» onde os combates decorrem sem sacrifício de civis e o balanço dos mortos adquire o carácter quase abstracto dos resultados desportivos.
Resumir as muitas pontas de um mosaico narrativo extraordinariamente complexo seria tão fastidioso quanto inútil. Digamos apenas que há uma peça de teatro em curso há 29 anos, com um protagonista que não sabe que o é, em torno do qual está montada uma vasta estrutura, cujos alicerces, vigas e alçapões vamos conhecendo aos poucos. No centro deste drama em tempo real, encenado na sombra por um dos homens mais poderosos do Norte (o Ogre, coração fraco mas cabeça de «sinapses rápidas»), está um Padre com problemas de fé e de consciência, marcado pela dúvida e pela incerteza quanto à bondade dos seus actos – como o acordo que leva os habitantes esfomeados do Sul a trocarem o próprio sangue por alimentos. Nos vários planos que a narrativa abarca, há lugar para todo o tipo de intrigas e jogos de bastidores, por onde circulam figuras mais ou menos sinistras, movidas sobre um tabuleiro imaginário como as peças de xadrez das partidas jogadas por telefone entre o Funcionário e o Bispo Auxiliar.
Neste mundo em que as pessoas são nomeadas por algo que as caracteriza ou pela sua função na sociedade (o Raquítico de Cabelo Ralo, a Médica-Cirurgiã, etc.), impera uma visão determinista do tempo. Há profecias que se cumprem, augúrios lidos por uma velha oracular nos restos de um limão espremido, a ideia de que as coisas acontecem porque têm de acontecer e porque os humanos não dominam verdadeiramente o rumo das suas existências («Se forças a corda do destino, ela parte-se. Se a folgas demasiado, ela não prende»). Diante do mistério, «a melhor ferramenta para ajustar a vida é sempre o espanto». Ou seja, a disponibilidade para aceitar os prodígios. E assim «aquilo que é turvo e curvo num segundo, no segundo seguinte pode iluminar-se numa reta».
O estilo continua a ser directo, vertiginoso, afiadíssimo. Frases curtas, muitos verbos, ritmo vivo, palavras sempre escolhidas a dedo («As que dão murros. E as que põem asas nas costas»). Sobre a mais memorável personagem do livro, a Adolescente, que endoidece os homens com os vestidos justos de frutos estampados, conta-se às tantas que a sua menstruação provocou um terramoto. «Era certo, o sangue provocava o sangue. As regras atraíam a desgraça. E as tragédias pareciam cumprir um calendário. Uma agenda de catástrofes. O seu útero e ovários pareciam estar ligados por fios invisíveis, tanto à rocha mais profunda como à constelação mais distante. E falavam uma linguagem comum. Um vocabulário transversal ao cosmos e à terra.» É essa linguagem comum, lírica e visceral, nascida do corpo e da paisagem, que torna a escrita deste autor uma das mais estimulantes da ficção portuguesa contemporânea.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

No Céu Não Há Limões, de Sandro William Junqueira (Caminho), por José Mário Silva
Vinte Degraus e outros contos, de Hélia Correia (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Intempérie, de Jesus Carrasco (Marcador), por José Guardado Moreira
Ensaios Escolhidos, de Virginia Woolf (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
40xAbril, de Vários Autores (Abysmo), por José Mário Silva

Tratado da violência

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A Máquina do Mundo
Autor: Paulo José Miranda
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 198
ISBN: 978-989-98019-9-8
Ano de publicação: 2014

O novo romance de Paulo José Miranda começa por provocar no leitor um sentimento de desconcerto. A quem pertence esta voz que nos fala em A Máquina do Mundo, louvando a violência como «o modo mais eficaz de se apagar o vazio dentro de nós» e a tortura mais brutal como «o expoente máximo» dessa mesma incensada violência? Trata-se de um assassino profissional, um agente turco a quem chamam «Camaleão» por ser mestre nos disfarces, uma espécie de 007 do Bósforo, excelente «a desemperrar» situações à força, especialista no uso de explosivos C-4, e que gosta de concluir os seus serviços com um tiro no coração das vítimas. Para ele, matar não traz angústias nem dilemas existenciais, é apenas uma forma como outra qualquer de ganhar a vida. Ao contrário da maioria dos seus companheiros de profissão, porém, Türker não se remete ao silêncio: «A minha violência começa sempre com palavras, com um discurso – nem que seja um simples ‘vai’, como se diz a um cão.» E é por trazer consigo um discurso, um pensamento sobre as acções cometidas, que a sua narrativa se torna interessante.
Logo desde os primeiros capítulos, quase sempre curtos, a escrita oscila entre a acção pura e dura, muito ao estilo dos thrillers de espionagem, e uma espécie de inusitado impulso teórico, como se Türker, nos intervalos da sua complicada missão, resolvesse esboçar um tratado filosófico sobre os fundamentos da violência, em que constaria, por exemplo, esta passagem: «O medo fica para além da tristeza. A tristeza é um medo pequenino, um medo de crianças. (…) O ser humano só é triste antes de ser torturado. A tortura acaba com a tristeza. A tortura é o exercício máximo do poder. Através da tortura mudamos o destino, mudamos a natureza das coisas.» Que um assassino profissional diga coisas destas, é estranho, mas aceita-se. Que em momento algum o livro se distancie desta voz, eis o que perturba, eis o que provoca o tal desconcerto do leitor, provavelmente desejado por Paulo José Miranda.
A ambiguidade estende-se à própria natureza do que nos vai sendo revelado. Ao fim de umas páginas, torna-se evidente que o romance está imerso numa realidade virtual, um jogo em que os jogadores têm objectivos a cumprir, ganhando e perdendo vidas pelo caminho (até um máximo de cinco), como em qualquer videojogo. Mas estaremos efectivamente num sofisticado simulacro lúdico, «literalmente oposto ao mundo da vida»? Umas vezes parece que sim. Outras vezes, instala-se a dúvida. O certo é que o narrador, acompanhado por uma irlandesa lindíssima e de eficiência sem mácula, treinada pelo IRA, vai cumprindo a sua missão – do Chipre do Norte a Hong Kong, da Turquia à Tailândia, de caríssimos restaurantes panorâmicos à «maior espelunca jamais vista no Ocidente», explorada por um «búlgaro maluco» – insistindo numa história de amor que nunca chegará a bom porto.
Paulo José Miranda é surpreendentemente expedito na articulação da sua intrincada trama, que aborda a perseguição aos praticantes da seita Falun Gong, na China (aprisionados em campos de concentração que funcionariam como «banco vivo de órgãos»), cuja iminente denúncia é o ponto de partida para uma cascata de acontecimentos que ameaça pôr em causa o equilíbrio geoestratégico mundial. Há qualquer coisa de pynchoniano neste tresloucado vórtice conspirativo, em que o planeta é visto como uma mega-empresa, a Existe Lda., «na qual apenas alguns participam nos lucros e os outros fazem o que lhes mandam, ainda que julguem que não é assim, que não estão a ser mandados, que têm livre-arbítrio social e político, ao invés de estarem a ser manipulados por quem realmente manda, por quem realmente decide, por quem tem os dados nas mãos». O problema é que falta a Miranda a desmesura e o génio de Pynchon, ou talvez apenas a capacidade de levar a loucura das suas histórias às últimas consequências. Aqui e ali, o narrador perde-se em atalhos que pouco ou nada acrescentam (sobre a História turca ou os tumultos provocados pelos traficantes de droga em São Paulo) e com isso o livro perde tracção, energia, capacidade de choque.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Sandro William Junqueira, autor de No Céu não há Limões (Caminho), por José Mário Silva
Maus, de Art Spiegelman (Bertrand), por Alexandra Carita
A Morte sem Mestre, de Herberto Helder (Porto Editora), por Pedro Mexia
Marsupial, de Catarina Nunes de Almeida (Mariposa Azual), por José Mário Silva
Sobre a Violência, de Hannah Arendt (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
A Máquina do Mundo, de Paulo José Miranda (Abysmo), por José Mário Silva
A Morte de Virgílio, de Hermann Broch (Relógio d’Água), por José Guardado Moreira
Exposição, de Jonathan Coe (Dom Quixote), por José Guardado Moreira

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Paulo José Miranda, autor de três novos livros editados pela Abysmo, por José Mário Silva
T. S. Eliot e Ezra Pound: uma tentativa de aproximação às suas vidas e obras, de Fernando Guedes (Verbo), por Pedro Mexia
Da Propriedade Literária e da Recente Convenção com França – Carta ao Senhor Visconde de Almeida Garrett, de Alexandre Herculano (&Etc), por Manuel de Freitas
O Mundo Ardente, de Siri Hustvedt (Dom Quixote), por José Mário Silva
Fortaleza Vermelha, de Catherine Merridale (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Arte de amonas

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Os Engenhos Necessários
Autor: Miguel Cardoso
Editora: &etc
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Os livros de Miguel Cardoso são animais difíceis de aprisionar na jaula de um texto. Por natureza, resistem ao exercício da domesticação crítica e mais ainda à paráfrase. É preciso ir lá, olhá-los de frente, ler o poema a arder na página. Assim com Os Engenhos Necessários, um bom exemplo da verve torrencial de MC. O poeta fala, o poeta observa, o poeta lembra outros poetas (pedindo versos emprestados a Whitman, Luiza Neto Jorge, Rimbaud), o poeta não sabe muito bem para onde vai, embaladíssimo, mas vai, o poeta deixa-se ir.
Entre inspirações e aspirações, há um sentido de urgência, uma necessidade de escrever «à pressa no meio da afasia», uma procura ávida de oxigénio para pulmões cheios de ferrugem: «a poesia é arte de amonas // o ofício de custar a respirar». À medida que avança, o poema rasga-se e vai sendo remendado, um «tecer do que é tecido», sempre consciente da «malha na meia». Cardoso gosta de acidentes e desvios, de interrupções, apartes e recomeços, de um coloquialismo que por vezes lembra Assis Pacheco, mas a tudo isto assistimos do alto da sua maquinaria verbal, em cujas entranhas pulsam potentíssimos «motores líricos».
O poema sabe que é poema e a auto-referencialidade explora os limites da ironia: «(três a doze linhas / as últimas duas tipo / toma e embrulha / ou toma lá que já almoçaste / a chamada anagnórise) // e haverá um estudioso que dirá // “Não está nada mal visto / Deixou só o nervo / É um talhante ao contrário”». Excelente definição de um poeta para quem a poesia é o reflexo de uma vontade de dizer o mundo. E se entre o mundo e os versos algo se perde, quando não se perde tudo, ao menos «um gajo tenta».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges