Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, de José Saramago (Porto Editora), por José Mário Silva
As Velas da Noite, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Se Não Agora, Quando?, de Primo Levi (Dom Quixote), por Ana Cristina Leonardo
Até nos Vermos Lá em Cima, de Pierre Lemaitre (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
O Uso dos Venenos, de José Carlos Barros (Língua Morta), por Pedro Mexia
O Triunfo do Ocidente, de Rodney Stark (Guerra e Paz), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Romain Puértolas a propósito do seu romance A Incrível Viagem do Faquir que Ficou Fechado num Armário Ikea (Porto Editora) e crítica ao livro, por José Mário Silva
Stoner, de John Williams (Dom Quixote), por Pedro Mexia
Um Diário de Preces, de Flannery O’Connor (Relógio d’Água), por Alexandra Carita
Matéria, de Rosa Maria Martelo (Averno), por José Mário Silva
Quatro Casos Clínicos, de Sigmund Freud (Relógio d’Água), por Luís M. Faria

Quando a revolução chegou lá acima

1975

Mil Novecentos e Setenta e Cinco
Autor: Tiago Patrício
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 435
ISBN: 978-989-616-569-7
Ano de publicação: 2014

Em Trás-os-Montes, belo romance de estreia centrado numa aldeia da raia, Tiago Patrício ofereceu-nos uma espécie de requiem pela vida rural no interior, imediatamente antes da adesão de Portugal à CEE, com a promessa de fundos estruturais, auto-estradas e progresso económico. A narrativa era também um relato sobre o fim da infância, em torno de quatro crianças expostas de súbito à brutalidade do mundo dos adultos, tão cobiçado como temido. Depois da música de câmara desse primeiro livro, pode dizer-se que Patrício arrisca agora, em Mil Novecentos e Setenta e Cinco, a escala sinfónica.
Nos capítulos iniciais, assistimos ao regresso de Horácio a uma povoação não nomeada, no nordeste transmontano. O rapaz regressa para ver a avó muito doente, trocando «a Revolução de Lisboa por uma última visita à aldeia», mas a suspeita de que possa ser ele o protagonista do livro – talvez mesmo o herói de um romance de formação em atmosfera revolucionária – depressa se desfaz. Horácio é só mais um nome, só mais uma figura numa vasta galeria de personagens que atravessam, de fio a pavio, todas as maravilhas e ignomínias do PREC.
Tiago Patrício avança por este terreno armadilhado com pezinhos de lã, mostrando as várias faces de um conflito aberto, sem nunca tomar partido. Se não é lá muito lisonjeiro o retrato que traça dos Amadeus – família aristocrática com uma Criada Velha, vastas propriedades e hábitos de poder, aos quais se agarra com unhas e dentes –, os seus opositores também não ficam propriamente bem na fotografia. Valdemar, o mais radical dos dois agentes da mudança, deixa-se cegar por uma rigidez programática; enquanto Orlando, o moderado, resvala para compromissos que acabarão por liquidar as conquistas, lá mais para o fim do ano.
Seguindo cronologicamente o calendário, Patrício gere bem uma multidão de personagens e respectivos pontos de vista, mostrando com assinalável destreza narrativa todos os golpes e contra-golpes, as intentonas, as conspirações de taberna, as rixas, os espancamentos por engano, as manobras de diversão, e até um duelo de pistolas (interrompido por um coro de camponesas antes dos disparos fatais). A tensão por vezes irrespirável que paira sobre a aldeia atenua-se através do recurso ao humor. Ninguém escapa ao ridículo e este é distribuído democraticamente por todas as partes, em sequências hilariantes que o autor, também dramaturgo, condensa em cenas de perfeita respiração teatral, servidas por magníficos diálogos.
Numa terra onde as pessoas deixaram de morrer, o Coveiro assume aos poucos o papel de narrador/efabulador dos feitos dos vivos. As fronteiras entre o real e o inventado esbatem-se, à medida que vai entrando a chuva de inverno que tudo leva e dissolve, até à «normalização» definitiva. A dada altura, alguém diz que a Revolução «é a coisa mais linda do mundo, tem assim uma figura de mulher fogosa e cheia de consolos, mas se não a soubermos cativar vai-se embora e fica cá outra vez a velha senhora». Todos sabemos como acabou a história.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Tiago Patrício a propósito do seu romance Mil Novecentos e Setenta e Cinco (Gradiva) e crítica ao livro, por José Mário Silva
O Pintassilgo, de Donna Tartt (Presença), por Luís M. Faria
Sonhos de Bunker Hill, de John Fante (Alfaguara), por Pedro Mexia
As Aventuras de Marina Pons, de Lázaro Covadlo (Porto Editora), por José Guardado Moreira

Poemas em torno do Café Gelo

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«POETAS DO POVO / POESIA DO GRUPO DO CAFÉ GELO / 8 Set, 22h00
Com Fernando Pinto do Amaral, José Mário Silva, Clara Andermatt e Nuno Miguel Guedes, acompanhados pela música de Vítor Rua.
O grupo do Café Gelo era constituído por diversas personalidades artísticas como Manuel de Lima, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria Raul Leal, António José Forte, Ernesto Sampaio, Herberto Helder, José Escada, René Bertholo, Gonçalo Duarte, João Rodrigues Vieira, Helder Macedo, Manuel de Castro, António Barahona da Fonseca, entre outros que, no final dos anos 50, se reuniam neste mítico café da baixa Lisboeta.
Nesta sessão recordaremos a tertúlia que se pode considerar a segunda geração do movimento surrealista português.
Nas palavras de António José Forte, “um verdadeiro escândalo, que não era provocado por um manifesto, por um grupo com nome próprio, por uma revista, mas por um grupo iconoclasta e libertário onde se falava de tudo, até de literatura e artes, e de rosas também. Um grupo de franco-atiradores, é verdade; um grupo de poetas, sem dúvida. Que disparava ao acaso sobre a multidão, que inventava os seus infernos e paraísos, que usava a liberdade de expressão ora voando, morrendo, desaparecendo, escrevendo às vezes”.»

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Turismo de Guerra, de Tiago Patrício (Artefacto), por José Mário Silva
Um Bárbaro em Casa, de Frederico Pedreira (Língua Morta), por José Mário Silva
A Ilha, de Aldous Huxley (Antígona), por José Guardado Moreira
O Capitalismo Estético na Era da Globalização, de Gilles Lipovetsky (Edições 70), por Luís M. Faria

Debate no Porto

Sábado à tarde, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, moderarei um debate incluído na programação da Feira do Livro do Porto. A conversa, com José Maria Vieira Mendes e João Tordo, abordará os nomes e os rumos da nova literatura portuguesa.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges