Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

Domingos de Agosto (Dom Quixote), Um Circo que Passa (Dom Quixote) e As Avenidas Periféricas (Porto Editora), de Patrick Modiano, por José Mário Silva
A Casa da Aranha, de Paul Bowles (Quetzal), por José Guardado Moreira
Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, de Alice Munro (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Dália Azul, Ouro Negro: Viagem a Angola, de Daniel Mettcalfe (Tinta da China), por Alexandra Carita
Jim Curioso, de Mathias Picard (Polvo), por Sara Figueiredo Costa

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Afonso Reis Cabral a propósito de O Meu Irmão (LeYa) e crítica ao livro, por José Mário Silva
A Retirada dos Dez Mil, de Xenofonte (Bertrand), por Ana Cristina Leonardo
Em Defesa do Tribunal Constitucional, de Jorge Reis Novais (Almedina), por Luísa Meireles
150 Anos de Arte Moderna num Piscar de Olhos, de Will Gompertz (Bizâncio), por Luís M. Faria
Limiar dos Pássaros, de Eugénio de Andrade (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Filigrana em movimento

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O Meu Amante de Domingo
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 181
ISBN: 978-989-671-237-2
Ano de publicação: 2014

A protagonista de O Meu Amante de Domingo é uma mulher de 50 anos, loura e ainda mignone, revisora literária que passou a vida a ler, «sem jamais ter escrito». Mora no Alentejo mas vem a Lisboa todos os domingos, no seu jipe Lada Niva de 1994, para nadar vinte piscinas num ginásio e tratar da gata de uma amiga (ausente no Brasil, em pesquisas). Durante um mês, envolve-se com um dramaturgo 16 anos mais novo, a quem ela chama «caubói». Quando a coisa dá para o torto, por razões que só conheceremos quase no final, deixa-se tomar por uma raiva assassina e só pensa em «dar um tiro nos cornos» do «cabrão»; ou esmagar o «filho da puta» com uma pata de elefante indiano. Tripeira de Canidelo, concelho de Vila Nova de Gaia, carrega forte e feio no vernáculo, que «a gente lá em cima não tem a língua presa».
Numa primeira aproximação, é impossível não ficar fascinado por esta narradora, verdadeira força da natureza que vai instaurando, no texto, a liberdade que procura para si mesma. Ferida, ela entrega-se inteira à vingança (mesmo se imaginária), porque nela a «fúria» é mais forte do que o «lamento». Pelo caminho, entregar-se-á a três amantes que representam arquétipos masculinos: o mecânico que escreve SMS com erros ortográficos e «reticências afrodisíacas» (um Sancho Pança); o amigo escritor, «futuro Nobel», calculista e cobarde, vagamente sórdido (um Nosferatu); e o nadador depilado que afinal trabalha para o Mark Zuckerberg do Facebook (um Apolo). São etapas necessárias na construção do apocalipse, embates que antecedem o último duelo, neste western sentimental, divertidíssimo apesar de trágico, em que no fim os caubóis perdem.
Há nisto tudo uma dimensão de puro delírio, de emoções levadas ao extremo, ao paroxismo do exagero total, com a verosimilhança a volatilizar-se (soprada, por uma vuvuzela, para o quinto dos infernos). A chave está, inevitavelmente, na literatura. São duas frases de Balzac a iluminá-la, fazendo com que veja o seu erro, o seu engano. E é Nelson Rodrigues, de cuja biografia (escrita por Ruy Castro) está a fazer a revisão, quem a acompanha no movimento da ira. Dizia o cronista brasileiro que «basta viver a fantasia de matar para esgotar o desejo». No seu caso, a fantasia assume a forma de um livro que começa a escrever, e onde se desdobra numa figura feminina que leva ainda mais longe os impulsos homicidas. Escrito à maneira de Brás Cubas, de além-túmulo, esse meta-romance vacila e naufraga, à medida que se esvai a «energia reversa» da vingança – «negativo da paixão» – de onde irrompeu.
A voz da protagonista de O Meu Amante de Domingo é tão forte, e o desassombro ao falar de sexo tão incomum, que a leitura do romance corre o risco de ficar demasiado presa a essa dimensão. Se Joyce multiplicava o mundo, acrescentando camadas ao seu texto em vez de o rarefazer, como Beckett, então Alexandra neste livro está claramente mais próxima de Joyce, a quem de resto pede emprestado o artifício do fluxo de consciência. Seria uma injustiça que a complexidade formal do livro, e os seus muitos níveis de leitura, ficassem ofuscados pela originalidade de uma personagem sem par na literatura portuguesa recente. Por muito que as cenas de sexo mais explícitas sejam antológicas (e são), a verdadeira beleza desta prosa está, por exemplo, na imagem de uma nespereira “atravessada pelo sol”, cuja sombra é “uma filigrana em movimento, projectada na cal e no anil que os árabes deixaram cá”.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Cortázar no Forum Fantástico

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Começou ontem e acaba amanhã a oitava edição do Forum Fantástico. A programação completa pode ser consultada aqui. Eu participarei mais logo, pelas 17h45, num debate sobre Julio Cortázar, com o seu mais recente editor em Portugal (Diogo Madre Deus, Cavalo de Ferro), na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras. Apareçam.

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com Alexandra Lucas Coelho a propósito de O Meu Amante de Domingo (Tinta da China) e crítica ao livro, por José Mário Silva
Rica Vida – Crise e Salvação em Dez Momentos da História de Portugal, de Luciano Amaral (Dom Quixote), por Ricardo Costa
O Bordel das Musas, de Claude Le Petit (Guerra & Paz), por Luís M. Faria
Uma Menina está Perdida no seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares (Porto Editora), por Pedro Mexia

Um remexer no escuro

casa em chamas

Caminho como uma Casa em Chamas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 357
ISBN: 978-972-20-5588-8
Ano de publicação: 2014

Os dois romances anteriores de António Lobo Antunes – Comissão das Lágrimas (2011) e Não é Meia Noite Quem Quer (2012) – centravam-se numa personagem feminina muito forte. Era dentro das protagonistas, no seu espaço mental, que as coisas aconteciam e as histórias, próprias ou alheias, se misturavam. Em Caminho como uma Casa em Chamas, o escritor preferiu uma estrutura aparentemente mais convencional, já utilizada por muitos outros autores (de Georges Perec a Alaa El Aswany, passando por Nuno Camarneiro, um recente Prémio LeYa, e até pelo Saramago de Claraboia), e que consiste em descrever a vida dos habitantes de um prédio. Neste caso um edifício lisboeta, «a um canto da cidade, longe do rio».
Tratando-se de Lobo Antunes, era improvável que o romance se deixasse enclausurar em esquemas formais rígidos. De facto, isso não acontece. Cada capítulo leva-nos a um dos oito apartamentos (do R/C esquerdo ao 3.º direito, mais o sótão supostamente desabitado) mas depressa percebemos que os inquilinos vivem em casulos quase estanques, interagindo pouco uns com os outros. Eles sabem bem «a quantidade de coisas de que o passado é feito», porque só se podem agarrar à memória. São quase todos velhos mais ou menos próximos da morte, solitários com tendência para o delírio, deserdados do amor, esquecidos pelos filhos que só aparecem, quando aparecem, para lhes exigir dinheiro.
Nesta pequena galeria há lugar para um advogado viúvo, submisso toda a vida à mulher, que o humilhava; para uma actriz indiferente às «traições do tempo», alucinada, julgando-se ainda rainha de um público invisível («eles adoram-me!»); para uma juíza com medo da decadência física, a quem um amante mais novo chama «esquilozinho gorducho», e que toca piano rodeada de um «excesso de tralha», enquanto evoca a infância em Castelo Branco e os «vapores da Gardunha ao longe»; para dois judeus ucranianos, irmão e irmã, assombrados pelo terror de que fugiram; para um coronel que esteve em Angola e amou uma mulata (deixada para trás no regresso, talvez grávida), e cuja imagem, mesmo «agora que tudo acabou», ainda o persegue; e para outras figuras igualmente trágicas, patéticas, ou apenas sujeitas à «ruína das coisas».
O mais admirável neste romance é a forma como Lobo Antunes cria a sua habitual polifonia em cada um dos núcleos – essa complexa sobreposição de tempos e espaços que está na matriz da sua escrita – mas depois os consegue misturar através de ecos e estribilhos, rastos de frases que saltam de uma casa para outra. Apesar das diferenças entre os vários planos narrativos que coexistem debaixo do mesmo telhado, há também muito em comum: uma mesma «poeira ténue de imagens, vozes, sons» a «atravessar-nos a cabeça misturando os pensamentos e diluindo as ideias», a permitir «um remexer no escuro», uma exploração do que há de mais íntimo e secreto em cada personagem.
No final, a figura de Salazar, omnipresente ao longo do livro enquanto memória do Portugal em que estas pessoas cresceram, materializa-se no sótão, «cubículo sujo» onde se esconde o «senhor doutor sempre de fato e gravata, sempre bem penteado», mesmo se a roupa já está no fio e as botas gastas, «uma das solas aberta com os preguinhos ao léu». Ele é «a presença atenuada de uma autoridade extinta», convencido de que ainda dirige o país, quando na verdade depende da «sopinha» quotidiana, trazida pela dama de companhia da actriz que mora mesmo em baixo, e terá sido um dia sua amante.
Além de uma síntese dos principais temas lobo-antunianos (famílias em ruínas, África e os restos do império, solidão, miséria existencial, trabalho da memória), este romance é também o retrato duro de um país que ainda tem, sobretudo em gerações mais velhas, as marcas do salazarismo no seu subconsciente colectivo.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Depois de perder tudo

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Para Onde Vão os Guarda-Chuvas
Autor: Afonso Cruz
Editora: Alfaguara
N.º de páginas: 620
ISBN: 978-989-687-163-5
Ano de publicação: 2013

Afonso Cruz pertence a uma casta rara de ficcionistas: os que acreditam genuinamente no poder da efabulação literária. Se isto já era notório nos seus quatro romances anteriores (sobretudo em A Boneca de Kokoschka, o seu melhor livro), mais evidente se torna ao concluirmos a leitura deste volumoso Para Onde Vão os Guarda-Chuvas. O escritor está agora no auge das suas capacidades narrativas e serve-se delas para criar um Oriente inventado, onde as histórias brotam debaixo das pedras e se entrelaçam com extraordinária coesão, como num tapete em que «o primeiro ponto não está separado do último, e se alguém mexer num deles mexe inevitavelmente nos outros».
O tapete, com os seus padrões e simetrias, com as tramas de fios de várias cores, é a metáfora mais óbvia que atravessa o romance. Ou não fosse o próprio protagonista, Fazal Elahi, um homem que enriqueceu à custa da sua fábrica de tapetes. Embora seja reconhecido pela sociedade em que se insere, num país nunca nomeado mas que supomos vizinho da Índia e do Irão, Elahi sonha ser invisível, confundir-se com a paisagem, não se distinguir de uma parede. Os modos extravagantes da mulher, Bibi, causam-lhe por isso um embaraço que persiste até ser substituído pela dor e pela humilhação, quando ela foge com outro homem. Para trás ficam as memórias de um corpo, entranhadas na casa, e um filho: pequeno diabo insolente e bravio que o pai, na impotência do seu amor extremo, não consegue educar.
Quando Salim é abatido durante uma rusga por militares americanos, ao abrir uma porta no momento errado, cria-se um vazio na vida de Fazal. De repente, ele sente que tudo se apaga, até a razão de existir. Espalha cartazes pela cidade, oferecendo toda a sua fortuna «a quem souber consolar-me pela perda do meu filho», mas apesar da interminável fila de pessoas à sua porta, ninguém lhe apresenta uma ideia que o afaste da tristeza infinita. Até que surge um hindu com a solução que parece um paradoxo: se foram americanos cristãos que lhe mataram o filho, ele deve adoptar um rapaz cristão e americano. Eis o centro do livro: a descoberta e difícil integração da criança, Isa, que há-de quebrar simbolicamente o ciclo do ódio. Ele é uma espécie de negativo de Salim, mas, por ínvios caminhos, talvez condenado à mesma sorte. Afinal de contas, no equilíbrio «desequilibrado» do universo, a felicidade e a tragédia «andam sempre de mãos dadas», e o «nó impossível de desatar» entre Bem e Mal leva a que as boas notícias sejam sempre prenúncio de uma desgraça.
A esta história principal, com epicentro na casa de Elahi, Afonso Cruz justapõe um sem número de outros episódios: relatos de lendas antigas e misérias contemporâneas; parábolas; milagres falsos; discussões teológicas; epifanias líricas; uma «descoberta do século» que se perde no incêndio de um hotel; lutas de galos; a imagem tremenda de homens que se fecham em gaiolas, todos nus e acocorados, ao sol, a acumular violência no corpo. E personagens de todo o tipo: um contrabandista russo que um dia quis fabricar «mesquitas voadoras»; dervixes que «recolhem e preservam sabedoria»; um hindu obstinado que se converte ao islamismo por amor; até figuras que vêm de outros livros do autor (como Isaac Dresner ou Gunnar Helveg).
Sendo esta uma estrutura bastante sólida, embora tendendo para uma certa lentidão narrativa, há artifícios que não passam disso mesmo: de artifícios. É o caso da ilustração de algumas cenas com fotografias de peças de xadrez ou da repetição de uma palavra («desculpe…») que forma «uma espécie de corda» através de várias páginas. Igualmente dispensável é a história infantil ilustrada que abre o livro. Trata-se de um acrescento inorgânico, que apenas relembra aos mais distraídos o talento de Afonso Cruz como ilustrador. O único apêndice relevante é o livro dentro do livro oferecido no final: os notáveis Fragmentos Persas, de autor anónimo do século I depois da Hégira, alguns dos quais já conhecíamos dos três volumes da Enciclopédia da Estória Universal.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros do ‘Actual’

– Conversa com António Lobo Antunes a propósito de Caminho Como uma Casa em Chamas (Dom Quixote) e crítica ao livro, por José Mário Silva
O Grande Jacques Coeur, de Jean-Christophe Rufin (Porto Editora), por José Guardado Moreira
A Mística de Putin, de Anna Arutunyan (Quetzal), por Luís M. Faria
Primeiro os Idiotas, de Bernard Malamud (Cavalo de Ferro), por Pedro Mexia
A Filha do Papa, de Dario Fo (Porto Editora), por Alexandra Carita

Um girassol de chumbo

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Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho
Autora: Golgona Anghel
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-972-37-1687-0
Ano de publicação: 2013

Romena doutorada em Literatura Portuguesa Contemporânea, Golgona Anghel publicou vários estudos sobre Al Berto, além de uma biografia do poeta de Sines e da edição «diplomática» dos seus Diários. Embora já tivesse editado poemas (Crematório Sentimental, Quasi, 2007), o verdadeiro reconhecimento crítico aconteceu com esse objecto estranho e inclassificável que é Vim Porque me Pagavam (Mariposa Azual, 2011). A poesia de Golgona não se parecia com nada, ao criar uma linguagem torrencial e anárquica, sempre em movimento, deixando o leitor em contrapé, entre pasmo e surpresa. O que impressionava não era só a sintaxe meio partida de quem se instala noutro idioma, apropriando-se dele; era uma certa desmesura que tropeça em si mesma, unindo as mais inesperadas referências culturais (Mizoguchi, Fradique Mendes) ao lado mais cru do dia-a-dia nas cidades (a «esquina do supermercado», as «metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras de lata»), na voz agreste de uma «loba solitária» que não se resigna a ser «caniche de apartamento».
À ironia que atravessa o livro anterior («Vim porque me pagavam, / e eu queria comprar o futuro a prestações»), Golgona contrapõe agora uma espécie de manifesto estético que se afirma logo no título do novo volume de poemas: Como uma flor de plástico na montra de um talho. A beleza, se existe, é sempre artificial, emergindo de uma paisagem de desmembramento e carnificina. O poema não existe para captar o sublime, mas antes para iluminar o que deixámos de saber ver, na matéria caótica dos dias: «(…) o poema / não tem outro precursor / a não ser a fome, / nem outro seguidor / a não ser o crime». Avançamos, a custo, no «passo lento das derrotas», para uma espécie de encruzilhada: «Onde havia medo, disciplina e poder, / temos descanso, “cultura” e diversão.» As trincheiras alugam-se, há quem degole «pardais e fadas de porcelana», predomina uma espécie de hiperconsciência das catástrofes em curso: «Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie, / condecorar o medo, / cortar-me a mão com que limpo as feridas / de uma civilização em queda. (…) Sou, em definitivo, este comediante de rua / que serve a desconhecidos, / em copos pequenos, / a medida certa da sua agonia».
Há nestes poemas uma expressividade que é deixada à solta, sem coleira ou açaime. Se os versos têm gumes, é mesmo para rasgar a pele: «Com esta caneta, / esventrei príncipes e porcos / acreditando que era com a barriga que pensavam. / Sonhei de mais. Jurei em falso. / O horizonte fechou-se, / lentamente, / como uma cicatriz do espaço. / O sol e a melancolia / fazem crescer agora, à minha volta, / um girassol de chumbo.» Mais do que a violência das imagens, o que espanta é o extraordinário domínio de uma forma única de dizer as coisas, como se a realidade fosse algo que podemos dobrar e trazer debaixo do braço: «Mudas de canal, de casa, de século, / e as esfinges domésticas / continuam lá, a falar do preço certo / e das notícias das cinco, / antes de adormecerem, / às escuras, / como nós.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista Ler]

O livro sem princípio nem fim

«He found several shelves full of old editions of classical writers and began vaguely browsing, hoping to find a cheap edition of Virgil’s Aeneid, which he had only ever read in a borrowed copy. It wasn’t really the great poem of antiquity that Dorrigo Evans wanted though, but the aura he felt around such books – an aura that both radiated outwards and took him inwards to another world that said to him that he was not alone.
And this sense, this feeling of communion, would at moments overwhelm him. At such times he had the sensation that there was only one book in the universe, and that all books were simply portals into this greater ongoing work – an inexhaustible, beautiful world that was not imaginary but the world as it truly was, a book without beginning or end.»

[in The Narrow Road to the Deep North, de Richard Flanagan, Chatto & Windus, 2014]

Bairro Amélia, meu amor

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As Primeiras Coisas
Autor: Bruno Vieira Amaral
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 301
ISBN: 978-989-722-121-7
Ano de publicação: 2014

No magnífico prólogo de As Primeiras Coisas, primeiro romance de Bruno Vieira Amaral, o narrador regressa ao fictício Bairro Amélia, na Margem Sul do Tejo, onde cresceu. Cerca de dez anos antes, saíra de lá «convicto da vitória» que representaria o afastamento definitivo daqueles prédios de «paredes encardidas», mas agora está de volta, sob o «fardo» do fracasso. À beira do divórcio, «cabisbaixo», «desempregado», «desamparado», fica em casa da mãe e confronta-se com um universo que em parte já não reconhece.
A sua «sensibilidade apocalíptica» leva-o a pensar nos sobreviventes de Hiroxima, expostos a um «clarão absoluto que os cegou». Tal como esses hibakusha, ele sente que transpôs um limiar qualquer, a partir do qual se alteram os mecanismos da percepção. Com a ajuda de um fotógrafo, Virgílio, embarca numa descida aos círculos infernais da memória, materializados em cada recanto do bairro que só o guia de ressonâncias dantescas, pedalando na sua bicicleta, conhece em toda a extensão – esse «grande labirinto» que lhe é agora «tão estranho como uma terra fictícia, não cartografada». As histórias vêm de todo o lado, amontoam-se, sucedem-se, entrelaçam-se e fixam-se, havendo nelas a «beleza mortal» da «sombra que os objectos varridos da face da terra pela explosão nuclear deixam nas paredes». Bruno, o narrador, acredita que «também nós deveríamos olhar para as coisas sob esse novo ângulo de luz, passando os dedos pelas arestas invisíveis, estabelecendo ligações musicais», porque haverá «em toda esta sequência aparentemente aleatória de acontecimentos não uma ordem metafísica mas, sem dúvida, uma harmonia, um ritmo, uma canção, um segredo que não se ouve, que não se vê e, no entanto, existe».
A harmonia tem de ser reconstituída pelo leitor, enquanto avança pelo corpo do romance, que mais não é do que um «dicionário incompleto» de figuras humanas singularíssimas ou banais, com as suas tragédias, melancolias, crendices, actos de grandeza ou malvadez. BVA descreve com extraordinária precisão (e conhecimento de causa) a vida num bairro ocupado por retornados nos anos 70, sem nunca cair em simplismos sociológicos. O que lhe interessa é registar os sobressaltos das vidas simples, os «movimentos orgânicos» da comunidade, o lastro de um lugar (dado através do inventário de sons, de nomes, de comidas ou de sítios para namorar), mas sobretudo fazer-nos sentir o inefável «peso das coisas» que mantém as pessoas presas ao chão. A variedade de registos, que inclui inflexões irónicas (nomeadamente no recurso a intratextualidades e a desconcertantes notas de rodapé), confirma o talento do prosador e a solidez do seu olhar. O olhar de um verdadeiro escritor, capaz de frases perfeitas como esta: «A tristeza de dona Cremilde era um incêndio circunscrito que não se propagara ao resto do corpo.» Ou esta: «Os mortos não ignoram mais sobre a morte do que nós, os vivos, ignoramos sobre a vida.»
O epílogo, em tom elegíaco, traz-nos páginas que estão entre as mais belas da literatura portuguesa recente, confirmando o fôlego raro desta estreia triunfal.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado na revista Ler]

Anunciados prémios APE e Pen

Não sei se é inédito, mas, se não for inédito, é raro. Ana Margarida de Carvalho acaba de ganhar o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores com o seu romance de estreia: Que Importa a Fúria do Mar (Teorema, 2013). E, mais relevante ainda, por unanimidade do júri, composto por José Correia Tavares, Annabela Rita, Cândido Martins, José Manuel de Vasconcelos, Teresa Carvalho e Virgílio Alberto Vieira, sendo que entre os finalistas se contavam os romances Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz (Alfaguara), e A Desumanização, de Valter Hugo Mãe (Porto Editora).
Foram também revelados os vencedores dos prémios do Pen Clube Português, quase todos ex aequo. Na poesia, Gastão Cruz (Fogo, Assírio & Alvim) e Golgona Anghel (Como Uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, Assírio & Alvim); na narrativa, As Primeiras Coisas (Quetzal), de Bruno Vieira Amaral, também uma obra de estreia, e Ara (Sextante), de Ana Luísa Amaral; no ensaio, Para que Serve a História (Tinta da China), de Diogo Ramada Curto. Na categoria de primeiras obras, foram distinguidos Ensaio sobre o Pensamento Estético de Adorno (Vendaval), de João Pedro Cachopo, e o livro de poemas Cinza (Tinta da China), de Rosa Oliveira.

Um ‘centauro’ no jardim da lógica

logicomix

Logicomix – Uma Busca Épica da Verdade
Autores: Apostolos Doxiadis, Christos Papadimitriou, Alecos Papadatos e Annie Di Donna
Título original: Logicomix – An Epic Search for Truth
Tradução: Nicolás F. Lori
Editora: Gradiva
N.º de páginas: 351
ISBN: 978-989-616-601-4
Ano de publicação: 2014

De tempos a tempos, há livros que se destacam da torrente editorial pela originalidade, pelo arrojo, pela capacidade de surpreender mesmo quem julgaria já ter visto tudo. Logicomix é um desses raros livros que nos trocam completamente as voltas. Na verdade, o projecto de contar um período áureo da história das ideias – a busca dos fundamentos da Matemática, entre as últimas décadas do século XIX e a II Guerra Mundial – sob a forma de uma novela gráfica, sem abdicar do mais absoluto rigor científico, pode parece abstruso de início, mas depressa agarra o leitor pelos colarinhos (seja ele iniciado nas temáticas ou completamente leigo), levando-o até ao fim desta notável aventura intelectual num estado de espanto e maravilhamento.
O mérito pertence por inteiro aos quatro autores do livro: Apostolos Doxiadis, matemático, romancista, e estudioso das relações da matemática com a narrativa, que criou o conceito e escreveu o texto; Christos Papadimitriou, investigador em Ciência Computacional, co-criador da história; Alecos Papadatos, ilustrador; e Annie Di Donna, responsável pelo trabalho cromático. No fundo, eles quiseram fazer o que «99,9% das novelas gráficas são»: uma «história» bem contada, com «heróis em busca de grandes objectivos». Heróis que neste caso descem do Olimpo erudito onde costumam pairar e exibem as suas descobertas ao comum dos mortais, numa linguagem que torna compreensíveis as ideias mais complexas e os combates em torno delas, sem nunca as simplificar em excesso. Da galeria fazem parte muitos nomes – Whitehead, Frege, Cantor, Hilbert, Wittgenstein, Gödel –, mas há um protagonista que se destaca: Bertrand Russell, um «centauro», metade matemático, metade filósofo. É ele que narra a «tragédia espiritual» da procura de um caminho sólido para a Verdade, com base numa certeza absoluta (certeza que o teorema da incompletude, de Gödel, veio comprometer de vez). E fá-lo durante uma palestra numa universidade americana no dia em que o Reino Unido declara guerra à Alemanha, a 4 de Setembro de 1939, intervenção que serve de fio condutor à narrativa.
Particularmente conseguida é a forma como Russell vai cruzando, no seu discurso, o percurso pessoal com as questões teóricas que o atormentaram durante décadas. Tão depressa assistimos aos terrores e epifanias infantis na mansão dos avós, com quem foi viver depois de ficar órfão aos quatro anos, como ao desabrochar da sua inteligência, a partir da descoberta dos axiomas geométricos de Euclides. Se numa página assistimos a sofisticados duelos verbais nos salões de Paris ou Viena, noutra são-nos dados vislumbres, nem sempre lisonjeiros, da sua vida particular. O que se obtém é o retrato poliédrico de um homem consumido pelo gigantismo da missão intelectual a que se propôs e marcado por um sentimento de derrota, ignorando que o falhanço muitas vezes abre portas para vitórias futuras. O sonho de Leibniz («encontrar o método lógico perfeito de resolver todos os problemas, da Lógica à Vida Humana») estilhaçou-se mas das ruínas surgiram novas abordagens conceptuais, como as de Turing, que permitiram a invenção do computador e da informática, colocando instrumentos da razão ao alcance de todos.
Sem grande surpresa numa obra em que são referidos sistemas auto-referenciais, um dos temas de Logicomix é a criação de Logicomix. Ou seja, os quatro autores do livro também são personagens e mostram-nos o outro lado das pranchas belíssimas: as discussões sobre o rumo a dar à história, os impasses, as discordâncias, as dúvidas (Papadimitriou, por exemplo, torce o nariz à relação várias vezes sugerida entre Lógica e loucura). No final, vão todos assistir a um ensaio do último acto da Oresteia e não haveria melhor forma de fechar o arco narrativo. Porque a tragédia de Ésquilo, ao consagrar o triunfo da razão, estabelece uma «analogia perfeita» com a «busca épica da verdade» de Russell e companhia.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Hoje na secção de Livros do ‘Actual’

Logicomix, de Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriou, Alecos Papadatos e Annie Di Donna (Gradiva), por José Mário Silva
Amálgama, de Rubem Fonseca (Sextante), por Pedro Mexia
Henderson, o Rei da Chuva, de Saul Bellow (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Toda a Mafalda, de Quino (Verbo), por Luís M. Faria
Pontas Soltas – Lisboa, de Ricardo Cabral (ASA), por José Mário Silva

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges