Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

O Fotógrafo e a Rapariga, de Mário Cláudio (D. Quixote), por José Mário Silva
José Augusto França: com o O’Neill falava de janela para janela, de José Jorge Letria (LeYa), por Alexandra Carita
Da Natureza das Coisas, de Lucrécio (Relógio d’Água), por Luís M. Faria
Era uma vez em Goa, de Paulo Varela Gomes (Assírio & Alvim), por Ana Cristina Leonardo
Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov (Relógio d’Água), por Pedro Mexia

Voltar às Correntes

correntes

Começa amanhã mais uma edição das Correntes d’Escritas, desta vez no Cine-Teatro Garrett (Póvoa de Varzim), onde até sábado passarão pelo palco mais de 50 escritores de «expressão ibérica», distribuídos por sete mesas, cada uma com um dos habituais temas espinhosos que a organização sugere aos participantes. Eu participarei na mesa 3, sexta-feira (15h00), na companhia de António Cabrita, Clara Usón, Manuela Gonzaga e Virgílio Alberto Vieira, com moderação de Michael Kegler.
A programação completa pode ser consultada aqui.

A voz das coisas

manhã

Manhã
Autora: Adília Lopes
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 126
ISBN: 978-972-37-1809-6
Ano de publicação: 2015

O dispositivo narrativo de Manhã não podia ser mais transparente. Adília Lopes olha para trás, escolhe momentos, e detém-se nessas clareiras do passado apenas o tempo necessário para captar uma atmosfera, uma fulguração, um rasto. Nada aqui é sistemático ou sequer cronológico, o que impera é a volúpia da recordação pela recordação, muitas vezes involuntária, como quem mordisca uma madalena proustiana sem se preocupar com as reminiscências que ela provocará.
A primeira memória circunscreve logo o horizonte desta escrita: «Em Colares, vi um bulldog branco anão em cima de uma coluna branca no jardim de uma vivenda. É a minha recordação mais antiga. É estranha. Parece inventada. Mas não é.« Ou seja: o mais estranho pode ser o mais verdadeiro. Quase no fim, lê-se: «Não se mistura a realidade com a ficção». Há nisto a força de um mandamento. Se é da vida que se fala, toda a literatura está em dizê-la como foi, sem filtros nem artifícios.
Vemos então desfilar, como num vórtice, imagens atrás de imagens. A boneca de faiança na montra da padaria, o bolo de aniversário infantil coberto de pralines («esferazinhas prateadas sobre a neve (…) de claras em castelo e açúcar»), a pistola com lanceta que pica os dedos por causa da diabetes, o «biberon» para as bonecas (caído um dia do eléctrico em andamento, «e eu a ver o asfalto pela fresta a correr vertiginoso»), os olhos das moscas que «são uma maravilha», as palmeiras demasiado altas da Escola Politécnica, os livros do Tintin, da Enid Blyton e da Condessa de Ségur («Devo tudo à Condessa de Ségur»), um vórtice de coisas que de repente se organizam, vindas do passado, como constelações.
A poetisa chega-se à janela e debruça-se para escutar «a voz das cousas», mas também para se confrontar consigo mesma. «Quando tinha 12 anos, fumava Ritz, punha Eau Verte de Puig, ouvia Cat Stevens, escrevia poemas num caderno cor-de-laranja comprado em Bruxelas. Estava apaixonada e não era correspondida.» Adília sempre escreveu este tipo de sinopses, mais literais e menos irónicas do que por vezes parecem, mas em Manhã a capacidade de síntese é levada ao extremo. Alguns poemas são mais breves do que um haiku. Penamacor: «Casas pardas / ruas tortas». Duas da tarde: «Um avião / um cão».
Por vezes, Adília assemelha-se a essa «escritora tão poupada que não escrevia para não gastar papel e tinta». Outras vezes, entrega-se à luxúria dos detalhes, de um discurso que se alimenta de si próprio. É de extremos, como na disciplina de geometria descritiva («ou tinha vintes ou tinha negativas»), ao ponto de a professora lhe dizer: «ó rapariga, tu és 8 ou 80». Tantos anos depois, a frase permanece, volta à tona, porque «é das coisas mais acertadas que há a dizer sobre mim».
Não há nisto, porém, qualquer fatalismo ou tristeza. Adília não se lamenta, nem se queixa. Pelo contrário, Adília brinca com as memórias, boas ou menos boas, Adília dança (ou melhor, dansa, «com s como a Sophia»), Adília ri-se dos outros e de si («Adília laughs»). Há mais luz do que sombras nestas páginas. Mas Adília também sabe como encostar-nos às cordas. Eis o Vazio em cinco linhas: «Aos 21 anos, a minha fotografia no bilhete de identidade sofreu uma reacção química, a minha cara desapareceu, ficou uma mancha castanha. Aos 39 anos, comprei um perfume na farmácia. Devia estar lá há muito tempo, não cheirava a nada.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Manhã, de Adília Lopes (Assírio & Alvim), por José Mário Silva
A Bastarda de Istambul, de Elif Shafak (Jacarandá), por José Guardado Moreira
Clorântida, de Rosalina Marshall (Douda Correria), por José Mário Silva
Sobre o Fascismo, a Ditadura Militar e Salazar, de Fernando Pessoa (Tinta da China), por Luís M. Faria
Perda de Inventário, de Marta Chaves (Alambique), por José Mário Silva
História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges (Quetzal), por Pedro Mexia

A música das esferas

collins

Amor Universal
Autor: Billy Collins
Título original: Aimless Love – New and Selected Poems
Tradução: Ricardo Marques
Editora: Averno
N.º de páginas: 293
Depósito legal: 383222/14
Ano de publicação: 2014

Nascido em 1941, Billy Collins é um caso singular na poesia contemporânea americana. Consagradíssimo entre os seus pares (foi Poeta Laureado dos EUA entre 2001 e 2003), académico respeitado, colaborador frequente da New Yorker, ele estabelece uma raríssima ponte entre a alta cultura e o público generalista. Se os livros passam o escrutínio dos críticos mais exigentes, rendidos ao alto grau de conseguimento estético de uma obra exemplar, Collins consegue igualmente reunir multidões de leitores e ouvintes, nas salas esgotadas onde faz as leituras públicas dos seus textos.
Em 2013, juntou 50 poemas novos a uma antologia generosa dos quatro livros anteriores: Nove Cavalos (2002), O Problema da Poesia (2005), Balística (2008) e Horóscopo para os Mortos (2011). Esse volume, Aimless Love, com perto de 300 páginas, acaba de ser editado em português numa cuidada edição bilingue, graficamente impecável (da belíssima capa à paginação elegante, os versos em inglês aparecendo em letra minúscula, no fundo da página) e com uma boa tradução. Dizer que se trata de um acontecimento editorial é pouco. Billy Collins é um dos maiores poetas do nosso tempo. Disponibilizá-lo finalmente aos leitores portugueses afigura-se-nos um inestimável serviço público.
O que torna Collins o poeta perfeito para quem não gosta de poesia (ou julga que não gosta) é a sua desarmante, e quase sempre ilusória, simplicidade. Não há nos seus poemas quaisquer efeitos de ocultação e opacidade, tudo se expõe com fulgurante clareza, sem necessidade de complexas exegeses. Collins canta o «amor pelas coisas quotidianas», é um homem muito atento à realidade que o cerca, aos seus ruídos, aos seus fulgores, às suas harmonias e dissonâncias. Mas é sobretudo um poeta capaz de captar o espanto na sua dimensão mais directa, quase física. Entrega-se, no fundo, a uma espécie de alquimia serena em que a matéria das existências banais se transforma noutra coisa qualquer, muitas vezes indiscernível, mas que as transcende, a essas vidas normais que são as vidas de todos nós.
Aos poetas, sugere-nos Collins, cabe o dever de olhar, de estarem «às suas janelas», sem fazerem nada mais do que observar o mundo, uma vez que é esse «o trabalho pelo qual não são pagos». A janela: eis o instrumento lírico por excelência, «porque há sempre algo para ver». E pode ser um pássaro que ficou preso dentro de casa, até que o poeta o embrulha numa camisa, entre «espasmos de bater de asas», libertando-o por fim no jardim, só para ficar a sentir durante o resto do dia «o seu vibrar selvagem / contra a palma das mãos».
Minuciosamente construídos, verso a verso, como quem esculpe um bloco de mármore (lá dentro uma «figura encerrada e ainda por revelar»), estes poemas são lugares onde o que há de mais inefável e frágil – vozes, corpos, presenças – pode ser resgatado e permanecer ao abrigo da usura do tempo, das devastações da memória. Caminhadas junto ao lago, contemplação de nuvens, cidades (Paris, Istambul, Palermo, Roma), jogos infantis, parábolas, questões metafísicas, súbitos impasses ou epifanias. Muitas vezes, assistimos ao fazer do próprio poema: o caderno, a «caneta em movimento», o «lápis de grafite macio» pronto para a anotação, o candeeiro de mesa que ilumina a escrita noite dentro e por isso merece uma ode (começa assim: «Oh luz fiel, sob a qual escrevi / e li durante todas estas décadas»).
Collins tem consciência dos sortilégios em que mergulha o leitor, mas isso nunca o conduz aos labirintos do comprazimento ou da auto-indulgência. Pelo contrário, há sempre nele um impulso irónico que lhe permite evitar a tentação da solenidade. Num dos textos de reflexão sobre o seu ofício, explica que «o problema da poesia é que / ela estimula a escrita de ainda mais poesia, / mais peixinhos a encher o tanque». E essa proliferação é sempre perigosa. Sabendo que tudo se pode transformar num poema de Billy Collins, as pessoas aproximam-se de Billy Collins e dão-lhe ideias. Se há uma simulação de incêndio, sugerem-lhe que escreva um poema sobre isso. Ou sobre aquele dirigível lá no alto, o café entornado, um rosto coberto de tatuagens. Ele conclui: «Talvez devesse escrever um poema / sobre todas as pessoas que pensam / que sabem sobre o que é que eu deveria escrever».
Felizmente, o poeta é imune a todos esses ricochetes e efeitos colaterais. Ele come sozinho, bebe sozinho, contempla sozinho, escreve sozinho. Só assim consegue escutar, no meio do ruído da modernidade, «o som que ninguém nunca ouve / porque está a ser transmitido desde sempre» e por isso «soa ao mesmo que o silêncio». Ou seja, a intangível música das esferas, sempre presente e ignorada, mas que, caso deixasse de existir, «então as pessoas iriam parar / nas ruas e olhar para cima». É essa música que atravessa estes poemas. É essa música que Collins – subtilmente, magistralmente, genialmente – consegue fazer-nos ouvir.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

O Irmão Alemão, de Chico Buarque (Companhia das Letras), por José Mário Silva
A Morte do Pai – A Minha Luta: 1, de Karl Ove Knausgard (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
O Último Europeu – 2284, de Miguel Real (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco
Com um Sonho na Bagagem, de Maria José de Lencastre (Dom Quixote), por Alexandra Carita
Extraterritorial, de George Steiner (Relógio d’Água), por Ana Cristina Leonardo
Amor Universal, de Billy Collins (Averno), por José Mário Silva
Meu Pai, o General Sem Medo, de Iva Delgado (Caminho), por José Pedro Castanheira
Armas, Germes e Aço, de Jared Diamond (Temas e Debates), por Luís M. Faria

Através do espelho órfico

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O Mar de Coral
Autora: Patti Smith
Título original: The Coral Sea
Tradução: Ricardo Marques
Editora: não (edições)
N.º de páginas: 59
ISBN: 978-989-99120-6-9
Ano de publicação: 2015

Em 2010, Patti Smith documentou a sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe num espantoso livro de memórias, Apenas Miúdos (Quetzal), vencedor do National Book Award. Não era, porém, a primeira vez que escrevia sobre o amigo de quase toda uma vida. Em 1996, sete anos após o desaparecimento de Mapplethorpe (vítima da SIDA), escreveu O Mar de Coral.
Homenagem e exercício de luto, esta é uma intensa despedida em que deixou «tudo o que sabia sobre ele encriptado num pequeno conjunto de poemas em prosa». Forma de contar «a nossa história», que é antes de mais a história de Robert, aqui transfigurado na figura de um marinheiro que viaja em busca dos mares distantes, lá longe, onde é possível admirar o Cruzeiro do Sul.
A primeira vez que Patti viu o amigo, «ele estava a dormir». E é com Morfeu, deus dos sonhos, que a viagem começa. A atmosfera onírica permanecerá durante a jornada até às Ilhas Salomão, durante a qual o «Passageiro M» se deixa «cair numa série de imagens» que se sucedem «com uma força amazónica»; e nem sempre bem controlada. A cascata de metáforas evoca o trabalho fotográfico de Robert («Uma única túlipa. Alongada, só e negra, como uma mancha no sol»), o evoluir da doença («Já não conseguia comer; os sólidos passavam por dentro dele com a violência de uma nuvem»), ou a admiração sem limites («Teria sido ele um breve clarão, uma margem cintilante…»).
Todavia, a maior parte do subtexto biográfico fica escondido sob um espesso manto de simbolismos inescrutáveis e por vezes excessivamente pesados. Esta edição inclui ainda três poemas escritos noutras ocasiões. Num deles, talvez o melhor, Robert atravessa um «espelho órfico», para «vaguear eternamente / na busca da perfeição / os tornozelos azuis tatuados de estrelas».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Soumission, de Michel Houellebecq (Flammarion), por Clara Ferreira Alves
– Entrevista com Rosa Montero sobre o livro A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te (Porto Editora) e crítica ao livro, por José Mário Silva
Céu de Chumbo, de Ben Pastor (Clube do Autor), por José Guardado Moreira
O Mar de Coral, de Patti Smith (não (edições)), por José Mário Silva
A Lógica do Dinheiro, de Niall Ferguson (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Que Luz Estarias a Ler?, de João Pedro Mésseder e Ana Biscaia (Xerife Edições), por Sara Figueiredo Costa
Primos Gémeos, Triângulos Curvos e Outras Histórias da Matemática, de Jorge Buescu (Gradiva), por Virgílio Azevedo
Um Teste de Resistores, de Marília Garcia (Mariposa Azual), por Pedro Mexia

Contra a amnésia

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Dora Bruder
Autor: Patrick Modiano
Título original: Dora Bruder
Tradução: G. Cascais Franco
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-972-0-04721-2
Ano de publicação: 2015

Ao anunciar a atribuição a Patrick Modiano do Prémio Nobel de Literatura de 2014, a Academia Sueca elogiou-lhe «essa arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inacessíveis e nos revelou a vida quotidiana sob a Ocupação». Se há uma obra do escritor francês que corresponde a esta síntese é Dora Bruder, um livro de 1997, agora reeditado em português, sobre o inacessível destino humano de uma jovem judia, desaparecida numa Paris sob o jugo das tropas de Hitler.
Na edição de 31 de Dezembro de 1941 do jornal Paris Soir, os pais da rapariga pediam «todas as indicações» possíveis sobre o paradeiro de «Dora Bruder, 15 anos, 1,55 m, rosto oval». Meio século mais tarde, Modiano tentou responder ao anúncio. Quem era ela? Por onde andou? O que lhe aconteceu? Obcecado por esta figura esquiva, o escritor procurou-a em todo o lado: nos arquivos, nas repartições, nos dédalos da burocracia. Uma investigação difícil, um exercício moroso, um ofício de paciência: «É preciso muito tempo para que ressurja à luz aquilo que foi apagado». Na sua demanda, encontra alguns registos, ofícios e relatórios que sinalizam uma existência fugaz, mas são muito mais as lacunas, as incógnitas, as portas «cujo número ignorarei para todo o sempre», os nomes de ruas que «já não correspondem a nada». Ainda assim, Modiano não se coíbe de fazer perguntas, mesmo que elas só o conduzam ao vazio, à incapacidade de imaginar o que terá feito Dora em fugas sucessivas, ou no quartel de Tourelles (em que esteve detida), ou no infame Campo de Drancy, enquanto esperava, com o pai, o comboio que os haveria de levar para Auschwitz.
Embora escassa, a informação recolhida permite-lhe o encontro com outras histórias de raparigas, homens e mulheres engolidos pelo torvelinho da guerra e do Holocausto. São fantasmas que a literatura consegue resgatar de uma «espessa camada de amnésia». E o maior de todos é Dora Bruder. É ela quem se ergue destas páginas em que paira a «ternura entristecida» de que falava Genet. Continuaremos a saber pouquíssimo, quase nada. Consola-se Modiano com a ideia de que restará sempre, da rapariga devorada pela História, o brilho de um segredo. O segredo do que foi enquanto sobreviveu a todos os horrores. «Um pobre e precioso segredo que os carrascos, os decretos, as autoridades ditas de Ocupação, (…) o tempo – tudo o que nos macula e nos destrói – não puderam roubar-lhe.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Carta ao pai

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Tempo de Vida
Autor: Marcos Giralt Torrente
Título original: Tiempo de Vida
Tradução: Telma Costa
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 158
ISBN: 978-989-8580-26-9
Ano de publicação: 2014

Neste livro, Marcos Giralt Torrente narra a dificílima relação com o pai – contada logo após a morte deste, a culminar ano e meio de um declínio físico que os reaproximou. Como é sabido, na história da literatura há muitos relatos deste tipo, de Kafka a Philip Roth. O escritor espanhol, porém, não quis apenas replicar um modelo que tende para a elegia ou para o ajuste de contas. Tempo de Vida não é uma coisa nem outra, embora tenha momentos elegíacos e outros de balanço frio dos «fundos desencontros» entre trajectórias de vida divergentes.
O que torna esta obra singular é a sua espantosa (e por vezes dolorosa) sinceridade, a sua absoluta transparência. Nada nos é ocultado. Nem os escrúpulos do autor a lidar com o material inflamável da memória, nem as hesitações estéticas e éticas, nem as dúvidas persistentes sobre o rumo a dar ao que tem entre mãos: «(…) não sabia que livro queria escrever. Ou, se sabia, não sabia como fazê-lo. Ou não tinha sequer decidido o que contar e o que calar. Ou a vida do meu pai, vendo bem, não era assim tão romanesca. Ou simplesmente duvidava de que interessasse a alguém.» Mais do que uma ideia motriz, «a única coisa que sentia era um grande vazio». E é através desse vazio que o autor avança, procurando compreender «o que perdemos, em que pontos nos atolámos».
Emerge então a figura desse pai distante, pintor que ficou aquém de uma grande carreira, perdido nos seus equívocos e nos «labirintos femininos». Tudo é exposto à luz mais crua, tanto a «zanga perpétua» como a doença final, que permite uma redenção mútua. Não deixando de convocar erros e arrependimentos, tanto os próprios como os alheios, sempre com uma lucidez feroz, Giralt Torrente leva-nos «ao vero centro da dor», única forma de fechar o círculo e de o reabrir novamente, através do filho que há-de vir: «Gostaria de conservar alguma coisa do melhor do meu pai para que lhe chegue através de mim.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges