Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Entrevista com Mario Vargas Llosa, por José Mário Silva
Viagem pela Literatura Europeia, de António Mega Ferreira (Arranha-Céus), por Pedro Mexia
Rosa Candida, de Audur Ava Ólafsdóttir (Marcador), por José Guardado Moreira
Supergigante, de Ana Pessoa (Planeta Tangerina), por José Mário Silva
Impérios em Guerra, 1911-1923, de vários autores (Dom Quixote), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Andréa Del Fuego sobre As Miniaturas (Porto Editora) e crítica ao livro, por José Mário Silva
A Minha Breve História, de Stephen Hawking (Gradiva), por Virgílio Azevedo
Colheita, de Jim Crace (Presença), por José Guardado Moreira
Contos Vagabundos, de Mário de Carvalho (Porto Editora), por Pedro Mexia
Bem Hajam!, de Vassili Grossman (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
Estranhos Rebeldes, de Christian Caryl (Presença), por Luís M. Faria

Uma boca de sombras

enredos

Enredos
Autor: Rui Nunes
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 105
ISBN: 978-989-641-422-1
Ano de publicação: 2014

É impossível ler hoje a reedição de Enredos, livro publicado por Rui Nunes em 1987 (na desaparecida editora Rolim), sem ter presente que o escritor decidiu concluir a sua obra em 2013, com Armadilha. Não são raros os casos de autores que anunciam supostas retiradas, desmentidas meses depois – seja por rebate de consciência, seja por incapacidade de dizer não à avidez da máquina editorial. Dificilmente isso acontecerá com Rui Nunes, porque para a sua decisão contribuíram duas razões de força maior: um estado de quase cegueira que lhe impossibilita o próprio acto da escrita; e a consciência de que a sua linguagem atingiu um «momento final». Ou seja, um lugar a partir do qual já não é possível ir mais longe.
Podemos entrever esse lugar de absoluta rasura em Barro (Relógio d’Água, 2012), um texto que desconfia da capacidade que as palavras têm de dizer o mundo («ligar uma palavra a outra é já uma traição»). Em livros anteriores, Rui Nunes vinha sabotando os mecanismos e regras ficcionais, mas esse movimento de implosão narrativa atinge aqui uma espécie de apogeu. Por entre fragmentos e imagens que constroem o seu próprio sentido, numa paisagem rarefeita, o escritor inventa «uma língua de gumes», por vezes «reduzida a um sopro», muito mais próxima da poesia (há um diálogo permanente com Paul Celan) do que daquilo a que se convencionou chamar uma história. No fundo, assistimos a um espantoso apocalipse («talvez o fim de qualquer escrita seja a sua destruição»), uma ‘terra devastada’ que é ao mesmo tempo, na sua opacidade, um espelho onde o escritor se revela inteiro: «Há livros que acompanham uma vida: separam-se do seu autor e esquecem-no. Outros, confundem-se com quem os escreveu: são um corpo, uma dor, uma doença, um modo de morrer.» Paisagem que se prolonga, de forma talvez ainda mais radical, em Armadilha («acrescentamos incompletude à incompletude»).
Se olharmos para Enredos a partir dos livros finais, não só reconhecemos a voz de Rui Nunes – um tom despojado único na literatura portuguesa – como o início do tal processo de implosão dos códigos narrativos. Lá por baixo, o rastilho já estava aceso. Mas o romance (se é que faz sentido denominar assim uma obra tão inclassificável) ainda guarda alguma da ordem que se espera de um romance clássico: há personagens, diálogos, continuidade cronológica. Mesmo se essa ordem acaba por ser continuamente posta à prova, desviada, sujeita a tratos de polé. Na primeira parte, «Laços Familiares», assistimos às crises e dilemas de um jovem após a morte do pai (cuja decadência física, em contraste com o despertar sexual do filho, inspira as páginas mais admiráveis do livro). A segunda parte, «Laços Mundanos», é um mergulho no bas fond da prostituição lisboeta, num registo de sordidez onírica, como que ditado por «uma boca de sombra». A atmosfera saturada do livro, em que Portugal impõe o seu peso de pátria putrefacta, conduz-nos por fim à terceira parte, «Laços Patrióticos», que é talvez o mais devastador retrato alguma vez feito de Salazar.
O «ditador» senil dá couves aos coelhos, «verte as águas onde lhe apraz», cai da cadeira, e encena diante de nós o espectáculo da sua decadência, que tem tanto de burlesco (quando se põe de gatas na carpete, à procura de uma imaginária rã) como de trágico. No último parágrafo, metáfora cruel da podridão, sobre o seu corpo morto pairam varejeiras. São talvez as mesmas moscas que pousam nas feridas da criança que remexe com um pau o lodo no fundo de uma piscina, imagem central de Armadilha, escrito um quarto de século mais tarde.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

– 31 sugestões de livros para o Verão, por Ana Cristina Leonardo, José Guardado Moreira, José Mário Silva, Luís M. Faria, Luísa Mellid-Franco, Pedro Mexia e Sara Figueiredo Costa
– Conversa com Javier Cercas sobre o livro As Leis da Fronteira (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
Enredos, de Rui Nunes (Relógio d’Água), por José Mário Silva
A Neve e as Goiabas, de NoViolet Bulawayo (Teorema), por Ana Cristina Leonardo
Diários, de George Orwell (Dom Quixote), por Luís M. Faria
As Armas Secretas, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

As Leis da Fronteira, de Javier Cercas (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
Cláudio e Constantino, de Luísa Costa Gomes (Dom Quixote), por Pedro Mexia
A Técnica do Golpe Literário, de Pedro Piedade Marques (Montag), por José Mário Silva

O criador de maravilhas

retrato

Retrato de Rapaz
Autor: Mário Cláudio
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 139
ISBN: 978-972-20-5438-6
Ano de publicação: 2014

Sobre Leonardo da Vinci (1452-1519) não falta informação nem documentos que expliquem o seu percurso, o impacto tremendo que teve no seu tempo, a génese das grandes obras e descobertas. A vida íntima do mestre, porém, continua a ser um mistério. Nos milhares de páginas que deixou escritas, muitas delas em forma de diário, não se encontra registo de quaisquer experiências amorosas. Sabe-se que nunca casou nem teve filhos, mas é impossível determinar se manteve sequer relações sexuais, seja com homens ou com mulheres. No seu mais recente romance, Mário Cláudio explora ficcionalmente este campo de incerteza quanto à esfera dos afectos de Leonardo, partindo dos escassos factos verificáveis, mas evitando habilmente as armadilhas da pura especulação.
O livro analisa de perto o relacionamento conhecido com dois discípulos, Gian Giacomo Caprotti e Francesco Melzi, incidindo o foco em grande parte sobre o primeiro, justamente o «Rapaz» a que o título alude. Logo na primeira cena, vemos esse rapazito de dez anos, acabado de chegar à oficina do mestre, caracóis angélicos ainda «húmidos da barrela», a varrer o chão com uma vassoura de giesta. Fascinado diante de tamanha beleza física, na qual se esconde um «coração rebelde», Leonardo esboça-lhe o retrato, consciente de ser aquele um corpo inclinado para os maus caminhos: «nunca mais tentarei espetar-te asas nas espáduas porque o que diz bem contigo, meu Mafarrico, é um bom par de corninhos». O nome que lhe dá, Salai, significa isso mesmo: «pequeno demónio». E o malandrim encarregar-se-á de lhe dar razão e muita água pela barba, que Leonardo usava longa e encanecida. Findo o primeiro contacto, descreveu-o assim: «Ladrão e mentiroso, obstinado e cheio de ganância.» E logo abaixo: «Bem-vindo sejas, meu Patife.» Durante as décadas que se seguem, a relação raras vezes será pacífica, mas na «estratégia de traições consentidas, e de confessados roubos, em que ambos se implantavam, moldava-se-lhes uma amizade inquebrantável, difícil como as que desde sempre duram, e para sempre, escritas pelo trânsito dos astros na abóbada celestial». É sobre esta «amizade inquebrantável» que Mário Cláudio discorre, com a delicadeza e o recato de quem espreita por trás de um reposteiro, receoso de interferir.
À medida que o tempo passa, assistimos igualmente ao formidável trânsito do mais «ilustre criador de maravilhas» – sejam elas uma gigantesca estátua equestre para os Sforza, o falhado fresco sobre a Batalha de Anghiari, os estudos para a Mona Lisa (em que Salai se substitui ao modelo feminino) ou a extraordinária aventura de voar, numa máquina engenhosa a que os dois logo deitam fogo, como que para anular a audácia («Dirão um dia que não conseguimos, mas cada voo a si mesmo se inventa»). Depois de Milão e de um regresso a Florença, Leonardo termina os seus dias em França, onde Francesco Melzi, o fidalgote que organiza os papéis do mestre e o ajuda nas autópsias clandestinas, tenta substituir-se a Salai, sem sucesso, porque é deste que o génio sentirá falta quando se apaga, entre devaneios oníricos que envolvem uma emanação das Três Graças e uma «coroa de víboras».
Aproximação feliz ao universo renascentista, Retrato de Rapaz mostra Mário Cláudio no pleno domínio de uma escrita barroca – frases longas, trabalhadíssimas, muito buriladas –, prosa exuberante e faustosa, mas que vai além do artifício, directa ao que há de luz e sombra (ou seja, ao que há de esplendor humano) na figura de um génio único e do discípulo que nunca o abandonou.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges