Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes (Tinta da China), por Ana Cristina Leonardo
Os Navios da Noite, de João de Melo (Dom Quixote), por Luísa Mellid-Franco
O Náufrago, de Thomas Bernhard (Relógio d’Água), por Pedro Mexia
Breves Notas sobre Música, de Gonçalo M. Tavares (Relógio d’Água), por José Mário Silva
O Essencial sobre Michel de Montaigne, de Clara Rocha (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), por Alexandra Carita
A Paixão da Física, de Walter Lewin (Gradiva), por Luís M. Faria
Outro Ulisses Regressa a Casa, de Luís Filipe Castro Mendes (Assírio & Alvim), por José Mário Silva

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

A Nebulosa, de Pier Paolo Pasolini (Antígona), por José Mário Silva
Revista XXI Ter Opinião, n.º 6 (Fundação Francisco Manuel dos Santos), por Cristina Peres
Entre Dois Impérios, de Filipa Lowndes Vicente (Tinta da China), por Luís M. Faria
Do Fundo do Poço se Vê a Lua, de Joca Reiners Terron (Teorema), por José Guardado Moreira
Break Dance, de André Ruivo (Mmmnnnrrrg), por Sara Figueiredo Costa
Elsewhere/Alhures, de Rui Pires Cabral (não (edições)), por José Mário Silva

Três poemas de José Luís Costa

CANTO DA ALFORRECA

Que prestígio resta ao bicho, nas hierarquias da Caparica? Nenhum pescador o admira. Da Praia da Mata à Fonte da Telha, crianças organizam brigadas de extermínio. Mas quando a alforreca canta, o mar não acredita, o mar é pele de galinha até perder de vista. São canções tolas, coisas como: «É amarga a vida das alforrecas / Ai Ai Lô / Quero crer na metempsicose / Ai Ai Lô / Quero reencarnar no dedal da tua amada.»

***

ADEUS A ISSO TUDO

Primeiro, trenós e carruagens, felizes por zarpar, e rolamentos. Depois mares, banheiras, alambiques. Gravatas, botões de punho, chapéus de senhora. «Também as minhas botas, tão doces companheiras, tão prontas a furar fronteiras?» Também as suas botas, senhor Severo. A seguir semáforos, fogos de artifício, retinas, tudo o que envolve luz. Salmos, aulas de carpintaria, senha e contra-senha.

***

ACROBATA

Antes do primeiro passo, lembra a fartura da rede dos tempos de aprendiz: Estepe de Almofadas, Oceano Salvífico. Vinho que não bebeu: nunca caiu. Hoje, nada a salvaria. A cidade veio toda. Se mar há que a submerja, é o do apetite da cidade para quedas, quebras, feras – lajes de granito querendo o seu cristão.

[in Canto da Alforreca, Douda Correria, 2016]

As faces da guerra

Desmobilizados
Autor: Phil Klay
Editora: Elsinore
Título original: Redeployment
Tradução: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 297
ISBN: 978-989-8831-18-7
Ano de publicação: 2015

Com a retirada das tropas americanas do Iraque, o balanço do conflito militar que durou mais de uma década vem sendo feito por jornalistas e ensaístas, naturalmente interessados nas questões gerais – sejam elas os falsos pretextos para começar a guerra ou os equívocos de uma ideia de ‘nation building’ desfasada da realidade no terreno –, mas muito menos atentos ao impacto deixado pela experiência iraquiana naqueles que deram o corpo ao manifesto e ficaram com feridas físicas, ou psicológicas, por sarar.
Ex-marine, Phil Klay conheceu de perto as incidências da guerra e ouviu dezenas de relatos em primeira mão. Esteve lá. Sentiu no ar o pó do deserto. Conheceu o poder devastador do tédio e as picadas da adrenalina. Falou com soldados concretos e registou o modo como se expressam, como pensam, como sofrem, como sonham em sair dali o mais rapidamente possível. E também foi atrás dos que voltaram aos EUA e não sabem, ou não conseguem, reintegrar-se na vida quotidiana. No fundo, uma velha história que se repete. Foi assim com a guerra da Coreia. Foi assim com o Vietname. Volta a ser assim com a ressaca dos combates no Iraque e no Afeganistão.
O estilo de Klay é muito preciso, sem efeitos fáceis nem retóricas baratas. Atente-se, por exemplo, no início do conto Relatório pós-missão: «Noutro veículo, teríamos morrido. O blindado deu um salto, quase quinze toneladas de aço a irem pelos ares, a contorcerem-se, a deslocarem-se debaixo de mim, como se a gravidade estivesse a mudar. O mundo rodopiou e estilhaçou-se e, ao mesmo tempo, a explosão rebentou-me os ouvidos e fez-me estremecer todos os ossos. A gravidade foi reposta. Dantes havia ali edifícios. Agora há faróis na poeira.» A brutalidade da guerra é captada de forma crua, seca, como uma sucessão de factos em si mesmos terríveis, mas gradualmente transformados na matéria dos dias, e por isso integrados numa espécie de rotina: «Hoje de manhã, a nossa antiaérea despejou quase cento e vinte e cinco quilos de munições em cima de um ‘checkpoint’ dez quilómetros a sul da posição em que nos encontramos. Matámos um grupo de rebeldes e depois voltámos para Faluja e fomos almoçar ao refeitório. Comi peixe com feijão-manteiga. Ando a tentar fazer uma alimentação saudável.»
Descritas com a objectividade dos relatórios militares, as acções de combate são quase inteiramente desprovidas de pathos. É como se estivéssemos a assistir a um documentário feito por repórteres de imagem embedded. Há tiros, movimentações rápidas, posições ocupadas, mas Klay não oferece ao leitor a experiência do coração acelerado, dos suores frios, do medo que se embrenha até aos ossos, talvez por ver nessa partilha uma usurpação de algo que não pode ser usurpado. O horror, porém, está lá, em cada página. Mesmo se implica um certo recuo. Como o do soldado que atingiu um inimigo mas se recusa a confirmar a sua morte, antes cede a mira térmica a um camarada que assiste, pouco a pouco, ao apagamento da mancha branca que equivale à visão de um cadáver que arrefece.
Sempre na primeira pessoa, estes 12 contos colocam em cena 12 narradores diferentes. A maioria são soldados, marines confrontados com situações extremas, lá no Iraque, ou com o vazio existencial depois do regresso, quando a normalidade dos que não viveram ‘aquilo’ se torna uma agressão e o objectivo de manter relações humanas saudáveis, de amor ou amizade, vai pelo cano abaixo. Estes contos não escapam, porém, a uma certa previsibilidade, na medida em que correspondem a arquétipos ficcionais muito explorados. Que ninguém regressa inteiro de uma guerra é uma evidência. Os estragos que Klay descreve podem ser eloquentes, mas trazem sempre consigo ecos de histórias que já lemos antes, ou vimos no cinema.
O que torna Desmobilizados um livro interessante é a ampliação deste círculo, é o mostrar de outras faces, menos óbvias, da guerra. Uma delas surge num dos melhores contos deste volume: Oração na fornalha. Um capelão tenta apoiar um marine que se preocupa com o facto de os seus companheiros não fazerem distinção entre insurgentes e civis, matando indiscriminadamente todos os iraquianos que encontram pelo caminho. A sua é uma perspectiva moral, esmagada pela própria dinâmica de um movimento que assenta no mais absoluto maniqueísmo. No espelho da violência gratuita, e seu rol de vítimas inocentes, reflecte-se a falta de lógica de uma intervenção que nunca teve em conta os verdadeiros interesses do povo que era suposto salvar. Essa falta de lógica é particularmente bem captada em O Dinheiro como Arma, um conto que põe em cena um funcionário do Serviço de Relações Exteriores, «encarregado de dirigir uma equipa de reconstrução provincial». Idealista, ele quer recuperar uma central de tratamento de águas desactivada e apoiar um hospital para mulheres, mas, além de chocar com o muro da burocracia, enfrenta o absurdo dos interesses políticos, que o obrigam, entre outros disparates, a ensinar basebol às crianças iraquianas, para satisfazer a «ideia» de um milionário americano que enviou os respectivos equipamentos e tacos como sementes da «democracia».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Desmobilizados, de Phil Klay (Elsinore), por José Mário Silva
País Possível, de Ruy Belo (Assírio & Alvim), por Pedro Mexia
O Demónio da Depressão – Um Atlas da Doença, de Andrew Solomon (Quetzal), por Luís M. Faria
Butcher’s Crossing, de John Williams (Dom Quixote), por José Guardado Moreira
Liberdade da Cultura, coordenação de Guilherme d’Oliveira Martins (Gradiva), por Manuela Goucha Soares
O Canto da Alforreca, de José Luís Costa (Douda Correria), por José Mário Silva
A Cova, de Cynan Jones (Cavalo de Ferro), por José Guardado Moreira

Invenção da melancolia

Da Natureza dos Deuses
Autor: António Lobo Antunes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 574
ISBN: 978-972-20-5846-9
Ano de publicação: 2015

Na fase mais recente da sua obra – que abarca romances densos como Comissão das Lágrimas (2011), Não é Meia Noite Quem Quer (2012) e Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014) –, António Lobo Antunes vinha seguindo uma trajectória de progressivo ensimesmamento, fechando-se mais e mais dentro das suas estruturas polifónicas, essa arquitectura claustrofóbica de múltiplas vozes emergindo da página, ao mesmo tempo tão intrincadas e tão rarefeitas que o leitor deixava de as conseguir separar umas das outras. O fulgor da prosa de Lobo Antunes nunca se perdeu, mas saíamos desses livros como que desorientados, meio perdidos, expulsos de um território onde nunca chegávamos verdadeiramente a entrar. Ou seja, éramos meros espectadores que contemplam, de fora, os fragmentos de vida que o romance arranca ao real quotidiano, mas logo esconde e abafa, sob o peso da voz que se sobrepõe a todas as outras. A voz do autor fascinado com o seu poder discricionário, esse poder maior que consiste em dizer o que se quer, da maneira que se quer, sem pensar em coisas vulgares como, por exemplo, a inteligibilidade.
A maior surpresa que nos proporciona Da Natureza dos Deuses, o mais recente romance de Lobo Antunes, é justamente uma inflexão na tal trajectória de fechamento que ameaçava alienar muitos dos seus leitores. Num livro com quase 600 páginas, nunca chegamos a sentir cansaço ou exaustão, mesmo quando o autor multiplica os narradores e cria novelos mentais que embatem violentamente uns contra os outros, oferecendo visões distintas dos mesmos acontecimentos. À perícia do escritor, na forma como deixa a narrativa seguir o seu curso, permitindo à mão que escreve ir atrás do fio das histórias que se acumulam no seu imparável carrossel mental, junta-se uma força centrípeta que mantém a coesão do edifício, conferindo-lhe solidez e sentido.
No centro do romance está precisamente um edifício, um palacete na zona de Cascais, perto do Guincho, cenário faustoso para o lento declínio de uma família. «Tudo se gasta e cede», diz alguém. E Da Natureza dos Deuses é a crónica dessa ruína. Uma ruína dos corpos, das relações afectivas, dos impérios financeiros, das casas erguidas contra o vento que vem do mar, contra o imparável cerco das areias que um dia soterrarão o court de ténis, as estátuas de deusas e discóbolos, os canteiros do jardim, a janela na torre (onde uma mulher, reclusa, espreita) e a memória de quem um dia habitou aqueles espaços. O tema central é o poder que o dinheiro traz consigo e a forma como esse poder vai sendo exercido. O Senhor Doutor, nascido na pobreza, sobe a pulso e cria um império de bancos, seguradoras e outras empresas. Esse sucesso nos negócios confere-lhe uma aura que distorce a forma como as pessoas se relacionam com ele. Sem surpresa, é quase sempre em modo de submissão, embora por trás dessa fachada de arrogância e superioridade aparente se possam esconder outras relações de força (como acontece com Marçal, o «criado» fiel, no seu impecável casaco branco).
Os vários laços de afecto ou dependência vão sendo minuciosamente revelados à medida que a narração alterna entre figuras muito diferentes: o próprio Senhor Doutor, eminência parda do Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, íntimo de um Salazar que aparece várias vezes como um espectro moribundo, fragilíssimo, de manta sobre os joelhos; a Senhora, mulher do Senhor Doutor (a reclusa que espreita por detrás dos cortinados); a filha da Senhora, com um cão ao colo, rodeada por livros que lhe são trazidos por uma funcionária da livraria mais próxima e nunca lidos, porque os pacotes são um mero pretexto para ter quem a oiça; e muitas personagens secundárias, que vão destapando o reverso do esplendor burguês, a miséria atávica de uma sociedade supostamente de brandos costumes, mas onde imperam as mais brutais formas de violência.
Lobo Antunes é particularmente feliz no modo como capta os estados emocionais das personagens, os seus abismos íntimos, os seus dilemas morais, essa tristeza entranhada nos corpos, «espécie de melancolia» que os paralisa a meio de um gesto, de uma frase, às vezes de uma palavra. Quando essa ruptura no discurso acontece, a palavra deixada a meio pode ficar assim, partida, suspensa, enquanto novos fios de pensamento se intrometem, para depois, mais à frente, vermos surgir o resto da palavra, retomando o processo mental interrompido. Estes malabarismos não são meros exercícios de virtuoso, antes obedecem a uma necessidade do texto, o mesmo se podendo dizer dos cruzamentos de planos temporais e da hábil sobreposição das várias subjectividades que coexistem em cada capítulo (incluindo a do autor deste mundo, sempre consciente da sua efabulação).
A dada altura, uma personagem refere-se a «certos pormenores que por muito que a gente se esforce não se desvanecem». Esses pormenores, nos livros de Lobo Antunes, prendem-se sempre com a linguagem, com esse espantoso fôlego lírico que faz equivaler a sua arte narrativa a uma arte poética. O que não se desvanece na memória dos leitores é a força das imagens. Por exemplo, aquele homem «abotoando o colete como se tocasse acordeão em si mesmo». Ou as pessoas «cujas sombras parece que têm ossos».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Amanhã na secção de Livros da revista ‘E’

Da Natureza dos Deuses, de António Lobo Antunes (Dom Quixote), por José Mário Silva
Terra Negra, de Timothy Snyder (Bertrand), por Luís M. Faria
Viagens à Ficção Hispano-Americana, de António Mega Ferreira (Arranha-Céus), por Pedro Mexia
O Dicionário do Menino Andersen, de Gonçalo M. Tavares e Madalena Matoso (Planeta Tangerina), por Sara Figueiredo Costa
Histórias de Aventureiros e Patifes, organização de George R. R. Martin e Gardner Dozois (Saída de Emergência), por José Guardado Moreira

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges