Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Almada – Os painéis, a geometria e tudo, de António Valdemar (Assírio & Alvim), por Miguel Cadete
Departamento de Especulações, de Jenny Offill (Relógio d’Água), por José Mário Silva
Freya das Sete Ilhas, de Joseph Conrad (Sistema Solar), por José Guardado Moreira
Uma História Concisa de Portugal, de Maria Cândida Proença (Temas e Debates), por Luís M. Faria
Óxido, de Gastão Cruz (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Dicionário Sentimental de Futebol, de Rui Miguel Tovar (Quetzal), e Béla Guttmann – Uma História do Futebol Mundial, de Detlev Claussen (Paquiderme), por José Mário Silva
A Ganhar ou a Perder, de Mário Lopes (Paquiderme), por José Mário Silva
Contos de Nick Adams, de Ernest Hemingway (Livros do Brasil), por Pedro Mexia
Problemas no Paraíso, de Slavoj Žižek (Bertrand), por Luís M. Faria

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

– ‘O que aí vem… Livros’, artigo sobre a rentrée editorial, por José Mário Silva
Purity, de Jonathan Franzen (D. Quixote), por José Mário Silva
Nada de Lágrimas, de Lydie Salvayre (Bertrand), por José Guardado Moreira
Parker, O Caçador, de Darwyn Cooke (Devir/A Biblioteca de Alice), por Sara Figueiredo Costa
10:04, de Ben Lerner (Teorema), por Pedro Mexia
Porquê ler os clássicos?, de Italo Calvino (D. Quixote), por Ana Cristina Leonardo
A Aldeia, de William Faulkner (Livros do Brasil), por Luís M. Faria

Os dias do fim

Telex de Cuba
Autora: Rachel Kushner
Editora: Relógio d’Água
Título original: Telex from Cuba
Tradução: Jorge Pereirinha Pires
N.º de páginas: 352
ISBN: 978-989-641-512-9
Ano de publicação: 2015

No início de 2014, a publicação pela Relógio d’Água de Os Lança-Chamas, segundo romance de Rachel Kushner, permitiu aos leitores portugueses a descoberta de uma das mais fascinantes, e justamente aclamadas, escritoras americanas do nosso tempo. Entre a cena artística das vanguardas nova-iorquinas dos anos 70 e a agitação política de Itália na época das Brigadas Vermelhas, Kushner conduzia-nos à velocidade estonteante da mota de Reno, a sua protagonista, pelos meandros de uma narrativa que cobre quase todo o século XX. Mais do que um mero tour de force, o opus 2 de Kushner é um prodígio de técnica literária, erudição, inteligência e capacidade de entendimento da natureza humana.
Ao descobrirmos, agora, em ordem inversa, o primeiro romance (originalmente editado em 2008), o espectro de uma eventual desilusão desfaz-se ao fim de meia dúzia de páginas, assim que reencontramos o tom característico da autora e a qualidade superlativa da sua prosa. Menos ambicioso do que Os Lança-Chamas, o foco de Telex de Cuba restringe-se ao momento da retirada norte-americana da ilha, após a queda de Fulgencio Batista e a chegada ao poder de Fidel Castro. Como matéria narrativa, pode parecer circunscrito, mas Kushner sabe que há ali uma extraordinária complexidade – política, económica, social – à espera de ser revelada. Basta perscrutar, com olhos de ver, cada interstício das múltiplas camadas que compunham a sociedade cubana na década de 50.
O epicentro da narrativa é a região leste da ilha, superlativamente descrita na sua crueza tropical. Em Preston, tudo pertence à United Fruit Company: as plantações de cana-de-açúcar a perder de vista, a fábrica, os comboios, as casas luxuosas de La Avenida, onde as famílias dos administradores vivem numa espécie de casulo, como se estivessem nos States. Já os americanos de Nicaro tendem a queixar-se da «fina poeira avermelhada» que sai das chaminés da fábrica de óxido de níquel e cobre todas as coisas («até o próprio calor» parece ter cor de ferrugem). Uns e outros encontram-se em festas, encenando o fausto colonial dos expatriados que só estão ali, naquele «paraíso» dúbio, porque falharam noutro lugar qualquer. Kushner penetra fundo na paz podre das tensões familiares, das neuroses e paixões proibidas, dos impasses conjugais, muitas vezes apenas intuídos pelas personagens infantis. Mas o seu olhar é transversal, tão depressa se detém neste microcosmo em risco (há incêndios, sabotagens, rebeldes nas montanhas preparando o ataque definitivo), como mostra a existência miserável dos trabalhadores explorados, ou os labirintos do poder em Havana, que se estendem até à penumbra azul do Cabaré Tokyo, palco de uma improvável história de amor entre uma corista e um agitador francês. Este, La Mazière, figura real que em tempos se alistou nas SS, negociante de armas que fornece ditadores (Trujillo, Duvalier), acaba juntando-se a Fidel, só para assistir, melancólico, ao triunfo dos heróis românticos e ao fim do arco revolucionário que se esgota «no próprio facto da sua instauração».
Kushner cartografa o impacto da fuga, e suas perdas, na imensa galeria de personagens. Mas dá-nos sobretudo esses elementos quase impalpáveis que conferem espessura às vidas narradas. Há nestas figuras – frágeis, voláteis – uma verdade que reverbera. No navio do regresso, já resignados, despedem-se: «Isto é tão bonito sem nós.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d’Água), por José Mário Silva
A Noite em que a Noite Ardeu, de A. M. Pires Cabral (Cotovia), por Pedro Mexia
Há Sempre Tempo para Mais Nada, de Filipe Homem Fonseca (Quetzal), por José Mário Silva
KL – A História dos Campos de Concentração, de Nikolaus Wachsmann (D. Quixote), por Luís M. Faria
O Terceiro Polícia, de Flann O’Brien (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira
O Tempo do Gigante, de Carmen Chica e Manuel Marsol (Orfeu Negro), por Sara Figueiredo Costa

A noção de espanto

A Era do Deslumbramento – Como a geração romântica descobriu a beleza e o temor da Ciência
Autor: Richard Holmes
Editora: Gradiva
Título original: The Age of Wonder: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science
Tradução: David Gaspar
N.º de páginas: 673
ISBN: 978-989-616-663-2
Ano de publicação: 2015

O conceito de «ciência romântica» pode parecer um oxímoro, uma contradição nos termos. Se o romantismo defendia um ideal de subjectividade, de inscrição do eu no mundo, esse ideal colidiria forçosamente com a necessária objectividade científica. Uma oposição fixada por Keats numa frase célebre, ao dizer que Newton «destruiu toda a poesia do arco-íris ao reduzi-lo ao efeito da luz num prisma». É esta suposta cisão entre arte e ciência que Richard Holmes questiona em A Era do Deslumbramento, uma magistral abordagem a um período riquíssimo da história das ideias, balizado por duas importantes viagens marítimas: a circum-navegação comandada por James Cook, capitão do Endeavour (1768); e a partida de Charles Darwin para as Galápagos, a bordo do Beagle, em 1831.
Para Holmes, nestas seis décadas, o que une os artistas e os homens de ciência é a «noção de espanto». A descoberta – seja do mundo natural, seja da beleza de um verso clássico – a funcionar como experiência do sublime. Vivia-se, não o esqueçamos, uma época de transição. África era ainda um continente inexplorado; os primeiros balões erguiam-se no céu; novos conhecimentos no campo da química e da astronomia expandiam os horizontes do próprio universo; o saber abandonava os salões das elites para chegar às massas, através de palestras públicas; havia no ar o germe de radicais revoluções políticas, como a francesa.
Mais do que cartografar este período de espantosa efervescência intelectual, a estratégia do autor passou por narrar a vida e os feitos das principais figuras da chamada «segunda revolução científica», centrada no Reino Unido, mas com ramificações no resto da Europa. Holmes revela-se particularmente bem apetrechado para esta empresa porque já publicou diversas biografias de escritores românticos, como Coleridge e Percy Shelley. De resto, leccionou uma cadeira de Estudos Biográficos na Universidade de East Anglia e continua a ser o editor da colecção de biografias clássicas da Harper Perennial. A forma como retira das suas fontes (cartas, diários e publicações avulsas, elencadas nas 12 densas páginas de bibliografia) um verdadeiro manancial de informações e detalhes, urdidos numa narrativa apelativa, capaz de fascinar o mais relutante dos leitores, é a todos os títulos exemplar.
No centro do livro está a figura de Sir Joseph Banks (1743-1820). É ele o esteio, o guia, uma espécie de «Virgílio». Quando jovem, embarca como botânico no Endeavour, acompanhando Cook até ao Tahiti, numa expedição destinada a registar o trânsito de Vénus à frente do Sol, em Junho de 1769. Naquela versão terrena do «paraíso», Banks começa por recolher e classificar plantas, mas depressa alarga o seu interesse ao povo nativo, suas tradições, língua, gastronomia, ritos. Já na pele de etnólogo, foi o primeiro europeu a testemunhar esse «desporto estranho, extremo e tão característico dos mares do Sul» que é o surf. Marcado para sempre pela experiência, regressa a Londres, onde se tornará o mais duradouro dos presidentes da Royal Society e um «patrono científico universal». Imobilizado pelos ataques de gota, descobre jovens aventureiros que financia e incentiva a partir para jornadas de exploração geográfica. Eminência parda, manobrava nos bastidores e geria uma gigantesca rede de correspondentes, alimentando a «ideia da ciência como um esforço verdadeiramente partilhado e internacional».
Embora se detenha na trajectória de muitos dos protegidos de Banks (por vezes trágica, como no caso de Mungo Park, perdido na selva em busca do curso do Níger), Holmes presta uma atenção especial a dois deles: o químico Humphry Davy (1778-1829), que descobriu as propriedades do óxido nitroso e inventou uma lâmpada de segurança para mineiros; e William Herschel (1738-1822), um astrónomo amador de origem alemã que construiu sozinho os melhores telescópios da época e com eles fez notáveis descobertas (um extenso catálogo de nebulosas, o planeta Úrano, a radiação infravermelha). De todos os perfis biográficos que o livro reúne e intersecta, este é sem dúvida o mais impressionante, dando a conhecer uma figura que antecipou a visão do universo como entidade dinâmica, sempre com o apoio discreto, na sombra, da irmã Caroline, sua assistente e astrónoma de pleno direito, cujo papel na história da ciência, tantas vezes esquecido (como costuma acontecer com as mulheres), é devidamente assinalado.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges